<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606</id><updated>2012-02-02T00:06:53.273+01:00</updated><category term='marcha'/><category term='verão'/><category term='leixões'/><category term='fantasmas'/><category term='Insónia'/><category term='Melres'/><category term='rio douro'/><category term='mundo'/><category term='Algarve'/><category term='crianças'/><category term='conto'/><category term='Prisão'/><category term='pescadores'/><category term='Alimentos'/><category term='Ponte de Lima'/><category term='Branzelo'/><category term='ciganos'/><category term='Auto-estrada'/><category term='discoteca'/><category term='emigrantes'/><category term='mulheres'/><category term='tendeiro'/><category term='ultramar'/><category term='tasco'/><category term='Quinta de Fontão'/><category term='incêndio'/><category term='Gaivota'/><category term='Quarteira'/><category term='afurada'/><category term='Poema'/><category term='Bombeiro'/><category term='Saudades'/><category term='casamento'/><category term='porto'/><category term='fome'/><category term='Morte'/><category term='fantasia'/><category term='raça'/><category term='projectores'/><category term='estorias'/><category term='taberna'/><category term='Natal'/><category term='Fado'/><category term='portugal'/><category term='Desastre'/><category term='naufragios'/><category term='Mãe'/><category term='vagabundos'/><category term='rio mau'/><category term='aldeias'/><category term='desespero'/><category term='Procisão'/><category term='Rio'/><category term='bola'/><category term='Praia'/><category term='desafio'/><category term='Repouso'/><category term='navegadores'/><category term='pejão'/><category term='solidão'/><category term='douro'/><category term='viola'/><category term='Escola'/><category term='mineiros'/><category term='luzes'/><category term='Criança'/><category term='Barqueiro'/><category term='emigrante'/><category term='Caxinas'/><category term='Barqueiros'/><category term='gaia'/><category term='Santa'/><category term='gitanos'/><category term='soldado da paz'/><category term='luar'/><category term='ponte'/><category term='guerra'/><category term='comandante'/><category term='terras'/><category term='noite'/><category term='velhos'/><category term='Sonhos'/><category term='barcos'/><category term='Coimbra'/><category term='alvorecer'/><category term='Pai'/><category term='leste'/><category term='amor'/><category term='Carro'/><category term='sonho'/><category term='pedorido'/><category term='lisboa'/><category term='naufrágio'/><category term='Carta'/><category term='cidadesurpreendente'/><category term='coirão'/><category term='Matosinhos'/><category term='caravana'/><category term='calé'/><category term='Fundo de Vila'/><category term='penafiel'/><category term='soldados'/><category term='Vinho Verde'/><category term='Magnifica'/><title type='text'>Contos do Douro</title><subtitle type='html'>Dourointeiro</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>70</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7635634859763009577</id><published>2012-01-25T12:00:00.001+01:00</published><updated>2012-01-25T12:00:55.360+01:00</updated><title type='text'>Ainda havemos de tomar o café juntos</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Naquelas noites em que deitados lado a lado na areia da praia contemplava-mos milhares de estrelas a brilhar no firmamento celeste, tudo indicava que a nossa relação de amizade era perfeita e que nunca mais iria acabar. Nesse tempo estávamos ali livres de todos os preconceitos que a sociedade cultiva, despreocupados a falar de coisas simples, a olhar o céu abóbada gigante que à noite produzia cenários encantadores dignos do reparo de todas as criaturas da terra e a permitir que a escuridão do firmamento fizesse os seus milagres, a ler um livro, a trocar impressões sobre literatura e arte em geral.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Eras uma rapariga linda, tinhas formas desenhadas a cinzel de escultor, feições suaves a decorar-te o rosto que parecia ostentar um sorriso permanente e eu via em ti um bibelô delicado feito com a mais fina porcelana chinesa a ornamentar uma mobília de século, um sopro de brisa de verão, um interlocutor que embora presente nunca interferiu nos devaneios da minha mente apostada na contemplação de coisas estranhas que não compreendia numa parceria de confiança que surgiu do nada. Se uma estrela te parecia brilhar um pouco mais que as outras, paravas de ler e ficavas com o dedo indicador a marcar a página enquanto apontavas com outro dedo para ela e me dizias:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Até mesmo no firmamento há diferenças, repara que aquela estrela acolá resplendece muito mais que todas as que a rodeiam. Era verdade, o astro parecia ter dimensões desproporcionadas às suas companheiras, cintilava muito mais e parecia feita de fogo. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Eu ficava em silêncio um bom bocado e acabava por te responder recorrendo aos conhecimentos elementares que tinha apreendido nas aulas de astronomia na universidade:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- É simples Mariana, é por que ela está muito mais próxima da terra que as outras.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não retorquias, aceitavas a minha resposta por que eu significava para ti um mestre, um homem que sabia tudo acerca de tudo e, se muitas vezes não me interrogavas sobre outras realidades que te confundiam, era por que tinhas medo de ouvir a verdade e preferias ficar a conjecturar centenas de opções todas premeditadas, julgo eu para te satisfazer o ego.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O clarão das luzes artificiais do bar sobranceiro à praia chegava até nós, iluminava uma área restrita de areia fina onde estendíamos as toalhas lado a lado.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A nossa ligação não tinha nada a ver com amor nem tão pouco com paixão coisas naturais entre dois sexos distintos, nunca dissemos as palavras banais e comuns a todos os que se enroscam num canto qualquer a curtir o fascínio e o ardor que provoca a aproximação de dois corpos apaixonados, era por assim dizer uma relação entre irmãos, sã e sem complexos de parte a parte, tu gostavas de vir para aqui à noite ler e olhar para o céu e eu também gostava, aliás foi aqui neste recanto que nos conhecemos, lembras-te? Isso já foi há muito tempo, todos os dias ao fim da tarde depois de cumpridas as nossas tarefas profissionais, sem que tivéssemos combinado nada antecipadamente, era neste sitio que nós nos reunia-mos. Às vezes chegavas uns minutos antes de mim e outras vezes era eu quem antecipava a hora do encontro pensado que já aqui estarias à minha espera e não te queria fazer esperar muito tempo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi assim durante alguns anos, uma espécie de peregrinação que fazíamos os dois a um local à beira mar, coberto por um céu estrelado e onde se ouvia o som das ondas a varrer a praia e visitado todos os dias impreterivelmente à meia-noite por um velho que vendia cachorros quentes.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um dia deixas-te de aparecer, em princípio pensei que estivesses doente mas à medida que o tempo passava e tu não aparecias, percebi que me tinhas deixado para sempre. Nada que me surpreendesse, já não seria a primeira vez que me abandonavam apenas por que não correspondi às expectativas de entrega total e sólido futuro depositadas em mim. Como outras raparigas que conheci ao longo da vida, tinhas em mente um ninho, um projecto de vida seguro, a garantia de que independentemente de quem quer que fosse o homem que levarias ao altar, todas as tuas angustias e preocupações acabariam nesse dia. Não acabam Mariana, é um engano colossal por que se uma relação for baseada apenas nesses pressupostos, terá poucas probabilidades de sobreviver. Olha à tua volta, toma consciência dos dramas que acontecem todos os dias só por que as pessoas andaram mais interessadas em fazer negócios lucrativos com o futuro em vez de atenderem aos alertas sentimentais dos seus corações.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Lembro-me da última vez em que estivemos reunidos, tu usavas aquele vestido de cor pérola que parecia de seda e, quando encolhias as pernas, ele escorregava para a cinta e eu conseguia ver as tuas coxas morenas e os teus joelhos nervosos a baterem um no outro. Nessa altura se eu te tivesse colocado a mão na pele e fosse subindo pela sua macieza, tu deixarias de poder bater com os joelhos um contra o outro e aceitarias feliz essa carícia. Não sei se propositadamente ou não, tinhas desapertados os dois primeiros botões do vestido no peito e, os teus seios firmes e redondos ficaram à mostra com os bicos apontados para o céu a contarem as estrelas como nós. Confesso que me incitei com essas visões mas foi por poucos minutos, a determinada altura comecei a pensar que tu tinhas uma esperança secreta de que eu acabaria por sucumbir aos teus encantos, notou-se mais quando viraste a cara para mim e, de olhos semi – cerrados, com o peito a arfar de uma maneira estranha, ficaste uns segundos à espera que eu te desse um beijo na boca carnuda e cor-de-rosa. Não dei, antevi que todo esse teu enfeitar não passava de um ataque quase irrecusável à minha liberdade. Insististe no namoro por mais alguns minutos e terminaste a dizer-me:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- João Paulo, por este andar ainda havemos de tomar o café, juntos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Fiquei calado, não sabia o que querias dizer com “este andar” e, até ao dia de hoje não respondi à tua observação nem o podia fazer sem ter de te magoar. Não te disse mas gosto de tomar o café no silêncio matinal da minha cozinha desordenada, com a louça do almoço e do jantar do dia anterior empilhada em cima da banca por que eu vou recorrendo ao armário e enquanto houver lá dentro peças lavadas, não reciclo a usada, faço-o quando a mão procura um prato ou copo e não encontra nada dentro do louceiro. Depois também irias ver peças de roupa suja espalhadas por todo o lado, a cama por fazer, livros desarrumados no chão, o urso de peluche que conservo desde criancinha e que dorme aos meus pés todas as noites, tudo coisas de que tu não irias gostar nada. É a face oculta da minha indisciplina doméstica, sou dentro de minha casa tudo o que não posso ser no mundo lá de fora onde a liberdade individual está comprometida por regras e convenções criadas para facilitar o bem-estar colectivo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já passaram quatro anos desde essa última vez, imagino-te casada com um sujeito qualquer que aceitou tomar o café contigo depois de te ver as coxas morenas e os seios a apontar para as estrelas e que provavelmente agora adormece no sofá com a televisão ligada enquanto tu lavas ou passas a ferro as tuas roupas e as dele ou ponteias as meias que o teu homem rompe nos tornozelos por ser desajeitado no andar. Já não deves poder sair à noite e vir aqui apreciar as estrelas e ler deitada de barriga para o ar na areia, tens de ir ao supermercado buscar mercadorias para abastecer a dispensa enquanto ele vai abrindo latas de cerveja e prepara as tarefas do dia seguinte no computador. Durante o dia deves andar ocupada, não te sobra tempo para tratares de ti e apareceres ao mundo com o ar descontraído e gracioso que eu te conheci, foste apanhada nas malhas da sociedade moderna e quer queira quer não, tens de cuidar dos teus afazeres domésticos que te transformam numa coisa parecida com uma máquina de servir hambúrgueres. Aposto que já nem usas o vestido de cor pérola que parece de seda e que te assentava no corpo como uma luva e se vestires, já não o deixas escorregar nas pernas até cá acima à cintura descobrindo as tuas coxas morenas nem os teus joelhos batem um contra o outro nervosos. Já não deves ter interesse em mostrar a tua fantástica anatomia corporal por que ninguém como eu te admiraria como se fosses uma magnífica obra de arte sem te cobiçar as formas descaradamente.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quantos anos terás agora, Mariana? Deves andar nos quarenta, tenho ideia que me disseste nesse tempo que tinhas trinta cinco ou trinta e seis. Não é muito, eu tenho um pouco mais e ainda não senti necessidade de tomar o café junto com ninguém. Talvez eu seja uma pessoa medrosa, insegura quanto a ter de partilhar a vida com uma mulher. Se calhar já a reparti contigo nos momentos em que, deitados na areia lado a lado, falava-mos de coisas simples. Sinceramente não sei, o que te posso dizer neste momento é que sinto a tua falta aqui ao pé de mim.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nunca trocamos os números dos nossos telemóveis, não era preciso, a gente via-se todas as noites mas agora não te posso ligar a perguntar como vai a tua vida e tu também não me podes telefonar a perguntar se o velhote dos cachorros quentes ainda passa por aqui à meia-noite e se o bar da praia continua a estar aberto até às duas da manhã.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Sabes por que me lembrei de ti hoje Mariana?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como sempre acontece estou aqui deitado na praia a olhar para as estrelas e aquela que tu dizias brilhar muito mais que as outras todas, não pára de olhar para mim e de dizer:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Ainda havemos de tomar o café, juntos!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7635634859763009577?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7635634859763009577/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7635634859763009577&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7635634859763009577'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7635634859763009577'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2012/01/ainda-havemos-de-tomar-o-cafe-juntos.html' title='Ainda havemos de tomar o café juntos'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4467917579629783055</id><published>2012-01-19T11:40:00.001+01:00</published><updated>2012-01-24T09:58:10.912+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='naufrágio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Matosinhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='portugal'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pescadores'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Caxinas'/><title type='text'>A  Louca da Praia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A taberna seria o centro das atenções dos mais idosos, a sala de visitas, o espaço de tertúlia, de encontros diários de quem já perdeu os hábitos de trabalho, o templo onde se reza a deuses desconhecidos. Tinha uma espécie de esplanada no passeio com apenas uma mesa de chapa e duas cadeiras de plástico branco e, no lado direito, pousado no chão, um pequeno fogareiro pronto a grelhar peixe ia ardendo lentamente e, encostado à ombreira da porta de alumínio prateado, estava uma caixa de sardinhas com alguns restos lá dentro namorados à distância por dois gatos.&lt;br /&gt;Numa das cadeiras coçadas pelo tempo estava sentado um homem de idade avançada que segurava na mão direita um copo com vinho tinto e atravessado nos dedos da outra mão pousada sobre o tampo da mesa, tinha um cigarro a fumegar.&lt;br /&gt;Sentei-me na cadeira disponível não sem antes pedir licença ao sujeito com aspecto de pescador antigo.&lt;br /&gt;O tasco ficava em frente à praia numa rua movimentada por gente que ia e vinha em direcção da lota onde todos os dias se transacciona o pescado capturado em alto mar. O cheiro característico das zonas piscatórias, impregnava a atmosfera misturado com o da maresia que chegava activo ao meu nariz e ao das pessoas que passavam transportado por uma leve brisa. O mar a uma distância curta sobrevoado por centenas de gaivotas aos gritos, era um colosso adormecido com ondas melancólicas que vinham desmaiar sem pressa na areia deserta.&lt;br /&gt;Os meus olhos perscrutavam o horizonte de água limitado por uma delicada neblina que me impedia de ver até ao infinito e, como objectiva de máquina de filmar iam-me transmitido informações diversas, barcos ao longe, traineiras a entrar na barra, navios ao largo fundeados à espera de porto, tudo movimentos que o meu cérebro arquivava na rigidez de um disco feito de matéria orgânica. Subitamente repararam num vulto negro espetado na areia muito próximo do sítio onde o mar rebenta. Ao longe, parecia-me a quilha de uma embarcação à espera de se fazer ao mar ou destroço de naufrágio que o oceano expulsou para terra. De repente moveu-se, deixou a posição hirta em que estava para se sentar sobre o tapete húmido e então pude ver que se tratava de uma mulher já de uma certa idade toda vestida de negro.&lt;br /&gt;A indiscrição tomou conta de mim e impelido por essa estranha sensação de curiosidade, decidi perguntar ao velho sentado na mesa ao meu lado quem era aquela pessoa e o que fazia ali:&lt;br /&gt;-É uma louca, há sessenta e quatro anos que vem todos os dias sentar-se naquele lugar, fica lá um bocado de tempo e depois vai-se embora.&lt;br /&gt;Sem esperar qualquer comentário da minha parte continuou:&lt;br /&gt;-É uma longa história, se o senhor não tiver pressa eu conto-lhe.&lt;br /&gt;-Não tenho pressa nenhuma, respondi, até gostava de ouvir essa narrativa se o senhor não se importar de me contar, confirmei.&lt;br /&gt;Pegou no copo do vinho já vazio e entrou na taberna para regressar um minuto depois com ele a transbordar de cheio. Bebeu um trago longo da bebida que pode destruir o corpo mas simultaneamente anestesiar a alma. Os olhos do velho fundiram-se mais com a agrestia do rosto, mal se viam enfiados a reluzir nos dois buracos ornamentados com rugas e sobrancelhas espessas. Eram dois pequeninos pontos luminosos a recuar no tempo, a espelhar acontecimentos arquivados na memória sabe-se lá desde quando. Como um narrador de espantosas histórias, começou a contar:&lt;br /&gt;- Aconteceu, já lá vão sessenta e quatro anos, faz agora no dia um de Dezembro. O dia nasceu meio encoberto, não chovia nem fazia grande vento, as traineiras regressavam com o peixe mas a pescaria não tinha sido abundante. Por volta das dez horas da manhã entrou por ali dentro um barco carregado de sardinhas. Os mestres das outras embarcações perante tão afortunada captura, decidiram chamar as suas tripulações e à tarde fizeram-se ao mar mais uma vez. Eram cento e três barcos a rumar ao sul em direcção ao mar da Figueira da Foz. Ainda não tinham passado muitas horas quando o tempo mudou inesperadamente, o vento acelerou, as ondas transformara-se em montanhas cavando precipícios de mais de dez metros de profundidade onde as traineiras entravam e saiam numa luta de morte. Sem que ninguém contasse o vento rodou para noroeste transformando-se num ciclone com rajadas tão fortes que despedaçavam os mastros dos navios e a atmosfera começou a ficar gelada. Negras nuvens formavam-se no inferno e despejavam chuva em cima das embarcações que com os motores a toda a força procuravam um porto de abrigo. A noite desceu sobre o mar e sobre a terra e no meio das trevas mais de uma centena e meia de homens lutava desesperadamente contra a fúria dos elementos e na praia nova começaram a ouvir-se rumores misturados com soluços, pessoas a correr de um lado para o outro desorientadas e aflitas.&lt;br /&gt;Calou-se por momentos, passou a mão engelhada pela testa suada, pegou no copo e bebeu mais um trago de vinho. Olhei-o com mais atenção nesse momento de pausa, tinha um rosto cavado por profundas rugas que começavam na testa e acabavam no pescoço que parecia uma folha de papel amarrotada. Na cabeça um boné de pala assegurava conforto a um crânio sem cabelos. Que idade teria, oitenta, talvez um pouco mais a julgar pelo rosto enrugado e pelas mãos de dedos estragados pela artrose. Era um pescador sem dúvida nenhuma a figura que estava sentada a meu lado, via-se nos seus olhos cor de mar que reflectiam vagas, turbilhões de espuma e azuis permanentes.&lt;br /&gt;Pousou o copo sobre o tampo da mesa, com as costas da mão limpou os beiços e continuou:&lt;br /&gt;- Acolá em baixo no molhe sul, as famílias daqueles desgraçados apinhavam-se na esperança de verem entrar as traineiras que tinham levado os seus maridos, os seus filhos, os seus avós e muitos amigos para a faina que prometia pão. Tanta angústia e tanto desespero em cima daquelas pedras lambidas pelo mar, nunca se viram até hoje.&lt;br /&gt;Em determinado momento começaram a ver-se ao longe as luzes de navegação dos barcos, alguns tinham encontrado o caminho para casa e entraram salvos no porto.&lt;br /&gt;Havia tantos gritos ali na praia quando chegou a notícia de que quatro traineiras tinham naufragado e que noutras os homens tinham sido arrastados pelas vagas medonhas de um mar enfurecido. Confirmou-se a morte de cento e cinquenta pescadores e de dois desaparecidos. Era gente daqui de Matosinhos, de Espinho, da Murtosa, da Póvoa de Varzim e das Caxinas de Vila do Conde.&lt;br /&gt;Mais uma pausa e o resto do vinho escorregou a ferver pela sua garganta seca. Outra vez as costas da mão a passar nos lábios, mais um cigarro a sair do maço engelhado e o fumo a esmurrar a pala do boné tentando evoluir no espaço.&lt;br /&gt;- Dois nunca apareceram, um deles era o marido dela. Deixou-a com três filhos pequenos nos braços, criou-os como pode mas todos os dias enlouquecia um bocadinho até se tornar naquela desgraça que o senhor está ver. Se ao menos ela tivesse o corpo do seu homem enterrado numa campa do cemitério, se pudesse ir lá de vez em quando rezar e levar-lhe flores, as coisas poderia não ter chegado a este ponto. Para a gente o mar é quem manda meu amigo, tanto dá como tira e dessa vez tirou demais. Comovo-me sempre quando conto esta história, dantes até me vinham as lágrimas aos olhos, agora não, o meu coração transformou-se numa pedra, às vezes ainda tenta voltar aos tempos em que se emocionava até com o sorriso de uma criança mas desanima depressa, falta-lhe a pureza de quando era novo, durante estes anos todos a sofrer constantes desilusões, ofensas de muitas pessoas e a perda de um filho que o mar me roubou, endureceu e deixou-se envelhecer como eu.&lt;br /&gt;O copo estava vazio, ele fez o gesto de o levar à boca que tremia mas desistiu ao verificar que não tinha mais vinho. Levantei-me, peguei na vasilha e fui dentro da taberna enchê-la mais uma vez do líquido que pode matar o corpo mas que anestesia a alma.&lt;br /&gt;Deixei que o silêncio que se fez a seguir fizesse a sua cura, senti que o velho pescador estava perturbado e muito longe da insensibilidade que me disse trazer dentro do peito. Os homens do mar são duros como as rochas que só um oceano desfaz, há uma altivez nas suas personalidades que sem ser prepotente, reflecte o cunho do seu arquitecto. Foi o mar quem os fez à sua semelhança, foi ele que os transformou em coragem e dureza, foi também ele que lhes legou parte de si próprio, generosidade, solidariedade e valentia sem limites.&lt;br /&gt;Precisava de ver ao perto aquela mulher sentada na areia, tentando antecipar uma possível rejeição perante um estranho e assim evitar dissabores, perguntei ao meu amigo:&lt;br /&gt;-Acha que se fosse à beira dela falaria comigo?&lt;br /&gt;- Falar não fala muito, as palavras já lhe morreram nos olhos mas de certeza que lhe vai perguntar se viu o homem dela por aí!&lt;br /&gt;Fui ao areal, para não parecer tão óbvio dei uma volta mais longa e vim com calma como quem se passeia à beira mar. Quando estava a cerca de dois metros dela, pode ver um rosto transfigurado, encorrilhado como uma folha de papel calcada por centenas de botas de batalhão militar e os cabelos ralos e brancos apareciam-lhe a espreitar por debaixo do lenço negro que lhe cobria a cabeça. Olhou para mim com uns olhos a reluzir de vivos e onde a luz da esperança possivelmente ainda tinha morada e, sem que eu pudesse dizer nada perguntou.&lt;br /&gt;- O senhor não viu por aí o meu homem? É alto, moreno, bonito e tem um bigode parecido com o seu um bocadinho mais farfalhudo.&lt;br /&gt;-Não, não vi ninguém que corresponda à sua descrição minha senhora!&lt;br /&gt;- Ninguém o viu, ninguém sabe dele, ninguém me diz onde ele está, murmurou como se falasse consigo própria.&lt;br /&gt;As ondas vinham molhar-lhe os pés nus, rendilhados de espuma carregada de salitre ou lágrimas salgadas de um mostro que não sabe controlar a sua força?&lt;br /&gt;Alguém viu por aí o homem desta mulher vestida de negro? É alto, moreno, bonito e usa um bigode parecido com o meu um bocadinho mais farfalhudo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4467917579629783055?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4467917579629783055/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4467917579629783055&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4467917579629783055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4467917579629783055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2012/01/louca-da-praia.html' title='A  Louca da Praia'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4894091984876652241</id><published>2011-10-04T11:33:00.009+02:00</published><updated>2012-01-24T09:58:47.437+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio mau'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desafio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='viola'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='tasco'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='penafiel'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='taberna'/><title type='text'>Tempo Perdido</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Antes os cães e os gatos entravam nos tascos e nos cafés da minha aldeia. As portas estavam escancaradas, entravam todos, pessoas, gatos e cães menos as mulheres.&lt;br /&gt;Os tascos eram divididos em duas partes, numa as pipas, os barris, as canecas, o mosqueiro em cima do balcão que guardava as pataniscas, as sardinhas e os peixinhos do rio fritos, na outra, mercearias diversas, quinquilharias, carboneto para gasómetros, fardos de bacalhau e tecidos, era o compartimento onde as mulheres estavam autorizadas a entrar apesar de não haver qualquer aviso a discriminar os dois sexos, era por respeito dizia o meu pai. A divisão não tinha porta, os homens viam as mulheres, as mulheres podiam ver os homens e, de vez enquanto a caneca do vinho tinto saltava de um compartimento para o outro num ritual sem falas, consentido por ambos, demonstrador de afectos.&lt;br /&gt;Os animais enroscavam-se debaixo das mesas a dormitar à espera de restos. Antes havia poucos restos, não sobejava nada do molete que trazia duas sardinhas entrincheiradas lá dentro, comia-se tudo, até as cabeças esturricadas no tacho de fritar, eram saboreadas até ao último estalido nos dentes.&lt;br /&gt;Antes os animais falavam com as pessoas, era raro o dia em que não houvesse debates e discussões acesas sobre isto e sobre aquilo e que acabavam sempre regadas com vinho nos tascos sempre num ambiente de alegria e fraternidade. Conta-se, não se sabe se é fábula ou acontecimento verdadeiro por que os nossos antepassados eram useiros e vezeiros a misturar as duas hipóteses, que uma vez um porco entrou na taberna do ti Narciso no centro do lugar e disse que estava farto de ser porco e que gostava de ser presidente de uma coisa qualquer. Ninguém dos presentes no estabelecimento, pessoas e animais lhe respondeu, isso de ser presidente de uma coisa qualquer era assunto que não interessava muito aos humanos nem aos animais. Os presidentes das juntas, das câmaras e até das repúblicas passando pelos chefes de governos da época e em certa medida os futuros, já nasciam com inclinação para desempenhar o cargo, não eram eleitos pelas pessoas nem pelos cães, nem mesmo pelos gatos, eram nomeados conforme a procedência familiar ou pelos bons serviços prestados ao regime estabelecido. Ninguém se importava com isso para além dos cantores, pensadores, dos poetas e dos escritores que arriscavam o coiro a protestar contra eles e contra a situação contrária à democracia.&lt;br /&gt;Os animais sempre dispuseram de língua própria e independente e formas de governação autónomas, até dá a ideia de que os humanos copiaram por eles, são comandos semelhantes, tal como entre nós, os mais fortes, os mais espertos, os mais imbecis e os que dormem enquanto os outros caçam e depois escolhem a maior e melhor porção do produto da caça e até as melhores fêmeas para brincar ou procriar, são designados altas individualidades se forem humanos, chefes da matilha se forem cães, da vara se forem porcos, do rebanho se forem cabras ou ovelhas, alcateia se forem lobos e até colmeia se forem abelhas estas com a particularidade de serem monárquicas pois não dispensam uma rainha que engordam com todos os cuidados e obedientes aceitam unanimemente o seu comando faz-de-conta. Claro que a rainha ou mestra, não manda nada, limita-se a pôr ovos multiplicadores do enxame perpetuando a espécie. As abelhas não querem nada com as republicas porque a qualquer momento podem destruir a chefe e criar uma nova e depois debandar do grupo formando nova colmeia, pois de tão obesa a mestra fica sem mobilidade e incapaz de se defender.&lt;br /&gt;Há muitas semelhanças entre os bichos e as pessoas, a grande divergência é de que os humanos adoptaram formas e tipos de comunicação complicados ao passo que o idioma animal é universal. Um cão português fala a mesma língua de um cão americano, chinês ou de qualquer outro país, os gatos exprime-se na mesma linguagem de todos os gatos espalhados pelo mundo, isto só para exemplo pois é do conhecimento público em geral esta democrática forma de comunicar adoptada pelos irracionais.&lt;br /&gt;Os animais não vivem num estado de direito situação jurídica criada e utilizada pelas criaturas mais fortes para oprimir as mais fracas que, contrariamente ao espírito consagrado na lei, nunca têm direito a nada. Os cães, os porcos, as cabras, os gatos e todos os bichos que convivem no planeta, não obedecem a este estatuto, são livres como deviam ser todas as criaturas da terra.&lt;br /&gt;Antes todos dormitavam na taberna; os cães enroscados debaixo das mesas, os gatos empoleirados na prateleira dos copos e das canecas e as pessoas debruçadas sobre o tampo de um barril ou sentados de cabeça a cair sobre o peito, ressonavam baixinho. Ao fim da tarde tocava-se viola braguesa e começavam os animados cantares ao desafio. Eram quadras inventadas no momento, rimas que reflectiam sentimentos das angustiadas vidas de todo um povo. Os cantadores, barqueiros, mineiros e pescadores, desafiavam-se ao longo dos versos e, numa atmosfera carregada de vapores de vinho, pataniscas e iscas de bacalhau só o som arrastado e melodioso do instrumento e as vozes esganiçadas dos cantadores, quebravam o silêncio do sagrado templo.&lt;br /&gt;Era um mundo feliz onde se ficava a conversar, a cantar, a beber, a escarafunchar os dentes e a falar com os animais a tarde toda e só se saía de lá para urinar ou quando as portas se fechavam à noitinha. Antes podia-se verter águas em qualquer lado, no muro da casa da Sobreira, na esquina da loja do Viana e até atrás da sacristia da capela.&lt;br /&gt;Antes não havia contentores de plástico com lixo dentro, queimava-se tudo na horta e até se podia arriar o calhau no meio de um campo ou nas bordas por baixo das ramadas. Antes os camiões da câmara não vinham buscar as imundices à minha aldeia para levar outra vez para a minha aldeia.&lt;br /&gt;Antes havia peixeiras de canastra à cabeça carregada de sardinhas ou peixinhos do rio e os gatos e os cães corriam pelos caminhos atrás delas. De vez em quando aparecia um peixe moído e era deitado aos gatos e aos cães que repartiam entre si o produto da longa espera.&lt;br /&gt;Agora há cães e gatos como dantes mas os peixinhos do rio acabaram e as sardinhas que já não se pode garantir serem do nosso mar, viajam na carrinha do Zé Martelo misturadas com peixes criados a farelos e os gatos e os cães não correm atrás da carripana pela aldeia toda. Esperam no sítio onde o Zé pára para aviar os fregueses e não se pode mijar nas paredes. O Zé Martelo é amigo dos gatos e dos cães, tem bom interior e dá-lhes peixes todos os dias.&lt;br /&gt;Agora há uma casa de banho na minha aldeia mas ninguém vai lá urinar nem arriar o calhau porque dizem que cheira a comida sintética de passarinhos, vão aos cafés empestar aquela coisa toda e desenham corações trespassados por setas e escrevem versos nas paredes da retrete.&lt;br /&gt;Uma vez o ti Vicente estava a urinar virado para o rio no porto do Remoinho e passou um barco carregado com pipas. O mestre da embarcação chamou-lhe porco e o ti Vicente peidou-se para ele com a tringalha na mão.&lt;br /&gt;Antes podia-se peidar em todo o lado, mijar e até arriar o calhau, agora não. O ilustre e entendido médico do Porto que morava na minha aldeia, dizia muitas vezes: Reter um peido é abrir o caminho a um ataque cardíaco! Ele próprio lançava umas farpas que se ouviam do outro lado do rio. Há pessoas assim, parecem autênticas botijas de gáz. Dados a imperfeita nutrição, cultivam e alimentam o estado de flatulência permanente e podem descarregar gazes a qualquer momento. O próprio planeta terra expulsa os seus gases acumulados através de erupções vulcânicas e outras formas semelhantes, se somos o produto daquilo que comemos, simples átomos alimentados pelas fermentações orgânicas que o solo produz, é pois natural padecermos dos mesmos excessos vitamínicos das matérias que consumimos.&lt;br /&gt;Agora há contentores de plástico com letras nos tampos a dizer que são limpos e que não se pode urinar neles, só os cães e os gatos.&lt;br /&gt;Agora os camiões da câmara vêem buscar o esterco à minha terra porque um senhor da câmara mandou e vão deitá-lo outra vez na minha aldeia por que o senhor que estava na câmara disse que o lixo todo do concelho e dos concelhos vizinhos, devia ser depositado em cima do povo da minha aldeia, que um aterro sanitário seria como se uma dádiva caída do céu para quem convivia há mais de trinta anos com uma lixeira a céu aberto.&lt;br /&gt;- Depois até se pode fazer lá um parque de merendas, imaginem como será tudo verde e arborizado e as famílias a conviver umas com as outras aos fins-de-semana. Um jardim na perspectiva do homem politico, um horto semeado com delicadas plantas e flores que ninguém quer perto de sua casa. Há afeições duradoiras, gratidões que se pagam com veneno e ainda hoje passados onze anos após a inauguração do monstro e ao contrário do que havia sido prometido, o depósito de trampas não encerrou, cresceu como um desalmado e as pessoas da minha aldeia continuam à espera dos camiões cisterna carregados de perfume francês para aromatizar o sitio.&lt;br /&gt;Uma vez as pessoas da minha terra criaram uma banda filarmónica e uma casa para a cultura das pessoas da minha terra. Outra vez as pessoas da minha aldeia construíram um ramal de água ao domicílio e iluminaram a terra toda com luz pública. Uma vez as pessoas da minha terra criaram um campo para jogar bola. Uma vez as pessoas da minha aldeia fizeram uma capela nova. Outra vez algumas pessoas da minha terra urinaram nas paredes da casa de cultura da minha aldeia. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram no muro do campo da bola e arriaram o calhau lá dentro. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram na parede da capela nova atrás da sacristia.&lt;br /&gt;Uma vez apareceu um político à minha terra que disse que era doutor e algumas pessoas da minha terra acreditaram nele e deixaram de urinar nas paredes e de arriar o calhau nos campos e passaram a mijar em cima umas das outras porque o senhor doutor que veio de fora disse numa reunião com algumas pessoas da minha aldeia que o melhor era elas mijarem umas em cima das outras.&lt;br /&gt;Agastado ele disse:&lt;br /&gt;-Amanhã vou à feira comprar um cabo novo para a foucinha. Amanhã se me apetecer vou urinar no muro da casa do Viana e arriar o calhau no campo da bola mas não é por que o senhor doutor que veio de fora mandou, é por que se o fizer estarei a pensar nele e em todos os que quiseram dominar este povo que sabe remar, pescar, ler e fazer coisas novas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4894091984876652241?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4894091984876652241/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4894091984876652241&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4894091984876652241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4894091984876652241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/10/tempo-perdido.html' title='Tempo Perdido'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-8737144955665314075</id><published>2011-10-03T17:52:00.007+02:00</published><updated>2012-01-19T11:47:04.133+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pedorido'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio mau'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ponte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='porto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='lisboa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='estorias'/><title type='text'>Estórias aos Quadradinhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Quando há alguns milhares de anos nascemos neste recanto do mundo, julgava-mos que iríamos ser muito felizes por toda a eternidade.&lt;br /&gt;Nos primeiros tempos da nossa já longa existência, eu olhava para ti, via-te crescer lentamente e tu do outro lado do rio, olhavas para mim e, presumivelmente, deverias sentir o que eu sentia.&lt;br /&gt;Passamos muitos anos, muitos dias e muitas noites a contemplar-nos um ao outro remetidos ao silêncio das coisas eternas e, nos dias em que a neblina te cobria totalmente, eu ficava só a pressentir-te desse lado a viver a angústia de quem perdeu um amigo. A manhã despontava e o lençol de algodão que te cobria, subia a serra e tu reaparecias a brilhar sob os matinais raios do sol. &lt;br /&gt;Juntos vimos acontecer tanta coisa, pessoas nascerem e morrerem, crianças que se transformaram em adultos, vimos chegar outros que te desventraram as entranhas e retiraram de lá o minério cujo produto da venda, nunca foi usado em teu beneficio. Deixaram os teus e os meus filhos doentes, usaram a força da sua juventude em trabalhos forçados e a até desumanos para extraírem da terra o carvão que alimentava a indústria, os transportes e as caldeiras do aquecimento citadino enquanto o nosso povo, sofria as agruras do frio nos prolongados Invernos. Tinhas no interior do teu corpo as minas do Pejão indústria que ao mesmo tempo que dava ocupação laboral ao povo, aniquilava toda a esperança de poderes enfrentar o mundo novo que se avizinhava. Ficaste como eu agarrado ao passado, a ver secarem todas as ideias de moderno progresso, impedidas pela empresa de que todos dependiam e que como impiedoso opressor comandava tudo e quase todos não permitindo a instalação de outras fábricas no extenso raio que dominava. A mão-de-obra da região era dela, tudo o que atentasse contra esse privilégio era imediatamente abafado recorrendo a cooperações bem pagas vindas do poder instalado na capital do país. Dizem que foi a salvação destes povos que não dispunham de outras alternativas capazes de lhes assegurar sobrevivência mas e a par dessa realidade, obstruiu os caminhos que poderiam trazer novas dinâmicas, fechou as portas à esperança legítima, apanágio de todos os povos. Tudo poderia ter sido diferente não fora a continuidade da exploração da antracite minério poluidor responsável por centenas de mortes, presente envenenado, riqueza que reluziu por alguns anos e se desfez em nada.&lt;br /&gt;Tanto passado, tanta história submersa nos rios que são nossos ou soterrada nas profundezas da terra agora vazia de riqueza, tantas mortes, tanta vergonha por terem consentido a fúria dos estrangeiros sedentos de abundâncias para si próprios, tanto orgulho nos povos resistentes e fazedores de esperança que viveram e vivem em nós. Tantos factos negativos que essas dinâmicas criaram e nos tornaram simples espectadores sentados na plateia do imenso teatro do mundo a testemunhar a inevitabilidade dos acontecimentos por que, nessa altura, nada poderíamos fazer para alterar a orientação à dramática história que se desenrolava em frente aos nossos olhos. &lt;br /&gt;Lembras-te de quando éramos pequeninos e a mãe natureza nos colocou aos pés duas correntes de água cristalina e pura? A ti tocou-te o Arda, a mim a sorte ditou que fosse o rio Mau mas, para que os dois se sentissem protegidos, fez correr entre eles, o rio Douro imenso e então, a partir daí, tudo começou a ganhar forma. &lt;br /&gt;Não falamos um com o outro durante este tempo todo e no entanto sabemos tudo o que se passa em cada uma das bandas do rio. Se o sino de Santa Eulália espalha badaladas no vento, fico a saber se vai haver missa, se morreu gente, se era homem ou mulher ou um anjinho cujo florir para a vida foi lancetado por efeito de doença, fome ou insuficiente nutrição. &lt;br /&gt;Quando o sino da minha capela de S. João Baptista se faz ouvir desse lado, também tu tomas conhecimento das notícias mais urgentes e mais importantes. Se um foguete estoira sob o teu céu, ou escuto os sons de música difundida em potentes e amplificadas colunas, sei que estás em festa, que o teu povo rejubila de alegria e felicidade. Contigo acontece o mesmo quando os iguais sinais ecoam sobre o vale onde correm três rios.&lt;br /&gt;Estamos frente a frente há milhares de anos e no entanto nunca nos consentiram um abraço que quebrasse este divórcio forçado onde o amor continua a ser a componente mais forte da separação. Bastava uma ponte que ligasse as duas margens do Douro para podermos enlaçar as mãos e seguir juntos até ao fim dos tempos. Os homens não permitem afectos, decidem sempre em seu próprio proveito sem atender às justas reivindicações dos povos e da salutar harmonia criada e abençoada pela natureza.&lt;br /&gt;Como se não fosse suficiente a barreira do grande rio, separaram-nos quando decidiram dividir o país em distritos. Tu ficaste a pertencer a Aveiro e nem percebias patavina de ovos-moles nem tão pouco te dedicavam à recolha de moliços com barcos de borda baixa e de proa e ré elevadas, coisas muito diferentes dos teus barcos valboeiros conservadores das artes de navegar em rio, característica deixada pelos povos fenícios que aqui viveram.&lt;br /&gt;Eu fui integrado no distrito do Porto, não protesto mas custa-me que tu fosses para tão longe do rio, dos barcos e do vinho generoso. Tu és mais douro, mais rabelo, mais valboeiro, enfim, és como eu uma entidade própria que não depende de ninguém nem recebe lições de nenhuma história escrita para justificar o injustificável e branquear a maldade de alguns dos mortos. Aliás todas as histórias são o produto de encomendas da época, recheadas de inverdades, fantasiadas de modo a provocar confusões, lavagem de consciências, reabilitação de figuras desastrosas misturadas com meia dúzia de casos por ventura verdadeiros. Para exemplo, cito-te uma pequena parte da história de Portugal que relata a tomada de Lisboa aos mouros pelo nosso vizinho Afonso Henriques de Guimarães. Isso foi quase verdade, aproxima-se do real embora atulhada da ficção que convinha na altura e veio a revelar-se importante para a nossa afirmação como pátria mas sucede, para desonra nossa, que em mais nenhuma história relatada do mundo aconteceu o inédito e impensável caso que viria a seguir. Os conquistados passaram a mandar nos conquistadores coisa que ainda hoje acontece e, este pequeno recanto onde nasceu a nacionalidade, só tarde demais ficou a saber que tinha lutado e vencido para ser transformado em dependente dos novos tiranos ocupadores do recinto. São pois os sucessores dos antigos mouros que nunca foram grandes guerreiros, mas mais vendedores de tecidos e camelos do que outra coisa, a decidir os destinos de todos nós. Fazem-no com a habilidade característica dos negociantes sem escrúpulos, ficam com a carne e deixam-nos as tripas, integram os muitos de nós que se deixam comprar alucinados pelo poder e mediatismo perpetuando assim o seu déspota e intolerável reinado que basicamente consiste em manter a abundância de alguns em prejuízo de todos os outros. Nunca percebi por que é que pessoas originais do interior, uma vez eleitos ou nomeados para ocupar cargos de grande decisão, na altura de decidir, fazem-no sempre em favor do litoral onde agora residem. O homem é um bicho muito complicado, nunca se deve atender às suas justas aspirações pois desde que as alcancem, transformam-se em autênticos canalhas.&lt;br /&gt;Ai daquele ou daqueles que levantarem a voz contra tal opressão democrática, um coro de vozes obtusas atestadas por medalhões presenteados em cerimónias faustosas no dia de Camões e das Comunidades, aparece imediatamente a realçar o provincianismo de tal ou tais atitudes contra aquilo que consideram ser a união nacional desmentida permanentemente pelas estatísticas que provam as assimetrias e por tal objectividade dos números, confirma-se que sempre tivemos razão em protestar. As instâncias superiores do poder estão lá ao dispor e prontas a virem em massa e em força em defesa dos seus direitos que julgam adquiridos. Mete nojo, provoca desânimos em muitos, solturas que nenhum remédio cura mas contra aquilo que é considerado ordem, ninguém pode avançar. É por isso irmãos que nunca nos construíram aqui uma ponte. Lembro-me de um recente secretário de estado de um governo democraticamente eleito que um dia sentado deste lado do rio a olhar para ti, soltou do interior da sua falta de sentido de estado e de cultura, a seguinte observação: para que querem aqueles gajos uma ponte aqui, se ficam na mesma longe de tudo? Um ignorante é um homem perigoso à sociedade em qualquer parte do mundo mas nota-se mais a sua insipiência quando de ânimo leve analisa e decide sobre assuntos que desconhece. Só é possível haver gente assim por causa de um povo inculto que é como um rebanho de ovelhas, obedece ao pastor e vai sempre na direcção que ele soberanamente lhes indicar, até para a morte. &lt;br /&gt;Lembro-me do dia do teu baptizado e daquela princesa moira que rasgou um dos pés nas pedras dos teus caminhos. Sentada nas Côncas a estrangeira, exclamou a frase de que parte viria a tornar-se o teu nome de menino; &lt;br /&gt;-Tenho o pé dorido! &lt;br /&gt;E tinha, não só pelas irregularidades dos carreiros mas também pela interminável e inútil viajem a que se tinha proposto. É uma lenda e, como todas as lendas obedece a um carácter fantástico ou fictício que combina factos reais e históricos com outros irreais que são meramente produto da imaginação dos povos. Seja como for algum motivo ou motivos existiriam na altura para que as pessoas te rebaptizassem rejeitando todos os nomes que a história pensa serem os da tua origem. Petraído não era de facto a designação mais correcta para definir um lugar maravilhoso banhado por dois rios. O mais certo será teres sido Pedorio, assim soa melhor e situa-te claramente no lugar que hoje ocupas ao pé do rio.&lt;br /&gt;Pedorido, parece que a tua sina acabava de ser amaldiçoada por uma princesa vinda dos confins do mundo. Dorido foi o teu passado, talvez mais doloroso do que alguém pudesse imaginar para chegares como eu aos tempos da modernidade onde já nos apetece viver. &lt;br /&gt;A mim baptizaram-me de Rio Mau e tu sabes porquê. Este pequeno curso de água que quase me cerca, transformava-se num louco quando absorvia os dilúvios que vinham dos montes. Rio Mau, rio muito mau.&lt;br /&gt;Tudo se alterou desde então, o que era desolação e miséria foi transformado em beleza que extasia, ignorada cá dentro mas apreciada por gente estrangeira e representada em bagadas de água pura que são maravilhas e repouso para os olhares de quem já avançou para além da mediocridade e da indiferença e o que de mais maravilhoso a terra tem, a essência da vida. Somos bonitos meu irmão, não há neste mundo nada que se compare à nossa esbelta fisionomia de traços delicados onde a mãe natureza vem brinca todos dias.&lt;br /&gt;Temos tanto orgulho em nós, tanta admiração pelo assombro que causamos a quem nos visita que muitas vezes coramos no rosto da nossa humildade. Tanta gente vive agora em nós, somos duas povoações viradas para o futuro assente num desenvolvimento sustentado que une e permite o nascer de uma nova cultura voltada para o que o mundo tem de novo e de esperança sempre com o passado preso numa das mãos. &lt;br /&gt;Hoje apetecia-me abraçar-te meu irmão, sei que não me é possível estender os braços sobre o rio Douro e enlaçar-te com todo o enternecimento deste momento solene mas e perante essa impossibilidade, vou mandar-te o rio Mau ao encontro do teu Arda e então, as duas águas misturadas num abraço, vão assemelhar-se a um beijo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-8737144955665314075?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/8737144955665314075/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=8737144955665314075&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8737144955665314075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8737144955665314075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/10/estorias-aos-quadradinhos.html' title='Estórias aos Quadradinhos'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-9167338446520589532</id><published>2011-09-26T10:29:00.005+02:00</published><updated>2012-01-19T11:48:38.712+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio mau'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sonhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escola'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prisão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Criança'/><title type='text'>Prisão de Sonhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Fiz seis anos no dia seis de Outubro e logo na manhã seguinte e contra a minha vontade, meteram-me na escola. &lt;br /&gt;Levava a tiracolo uma saca de serapilheira com um livro de leitura, uma lousa encaixilhada em quatro ripas de madeira e um lápis de pedra. Fiquei surpreendido com aquilo, nunca tinha visto semelhantes coisas e desconhecia em absoluto qual o fim para que serviam. Os meus colegas, rapazes e raparigas, levavam também numa saca igual ou parecida as mesmas ferramentas e, como eu interrogavam-se sobre a utilidade a dar aqueles objectos estranhos. Todos seguia-mos descalços pelo caminho abaixo, a minha mãe não me foi levar nesse primeiro dia, tinha de trabalhar e cuidar dos meus irmãos ainda fora da idade de internamento forçado. Era uma algazarra medonha, falava-se de tudo o que poderia acontecer quando finalmente entrasse-mos o portão de ferro da velha escola primária no Remoinho que tinha, cravada numa das ombreiras de granito, uma placa em mármore esbranquiçado que dizia ser propriedade do Estado.&lt;br /&gt;Chorei, eu e os outros, aquilo aterrorizou-nos, entrar numa casa em que o estado é dono e senhor, era coisa de tal solenidade que nos deixou a todos silenciosos, não fosse o estado não gostar da barulheira que tinha-mos feito ao descer a rua. &lt;br /&gt;O prédio já era velho nesse tempo, acho que nunca deve ter sido novo, sempre o conhecia desnudado de cales e pinturas, com falta de bocados de estuque que davam a ideia de que estava a sofrer de grave doença de pele. As portas eram velhas, as janelas também e em algumas delas os vidros tinham desaparecido partidos talvez por pedradas. Ao cimo das escadas estava a professora quieta, petrificada com um papel numa mão dobrada sobre a outra na barriga. Vindo dela chegava-nos um perfume novo uma fragrância desconhecida que se espalhava por todo o recinto e suavizava e adocicava o nosso olfacto imaculado como se fosse um jardim de rosas a aromatizar a atmosfera carregada de maus odores em que vivíamos e só cheirosa na primavera quando os campos se cobriam de flores de malmequeres e os montes se enfeitavam com o amarelo vivo dos tojos e o violeta quase púrpura das urzes. Esperou alguns minutos e quando o sino de uma igreja bateu as nove horas, começou a ler os nossos nomes escritos nesse documento. &lt;br /&gt;Chamou pelo primeiro nome e ninguém respondeu, então como quem já está habituada a situações desse tipo, autoritariamente disse em voz alta: &lt;br /&gt;-Quando chamar pelo vosso nome, digam presente! &lt;br /&gt;Assim foi, aquela turba irrequieta fez silêncio absoluto e as vozes que respondiam à chamada, pareciam vir de muito longe, tímidas abafadas pela tosse persistente de alguns, até chegar à minha vez, a ordem era alfabética portanto fui dos últimos a ser intimado. &lt;br /&gt;-Presente respondi mentindo com quantos dentes tinha na boca. Presente implicava estar ali de corpo e alma, cheio de vontade em apreender as primeiras letras do abecedário ora eu, estava em todos os lugares que conhecia, no ribeiro a pescar, no poço de baixo a tomar banho ou nas bordas do grande rio a guardar a minha cabra, lá é que eu não estava de certeza absoluta e nem queria estar e duvido que, nesse momento aflitivo e de incerteza, todos os meus colegas na fantasia da mente, também não andassem a percorrer os caminhos da minha terra em brincadeiras alegres, livres e despreocupadas, cujo dono do prédio chamado estado, acabava de proibir condenando-nos a todos à prisão por muitos anos. A incerteza do futuro amedrontou-nos, a perspectiva do novo fez-nos tremer de medo.&lt;br /&gt;O que foi que eu fiz para me meterem numa jaula com um quadro preto pendurado na parede rabiscado com letras brancas que nenhum de nós sabia decifrar. Que crime terei praticado para me sentarem numa carteira em que já faltavam algumas tábuas menos a de cima que tinha dois tinteiros de cerâmica branca enfiados em dois buracos? Devo ter deixado a cabra ir ao saco do milho do senhor Viana, pensei. E os outros que nem cabra têm? Que asneiras terão feito para serem como eu, encerrados numa sala com ratos a passear acompanhados por pulgas e piolhos? &lt;br /&gt;As pessoas grandes não gostam mesmo de nós, voltei a matutar. Por que é que só fazem isto à canalha que não faz mal nenhum a ninguém? E os grandes, onde estão as raparigas já com peitos e os rapazes com barba na cara? Por que é que não se vê nenhum aqui e a professora não chamou pelo nome de alguns deles? Vi-os sentados nas pedras do largo quando há bocado passava por lá, riam-se como tolos a olhar para nós figuras simplórias e inocentes. Decerto já sabiam o que nos esperava, o fim da liberdade, a terrível caminhada para o degredo onde todas as luzes da nossa infantil felicidade, se apagavam lentamente. &lt;br /&gt;Nunca me hei-de esquecer desse dia em que entrei pela primeira vez na casa do estado por que foi o momento em que ele me agarrou para sempre. Ainda hoje sinto o seu braço injusto e cruel a arrastar-me pela calçada do remoinho para me enjaular nos escombros que restam da escola primária propriedade que ele faz questão em deixar apodrecer. &lt;br /&gt;A manhã foi passando, a professora esforçava-se para manter o silêncio dentro daquelas quatro paredes, o perfume dela a despertar-me a imaginação enquanto olhava pela janela o rio que passava e não me levava com ele até às mãos salgadas do mar que nunca tinha visto mas imaginava lindo e ficava indiferente apesar dos apelos que os meus olhos lhe faziam: &lt;br /&gt;-Tira-me daqui diziam no silêncio da manhã estas vistas que ainda pouco ou nada tinham visto do mundo que se desenrolava à nossa frente. O mar tão longe e tão perto da minha vida, o oceano imenso que silencioso ouviu os meus apelos de criança e muitos anos depois me veio buscar para junto dele. &lt;br /&gt;- Vais aprender a ler e a contar, tinha-me dito a minha mãe no dia anterior. Não disse nada, mergulhado em sombrios pensamentos só me apeteceu perguntar-lhe para que queria eu saber ler e contar se nada havia para ler nem para contar nesse tempo. Quem era eu para contestar a minha mãe, como poderia alguma vez nessa altura e sempre desrespeitar a sua vontade. Fiquei a olhar para o rio, a ver passar os barcos, a pensar que um dia havia de ser grande como o meu pai e então, ninguém poderia encerrar-me numa prisão como esta. &lt;br /&gt;Os dias passaram, na escola aprendi a fazer números e letras na lousa. Os primeiros riscos podiam bem ser o desenho rudimentar do barco do ti Vicente a navegar no rio ou a água do ribeiro a cair na levada com amieiros tombados sobre o poço a chorar a nossa ausência. Nesse precário ensino aperfeiçoei a escrita, tornei-me num menino instruído cujas redacções impressionavam as próprias professoras. Quando terminei o ensino primário, sabia muito mais que metade das pessoas da minha aldeia. &lt;br /&gt;A velha escola continua lá partida em bocados, silvas e árvores crescem no recreio abandonado e no local onde antes se situava a sala de aulas. Os telhados abateram e as eras, agarra-se às pedras que restam a desafiar a decadência. Nenhum som se ouve no interior do espaço de risos e brincadeiras do passado nem a professora se vê ao cimo das escadas a perfumar o ambiente, com um papel na mão a chamar pelos nossos nomes. Se chamasse já seriam muito poucos a dizer presente, alguns porque já faleceram outros por terem tomado direcções diferentes nas suas vidas, eu seria um deles agora por razões muito distintas das que me agoniavam nesses dias mas, desde esse tempo de criança de escola que nunca mais me perguntaram se eu estava presente fosse para o que fosse. &lt;br /&gt;Desinteressaram-se de mim e dos outros, entregaram-nos ao mundo que fez de nós gato – sapato sem nunca nos terem perguntado se era dessa forma que queríamos viver. &lt;br /&gt;Tenho de subir a calçada, aqui não há sítio onde eu possa enterrar tantas lembranças e já não se vê o barco do ti Vicente a cruzar o rio de uma banda para a outra a transportar passageiros, vou visitar a nova escola que não tem vidros partidos nas janelas nem ratos a passear acompanhados com piolhos e pulgas, onde não faltam tábuas nas carteiras e tudo brilha como novo. Vou observar o futuro que do passado só resto eu e um punhado de homens e mulheres obstinados em proporcionar às crianças de hoje um espaço de liberdade e de aprendizagem digno que nunca retroceda às carências e indiferença dos meus tempos de menino e se transforme numa prisão de sonhos dos mais pequenos.&lt;br /&gt;Lá vão as crianças de mochila às costas sorridentes, uns nem por isso, choram agarrados aos regaços das mães, outros nem mochila levam, numa mão um bolo embrulhado num guardanapo de papel, debaixo do braço, uns cadernos a brilhar como novos. Vão a caminho da escola dos tempos modernos transformada em prisão de alunos e professores pelas incapacidades de gestão dos sábios que nos têm governado. Vão ser encarcerados com os docentes o dia todo para que muitos pais possam angariar sustento e muitos outros sem apetência para o cargo, fiquem livres para passear nos chopings e as estatísticas engordem com dados errados. Quem sou eu o deles que me lembra a minha meninice? Sou aquele que ninguém vê, que leva uma saca de serapilheira a tiracolo, que vai descalço e olha espantado em seu redor. Sou esse de cabelo espetado, de ranho no nariz, em calções onde já falta uma tira sobre um ombro e camisa branca sem metade dos botões. Sou um passarinho que caiu do ninho e desesperado chama pelos seus pais que não o foram levar pela mão à escola. Olhem todos, eu sou aquele a contar do último para a direita, não sou ninguém depois de ter aprendido a escrever, a ler a contar, a descrever todos os afluentes dos rios, todas as estações e apeadeiros das linhas de comboio e a fazer todas as contas possíveis e imaginárias. Sou esse que transformou os rabiscos feitos num rectângulo de ardósia encaixilhado em quatro ripas de madeira, escrevendo com um lápis de pedra, em livros que contam histórias do seu povo. Sou também o menino sem mochila às costas, com um bolo embrulhado num guardanapo de papel, aquele acolá que chora agarrado às sais da mãe por que pela primeira vez na sua curta existência vai ter de deixar o amor e o carinho dela para ser entregue ao desconhecido que o assusta e amedronta, sou esse e os outros todos, revejo-me em cada um deles pedra bruta que rejeita ser modelada, um ser que se confronta com o saber e treme de medo por causa disso. &lt;br /&gt;Sou outra vez criança, sinto-me parte deles todos, comungo as mesmas angústias e preocupações deste momento, sofro no coração que aperta cada vez mais por que vim de um mundo onde só havia amor e liberdade, beijos e abraços, cantigas ao adormecer, sorrisos de ternura e carinhos, tudo coisas que me faziam lembrar o céu, o paraíso onde julguei ir viver para sempre e agora sinto-me desamparado, sozinho no meio de muitas crianças como eu. &lt;br /&gt;Como a velha escola a desmoronar-se sobre o rio, eu sou tudo e não sou nada, mas consigo retroceder e avançar no tempo sempre que é necessário e encontrar-me puro nas lágrimas e nos sorrisos das crianças de hoje.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-9167338446520589532?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/9167338446520589532/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=9167338446520589532&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/9167338446520589532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/9167338446520589532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/09/prisao-de-sonhos.html' title='Prisão de Sonhos'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4599732913223503401</id><published>2011-09-19T11:13:00.002+02:00</published><updated>2011-09-26T11:23:06.473+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Praia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Procisão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gaivota'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Auto-estrada'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Carro'/><title type='text'>Gaivota</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A auto-estrada quase deserta, a máquina com voz impessoal de mulher a pedir moedas no fim de cada lanço que o meu carro devorava. Esta voz persegue-me por todo o país. Insira o cartão. Efectue o pagamento. Retire o título. A última frase já quase não a oiço, arranco antes que a máquina me obrigue a retirar um papel que não serve para nada. Não há afectos vindos do aparelho de metal brilhante cheio de ranhuras onde se podem meter cartões, nem bom dia, nem boa tarde ou boa noite. Sempre a mesma ladaínha, sempre a mesma voz de telefonista antiga. Vou depressa, não sei andar a passo de caracol quando tenho urgência em chegar a lugar nenhum. O meu carro sabe isso, embala como um louco ultrapassado todos os outros automóveis e todos os limites. O mar a vir ao meu encontro perguntando-me por que foi que demorei tanto tempo a chegar. Resmungava visto de longe, ao perto era um monstro a comer os pedaços da manhã embrulhados na neblina.&lt;br /&gt;No primeiro semáforo, um miúdo dentro do carro parado ao lado do meu com o dedo indicador espetado na testa, faziam-me por gestos o sinal de que eu deveria ser maluco. Acenei-lhe com a mão, depois e já quando o carro avançou ao sinal verde, retribuindo a minha saudação, com os outros dedos encolhidos e com o polegar em riste, incitava-me a fazer aquilo que eu tanto gosto.&lt;br /&gt;Vai haver uma procissão à tarde parece, há tapetes de flores a cobrir os paralelos da avenida onde não passam carros nos dias com rezas. Um cartaz pendurado nos postes da electricidade indicam que são as festas da Senhora da Ajuda. Quem me ajuda a mim sem sitio para estacionar a máquina que me transportou neste dia de aglomeração de fiéis.&lt;br /&gt;A areia da praia está sozinha, os barcos dos pescadores dormem sobre ela desalinhados como tropas derrotadas sem comando. Um miúdo a chamar-me louco de dentro de um carro nos semáforos. Um miúdo a dizer-me para ir aquele sitio que eu desejo ir. Uma gaivota que se desprende da nuvem de aves que sobrevoam aos gritos um espaço sem comida. Uma delas vem ao meu encontro, parece um mensageiro que trás noticias de um outro longe diferente do meu. Sobrevoa-me, grita-me aos ouvidos, parece conhecer-me desde o princípio da vida. Que vida! Qual de nós ainda respira o ar de um mar que nem nos reconhece, quem será o destinatário de mensagem tão urgente!&lt;br /&gt;Posso tocar-lhe com as mãos, está tão perto de mim e da cidade que tem carrosséis a cercá-la como se a vida fosse isso mesmo, coisa feita de carros eléctricos de brincar e berrarias medonhas de alto falantes que animam os pobres. Parece que me olha com olhos de maresia habituados a oceanos desertos. Pára de repente de asas abertas sobre o ar e, no momento seguinte evolui contra o vento norte que sopra sobre a vendida junto à praia.&lt;br /&gt;Não sei por que razão, fixei-me naquela gaivota tresmalhada, não compreendo o seu voo incerto, a emergência de terra que a trouxe junto de mim.&lt;br /&gt;Aterrou sobre a areia, as asas abertas como se o seu voou nunca mais acabasse estendiam-se no chão inanimadas. Ergueu a cabeça, olhou o mar distante e depois lentamente deixou-se cair no tapete branco da praia. O vento sacudia-lhe as asas e as penas, era um anjo caído, parecia que voava depois de tudo ter terminado.&lt;br /&gt;O que foi que se passou ave dos céus, por que deixaste de me mostrar o teu voo encantador, que força estranha te fez cair morta no sítio onde em breve vai passar a procissão da Senhora da Ajuda.&lt;br /&gt;A cabeça caída sobre a arei prenunciava o pior. Estava muribunda com os olhos abertos a perpetuarem a imagem de um penedo em oceanos longínquos onde decerto tinha nascido.&lt;br /&gt;Que sonhos são os teus ave que o mar adora, que destino te trouxe até esta praia onde só eu reparei em ti, na tua aflição e onde os miúdos nos chamam de loucos e se morre ao domingo num lugar enfeitado com flores e onde daqui a pouco vai passar uma procissão ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espinho, 18-09-2011, 12, 10h&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4599732913223503401?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4599732913223503401/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4599732913223503401&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4599732913223503401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4599732913223503401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/09/gaivota.html' title='Gaivota'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-675008913633647903</id><published>2011-09-19T11:11:00.002+02:00</published><updated>2012-01-19T11:51:45.104+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mãe'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terras'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pai'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Repouso'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Saudades'/><title type='text'>Um Amor Assim</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Outubro de um ano que já passou confundido no calendário com o dia do meu aniversário. Já nem me lembro de quantos anos fazia nesse dia, provavelmente muitos, eu sou uma oferta dos dias, uma criatura que nunca há-de saber o dia e a hora exacta em que veio ao mundo. Há um perfume a cegar os instantes, uma fragrância que os rios produzem com o propósito de enganar e de iludir todos aqueles que julgam poder desvendar os mistérios que as águas encerram. Poderes ocultos só apreciados nas ocasiões em que o universo plana em sintonia com a terra e, das forças do firmamento celeste se soltam energias que se abatem sobre as correntes liquidas onde os deuses caminham depois de anoitecer. Sou pois o produto de um amor antigo, genuíno e secreto como o eram quase todos os amores dessa época. Sentimentos misteriosos fermentados nas profundezas de todos os infernos e abençoados por todas as divindades.&lt;br /&gt;Lembro-me de coisas, de algumas outras já me esqueci por que nenhum ser humano consegue reter na mente tantos episódios decorridos ao longo de duas gerações onde se acentuavam as diferenças, os métodos de vida, as dificuldades e as formas de pensar. &lt;br /&gt;-Não dormes? &lt;br /&gt;A noite pergunta-me incessantemente por que estou ali em frente da janela a pesar figos, a tentar imortalizar coisas perdidas, a reinventar momentos que passaram, a rever os cadernos rabiscados dos meus primeiros tempos de escola, estranha grafia imperceptíveis gatafunhos que me abriram a mente, primeiros registos na amplitude da memória e que hoje só me lembram a criança que já fui. &lt;br /&gt;Às vezes olhava para a minha mãe sentada no sofá com o livro de orações preso nas mãos e os óculos a tombar em cima da ponta do nariz tentando descobrir naquele rosto enrugado as respostas às minhas tantas inquietações, aos meus conflitos interiores, à minha incapacidade de perceber o mundo que acontecia em frente dos meus olhos na vã expectativa de perceber tudo o que ignorava apesar de ser adulto e já ter vivido meia vida. De dentro daquele corpo outrora admirável, sugiram as respostas, frases soltas, silêncios prolongados, histórias de vidas que passaram por ela, pequenas dicas que pacientemente seria preciso decifrar e compreender. O seu coração, era a minha sala de aulas, e ela a professora omnipresente que nunca se ausentava um só minuto durante o tempo das primeiras lições, que assistia ao seu aluno durante as vinte e quatro horas do dia ensinando-lhe tudo o que haveria de ser importante e decisivo na sua vida. Quando a surpreendia a ler ou a rezar, eu via nela todas as mães do mundo que vivem numa sociedade que as exalta e simultaneamente as obriga a tratar da casa e a criar os filhos sejam quais forem as circunstâncias das suas próprias vidas muitas vezes desordenadas ao ponto de dificultar e tornar quase impossível o cumprimento de tão importante missão. Mulheres transformadas em donas de casa que se desdobram e acumulam tarefas num esforço sobre-humano para que nada falte no lar e à sua criação. &lt;br /&gt;Era uma dama assim que estava sentada à minha frente depois de ter percorrido um longo caminho de sacrifícios misturados com algumas alegrias. Podia estar triste ou desanimada mas quando os seus olhos caiam sobre mim, o seu rosto iluminava-se de repente. Sorria ainda apesar de a vida lhe começar a escapar só porque uma das suas criações estava à sua frente e era como se um arquitecto a contemplar a sua obra-prima, um pintor vaidoso a admirar o seu próprio quadro exposto numa galeria de arte. Decerto procurava em mim defeitos e imperfeições sabendo de antemão que nunca os iria descobrir apesar de serem bem perceptíveis e abundantes pois aos olhos das nossas mães somos todos perfeitos e irrepreensíveis. &lt;br /&gt;Chegou o dia dos meus anos repetindo-se cronologicamente como no relógio dependurado na nossa sala de jantar a quem periodicamente o meu pai subindo sobre uma cadeira, ia dando corda para que, impassível marcasse as horas de muitas vidas num ritmo certo e implacável. O tic tac desse maquinismo antigo, parecia o bater de um coração mas não era. As máquinas são insensíveis a tudo, ao avançar da idade, à dor e ao sofrimento e ficam a assinalar o tempo depois de todos nós desaparecermos. Não há como fugir das horas, dos dias e dos anos, queiramos nós ou não, o velho cronómetro tendo corda nunca pára, faz constar na monotonia com que a sua engrenagem se movimenta, que o tempo não tem retorno e quão efémera é a nossa passagem pela terra. Quando era necessário, o meu pai dava força ao aparelho, metia a chave adequada nos dois orifícios do mostrador prateado parecendo estar a apertar ou a desapertar parafusos. A seguir iniciava o processo de sincronizar as badaladas sonoras com os números romanos estampados na frente rodando com os dedos os ponteiros para a direita. Batiam doze badalas, seguidamente uma, depois duas e assim sucessivamente até completar o ciclo de doze horas requerido pelo relógio. Eu ficava a vê-lo evolvido nessa tarefa e a dizer só para mim: Pai continue, não pare, faça o tempo avançar rapidamente, eu quero ser adulto amanhã, não me sinto bem a desempenhar o papel de criança sem nada com que brincar. Eu tinha a sardanisca que se passeava à beira do tanque mas deve ter morrido ou desaparecido e fiquei sem poder distrair-me. Não pare pai, já passou meio-dia de repente, nem dois minutos os seus dedos demoraram a cavalgar tantas horas que teria de matar com as minhas próprias mãos. Outra volta pai, muitas mais voltas, milhares delas até me sentir um homem grande como tu.&lt;br /&gt;Quando terminava a empreitada, descia do escabelo e ficava frente a frente com a máquina a observar o compasso ritmado do seu bater, ao contrário de mim, desgostoso por que acabava de avançar mais umas horas na sua vida que já se inclinava perigosamente para o fim, parecia-me um ser humano com sentimentos iguais aos meus. Quando finalmente desistia de meditar, perguntava-me:&lt;br /&gt;- Está certo?&lt;br /&gt;Eu respondia quase sempre da mesma maneira:&lt;br /&gt;- Tanto faz, para mim está sempre certo pai!&lt;br /&gt;Fazia uma rotação de noventa graus com a cabeça e olhava-me como quem olha para um extraterrestre:&lt;br /&gt;- Sempre certo não, pode estar atrasado ou adiantado uns minutos, interpelava.&lt;br /&gt;-E que interessa isso pai, mais minuto menos minuto para trás ou para a frente não tem importância nenhuma, horas certas só interessam aos aviões e aos comboios e nós somos pessoas pai, dizia eu.&lt;br /&gt;Calava-se, não me respondia, o diálogo entre nós foi sempre e só o essencial, havia uma muralha a separar-nos, um silêncio que nunca compreendi mas que podia ser de cumplicidade mas não o era. Ainda hoje procuro situar-me na sua posição, tento perceber o que o levava a ser tão ausente de mim e tão próximo de outras pessoas que nem da nossa família eram. Intimamente eu sei que ele me considerava como obra sua e que tão manifesto afastamento era apenas e só modéstia de artista, desprendimento após conclusão do prodígio. Com os pulsos um de cada lado da cintura puxava as calças com folga para cima e ia aviar os fregueses da taberna. &lt;br /&gt;Nesse dia do meu aniversário em que todos parecíamos felizes e, como se pressentisse a proximidade do fim dos seus dias, a minha mãe disse-me: &lt;br /&gt;-Filho, eu quero ser sepultada na minha terra! &lt;br /&gt;Já sabia, aliás sempre tive a quase certeza de que a minha mãe nunca me iria desiludir mesmo nas horas antecessoras da morte, no dia em que já com noventa e três anos completados, lúcida e em pleno uso de todas as suas faculdades, marcava a ferros de fogo os traços das suas origens, renegava as dezenas de anos de convívio numa terra que sempre lhe foi estranha apesar de se lhe ter dedicado e dado tudo o que tinha para lhe dar.&lt;br /&gt;Tentei contrariar a sua vontade, todavia sem grande convicção devo confessar. Lembrei-me nesse momento de cenas do passado longínquo e vi-a a calcar a pé o pó da estrada marejada em lágrimas acompanhando o carro de bois que trazia todos os nossos bens, quando tivemos de ir viver para outra terra. &lt;br /&gt;-Mãe, ainda tem muito para viver, não pense nessas coisas agora, deixe-me festejar o meu aniversário consigo aqui presente, falaremos disso noutra altura.&lt;br /&gt;Insistiu, esta é a melhor altura para falarmos disso, estamos todos juntos, assim não haverá desculpa para não cumprirem a minha vontade, disse ela a sorrir.&lt;br /&gt;- Mãe, o pai está enterrado aqui, não acha que seria melhor ficar numa campa ao lado dele? &lt;br /&gt;Olhou-me de uma forma estranha, acho que nunca vi aqueles olhos cor de mar tomarem uma tonalidade que se assemelhava à cor das águas de um rio como o douro. Pareceram-me então os meus, agrestes, violentos, suaves, ternos, verdes e penetrantes. Os meus olhos são os olhos da minha mãe, fabricados por ela, feitos como os dela.&lt;br /&gt;-Não! Este meu desejo terá de ser cumprido. A minha terra é Rio Mau, foi lá que eu nasci e vivi. Durante muitos anos fui ausente dela, suportei saudades, chorei muitas lágrimas, só Deus sabe o quanto eu sofri durante estes anos todos. É lá que eu quero repousar para sempre! &lt;br /&gt;Não era a minha mãe que dizia aquelas palavras duras com voz elevada, era antes um ser determinado em ser obedecido, um guerreiro que manifesta com veemência a sua última vontade. &lt;br /&gt;Apertei-lhe as mãos nas minhas e fiquei a pensar que talvez um dia seja eu a fazer as mesmas exigências aos que me sucederão na certeza de que já sinto o mesmo apelo da terra que me viu nascer, o grito que vem do passado e me esmaga o coração, as vozes de antigamente a clamar nas noites de vigila, o desejo de repousar também lá em cima onde mesmo depois de mortos poderemos ver o rio Douro, o rio Arda e o rio Mau a toda a hora. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-675008913633647903?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/675008913633647903/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=675008913633647903&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/675008913633647903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/675008913633647903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/09/um-amor-assim.html' title='Um Amor Assim'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-5069224541047753907</id><published>2011-09-01T14:00:00.006+02:00</published><updated>2012-01-19T11:53:07.939+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mulheres'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='aldeias'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terras'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='porto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rio'/><title type='text'>Solidão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Às vezes é por terra que percorro a distância entre a foz do rio Douro e Miranda onde ele entra em Portugal e começa a fazer fronteira com Espanha até Barca D´Alva. A partir dali, embrenha-se todo no nosso território e segue a serpentear tortuoso por entre serras até chegar ao mar onde desagua coroado pelas cidades do Porto e V.N. de Gaia.&lt;br /&gt;Vou por estradas que subindo e descendo montanhas, apontam diversificadas direcções sempre com o rio à vista. Nos planaltos do extremo nordeste, assisto à desertificação e ao abandono de campos, de aldeias inteiras deixadas entregues à sua sorte pelo resto de um país que perdeu já a sua identidade. Este comportamento tem uma razão que se prende com a vida desumana que tem feito parte de cada uma das gerações ligadas às actividades agrícolas consideradas, sector primário. Nenhuma das famílias que viveram da agricultura de subsistência desejam para os seus filhos e netos, o regresso a esse tempo de sacrifício motivado pelo desprezo com que a sociedade quase no seu todo em determinado momento da nossa história olhava para os trabalhadores do campo. Intitulava-os de labregos e outros apelidos redutores e depreciativos que aliados a más condições de subsistência fizeram um sector essencial ao equilíbrio sustentado de um país desertar e empreender métodos de vida semelhantes às dos cosmopolitas maldizentes&lt;br /&gt;Há também uma outra razão muito mais pomposa que encanta os ouvidos dos mais susceptíveis às moderníssimas chamadas do mundo em constante mudança. Chama-se cosmopolitismo que desgraçadamente empurra toda uma nação na direcção do mar onde fica emparedada e sem horizonte capaz de lhe proporcionar a continuidade do avanço que empreendeu. Restar-lhe-á recuar, voltar às origens e empreender futuros. As gerações modernas têm pressa de chegar ao fim. Esqueceram o presente e já vivem no futuro onde tudo constitui incógnita e provoca desesperos medonhos. Quem lhes diz que a vida se faz caminhando paulatinamente? Os governos? Não, esses existem para administrar aglomerados centralizados o mais possível, acessíveis aos toques das suas varas, quais pastores que os tosquiam constantemente e, assoberbam com promessas que raramente cumprem. Descaradamente já nem percorrem o país rural de modo a sentir-lhe o pulso, a agonia, a lentidão da morte que também vai ser a deles e quiçá, ajudá-lo a renascer a não ser nas campanhas eleitorais onde se pavoneiam em sumptuosas caravanas de carros de luxo a alta velocidade à cata dos votos dos lorpas e nunca param nas terras pequenas seguindo directos aos auditórios onde os ditos reunidos por pequenos oligarcas locais pacientemente os aguardam agitando freneticamente as bandeiras do partido que muitos nem conhecem. É a política, a arte de vender enchidos com pouca carne lá dentro. Todavia não é a política em si uma actividade perversa, os actores políticos, muitas vezes sem formação cívica, é que não reúnem vocação para desempenhar essa função e dedicam-se em primeira instancia a resolver os seus problemas, os dos amigos e familiares e os da sua quinta improdutiva por flagrante má gestão. Esses representantes do poder eleitos democraticamente, são propostos ao voto não pelas suas capacidades morais, intelectuais ou outras não menos importantes ao desempenho de cargos públicos, são fabricados à medida das necessidades das organizações partidárias onde militam. Indiferentes às causas colectivas, egoístas, ignoram conceitos solidários, procedem como pequenos ditadores impondo a sua vontade contra tudo e contra todos às vezes por manifesta burrice. &lt;br /&gt;A indiferença é o maior sinal da incompetência de quem gere. O castigo surgirá num tempo oportuno não sem antes haver choros e ranger de dentes até que o interior erga altivo a espada da razão para repetir a solidariedade desaproveitada só porque nada teme, nada o assusta nem a morte consentida por quem manda. &lt;br /&gt;Repentinamente o rio desaparece-me das vistas, esconde-se por de trás de uma elevação para inesperadamente me surgir mais à frente surpreendente e majestoso. Cada uma destas sucessivas aparições desvenda um panorama novo e tal como Miguel Torga descreveu num trecho sublime, não é um quadro que os olhos contemplam, é uma desmesura de natureza arrogante. Poios que são esforços de indivíduos formidáveis a subir as encostas, vultos, colorações e toadas que nenhum artífice, escultor, pintor ou até músico nunca conseguiriam representar na perfeição das suas artes, são horizontes ampliados para lá dos patamares admissíveis da visão, um cenário que arrebata, uma vista fantástica a nascer entre a terra e o céu. &lt;br /&gt;Nada me consola mais que essa peregrinação pelas terras que dão vinho generoso e onde corre um rio sempre lá ao fundo dos vales que adoptou como leito. Tudo é dinâmico, nada se repete etapa após etapa e, os contrastes naturais são tão apelativos que algumas vezes assustam e outras vezes nos comovem. &lt;br /&gt;Um dia quando viajava pelo douro, afastei-me um pouco do trilho conhecido e, por uma estrada secundária fui parar a um ermo onde em tempo passado existiu uma aldeia. Havia velhas casas desmoronadas, árvores secas, roseiras que deixaram de ter água, pedras caídas por todo o espaço como se uma bomba atómica tivesse deflagrado ali e deixasse só restos espalhados no chão queimado por sucessivos incêndios e a terra em repouso à espera dos arados a ver ao longe a fome a entrar em muitas casas. &lt;br /&gt;No meio desse cenário desolador, havia um edifício cujo aspecto me pareceu ter resistido à fúria de todas as intempéries, ao desleixo que a nação aplaude. &lt;br /&gt;Sentada na pedra de um fontenário que teimava em gotejar dia e noite estava uma velha mulher e, ao lado dela um cão já velho deitado no chão de cascalho, dormia tranquilamente. O suposto atento vigilante, não tinha dado pela minha presença ou então já nem lhe interessava quem quer que fosse a pessoa que viesse interromper-lhe o deleite do sono. A prolongada solidão gera o cansaço no ser e transforma homens e animais em pedras de indiferença. &lt;br /&gt;As ervas cresceram ao ritmo acelerado do abandono, o único conhecido ritmo deste lugar perdido. A velocidade da seiva que nutre caules verdes, já há muito que só alimenta os fios do esquecimento. São silvas que crescem espinhosas e amortalham lugares onde a vida existiu. Quase todos os homens e mulheres que aqui nasceram, envelheceram com a terra, morreram ou partiram em busca de melhor pão. &lt;br /&gt;A velha parecia-me uma fotografia antiga perfeitamente enquadrada na tristeza da paisagem, descolorida como estátua onde se agarram musgos eternos. A sua cabeça coberta por grinaldas de cabelos brancos, tombava sobre o peito como quem subitamente adormeceu cansado. Talvez sinta o desespero de quem ficou quando todos partiram ou reflicta sobre o mundo que a deixou sozinha neste deserto sem pessoas que se precipita sobre um rio. Resta-lhe pousar a mão sobre o joelho sentada nesta pedra de granito tornada áspera pelo tempo e esperar pelo fim dos dias. &lt;br /&gt;Uns olhos pequeninos afundados em dois buracos circundados por peles encorrilhadas vieram sem pressa até mim e, a expressão daquele rosto antigo manteve-se inalterada como se eu próprio fosse apenas mais um vento que vinha do sul sacudir-lhe os cabelos ralos e brancos. Ventos perpétuos que por aqui passam todos os dias a sacudirem as pedras e transportam dentro da sua permanente erosão poeiras que vão apagando os vestígios humanos.&lt;br /&gt;Senti desejo de comunicar com aquela figura que me fazia lembrar a escultura do mestre Soares dos Reis, O Desterrado, magnifica simbologia do espírito de decadência da nação, que imperava em finais do século XIX. Desterrada também ela estava num lugarejo esquecido por via de acontecimentos semelhantes aos de hoje ocorridos há muito mais de cem anos. &lt;br /&gt;A história repete-se duas vezes, escreveu um dia Marx: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Curioso, qualquer uma delas refere-se a uma peça teatral, será então de supor que a história ao repetir-se não passa de mera representação previamente encenada onde as pessoas se movimentam num palco colectivo sem esperança e embarca no mesmo conflito de identidade característica dos povos em vias de desenvolvimento.&lt;br /&gt;Segundo Aristóteles, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens de elevada condição e ser contada em linguagem distinta e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados pelo seu orgulho ao tentarem rebelar-se contra as forças do destino. De finais tristes e desmesuradas loucuras está repleta a nossa história contemporânea vergada a interesses individuais que geram disparidades e acentuam distâncias abismais entre ricos e pobres. &lt;br /&gt;Por sua vez a farsa é uma modalidade burlesca também de peça teatral caracterizada por personagens e situações caricatas, é um texto de carácter cómico que o autor faz com o objectivo de satirizar algum comportamento que ele considera nocivo para a sociedade, fazendo com que, quem assistisse ao teatro, visse como é ridículo ter aquele procedimento passando a repudia-lo. Isso fez com que a sociedade rejeitasse determinadas conduta, prejudiciais a todo o povo. &lt;br /&gt;Burlescos e cómicos têm sido os últimos tempos que vivemos em que parte da sociedade enaltece a falta de cultura, ética, a ausência de princípios, a desqualificação e, em prejuízo destas, se elogia a esperteza, a ganância, o exibicionismo folclórico e quem mediático se tornou pelo simples motivo de agradar às massas estúpidas que cultivam celebridades duvidosas. &lt;br /&gt;Seja como for, nenhuma delas impede a caminhada do mundo para a auto-destruição deste tipo civilizacional tal o conhecemos, cenário cada vez mais plausível no horizonte contaminado da terra, tragédia ou farsa a história moderna não é mais que o reflexo da nossa incapacidade de conquistar o futuro honrando o passado e de corrigir imensos erros transactos apreendendo com eles e não os repetindo, ou será a inevitável execução de ordens naturais programadas para mudanças sucessivas no universo onde habitamos? Outras culturas emergirão após o desaparecimento da nossa, nada se perderá e, como aconteceu até aqui, tudo se vai transformar. &lt;br /&gt;- Bom dia minha senhora! &lt;br /&gt;- Muito bom dia, respondeu-me sem qualquer surpresa nas mãos que lhe dormiam no regaço, quietas, enrugadas e queimadas por um estranho lume. &lt;br /&gt;-A senhora mora aqui, perguntei. &lt;br /&gt;-Há oitenta e nove anos e meio meu senhor, nunca daqui saí até hoje! &lt;br /&gt;-Tem mais alguém a viver consigo? &lt;br /&gt;-Não meu senhor, já há quinze anos que moro aqui sozinha, foram-se todos embora!&lt;br /&gt;-E não tem família? &lt;br /&gt;-Não meu senhor, morreram todos, fiquei só eu! &lt;br /&gt;Enquanto falava reparei que os olhos dela pareciam duas telas onde passavam imagens de cenas que só ela viveu. Olhos de velhos onde se acumulam saberes e visões esquecidas, vistas que a bruma dos anos embaciou e roubou o brilho mas nem por isso deixaram de ter a sua luz magnífica. &lt;br /&gt;-Deve ser muito difícil viver neste sítio sem ter companhia, murmurei. &lt;br /&gt;- Não meu senhor, tenho aqui a minha vida toda, criei-me nestes caminhos, corri os montes antes florestados na apanha das lenhas para sustentar o lume da lareira onde se cozinhava todos os dias, aqui me fiz mulher e me casei, foi aqui que eu nasci e fui muito feliz durante muitos e bons anos! Isto dantes era uma terra cheia de gente e de vida, havia festas e romarias, as vinhas estendiam-se quase até tocar no rio, os campos davam comida para as pessoas e para os gados. Depois começaram a ir uns atrás dos outros para o estrangeiro, isto parou de recompensar o esforço que se fazia para tratar a terra, o vinho deixou de valer dinheiro, ninguém o queria nem de graça, compravam outro que vinha de fora mais barato mas feito a martelo, desapareceu tudo até só ficarem os velhos, os cães e os gatos. Acabou tudo meu senhor até as árvores que existiam aqui em volta foram queimadas pelo lume dos fogos que já ninguém apaga.&lt;br /&gt;Nisto o cão levantou-se e começou a ladrar ameaçadoramente na minha direcção.&lt;br /&gt;-Cala-te Mondego, só te chegou o cheiro ao nariz agora? É um senhor do Porto que aqui está, veio visitar-nos disse ela enquanto lhe afagava ternamente a cabeça. O animal calou-se, rodou duas vezes sobre si próprio e voltou a esticar-se tranquilo no chão. &lt;br /&gt;- Sabe meu senhor, ele ficou velho como eu fiquei, está surdo e cego, só atina pelo faro coitadinho! &lt;br /&gt;-Pobre e dedicado animal, o que será que te prende aqui pensei! &lt;br /&gt;-Deve ser muito triste viver neste lugar sem ver nada para lá dos montes, retorqui. &lt;br /&gt;-Olhe lá para baixo meu senhor, não vê o rio douro? Está sozinho como eu e não se queixa, fazemos companhia um ao outro, vamos vivendo olhando-nos todos os dias! &lt;br /&gt;Apeteceu-me beijar aquele rosto sereno, contendo todavia esse impulso repentino, perguntei-lhe: &lt;br /&gt;-Posso dar-lhe um beijinho de despedida? &lt;br /&gt;-Beijos não meu senhor, desculpe mas eu só fui beijada por um homem em toda a minha vida, era o meu António que descansa além no cemitério, todos os meus beijos ainda são só os dele! &lt;br /&gt;Ah ínclito povo do meu país quase desfeito, roubam-te tudo o que te fez culto e empreendedor e impassível, continuas a envelhecer sentado numa pedra.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-5069224541047753907?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/5069224541047753907/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=5069224541047753907&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5069224541047753907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5069224541047753907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/09/solidao.html' title='Solidão'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-3588674140070042416</id><published>2011-08-18T19:31:00.005+02:00</published><updated>2011-08-19T15:30:26.517+02:00</updated><title type='text'>Fado Falado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Anda cá, vem sentar-te no meu colo, apetece-me falar contigo hoje de homem para homem sem ter de partilhar com o mundo que não me quer ouvir, as razões por que as palavras podem ser um fado.&lt;br /&gt;És ainda uma criança que não entende a grandeza do projecto que te colocaram nas mãos. Viver é muito mais que respirar, é muito mais que adquirir força nos músculos e empreender grandes caminhadas. Há só duas formas de viver uma vida; Uma é deixar que seja ela a escolher o caminho, a outra é sermos nós a definir o rumo e a marcar o ritmo das passadas no percorrer da direcção que pretendemos seguir. É como um barco que vai sempre para onde o comandante o manobrar.&lt;br /&gt;A tua irmã e as tuas primas, brincam com bonecas, são mulheres, nascidas mulheres, sempre desempenharão o papel de dar amor, consolar, ponderar, discernir, eleger, conciliar, planear e procurar o ninho onde cresçam sob sua protecção os seus descendentes. Tarefa dificil, gigantesco empenho, vocação natural. Trazem dentro delas na carta mestra das suas origens uma lâmpada de Aladino que realiza sonhos e pode tornar em realidade as mais extraordinárias fantasias. Porém só lhes vai ser possível pedir três desejos que no limiar da vida se ressumem a virem a ser rainhas ou princesas e poder casar com o homem mais rico e mais bonito do mundo.&lt;br /&gt;A lâmpada dos milagres esgota-se cedo, quando crescerem, chegará o dia em que vão ter de ser elas sozinhas a tentar realizar todos os sonhos que sonharam. Momento dramático esse meu pequeno em que sem ninguém que as possa amparar e aconselhar na tomada de tantas e dificeis decisões, sucumbirão em lágrimas aos golpes traiçoeiros do destino. Destino, lembra-te que segundo a mitologia grega, eram três mulheres, todas irmãs quem determinava o destino de todos os mortais. Mantém-se todavia dentro delas intacta a esperança, a mesma que vem de geração em geração a temperar os desenganos e as angústias dos dias que todos os que vivem experimentam. O sol que, aconteça o que acontecer, erguer-se-á todas as manhãs por detrás daquelas montanhas com a eterna missão de aquecer a terra e trazer de volta os sonhos e as ilusões que no dia anterior levou com ele.&lt;br /&gt;Se respeitares a natureza inteira da mesma forma com que ela vai ser generosa contigo e te vai amar, virás a ser um homem realizado alcançando aquilo que é afinal o desejo comum a todos os mortais; viver em paz e ser feliz.&lt;br /&gt;Respeita-a portanto acima de tudo e de todos por que sem ela jamais conseguirias pisar o chão deste mundo e se conseguisses, nunca sobreviverias num caos então tornado absoluto. Usa da mesma consideração para com os teus semelhantes e nunca permitas que conscientemente, dos olhos de alguém brote uma só lágrima de sofrimento causada pela tua indiferença e insensibilidade perante as fraquezas dos outros.&lt;br /&gt;Ainda não te contei o que foi a minha vida mas temo que tenha sido uma fotocopia tirada na mesma máquina que regista e duplica as vidas de biliões de pessoas espalhadas pela terra, por humildade nem sequer te falarei nisso. Teve tudo e de tudo como as deles como decerto vai ter a tua com uma pequena particularidade comparada com as de muitos é que, apesar de ter sido ela a escolher o meu caminho, momentos houve em fui eu a comandar o meu barco e a traçar os desejados nazimutes. Nunca hei-de saber se o fiz bem ou se o fiz mal mas aprendi e fiquei a saber que, por nescessidade, algumas vezes todos nós teremos de agarrar com força o leme da nossa embarcação e marcar o rumo que nos pode levar ao porto da salvação ou a desfazer-se contra as pedras.&lt;br /&gt;Olha duas rolas a cantar pousadas naquele pinheiro. Vieram de muito longe, atravessaram mares e continentes estranhos em busca de um lugar de paz onde criar os filhos. Tal como o seres humanos, invadiu-as um sentimento de melhor vida, um apelo do sangue herdado dos seus antepassados que num dia longínquo também para aqui vieram à procura do sol para criarem os filhos. Há um ninho naquele arcipreste, nesse mesmo ninho que vai resistindo às inclemências do tempo como ligeiras reparações feitas por eles. Dentro dele duas pequenas crias que os pais alimentam e desdobrando-se em permanente vigilância cuidam e protejem e fazem-nas crescer, há vidas dependentes nesse ninho tal qual como tu estás agora. Talvez nenhuma delas sobreviva e, depois de tantos desvelos e aprendizagem, deixem de voar vazadas por um tiro de caçador de mortes sempre prontos a destruir as belezas do mundo por que os homens gastam biliões para se instruírem e tostões para se cultivarem. Repete-se à frente dos teus olhos pequeninos as cenas centenárias que conduzem à preservação e continuação das espécies, caminho que a natureza percorre incansavelmente contra tudo e contra todos, sem ajuda de ninguém.&lt;br /&gt;O sol vai a desaparecer por cima de Melres, é um enganoso por-de-sol, por que nesta fase o astro rei não pôe nada, tira tudo, leva dentro daquele clarão vermelho, muitas fantasias, os sonhos de alguns e outras abundantes ilusões que não chegaram a concretizar-se no efémero espaço de um só dia com luz.&lt;br /&gt;Voltará amanhã então para repôr a esperança, vamos os dois vê-lo nascer do alto da serra da Boneca. Será um momento esplendoroso e inesquecível, maravilhosa e perfeita sinfonia que nenhum famoso compositor seria capaz de executar numa grandiosa partitura.&lt;br /&gt;Primeiro um clarão enorme elevar-se-á no céu a Este, uma bola de fogo crescerá lentamente como se das entranhas da terra se soltassem em erupções fantásticas, todos os magmas ainda incandescentes. Iluminará as cristas das montanhas e fará ressuscitar a vida em todos os recantos onde chegar. Sem vacilar um instante que seja, descerá às profundezas dos vales onde correm rios como corre o douro que é nosso que, num cintilar de ouro e prata, despertarão também. Trará com ele novas e diferentes fantasias, outros sonhos e muito mais ilusões que poderão ou não sobreviver como aconteceu aos que ele leva hoje consigo. É um ciclo Afonso, uma roda viva que não pára repetindo-se eternamente.&lt;br /&gt;Adormeceste no meu regaço, deves ter regressado agora no lugar de onde vieste, este mundo aflige, desilude e ilude, não é tão igual ao ventre de uma mãe onde toda a protecção é natural e todos os sonhos são permitidos, decerto nem conseguiste ouvir um terço das minhas palavras. Também não interessa para nada repeti-las por que a vida Afonso, não cabe em nenhum livro nem em nenhum filme e ninguém te poderá descrever por palavras o que ela é, como irá ser a tua por que apenas se conhece como foi parte da de alguns. A vida meu amor, é uma fado falado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;In "Insónias" de Manuel Araújo da Cunha &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-3588674140070042416?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/3588674140070042416/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=3588674140070042416&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3588674140070042416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3588674140070042416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/08/fado-falado.html' title='Fado Falado'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6772041881749111597</id><published>2011-07-24T20:12:00.026+02:00</published><updated>2012-01-28T12:08:42.214+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='projectores'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luzes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Insónia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='verão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='velhos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='solidão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='desespero'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cidadesurpreendente'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='noite'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fantasmas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='discoteca'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luar'/><title type='text'>Cidade Surpreendente</title><content type='html'>&lt;div dir="ltr" style="text-align: left;" trbidi="on"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A noite desceu sobre o rio tão repentinamente que entretido a contemplar a beleza do céu, nem sequer me apercebi. A luz do sol esgueirou-se no cume de uma montanha que delimitava o cenário que tinha pela minha frente e, a claridade crepuscular que ficou, apenas possibilitava vislumbrar as silhuetas do meu pequeno mundo, espaço demarcado que me cercava e um rio ao fundo a brincar com as mãos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Primeiro escondeu-se o fulgor que mostra tudo, desnuda, fere com brutal realidade e faz resplendecer as vidas das pessoas e as coisas comuns da terra, depois afluíram as sombras que ocultam, atemorizam e resumem a paisagem à condição de matéria sem vida. Começava um período sombrio, onde a visão fica diminuída, espaço propício para que a humanidade crie os seus mitos e temores incompreensíveis. Ruídos inexplicáveis, visões sombreadas incendeiam a imaginação de muitos, fazendo surgir os vampiros, lobisomens, bruxas, deuses coléricos e todo um exército de entidades fantásticas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Enquanto a terra faz o seu movimento de rotação, os morcegos e as corujas de pios agourentos, sobrevoam desajeitados o espaço à procura de insectos voadores para se alimentarem e outras espécies de bichos rastejantes e cobras, lagartos, sapos, javalis, ouriços-cacheiros e muitos outros que durante o dia permanecem escondidos nas suas tocas, vagueiam por todos os lados movidos pela necessidade de sustento, pela segurança que as trevas proporcionam e pela ausência de luminosidade que tornaria alguns quase cegos. Uma vida repleta de seres que a noite agasalha no seu manto protector eclode lentamente, a terra anima-se de uma forma completamente distinta da que mostra durante o período com luz e a natureza aproveita para continuar o processo quase perfeito de manutenção das espécies.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A minha janela aberta, a cadela a dormitar enroscada a meus pés lá fora um sopro quente e abafado de verão a percorrer os caminhos vazios da minha aldeia lado a lado com fantasmas de criaturas já falecidas a tentar reviver momentos de uma vida inacabada ou mortos à procurara por vingança, ou aprisionados à terra por actos ruins que praticaram durante a vida ou ainda uma pessoa que lhes jurara amor eterno. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Eram quatro, três homens e uma mulher, pararam por baixo da minha janela, acenavam-me com gestos de mãos e na penumbra não reconheci nenhum deles, não era gente do meu tempo, talvez fossem criaturas que aqui residiram em épocas passadas. Distingo-lhes as feições as próprias roupas cujo estilo me parece ser antigo. Ao contrário das discrições sobre fantasmas, de que eles seriam formados por um material enevoado, etéreo que escapa ao tacto dos vivos, estes apresentam-se demasiado reais, parecem-me tão autênticos que nem sequer me assustam. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Que estás aí a fazer, anda connosco, vem para um lugar onde tudo é maravilhoso, deixa de te preocupar com os outros, não precisas, isso é tudo uma mentira, o mundo não merece a tua preocupação, vem, tens gente à tua espera, os teus pais, os teus avós, o teu irmão e todos os outros a quem amavas estão ansiosos pela tua chegada, disse um deles&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Fora daqui, desaparecei, estou farto da vossa conversa, todos os dias a mesma retórica, deixem-me sossegado, respondi meio irritado. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Vais ter de vir, é uma questão de tempo, o que é que te prende aqui, achas que isso é viver, disse outra vez a mesma voz. Agastado, apontei com um dedo as luzes a tremular no horizonte negro e não disse nada. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-As luzes, tu estás preso às luzes mas olha que a ti já nenhuma luz te pode valer, acabou o teu tempo, vais ficar no escuro quando tudo se apagar, anda connosco, vem enquanto te podemos ajudar! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já não se encontra paz em lugar nenhum, balbuciei, durante o dia são os vivos a transformar-nos a vida num inferno, durante a noite são os mortos a proibir os sonhos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Fora daqui repeti agora elevando a voz. Se não se põem a mexer atiço-vos o cão! Foram-se por entre gargalhadas colectivas enquanto a minha cadela levantava a cabeça lentamente e olhava para mim como quem olha para ninguém, como um cão que sente pena do chefe da matilha que enlouqueceu. Julgo que perdia a minha autoridade sobre ela nessa madrugada, pareci-lhe humano e os cães gostam mais dos seus iguais e só nos obedecem e aceitam como líderes por que vêm em nós um cão como eles embora mais corpulento e mais forte. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um rumor surdo chegou-me amortecido pela aragem, um clarão desconforme no horizonte pressagiava a vizinhança da cidade surpreendente onde tudo sucede sem qualquer antecipado aviso ou compaixão e as criaturas coabitam amontoadas em silos gigantescos ignorando-se umas às outras, vegetando na selva supostamente civilizada. Aglomerado urbano e humano de grandes dimensões, a metrópole à noite transforma-se numa gigantesca central eléctrica produtora de luzes que matam as estrelas, ocultam o céu e despedaçam os sonhos. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os clarões intermitentes que rasgam a noite, não são apenas labaredas a ferir um firmamento pardo transformado em cemitério onde jazem as esperanças de muitos, são interferências nas vidas privadas das pessoas e agressões a toda a natureza envolvente. Nos bares e outros clubes de diversão nocturna que ela sustenta, desarticulam-se corpos nas pistas de dança, marionetas bizarras possuídas e dominadas pelo efémero efeito de pastilhas de felicidade instantânea misturadas com bebidas exóticas de elevado teor alcoólico manipuladas por pessoas dementes e as lâmpadas multi-coloridas como loucas, rebolam-se nos tectos e às vezes as potentes luzes dos holofotes que cegam, desvendam pedaços de semblantes de jovens velhos, olhos baços, esgares de alienação, expressões comuns características dos momentos de pavor antecessores da morte colectiva e inesperada. O potente e ensurdecedores sons de músicas estranhas, abafam as palavras, os sorrisos e as lágrimas. Regabofe, festança e folia são os ingredientes que a cidade serve em taças de desespero que os jovens sorvem até à exaustão. A cidade não dorme, surpreende! Lá fora haverá gente a dormitar estendidos nos chãos dos átrios exteriores aos bancos e a outros estabelecimentos comerciais. Desabrigados agasalhados precariamente por papelões despejados na rua, pessoas que nós todos expulsamos da fraternidade, seres a quem a cidade hospeda no seu espaço de todos, prostram-se sobre a indiferença, ameaçam morrer antes de o sol chegar. A urbe já não tem quem a habite durante a noite onde tudo pode suceder e a segurança enfraquece, os milhares que a enchem em quanto é dia, afastaram-se para a periferia na tentativa de encontrarem paz e sossego. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Tens frio? Tens fome? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Havia luzes artificiais acesas nas ruas e nas casas espalhadas pelos povoados rurais que se avistavam da minha janela indiscreta de onde tudo se vê, tudo se compreende e pouco ou nada se sente por ser interdito e politicamente incorrecto exteriorizar emoções.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Primeiro eram centenas depois e à medida que a noite avançava, iam-se apagando, uma aqui, outra ali como se uma mão gigantesca dispusesse da claridade e das sombras conforme a sua vontade ou as suas particulares conveniências. Tudo a recolher ao silêncio absoluto, tudo a desaparecer na escuridão onde os corpos descansam vigiados de perto pelos sonhos misturados de pesadelos medonhos. Sob vigilância do clarão distante, ficaram apenas duas luzitas a tremular no escuro, sentinelas atentas, candeias que perpetuavam os vestígios da presença humana que teme as trevas ou apenas artificial claridade de dois lares, moradias onde o esforço diário ainda não tinha terminado. Já não dedilhava a minha guitarra, pousei-a a meu lado e deixei que os sons da noite tomassem conta de todo o ambiente que me cercava enquanto o meu pensamento se fixava nas tuas palavras tardias, ecos que se repercutiam no meu cérebro e naquelas duas luzes teimosas em se extinguir.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Olho as minhas mãos, os dedos que fabricam acordes nas cordas do instrumento e entristeço-me por me sentir tão incapaz e pequenino perante uma noite que, sabe-se lá porquê, decidiu abrir-se para mim. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Onde estás? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Era já madrugada, dentro das quatro paredes daquelas duas habitações, alguém ultimava tarefas, talvez duas mulheres a preparar roupas para o dia seguinte, a limpar, a lavar, a passar a ferro os trapos de crianças que já dormiam acumulado trabalho que se repetiria todos os dias, todos os anos, nos seus lares e nos silos da cidade surpreendente limpando o sujo de estranhos para poderem sobreviver, mulheres que tantas vezes fazem o papel de mãe e de pai em simultâneo ou outras pessoas que acudiam a idosos enfermos desesperados na solidão dos dias e das noites. Apeteceu-me gritar nessa hora de deslumbramento, a injustiça do mundo molesta-me, quase me faz perder a esperança e então, imbuído por sentimentos solidários, desejei que os acordes e sons da minha guitarra pudessem chegar até aquelas duas moradias e amenizassem as canseiras de uma ou outra mulher martirizadas ou suavizassem os tormentos de um idoso doente e a paz e tranquilidade que o corpo e o espírito anseiam, descessem para todos sobre o mundo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O rio brilhava reflectido o luar, desenhos rabiscados na água tela de abstraccionismos, a decomposição da figura, a simplificação da forma, os diferentes usos da cor, o descarte da perspectiva, da técnicas de modelagem, a rejeição natural dos jogos convencionais de sombra e luz, ruídos, melodias, sucessão coerente de sons e silêncios com identidade própria, estranhas formas a gritar vivas na penumbra. O pintor é louco! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Onde estás? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Só o rio douro sentia e compreendia a minha reflexão em silêncio enquanto eu permaneci acordado até à última luz se apagar nas casas e a magia da noite que me fascinava, onde já esquecido do tempo, dos fantasmas que me perseguem desde que nasci, ia-me falando do clarão distante, apontando a cidade surpreendente onde os meus sonhos de felicidade se desvaneciam em cada grito lancinante dos que já não têm lá abrigo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A madrugada e eu, protótipo de futuro fantasma isolados e perdidos algures numa outra dimensão onde tudo é excessivamente real e a vida dói e tu a chegares demasiada tarde ao princípio da minha noite. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Onde estás? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quando amanhecer tu vais perguntar-me constantemente por que não consigo ser feliz! Dois barcos no rio a ressuscitarem das sombras, criação da minha mente exausta, duas novas esperanças ou apenas mais duas ilusões a juntar ao imenso rol de acontecimentos de uma vida.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A cidade vai acordar daqui a pouco, o clarão artificial que denunciava a sua presença, confundir-se-á com a luz de mais um dia que nasce e, liberta dos lixos nocturnos, resplandecerá distanciada e muito longe do alcance dos meus olhos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-6772041881749111597?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/6772041881749111597/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=6772041881749111597&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6772041881749111597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6772041881749111597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/07/cidade-surpreendente.html' title='Cidade Surpreendente'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7833563255904305827</id><published>2011-06-20T14:36:00.003+02:00</published><updated>2011-07-17T11:03:45.057+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fantasia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='porto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='navegadores'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='afurada'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gaia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='portugal'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='barcos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='leixões'/><title type='text'>A Barca de Fantasia</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: left" dir="ltr" align="justify" trbidi="on"&gt;&lt;strong&gt;Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Eu quero ver o mar!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Prenda!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7833563255904305827?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7833563255904305827/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7833563255904305827&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7833563255904305827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7833563255904305827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/06/barca-de-fantasia.html' title='A Barca de Fantasia'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7457832176015072112</id><published>2011-01-06T12:59:00.002+01:00</published><updated>2011-07-17T11:05:34.365+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='naufragios'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Desastre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='barcos'/><title type='text'>O Navio dos Mortos</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: left" dir="ltr" trbidi="on"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.&lt;br /&gt;É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.&lt;br /&gt;Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.&lt;br /&gt;As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.&lt;br /&gt;O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.&lt;br /&gt;É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.&lt;br /&gt;As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7457832176015072112?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7457832176015072112/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7457832176015072112&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7457832176015072112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7457832176015072112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2011/01/o-navio-dos-mortos.html' title='O Navio dos Mortos'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2282892542837766919</id><published>2010-12-06T11:23:00.006+01:00</published><updated>2011-12-06T12:35:10.254+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='fome'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Natal'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='leste'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='emigrantes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Alimentos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crianças'/><title type='text'>Stjepan, o menino Croata</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Entrei no supermercado quando a noite já se instalava na cidade. Era um rumor surdo que me chegava aos ouvidos de sons de carros e pessoas que passavam apressadas em chegar a casa, outras, centenas delas entravam e saíam num frenesi imenso que me perturbava e confundia. Raramente entro numa grande superfície, prefiro as pequenas lojas tradicionais onde posso olhar nos rostos de pessoas que tentam sobreviver cá em baixo como eu mas, atarefado nas aquisições próprias da época, tinha-me esquecido de comprar um queijo da serra, iguaria que não dispenso no Natal. &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Junto da porta da entrada senti que me agarravam pelas abas do casaco, olhei e vi um rapazito que aparentava não ter mais de oito anos, que me sacudia a roupa para chamar a atenção. Usava um gorro de lã na cabeça com desenhos estranhos coloridos e, a cobrir-lhe o corpito frágil, tinha um kispo azul que lhe ampliava a estrutura do físico. Nos pés uma botas –de - água azuis, completavam a vestimenta do pequeno. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;A mim que falo com um rio, com as casas e com as pedras, tudo o que é estranho me acontece. Nunca percebi por que será que toda a dor do mundo me encontra esteja eu onde estiver, faça eu o que fizer para passar incógnito na cidade onde ninguém me conhece. Tanta gente a entrar e a sair daquele centro comercial e tinha de ser eu a pessoa escolhida para ser confrontado com uma realidade que poucos querem conhecer. &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Já quando era um rapaz adulto, me sentia sujeito a situações semelhantes nesta época. Ou era alguém de mão estendida a pedir pão ou crianças ciganas abrigadas em precárias tendas cobertas de neve gemendo com frio e com fome. Chegava a casa transtornado, contava à minha mãe o que fizera para aliviar tanto sofrimento e ela, na sua extrema bondade dizia-me:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Deixa lá meu filho, és um homem de sorte, isso é Deus a querer falar contigo! Estranha a forma do Criador comunicar comigo, pensei. Se tinha assim tanto interesse em estabelecer uma ligação com um pecador como eu, devia começar por me ouvir quando inutilmente tento combinar os números felizes da loteria. Acontece que me deixa entregue a mim próprio sem saber que números fariam de mim milionário. Isso é que é o que eu, na minha igual forma de pensar aos outros todos, considero ser um homem de sorte. Acertar em cheio na combinação que todos tentam e que só alguns conseguem podia ser a confirmação de que a dita está comigo. Decerto Ele tem outro entendimento e vai-me dando a felicidade só na medida exacta das minhas necessidades. Os deuses têm métodos de acção que surpreendem os mortais, dizem que escrevem direito por linhas tortas e eu começo a acreditar nesse ditado antigo. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Olhei-o outra vez já sem surpresa e perguntei-lhe o que queria de mim sem perceber que tinha à minha frente um estrangeiro que não falava a minha língua. Olhou-me na profundidade de uns olhos vivamente azuis e falou qualquer coisa que eu não entendi:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Moja majka je gladan!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Desculpa mas não compreendo uma só palavra do que me estás a dizer, fala numa língua que eu entenda! Disse-lhe eu.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Pegou com a mãozita dele a minha mão como a pretender que o seguisse em direcção da entrada da a área comercial onde tudo se vende.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Hesitei em segui-lo e voltei a perguntar:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Que queres de mim pequeno?&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Moja majka je gladan!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Enquanto falava ia-me arrastado e confesso que comecei a ficar preocupado com tanta insistência e mais por não conseguir perceber os seu objectivos Às vezes não são só as barreiras das línguas que nos impedem de compreender os outros, são as circunstâncias com todo o inesperado que encerram e nos impedem de reagir objectivamente. Se tivesse pensado com mais calma, teria atingido num ápice as pretensões da criança. Demorou, mas como o óbvio é sempre aquilo que menos conseguimos ver, pensei que deveria ter fome e resolvi levá-lo à charcutaria e pedir um copo de leite e uns bolos para lhe aquietar o estômago. Olhou para o lanche que lhe coloquei à frente e depois, com ar triste, colocou os olhos no chão e não comeu.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;- Come pequeno, isto é para ti, anda lá não tenhas vergonha, eu pago o que tu quiseres comer!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Moja majka je gladan!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Já sei, tens razão, não é disto que tu gostas, vamos então ali à montra escolher o que mais te agradar!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Fomos ao local onde se vende de tudo o que são alimentos confeccionados, bolos, queijos, chouriços, chocolates e uma infinidade de outros produtos alinhados em vitrinas frigoríficas a despertar a atenção e o apetite de quem os vê. Apontou para a secção dos pratos pré-cozinhados e o seu dedinho quedou-se num tabuleiro onde a comida tinha um aspecto delicioso e parecia sorri para nós aguçando-nos o apetite:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Eram, repolhos recheados com carne moída, fatias de bacon e de presunto.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Mama voli Sarme, repetia ele a sorrir de felicidade.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Perguntei ao empregado se poderia servir um prato daquela comida para poder satisfazer a vontade do meu mais recente amigo. Disse que não, que as refeições ali expostas se destinavam a ser consumidas em casa dos clientes.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Pareceu-me que ele entendeu o que o homem me estava a dizer e, na tentativa desesperada de se fazer compreender, ia batendo com a mãozita no peito ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal negativo:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Monja majka je gla dam!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;O senhor do supermercado estava tão atónito quanto eu mas teve a ideia excelente de ir chamar um outro funcionário emigrante de Leste.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Apareceu um homem ainda novo vestindo a farpela própria de quem trabalha com carnes, manchada com sangue apesar do aspecto limpo de quem a vestia:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Que queres daqui miúdo, perguntou-lhe em português matizado de sotaque.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Isso já eu tinha feito por mais que uma vez,&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Ele não fala português, experimente falar na sua língua, pode ser que ele entenda! Disse-lhe eu. Deu-me ouvidos começando com uma lenga lenga da qual eu não entendia absolutamente nada:&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;- želite, zelite, zelite?&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;- Zovem se Stjepan. Ne želi za mene, moja majka je gladan kuće.! Mama voli Sarme!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;-Senhor, ele diz que se chama Stjepan e que não quer nada para ele, que é a mãe dele que está doente e com fome em casa e diz que ela gosta muito da comida que está neste tabuleiro a que ele chama de Same!.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;O mundo inteiro desabou sobre os meus ombros naquele momento. Fiquei sem poder falar alguns segundo e depois de me ter recuperado da emoção, mandei embalar três doses de Same o petisco preferido da mãe daquela criança.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Depois de passar na caixa, entreguei-lhe dois sacos, um em cada mão e ele afastou-se visivelmente feliz. Parou de repete e virou-se para mim a sorrir com uns olhos tão brilhantes como o azul de um mar que me diziam, obrigado.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;Vi-o desaparece nas ruas da cidade fria e surpreendente e fiquei a pensar que aqueles olhos intimamente azuis eram os mesmos ou iguais aos de uma pessoa muito querida que eu tenho guardada lá no céu.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify; FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="FONT-FAMILY: 'Trebuchet MS', sans-serif"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2282892542837766919?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2282892542837766919/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2282892542837766919&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2282892542837766919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2282892542837766919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/12/stjepan-o-menino-croata.html' title='Stjepan, o menino Croata'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-3187185750781398469</id><published>2010-10-02T18:45:00.001+02:00</published><updated>2010-10-02T18:45:34.914+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Melres'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='guerra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='casamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='soldados'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ultramar'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='tendeiro'/><title type='text'>Lucinda</title><content type='html'>Lucinda&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A terra de Melres é barrenta, quase vermelha, o pó do trilho tinge de escarlate as botas de água do Caga-na-Marca. É&amp;nbsp;encarnada a terra não muito diferente da cor do sangue que corre nas veias do mineiro que é vermelho escuro, carregado, tipo sangue de carrapato e meio espanhol.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já se enxerga em Moreira, o Douro aqui é plano, largo, espraia-se preguiçoso e quase vem beijar as beiras do caminho que percorre sinuoso a margem do rio. É lindo o verde persistente da ribeira de Melres enfeitada de choupos, castanheiros e frondosas nogueiras perfilados a todo o comprimento do espaço que ladeia o douro. Esta é a terra do mel; a doçura do precioso néctar lambareira, escorre pelas fraldas das serras em jorros de fartura. Em Vilarinho, Branzelo e Moreira, alinham-se nas várzeas os cortiços e as colmeias onde enxames de abelhas saem em busca do pólen da urze e do rosmaninho que depois hão-de de transformar em delicioso mel. Terra rica em tudo, até de lavoura com campos estendidos ao longo da beira do rio ou pendurados nas encostas e vales das serra das Banjas e de Sta. Iria. Já foi Vila em tempos e guarda na fisionomia das casas, traços de poder e de glória apanágio do passado. Melres como as outras terras circunvizinhas, pararam no tempo. Anos e anos a fio de sono dolente a aguardar o futuro que vem distante por de trás das nuvens do isolamento e do esquecimento a que foram votados. A força dos homens daqui esbarrou de frente com o poder da Pátria ávido de maior força centralizadora. Melres tem gente que a troco de parcas alvíssaras, recolhe os centos em volta e paga a Aguiar de Sousa que por sua vez paga a Lisboa terra que desprovida de sentido solidário, se entretêm no ócio e no gozo, enquanto o povo obreiro geme com fome. De nada têm valido as rezas na capela dos Paços. Dali, não fora a fé que persiste, só se aproveita a memória do tempo que faz nos dias das festas para acções meteorológicas:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Passos molhados, Páscoa enxuta, ou vice-versa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Em Moreira, lugar de terra barrenta se funde o barro na fábrica da telha e de tijolo burro mas até essa rudimentar indústria vai fechar por imposição da empresa carbinifica do douro, tornando assim a Vila cada vez mais dependente dos campos, do rio e da mina. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Há cenas dramáticas em Cimo de Vila. O lugar abençoado pela capela do Senhor dos Paços cria em seu redor, as mais belas e perfeitas donzelas da freguesia. Procuram-nas aos domingos e nos dias de feira, abastados lavradores de terras vizinhas e até cavalheiros de mais longe.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Sai da janela Lucinda! Esse homem vai ser a tua desgraça cachopa... é mineiro, morre-te na mina e deixa-te viúva com um bando de filhos nos braços...tens pretendentes mulher... olha o Toninho de Passos...prendado, limpo com quintas e tudo!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;É a Rosa Marreca a avisar a filha. A Rosa é tudo menos marreca. O sobrenome herdou-o dos avós que nem sequer conheceu. É uma mulher bem feita, alta de rosto cumprido onde se notam ainda traços da beleza que tivera na juventude. Cobre os longos cabelos negros, soltos pelos ombros abaixo, com um lenço de merino amarelo e vermelho. A saia de roda negra por condição tem bordados a branco temas regionais à base de flores silvestres. De linho é a blusa branca rendada e nos pés desaconchegados de meias, usa umas chinelinhas negras de verniz. A Lucinda ouve mas faz de conta, esta conversa é para boi dormir, não é a mãe quem vai casar é ela e, nisto de amores, as pessoas pendem para onde calhar. A moça é formosa, corpo de mulher talhado por mãos de artista. Na cara de faces coradas, aparece um nariz pequeno e bonito. Os olhos são de um negro impressionante e a cor morena do rosto, condiz com os cabelos soltos pelos ombros, que são também negros e aveludados o que a tornam assim tão graciosa. Tem a quem sair a Lucinda, a mãe era uma estampa no passado.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Lá está ela outra vez!...Ò mulher, meta-se na sua vida e deixe os outros. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Até parece que você não casou! Tinha de se calar, aquela última frase cortava-lhe o coração. Era verdade que tinha casado com o Lampreia antes não o tivesse visto na festa de S. Domingos. Teve de ir lá,. era a única oportunidade de poder estar perto dos seus admirados, o conjunto de António Mafra, de ouvir ao vivo aquelas músicas e canções ao som das quais muito bailou até esse dia. Foi assim de repente, não se sabe como. Cinco domingos de namoro e, quando deu conta já estava na igreja. E depois!? Aquela miséria do costume. Quatro anos juntos e três filhos para criar. E que é feito do Lampreia? Está em frente á Casa Grande, no cemitério, morto, esborrachado na mina que foi a sua perdição. Bem lhe dizia ela muitas vezes:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Ò Home sai da mina! Olha o que aconteceu ao Manel do Boi, Cristovão, ao Raposo. Ficaram lá todos, mortinhos, esganados no meio da negrura do carvão! Mas ele não lhe deu ouvidos, preso pela ideia da reforma que ambicionava, foi tentando a sorte ano após ano. Perdeu tudo, a reforma e a vida. Agora ela ao ver a filha ir pelo mesmo caminho, tenta desesperada mudar a agulha dos carris a esse sinistro comboio. Tenta apagar com avisos o fogo daquele amor ardente. Quanto mais ralha mais se convence de que não vale a pena continuar. À vinda e à ida, o mineiro passa por baixo da janela da cozinha e, a filha apaixonada, não tira os olhos daquela figura andrajada.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Parece bruxedo! O que é que ele te fez mulher!? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Meta-se na sua vida, deixe os outros em paz! Responde a Lucinda acenando ao Alfredo. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O tempo, esse maldito algoz que nos amarra e nos faz rodopiar, haveria de dar razão à Rosa; a Lucinda casou com o mineiro que não morreu na mina, reservara-lhe o destino um fim ainda mais cruel. Chamado pela tropa, não quis fazê-lo sem antes selar aquele amor pelos sagrados laços do matrimónio. A Lucinda estava grávida. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Naquele domingo de Agosto quem passava na rua das Vergadas ou assistia à missa na igreja Matriz, viu aquele espanto de mulher resplandecente enfeitada como nunca, de grinaldas nos cabelos e segurando nas mãos trémulas um raminho de rosas brancas que simbolizavam a pureza do seu doce coração levando nos olhos um brilho intenso de felicidade, e a cobrir aquele corpo airoso, um vestido todo branco alugado ao Zé Maria Tendeiro, completava o deslumbramento daquela aparição que desafiava todas as leis que os homens insensatos criaram para esta situação específica. Foi efémero o tempo de felicidade resumido nuns poucos de fins-de-semana em que ela ocupou o tempo a lavar, a secar e a passar a ferro as roupas da tropa. Os domingos ficaram todos lancetados pelo apitar do comboio prenho de militares em Campanhã. Embarcou para Angola e, um mês só decorrido, ela recebeu a par com um aerograma do marido, o telegrama fatal e lacónico:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Alfredo Duarte Saraiva 1º Cabo N.º 1256742, morreu em combate. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Primeiro os olhos abriram-se espantados, secos, depois, o mundo inteiro envelheceu naquele instante. A dor, a suprema dor do ser humano, esmagou-lhe o coração. Qual facada no peito, qual arrancar das víceras em corpo vivo. É dor de mais, é algo que não se consegue traduzir em palavras, é o fim repentino de todas as coisas, o fim do próprio universo. Rompeu-se a presa de Vilarinho, as lágrimas, desciam por aquelas faces belas, soltas, imparáveis, tremendamente líquidas. Num gesto autómato pegou na filhita ao colo e, com toda a força do carinho, apertou-a com alento contra o peito num abraço de tamanha plenitude que comoveu o próprio mundo. Antevia a Lucinda o mundo de solidão que a esperava, a loucura, a demência, o declínio que acarreta semelhante perda e a desordem em que iriam desbotar o resto dos seus dias. A partir daqui, fecham-se os olhos dos demais, ninguém irá querer ver a sua dor, ignorá-la-ão quase de propósito e só a morte pode vir um dia ser companheira desta mulher agora sozinha. De negro se vestiu, negros são todos os gestos, todos os pensamentos, todos os dias e todos os anos. Sente a indiferença de todos e a cobiça de alguns que se querem servir dela. Um dia, posta de lado, tornar-se-á num fantasma vivo e negro, numa bruxa. Ser mulher viúva, equivale a transformar-se num ser vivo com que ninguém se quer cruzar. Corresponde sofrer ao sol de todos os dias e, a morrer devagar todas as noites. Viuva de mineiro, deixa de ser gente. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A Rosa sua mãe, por experiência adquirida, sabia bem as tremendas dificuldades que a vida colocou à filha. Também ela sofria as mesmas dores, as mesmas mágoas calada, esse silêncio atroz que se gera no caos de algumas vidas onde não chega o abraço solidário a mão amiga, o lenço que pode secar as nossas lágrimas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Minha Senhora de Fátima ajudai-me, tende compaixão de nós, Senhor dos Passos. Senhor Jesus valei-nos! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A Rosa rezava ajoelhada na laje fria da singela cozinha em apelos desesperados àqueles em quem tinha maior devoção. Pedia clemência pelo infortúnio que por duas vezes lhe bateu à porta sem aviso prévio e sem o merecer. Não se sabe se essas orações foram ouvidas lá no Céu onde todos depositam esperanças mas o que consta é que as duas vivem o resto dos seus dias, felizes em Branzelo&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-3187185750781398469?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/3187185750781398469/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=3187185750781398469&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3187185750781398469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3187185750781398469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/10/lucinda.html' title='Lucinda'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7899308379504237051</id><published>2010-09-22T10:08:00.004+02:00</published><updated>2011-07-13T12:33:45.802+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ciganos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='caravana'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='raça'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gitanos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='vagabundos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='calé'/><title type='text'>Sangue Cigano</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;A caravana serpenteou pela poeirenta estrada nas fraldas da serra da Boneca. As carroças, puxadas por cavalos eram sete carregadas com os mais diversos utensílios que podem existir numa habitação e, sentadas por cima dos panais das tendas, seguiam as mulheres, umas ainda jovens, outras mais velhas segurando no colo crianças pequenas que baloiçavam ao sabor dos saltos que as irregularidades do caminho provocava nas molengonas. Ao lado com as rédeas dos animais presas nas mãos, caminhavam os homens e dois cães já velhos com aspecto de cansaço deitando fora da boca a língua seca pelo escaldante calor da tarde.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Uma lata acompanhada por diversos utensílios de cozinha pendurada num dos lados da carroça da frente, continha objectos que tilintavam e anunciavam distante a passagem da peregrina procissão.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Tinham atravessado a fronteira em Bragança vindos de remotas planícies espanholas numa sina pária, vagabunda que lhes lembra todos os dias que a pátria de um cigano é onde estão os seus pés. Estabeleceram-se em Vimioso depois de numa caminhada nómada e sem pressa obedecendo a milenares tradições permanecendo fiéis ao espírito livre do seu povo que os fazia cumprir uma espécie de judaica e errante maldição.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;O último acampamento conhecido tinha sido, até à madrugada, o campo da feira em Penafiel mas tiveram de partir para poder sobreviver à habitual hostilidade dos seus hospedeiros. Ninguém quer ciganos por perto; os efeitos de perversas xenofobias hereditárias, prolongam-se de família em família e só a Régua no Douro, Vila Verde no Minho e Oliveira do Douro em Gaia, estabeleceram com eles um pacto de não agressão. Pobres ciganos, inocentes da maioria dos crimes de que são acusados, vão sendo perseguidos ao longo da história, pagando de geração em geração o seu incondicional amor à liberdade.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;A fila aparecia no alto a dobar a serra tendo pela frente um cenário maravilhoso que os havia de fazer parar lá ao fundo onde a mancha na paisagem é verde e o Douro corre serenamente. Montaram acampamento por baixo dos sobreiros que ensombravam uma zona plana à porta da taverna do Belmiro e adivinhava-se que ali iriam permanecer algum tempo ramificando os negócios pelas terras vizinhas. Veio a noite que desenhou os contornos das tendas montadas em círculo iluminadas com foscas luzes de lampiões a petróleo e, cá fora, havia já preparativos do ascender de fogueira. Do meio do silêncio do sombrio lugar, começou a ouvir-se o trinar melancólico de uma guitarra espanhola. Palmas e sapateados anunciavam o principio da festa em quanto alguém com mestria dedilhava as cordas ao mesmo tempo que outro sacudia um pandeiro e um cantar dolente que fazia lembrar o vento a acariciar as desérticas planícies de Almería, enchia a noite de festa onde cá fora as mulheres vestidas de coloridos trajes, peça sobre peça, de castanholas batentes enfiadas no dedo polegar, outras agitando leques multicores, dançavam o flamengo transformando o ambiente como se sentissem em Sevilha, Córdova ou no bairro de La Mancha ou ainda em Úbeda ou Baeza aldeias brancas e solitárias rodeadas de olivais tão distantes daqui, exprimindo o espírito, a luta, o desespero, a esperança e o orgulho da raça Calé originária das terras difíceis de Sierra Nevada e toda a província Andaluza. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ao redor da fogueira entretanto acesa, a dança era guerreira e mourisca antiga herança que os Sarracenos perseguidos deixaram no seu último reduto em Granada e só as mulheres evolucionavam na magia da contra luz que as labaredas produziam e ouviam-se olés em uníssono quando o tocador abafava repentinamente as cordas ao instrumento e só esses sons manuais repercutiam na noite. A voz masculina do esguio e trigueiro cigano, progredia pelas trevas dentro solta, carregada de mágoa, nostalgia e saudades das terras longínquas de Espanha que tinham abandonado há muito.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Que bonitos ojos tienes.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Debajo de esas dos cejas.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Debajo de esas dos cejas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Que bonitos ojos tienes.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Os acordes firmes e melódicos compassados pela mestria do toque da mão do tocador no tampo do instrumento, atraíram o Ramiro que veio ao encontro da improvisada serenata como se seduzido pelo som harmonioso que um vento nocturno lhe fez chegar aos ouvidos. Ele desconhecia que nas suas veias embora, de nacionalidade portuguesa, corria abrasador um sangue a reclamar constantemente o regresso às práticas ancestrais da sua procedência. Sangue cigano herdado à séculos em circunstâncias indefenidas, seiva que lhe alimentava o corpo e parecia reconhecer os sons e as melodias e, como se pretendesse reviver a sua origem, obrigava-o a comportametos muito estranhos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ellos me quieren mirar.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Pero si tu no los dejas.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Pero si tu no los dejas.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ni siquiera parpadear.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Cada vez mais se acentuava o entusiasmo da festa e até o próprio Ramiro, infringindo a rigidez do ritual, já bailava com Vera Lúcia uma das jovens e decerto a mais bela das ciganas do acampamento numa intimidade tal que fazia crer que os dois, já se conheciam desde o princípio da vida.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Malagueña salerosa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Besar tus lábios quisira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Besar tus lábios quisira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Y dicirte niña hermosa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Que eres linda y hechicera.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ao fundo da tenda central, Leandro o velho patriarca assistia à dança preocupado enquanto a neta trocava olhares comprometedores com o jovem intruso que parecia fascinado com semelhante visão.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Si por pobre me desprecias.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Yo te concedo razón.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Yo te concedo razón.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Si por pobre me desprecias.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Yo no ofrezco riquezas.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Te oferezco mi corazón.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Te oferezco mi corazón.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;A cambio de mi pobreza.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ramiro já entregava o coração a troco só de um olhar da linda cigana e pouco ou nada haveria a fazer para parar a súbita afeição que nascera ali, a noite apadrinhava e prometia ir crescendo ao longo da dança pagã até se tornar perigosa. A guitarra ia marcando o compasso e a voz do cigano trigueiro era a mágoa feita cantiga no tremer das cordas vocais que prolongavam o fatalismo dos versos e enfeitavam ainda mais aquela maravilhosa noitada de sonho.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Malagueña salerosa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Besar tus labios quisira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Besar tus labios quisiera.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Y dicirte niña hermosa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Que eras linda y hechiera.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Que eras linda e hechiera.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Como el candor de una rosa…&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Ele deixou-se prender no amor de um momento por uma cigana morena de cabelos pretos e longos com uma flor de papel espetada, presos por uma fita vermelha e arrecadas douradas a pender em cascata das graciosas orelhas que o olhava na afeição de uns olhos tão brilhantes e negros como as mais negras e belas noites de Andaluzia, desconhecendo a tirania da lei a quem Vera Lúcia jurara obedecer.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;strong&gt;Na manhã do outro dia debaixo do sobreiral fumegava ainda a fogueira que aqueceu a festa mas o acampamento tinha partido logo ao alvorecer levado pela nómada caravana que serpenteava lá longe nos caminhos da serra das flores. O velho nómada accionara a sua condição de chefe e patriarca e antes que o ardor do sangue cigano da neta evoluísse até provocar mortes, deu ordem de partir cedo e para longe onde se escoasse para sempre o fogo daquela já maldita paixão. Ramiro chegou ao ser dia ao sobreiral em busca da mulher que o enfeitiçara e prendera e deparou com a solidão e abandono do sítio onde pela primeira vez se deixou encantar. Não viu sequer partir a caravana que levou a sua amada e mesmo hoje não sabe se ela é viva ou se é morta ou anda ainda vagabunda pelo mundo fora e, se lá longe, muito longe, o tenta agora esquecer como ele a recorda agora.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7899308379504237051?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7899308379504237051/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7899308379504237051&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7899308379504237051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7899308379504237051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/09/sangue-cigano.html' title='Sangue Cigano'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6153092303300497050</id><published>2010-08-11T11:05:00.000+02:00</published><updated>2010-08-11T11:05:09.724+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='incêndio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Bombeiro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='soldado da paz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='comandante'/><title type='text'>Bombeiro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A mão direita recusa-se a acompanhar o metro e oitenta de flacidez deste corpo outrora admirável.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A mão e a perna do mesmo lado, inactivas, desarmadas e mortas perante as necessidades do tempo de vida que ainda lhe falta viver, rejeitam as gloriosas marchas de outros tempos. A voz essa secou-se e emudeceu na garganta como se um pavoroso incêndio lhe tivesse queimado as cordas vocais.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não fala, não consegue falar mas aqueles olhos grandes perscrutam o espaço que tem pela frente aflitos, e como se fossem dois potentes altifalantes que falassem por eles, vão deambulado pela terra como emissários das coisas fantásticas que passaram por eles.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já não comanda as forças que devastavam o inferno em que se transformavam as casas e as serras em redor nem a sua voz firme ordena as estratégias de combate a tão traiçoeiro inimigo que deflagrava inesperadamente espalhando terror, dor e sofrimento. Lembra-se, lembra-se sempre dos braseiros terríveis, do clamor das chamas que nunca recusou combater mesmo a troco de nada apenas por solidariedade e porque num gesto responsável o jurou um dia fazer.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os olhos atentos desse tempo deram lugar a duas lanternas foscas e difusas que ainda gritam de revolta em cada amanhecer.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Encosta-se ao varandim do cais e tem no horizonte imediato a paisagem que conheceu e sempre admirou e amou desde a nascença. O douro corre-lhe nas veias e moldou-lhe este carácter invencível de guerreiro. De vez em quando a cortar este silêncio prolongado, soa o agudo som da sirene do quartel que comandou.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-É fogo! É acidente!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como se impulsionado por uma mola invisível ele, a quem as forças do corpo já abandonaram há muito, salta perturbado e parece que vai em aflição correr caminho fora apresentar-se ainda voluntário no quartel a responder ao lancinante apelo. Só a alma deste homem se inquieta e sofre mas o corpo alquebrado, negou-se mais uma vez a acompanhar a desprendida solidariedade que sentiu e sente sempre que aquele som ecoa pela terra.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Vejo lágrimas nos olhos do velho soldado, lágrimas gordas que lhe rolam pelas faces enrugadas e vão secar ali; compreendo a sua dor a sua aflição e comovo-me tanto por saber da indiferença do mundo perante tamanha e voluntária servidão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foram-se os anos, foi-se a dinâmica juventude que lhe permitiu correr por montes e vales de machado ou mangueira em punho em defesa daquilo que nem seu era mas sabia ser seu dever preservar, e também a companheira aquela que foi o seu amor. Foi-se tudo arrastado no vendaval da vida que o deixou solitário e triste.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Olha a confluência dos dois rios com o olhar preso num infinito que mais ninguém conhece como um louco que espera o navio da sua mocidade que trouxesse as figuras queridas do passado, os amores da juventude, as noites de vigília, o horror dos montes em inferno vivo e atracasse neste cais perdido do Douro só para lhe devolver a força e o vigor de antigamente.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Tudo é silencio agora; o apelo calou-se e já se perderam ao longe os sons estridentes das sirenes das auto-bombas dos camaradas que se fizeram à luta exactamente como no passado, como no seu tempo. Todas as lembranças pairam na mente angustiada do velho Comandante. O tempo, esse maldito carrasco que nos transforma em farrapos físicos, jamais terá dele a desistência a rendição. Luta ainda como o fizera dantes agarrado às cinzas do fogo dos anos que lhe queimaram a vida e o deixaram prostrado a sofrer os tormentos da velhice.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Bombeiro!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi o pai quem lhe ditou semelhante sina ao oferecer-lhe como prenda de anos aquele carrinho de folheta vermelho a imitar o real. Brincou com ele inocentemente a fingir que acudia aos fogos que socorria as desgraças de todo o mundo. Esse carrinho de lata que ainda conserva nas relíquias da sua meninice marcou-o como ferro em brasa que deixasse estigma definitiva e irreparável na sua longa historia e, definiu um processo tão deslumbrante que só a amaldiçoada trombose foi capaz de parar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nenhum navio chegará para atracar neste cais deserto, não há qualquer embarcação algures no horizonte mas se chegar, não trará certamente o esplendor de antigamente que consolasse e fizesse feliz este valente e heróico soldado da paz. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-6153092303300497050?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/6153092303300497050/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=6153092303300497050&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6153092303300497050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6153092303300497050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/08/bombeiro.html' title='Bombeiro'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-5750418221404670197</id><published>2010-07-02T16:21:00.001+02:00</published><updated>2010-07-02T16:21:45.906+02:00</updated><title type='text'>O Lobisomen</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Debruçado sobre a lareira situada no lado esquerdo da singela cozinha, sentado num banco de madeira comprido e remexendo nas brasas já mortiças com um pauzinho que se soltou da lenha amontoada a um canto do pequeno compartimento, o Lourenço contava aos dois netos, acachapados em frente do calor que o aparelho produzia, histórias tão mirabolantes que só mesmo os cérebros inocentes das crianças poderiam aceitar como verdadeiras. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Farto de rebuscar formas de ocupar o tempo nas longas invernias tão frequentes ali à beira do rio Douro, era com muita dificuldade que conseguia responder à natural curiosidade dos miúdos, espicaçados pela necessidade urgente de saber e aprender cada vez mais as coisas da vida e também única forma de matar as horas que a chuva impedia de passarem lá fora na rua a brincar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;É um homem aparentando ser já velho mas na realidade tem apenas cinquenta e seis anos penosamente contados nuns tempos pobres e agrestes que lhe maltrataram o corpo esforçado desde criança em trabalhos desumanos nas beiras do Douro. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Tem os cabelos matizados de branco, rosto aguçado e enrugado onde ao centro aparece um nariz robusto e por baixo dele um farto bigode caído nos cantos da boca e ligeiramente queimado pelo fumo do tabaco, que veste um casaco de bombazina castanha por cima de uma camisa de flanela azul com riscas amarelas que lhe entala o pescoço no colarinho e meio enfiada na cintura das calças de cotim militar. Na cabeça redonda e a cobrir a cabeleira grisalha, usa uma boina preta bastante russa de desbotada, a dar a impressão de ter incalculável idade.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A vida inteirinha passou-a no rio; primeiro na pesca do sável e da lampreia, depois nos barcos Rabões a carregar carvão antracite para o Porto. Dias, meses e anos a percorrer o rio com ou sem a claridade do dia num degredo que lhe consumiu a carne do corpo a par da juventude também sumida a remar como um galego neste pedaço do Douro. A filha Laurinda, sua única semente que germinou no campo miserável da sua existência, levou-a a tuberculose aos vinte e cinco anos de vida deixando-o amparo destes dois cachopos que além do sustento do corpo, reclamam dele cuidados e vigilância permanente. Ávidos de conhecimento e sem as atenções de uma mãe que pudesse satisfazer os naturais anseios dos filhos, parece que trazem com eles todas as interrogações do mundo e, o velho barqueiro rebusca na pálida memória as respostas que julga serem as mais sensatas e que possam ser a pedagogia mais apropriada a estes seres pequeninos. A mulher levou-a uma doença desconhecida apesar dos esforços do Dr. Amorim já lá vão dez anos. Teófilo o genro e pai dos dois moços, logo que se apanhou sem fêmea, abandonou as crias e enfeitado como um chibo com cio, partiu atrás da figura esbelta e avantajada de tetas da Esmeraldina da Seixinha por quem sempre manifestou estranhos apetites. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O barqueiro pousou o graveto na borda da chaminé, aconchegou-se um pouco mais para trás na espreguiçadeira e começou mais uma narrativa...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Aqueles uivos dolorosos que se ouviam bastas vezes em Cruz de Ferro inquietavam todo o povoado que surpreendido no meio do sono acordava transido de medo. Era um som angustiado como o lamento de alguém a quem roubaram a alma ou fêmea de cão desesperada a chorar a perda das crias. Todos sabiam da existência de lobos lá em cima na serra da Boneca mas nunca pensaram que as feras escolhessem precisamente a encruzilhada dos caminhos de Valmourisco para se exibirem todas as Sextas - Feiras à meia -noite, num queixa à lua que fazia estarrecer toda a gente. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Bem procuraram sinais que pudessem indicar o covil desses felinos predadores mas da mesma maneira que apareciam no ermo, também se evaporizavam de forma tão intrigante que se começou a pensar ser obra de seres de um outro mundo. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;As duas crianças de olhitos arregalados, assistiam ao desenrolar da história que lhes despertava temores e umas não sei quantas interrogações. Com as vistas fixas no avô, sem pestenejar, aguardavam anciosas pelo momento em que podessem respirar de alívio. Tardava a conclusão e, como quem narra acontecimentos da sua própria vida, o Lourenço assumia a postura própria de um verdadeiro contador de histórias e, sem a menor hesitação, continuava:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O Tardo chegou a ser acusado na praça pública como o responsável de semelhantes desacatos nocturnos e só o Paulo Gigueiro, o mais evoluído do lugar que até chegou a ser soldado na Guarda Republicano, cancelou as fortes suspeitas ao lembrar num ajuntamento popular que o Tardo é completamente surdo mudo e só pretende brincar com as pessoas e fazer algumas travessuras transformando-se e assumindo a forma de qualquer animal conhecido. Dizia que quase todas as noites quando descia a Cancelos, figurado em cão, num em gato, numa porca com bacorinhos atrás e até em cavalo, o endemoninhado saltava à sua frente no caminho à beira da Fonte da Preguiça:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Aquilo que berra lá em cima de noite, só pode ser o Lobisomem!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ninguém acreditou nele, quem em juízo perfeito acreditaria num velho borrachão sustentado praticamente com aguardente e vinho!? Ferido no seu orgulho o guarda calou-se. O desgraçado guarda habituado a matar em cega obediência ao comando do Porto, tinha ficado célebre em Felgueiras por ter morto com um tiro de Mauser um pobre lavrador que defendia com unha e dentes as videiras americanas que a ruindade do Governo queria arrancar, emudeceu ali. Não por que a razão o tivesse abandonado, mas porque a sua alma negra que tenta em vão branquear com álcool, o mandou estancar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Todo o povo, desaproveitando os palpites do Gigueiro, continuou a procurar as causas prováveis dos desacatos nocturnos; se eram lobos, o melhor seria deitar trancas aos portelos dos gados, enfeitar os cães com coleiras com espetos de aço cravados porque os bichos bravos com fome, até os cães estrucegam pelo pescoço e depois num autentico festim, devoram os restantes pedaços dos animais excepto a cabeça.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Falar, todos falavam a dar ideias uns aos outros que passavam quase todas por vigilância apertada e se possível lá bem perto da encruzilhada de onde pareciam vir os gritos dos animais selvagens, mas passar de conjecturas à prática, era quase impossível porque o medo condicionava todas as vontades até as dos mais avantajados de corpo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Aqueles que mais falavam ali a dizer que faziam e aconteciam, eram os mesmo que à meia-noite dessas fatídicas Sextas-feiras se mijavam todos pelas pernas abaixo ou se refugiavam a tremer de medo nos regaços das esposas quando ouviam os lobos uivar. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O tempo ia passando vagaroso por Sebolido sem que nenhuma das pobres almas se atrevesse a desafiar a matilha que impreterivelmente fazia aquele horripilante espectáculo todas as semanas. Encolhidos nos seus próprios temores, evitavam conversar sobre o assunto e os lancinantes uivos, passaram a fazer parte integrante dos banais acontecimentos da terra com quem todos já se sentiam familiarizados e, só o terror permanecia, agora com dia marcado e só depois das trindades. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Numa noite, o Raposo que regressava a casa vindo de Aveiro da tropa e calcorreou os caminhos desde a estação de Campanha até ali, foi surpreendido ao passar por baixo nas Portelas, pelos uivos aflitivos dos lobos e com a coragem própria de quem dá gratuitamente o corpo ao manifesto em defesa da pátria, jurou logo ali que havia de passar a ferros aquelas ameaçadoras feras.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Se bem o pensou e jurou, também passou rápido à acção e logo no dia seguinte fez constar os seus propósitos por toda a população. Porém, desconhecedor das últimas e novas ocorrência da freguesia devido à prolongada e forçada ausência, não sabia que teria de esperar uma semana para cumprir a promessa que já todo o lugar aplaudia como o mesmo entusiasmo que se aplaude um touro que vai a caminho do matadouro. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Mesmo correndo com lentidão o tempo, a Sexta Feira chegou embrulhada na esperança de todo um povo que já respirava de alivio só de saber que havia um voluntário para enfrentar as fera e, logo um tropa habituado, pensaram, a lidar com canhões e outros tipos de armamento capazes de desbaratar uma alcateia inteirinha. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Bateram as onze da noite num sino algures do outro lado do rio Douro e já o Raposo armado de sachola na mão, esperava os bichos na encruzilhada de Cruz de Ferro. Ainda era cedo mas ele, na sua condição de militar tinha de definir antecipadamente as estratégias do combate e, nesse caso concreto, não há nada melhor que fazer antes de tudo o reconhecimento do campo de batalha. O sino voltou a badalar horas mas o militar nem tempo teve de saber quantas pois um vulto de homem surgiu no meio dos caminhos e num instante transformou-se num lobo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O tropa venceu depressa a estupefacção e, antes que se lhe arrefecesse o sangue nas veias, avançou resoluto para o animal e espetou-lhe uma sacholada na cabeça que respingou sangue por todos os lados atingindo o Raposo na cara e ele sentiu como se tivesse sido varado por uma espada feita de gelo. Empunhando a arma numa atitude de fúria, viu o lobo transformar-se outra vez em homem e reconheceu-o naquele corpo a sangrar o embora filho de mães diferentes, seu meio-irmão Valdemar. Confuso, desorientado, completamente perdido no meio da encruzilhada experimentou a dor do corpo a metamorfosear-se e, em breves minutos era ele também um lobisomem a uivar como um louco para a lua. Tinha esquecido as orientações que aprendera na tropa e, como não sabia ler nem escrever, nunca tinha consultado os manuais de guerra que diziam ser, conhecer bem o inimigo, a primeira acção de um combatente. Ignorou outras não menos importantes e nem sequer sabia que quem for o oitavo filho varão de mãe que tenha sete filhas, não escapa a ser alma penada e também que, no acto de matança de um deles, quem receber no corpo pingos do seu sangue, virá a ser um Lobisomem. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Os pequenos suspiraram aliviados e a coçar os olhos enquanto o Lourenço parecia ter desperatado de um sonho. Depois de uma breve pausa, retomou a narração:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Sebolido acordou numa paz despreocupada ao verem o Raposo passar acompanhado pelo irmão Valdemar a caminho dos campos. Estava vivo, vencera a alcateia e acabara de vez com aquele inferno semanal. Todos se sentiam felizes e contentes mas longe de imaginar que na próxima semana haveria mais um lobo a uivar à lua.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Já há algum tempo que as duas crianças dormitavam, decerto nem ouviram toda a fantástica e tenebrosa história inventada há séculos com o propósito de lembrar às criaturas mais jovens os numerosos perigos que as sombras da noite agasalham. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Dormiam já tranquilos os anjinhos sob a protecção do Lourenço que com aquela renovada ternura que só um avô sabe dar, lhes pegou ao colo e foi deitá-los na mesma caminha encostada a um canto nos fundos da pequenina sala.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ali muito perto o rio Douro repousava das freimas do dia, dormia em paz e tão serenamente como se fosse um Deus.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-5750418221404670197?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/5750418221404670197/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=5750418221404670197&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5750418221404670197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5750418221404670197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/07/o-lobisomen.html' title='O Lobisomen'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-3317844544787907480</id><published>2010-07-01T19:48:00.000+02:00</published><updated>2010-07-01T19:48:26.793+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Santa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio mau'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Barqueiros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Magnifica'/><title type='text'>A Magnifica</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Quando o Zeferino Lucas transpôs mais uma vez a soleira da porta da miserável habitação onde vivia para marchar até ao rio, estava longe de imaginar que aquele casebre sem qualquer conforto haveria de vir a ser o abrigo de uma santa.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;As figuras veneradas, que todos consideram e bem, habitar exclusivamente num lugar inacessível, tão longínquo das coisas e vidas terrenas, excepcionalmente adquirem forma de simples mortais e, contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes em que um ser santificado apareceu encarnado neste mundo. Não porque não houvesse necessidade permanente de iluminar e amparar as almas que vagueiam num mundo sem qualquer protecção mas mais pela razão óbvia de que o lugar deles é no céu bem perto do ser Omnipotente. A Ele cabe administrar os destinos do universo, decidir o castigo ou o perdão e, só à sua Santíssima ordem poderão acontecer milagres.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Apesar de serem ainda sete horas da tarde o barqueiro deixou já deitados na cama os cinco filhos pequenos. Anoitece rapidamente e depois luz eléctrica que permitisse ficar mais algum tempo em serão, não existe nesta casa e mesmo nas outras que compõem o lugar salvo raríssimas excepções. Caminhou pelas ruas do Castelhão até à beira do Douro, foi à vida, ganhar o pão de cada dia a remar num monstro de madeira carregado de carvão antracite até Campanhã. Tripulante desses rabões negros, era como outros um escravo entregue à dureza da arte e às muitas fúrias do Douro.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Levou no coração as saudades de casa, da Palmira sua esposa que o via partir sempre com o coração nas mãos a recear o perigo que sabia, espreitava em cada curva do rio em cada madrugada de violento temporal, do Henrique, do Francisco, do Luís, da Ilda e da Isabel crianças pequenas que não compreendiam ainda as forçadas ausências do progenitor e ali ficavam naquele sombrio lugar sem pão, à espera que o seu regresso trouxesse ao menos uma côdea de broa para rilhar.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Nunca se viu semelhante miséria neste mundo, a vida aqui é um tormento, uma constante luta pela sobrevivência que nem todos conseguem garantir. Ficam-se mortos na tenra idade desconfortáveis, famintos, desnutridos e à mercê de todas as doenças do mundo. Morre-se por tudo e por nada, tudo são dificuldades mas vingar um filho é heróica tarefa que nem todos conseguem levar a bom porto.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;De vez em quando o sino da capela toca a anjinho e mais uma urna branca e pequenina segue o caminho do cemitério. Lá dentro vai a vida que era flor e murchou antes do tempo. É preciso nascer-se muito forte para resistir.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;A Palmira ficou a aconchegar a ninhada que dormitava toda numa cama só. Ali dentro das quatro paredes da casa de xisto faltava quase tudo mas o amor, o carinho e a ternura de uma mãe ainda não tinham acabado e mesmo subjugada pela desgraçada vida, aquela heróica mulher, desdobrava-se em cuidados a tratar dos filhos.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Era Inverno, o frio vindo das serras entrava pelas frestas da porta tangido por um vento muito forte e as mantas de aconchego daquela gente, eram retalhos de velhas velas dos barcos, pano cru tão crua como a realidade da vida.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Serenava a aldeia toda neste refúgio circundado por montanhas com o rio a ser sozinho a fábrica do pão e estalava enfim a paz na humilde casinha na Pia da Casca e um silêncio pesado caiu sobre a terra como um manto divino protector.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Bateram na porta da cozinha única na habitação e a mulher receando um assalto, espreitou pelo portelo antes de abrir com todo o cuidado. Era uma velhinha que batia, desleixada, suja, rota com os cabelos desgrenhados encharcada da cabeça aos pés e a tremer de frio que a olhava com uns olhos a reluzir na noite que eram uma súplica como a pedir-lhe; deixa-me entrar.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Era costume o Zefrino e a Palmira acolherem os pobres vagabundos que por ali passavam frequentemente; gente desalojada pela vida, pessoas vitimas das maldades de alguns e, num gesto solidário só conhecido pelos simples, acolhiam-nos e repartiam com eles o pouco que lhes fazia falta. Porém, já muitos indigentes por aqui passaram e tiveram abrigo mas uma velhinha como esta nunca tinha acontecido aparecer por estas bandas.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Ela entrou aconchegada pela anfitriã que ao reparar no seu miserável estado a lavou e vestiu com as suas próprias roupas. Depois de limpa, do caldo que tinha sobrado da ceia, (os pobres têm sempre caldo) encheu-lhe uma malga que a mendiga saboreou a sorrir. Rezaram o terço e a velhinha levantou-se da mesa da cozinha e foi espreitar pelo postigo e perguntou.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;- O que é aquilo amarelo lá em baixo?&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;-Já vi que a senhora não é daqui perto; aquele ladrão é o rio Douro onde o meu Zeferino ganha o pão! Rouba-me a alma todos os dias e deixa-me aflita todas as noites! Anda cheio, cobre o campo da Redondela todo, é uma aflição! Quando for dia, vê-se melhor, agora a senhora vai dormir aqui, não está tempo para se andar lá fora de noite e muito menos uma pessoa da sua idade, amanhã logo se vê o que se pode arranjar!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Deitou-a na sua própria cama, aconchegou-lhe a roupa um pouco mais ao corpo e foi fechar a porta da entrada à chave como fazia sempre que o marido estava ausente. Meteu-a debaixo do travesseiro e adormeceu tranquila e feliz por mais uma vez ter ajudado um semelhante. Há povo fraterno e generoso em todo o mundo mas este da beira do Douro surpreende pelo tamanho do coração.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na manhã seguinte, quando a claridade do dia entrou pelas frinchas do telhado, a Palmira levantou-se e foi certificar-se se a sua visita estava confortável.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;A cama estava vazia, impecavelmente feita como se ninguém tivesse dormido ali mas da velhinha nem sinal. A chave continuava por baixo do travesseiro e seria impossível alguém passar pelo janelo.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;A mulher estremeceu, era estranho o que estava a acontecer e muito mais estupefacta ficou quando vindo da cama da mendiga lhe chegou ao nariz um cheiro a rosa que se espalhou por toda a casa.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Nunca se ouviu falar de semelhante criatura e por mais que indagasse no lugar, ninguém disse ter visto pessoa que correspondesse à discrição da Palmira e nestes tempos de Inverno em Rio Mau quase ninguém passa.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;O Zeferino regressou a casa no dia seguinte; vinha assustado, a viajem, tinha sido um suplício num rio turbulento e em Crestuma o barco adornou e esteve à beira de naufragar levando os barqueiros para as profundezas das águas.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;- Estivemos perdidos Palmira, vimos a morte à frente dos olhos, só rezamos a Nossa Senhora, até o Bico aquele herege, se ajoelhou aflito!&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Ela olhou o marido comovida sem dizer palavra a julgar coitadinha, que a Virgem Maria era aquela velhinha a quem dera guarida na noite anterior e o tinha salvo de uma morte certa.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-3317844544787907480?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/3317844544787907480/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=3317844544787907480&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3317844544787907480'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3317844544787907480'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/07/magnifica.html' title='A Magnifica'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6147377347714091283</id><published>2010-06-27T11:32:00.003+02:00</published><updated>2010-07-01T19:04:44.122+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Coimbra'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quarteira'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quinta de Fontão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fado'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vinho Verde'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Algarve'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ponte de Lima'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fundo de Vila'/><title type='text'>Serenatas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;As guitarras trinaram num parque de campismo algarvio. Foi em Quarteira numa noite quente de sabores diversos a pairar num espaço verdadeiramente comunitário onde pessoas de muitas nações, conviviam e partilhavam usos e costumes durante uns dias de férias nesse ainda paraíso, ainda virgem e quase perfeito lugar da terra. Foi há muitos anos e para me recordar de tudo o que vivi então, recorro a algumas memórias desse tempo mantidas com carinho no meu imenso tabernáculo desta vida.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Às dez horas da noite começaram a ouvir-se os primeiros acordes que rapidamente se espalharam no ar e levaram ao grande acampamento os sons distintos de Coimbra, a melodia de encantos, uma expressão artística musical difícil definir, não só pelas vastíssimas influências musicais e culturais que geraram a sua raiz, mas também pelo infindável rol de sentimentos que no ouvinte desperta. No entanto, após se mergulhar na sua sonoridade, a consigamos caracterizar em três adjectivos: singular, profunda, marcante.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Originária música popular de executar diferente que lhe confere sons divinos parecidos com lamentos ou gargalhadas de deuses que, uma grande parte dos estrangeiros presentes, nunca tinha conhecido e escutado. Música dos estudantes, do antes e do depois, dos que de terras distantes em Coimbra sofriam a dor da ausência, os tormentos próprios de que sofrem todos os que almejam o saber.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;À guitarra, instrumento construído de encomenda pelo mestre Grácio, estava o Fernando Cunha Pereira (Figueiras) moço em plena juventude a quem a permanência numa insigne faculdade transformou num dos melhores guitarristas do seu tempo. Marcando os compassos com mestria na viola, estava a Tucha, esposa do Fernando e, no centro da imensa roda que se formou num instante, aparecia o Quim de Lourido e eu um ser nascido e criado à beira de um rio, na força dos meus trinta anos, sem trajes académicos merecidos a cumprir a praxe, a dar voz aos poemas que sempre constituíram o repertório das serenatas monumentais da Sé Velha. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Se tu quisesses ser minha&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Minha nau, dos meus desejos&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Dava-te a vida inteirinha&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Dava-te a vida inteirinha&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Num ramalhete de beijos&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Foi com este poema, o Fado dos Beijos que iniciei os meus cantares. Em todas as serenatas que fizemos um pouco por todo país, aparecia sempre uma mulher diferente a inspirar e a alterar o calendário antecipadamente acertado que, rapidamente e devido às emoções do momento, deixavam de fazer sentido assim como todas as escolhas premeditadas. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Era de uma de beleza extraordinária aquela holandesa, qualquer coisa só imaginada num sonho, uma perfeição de mulher, um espanto que produzia deslumbramento em todos os homens e e até em muitas mulheres da assistência. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Cada vez mais fascinado por aqueles olhos imensamente azuis, apurei o hino, aperfeiçoei a voz e num esforço muito para além das minhas limitadas cordas vocais, enfeitei ainda mais aquela noite de sonho.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Preferia, ò minha amada.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Ser um pobre, não ter pão.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Antes morrer sem ter nada.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Antes morrer sem ter nada.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Mas sem beijar-te, isso não.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Foi ela a inspiração do cantor que rendido a semelhantes encantos lhe dedicou esse fado. Lembro-me que ela sorria o que me fez convencer que estava a adorar a minha extremosa prenda, porém, vinha a saber depois, ela não entendia uma única palavra de português e, se mostrava tanta alegria ao ouvir-me, era apenas sensibilizada pela melodia suave e mística da guitarra e pelo maravilhoso encanto que a canção de Coimbra tem. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;A noite acabou tarde com os sons das guitarras a entoar a balada da despedida e, um clarão de vozes em unissono, fez os olhos emocionados de muitos portugueses e de alguns estrangeiros tomarem o tom de água quando repercutiam no silêncio que se fez e, a minha voz transformada em lamento, dizia a cantar as palavras do belíssimo poema.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Coimbra tem mais encanto &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na hora da despedida. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Não me tentes enganar, &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Com a tua formosura, &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Que para além do luar, &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Há sempre uma noite escura.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Coimbra tem mais encanto&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na hora da despedida.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;E as lágrimas do meu pranto &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;São a luz que me dão vida. &lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Coimbra tem mais encanto&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Na hora da despedida.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Quem me dera estar contente,&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Enganar a minha dor,&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Mas a saudade não mente,&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Se é verdadeiro o amor.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Calou-se a musa, finou-se o encantamento e eu decepcionado, jurei ali mesmo nunca mais participar em serenatas mas, passados uns dias, já em Ponte de Lima nas velhas escadarias de pedra do soberbo solar da Quinta de Fontão,&amp;nbsp;&amp;nbsp; propriedade do Sr. Abílio Teixeira e da esposa D. Lurdinhas simpático par que&amp;nbsp;foram elegantes e magníficos anfitriões, se ouvia numa noite tão bela como o são todas as noites daquela encantadora terra do Minho, o trinar da mesma guitarra, da mesma viola e a mesma voz a entoar as mesmas canções coimbrãs dedicadas a uma outra mulher, não tão linda e deslumbrante como a holandesa de Quarteira mas tão ou mais merecedora da minha extremosa prenda como o são todas as mulheres deste mundo.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-6147377347714091283?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/6147377347714091283/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=6147377347714091283&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6147377347714091283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6147377347714091283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/06/serenatas.html' title='Serenatas'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2115928051392229974</id><published>2010-05-18T12:58:00.004+02:00</published><updated>2010-07-01T19:07:54.175+02:00</updated><title type='text'>Germunde</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Germunde&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Germunde é uma terra feia, carrancuda e fria. Aparece estampada na encosta junto ao rio Douro, como um ovo podre atirado a uma parede com as claras negras e viscosas a escorrer até à água. Súbita se venho dos lados das pequenas povoações da Póvoa ou de Pedorido. Da terra de Melres, que espreita no outro lado do Douro, vê-se como nódoa sombria a escurecer a serra em frente. O entulho desprende-se cascalhudo e solto até entrar nas águas do rio a imortalizar a imagem que antecipa&amp;nbsp;um inferno. Enormes pavilhões cobertos com chapas de zinco e fibrocimento, assemelham-se a escangalhadas tendas de campo de concentração abandonado. Mais ao centro em zona previamente escolhida e bem longe dos barulhos da lavaria, há casas que são vivendas misturadas com grandes prédios urbanizados e barracas pré-fabricadas que abrigam o pessoal médio. No meio destas existe um campo de ténis, piscina, bar luxuoso e restaurante asseado e limpo para os mais ganhadores de salário.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Por baixo de uma enorme placa de betão, fica o refeitório da classe operária, designada por indiferenciados. Dentro deste espaço austero e frio, há mesas de madeira alinhadas na totalidade do comprimento da cave&amp;nbsp;com bancos corridos também alinhados sobre um chão de cimento bruto. A delimitar as diferentes zonas, há cedros e ciprestes plantas que emprestam um ar de cemitério a este local sinistro.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O sol ainda não despontou em Germunde e decerto não vai despontar, distante lá em cima no céu, passa por trás desconfiado e ensombrei-a a terra que já de si é preta. A claridade chega pelas oito e define um pouco mais a estrutura esquelética do aglomerado. Germunde não é cidade, não é vila, nem aldeia. Nem uma coisa nem outra, o que mais parece, é um espinho cravado na encosta do monte. Ninguém é de Germunde, a história não reza esta estranha espécie de vida aqui, mas ela existe trazida de longe, importada, alguma aciganada, tipo gente infeliz dos colonatos árabes. Ninguém se conhecia antes como não vão ficar conhecidos depois. Convivem&amp;nbsp;nas tarefas&amp;nbsp;mas ignoram-se, partilham estes espaços de terra, buracos no chão e toneladas de entulho, como quem partilha a água de lavar tripas de porco. Germunde transformou-se um nicho para alguns vampiros que chupam o sangue a quem lhes cair nas mãos. Servis e fiéis a terceiros. transformam o castigo desumano e duro, em obra de misericórdia abusando da debilidade e falta de sustento desta infeliz gente. Aqui só se pára para morrer ou mijar e até a água das nascentes é férrea e preta a condizer na perfeição com o flagelo que inutilmente tenta lavar. Bem se enfeitou ela de natureza vinda de fora, mas em vão, aqui não nasciam cedros, nem ciprestes, nem rosas, neste local só crescem urtigas azevinho e mato. De Germunde ninguém gosta, até os que aqui circunstancialmente hão-de de nascer, vão abalar para longe na primeira oportunidade que surgir e decerto não voltarão mais a este deserto terível. Em tempos remotos ouve uma outra espécie de vida em Germunde, o edifício onde funciona o restaurante, foi solar de fidalgos, lavradores abastados no nome, que quem lavrava a terra eram outros. Tinham cavalos e coches meio de transporte para se deslocarem aos salões do casino da Granja onde desbaratavam à sorte o que os outros produziam. Os almoços também eles lautos, eram no restaurante Galo de Ouro em Aveiro e começava sempre por uma avantajada caldeirada de enguias a que se seguiam bifes de vitela enfeitados com tartulhos. Empanturrados adormeciam e ressonavam alto. Ficavam por lá dias e dias até gastarem dez anos de salário de um cavador de terra a beber champanhe como quem no dia quatro de Agosto na festa do S Domingos, bebe uma esturraçada de água fresca do cântaro do Fome Negra.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Esta era pois a espécie de vida que em tempos antigos proliferava em Germunde, mas nesse tempo ainda não se adivinhava o calvário que vinha a seguir. Aquilo era só o prelúdio de uma tragédia que haveria de levar à destruição de centenas e centenas de vidas. Germunde é uma terra propícia às maleitas, nasceu ou foi criada à imagem e semelhança do inferno&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Bem ao centro do cenário, assente em patamar de entulheira, discreta mas presente, o possível disfarçada, fica a boca do suplício; a entrada da mina. Por aquela escancarada boca vão entrar as filas dos desgraçados que vieram a caminhar há horas através dos montes. E ai estão eles. Os gasómetros prenhes de carboneto que balouçam nas costas dos mineiros vão entrar em acção.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Uns atrás dos outros, desaparecem ao fundo da ampla galeria transformando-se em pequeninas luzes trémulas e difusas. Lá vão o Marto, o Pestana, o Maneta, o Isidro, o Rã e os outros todos. Caminham cem metros pelo lado do trilho das vagonetas e ao fundo deparam com três enormes poços. O denominado PG1 à direita e mais à frente&amp;nbsp;à esquerda, fica o PG2 e na galeria da Santa Bárbara fica o trinta e cinco.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;No primeiro, dois elevadores fazem a descida. As Jaulas que consistem num patamar de madeira de dois metros e oitenta, por um metro e trinta, cercado com grades de ferro, é a cabines onde vão os homens misturados com os materiais. Quando um desce, o outro sobe carregando uma vagoneta cheia de carvão. Os mineiros descem também aos poços por escadas de madeira que de dez em dez metros têm um patamar e assim sucessivamente até atingir os trezentos metros de profundidade.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Chegados ao fundo, novas galerias se formam onde se faz então a distribuição do pessoal pelas diversas frentes de serviços. Uns para um lado, outros para outro, dispersos pelas travessas a começarmos nas seis e acabar nas trinta e cinco. Uns cavam o carvão, outros enchem à pá pesados carros de mão construídos em madeira.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Vê-los agora é penoso. Quais toupeiras, essas escolhem o terreno onde pretendem cavar, eles não. As marcas foram definidas antecipadamente e seja duro ou seja mole, tem de se avançar sempre. Inclemente e dura a vida lá debaixo da terra. Molhados, sempre ensopados, se não é do suor é da água negra que pinga incessantemente do tecto das galerias vão torcendo as negras camisolas único aconchego e protecção do tronco. Das mãos e dos braços com feridas feitas pelas pedras afiadas e soltas, escore sangue que se mistura com a massa preta do carvão antracite. Transfigurados em camisola interior ou de tronco nu e em cuecas, assemelham-se a penduricalhos vivos. Nenhuma máscara lhes protege o nariz e a boca e o pó negro entra livre até aos pulmões provocando a fatal silicose.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ah mineiros do Pejão! Que erigirá o templo das vossas memórias! Quem lá há-de chorar o vosso inenarrável sofrimento. Que cá fora a nortada sopra&amp;nbsp; agita as águas do rio e&amp;nbsp;as folhas dos salgueiros tentando desesperadamente abafar os vossos aflitivos gritos. Ela que vos conhece desde meninos, que afagou o rosto da vossa juventude lancetada, sofre também em rajadas de revolta.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Pára rio Douro, escuta os lamentos dos homens enterrados vivos e lava-lhes as feridas do corpo e da alma com as tuas doiradas águas.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Abrandai e respeitai-os barcos rabelos que da Régua chegais desfraldando ao vento as vossas velas brancas e nas pipas trazeis guardado o precioso néctar que outros escravos fizeram, mas que não corre nas gargantas dos pobres.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Acalma-te&amp;nbsp;vento, norte não vês que é impossível abafar o desespero destas almas famintas de luz!? Deixai todos que se faça silêncio, que cá fora a noite desça solidária com a noite deles e que Deus e Santa Bárbara os protejam e velem então pelas suas desamparadas almas.&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2115928051392229974?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2115928051392229974/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2115928051392229974&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2115928051392229974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2115928051392229974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/05/germunde.html' title='Germunde'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2142898363844279039</id><published>2010-05-08T14:34:00.000+02:00</published><updated>2010-05-08T14:34:15.938+02:00</updated><title type='text'>Douro</title><content type='html'>&lt;object style="background-image: url(&amp;quot;http://i3.ytimg.com/vi/nLaQCPqR3PM/hqdefault.jpg&amp;quot;);" width="425" height="344"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/nLaQCPqR3PM&amp;amp;hl=pt_PT&amp;amp;fs=1"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/nLaQCPqR3PM&amp;amp;hl=pt_PT&amp;amp;fs=1" allowscriptaccess="never" allowfullscreen="true" wmode="transparent" type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2142898363844279039?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2142898363844279039/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2142898363844279039&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2142898363844279039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2142898363844279039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/05/douro.html' title='Douro'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7082299899604806306</id><published>2010-04-12T12:24:00.012+02:00</published><updated>2010-10-25T14:18:32.287+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Barqueiro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Carta'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><title type='text'>Cartas de Amor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Esta história nunca devia ser contada. Acontecem-nos coisa na vida que mais parecem ser autênticos milagres ou coicidências tão estranhas que nos marcam e deixam comovidos. Já naveguei muito por este rio todo. Conheço-lhe as manhãs tranquilas em que espelha o azul do ceu, as ramagens das árvores ribeirinhas e as casas. Sei dos dias de cheias descomunais em que se transforma num colosso de água e não permite um abraço. Escuto os rumores da sua aflição qundo invade a terra e procuro compreender a sua história. São muitas as recordações, muitas mais as vezes em que deixo o meu barco boiar apenas ao sabor da corrente para poder sentir o que o rio sente preso num leito que conquistou à força. Tantas coisas se passaram sobre este inconstante lençol de ilusões que se torna dificil descrever todas elas. Todavia, e por que esta história me marcou profundamente, tenho de a partilhar convosco. Eu conto:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Era uma vez um barqueiro que se apaixonou por uma Ninfa do Douro. Conta-se que eram belas e fantásticas as cartas que ele lhe escrevia e que possivelmente por que todas seguiram as águas do rio dentro de garrafas, nunca lhe foram entregues. Muitas se perderam, outras vagueiam ainda ao sabor das correntes do rio ou navegam no mar alto à procura do seu destinatário, mas uma delas, talvez aquela que se pensa ter sido a última, não se sabe porquê, sobreviveu a tempo de revelar o seu conteúdo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um dia, viajando pelo rio como regularmente o fazia, encontrei a boiar na água uma garrafa de cor branca, transparente. Recolhi-a para bordo e vi que tinha uma mensagem no seu interior. A água já tinha entrado na vasilha e o papel da carta, apresentava-se com alguma humidade. Deixei que o sol fizesse o seu trabalho de secagem e depois desdobrei-o com todo o cuidado e profanei a escrita que alguém enviou pelo correio do desespero. Tinha um nome de mulher e um endereço como se fosse uma carta e estava assinada por um homem.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Era mesmo uma carta de amor talvez igual a todas as cartas de amor que até hoje se escreveram e começava assim:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terra dos sonhos, 31 de Dezembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"... O rio deixou de ser nosso, agora é só meu e do meu barco. Há ventos de Leste que perturbam as águas ainda há pouco tranquilas. Há vagas que se formam não sei onde e agitam este lençol liquido de ouro. A paisagem mudou radicalmente, perdeu o verde e a imensa esperança que depositei nela. Os tons são castanhos, vermelhos da aflição pungente que antecipa uma morte anunciada. Despem-se os choupos, as nogueiras, os amieiros e só os salgueiros insistem nas festivas vestes. Não sei se a tristeza destes dias ásperos, conseguirá vencer a minha força de barqueiro, este desejo imenso de te procurar mesmo sabendo apenas que existes algures na crista de uma vaga que ameaça o meu barco ou num deslumbrante pôr-do-sol já falecido. Desconheço o amanhã que se anuncia em cada batida do meu peito onde voltarei a esperar-te como sempre, mas lembro-me do passado a reluzir de sol nas tardes magníficas do Douro a bronzear as formas mágicas do teu corpo meu altar, meu último e desejado porto. Recordo os ventos atentos, as suaves brisas que te agitavam os cabelos que eram então fios de ouro a correr como as puras águas do meu rio ou como se eles fossem as minhas peregrinas mãos desdobradas em ternas carícias que nunca tinham fim.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Naveguei pelo teu ser como se um mar distante me chamasse e tu eras a Sereia tentadora a desviar-me o rumo, a enlouquecer-me num lamento de guitarra agora transformada em musa nos sonhos que povoam as minhas noites desesperadas sem te ter.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lembro a Natureza inteira a cantar um hino para te agradar e os sons dessa antiga melodia permanecem ainda a enfeitar os meus dias e as longas noites de solidão que tu deixaste.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Chegou o Inverno; navego agora solitário rumo ao mar. Não, não irei numa viagem para alem do horizonte. Ali nada haverá que me possa encantar. Não, vou apenas ver a foz onde as águas do rio se confundem com as do oceano e olhar pela última vez o porto da tua ausência, perguntar às gaivotas famintas da Afurada, se te viram passar sorrindo algures no cais. Vou atracar em Oliveira do Douro ou na marina do Freixo e subir ao bar onde um dia à tua espera, só imaginei o teu sorriso. Talvez fique por lá algumas horas porque eu só quero estar perto de ti ou então, desalentado, zarparei rumo a montante e só te deixarei nesse porto o meu olhar. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Urge navegar rio acima. Esperam-me em Porto Carvoeiro ou em Pédemoura onde atracarei num porto agora já sem barcos. Chamam-me em Bitetos, no Castelo como quem chama a Primavera que tão longe ficou no teu olhar. A ilha onde o amor foi só um relâmpago imaginário, é ali em frente e apenas silêncio se houve em seu redor.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sinto frio, treme-me o corpo, devo estar doente ou talvez seja apenas a imensa dor de te não ter. Escrevo, escrevo sempre para transformar a tristeza em saudade, a solidão em lembranças para que um dia a nossa história que devia ser de amor feliz, seja lançada na corrente deste rio que eu amo e as sua águas apaguem para sempre o fogo das palavras que te dedico hoje e que são a narrativa que só conto a mim mesmo por que sei que nunca lerás esta carta. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Correm-me lágrimas dos olhos, rolam-me pelas faces, misturam-se com as gotas da chuva e caem nas águas do rio que as vai levar para longe e assim, tu meu amor, nunca saberás que um dia chorei por ti.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Chegou o Inverno e o rio despovoou-se e agora é só meu e do meu barco sentinela atenta em busca da tua imagem adorada. Nunca te disse que te amava, talvez por que pressenti que tudo era apenas ilusão. Coisas que o rio produz, devaneios, mentiras com que me tenta enlouquecer.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Somos ausentes um do outro sem nunca nos termos encontrado e no entanto, tu és a imagem materializada de um sonho que sonhei sobre a água, uma criação só minha por que te inventei dentro de mim e sabia que, para além da fantasia da minha mente exausta, tu existias fosse de que forma fosse. Pobre de mim que tive medo de ultrapassar as barreiras do fantático para não me decepcionar nunca, que abafei na alma as ilusões pensando evitar o sofrimento que quem segue um sonho tem de padecer. Sabia que um dia arrependido, haveria de olhar para trás e esse dia é hoje por que o coração me diz: &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Que fizeste com os teus sonhos? Enterraste-os no fundo do teu rio com medo de perdê-los. Tentaste a dureza da indiferença perante os impulsos que te dei. Bati no teu peito alucinado, fiz tudo o que pode fazer um grande amigo e tu amordaçaste-me, deixaste-me descer ao poço frio onde guardas todas as lembraças. Agora é tarde, demasiado tarde, eu transformei-me em pedra, sou um velho relógio a bater as horas que perdeste, morri, já não me sinto como um louco a palpitar como daquela vez em que ela apareceu materealizada sobre a água a sorrir para ti. Por tudo isso sofres, desperdiçaste a tua vida, deixaste os teus sonhos morrer dentro de mim.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O tempo passou sobre as terras e sobre o rio e, às vezes, particularmente quando as águas reflectem tons deslumbrantes de um céu que arde ou desespera e se instala na atmosfera uma espécie de encantamento, eu vejo a tua imagem reflectida nesse espelho de fogo e lembro-me dolorosamente de ti. Mas o rio, ele que me conhece desde sempre, cria logo uma outra ilusão, distraí-me para que eu não sofra outra vez a dor que ele sabe ser antiga.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Haverá outras primaveras, muitas por que o tempo não pára a sua sina e eu e tu, havemos de envelhecer um sem o outro mas sempre suportando no peito as saudades dos beijos, dos abraços que não demos e dos dias felizes que nunca chegamos a viver. Nada fará voltar o esplendor ao rio, o meu barco apodrece num recanto e eu deixei de navegar para sempre..."&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dobrei o papel novamente emocionado, doeu-me o peito por ter profanado aquele segredo e voltei a colocá-lo dentro da garrafa com todo o carinho deste mundo. Para lhe facilitar a viagem, fui devolvê-la ao rio já depois da barragem de Crestuma. Queria que ela seguisse o seu destino sem obstáculos, desejava que, se tivesse de ser, o encontrasse por si própria como decerto tinha sido esse o desejo do Barqueiro. Vi-a boiar na água alguns segundo e depois desaparecer na corrente do Douro que a levou para os lados da sua foz à procura de uma mulher.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Certo dia, já lá vão cinco anos, ao percorrer os caminhos do Douro, por obra do acaso, conheci o Barqueiro numa taberna que existe num recanto à beira da água. Conhecendo-lhe o nome não foi difícil perceber que tinha sido ele o autor da carta. Com calma fui contando essa história enquanto ele parecia estar a viver o momento que a criou balbuciando com os lábios passagens daquilo que escreveu. Então perguntei-lhe pela mulher destinatária dessa missiva e confrontei-o com esse amor antigo. Ele apontou com uma mão estendida e a tremer as águas do rio Douro e disse-me: &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-O meu amor é o rio! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mentiu por que eu vi os seus olhos marejados de lágrimas. Senti nesse momento a imensa dor de um e imaginei a pena de outro mas desconheço as razões da impossibilidade de realização dos seus sonhos de amor. Decerto esses motivos eram fortes e intransponíveis, possivelmente ele ou ela, sacrificou a própria felicidade para que outros fossem felizes.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Douro é um rio que compreende todos os milagres da vida e deixa sempre que o inesperado aconteça mesmo sabendo que alguém vai sofrer por isso. Ele sabe que não podemos mudar a nossa história e que feliz ou infelizmente algumas vezes, todos temos de caminhar sozinhos neste mundo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;IN, "Conversas com um Rio" de Manuel Araújo da Cunha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7082299899604806306?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7082299899604806306/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7082299899604806306&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7082299899604806306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7082299899604806306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/04/cartas-de-amor.html' title='Cartas de Amor'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-1801238829186464510</id><published>2010-03-24T14:46:00.001+01:00</published><updated>2010-03-24T14:47:27.698+01:00</updated><title type='text'>O Exorcismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Exorcismo&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Margarida, denominada bruxa de Fontão, apareceu mais uma vez aqui para realizar um acto de exorcismo. Avançou sem pressa em direcção à porta principal da entrada da capela de S. Domingos, antes porém, deixou prender-se-lhe os olhos na deslumbrante paisagem que se avista do alto desta serra. Tinha estado há momentos na parte mais a sul do monte onde um improvisado crematório vai consumindo as muitas ceras deixadas em promessas por seres aflitos à vista de Folgoso. Ela também acabara de depositar um braçado de velas e rezado recolhida em si mesma enquanto o fogo ia consumindo as oferendas, a simbologia da luz que já se extinguiu em muitas almas e que ela, gozando de um privilégio raro, reacende e vai dando nova esperança. Ainda há gente que julga ser possível acontecer o milagre; almas simples que desamparadas por quem tinha a obrigação de as proteger, se vira para o céu como último reduto das suas esperanças. Pobre mundo que tudo o que de útil descobre, vende caro em vez de proporcionar mais felicidade aos seus habitantes.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As vistas pousara-lhe comovidas na imensidão do vale que é verde matizado aqui e ali por manchas de povoados vivos e o rio Douro a serpentear por entre as serras e a desaparecer lá ao fundo na Lomba, borrata com liquido a aguarela da pintura e, até a cidade do Porto aparece lá longe na linha do horizonte indefinida como miragem, a marcar presença constante na beleza do quadro. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Logo que colocou o pé direito na soleira da porta principal do templo, o doente que já se encontrava lá dentro, entrou em altos roncos estrebuchando como se fosse um animal ferido. Os quatro homens que o seguravam, aguentavam a muito custo as fortes cordas que entretanto lhe passaram em volta do tronco tentando estabelizar aquele corpo em fúria.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Da boca do endemoninhado escorria abundantemente uma espuma branca e os olhos revirados, estalavam-se ora de um branco mortal ,ora de um vermelho de sangue, moribundo numa a cara contorcida e desfigurada que ostentava um sorriso ignóbil e era atravessada por um esgar de raiva satânico.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A cena era verdadeiramente dantesca e desumana; como podia uma criatura tão frágil adquirir tamanha força era matéria que espantava Jorge Correia, o doutor que veio propositadamente do Porto para assistir pela primeira vez a um acto desta natureza e incrédulo, procurava situar-se no momento, mas o seu espírito sobressaltado não encontrava qualquer explicação lógica para semelhante alteração da personalidade humana. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Além da vidente, a presença de um sacerdote recolhido na sacristia, constituía para ele um dado novo em tudo o que vinha analisando há uns tempos para cá sobre esta matéria. O seu cérebro habituado a deslindar os mistérios do conhecimento científico, recusava-se a admitir este retroceder no tempo até estas formas de primitivismo que julgava longínquas e que sempre pensou já não existirem.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Era de espanto o seu olhar, sentia grande confusão na mente que bloqueava e recusava aceitar como reais os acontecimentos que estava a viver nessa ocasião.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Só posso estar a viver num sonho!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As grossas gotas de suor que lhe caíam pelo rosto abaixo, faziam-no voltar à realidade dessa hora dramática e, era com o lenço que mecanicamente tirava do bolso das calças que ia limpado a testa franzida e gelada. Sacudiu a cabeça como se quisesse afastar de si a brutalidade da visão mas deu de novo de caras com um quadro demasiado autêntico para ser um sonho e voltou a fechar os olhos por alguns instantes. Da sua boca seca saiu a frase que atestava o limite até onde tinha ido o pensamento.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Não pode ser! Isto é completamente impossível!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Margarida aproximou-se de um rapaz aparentando cerca de doze anos meio moribundo que à medida que o tempo ia passando se tornava cada vez mais agressivo. Empunhando o crucifixo usado em muitas outras ocasiões, a bruxa iniciou o exorcismo: &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Em nome de S. Caetano, de Santo André Avelino, eu te arrenego anjo mau que pretendes introduzir-te em mim e perverter-me. Pelo poder da Cruz de Cristo, pelo poder de Suas Divinas Chagas, eu te esconjuro maldito para que não possas tentar a minha alma sossegada. Ámen.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Margarida disse esta oração três vezes ao mesmo tempo que ia fazendo o sinal da cruz sobre o seu peito. O padre Luís que entretanto entrou no templo, espargia água - benta sobre o possesso que ao senti-la no corpo berrava como um louco agitando-se sem parar e, a um sinal da exorcista, começou também ele a leitura de uma esconjuração em latim.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O doente espoliava-se cada vez mais disparatado e raivoso, esticavam as cordas que os homens a custo sustentavam nas mãos, círios tombaram pelo chão movidos pela força das patadas daquela criatura endemoninhada. Da testa do sacerdote escorrem bagadas de suor que pingavam pela cara até á boca. O possesso agitava-se num estrebuchar diabólico e, só muito a custo os quatro homens seguravam as amarras também eles quase no limite das forças. O padre começou uma oração: &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Ecce crucem Domine viest seu Radix do vielin nomine Jesu omne genustutantor coelestum terrestrum infernorom it omnis Língua Confititur quiadoemonus Jesu Cristuns in gloria est Dei patri vist Deus ille crucem Dominete tribu Judá Radix David fugite partes adversa veribilium in nomine Jesuomne genus tutantor celestrum terrestrum infernorum omnia Língua Confititurquia Dominos Jesu Cristus in gloria est Pater, amem.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Houve uma pausa e de repente com firmeza de voz o sacerdote ordena ao demónio:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Em nome de Jesus Cristo sai do corpo deste se humano!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Não, respondeu uma voz que se julgou vir de além-túmulo mas que parecia sair do corpo do rapaz. Não era a voz própria do infeliz, era um som rouco, forte, cavernoso, desumano e carregado de ódio.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Pelo meu poder sacerdotal, ordeno-te que saias dessa criatura, prosseguiu o padre Luís:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Aggghh, rosnou a estranha voz.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tu não tens poder para me ordenar que saia, daqui jamais sairei!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Sairás, em nome de Jesus Cristo, to ordeno!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Aproximando-se um poço mais do possesso, colocou-lhe a mão esquerda sobre a testa e com a mão direita encostou-lhe aos lábios o crucifixo ao mesmo tempo que dizia:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Beija a cruz do Senhor teu Rei!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Nunca, respondeu no meio de espasmos, convulsões e gritos o pobre desgraçado que se retorcia em desespero inenarrável. Descomposto, deitado no chão, movia-se com uma elasticidade estranha de ágil contorcionista e só por milagre aquele corpo não sofreria graves lesões.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O sacerdote ergueu-se todo no meio da capela com a estola na mão, depois aproximou-a da vítima e com uma voz agora mais forte ordenou-lhe:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Retira-te já Satanás, vai para as profundezas do inferno, eu to ordeno, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As luzes apagaram-se de repente e só permaneceu acesa a iluminar toscamente a cena, a candeia de azeite do Santíssimo Sacramento e lá fora, na negrura do monte levantou-se o pior dos ciclones e, os sons que chegavam dentro do templo, eram de árvores a quebrar e de pedregulhos a rolar pela serra abaixo. O sacerdote calou-se e a vidente sempre com ar penitenciado entrou de novo em acção:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-O Senhor seja comigo e com todos nós. Amem. Jesus, Maria, José, em nome de Deus Padre, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Amem. Em virtude de Deus Padre Santo, três pessoas distintas e um só Deus verdadeiro, por virtude da Virgem Maria e de todos os Santos Apóstolos Envagelhistas, patriarcas, profetas, mártires e confessores, por virtude de Santo Ubaldo Francisco, eu, criatura de Nosso Senhor Jesus Cristo, remido com o Seu Santíssimo sangue e feiro á Vossa semelhança em Vosso Santíssimo nome, te expulso Satanás e a teus companheiros malditos que regresseis ás profundezas dos infernos. Jesus, Jesus, Jesus, sede comigo vinde em meu socorro, Jesus, Jesus, Jesus, mil vezes Jesus, sede comigo. Jesus valei-me, Jesus acudi-me Jesus vinde de novo em meu socorro. Jesus sem vós nada posso fazer. Jesus, eu com o vosso Santíssimo poder expulso o demónio desta criatura.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Vai já para as profundezas do inferno! Abrace a terra já, Jesus, Jesus, Jesus defendei-me destes fantasmas que me estão a rodear para que eu não possa conseguir expulsar o demónio, Jesus, Jesus, Jesus venham em eu socorro. Retira-te Satanás que estás vencido, quebrei as tuas astúcias com o Santo Poder de Nosso Senhor Jesus Cristo. Retirai-vos fantasmas inimigos da natureza humana eu vos esconjuro em nome de Deus e pelo poder do Santo Lenho da Cruz em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado, por esta mesma Cruz, eu te ordeno; retira-te Satanás fantasma inimigo de Deus e dos homens. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O silêncio que se fez dentro do templo naqueles longos minutos, só era cortado por leves estremecimentos do doente inanimado nas tábuas do chão do local sagrado. Eram uma espécie de convulsões por todo o corpo como se tratasse de uma a agonia lenta e dolorosa. Aquele ser estendido no tabuado estreme, era agora, apenas alguém inconsciente e desfalecido enquanto o Padre Luís limpava o suor da testa e desfolhava uma pequena brochura de onde retirou as leituras.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quedando-se numa página assinalada com uma fita vermelha, voltou a citar os conteúdos do livro:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Oremos. Dignai-vos Senhor, permitir que Pedro venha do Céu á terra fechar esta morada onde o maldito demónio teve guarida. Pois eu, em Vosso Santíssimo Nome ponho preceito a esse espírito do mal, para que, desde hoje em diante não possam mais entrar na morada deste infeliz, ser-lhe-á fechada porta perpetuamente, assim como lhe será fechada a do reino dos espíritos puros. Amem&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Houve uma ligeira pausa e o padre continua:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Senhor meu Jesus Cristo, dou-vos infinitas graças, pois pelos merecimentos da Vossa Paixão Santíssima, do Vosso Precioso Sangue, e por Vossa bondade infinita, Vos dignastes livrar esta criatura do demónio e de seus malefícios, assim Vos peço e suplico agora, Vos digneis preserva- lo e guardá-lo para que o demónio não possa mais molestá-lo de modo algum. Ele pretende e quer viver e morrer debaixo da protecção do Vosso Santíssimo Nome. Amem &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Pai Nosso! -Levem-no para casa e deixem-no descansar, disse o Padre dirigindo-se aos homens que ainda atentos seguravam as cordas. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Margarida saiu da capela seguida pelo sacerdote. Já no adro, o abade colocando-lhe uma mão no ombro dizia:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Obrigado, sem a senhora nada seria possível &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Não tem de quê senhor prior, mas o senhor foi suficientemente forte para expulsar o maldito! Sem esperar resposta prosseguiu:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Vou andando, ainda é um bom bocado daqui até Arreigada! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Vá vá Margarida, o Senhor lhe pague este sacrifício!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Jorge Correia assistiu a tudo a um canto da capela. Como se petrificado, sentiu que era incapaz de fazer o menor gesto possível. Algo lhe tolhia os movimentos e, um nó na garganta impediu-o de emitir qualquer sonância.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Estava em estado de choque, a brutalidade da cena que presenciara, originara no seu espírito a angustia, a estupefacção e a incredulidade. Tinha atingido o limite até onde um ser humano sem preparação pode chegar. Apesar da sua instrução, que aliás julgava ser a causa responsável pela dificuldade em aceitar estas práticas, não conseguia situar ou enquadrar esta conduta do padre Luís em nenhum acto puramente litúrgico. No entanto ele ouvira as preces de esconjuração e, se uma ou outra não compreendeu totalmente, a ladainha dos santos com que o padre iniciou a estranha prática, era-lhe familiar. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Olhou os dois exorcistas à distância e procurou ver naquelas simples figuras algo de especial ou até de sobrenatural que podasse justificar semelhante poder! Aquele rapaz ainda inanimado levado em ombros por dois homens, era a testemunha, o vivo móbil que sem qualquer dúvida comprovava a existência de uma entidade diabólica com poderes destruidores de que sempre ouvira falar mas que considerava pertencer à mais remota das mitologias. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Contemplou pela última vez a paisagem maravilhosa que dali se desfruta com um rio todo ajoelhado ao fundo do vale e compreendeu finalmente que o verdadeiro poder do universo, está na Divina Criatura que arquitectou esta obra lindíssima e não em nenhum demónio por mais matreiro e destruidor que possa ser. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-1801238829186464510?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/1801238829186464510/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=1801238829186464510&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1801238829186464510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1801238829186464510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/o-exorcismo.html' title='O Exorcismo'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-8154739256012351557</id><published>2010-03-22T15:07:00.001+01:00</published><updated>2010-03-22T15:10:57.423+01:00</updated><title type='text'>O Pregador</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O dia continua a progredir neste imenso vale do Douro e com o despertar da aurora, fumegam as casas das aldeias dispersas pelas margens do rio. Retoma-se todas as tarefas da vida nestes presépios de pobreza onde não chega um sopro de progresso e só exigências de mais produção se abatem sobre os ombros de homens, mulheres e crianças. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No largo da Sobreira considerado o centro da aldeia de Rio Mau, o Ernesto ensaia os primeiros retoques do que vai de ser um quase improvisado discurso.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Vem de longe, das beiras do Porto, percorrendo a distância a pé pelos trilhos dos montes. Alto e crestado do sol, da chuva e do vento, deixa cair pelo rosto abaixo uma barba longa e loira. Os olhos de um azul celeste, parecem abrir-se em invulgares espantos e oceanos de interrogações. As mãos, sustentam uns dedos esguios, esqueléticos de onde aparecem umas unhas compridas e perfeitamente talhadas. Não fora a rasca indumentária composta por umas calças de pano - cru e a cobri as pernas e uma camisa de flanela cor – de – barro a tapar o tronco esquelético, poder-se-ia dizer tratar-se de um autêntico cavalheiro. É-o na verdade, apesar do desregro e versatilidade da roupa mas apurado nos gestos e nas palavras que profere. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Delineia a vida, a sua e a dos outros, em pinceladas de romance e poesia entrecortadas de quando em vez por desvairos de consciência. Trata toda a gente elegante e educadamente, mas à canalha tem verdadeiro asco. Ali, no largo da povoação onde a história se faz sem pressa, junta-se-lhe o Abraão, moço ainda jovem, pária e vagabundo como ele. Tem as mãos grosseiras e a cara redonda que lhe dão estranhas parecenças com uma cabaça e a indumentária deste indigente, muito pouco variada em relação ao primeiro. Veste roupas já usadas por terceiros que se nota não serem adequadas ao seu corpo atarracado que o transformam numa espécie de espanta - pardais andante.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;De vez em quando um esgar risonho rasga de lés a lés uma boca fina e ficam à mostra duas carreiras de dentes certos e brancos. Também ele desprovido do juízo certo que lhe conferisse estabilidade na vida, hospedando na cachimónia um cérebro onde se misturam ideias de jerico com outras perfeitamente normais, desgarrou-se e deixou Trancoso sua terra primeira e, percorrendo atalhos que se estendem por montes e vales sempre distantes do quinhão natal, chegou a Rio-Mau.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Estudara num seminário do norte onde a severidade da clausura, a fraqueza e a deficiente nutrição lhe provocaram o bloqueio do conhecimento. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Ernesto é decerto o ser mais bizarro que demandou estas bandas porque dotado de extremas filosofias, faz constar que no seu entender não vale a pena nascer. Para ele, o simples acto de vir ao mundo, é só por si um desperdício total:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- A vida é pois a pior herança da humanidade! Quando se nasce marcado pelo ferro de uma morte que pode ser tardia ou breve, mas sempre inevitável, herdamos logo ai a funesta razão de existir!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Porque nascestes vós!? Porque não ficastes no limbo, no desconhecido, onde o corpo não sofre e alma não é nossa!? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;É assim que o louco raciocina e explica uma certa aversão aos mais pequenos, talvez usando numa espécie de sentimento de protecção a que se julga obrigado. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Trinta e dois anos de vida, dez deles a carregar na mente a pavorosa loucura, agravaram definitivamente a doença que lhe retira a postura e o coloca irremediavelmente às portas da total insanidade mental. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Tinha sido estudante universitário mas o frágil poder do seu arquivo não foi capaz de suportar tamanho conhecimento; enlouqueceu!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Dirige a sua revolta ao Criador e, é frequente usar da palavra horas a fio a desafiar as Suas leis. No meio deste largo onde dão a volta as procissões, assume uma postura erecta de pregador estendendo as mãos e ergue o rosto para o céu e com firmeza de voz inicia o eloquente discurso:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Já sei que hoje não vai haver paz para mim, começava o pregador.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Neste dia que nasce, não sentirei a Tua presença! Nascerá um novo sol mas não será para me iluminar! Aquecerás as vidas de muitos, mas não a minha. Eu sou pobre, um desgraçado a quem Tu, nem a memória deixaste progredir. Por inveja, ou por maldade, arrancaste-me a alma que dizes ser tua propriedade! Fica com ela, para que quero eu uma alma se nunca a vou poder utilizar neste falso presépio que Tu criaste!? Aqui não há lugar para quem tiver uma alma, abandonados por Ti, somos obrigados a rendemo-nos ao poder dos mais fortes!..&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Agora o rosto toma uma forma dolorida onde se desenha um sorriso imbecil.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Nunca Te pedi nada. Afinal o que é que tens para me dar!? Tu que deixastes o Teu único filho nascer na mais extrema miséria, desprovido de tudo, e permitiste que morresse às mãos de um povo velhaco, nada, absolutamente nada terás para oferecer em troca das minhas orações! Eu não Te adoro, tão pouco creio em Ti. Arrasto pela vida uma cruz bem maior e bem mais pesada que a Tua. É este o meu castigo, mas não fui julgado como Tu foste, ninguém me perguntou nada sobre nada e no entanto condenaram-me! Diz-me onde estavas nesse momento!? Em lado nenhum, porque Tu certamente não existes. Até podes existir, mas não como o Deus dos mais necessitados porque não ouves as súplicas dos sedentos de justiça! Posso até reconhecer-te, não como Deus misericordioso, mas como aquele que permite esta miséria imensa pelo mundo! Sou eu quem Tu diz! Nada posso perder, pela simples razão de que nada tenho. Por isso Te falo de homem para homem, longe de temer as Tuas hostilidades. Sim porque Tu, és rancoroso. Houve tempo em que acreditei em ti. Mas foi tudo uma ilusão, cedo me apercebi que nunca haveria de fazer parte dos teus planos de salvação, que entre ti e satanás, não há escolha possível. Sois iguais, divergis dos meios mas não nos fins que são os mesmos. O que vos alimenta é a ideia de posse das nossas almas infelizes.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Abraão ouve em silêncio e retorce as mãos em desespero.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Fala-lhe de mim, diz o seminarista assumindo uma atitude de pedinte.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As mãos estendem-se-lhe numa súplica angustiante e, o rosto adquire uma expressão caricata e grotesca.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- De ti!?.Fala-lhe tu, pois é bem possível que Ele te dê ouvidos! Tu, membro e sócio fundador da sua quadrilha de benfeitores, estarás decerto em melhor posição para lhe falar! És cúmplice Dele, eu sinto as dores da discriminação e do desespero, Tu não; aceitas o castigo que julgas generoso curvando-te perante a razão que desconheces. Tão pouco sabes se ela existe e não protestas. Tu Abraão, és realmente um pobre! Dás-me pena! Inspiras-me dó e piedade. Apesar de tudo perdoou-te! Perdoou-te por uma razão simples...és meu irmão!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Mas eu rezo, diz angustiado o Abraão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Rezas!?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tu sabes lá o que é rezar Abraão! Recitas palavras usados por muitos sem as sentires no coração. Rezar é abrir a alma, é comungar com Deus dos sentimentos que nos preocupam e angustiam. Rezar é isto irmão! É falar com Deus e dar-lhe noticia das nossas aflições, dos nossos desesperos! É fazer com que veja e repare a miséria brutal a que fomos votados!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Sabes uma coisa Ernesto, eu acho que tu blasfemas!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Blasfemo!?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Cala-te desgraçado, tu não atinges a essência da questão, cortam-te o corpo e o espirito a golpes de espada e não protestas, sequer sabes quem empunha a arma causadora do nosso desespero! Acaso dar notícia da verdade e da vergonha é blasfemar!? Deita-te ai irmão, dorme o sono da ignorância eterna e deixa-me protestar pois um dia virá, em que por farto dos meus protestos ou por divina piedade, Ele nos abençoará! Acaso tu não sabes que o tempo urge!? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Faz uma pausa e de seguida vira-se novamente para o alvo das suas críticas, o Céu.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Porque não desces daí do Teu Céu esplendoroso e vens aqui reconhecer as Tuas faltas! Vem confrontar-te comigo cara a cara! Não me respondes, nem Tu nem ninguém! As minhas palavras são o eco das minhas palavras, do meu sofrimento do meu imenso desespero, desta minha lúcida loucura. E, apesar de tudo, ainda Te espero Deus mudo, Deus, ingrato. Vem quando quiseres, todos os povos precisam urgentemente de Ti. Eu não, mas eles amam-te, adorna-te e acreditam que virás salvá-los! Vem antes que se me aflorem os nervos e deixe de ser responsável pelos meus actos. Lembra-te que também eu sei castigar!. Prova-me que existes, que és realmente o salvador olhando a turbulência deste mundo injusto, o teu rebanho tresmalhado sem esperança! Faz alguma coisa, não os abandones a esta sorte tão madrasta!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As mãos, ainda há pouco em riste, fecham-se-lhe sobre o peito penitenciosas e, o azul daqueles olhos toldou-se de lágrimas. Vagarosamente, estendeu-se no chão ao lado do amigo e ficaram horas prostrados ali, sem dar sinais de vida. Todo o orvalho desta madrugada fria humedeceu estes dois corpos desamparados. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Regressa a solidão que reflecte a insensibilidade do mundo perante a doença da loucura, da indiferença com que o planeta cuida daqueles cuja capacidade mental se alterou por qualquer razão. O Homem não quer saber! Numa atitude hipócrita, esconde tudo o que reproduz as suas fragilidades colectivas. Despersonificado, sem qualquer esperança, segue uma ilusão irreflectidamente, tentando por métodos absurdos torná-la realidade. É muito mais que a constatada falta de fé e de esperança, é a solidão que se ganha por se matar o amor dentro de nós. Por isso o Abraão e o Ernesto se estendem na laje fria do largo da Sobreira sem um gesto de piedade de ninguém. Quantos mais não o farão no futuro, nesta maravilha de mundo que gira há milénios num frio e austero universo sem culpa de nada. Lá em baixo corre um rio aflito que quer rapidamente chegar à foz. Ele afasta-se das miséria humanas o mais depressa que pode e, em turbilhões de espuma e redemoinhos amarelos, parece que leva com ele as fúrias do inferno &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-8154739256012351557?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/8154739256012351557/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=8154739256012351557&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8154739256012351557'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8154739256012351557'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/o-pregador.html' title='O Pregador'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-174487695243487944</id><published>2010-03-20T13:06:00.001+01:00</published><updated>2010-03-20T14:33:33.176+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sonho'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mundo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bola'/><title type='text'>Sonhos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O primeiro sonho guardou-o numa caixinha de fósforos usada. Era um sonho pequenino, tinha a ver com beijos e abraços de ternura que a mãe lhe dava quando despertava dos sonos de menino. Foi em cima do armário da cozinha que guardou essa pequena caixa de magia. Lembra-se que teve de subir acima da mesa para poder colocar esse cofre atrás das panelas grandes que raramente eram usadas. Guardo-a lá embrulhada num pedacito de jornal velho e continuou a sonhar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O segundo sonho, era uma pouco maior, era um sonho com uma bola, que tinha um rio&amp;nbsp; e homens e mulheres lá dentro a quem ele e os companheiros de escola davam pontapés e atiravam para longe. Enquanto a bola subia no ar, ele ficava a pensar porque é que os homens e as mulheres que estavam dentro da bola não se importavam de andar aos salto, atirados de lado para lado e não fugiam de dentro da bola. Então no sonho viu o mundo, que era uma bola, com os homens e as mulheres lá dentro e ficou feliz por lhe poder dar pontapés e brincar com a bola que no sonho era o mundo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Esse&amp;nbsp;sonho tinha personagens verdadeiras e conhecidas dele, misturadas com algumas que lhe eram estranhas de corpos transfigurados como se fossem fantasmas. Enquanto a bola subia no ar ele via as pessoas a serem projectadas umas de encontro às outras num espaço vazio, lá dentro da bola. Depois a bola caìa no chão com estrondo e as pessoas dentro da bola caìam também desamparadas no chão vazio da bola e faziam gestos grotescos, e gritavam desesperadas dentro da bola. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No meio desse sonho, quando o seu peito arfava aflito viu criaturas a tentar sair de dentro da bola mas a bola, redonda, compacta e hermeticamente fechada, não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola. Farto do espectáculo de horror que os seus olhos estavam a observar, deu um pontapé com muita força na bola e a bola ficou algum tempo a pairar no espaço e, todas as pessoas dentro da bola sorriam felizes. Ele ficou feliz também porque ficou a saber nesse momento que as pessoas gostam de andar no ar dentro da bola que é redonda como o mundo que também tem pessoas e rios lá dentro. Lembra-se ter tido algum medo e de se agachar a tremer no meio do calor dos cobertores. A mãe disse-lhe depois que aquilo era um pesadelo e que havia de ter muitos mais sonhos desses no decorrer da vida. Apesar do incómodo e da angústia que lhe causou essa quimera, resolveu guardá-lo numa caixa de sapatos vazia. Pensou que um sonho mau como aquele tinha de ser enterrado na horta por baixo da figueira onde as galinhas depenicam ervas daninhas. Era mais seguro, um pesadelo assim, teria de ficar bem longe da casa e fora do seu alcance porque ele nunca mais queria voltar a sentir o desespero daquela noite em que sonhou com a bola que era igual ao mundo com rios&amp;nbsp; e pessoas lá dentro.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O terceiro sonho foi lindo, foi maravilhoso. Foi um sonho com raparigas vestidas de noiva a dançar numa festa em que ele era a figura principal e o rapaz mais desejado por todas as lindas mulheres vestidas de noiva. Lembra-se de uma que o fascinou nas voltas de valsas lindíssimas do sonho e o prendeu tanto nas elegantes mãos, que só um súbito acordar desfez esse feliz enleio. Esse que foi o seu mais belo sonho, guardou-o numa lata que tinha sido de tinta e pendurou-a amarrada com um arame ao lado da roda do carro de bois. Um sonho destes, pensou, tem de estar sempre perto e ao alcance de uma mão. Fechou o sonho na lata e depois nunca mais se lembrou dele.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um dia de repente,deixou se sonhar e rebolava-se horas e horas na cama à espera dos sonhos que tardavam em chegar. Ele queria sonhar outra vez com as raparigas vestidas de noiva mas por mais que tentasse,o sonho não aparecia. Uma noite os sonhos voltaram e um deles, tinham a ver com uma bola que era igual ao mundo com rios e pessoas lá dentro que as crianças atiravam ao ar e davam pontapés. Neste novo sonho, ele estava do lado de dentro da bola que evoluía no ar e ele e as pessoas todas que estavam lá dentro sorriam felizes. Ao bater no chão a bola fazia um estrondo e ele era&amp;nbsp;projectado para o chão vazio da bola de encontro às outras pessoas que gritavam desesperadas presas dentro da bola e tentavam sai de dentro da bola que era compacta, hermeticamente fechada e não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Acordou desse sonho&amp;nbsp;e ficou a&amp;nbsp;pensar que o mundo é uma bola com rios e pessoas lá dentro e que só as crianças podem brincar com ela, dar-lhe pontapés e atirá-la ao ar e que, as pessoas não podem sair de dentro da bola porque a bola é compacta, hermeticamente fechada e não tem sitio de fuga possível como uma bola.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-174487695243487944?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/174487695243487944/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=174487695243487944&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/174487695243487944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/174487695243487944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/sonhos.html' title='Sonhos'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-39532697752625678</id><published>2010-03-17T12:43:00.003+01:00</published><updated>2010-03-17T12:48:28.524+01:00</updated><title type='text'>O Pão de Deus</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;No centro do lugar de Rio Mau o dia começa a espairecer e a noite sucumbe lentamente ao golpe da claridade. O Zé Marques e a Maria moleira amarram a mula &amp;nbsp;Andorinha na argola de ferro presa na parede da venda da ti Albertina. Já vêem lá de cima das entranhas do monte onde os moinhos formam uma carreira nas margens do rio em Estivada de Baixo. Levantaram-se cedo, ainda com noite cerrada e meteram-se ao caminho pelo meio do escuro.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt; &lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;b&gt;Pelo carreiro suspenso nos barrancos que ladeiam o ribeiro e lhe dão pitoresca margem, caminham apeados e o Zé segura nas mãos de pele castanha com manchas negras a guita presa à cabeça da muar carregada com as sacas de farinha e marca em passo militar, a marcha e o destino das maquias.&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;Com calma de velho e livre das pressas da mocidade, desapertou a soga e o torniquete que segurava os sacos e os prendia à barriga do animal e depois, um a um, carregou-os às costas despejando-os na caixa de madeira dentro da mercearia. A transacção foi feita logo ali. Alguns fregueses esperavam já ansiosos pela fornada. O Marques e a Maria não foram os primeiros a chegar, já há muito que a ti Maria Valongueira que atravessou a serra da Boneca com a canastra dos biscoitos à cabeça tinha dado sinal de vida. Vinha de Valongo e no aconchego da toalha de linho branco que cobria a giga, deliciosos bolinhos com formatos de peixes, de pombas, de porquinhos, de estrelas, de carrinhos e até de cãezinhos, ainda arrefeceriam dos calores do forno.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt; &lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;b&gt;Uma arroba de farinha, treze quilos de milha e dois de centeio, é a taleiga de um forno familiar. Uma fornada capaz de produzir quatro broas que garantiriam a sobrevivência por mais alguns dias. &lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;Na cozinha da ti Albertina a Maria Carriça começa a peneirar a farinha e depois mistura-a com água na masseira. De mangas arregaçadas até ao cotovelo, transforma o pó numa volume disforme e acastanhado enquanto o suor lhe escorre pela cara e vai cair no preparo em grossas gotículas. De vez em quando acrescenta água quente à mistura &amp;nbsp;e despeja a malga do crescente ou fermento &amp;nbsp;na massa. Preparada a farinha, formando um monte no centro da vasilha de madeira, a Maria traça com o gume da mão direita uma cruz no preparado consagrando assim o futuro pão às mãos do Senhor e deixa-a a levedar em repouso até à tarde. Por volta das cinco já o forno arde em labaredas gigantes e, os tijolos burros das paredes, vão adquirindo um tom esbranquiçado e prestes a estalar de quentura. É o sinal, o ponto certo para se iniciar a cozedura. Então entra em funcionamento a pá de madeira rabuda ao mesmo tempo que a massa pulita na Escudela e é dividida em bolas de cerca de três quilos. Entram quatro pela boca escaldante da fornalha esborrachando-se um pouco ao tomar contacto com o barro quente da laje . Terminada esta tarefa segue-se o fechar da porta de ardósia que será vedada com bosta de boi.&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt; &lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;b&gt;Ao cabo de duas horas naquele inferno, já a farinha se transformou em pão e no abrir da porta, deslumbrantes broas &amp;nbsp;tostadas e bonitas, aparecem num cenário farto e fumegante. Fazem as delícias de qualquer um, é o sustento do povo garantido por uma semana. É o pão que Deus prometera vindo do céu dos moinhos da Estivada, trazido pelo Zé Marques, pela Maria e pela mula Andorinha.&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;O sol desenha cores prateadas no rio e, sentados na parede do Constantino os dois moleiros petiscam sardinhas fritas e bebem uma pinga de vinho verde tinto que lhes tinge as bocas da cor do sangue.&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-39532697752625678?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/39532697752625678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=39532697752625678&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/39532697752625678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/39532697752625678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/o-pao-de-deus.html' title='O Pão de Deus'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-3499460928321372670</id><published>2010-03-13T12:47:00.003+01:00</published><updated>2010-03-13T14:46:15.196+01:00</updated><title type='text'>O Sacerdote</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi penoso vê-lo naquela manhã florida de domingo, vacilante, agarrado à santa Pedra de Ara, velho e carcomido pelos anos cambaleando doente no exercer da última missão que o juramento soleníssimo que fez na juventude o obrigava mais uma vez a cumprir. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nesse tempo era um moço alto e forte, bem constituído e irradiava força no brilho esperançado dos olhos. Estendido aos pés do bispo do Porto, humilde entregava os votos de total entrega às coisas da igreja. E assim foi durante sessenta anos. Viveu na solidão dos dias e das noites tendo apenas como consolo a fé que tinha professado. Havia nos seu olhos claros como claras são todas as esperanças, uma luz própria, uma chama acesa como a de um farol que guiasse os barcos perdidos num imenso oceano e, era esse brilho de bondade que permitia que se aproximassem dele todas as almas sedentas da ternura, de um abraço, de uma palavra de carinho que amenizasse as muitas mágoas que a vida produz.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como se fora um círio a que faltasse o alimento combustível, apagava-se ali na casa de Deus que também foi sua, lenta e inexoravelmente.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Empalidecido como um chão de Outono, erguia-se ainda das cinzas ilustre e digno e, o seu olhar cansado e bondoso, desceu e pousou como uma bênção sobre aquelas almas numa última prenda generosa e santa.&amp;nbsp;No centro de Melres, naquele lugar solitário onde tantas vezes desanimado e triste invocou as palavras de Cristo: -Pai, se puderes, afasta de mim este cálice, nessa pequena igreja onde a fé se expandia em cada oração, em cada dia dos imensos anos do seu sacerdócio, acontecia o mais terno, sublime e heróico acto da vida de um homem.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ele que tantas vezes percorria os lugares da freguesia levando os últimos sacramentos de consolo aos agonizantes, deixava entregue à ferrugem toda a sua riqueza, os restos da motorizada que o transportava, moribunda como ele, e era agora tão-somente um monte de sucata a apodrecer debaixo do beiral da residência paroquial onde as andorinhas fazem ninho. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Por muito que fosse o seu desânimo, a precariedade da sua existência, nunca a sua voz se levantou dali de cima do altar para pedir o legítimo alimento do corpo, uma batina nova, uma corrente para a motorizada ou o concerto da residência que desprezada caía de podre. Apenas sorrisos e sabedoria pairavam no templo da sua fé no espaço que delimita a verdade da ignorância das coisas sagradas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O povo devoto que ocupava quase todo o anfiteatro do agora recuperado e feito moderno templo substituto do centenário onde ele tinha gasto os restos da vida a falar das coisas sagradas, pressentia emocionada&amp;nbsp;o crepúsculo da ave de Deus.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ajoelhou-se dolorosamente agarrado à pedra do altar e ficou minutos prostrado ali como navio a lutar com medonha tempestade, recusando soçobrar ao ímpeto da tragédia que o tentava abater. Ergueu-se a custo ajudado pelo sacristão e pausadamente começou a santa missa o recordar da Paixão de Cristo que neste instante não podia estar melhor representado na terra. Ergueu o Cálice consagrando o vinho como se fora ele o próprio Senhor que aqui viesse nesta hora dramática prestar-lhe a derradeira homenagem o último agradecimento pela dádiva de uma vida de solidão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Olho respeitosamente e comovido o homem que me guardou no coração sem nunca me ter perguntado quem eu era; que espicaçava a minha curiosidade filosófica como um pai que explica a uma criança a razão do fascínio das estrelas. Olho-o ainda no sair da igreja matriz como uma noite negra que descesse repentinamente sobre a terra e deixasse só escuridão nos corações.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Enquanto a banda musical de Melres tocava o Requiem Aeternam de Mozart, o mundo acabava de perder um padre e a santa igreja de Pedro tinha ganho mais um santo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;Olho-o prostrado no caixão sereno, de mãos em cruz sobre o peito como irradiando toda a paz que falta no mundo, como quem sonha feliz o seu último sonho.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O rio Douro ajoelhou-se&amp;nbsp;emocionado e, como só ele pode&amp;nbsp;alcançar o divino, ouviu a voz que vinha do Céu:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;strong&gt;- Luís…luís, acorda meu filho, anda ver o teu pai!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-3499460928321372670?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/3499460928321372670/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=3499460928321372670&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3499460928321372670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3499460928321372670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/o-sacerdote.html' title='O Sacerdote'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2620620193385970713</id><published>2010-03-02T12:00:00.007+01:00</published><updated>2010-03-02T13:54:39.041+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Melres'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio douro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Branzelo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='emigrante'/><title type='text'>O Emigrante</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quando o táxi desfez a prolongada curva no alto de Sobrido e esbarrou de frente com o lugar de Branzelo plasmado em todo o&amp;nbsp;espaço da pequena encosta, já ele distinguia o rio da sua infância e um pedaço da aldeia natal recolhida lá ao fundo nas profundezas do vale do Douro. Passara à minutos pela camioneta da carreira amarela com uma risca azul longítudinal conduzida pelo&amp;nbsp;Zé Martinho e&amp;nbsp;tendo como cobrador o &amp;nbsp;Juvenal&amp;nbsp;que subia penosamente a íngeme rampa do Arrebentão, carregada de gente que vai deixando nos apeadeiros ao longo da estrada marginal até Sebolido&amp;nbsp;a mesmo onde muitas vezes fez a demorada viagem entre Melres e a cidade do Porto.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O coração começou a bater desordenadamente e um soluço que tentou disfarçar a custo, apertou-lhe por instantes o coração e a garganta. Tantos anos ausente da terra mãe e já sentia o perfume dos sítios, o vivo apelo do chão que o reconheceu logo a entranhar-se-lhe na alma tão profundamente que julgou ir morrer ali de tanta emoção.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Vinha de longe, do Brasil nos confins das Américas, atravessou os mares a bordo de um velho cargueiro cedendo às saudades que já não conseguia suportar mais, lá na terra que o acolheu e lhe deu tudo para ser quase feliz. Muitos anos viveu na certeza de que nunca mais iria pisar o chão do país que não foi capaz de assegurar sustento a ele, aos irmãos, ao pai e à mãe, sem se aperceber que a vida cria ela própria a impossibilidade do acto que gera o esquecimento e nos deixa indefesos e incapazes de reagir quando as emoções nos assaltam e nos fazem sofrer muito.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Saudades tinha e muitas&amp;nbsp;nos princípios mas só da família que aqui deixou a sobreviver com dificuldades, dizia ele, e de um punhado de amigos e companheiros da curta e pobre meninice. Quase ninguém faz ideia do sofrimento de um emigrante que deixa tudo e parte rumo à incerteza e ao desconhecido só em busca do pão. As coisas mais banais da comunidade órfã, tomam um sentido de tal valor que lhes parecem materializar-se a cada momento à frente dos olhos como fantasmas errantes a avivar memórias e a pedir-lhes que voltem. Coisas simples, pequeninas e até então ignoradas, desvalorizadas pela frequência com que eram usadas ou vividas, reaparecem todos os dias nos apelos desesperados das medonhas saudades. Se o coração falasse, se a sua voz interior que dói se ouvisse, todos se aperceberiam da imensa tragédia que o ia minando dia após dia implacavelmente e sem lhe dar tréguas. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Era à noitinha quando terminava as tarefas da vida nas padarias que foi criando no Rio de Janeiro e regressava a casa a ver o silêncio instalar-se na cidade, que sentia mais viva a dor da ausência e lhe vinha à lembrança a imagem daquela sacrificada santa que o havia dado à luz e que o aconchegara nas noites de frio quando o vento impiedoso gemia pelas frinchas da cobertura de lousa da pobre habitação em que viveu,&amp;nbsp;dando-lhe um pouco de consolo. Imaginava-a solitária a passar de madrugada em Vale-dos-Travessos, a seguir pela Almeija abaixo de canastra à cabeça onde o pão de cada dia seguia aconchegado na quentura do linho e, no meio dessa visão sofrida murmurava baixinho a palavra mãe. O pão que ele não foi capaz de assegurar com fartura em casa, continuava a seguir o destino da venda da Ti Albertina em Rio Mau, tão dolorosamente como no passado. Pão amargo, dificil de conseguir pão que muitas vezes amassou a percorrer esses mesmos caminhos da noite, descalço a tiritar de frio e de fome&amp;nbsp; a chegar massa de cimento nas obras apesar da fragilidade do seu corpito de criança. Abandonou a escola com dez anos para poder contribuir com trabalho na luta da familia pela sobrevivência.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um dia já feito um homem e farto de tamanha miséria, decidiu embarcar para o Brasil e tentar por lá a sua sorte. Levava atrás de si a freguesia inteira a rezar por ele a pedir para que Deus o protegesse numa forma solidária tão natural que chega a parecer impossível ter acontecido. O povo é generoso e fraterno quando quer e as gentes destas bandas são-no ainda mais pela natureza dos sacrifícios que passaram nessa época.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Voltou o António! Chegou do Brasil! Vem rico, tão rico que nem o Senhor Luisínho Aranha lhe chega aos calcanhares!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi imediato, a notícia espalhou-se pela aldeia ainda antes dele ter chegado.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Era verdade que tinha voltado, que havia cumprido a sua sina dando assim ouvidos ao coração esmagado por súbitas saudades lá longe na terra do sucesso. Rico sim, com muito mais teres e haveres que outrora porque comeu as papas que o diabo amassou e foi lutando com tal vigor, com tal valentia pela vida fora, que até o destino que muitas vezes é cego, se rendeu à tenaz determinação deste homem. Rico, pronto a ajudar os outros a estender a mão amiga àqueles a quem a vida ignora os sonhos e lhes vai pregando partidas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Caía a noite quando finalmente chegou a Melres. O táxi deixou-o à porta da antiga casa aquela onde viu pela primeira vez a luz do dia, quando serenavam já as lides nas hortas da Ribeira e o rio Douro manso parecia adormecido e só as ninfas brincavam na areia da praia.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Sentou-se na soleira da porta da cozinha da velha casa hesitando em entrar. Ele sabia que dentro daquelas quatro paredes de xisto que tinham sido a muralha do seu presépio, já não havia ninguém.&amp;nbsp;O tempo tinha levado tudo e todos e, só estas pedras onde o musgo se agarra verde e vivo, sobreviveram até hoje. Passou o lenço nos olhos humedecidos e só um sussurro saiu da sua boca:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Eu dava tudo para nunca ter saído daqui…&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2620620193385970713?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2620620193385970713/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2620620193385970713&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2620620193385970713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2620620193385970713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/03/o-emigrante.html' title='O Emigrante'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4815896655006792931</id><published>2010-02-17T15:12:00.000+01:00</published><updated>2010-02-17T15:12:43.465+01:00</updated><title type='text'>Paixão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Isidro Sardão atravessou o rio na barca de Moreira e meteu ao cimo por caminhos tortuosos que diversificados atravessam a serra da Boneca de e lés a lés e se perdem nas distancias de Cabroelo e de Valpedre.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No alto, mesmo no ponto onde o terreno se torna mais plano e é escassa a vegetação florestal e os montes são limpos e só atapetados de chamiça, quiró e carqueja, parou a contemplar o horizonte vermelho alcançável como se ali procurasse algo que perdera há muito tempo mas que permanece na mente a perturbá-lo de forma constante e a faze-lo estancar como um soldado à voz do comando, sempre que por aqui passa. Vislumbrou lá ao fundo do extensíssimo vale mergulhado num maravilhoso entardecer, o rio Douro a desaparecer nos labirintos de Melres imponente como um rei a marcar a solidez do seu domínio absoluto.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Recomeçou a marcha interrompida, passou por baixo da capela solitária de S. Pedro e continuou a caminhar até ao Loureiro e ali na encruzilhada, pensou em seguir em frente até à Fonte que Ferve mas, sem saber bem porquê, virou à esquerda direito a Vilarinho do Monte lugar que mergulhado nas últimas tarefas do dia, nem deu pela sua chegada.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Em Moreira de Melres onde há três horas atravessou o rio vindo de Germunde, bem podia ter encurtado caminho seguindo a Sobrido e ali virar na direcção de Aguiar de Sousa e caminhar até Alvre onde atravessaria a frágil ponte sobre o Rio Sousa e correria na direcção de Santa Comba e dali seria um pulo até Lagares, mais precisamente até S. Julião sua terra de origem onde o esperavam já a mulher e os dois filhos. Porém, as manhas da sua engrenagem corporal morada de todas interdições e de todas as liberdades, são muitas e têm de ser saciadas mesmo que para isso tenha de alterar completamente a aconselhável trajectória da vida; ele bem sabia que economizaria caminho e dificuldades mas é sempre difícil resistir aos apelos do cio que o têm transformado num autêntico cão rafeiro atrás de cadela à queira.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Isidro anda apaixonado há muitos anos e, essa paixão que transformou em ampliação quase cega do amor, fê-lo perder a individualidade, esquecer as obrigações e os deveres e ceder sem pensar ao fascínio que uma mulher exerce sobre ele.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Há fortes motivos para seguir este itinerário custoso que provoca sucessivos arranques de esforço a trepar a serra desgastando o buxo e as pernas que vacilam e parecem desfalecer nas costeiras mais íngremes. Os seres enamorados imitem ondas ultra sónicas que se espalham pelos ares subindo serras, descendo aos vales mais profundos como as radiofónicas da Emissora Nacional e são recebidas lá longe no receptor sintonizado na mesma frequência. A razão tem razões que a própria razão desconhece, assim, movido por um sentimento que não consegue controlar, deixa-se envolver no enredo do que julga ser amor num rosário de anos perdidos num namoro que sabe de antemão, nunca virá a ter futuro. No entanto mantêm acesa a labareda da esperança que lhe causa dor e sofrimento misturados com muitas arrelias mas constitui também a razão única para se manter vivo, esmourando no degredo do Pejão como uma toupeira, transformado num farrapo humano sempre pintado de negro a cavar carvão nas profundidades da terra.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pouco ou nada lhe resta de consolo e apenas se lhe mantêm viva a doentia esperança dos loucos que nunca se convencem que o futuro para eles é só uma miragem e que nada nem ninguém os poderão salvar das maldosas combinações deste mundo. O Isidro não está sozinho nesta via – sacra, são tantos a padecer destes indesejáveis tormentos pelas mais diversas razões, que chega a parecer impossível o mundo acertar o compasso dos dias sem qualquer alteração. Decerto o planeta inteiro não sabe nem quer saber das angústias dos seus habitantes. Todos os dias o sol nasce desinteressado de tudo o que ilumina e mexe cá em baixo como a dizer aos seres vivos que lhe é completamente indiferente as formas que adoptaram para sobreviver.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;É pois uma questão de equidade e justiça duas coisas que por acarretarem deveres, poucos ou nenhuns conhecem. Nasce-se já desgraçado nestas miseráveis terras; o dulcíssimo pão – de – ló se é que por ventura existiu aqui, já há muito foi abarbatado pelos espertalhões perpétuos que vão passando o testemunho da rapinice de geração em geração e, só mato, carquejas, tojos e chamiças sobraram para o resto do povo comer.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;À entrada de Cabroelo onde se avista a capela do santo padroeiro estacou de repente. Num campo que dá margem ao caminho, a Maria Rosa cegava erva de cócoras, mostrando um pouco da brancura das coxas. Para facilitar a apanha do penso, arregaçava a saia e assim trabalhava mais à vontade. Depois não passava por ali ninguém àquelas horas e mesmo a outras com o dia bem alto, nem uma alma penada cruza estes caminhos ermos.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O mineiro ajeitou-se para a junto da parede, colocou uma perna em cima das pedras de xisto e botou faladura:&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Então a lidar a esta hora Rosa!?&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Tem de ser, os bois também são gente, ninguém os cala com fome! Respondeu ela suspirando à óbvia interpelação do Isidro.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Talvez fome dos animais misturada com a sede da pujança do corpo ainda jovem a mostrar ardor em cada palavra que a sua boca vermelha pronunciava. A voz estremeceu e a mão que empunhava a alfaia da cega, sentiu-se nervosa.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Ò Gracinha parece tão cansada, não quer vossemecê vir descansar um bocado aqui na borda do campo? Perguntou o mineiro.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já ardia uma espécie de lume por todo o corpo do Isidro. Aquele ardor aparecia sempre a perturbá-lo quando via a cachopa como se todo o organismo reclamasse a dádiva dum beijo que amenizasse o calor da fogueira que o andava a assar por dentro há muitos anos e só em raros momentos como este tinha manifesta e necessária acalmia.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não fora a teimosia dos pais da rapariga em permitir o enlace e teriam selado as suas vidas ali à frente na capela de S. Mateus. Porém a sorte ditou outra coisa, outro rumo que o fez definir diferentes estratégias mas que nunca conseguiram varrer por completo esta paixão.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ela caminhou ao encontro dele, pudera, o que é bom ou é pecado ou engorda e assim sendo vale sempre a pena arriscar. Corada de foucinha na mão esquerda e com a outra a limpar a testa suada, como quem se vai submeter a um castigo que apesar de tudo sabe ser consolo e redenção, era então um anjo a subir ao céu dos seus desejos. No brilho de uns olhos profundamente azuis, trazia a mensagem que todo o seu corpo também ansioso andava a redigir em espasmos nocturnos sem que ninguém conhecesse o bálsamo capaz de aliviar aquele corpo minado por tão intensos anseios. Foram uns minutos de colossal paixão em que as bocas se colaram num delírio inflamado em ao mesmo tempo as mãos do Isidro procuravam aflitas os secretos e sensuais recantos do corpo daquela mulher ainda formosa que tinha sido o seu primeiro amor enquanto a marmita se lhe desprendia da cinta e rolava aos saltos pela borda do lameiro e ia cair como morta no rego que leva a água para a Bouça.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi um relâmpago, qualquer coisa violenta que nem um nem outro poderão nunca explicar. Realidades adúlteras que sucedem assim de repente sem cálculo, sem premeditação como erupção vulcânica, ou apelo dramático da terra que quer fazer justiçam redigindo a direito as escritas que os humanos complicam, ou sabe-se lá o quê.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Tudo acabou num instante; os dois já de pé, pareciam ignorar completamente o ocorrido de quem só a natureza inteira foi testemunha silenciosa.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Então até amanhã. Disse o Isidro enquanto abotoava a portinhola das calças.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Vá com Deus homem! Respondeu a Rosa a quem a cor dos olhos se tinha tornado mais clara e mais brilhante, ajeitando a engelhada saia de roda.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Diga ao seu paizinho que lhe fico com o toiro. Disse o Isidro pendurando à cinta a marmita do caldo.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Reiniciou a marcha interrompida, meteu na direcção do Outeiro da Velha, desceu a Lenteiros e subiu a Bouça, ao cimo da costeira a sua magra figura, desenhou-se no horizonte vermelho, indecifrável.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os melros chilreavam aflitos à procura de guarida enquanto a Maria Rosa, muito de vagar acamava e enchia o gingo com paveias de erva, segura de que os bois já não tinham fome.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4815896655006792931?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4815896655006792931/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4815896655006792931&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4815896655006792931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4815896655006792931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/02/paixao.html' title='Paixão'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-5756030516977501917</id><published>2010-02-02T16:25:00.003+01:00</published><updated>2010-02-02T16:41:02.062+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pedorido'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='coirão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rio douro'/><title type='text'>O Coirão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pedorido aparece ao virar da última curva negro de aspecto como negra é a terra que os homens vão pisar ali. A lava seca da ulha já há muito que tomou conta de tudo. A aldeia ficou feia, perdeu a graça e a beleza de terra de lovoura e de pescadores. Por baixo do pó negro que a enluta, não há nada só tocas de toupeiras humanas que lhe luram o chão até aos infinitos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Coirão, rapaz alto e escanzelado, descalço à dezasseis anos, envergando umas calças que desmedidas não ultrapassam o meio das pernas, fuma desesperadamente uma barôna de cigarro atirada fora por um dos mineiros, enquanto que com o pé direito, coça a canela da perna do pé esquerdo, olha atónito o cortejo que vê passar nas Côncas. Ausente de tudo, vivendo num mundo ainda mais irreal e fantástico e totalmente inacessível aos outros seres vivos, em regulares devaneios de objectiva lucidez, tinge as doiradas águas do douro de um vermelho vivo de sangue. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando a lua se agiganta no céu ou nos dias de vendavais em que os ventos sopram desesperados sobre a água do rio, o louco altera a sua habitual conduta pacífica, enfurece-se e inicia o resumido discurso que melhor descreve a parte mais sombria do lugar. O Coirão conserva arquivadas na doença do cérebro as magoas acumuladas ao longo da vida e, quando há uns anos se apercebeu que agigantado pela cheia o rio lhe cobria a barraca de dois metros quadrados onde ele e a mãe vivem, constitui-o no seu principal e talvez único inimigo: &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Rio é sangue, diz grosseiramente o Coirão que mal sabe falar. O pescoço desprende-se dos ombros oscilante e a cara toma uma forma grotesca e dolorida quando tenta pronunciar as palavras. No tremendo esforço para comunicar, a boca adquire formas medonhas e expele babas enquanto a cabeça se balanceia de lado para lado insegura e nervosa. O Coirão nunca conheceu o pai, sabe-se lá quem será. Tanto pode ser um mineiro como um doutor como um padre. Aquilo que ele conhece perfeitamente é a fome, o frio e muitos outros sofrimentos que o tornaram demente. Também reconhece pessoas importantes que com nojo o sacodem para longe como a um cão com lepra e lhe chamam tolinho. Nenhum deles lhe estende a mão caridosa, o abraça ou lhe calça os pés nus.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Ele gosta de andar descalço, dizem.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como se fosse justo e verdadeiro, como se houvesse alguém neste mundo tão insensível ao frio ao ponto de dispensar tal aconchego, nem um louco senhores, nem um louco. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rio é sangue Coirão. Nunca ninguém conseguiu retratar como o Coirão o rigor absoluto da verdade. Porque não consegue encontrar as palavras exactas para definir a dor da sua mãe perante a calamidade causada pela descomunal cheia, mas sabe que o sangue brota sempre doloroso, encontra nessa frase atabalhoada o sinónimo que a sua voz jamais pronunciaria correcta e claramente. Rio é sangue! É sangue de facto por isso e também por outros motivos que te passam bem longe dos recantos até onde abrange a tua compreensão e que por isso desconheces. Sangue dos barqueiros do douro e dos marinheiros dos Rabões da Esquadra Negra. Em cada escarpa das margens há vincos gravados a encarnado a perpetuar a história desses desgraçados e os gomos da água do rio falam constantemente desse imenso sofrimento.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os mundos do Coirão são outros, bem mais complicados, muito mais negros. O louco sente e sofre no interior da sua insanidade ao ver com espanto as caras e as mãos dos homens, tracejadas com feridas cicatrizadas com mijo e pó de carvão, marcas irreversíveis companheiras até á morte, até à cova onde a terra gorda, apagará para sempre essas sinistras tatuagens. Adivinha-lhes o resto do corpo que, todo coberto pelas esfarrapadas roupas não é visível, também marcado, desenhado a negro como se um pintor louco tecesse essa estranha tela. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Todos passam por ele neste amanhecer tranquilo. Qualquer dos mineiros o conhece e respeita a sua loucura. Olham-no como quem olha uma flor que murchou, com pena e com raiva. O&amp;nbsp;louco assiste impassível a estas marchas sinistras todos os dias e olha-os um a um com uns olhos parados a perscrutar um horizonte tão infinito como a sua loucura. A barôna queima-lhe já os lábios e indiferente à dor que lhe provoca aquele pedaço de cigarro, só se lhe nota no rosto um esgar estranho que chega a assustar os mais pequenos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O choupal ensombra este bocado de terra porque o sol se escondeu na Póvoa.&amp;nbsp;O rio Douro segue o seu destino tranquilo brincando com as pedrinhas do galheiro e, o Coirão sozinho, deita-se na areia da praia e dorme tranquilamente o sono dos simples&lt;/strong&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-5756030516977501917?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/5756030516977501917/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=5756030516977501917&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5756030516977501917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5756030516977501917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/02/o-coirao.html' title='O Coirão'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-1055838293987628251</id><published>2010-01-20T19:27:00.002+01:00</published><updated>2010-01-26T12:55:39.258+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pedorido'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='marcha'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mineiros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='pejão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='alvorecer'/><title type='text'>Marcha ao Alvorecer</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Marcha ao Alvorecer&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Conto&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em fila indiana, no centro da madrugada escura e fria, gasómetro pendurado na gola da camurcina de ganga azul, capacete de chapa enfiado na cabeça, os homens que minam o interior da terra em Germunde descem o empedrado granítico da rua do Remoinho, arrastando pesadas botas de água, de marca pinta - amarela.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As silhuetas recortadas nas coçadas pedras da calçada pelo difuso clarão de uma alvorada que se declara ainda afastada, fazem lembrar estranhos fantasmas de gente ou fila de condenados à morte a caminho da forca. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Na realidade, escondidos nas sombras desta noite constelada, irmanados no idêntico sentimento de uma aflição redobrada, movem-se como autómatos sem vacilar para um desfecho silencioso e lento, às vezes abrupto, mas sempre inexorável. Esta estranha marcha poderá ser a derradeira e, muitas vezes, para alguns deles é. Apesar da bestial realidade, do fantástico drama humano que por repetido se adivinha, esta é uma ocasião de beleza rara com o manto da noite a cobrir as terras, a desenhar os contornos das serranias na débil claridade. É colossal a força que vem dos lados de leste a elevar-se vagarosamente rasgando com um gigantesco clarão de luz, todos os mistérios da natureza que as sombras nocturnas agasalharam. Que maravilhoso momento é contemplar o nascer do sol no alto da serra de S. Domingos. É um esplendor fantástico este que deixa os nossos olhos deslumbrados perante a magnífica obra celeste.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O rumor surdo das pesadas botas a pisar as pedras da calçada, corta o absoluto silêncio dos pobres condenados. Não falam, há muito que se esgotaram as palavras pela ausência de quem afectuoso as ouvisse e, a violenta realidade desta hora convida ao silêncio e à meditação.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;São muitos a povoar a noite. De variadas e diferentes procedências, algumas situadas muito longe das beiras do rio douro onde igualmente se não pode ficar imóvel à espera do sustento, todos se reencontram aqui na confluência dos caminhos que atravessam montes e vales e, quase sem um cumprimento ou outro qualquer gesto de saudação, completam o resto da jornada lado a lado envolvidos numa mudez terrível e assustadora.&amp;nbsp;Todos eles carregam nas pernas, além do resto do sacrificado corpo, as mais complexas emoções que um ser humano pode experimentar em semelhantes circunstâncias. Cada alma destes mineiros é uma alma desamparada e sozinha, entregue a si própria, sem passado, sem presente, sem futuro e até sem Deus. Os olhos que reluzem nas duas cavernas ao cimo do rosto, deixam perceber a medonha angústia que os deteriora e mal reflectem as semelhantes que a vida produz, arquivadas à força no espírito e que se manifestarão num noutro tempo e em outros diferentes lugares. Não desapareceram por qualquer arte de magia, foram apenas substituídas pela mais pavorosa de todas; serem enterrados vivos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Na funesta procissão que rabisca pelos caminhos do monte em frente a S. Domingos e já a aproximar-se do leito do rio, vai o Alberto Minhoca que delgado pela magreza carrega nas pernas um metro e noventa de corpo esquelético. Ao cimo da cara cumprida reluzem espantados uns olhitos claros e imóveis. Na cabeça uma boina preta e, por cima desta o capacete de chapa enfiado, cobrem-lhe a quase totalidade dos cabelos castanhos. Na sua companhia e deveras taciturno vai o Isidro Sardão sujeito que aparenta ter à volta de trinta anos vestindo uma indumentária que em pouco varia da do companheiro e parece ser manifestamente uma figura desempenada que assume a mudez matinal muito embora a mente lhe trabalhe, ruminando pensamento. O Alberto submerso dentro de si próprio, pensa na mulher prenhe de nove meses prestes a parir e na incerteza dessa hora feliz e trágica da sua vida. Já é pai de três filhos e, a inevitável possibilidade de nascer mais um, agita compulsivamente todo o seu ser. A ideia consola-o e ao mesmo tempo aflige-lhe a alma, pela certeza de que o pão que dia a dia procura, não vai chegar para todos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- E se é hoje!? Pensa!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Se calhar vai nascer e eu na mina!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A tortura da ausência obrigatória faz-lhe doer o peito mas logo vem o lenitivo débil, intemporal, quase ridículo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- A ti Joaquina toma conta dela, Já foi ela que pôs os outros cá fora. Não vai haver nenhum perigo!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Num ápice dissipa-se o medo, esclarece-se a dúvida, ganha forma a esperança. Mas que esperança? Conhecedores do antigo provérbio usado ao longo de séculos - enquanto há vida há esperança, sabem perfeitamente que pode haver vida, que embora palpite o coração, pode não existir qualquer espécie de fé num futuro melhor.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;São poucos ou nenhuns os adjectivos capazes de qualificar o estado de espírito do Minhoca. As muitas adversidades quotidianas são o somatório de infindáveis amarguras, são mágoas acumulada ao longo da vida a sangrar e a doer em carne viva. Por isso o Alberto tem sempre presente que, enquanto avança por instinto na existência, pode já ter acabado toda a esperança. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O companheiro de anormal estatura ostenta na cara oval, onde esvoaça mirrado um sorriso permanente, uma barba que aparece rara e combina com cor dos cabelos. Vem de longe, de Cabroelo e já traz nas botas duas extenuantes horas de caminhada a atravessar de lés – a – lés a serra da Boneca. A sua preocupação é real e todavia patética por tão desajustada ao drama presente:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não há dinheiro para comprar foguetes para a festa de S. Mateus. O pouco que resta vai leva-lo a banda musical de Lagares. Ele é um dos mordomos e, só a possibilidade de falhar ao compromisso assumido na roda da última festividade momento em que pela primeira vez se sentiu orgulhoso, massacra-lhe o espírito. Já fizera três peditórios, ele e os outros mordomos. Foram esmolar às freguesias da Capela, Canelas e Figueira mas apesar de se terem empenhado, pouco rendeu a recolha. As vidas andam baixas. Não há tostão nos bolsos do povo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- E se fosse às Termas de S. Vicente, pensou! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Aquela é uma terra farta, pelo menos consta-se. Dizem haver lá lavradores a colher vinte e trinta pipas de vinho e dez carros de milho. Pensando melhor, havia de lá ir no próximo fim-de-semana, talvez no Domingo. Saia cedo e era capaz de chegar no fim da missa encontrando assim o povo todo reunido A correr pelo melhor, podia render uns trezentos a quatrocentos mil réis. Era bem bom, já se comporiam as coisas. Duas ou três dúzias de foguetes, bombas umas seis, o resto de revolta e seriam plenamente atingidos os fins a que como festeiro se propôs. Os habitantes da vizinha povoação da Capela, sede da freguesia a que pertence, haviam de ver então, quem é que canta-de-galo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A sua mente simples e tacanha já o transportava à festa e, no seu subconsciente, no precário imaginário da mente, via o Coelho regedor encolhido e envergonhado perante tal afronta e, ele Isidro Sardão todo enfiado num fato de mescla, com uma gravata às riscas ao pescoço a sair tombada por entre os colarinhos da camisa de popelina branca, ao lado da corpulenta mulher, satisfeito com a vida.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A alvorada aproxima-se, a barca que vai transportar este grupo na travessia do rio acaba de atracar e, todos em fila calcam a improvisada prancha de madeira e entram na embarcação amontoando-se em pé cabisbaixos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Germunde a terra negra para onde se dirigem, está à vista lá ao fundo na outra banda do douro e já lhe adivinham a sombria fachada enquanto as suas almas amarguradas começam a rezar baixinho.Parecem ter entrado no momento pavoroso da submissão. O espírito etéreo abandona por algumas horas o corpo que vai mergulhar na terra. O alma procura a luz e abomina as escuridões sem nunca cooperar com este intolerável enterro de pessoas vivas e assim sendo, ficam só os articulados esqueletos mecanicamente a avançar para o buraco onde a noite se perpétua. Não existe permitida determinação própria nestes pedaços de carne humana. Simples seres sem quaisquer direitos, manejados por vontades interesseiras que não contemplam a análise da dor, do sofrimento e da desumanidade do trabalho, vergados e impotentes perante semelhante desdita, totalmente desprotegidos caminham como bizarras marionetes para uma labuta que quem ordena torna desonrosa e desprezível.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não há homens em Germunde, as figuras estrambóticas que passam na escuridão são a matéria, a energia barata que vai ser usada a cavar o chão. Estas despersonalizadas criaturas pouco valem aos olhos dos patrões, ou melhor, não valem nada. Cada um representa-se a si próprio e, se alguma vez se lhes enfeita um sorriso nas caras enegrecidas pelo carvão, é fugaz, passageiro e maculado por uma névoa de mágoa e tristeza que nunca lhes abandona o olhar.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;É difícil entender, compreender o que surpreende mais nestes mineiros se a sua submissão ao trabalho sem um protesto, se a apatia com que deixam passar os dias e os anos a morrer aos poucos nas profundezas da terra. Tal abandono à sorte vai ter de ter um fim.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-1055838293987628251?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/1055838293987628251/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=1055838293987628251&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1055838293987628251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1055838293987628251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/01/marcha-ao-alvorecer.html' title='Marcha ao Alvorecer'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-8277012225585588644</id><published>2010-01-07T13:01:00.002+01:00</published><updated>2010-08-26T10:58:09.733+02:00</updated><title type='text'>A Primeira Dança</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pedorido acordou frio embrulhado num manto de neblina de um branco imaculado, lençol de puro algodão com que a Natureza acaricia quem a estima. Das serras que delimitam a aldeia nem sinal, perderam-se na nuvem gigantesca que avançou sobre ela e só um pedaço da povoação se avista lá ao fundo recolhida na margem do rio Douro.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A manhã avançou sem pressa espreguiçando-se sobre a água e, aos primeiros alvores da tarde o sol espargiu uns raios de luz sobre aquelas almas perdidas num deserto tão longínquo da civilização que provavelmente ninguém neste mundo teria conhecimento da sua existência.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tem campos estendidos em socalcos por uma área limitada com matos e, como num jardim babilónico, as bastas oliveiras, carvalhos, laranjeiras e alguns choupos são as únicas árvores inclinadas para o céu. As videiras que produzem o vinho americano, alinham-se em bardos perpendiculares uns aos outros até quase tocarem no rio Arda que quebra a meio a povoação e desagua ali perto por entre choupos que, perfilados, parecem grandioso exército em cerrada formação, parecendo aguardar a hora de um combate final. A claridade alastrou enfim mostrando a soberba paisagem envolvente onde, do outro lado do rio Douro a linda aldeia branca de Rio Mau, surge altiva debruçada sobre a água numa cumplicidade permitida há séculos e, já com meio caminho percorrido no céu, o astro rei principiou a aquecer medroso os povoados.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fumegavam os matos, as oliveiras, as vides e a serras em volta eram um processo inteiro de evaporação dos cristalinos orvalhos que o nevoeiro deixou. Um cheiro acre e doce espalhou-se pelas aldeias que assistiam serenas ao evoluir de mais um dia tão igual a tantos outros de que nenhuma história fala e de que só os poucos habitantes destes ermos vão acumulando no baú das recordações como quem acautela incalculável tesouro da cobiça de olhos alheios. Depois de demoradas actividades no recolher dos milhos lá em baixo onde uma reentrância de água aguarda o último estremecimento do rio Arda, refresca e permite o cultivo do cereal, a noite veio antecedida por um entardecer fantástico onde as cores da paisagem se modificavam em cada segundo e os rios eram fios de oiro e prata a serpentear lentamente no seu milenar leito, imperturbáveis e sossegados, sem fazerem contas à longa vida que já tinham e que haveriam de conservar por toda a eternidade. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os melodiosos sons de música de concertina, viola, violino e cavaquinho espalharam-se sobre a eira onde o Sebastião comandava o racho de mulheres e homens que desfolhavam espigas e os cantares ao desafio formavam o despique de nostálgica doçura. Depois veio o baile em que rapazes e raparigas evolucionavam no estrado de ardósia negra, descalços, ao ritmo da chula do Douro e do importado vira do Minho. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Margarida estava sentada na sua cadeira ao lado das outras e via-as felizes rindo esperançosas de uma dança. De vez em quando, num compasso entre as músicas, lá vinha um rapaz e ela de olhos suplicantes, com um alvoroço a crescer-se no peito, ansiosa, aguardava agitada o desejado pedido que a metesse no baile e a fizesse rodopiar nos braços de alguém no improvisado palco. Eles passavam de pé pela mole de raparigas expostas e, às vezes prendiam-se mesmo a seu lado numa cachopa mais bonita que ela. Nessas alturas, obressaltava-se-lhe o coração cada vez com mais força ao ver que já quase todas bailavam e ela a quem a Deus não favoreceu de cara perfeita e corpo elegante, magra e desengraçada, permanecia quieta a sofrer as dores do abandono. Dentro do peito, no seu jovem coraçãozito que pulava assustado, fervia a esperança e a ardente promessa feita a si própria de, se por um acaso algum a desejasse, se lhe prestasse atenção, o recompensaria pagando-lhe com gozos a prenda de uma dança, fosse quem fosse a figura de homem que deixasse cair um olhar sobre o seus olhos castanhos e lhe estendesse a mão que convida ao abraço.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Naquela noite fria mas quente de emoções quando já tudo fazia prever mais um desconsolo na sua alma despedaçada, apareceu o Sebastião que retardara a entrada no baile ocupado na recolha das espigas. Era um rapagão alto, de olhos verdes, com a camisa de flanela aberta no peito, parecia um anjo enviado do céu ao encontro das mulheres desejosas. As outras excitadas pela presença do rapaz, compunham os cabelos, faziam poses de artista e as mais arrojadas, sorriam-lhe de longe e mostravam a brancura das coxas trespassando as pernas joelho sobre joelho. Ele veio caminhando de uma ponta à outra da eira, parou à sua frente e perguntou-lhe:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-A menina quer dançar comigo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Margarida não esperava semelhante convite de um homem assim pois nunca nenhum, malparecido ou formoso se aproximou dela e a convidou para dançar e, se fosse verdade, se por obra do acaso ele não estivesse a brincar, seria a coisa mais importante que alguma vez lhe aconteceria na vida. Como envolvida no torpor de uma alucinação, de faces coradas, deixou-se envolver pelas fortes mãos do rapaz que a conduziram levitando como uma pena por sobre toda a sua colossal emoção. As outras morriam de inveja segredando a um canto e ela feliz volteando nos braços daquele moço, príncipe encantado que a vinha resgatar de medonhas humilhações sofridas no recente passado, parecia um anjo a subir a um céu só imaginado num sonho. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Rodopiavam os dois agora solitários no meio da eira que Margarida ia transformando no centro do universo durante aqueles minutos. Instantes encantadores, todos a olha-la perplexos e espantados, quase esquecidos da própria dança, rendiam-se ao inesperado e inimaginável acontecimento. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Margarida era agora uma mulher perfeita, a mais bela de todas, a única, a escolhida do homem que todas desejavam. Sebastião ia-lhe falando ao ouvido nas voltas da dança que agora era um tango e as sua mãos fortes cingiram-lhe mais a cintura fina apertando-a contra si com força e ela feliz sorria com lágrimas nos olhos. A dança acabou e ele veio traze-la ao lugar agradecido e as outras olhavam-na espantadas e ciumentas enquanto ela segurava um lacinho que apertava no peito o vestido de chita fingindo-se ocupada para esconder a enorme felicidade que pela primeira vez sentia na vida. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Olhava para o fundo da eira cheia de esperança. O rapaz voltaria? Não, decerto foi por engano que a veio buscar; agora iria dançar com outras muito mais atraentes e bonitas que ela. A orquestra começou a tocar uma musica dolente e Margarida ia entristecendo a cada acorde, quando Sebastião entrava mais uma vez na eira. Quem seria a escolhida deste homem agora? Talvez a Rosa, de todas a mais fascinante e cobiçada por muitos, também à espera como as outras de brio ferido por não ter sido a escolha primeira daquele rapaz bonito. Sebastião levantou os olhos por sobre todo o espaço do baile e sorriu, sorriu para Margarida lá do fundo da eira. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;-Ai minha Nossa Senhora de Fátima, rezou ela apreensiva de olhos outra vez marejados. Lá de longe, Sebastião com um dedo apontando para ela perguntava-lhe em mímica se ela queria dançar. Ela sorriu como o rosto iluminado que dizia, sim! A improvisada orquestra tocava a balsa da meia-noite e ele apertava-a contra si, ela a sentir-lhe o bater do coração, o calor do corpo, o sangue a ferver-lhe nas veias e a respiração quente pertinho da sua boca. Ergueu um pouco a cabeça, olho-o na profundidade daqueles olhos verdes e depois semi-cerrou os dela suplicante da carícia do seu primeiro beijo. A música progredia no espaço da eira num sussurro mágico e Margarida perdida no sonho, agarrada a ele, sentiu pela primeira vez na vida a quentura de uns lábios pousarem nos delas. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O nevoeiro voltava a formar-se sobre o rio que parecia sorrir e, lentamente ia subindo as serras fazendo Pedorido e Rio Mau desaparecerem mais uma vez do mapa do Mundo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-8277012225585588644?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/8277012225585588644/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=8277012225585588644&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8277012225585588644'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/8277012225585588644'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2010/01/primeira-danca.html' title='A Primeira Dança'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2840949495151897487</id><published>2009-11-29T15:46:00.003+01:00</published><updated>2010-12-16T11:20:01.413+01:00</updated><title type='text'>NATAL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;E ele a dar-lhe e a burra a fugir. Tanto já se tinha esforçado para vender os toiros em condições vantajosas que perdeu a conta aos artifícios montados nesse firme propósito de fazer o negócio que agora acabara de concluir na feira de Melres.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nem em Canedo lhos quiseram por duas notas de cem mil reis a quantia que correspondia exactamente à última avaliação feita pelo Roto de Cabeçais nos vinte e cinco em Entre-os-rios.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tratantes, passa um homem um ano inteiro a pastar e a engordar o gado e agora dão-lhe aquela miséria de compensação por tanto esforço! Ele é erva, folhelho, palha e muitas vezes milho do canastro para manter uns bois sempre na esperança de, depois de bem medrados, tirar deles um suplementar rendimento de forma a poder sobreviver enfrentando as muitas adversidades que podem surgir sem a gente contar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Cento e oitenta paus por dois touros; bichos graúdos, possantes, capazes de lavrar num só dia dois campos de milho ou acartar do monte, cinco ou seis carros de mato, é mesmo a gozar com quem trabalha a terra!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mas pronto, agora é rezar-lhes pela alma, no fundo o que interessava mesmo era sentir no bolso das calças de ganga o bafo das notas que pareciam acabadinhas de fazer na Casa da Moeda. São raras, quem tiver a felicidade de deitar os olhos em cima de uma montanha daquelas, todas de vinte escudos, pode considerar-se um homem rico.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Caminhava em direcção a casa pelos caminhos do monte levando numa mão a soga agora desocupada e na outra a vara de marmeleiro com que tocou os animais até à Melres.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Isto de antecipar as feiras também tem que se lhe diga, um homem faz contas à vida e tudo o que lhe alterar o calendário religiosamente estabelecido no princípio do ano, acaba sempre por trazer grandes contrariedades. Falhou um dia de poda lá em baixo nas Enxurreiras e ainda por cima se havia de fazer bom tempo, era hoje. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;José Ratana é um tipo rude e de aspecto típicamente labrego. Tem feições largas onde sobressai uma boca larga por baixo de um nariz achatado a marcar o meio da cara queimada pelo sol. Umas ligeiras rugas começam já a florir um pouco por todo o rosto e um cabelo expesso e esbranquiçado, afirmam uma meia idade feita de muito esforço para sobreviver. As roupas que lhe cobrem o corpo, são do melhor que adquiriu nas nas tendas das feiras das redondezas e só a samarra aconchego fundamental, engolada por pele de raposa, foi feita por medida nos armazéns Peixoto em Penafiel.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;As gentes do campo, na sua simplicidade herditária, constituem decerto a mais pura raça Lusitana incapaz de ferir e magoar seja quem for mas detentores da força e do engenho que além de produzir o pão, sabe o que quer da vida e cumpre com rigor absoluto as tarefas que lhe forem confiadas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Tarde de Dezembro, véspera de Natal e ele a passar nas Corgas a digerir um negócio que sem ser bom ou mau, acabou por não atingir os desejados objectivos. A vida é cheia de surpresas e raramente concede aos mortais o pleno realizar das suas aspirações. Decerto para bem deles pois a cumprir-se os desejos de cada um, seria impossivel haver harmonia no universo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Que se lixe, haverá outros negócios mais vantajosos, a vida e o mundo não acabam hoje e, se Deus quiser, os acertos deste prejuizo hão-de ser recompensados para o ano que vem. É tudo uma questão de tempo mais coisa menos coisa; quem aqui anda a dar o corpo ao manifesto há tantos anos, também pode esperar mais alguns por melhoras de vida. Um pobre, por mais voltas que dê à caximónia, só por milagre sai da cêpa torta; são muitos a cobiçar-lhes os tostões e, como os lobos da serra, estão sempre à espreita a agurdar o momento de dar a ferradela. O Ratana está farto de ser mordido e venha quem vier será dificil convencê-lo que isto não é obra do destino, daquela marca que trazemos ao nascer que não há sabão que consiga tirar. O filho apesar meio cego de uma vista, teve se ir para a tropa, apurado para todo o serviço militar na ispecção em Penafiel, viu outros, filhos de gente rica bem nutridos ficarem livres, dados como incapazes escapando assim à guerra do ultramar. É fodido mas não há volta a dár-lhe; o mundo foi feito só para alguns e se Deus não voltar cá abaixo, vai continuar a ser por muitos e longos anos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um lavrador também pensa e embora seja raro perder tempo a meditar sobre a vida, há momentos em que apetece um homem desabafar nem que seja consigo próprio e assim sendo, não corre o risco de ser tupado por um bufo e ir direitinho ao chelindró levado pela Pide.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Anoitecia, o sino da igreja de Sebolido batia as cinco horas da tarde e o Ratana aconchegou-se um pouco mais dentro da samarra tentando impedir que o ar gelado de Inverno lhe penetrasse no corpo e chegasse até aos ossos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Já perto do povoado, ali onde os caminhos se encontram e prometem variadas e incógnitas direcções, parou a contemplar a capelinha da Senhora do Monte. De chapéu na mão, sim porque um verdadeiro devoto tem de se descobrir e guardar respeito às coisas de da fé, benzeu-se e fez uma prolongada vénia. Um homem trás sempre dentro da solidão sentimental da sua vida, intangíveis mistérios e ele na condição de criatura feita à imagem e semelhança de Deus, não escapava aos propósitos do destino e carregava também a pesar-lhe em cima do lombo, inquietações, angústias e medos e muito mais coisas que o iam minando como a aguardente a um alcoólico.Como se de repente lhe viessem à cabeça todas as dolorosas realidades da vida, avançou para a entrada da capela disposto a rezar. Foi um desejo imprevisto, um baque no coração que não tem explicação mas que lhe condicionou todas as vontades previsíveis e lhe ordenou numa hipnose estranha o que tinha de fazer.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- O meu Quim! - Exclamou&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O filho ausente na tropa a lutar na Guiné, nesse ultramar que derrete juventudes inocentes e que já há dois natais não se sentava à mesa da ceia, entrou-lhe pelo pensamento dentro com um tiro desferido à queima – roupa que o degolasse ali, entupido por um nó que se formou de repente na garganta e a ferida da sua quase insuportável ausência, aquela fenda no peito que lhe andava a esmagar o coração, principiou de novo a sagrar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ajoelhou na terra húmida do recinto e, como um naufrago aflito no mar alto que visse ao longe o navio da salvação, ergueu as mãos ao céu e soltou o apelo que o devorava:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Senhor, eu sei que sou pecador que decerto nem mereço um simples olhar da Vossa Divina Graça mas se poderes trazei de volta o meu pequeno, não por mim mas pela minha Ana que morre de saudades do filho! Não sabemos dele há mais de dois meses, o Maioto carteiro não nos chega com notícias, tão-pouco com um aerograma a dizer se está mal ou bem!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os olhos humedeciam-se à medida que se embrenhava no entorpecimento da espontânea oração e aquele ser dos campos, era então o símbolo vivo de todas as fraquezas humanas, reduzido ao nada, ao barro de que foi formado ao pó a que há-de voltar a ser um dia. Recorria à santa que nem sequer via porque fechada dentro da capela decerto nem o ouvia e pelo mais certo ignoraria as suas preces. Tão pequena e frágil é a condição humana, desprotegido agarrava-se ao divino com tal devoção que só um Deus muito severo e cruel não atenderia a tão humildes e sinceras súplicas.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Levantou-se e benzeu-se de novo com mãos trémulas ao mesmo tempo que deu um passo em frente e empurrou a porta do pequenino templo que se abriu e deixou ver na penumbra do reduzido compartimento, um altar mais ao fundo com a imagem de N. Senhora de Lurdes pausada em cima de uma toalha de linho branco que o olhava com a celeste bondade dos santos.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Assaltado por um sentimento de piedade repentino avançou timidamente para ela e ajoelhado disse:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Estou eu para aqui feito tolo a pedir coisas e a senhora ai sozinha ao frio dentro da capela sem comer e sem beber. Hoje é dia de festa e se vossemecê não se importar, vai consoar lá a casa comigo e com a minha Ana. A comida já deve andar às voltas na panela, são batatas cozidas com bacalhau e tronchudas regadas com azeite da terra, do mesmo que ilumina o Santíssimo Vosso filho que está lá em baixo na igreja e, se Ele quiser, há-de haver uma rabanadita ou duas feitas com mel do Manel da Deolinda e também um naco de bolo rei para socega! Não sei se a Senhora gosta mas é sempre melhor que nada! Se a deixar aqui, nem consoada vai ter! Olhe que a minha Ana cozinha que é uma maravilha!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Sem esperar resposta pegou na estátua da santa, embrulhou-a na toalha, meteu-a debaixo da samarra saindo a caminho de casa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Passou à Cruz de Ferro já a noite descia em manto gelado a cobrir os campos e os montes e as tronchudas nas leiras da Rodela, luziam já cobertas pela humidade do sereno nocturno.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Chegou finalmente a casa quando a esposa preocupada já se tinha decidido a procurá-lo. Ao ver aquele embrulho debaixo do braço do marido exclamou surpreendida:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Que é que trazes ai homem, é um bacalhau? Se for já vem tarde, o que vais comer hoje, já está cozido!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;-Não mulher, respondeu num sorriso de contente, trago aqui a N. Senhora de Lurdes que este ano resolveu vir consoar cá a casa! Em falta do nosso Quim fica ela a fazer companhia à gente, é sempre uma mulher que mete respeito!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ela calou-se entupida por brusca e inesperada emoção a olhar para o marido, aquele pedaço de asno, rude como toco de carvalho, mas que tinha dentro do peito uma alma do tamanho do mundo. Chorou por que ele lhe lembrou o adorado filho ausente e também por confirmar mais uma vez ao longo desta vida de trabalhos e canseiras, que casou com um homem capaz de retroceder no tempo e reencarnar a inocente época em que foi criancinha.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A ceia estava pronta, na travessa de barro com ramos de flores estampados, apareceram as fumegantes batatas cozidas meio cobertas com postas de bacalhau e tronchudas. Um cheirinho a Natal espalhou-se na cozinha que a luz de um lampião a petróleo mal iluminava e a mesa posta tinha três talheres e outros tantos pratos, ao centro mais um outro cheio de rabanadas e um bolo rei embrulhado num papel de fantasia com pequeninas árvores de natal desenhadas, completava a fartura que se repetia todos os anos nesta noite.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A lareira crepitava em farto lume e, pela primeira vez neste Inverno, superava o frio que entrava pelas frinchas da parede e das lousas da cobertura porque o lavrador tinha trazido do monte um enorme tronco de castanho.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Trum, trum, trum&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Alguém batia no postigo. O Ratana levantou-se num pulo e foi abrir a porta ao inesperado visitante. Ali, à frente dos seus olhos estava o filho fardado de camuflado militar. Nem um som pronunciou a sua boca estupefacta e sem medir os gestos, avançou e abraçou-se a ele a soluçar. A Ana veio também a correr e, por entre lágrimas e risos os três eram um só de pé na soleira da porta da singela casinha.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Veio a ceia agora ainda mais apetecida e os quatro a consoar em volta da mesa, faziam lembrar o santo presépio de Belém&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2840949495151897487?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2840949495151897487/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2840949495151897487&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2840949495151897487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2840949495151897487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/11/natal.html' title='NATAL'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7503292769549447390</id><published>2009-11-03T19:48:00.008+01:00</published><updated>2009-12-09T16:33:02.020+01:00</updated><title type='text'>Saudades</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;Os seus olhos cansados voltaram a engolir ávidos o retrato verdadeiro da terra onde nasceu. Como num filme antigo, as imagens passavam rápidas sobre os anos e sobre as suas lembranças. A vista tolda-se-lhe por água que não é da chuva nem do rio mas humidade que nasce de mais fundo, das entranhas que choram a dor imensa das saudades transformadas no perfume da solidão, no pesadelo dos dias, no cansaço das noites, na insónia que perturba e abala quem as sente. &lt;br /&gt;Passaram cinquenta anos desde a última vez que aqui veio ainda à procura dos restos da sua meninice lancetada, cortada a meio por um rio que adorava e que tinha sido o seu embalo. A vida levou-o, a ele e aos pais e irmãos, afastou-o do sítio onde pela primeira vez viu as claras madrugadas, as chamas prometedoras dos dias e colocou-o do outro lado do Douro a escassos metros de distancia mas demasiado longe para poder sentir o pulsar daquela aldeia de pescadores e mineiros, branca e pobre que tem colinas a matizar as fraldas da serra da Boneca e água a cercá-la quase por todos os lados. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;É perto dizia-lhe o pai! É daquele lado, é como se estivesses aqui! Quando quiseres, vens de barco, ver os teus amigos, a rapaziada, nem saudades vais ter! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;Mentira, as mágoas vieram certas com a ausência, doeram na alma de tal maneira que julgou ir morrer de coração partido. Era à noitinha, na abençoada hora do crepúsculo quando os corpos exaustos de quem arduamente trabalha para angariar o sustento, encontram finalmente a paz, que debruçado sobre o douro olhava o povoado de além sentindo a calmaria a descer sobre a terra como manto divino e protector. Nessa hora mágica deixava correr dos olhos algumas lágrimas furtivas e, preso só pela violência da separação, jurava ali mesmo nunca mais se esquecer dela.&lt;br /&gt;Mais tarde à procura de melhor vida, abandonou também esta terra adoptiva e fixou-se para os lados de Ovar onde a pulsava um maior desenvolvimento capaz de lhe proporcionar um outro e possivelmente melhor&amp;nbsp;modo de vida.&lt;br /&gt;O tempo foi apagando essa dor com visões diferentes de mundos desiguais, de novas pessoas, amigos e colegas. Mudaram-se os hábitos, os costumes, as rotinas alterou-se tudo no rodopiar dos anos e, preso em outras novas ilusões, o coração sarou. Agora chegava para reviver o passado perdido. Enterneceu-se ao olhar Pedorido a sua terra adoptiva a reluzir do outro lado do Douro e sentiu no peito a dúvida do afecto. Qual das duas terras amaria mais!? As duas por igual! A uma e a outra quer como se quer a uma mãe. Ensaiou um suspiro e deixou-se prender por algum tempo nos laços das recordações. Percorreu a pé aldeia, foi ao centro do lugar em busca dos rostos da sua meninice rasgada e um misto de júbilo e tristeza apoderou-se de todo o seu ser ao tomar conhecimento das alegrias e tragédias que aconteceram durante estes anos todos. Reconheceu alguns do seu tempo, abraçou-os com a mesma força de antigamente num entusiasmo que sabia ser breve. Pouco ou nada se recupera da nossa meninice e juventude; se partimos, deixa-mos que se desliguem as amarras que nos mantinham presos a um mundo que por mais pobre que seja, transformar-se-á num tesouro incalculável. Ele tinha consciência disso, experimentou uma&amp;nbsp;actividade nova num mundo novo onde se envolveu totalmente durante meia vida e, aos primeiros alvores de um Outono implacável, aconteceram mais vivas as saudades. Ia perguntando por este e por aquele, obtinha respostas que lhe magoavam a alma:&lt;br /&gt;- O Raspa já morreu, o Ricardo, o Hélder, o&amp;nbsp;Herculano e muitos mais num rol que parecia nunca mais ir acabar:&lt;br /&gt;- E o Zé Abílio, perguntou? Esse anda por aqui, ainda há pouco aqui estava! E o Marau? Olha está dentro do café, espera, vou chamá-lo! Mais um abraço, mais um pedaço da infância a palpitar ali. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;Olhava-os um a um aos antigos companheiros tentando reconhecer neles os meninos de outrora de rostos puros e alegres&amp;nbsp;mas o que tinha na sua frente eram apenas despojos de juventude que o tempo traiçoeiro envelheceu. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;A vida a fazer-se vida novamente nas lembranças. Imaginou-se criança, descalço a correr pelas ruas poeirentas desta aldeia e, as imagens desse tempo iam-lhe passando difusas pela mente poeirentas e a preto e branco.&amp;nbsp;O subconsciente a levá-lo ao passado, a condená-lo por ter enjeitado e abandonado o seu torrão Natal. Sacudiu a cabeça como se pretendesse afastar a culpa, &amp;nbsp;meteu-se no carro e voltou lá para longe onde as saudades moram e decerto por ai ficará até fechar os olhos para sempre obedecendo aos apelos do sangue. De Rio Mau e Pedorido, lembrar-se-á sempre porque aqui jazem como fantasmas a sua meninice e juventude.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: verdana;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;Ao meu amigo, Augusto Silva emigrante em Ovar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7503292769549447390?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7503292769549447390/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7503292769549447390&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7503292769549447390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7503292769549447390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/11/saudades.html' title='Saudades'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-5154506139237257467</id><published>2009-10-06T11:58:00.002+02:00</published><updated>2009-10-06T12:12:58.813+02:00</updated><title type='text'>Feliz Aniversário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois dos oitenta já muito pouco ou mesmo nada pode fascinar um homem. As &lt;span id="SPELLING_ERROR_0" class="blsp-spelling-error"&gt;circunstâncias&lt;/span&gt; da vida vão moldando o carácter, atenuando comportamentos, suavizando os anos e os dias e até modificando as feições do rosto ao ponto de um ser humano ficar praticamente &lt;span id="SPELLING_ERROR_1" class="blsp-spelling-error"&gt;irreconhecível&lt;/span&gt;. Perdem-se no percurso sinuoso dos tempos os tumultuosos apelos da carne, as vastíssimas fantasias da mente, as forças dos músculos, a &lt;span id="SPELLING_ERROR_2" class="blsp-spelling-corrected"&gt;rigidez&lt;/span&gt; dos ossos, a vontade de viver e até afrouxam as correntes que nos prendem ao mundo. Depois de velhos, é rara a lucidez e, nos labirintos do cérebro tornam-se frequentes os curto-circuitos que deformam a realidade, alteram a forma de pensa, provocando angústias e medos.&lt;br /&gt;Não se sabe para onde vamos como nunca chegamos a saber de onde viemos. Esse irritante mistério deixa-nos petrificados e frágeis perante o rapidíssimo evoluir da civilização. No curto espaço de uma vida somos sujeitos a uma &lt;span id="SPELLING_ERROR_3" class="blsp-spelling-error"&gt;aprendizagem&lt;/span&gt; contínua, &lt;span id="SPELLING_ERROR_4" class="blsp-spelling-error"&gt;massificada&lt;/span&gt; e à dolorosa adaptação a métodos e filosofias de vida que não conhecíamos e nos dizem constantemente terem sido adoptada para nossa exclusiva felicidade num engano tão &lt;span id="SPELLING_ERROR_5" class="blsp-spelling-corrected"&gt;óbvio&lt;/span&gt; que perturba ainda mais pelo constatar de que quem nos prega tão imbecil doutrina, nem se quer sonha que esse estado deslumbrante de um ser, não se adquire tomando punções mágicas, nem se vende nas farmácias, nos &lt;span id="SPELLING_ERROR_6" class="blsp-spelling-error"&gt;hipermercados&lt;/span&gt; nem mesmo pela Internet. A felicidade é o equilíbrio do corpo e do espírito.&lt;br /&gt;Se alguns se deixam prender nesse &lt;span id="SPELLING_ERROR_7" class="blsp-spelling-error"&gt;frenesi&lt;/span&gt; incontrolável, outros, a maioria de nós, prefere seguir o padrão da tranquilidade tendo sempre como referencia, aquilo que foi na meninice e juventude mantendo-se consistentes e &lt;span id="SPELLING_ERROR_8" class="blsp-spelling-error"&gt;inabaláveis&lt;/span&gt; aos apelos de uma sociedade mais mecanizada que humana onde só os espertos, os larápios e os &lt;span id="SPELLING_ERROR_9" class="blsp-spelling-error"&gt;beneficiários&lt;/span&gt; de estatuto de diferentes, conseguem sobreviver embora infelizes. Depois dos oitenta o corpo inicia a inclinação à terra, verga-se ao apelo do chão como centenária árvore que perdeu as raízes e só aguarda um golpe de vento para tombar vencida.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt; Todos morremos sem dignidade por que na morte ela não existe. Os pobres, os ricos, os espertos os tolos e até mesmo os contadores de histórias, só em vida podem ter esse titulo de nobreza. A morte é pois uma coisa má, indigna, a pior de todas as coisas.&lt;br /&gt;Acabou tudo quando o Abade Aniceto derramou em cruz a última água benzida em cima do caixão ao mesmo tempo que apressado, encerrava a encomenda da alma deste pobre homem a Deus. As flores, aquelas que nunca teve em vida oferendadas, cobriam agora o esquife, amontoando-se mortas, como num dia de Santos, transpondo as barreiras do exagero, numa inutilidade gritante a lembrar aos vivos o que é a fantochada dos seus corriqueiros hábitos fingidores dos mais puros e idolatrados sentimentos.&lt;br /&gt;Mal sabiam estes desgraçados acompanhantes do féretro onde repousavam os restos mortais do contador de histórias, que neste preciso momento se iniciava mais uma alucinante volta do carrossel das suas atarefadas vidas e que estas flores, ou outras iguais iriam, mais dia menos dia, mortas também, fazer parte do cenário cómico das suas próprias mortes. Não há forma conhecida de escapar ao incidente inevitável, então, ignorando a comum fatalidade, num rasgo de perícia teatral, assumem a postura de gatos-pingados transformando o desenlace num mero e chato acontecimento a que, por obrigação, têm de assistir, mostrando-se todavia infelizes com a perda. O morto já com oitenta e nove anos feitos hoje seis de Outubro deste ano sem graça, já pouco ou nada ambicionava deste presépio que teima em se fazer sinistro e frio onde os rostos mais &lt;span id="SPELLING_ERROR_10" class="blsp-spelling-error"&gt;representativos&lt;/span&gt; deixaram há muito, de retratar as santas do seu homólogo de Belém. Tinha perdido tudo aquilo que transformou em esperança na roleta da existência, no jogo sujo de uma humanidade demasiado materialista, &lt;span id="SPELLING_ERROR_11" class="blsp-spelling-error"&gt;despersonalizada&lt;/span&gt; e má, que nunca soube e tão cedo não vai quer saber com quantos paus se faz uma canoa, entregando-se de alma e consciência na mãos dos tiranos que &lt;span id="SPELLING_ERROR_12" class="blsp-spelling-error"&gt;circunstancialmente&lt;/span&gt; comandam a embarcação deste mundo e, julga-se que decepcionado deixou-se morrer. Foi-se na que julgamos a sua hora, precisamente no dia do seu aniversário, apagando-se lentamente como pavio de vela a quem falhou a cera, na serenidade &lt;span id="SPELLING_ERROR_13" class="blsp-spelling-error"&gt;impressionante&lt;/span&gt; de nenúfar ao sabor das tímidas correntes de um qualquer rio algures em Trás-os-Montes.&lt;br /&gt;Finou-se ali no alto da colina mirante perpétuo da sua vida, lançando um último olhar sobre o rio dos seus sonhos, cúmplice das suas alquimias como quem se despede dos segredos, sorrisos e carícias de adorável amante ou como se fosse andorinha que rasga um horizonte infinito a caminho de outras diferentes e novas primaveras.&lt;br /&gt;Tudo o que de luzidio tornou a sua vida jaz em campa esquecida, derrubado mais pela transformação do mundo de que pela inevitabilidade da morte, como espólio de antiga batalha em que só este guerreiro sobreviveu para vir cair hoje aqui desamparado como se também fosse ele parte integrante das &lt;span id="SPELLING_ERROR_14" class="blsp-spelling-error"&gt;ínclitas&lt;/span&gt; e infelizes personagens das tantas histórias que nos contou.&lt;br /&gt;Acabou! A morte redentora fez o seu trabalho e leva nas lívidas mãos o que resta deste homem. Baila neste ar cinzento de Outono esse fantasma de gente que se recusa a partir nessa estonteante viagem sem antes, num descaramento macabro, narrar a sua própria morte. Erro colossal! O que o faz ficar mais uns segundos a pairar sobre a terra, mais que essa recusa de partir que sabe impossível, é ter percebido a tempo, embora no último sopro da existência, que afinal a vida é toda ela uma ilusão e que muito mais que a soma de pequenos gostos e grandes desgostos é uma mentira, tudo uma mentira.&lt;br /&gt;Olha-os um a um, aos seres vivos que &lt;span id="SPELLING_ERROR_15" class="blsp-spelling-error"&gt;taciturnos&lt;/span&gt; imitam na perfeição a mágoa da sua perda, como quem finalmente percebeu a comédia colectiva do mundo, a inutilidade em que se transformam as relações mundanas, as grandes amizades, o amor e outros mais enérgicos afectos. Deixou de compor, deixou de sonhar mas aquele, já perpetuo sorriso na cara gelada, indicia o gozo de quem finalmente encontrou o caminho da verdade absoluta e pensa voltar quando Deus lho permitir. Deixou-nos uns livros e um rio que transformou em flores.&lt;br /&gt;Que descanse em paz entre os esplendores da luz que ele não deseja perpétua, ámen…&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-5154506139237257467?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/5154506139237257467/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=5154506139237257467&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5154506139237257467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/5154506139237257467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/10/feliz-aniversario.html' title='Feliz Aniversário'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4585373851162613272</id><published>2009-08-31T10:55:00.007+02:00</published><updated>2009-12-09T16:13:19.460+01:00</updated><title type='text'>Cipriano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Por entre os primeiros alvores do amanhecer, Sebolido aparece ao fundo da serra da boneca, encravado entre as fragas da Abitureira os Penedos da Sombra e o rio. Estende dois braços lancinantes na paisagem. É terra de lavoura de pescadores e de mineiros. Casas afidalgadas alinham-se aqui e ali no caminho que conduz à igreja de S. Paulo. Não há luz eléctrica em Sebolido como não existe nas outras terras vizinhas. A luz é de candeias, de lampiões a petróleo e de velas de cera. As noites são escuras como breu e, só muito raramente cortam as cerradas trevas os difusos clarões das artesanais lanternas quando algum ser aflito procura ajuda no lugar ou ainda se alguma bruxa vai lavar roupa à presa de Junçadelo. Fazem alarido, batem com as mãos na água e agitam-se desesperadas no meio da noite. Cobrem os corpos nus com longos lençóis brancos que lhes emprestam um ar ainda mais sinistro nesta escuridão. Dizem ser as mesmas que assombram as margens do rio mau. Aparecem pontualmente nas noites de lua cheia atulhadas de assombros e espalham o medo e o terror por estas bandas. Dizem uns que são bruxas, outros que são mulheres viúvas que vivem em solidão e, encobertas pelas trevas dão largas a angustiantes perturbações reprimidas durante a claridade dos dias. É gente que vive em desespero alimentando penoso isolamento que as tornou desequilibradas, aflitas comportam-se como mortos -vivos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Sentado no cruzeiro edificado no largo da aldeia, o Cipriano vai assistindo ao passar dos companheiros. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Está de baixa há seis meses e doente, muito doente. É pele e osso o mineiro. A carne, se é que alguma vez existiu ali, já há muito se ausentou definitivamente. Ficou esquelético, tísico, um fiapo de gente.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Vencido pela silicose, acalenta ainda uma réstia de melhoras mas tem consciência de que se fora já a terna juventude, o jogo do peão e da pincha dos botões. Agarrou-se na infância ao trabalho da mina para poder casar e sustentar a mulher e os filhos. De uma vez só, rendeu-se ao tormento que no íntimo sabia que acabaria assim. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Breves foram as ilusões da mocidade perdidas entre alguns dias de escola e da saca das pinhas que apanhava no monte para acender o lume. O sonho da meninice era lindo e abrasados, ocupara-lhe o peito na peregrinação dos anos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Ser pescador do rio. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mas a arte de cercar o peixe, não dura mais que três meses. Depois, com os primeiros alvores do verão, finda-se em tentativas infrutíferas de lanços e lanços perdidos. O rio dá o pão em fartura. Prenhe de lampreia e sável, sacia as barrigas dos pobres por algum tempo mas acabada a sazonal migração dos peixes, deixa o povo de mãos atadas à cabeça, sem saber o que fazer à vida. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Cipriano passa a mão no cachaço e observa o horizonte largo que têm pela frente. Há rugas nas faces do mineiro. Traços adquiridos pela severidade da vida e não pela idade que ainda não justifica esta velhice precoce. O cigarro forte baila-lhe nos beiços apagado, como se tivesse nascido ali e fosse perpétua a sua estadia. Queima ainda o resto de vida que pode existir naquele corpo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pouco dorme, a tosse rouca e profunda, é um tormento e, a falta de ar nos pulmões, provoca-lhe uma tosse convulsa que o arruína e sufoca Ergue-se da cama muito cedo, ainda com noite cerrada e, é para aqui que vêm matar saudades dos amigos, da labuta, ou então, do magro salário que perdeu por ter metido baixa.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Olha as mãos onde a vida lhe seca desesperada. Quer gritar, soltar ao vento deste florir do dia, a revolta que acolhe no peito há muitos anos. Nem um som produz a sua voz embargada, parece que nunca será capaz de tal atrevimento. Há-de ficar-se pelo silêncio eterno, levará para o túmulo todo esse sofrimento, todo esse sentir demolidor. Não há lágrimas nos olhos parados deste homem, por mais dolorosas que sejam as angústias e as dores, um mineiro não chora, apenas se lhe nota a quebrar a aparente serenidade umas gotas de suor gelado na testa franzida. Tudo é sombras, tudo é silêncio neste claro amanhecer. A mágoa, cada um sente-a no peito e é só sua. Mais ninguém, só Deus o poderia ajudar se quisesse. De vez em quando reluz junto ao cruzeiro, a trémula luzinha do cigarro que o Cipriano reacendeu calmamente e que lhe vai antecipar o fim programado. Aqui, neste recanto onde dão a volta as procissões, está sentado um homem que nunca aprendeu a rezar. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O tormento que o vai minando começou há muito tempo. A tosse, a falta de ar nos pulmões impossibilitavam qualquer esforço mas foi-se mantendo animado escondido na ténue esperança de melhoras, que no fundo sabia não existirem. A partir de agora, é a piorar a olhos vistos. Já viu outros mais novos do que ele, entrevados pelo mesmo mal embarcarem para a terra fria. O médico da empresa, na consulta de rotina, todavia não fora peremptório:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Isto é pó Cipriano! Abifa-te homem que isso passa, senão, mete-se a reforma, ficas a receber uma tensa, és capaz de dar trinta por cento de pó, são mais quinhentos por mês!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Esta palavra martelava incessantemente a cabeça do mineiro.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como é que podia abifar-se, se nunca na vida tinha visto um bife à frente dos olhos!?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O doutor deve estar tolo! Ele saberá quanto custa um quilo de carne de vaca? Então a certificar a realidade por todos ignorada, vêm-lhe à cabeça as cenas diárias da ceia. A mesa da cozinha estreme, em redor os oito filhos fraldrucas, no centro um prato de barro com um galo desenhado no fundo a criar ilusões e, em volta deste, dez garfos de ferro com cabo de madeira à espera dos bifes. Eles vêm, redondos, castanhos com casca e, por cima deles, mais bifes compridos, escamudos com cabeça e tudo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te Cipriano ou morres!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Não há escolha fácil entre as duas possíveis opções. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te ou morres!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os bifes são sardinhas, cinco para dez bocas, mesmo assim não é mau de todo. O dinheiro da baixa não dá para mais. Meio salário, como meia é agora a cabaça do vinho. A farmácia que não pode evitar leva tudo. Sendo assim, morre Cipriano, decide pela parte mais barata, não há outra hipótese, só te resta morrer.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Esta é a realidade nua e crua, tão verdade, tão nua, tão crua, que o sino da igreja de Sebolido o irá confirmar muito em breve, dobrando a finados. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Que desgraça de vida! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No entanto há cães em Sebolido e Rio Mau que comem bife todos os dias. Os que se marram nas perdizes da Fraga Amarela e os que empeugam nos carreiros do areio de Hortos atrás de coelhos. Cães de raça, tratados melhor que gente.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Cipriano vai falecer esganado pelo pó, faltoso de ar nos pulmões, aflito na agonia e por falta de bifes. O médico está farto de saber o que o espera desde a primeira consulta. Já deu esta receita a muitos, a mesma, a certidão de óbito antecipada, sem nome, sem data, sem critério, desumana, injusta e cruel.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Abifa-te!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Ele o doutor, abifa-se. O Toninho de Melres sabe quem lhe pode pagar a carne e abre-lhe as portas do talho de par em par. E os galos e cabritos que recebe por dar baixa a alguns malandros e lhes facilitar as reformas? Abifa-se o homem tanto, tanto, que há-de morrer novo. Talvez não faleça de silicose, mas certamente de fartura de bifes.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- O Cipriano fica ali parado como estátua erigida à silicose a ver os antigos companheiros desaparecerem na curva do caminho enquanto a claridade começa a descobrir Sebolido.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Douro serenou mais uma vez; é um encanto. Espelha uma magnífica lua prateada e parece um poema de amor, uma sinfonia silenciosa, o canto de uma possível esperança ou o choro dos puros.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4585373851162613272?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4585373851162613272/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4585373851162613272&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4585373851162613272'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4585373851162613272'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/08/sebolido-aparece-ao-fundo-da-serra-da.html' title='Cipriano'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7719900219129908011</id><published>2009-08-13T12:50:00.014+02:00</published><updated>2009-12-09T16:52:09.199+01:00</updated><title type='text'>Milagre em Julho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O laínho contempla o rio com espírito saudoso. Tantas lembranças o assaltam nesta peregrinação pelo passado. Ajeita a velha boina remendada e permite ao pensamento divagar pelas memórias de um tempo que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos esqueléticas. No alto desta colina onde assenta a capela de S. João, observa o horizonte encantador e, por obra do acaso ou sugestionado pela proximidade do templo pensa em Deus, num ser de quem sempre ouviu falar e foi presença constante nas vidas de muitos mas nunca na dele. Magica na possibilidade de Ele existir na realidade. Quer uma justificação plausível e imediata para a emoção que o assaltou de repente quando julgava em bom rigor nunca vir a reflectir sobre tão remota e enigmática personagem.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nunca aprendeu a rezar e obrigado a fazer pela vida, afastou-se da capela talvez cedo demais para poder entender a realidade da doutrina cristã apregoada ali todos os dias pelo velho padre Manuel. Agora, depois de ter percorrido uma vida de trabalhos e canseiras, pressentindo que o fim se aproxima a passos largos, sente tristeza por não ter essa esperança de fé plantada no peito.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Laínho é um iletrado, não sabe ler nem escrever e por isso desconhece que não é absolutamente necessário um curriculum recheado de práticas litúrgicas para se alcançar as bem - aventurança após a morte. Nem tão-pouco lhe passa pela cabeça que o reino do Céu pode estar ao seu alcance. Sabe apenas que não rezou, que não assistiu a missas e isso é bastante para se sentir um condenado às terríveis penas do inferno. Se não sabe, basta-lhe perguntar ao padre que esse sim, mandatado para educar o rebanho na rigidez da sua fé, sem favor algum, o vai elucidar acerca dos tormentos a que Deus o vai sujeitar, logo que estique o pernil. No entanto, longe de se resignar a esse destino que apesar de tudo julga merecer, deambula pelas lindezas que a vida lhe deu, pelos momentos em que julgou ter estado muito pertinho dessa Divindade. Sentado nesta pedra centenária, revive as cenas que podem amansar-lhe o coração e a alma. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Lembra-se de um dia que ficou para sempre gravado no seu coração de ateu e na memória das gentes da aldeia de Rio Mau.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Foi num domingo de Julho que nasceu cedo em traços de calor.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Batiam as nove horas dessa ridente manhã no sino da capela quando a banda musical ensaiava um breve concerto no coreto situado ali no meio do largo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O padre João perfilava as criancinhas, à frente as raparigas, logo atrás os rapazes.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Elas, vestidas com longos vestidos brancos e grinaldas nos cabelos, faziam lembrar as noivas dos lindíssimos contos de fadas. Eles, trajando a rigor, impecáveis, pareciam príncipes de contos antigos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O céu profundamente azul a agasalhar o rio douro, estava a ser testemunha deste belo cortejo. Momento único feito de ternura, de carinho e emoção em que a alma das gentes parecia estalar no marejado dos olhos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Bateram as e dez horas quando a banda principiou o toque da pequena marcha. De vez enquanto um foguete estoirava no azul do céu e o seu eco entoava pelas encostas dos montes mergulhadas na doçura da manhã. O sino repicava em alegria festiva, era uma melodia com sabor a pureza, o toque por que são chamados os anjos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Alice passava, era a segunda a contar da frente. Por momentos o Laínho quedou-se nos rostos de cada um dos pequeninos que alinhavam tão graciosa procissão. Viu azuis de felicidade em cada um daqueles olhares deslumbrados e o brilho da tranquilidade dos seres inocentes e puros. Porem Alice não sorria, o rosto dela tinha-se fechado sobre a terra e era num mundo muito distante que flutuava o seu frágil pensamento. O mineiro franziu a testa porque notou naqueles olhos lindos uma imensa e profunda ausência.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A procissão entrou na capela de S. João e o padre iniciou a cerimónia:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pela manhã fora iria ser lindo estar ali.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Eis que chega o momento mais solene, aquele em que o sacerdote ergue solenemente a Sagrada hóstia para celebrar a eucaristia, o instante da ceia que antecedeu a Paixão de Cristo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tomai e comei todos, este é o meu corpo...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Alice fitava sem cessar a imagem da Virgem Santíssima e, naquele rosto meigo de menina bailavam duas lágrimas que lhe rolavam docemente pelas faces e depois iam cair no seu gracioso vestidinho branco. De repente pelas portas grandes da capela abertas de par – em - par, irrompeu uma pomba branca que esvoaçou ao de leve sobre os presentes e depois foi poisar no ombro de Alice. Todos se entreolharam espantados... &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Uma pomba branca, uma pomba branca?!. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Padre João surpreendido, hesitou por alguns momentos, depois continuou...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tomai e bebei todos este é o meu sangue, derramado por vós e pela multidão dos homens para remissão dos pecados, fazei isto em memória de mim!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A pomba levantou ligeiro voo e foi poisar no ombro da imagem da Virgem Santíssima que do altar olhava para todos com a celestial bondade dos santos. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O mineiro repara em Alice e, nos seus olhos verdes da cor do rio, nota um brilho estranho, um brilho de imensa felicidade. Pareceu-lhe então que a mão de alguma divindade estava ali firme a segurar os fios do destino.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Logo que terminou a santa missa todos regressaram às suas casas onde os esperavam as bodas próprias de tão importante ocasião. A pomba mais uma vez levantou voo e saiu da capela enquanto Alice olhava o céu azul onde ela fazia acrobacias de sonho.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;À tarde, pelas seis horas após brevíssima cerimónia, saiu a procissão que percorreu as ruas da terra. Quem subia nessa hora as íngremes escadas que conduzem à capela deparava com a pomba branca poisada à beira do sino.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Do alto dessa colina via-se o rio douro tranquilo, imponente e belo no seu verde azulado. A procissão desceu as escadas depois serpenteou em cânticos ao longo da estrada. No céu, a pomba voava e acompanhava o cortejo enquanto Alice não desprendia os olhos daquela aparição. Os sinos repicavam alegres, era o fim da festa, o fim da comunhão solene. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No adro da capelinha, Alice, com o seu lenço branco rendilhado, acenava à pomba branca que partia rumo ao por do sol.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Padre João aproximou-se e abraçou a criança ao mesmo tempo que lhe perguntava:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Tanta felicidade Alice sinto-te tão contente?!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A menina, sem tirar os olhos do poente, respondeu:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Senhor Padre, quando erguias a hóstia do Senhor, eu rezei muito e pedi à nossa Virgem Mãe:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Minha querida Mãe do Céu, pede ao teu filho Jesus que deixe a minha mãezinha, que ele tem no seu reino, vir aqui nem que seja um só momento, ver como estou linda neste vestido branco da minha comunhão solene que é decerto igual ao que ela usa ai nesse lugar onde está. Vês Mãe Santíssima, estão aqui todos os pais e todas as mães dos meus companheiros e companheiras só a minha é que não!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Viu Senhor padre aquela pomba branca!? Era a minha mãezinha que Jesus mandou do Céu para estar comigo neste dia. Sou tão feliz Senhor padre! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O sacerdote apertou a criança contra o peito, lágrimas gordas brilharam no rosto daquele homem. Ajoelhou ali mesmo, ergueu os olhos ao firmamento e comovido disse.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- Obrigado Senhor!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O mineiro, levanta a boina e coça na cabeça. Um sorriso enigmático desenha-se-lhe nos olhos, decerto esta recordação acabou de provar-lhe que afinal sabe rezar que, quem sabe se na sua hora final, em que sozinho em frente da cruz do seu rosário sem nada nem ninguém que lhe possa valer, também haja uma pomba branca para ele, enviada de um céu pela infinita misericórdia daquele Deus que sempre ignorou.&lt;br /&gt;O rio Douro é um espelho que reflecte o lindíssimo rosto da mãe Natureza. Comovido, aconchega-se um pouco mais no leito e docemente prepara-se para dormir.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7719900219129908011?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7719900219129908011/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7719900219129908011&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7719900219129908011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7719900219129908011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/08/milagre-em-julho.html' title='Milagre em Julho'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-1614227473497963831</id><published>2009-04-28T11:22:00.001+02:00</published><updated>2009-08-14T15:12:54.059+02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O Doutor de Arouca &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Conto &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;É alto, magro e careca. De rosto comprido tostado pelo sol onde ao centro um nariz proeminente salta à vista de qualquer um, empurra uma carroça construída por restos de velho trem desmantelado. Os aros das rodas são pintados de vermelho, o eixo em ferro, suporta uma espécie de barraca em madeira coberta por uma chapa de zinco colorida de amarelo. Na frente e sob um fundo azul-turquesa, tem toscamente desenhado à mão, umas letras a branco que anunciam a actividade do artista:&lt;br /&gt;- Dr. de Arouca Especialista Estrangeiro.&lt;br /&gt;Pendurada num dos rebordos do aparelho circulante, uma corneta da tropa em metal amarelo polido, aguarda o momento de entrar em acção. Usa, por cima de um fato castanho de fazenda às riscas em adiantado estado de decomposição, uma bata branca salpicada por toda, de nódoas de gordura, azeite ou banha de porco, que chega cá abaixo ao meio das canelas das pernas. A camisa é branca rota e suja nos colarinhos; no pescoço, um laço vermelho com pintinhas brancas enfeita esta figura ridícula. Calça os pés quarenta e quatro com umas alpercatas galegas de flanela vermelha demasiado amaricadas no conjunto notável da vestimenta do homem. Bem se esforça ele por parecer um doutor mas, a qualquer cidadão mais atento o que mais parece na verdade é um qualquer cortador de carnes verdes de matadouro clandestino.&lt;br /&gt;Empurra a carroça das virtudes curandeiras no caminho por baixo das fragas da Abitureira ao cimo de Cancelos e já perto da casa do Zé Maria cantoneiro, mesmo a esbarrar com Sebolido. Curvado para a frente, pés fincados no chão de terra batida, a suar como um toiro, arrasta a pesada carroça portadora de milagres. Já por alturas da padaria do Álvaro onde o caminho se torna mais suave e se alarga o horizonte, pára a viatura e enxuga a testa suada com um lenço tabaqueiro vermelho às riscas brancas e pretas.&lt;br /&gt;O silêncio é pesado em Sebolido. A aldeia em peso dedica-se aos trabalhos da rega dos milhos nos campos dispersos pelas fraldas da serra da Boneca. Os sons que perturbam este ambiente rural, são de cigarras a gemer nos montes e de melros em franca e aberta cantoria. De repente explode na quietude da tarde um som estridente e desafinado de gaita de fanfarra de bombeiros. Os galos do Jerónimo respondem ao inaudito desafio em cantoria pegada. Os cães do Pinto desatam num ladrar irritante. A galinha preta do Valdemar que depenicava as couves do Cipriano corre aflita a proteger a ninhada recém-nascida. Aquele som estridente volta a fazer-se ouvir no povoado e já Gondarém e Midões do outro lado do rio, se sobressaltou com tamanha algazarra.&lt;br /&gt;A carroça vai andando lentamente a percorrer os cem metros que faltam para alcançar o centro do Outeiro das Cortes enquanto o doutor vai soprando no endiabrado instrumento. O povo começa a aparecer aos postigos das casas e já muitas crianças acompanham o inesperado circo correndo atrás numa gritaria medonha.&lt;br /&gt;Parou ali por baixo da tilia, sentou-se no banco de pedra de granito a aguardar que o povo se juntasse e ficasse a saber das últimas novidades da medicina mundial. Quando umas vinte pessoas, homens e mulheres já se interrogavam acerca da actividade do homem, entra em acção o propagandista. Usa um funil a servir de amplificador afim de que todos possam ouvir o seu improvisado e eloquente e institucional discurso:&lt;br /&gt;-Acabo de chegar do estrangeiro e o que tenho para vos dizer pode ser a salvação de muitas vidas. Alguns dos senhores cavalheiros e das senhoras madames por acaso não padecem de males desconhecidos e incuráveis? A quem dos aqui presentes e não presentes não dói uma perna, um braço, a barriga ou tem queda de cabelo? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras madames tem dificuldade em obrar? Por acaso nenhum dos vossos filhos tem piolhos, pulgas ou até carraças? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras cavalheiras, não trás uma praga de percevejos ou lêndias? Acabo de chegar do estrangeiro e aqui na minha farmácia ambulante trago praticamente remédio para todos os males. Não, não é banha da cobra não senhor, eu não sou contrabandista, sou um especialista estrangeiro encarregado pelo Estado para curar as pessoas. Isto é um xarope inventado há um mês na costa do oriente médio, na terra onde as ruas são calcetadas com sêmeas, as fontes deitam ora vinho tinto ora vinho branco e andam sempre a passear nas ruas, porcos, metade cozidos e metade assados com uma faca e um garfo espetados no cerro. Ali teve lugar esta invenção maravilhosa que já salvou muitas vidas mas infelizmente não as vai poder salvar todas porque só uma pequena quantidade de produto se recuperou do naufrágio do navio que trazia este potente remédio.&lt;br /&gt;O povo começa-se a agitar, nos olhos arregalados de alguns, um brilho de alegria começa a florir. As mulheres em cochicho, contam umas às outras os males terriveis de que padecem. Uma atmosfera de urgência hospitalar estabelece-se ali. O Serafim começa a mancar, o Simão deita as mãos às costas e faz uma cara de sofrimento, o Ribeiro coça ao fundo da barriga, nas partes, e faz também um ar de consumissão, a Rita acachapada, mija atrás da tileira e o cão do Luís Manco ferra na perna do TonoCarriço. A filha do Mocho cai com o fanico e esperneia-se histérica no chão de cascalho.&lt;br /&gt;- Dá-lhe água gelada!, diz o Bernardino.&lt;br /&gt;Qual água gelada qual carapuça, diz o Barnabé, do que ela precisa é de umas varadas nesse corpo vintão a derreter com cio!&lt;br /&gt;- Cala-te malcriado podia ser tua irmã!, diz o Paulo irritado.&lt;br /&gt;- Vão ver então a mercadoria! O especialista já se apercebeu que estão reunidas as condições favoráveis à venda do famoso medicamento e começa a tirar de uma lata de bolacha maria, uns frascos usados de óleo-de-figado-de-bacalhou recolhidos numa entulheira qualquer e que agora aparecem cheios de um líquido cor de melancia. -Por apenas vinte mil réis qualquer senhora, qualquer cavalheiro, pode por fim ao seu sofrimento. Não estou aqui para enganar ninguém, e a prova disso é a garantia que dou a este formidável produto. Se qualquer senhora, qualquer cavalheiro tiver alguma reclamação a fazer, daqui por um ano, nesta mesma hora, neste mesmo local, poderá trocar esta maravilha por uma pomada ainda melhor! -Chegue-me dois! Grita o Angolano! -Não cavalheiro, primeiro é para aquele senhor com a marreca nas costas, o cavalheiro não vê que a criatura está a sofrer? Diz o doutor apressado em recolher a nota de vinte que o doente tinha na mão.&lt;br /&gt;Vinte minutos de feira e o famoso produto esgotou na carroça. Dez frascos de água colorida eram o conteúdo da lata das bolachas. -Cheira a bagaço!, diz o Marreco com o nariz espetado no frasco.&lt;br /&gt;- Não cheira a bagaço nenhum cavalheiro, cheira a aguardente dos Pirinéus preciosidade rara das Américas latinas!&lt;br /&gt;O Marreco calou-se envergonhado pela ignorância e a carroça afastou-se em direcção a Vale-dos-Travessos. Chiavam as rodas a esmagar um eixo sem lubrificação na subida da costeira do Penedo Gordo. O Dr. de Arouca num esforço enorme empurrava aquele monte de sucata portador de inventos multinacionais. Parou na beira do caminho já com Vale-dos-Travessos no horizonte. Passou o lenço tabaqueiro no pescoço suado e preparou-se para nova invenção. De um saco habilmente guardado na viatura, retirou latas vazias de graxa Rosete, encheu-as com banha de porco que escondia numa lata maior e fez-se de novo ao caminho. No espaço quase despovoado da serra, soou novamente a maldita gaita da tropa e o eco esganiçado estoirou como trovão no calmo entardecer. Juntou-se o povo e o contrabandista reinicia o repetitivo discurso:&lt;br /&gt;- Acabo de chegar do estrangeiro e o que tenho para vos dizer pode ser a salvação de muitas vidas. Alguns dos senhores cavalheiros e das senhoras madames por acaso não padecem de males desconhecidos e incuráveis? A quem dos aqui presentes e não presentes não dói uma perna, um braço, a barriga ou tem queda de cabelo? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras madames tem dificuldade em obrar? Por acaso nenhum dos vossos filhos tem piolhos, pulgas ou até carraças? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras cavalheiras, não trás uma praga de percevejos ou lêndias? Acabo de chegar do estrangeiro e aqui na minha farmácia ambulante trago praticamente remédio para todos os males. Não, não é um xarope qualquer que só provocaria desinterias e até podia matar as criancinhas, eu não sou contrabandista, sou um especialista estrangeiro encarregado pelo Estado para curar as pessoas. Isto é uma pomada rara inventada há um mês na costa do oriente médio, na terra onde as ruas são calcetadas com sêmeas, as fontes deitam ora vinho tinto ora vinho branco e andam sempre a passear nas ruas, porcos, metade cozidos e metade assados com uma faca e um garfo espetados no cerro. Ali teve lugar esta invenção maravilhosa que já salvou muitas vidas mas infelizmente não as vai poder salva-las todas porque só uma pequena quantidade de produto se recuperou do naufrágio do navio que trazia este potente remédio...&lt;br /&gt;Já quase noite cerrada e às portas de Vilarinho, encostado à carroça portadora de milagres, o Dr. de Arouca secava com o lenço tabaqueiro, as lágrimas que lhe caíam dos olhos&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-1614227473497963831?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/1614227473497963831/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=1614227473497963831&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1614227473497963831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1614227473497963831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2009/04/o-doutor-de-arouca-conto-e-alto-magro-e.html' title=''/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4666469976620307999</id><published>2008-12-04T17:07:00.003+01:00</published><updated>2009-08-27T14:49:19.656+02:00</updated><title type='text'>Lavradores</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Lavradores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cortiça é terra de lavoura alpendrada nas arribas do Douro estende os campos em socalcos até lá abaixo às beiras do rio. Dali mira-se Midões e Gondarém encravadas no sopé da montanha receber os ventos do rio que parecem eternos. O povo é muito mas raro o casario. Daqui mingúem sai durante toda a existência que proventos novos em horizontes próximos não existem e mesmo por de trás das montanhas, nas lonjuras avistadas do alto de S. Domingos, pouco ou nada há onde um um homem possa ganhar o sustento. Tudo mirrado e abandonado nestes confins do mundo onde nunca chegou a mão protectora que gerasse progresso que se visse. É então na terra e no rio que o povo deposita a esperança de sobrevivência pescando, amanhando leiras, tratando das vinhas, das oliveiras e de algumas árvores de fruto que aparecem dispersas ao longo da encosta numa batalha terrível para se manterem de pé. Ninguém quer saber deles, abandonados nestas bandas desoladas, só alcançam algum consolo da alma nas festas e romarias que um pouco ao redor de cada uma das ermidas plantadas nos altos dos montes, se vão matematicamente realizando todos os anos.align="justify"&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;O Labaredas e a Júlia Ricardina passaram a vida a pescar e tratar dos campos. Ano após ano, dias intermináveis de uma vida a fazer da terra a fábrica do pão, o sustento de toda a família, amealhando migalha a migalha a parca riqueza com o suor do rosto tendo como objectivo uma meta distante que os fazia correr e sofrer.&lt;br /&gt;Os dois filhos, na esperança de futuro melhor, partiram para terras estrangeiras em busca de melhor pão e por lá ficaram casados, também com filhos, acolhidos sob pátria diferente que lhes dava tudo para sobreviverem condignamente.&lt;br /&gt;Muitos anos passaram pela vida deste par de idosos sem a presença de quem poderia dar algum consolo numa velhice que trás sempre o desconforto das maleitas, feita de manhãs e tardes sentados no velho alpendre da humilde casinha plantada ali numa arriba do Douro a desmoronar-se sobre a água, no pedaço de chão que os vira nascer, com os campos todos estendidos à frente dos olhos cansados e o rio Douro a correr sinuoso e sereno lá em baixo nas profundezas dos penhascos de Cancelos, trocavam afectos e carinhos e desfiavam lembranças de tudo o que de feliz e doloroso ficara irremediavelmente para trás, nos anos da já longínqua existência, sorrido todavia e esperando calmos por um dia que haveria de ser o derradeiro.&lt;br /&gt;-Lembras-te Júlia da Festa de S. Mamede em sessenta? Foi lá que o nosso Afonso encontrou a Joana. E aquele beijo e abraço na desfolhada de Paços quando ele encontrou a espiga do milho - rei? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Se não fosse o milho - rei&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O que seria eu não sei.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não há desfolhada, animada.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;sem milho - rei?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Se vem uma espiga, rapariga.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cumpre-se a lei.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Um abraço, tens de dar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não te podes escusar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Era o gira-discos do Correia brasileiro quem tocava essas saudosas músicas do baile! Melodias com sabor a terra, genuínas de um povo tão ilustre como a nação que o tem.&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;-Se me lembro António, ele dançava rapioqueiro e levava-a presa nos braços a voar pela eira toda!&lt;br /&gt;-E o casamento do Fernando, retorquiu ela? A igreja estrumada de gente só para o ver casar com a Rosa! A cachopa era jeitosa, linda e ele apanhou-a num repete! &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Ah, mas os bailes eram de satisfazer um homem, repicava ele a seguir sempre comovido as suas saudades.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Lembras-te do Verdinho?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A voz sem já timbre do Labaredas procurou a música e a letra da velha cantiga numa memória quase apagada:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai verdinho meu verdinho.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Esquecer-te não há maneira.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Escorrega devagarinho.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Apaga-me esta fogueira.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Que importa o vinho ser verde&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;E me faz cantar na rua&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai verdinho meu verdinho&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não há côr igual à tua.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Gosto muito do verdinho&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Nem que seja de Amarante&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Na caneca ou no copinho&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Desaparece num instante.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai verdinho meu verdinho&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Que nasceste da videira&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Tu para mim és pão e vinho&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;E cor da minha bandeira.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O António escondeu-se nos confins das suaves recordações por alguns momentos enquanto ela trauteava baixinho a sua modinha predilecta:&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A pantufa de flanela do António batia ao compasso da cantiga na madeira pôdre do chão do varandim e, na magia do imaginário, vislumbrava o rancho de Santa Marta de Portuzelo a evoluir no palanque da festa do Senhor dos Remédios em Rio de Moinhos e o ramalhete de oiro agarrado aos pescoços das moçoilas, balançava rico ao sabor do enfeitado som das concertinas.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;De dia ao sol, de noite ao luar&lt;br /&gt;De noite ao luar, de noite ao luar.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha eu queria-te tanto.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Como a rosa branca nascida no campo&lt;br /&gt;Nascido no campo, nascida no campo.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha, eu queria-te tanto.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai&lt;br /&gt;Ó minha Rosinha bailaste, bailei.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Bailaste no adro que eu bem te mirei&lt;br /&gt;Que eu bem te mirei, que eu bem te mirei.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha bailaste, bailei.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai&lt;br /&gt;Ó minha Rosinha do meu coração.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Tu vais p'ra Lisboa, não levas paixão.&lt;br /&gt;Não levas paixão, não levas paixão.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha do meu coração.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai&lt;br /&gt;Ó minha Rosinha cartas são papéis.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não quero que gastas comigo dez reis&lt;br /&gt;Comigo dez reis, comigo dez reis.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ó minha Rosinha cartas são papéis.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ai a lai a larai a lai. &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ela calou-se; nos seus olhos lindos de épocas distantes apareceu o brilho da mocidade e aquele rosto sofrido de mulher do campo, voltou a ter as belas e mimosas faces de menina.&lt;br /&gt;Depois vinham as longas pausas, o deixar fluir as lembranças no silêncio crespuscular do rio e da generosa terra como quem fala e agradece ao Criador pelo alcançar de tantos e felizes objectivos.&lt;br /&gt;A Júlia Ricardina e António Labaredas, figuras singelas de um mundo ainda rural onde alegres e livres cantam passarinhos, os ares são ainda de pureza e há bosta de boi caída nas ruas, entretidos no amanho das terras, nunca imaginaram na sua humilde simplicidade, nunca poderiam ter imaginado, que o destino muitas vezes é cego e cruel e raramente distingue o trigo do jóio e vai pregando partidas com uma crueldade que estarrece um santo.&lt;br /&gt;Assim apareceu a doença, um flagelo que incapacitou Júlia a camponesa por quem o tempo passou oitenta e cinco vezes e deixou marcas, feridas que não sagram mas acumulam constantemente dor e sofrimento, rendida a um calvário indescritível, vivendo presa numa cama sem se poder mexer, num estado de coma quase profundo, dependente de tudo e de todos, sobrevivendo apenas pela dedicação e o amor solidário do velho marido. &lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Júlia, Júlia sou eu, estou aqui à tua beira; abre os olhos, fala comigo!&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Nada! Só a mão direita da muribunda lavradeira responde ao desesperado apelo crispando-se na mão dele como se a dizer-lhe, estou aqui.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A amargura e o desespero viveram com o Labaredas estes últimos anos fazendo estragos irreparáveis na sua alma.&lt;br /&gt;Foi cuidado dela como pode amarrado ao infortúnio, vergado pela má sorte, torturado e já no limiar de tantos anos de vida de canseiras e trabalhos, quando mais necessitava e julgava mercer algum apoio e carinho, uma réstia de ternura e conforto para os últimos tempos de existência, foi abandonando as terras por amor à esposa vendo o destino a tornar-lhe o fim num verdadeiro suplício.&lt;br /&gt;Tempo longos a viver de braço dado com a dor, nunca sentiu a mão amiga de ninguém que lhe estendesse uma manta de aconchego, uma alma generosa que procurasse ajudar este homem a quem a desgraça bateu à porta.&lt;br /&gt;Acentuou-se o abandono das coisas, a terra deixou de ter água, as roseiras secaram, as silvas evadiram os campos, o próprio sol deixou de lhes esquentar a alma e o desconforto daquela singela habitação desprezada, tornou quase impossível lá viver.&lt;br /&gt;O Labredas olhava o horizonte do rio impaciente à espera que alguma embarcação viesse com auxilio. Nenhum barco cruza o rio neste tempo. Terminaram já as fainas da pesca e os Rabelos presentindo as asprezas do Inverno, ficam-se âncorados na Régua. Rezava, pedia a Deus que lhe renovasse a esperança que ia morrendo aos poucos em cada amanhecer, que permitisse um pouco de melhoras à esposa, que lhe minguasse o sofrimento que era demais e porque viver assim era já impossível.&lt;br /&gt;Nenhuma resposta chegou vinda do céu nem mesmo da terra onde os homens loucos cultivam a insensibilidade e a descarada hipocrisia. Então, numa madrugada, num daqueles límpidos amanheceres que só o Douro tem, a Júlia deu o seu último suspiro. Ele, chorou agarrado ao corpo da mulher que o tinha acompanhado desde a juventude sem uma queixa, sem um protesto perante as asprezas das suas vidas comuns. Depois, já muito para além do desespero, abraçando agora a dor da solidão, pegou na caçadeira, amiga e companheira de felizes caçadas, sentou-se na varanda e olhou pela última vez o rio Douro e os campos que com tanta ternura cultivou suicidando-se de seguida com um tiro na cabeça. Houve um silêncio pesado na Cortiça que durou dois dias, o tempo suficiente para ser notada a falta do casal. Encontrara-nos finalmente&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt; num dia em que o sol continuava a brilhar no céu, os passarinhos a cantar e o rio Douro a correr serenamente enquanto os dois seguiam prostrados em caixões a caminho do túmulo.&lt;br /&gt;Os filhos atónitos vieram ao funeral sem compreenderem semelhante atitude do pai que fora sempre um homem honrado e crente, incapaz aos olhos do povo de tão horripilante proeza.&lt;br /&gt;Destino malfadado que, quase sempre, inunda de felicidade a vida de muitos que passam a vida a rouba-la aos outros, enquanto tantos vivem em aflição permanente.&lt;br /&gt;Ainda há lindas flores num cemitério em Canelas, ali onde o esplendor do Douro mais se acentua, que nasceram selvagens em cima de duas campas a par. A resposta do céu chegou tardiamente mas veio transformada em rosas.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Dizem que, em noites de luar, quando serena o rio e o silêncio se instala nos montes, as roseiras se entrelaçam e as rosa parecem beijar-se ternamente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4666469976620307999?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4666469976620307999/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4666469976620307999&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4666469976620307999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4666469976620307999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2008/12/lavradores.html' title='Lavradores'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6456424680108184798</id><published>2008-10-25T12:54:00.004+02:00</published><updated>2009-12-09T17:13:01.593+01:00</updated><title type='text'>A Sanfona de Nespereira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ainda com madrugada do outro lado do rio, mais precisamente às quatro da manhã, uma música dolente, tocada ao vivo pela orquestra dos Finfas de Nespereira de Cinfães, onde sobressai a rabeca, saia pelas janelas abertas da casa da encosta, na quinta de Santa Cruz. As cortinas de linho rendadas balouçam ao sabor da ligeira brisa. Ora para dentro, ora para fora, numa dança suave e fresca. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Vaz Teixeira, moço fidalgo, alto e magro, já recolhera ao quarto cor-de-rosa onde uma lâmpada eléctrica encasquilhada num prato de esmalte balouça impelida pela aragem dando contornos indecifráveis aos móveis de século que decoram ricamente o salão. Com gestos de mestria próprios de quem se dedica de alma e coração às artes do amor, o fidalgo tosquia a filha do distinto proprietário da quinta das Ganjas. Ela é uma rapariga de aproximadamente vinte anos de estatura mediana bonita culta e frequentadora dos melhores colégios do Porto, aproveita uns dias para retiro e retemperar forças para enfrentar os calhamaços de onde retira o saber . &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No meio do recinto e sentado numa poltrona de couro, o conde do Pedregal, gordo e baixote, completamente tomado pelo álcool, vai gabando a mulher por virtudes altamente demonstradas no exercício da presidência de uma associação de caridade e aproveita para apelar à generosidade dos presentes e pedir umas centenas de escudos que engrossem os cofres da colectividade sem fins lucrativos da mulher. O Rocha Melo figura nutrida, segura uma barriga do tamanho de um pipo de dois almudes descaída sobre as partes e assente nas coxas, ouve interessado as exposições do amigo e vai olhando de lado para as partes visíveis das pernas da mulher do conde inadvertidamente desprotegidas pelas grandes saias de roda com folhinhos. No desenrolar entusiástico da festa, a mulher do Conde não tira os olhos do Melo que retribui com um sorriso besta estatelado na cara. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A noite não ficará por aqui, embalados pela contradança musical do conjunto, abraçam-se apertados e, nas vira - voltas da dança, os peitos das damas, oscilam apetitosos para cima e para baixo. O champanhe escorre e transborda descuidadamente das taças trazidas pelo Pinto da Rabuça que faz de criado, num exagero deveras desnecessário. Vestindo uma jaqueta branca e luvas da mesma cor, mais parece um pinguim. As calças são pretas e justas ao corpo, os sapatos de verniz, brilham e condizem perfeitamente com o empastado cabelo à força de brilhantina.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;- E virou! Diz o mandante Toninho de Verdeiros, abastado lavrador e um dos mais boémios da povoação que assume atitudes de quem vive exclusivamente dos prazeres da vida e se tornou num um autentico maca-mulas. Gordinho e baixote, vermelho da cara mais parece um tomate maduro. A cabeça redonda assente em cima dos ombros, é uma autêntica abóbora e o pescoço esconde-se todo naquela montanha de carne. Do queixo saem a pender umas bofelas que fazem lembrar um porco matadouro, se bem que todo ele é parecido com tal, ou então visto de cima da varanda, é o retrato chapado de um saco de batatas com pernas. Os olhos são arregalados, brancos raiados por vasos de sangue, tem ao centro duas pupilas dilatadas que assustam qualquer pessoa. Traja umas calças pretas de fazenda e uma camisa de popelina branca aparece na cintura a sair por baixo do colete preto forrado na traseira a cetim da cor de vinho tinto.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Na Quinta de Verdeiros onde vive e é proprietário, junta os velhotes na adega e enche-os de vinho onde previamente mistura aguardente embriagando-os a todos. Comida não dá o filho da mãe, mas vinho é à discrição. Quer vê-los a tombar como postes de telefone arrancados por grande tempestade e fazerem as piruetas ridículas próprias dos alcoolizados. Escarnece e ri-se em sonoras gargalhadas até cair sufocado. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Faz mais o remelado da trampa, como lhe chama a Micas Barulha. Contrata mulheres para as tarefas da quinta e depois anda a correr atrás delas como um cão atrás de cadela à queira. É assim atolascado o velhote, cobiça tudo o que vê com saias e, as cenas de cio que desempenha acabavam sempre da mesma maneira, mija-se todo pelas pernas abaixo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Muito depois das quatro e pouco da manhã a sanfona de Nespereira começa a tocar a Balsa da Meia - noite no salão. Onde é que ela já vai! Entretidos no regabofe nem deram pelo passar do tempo embora isso não lhes faça grande diferença pois vão dormir por ali até à próxima noite. Pior estão os mineiros que passam a caminho da mina. Vêm de longe, trazem no cansaço das pernas horas e horas de jornada desde o cimo do Marco de Canavezes, Penafiel e de outras terras. A cama foi-lhes breve, marcham solitários pelas serras abaixo e os sinais do gozo burguês, só lhes provocam comichões nos tomates. Querem lá saber da festa. Festas, festas são as de S. Domingos, da Sta. Eufêmia, da Senhora das Amoras e o S. João no Porto. O resto é assim uma coisa desengraçada, própria de quem não tem mais que fazer, de ricos. Vão aos anos uns dos outros e, trocam de mulher mais vezes que um mineiro troca de camisa.&amp;nbsp;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A música abrandou e os últimos acordes ficam a pairar nos campos, a alvorada rompe por cima das serras e descobre ao fundo do vale um rio imenso a despertar também. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-6456424680108184798?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/6456424680108184798/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=6456424680108184798&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6456424680108184798'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6456424680108184798'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2008/10/sanfona-de-nespereira.html' title='A Sanfona de Nespereira'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-3110159859763489453</id><published>2008-10-18T19:19:00.004+02:00</published><updated>2010-08-26T12:22:09.000+02:00</updated><title type='text'>A Barca de Fantasia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A BARCA DE FANTASIA &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela, saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes e conhecer terras as quais pela primeira vez ouviu descrever na&amp;nbsp;velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho.&lt;br /&gt;Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;-Eu quero ver o mar! Foram estas as palavras da Matilde, numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice, quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Prenda!&lt;br /&gt;Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido, mas sim outras&amp;nbsp; comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão querida. O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corre para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, segue os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com ele,&amp;nbsp;voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas. O Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes&amp;nbsp; primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Partiu no sentido inverso do sonho, andou por terras distantes onde se acentuam as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por&amp;nbsp;elas, voltou ao lugar onde nasceu.&lt;br /&gt;Soube que o rioe teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro,&amp;nbsp; sem saber que ela o levou no coração, que o deixou correr nas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Não minha mãe,&amp;nbsp;o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala! O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Teve a sua prenda a materialização da sua visão celeste e, logo no outro dia corria para ele desde o Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor da história fascinante que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Uma enclausurada, é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.&lt;br /&gt;Olha ainda agora esse horizonte de água, perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar.&amp;nbsp;Recorda o que era nesse tempo de criança e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha o que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe, e eu queria tanto ver um barco! Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer&amp;nbsp;possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-3110159859763489453?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/3110159859763489453/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=3110159859763489453&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3110159859763489453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/3110159859763489453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2008/10/barca-de-fantasia.html' title='A Barca de Fantasia'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-7201449593977987585</id><published>2008-06-08T21:08:00.003+02:00</published><updated>2008-12-10T22:07:47.700+01:00</updated><title type='text'>Coisas boas da beira do Douro</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/SEwwK4yrFAI/AAAAAAAAAEQ/EWiatdzdd6o/s1600-h/Imagem(104).jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5209591832562570242" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/SEwwK4yrFAI/AAAAAAAAAEQ/EWiatdzdd6o/s400/Imagem(104).jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Algures em Arnelas ,V.N. Gaia 06 de Junho 2008&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Sável a assar lentamente em brasas de lenha de poda de videira&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-7201449593977987585?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/7201449593977987585/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=7201449593977987585&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7201449593977987585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/7201449593977987585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2008/06/coisa-da-beira-do-douro.html' title='Coisas boas da beira do Douro'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/SEwwK4yrFAI/AAAAAAAAAEQ/EWiatdzdd6o/s72-c/Imagem(104).jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-2274794098815064354</id><published>2008-05-08T10:58:00.000+02:00</published><updated>2008-05-08T11:01:53.025+02:00</updated><title type='text'>A Promessa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A Promessa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda existe a frondosa nogueira a sobreviver num aluvião formado pelos detritos que violentas cheias deixaram na foz do rio Mau como se o tempo não tivesse passado por ela. Aquele pequeno promontório feito de areia e lodo conserva no silêncio das coisas materiais dramáticas histórias das vidas de gentes que por ali passaram anónimas ao longo de dezenas de anos. Algumas, por tão banais que foram, esqueceram-nas definitivamente os homens e nunca mais eclodirão nos céleres espaços das memórias; outras, talvez aquelas que mais e maior dor provocaram, permanecem como ferida a sangrar pelos tempos fora sem qualquer possibilidade de cicatrização. A vida é feita de gostos e desgostos e de muitos mais adjectivos que qualificam os momentos em que acaba a fraternidade nas pessoas e começa a hipocrisia. Nem tudo o que reluz é oiro e se muitos, em paz, se julgam cumpridores dos deveres que têm em relação ao próximo, falece-lhes a tranquilidade da consciência por haver ainda tanta gente a sofrer inocentemente por esse mundo alem.&lt;br /&gt;Sítio de beleza inigualável onde a imensa massa montanhosa se deixa enfeitar por esta corrente líquida, transparece reluzente nas profundezas de um vale só imaginado num sonho. E são precisamente os sonhos, antes esporádicas alucinações que nascem e morrem  todos os dias como gritos  imediatamente abafados mas teimosamente a sobressair do abandono e da miséria quase absoluta que por aqui campeia forçosamente aceite sem claros queixumes mas anseio permanente de  revolta por parte de um povo generoso, herdeiro de tradições milenares, conservador e continuador das artes de navegar e pescar neste rio que é um prodígio da Natureza. Artífice na construção dos próprios barcos e redes com que ganha o sustento, é objectivo, e pragmático mas infelizmente vive preso nas garras de obsoleto  poder.&lt;br /&gt;Quem vem dos lados de Entre-os-Rios, surpreende-se com a terra encravada num recanto do rio com as casas debruçadas sobre a água numa harmonia perfeita, numa cumplicidade permitida por ambos só raramente quebrada por cheias descomunais que afligem, destroem e matam o resto da  esperança.&lt;br /&gt;Vista do lado de lá, da margem onde Pedorido tenta progredir, é um presépio que Deus quis deixar ali. Rio Mau é decerto um dos locais mais paradisíacos do rio, mas isso de pouco ou nada lhe tem valido porque beleza não enche barriga e moça bonita raramente casa rica.&lt;br /&gt;Havia a viver numa barraca de madeira situada por baixo desta árvore centenária uma rapariga que sonhou vir um dia a ser feliz. Viam-na ali parada a olhar um horizonte feito de céu e rio a procurar na bruma daqueles tranquilos amanheceres, um pequeno barco azul que vira partir num dia já meio esquecido na sua lembrança e era como se uma grotesca e imóvel estátua de gesso esculpida por algum tresloucado escultor.&lt;br /&gt;Nessa embarcação de madeira, alguém tão importante e essencial como o ar que respirava fora-se nas distâncias da sua plena e airosa juventude rumo ao país da árvore das patacas carregando aos ombros montanhas de ilusões à mistura com sonhos trazidos pela carta de chamada enviada lá de longe pelo seu primo João.&lt;br /&gt;— Vou para o Brasil, Maria do Céu! Voltarei rico para te levar comigo, meu amor! Vais viver como uma princesa! Espera por mim! Prometo-te que voltarei!&lt;br /&gt;Os seus olhos inocentes ficaram pregados àquele barco que partia do cais do Remoinho. Correu desvairada pelo carreiro pedregoso da margem acompanhando a embarcação até ao promontório e viu-a desaparecer lentamente na curva  das entulheiras de Germunde. As lágrimas vieram depois suplantar a alegria da promessa como se o céu desabasse todo nesse instante. O coração sente primeiro que a razão e, embora a esperança se mantivesse intacta, lá dentro onde o peito é sacrário inviolável, começava a nascer o sofrimento.&lt;br /&gt;Tinha então dezoito anos a menina, qual mariposa em flor que emanava a angélica beleza de uma rapariga criada na doçura das brisas do rio, tão delicada como nenúfar a boiar na superfície de um lago tranquilo. Semanas, meses, anos se passaram desde esse dia fatídico que marcou a espera feita de uma esperança tão cruel como devastadora na sua vida de mulher a quem prometeram um sonho no azul imaculado de um maravilhoso conto de fadas.&lt;br /&gt;Ali na foz do rio Mau onde se vislumbra a liquidez que o barco sulcou, estava sempre alerta a figura transformada em louca de Maria do Céu desgrenhada, um fiapo de gente que o tempo alheio a tão grande sofrimento ia consumindo sem qualquer piedade. Olhava uma paisagem de abandono, às vezes enegrecida pelo fumo de uma locomotiva que passava em Pedorido, puxando vagonetas de carvão, a caminho das lavarias de Germunde.&lt;br /&gt;Se um barco aproava o horizonte de Fornelo e as velas se distinguiam pequeninas em frente a Moreira, ela levantava-se como um falecido do caixão e indagava aflita quem viria nesse batel, mais parecendo um morto que procura o instante antecessor de uma abrupta morte que lancetou a felicidade e todas as aspirações de um ser tão inocente como ela. Tanta amargura contida nos seus imensos tempos de solidão fixada num único objectivo que a transformou nesse farrapo humano desamparado no mundo sem receber uma carta que fosse do seu amor, uma notícia do distante Brasil a refazer a esperança que morria lenta e inexoravelmente dia após dia.&lt;br /&gt;Muitos barcos passaram no rio numa sina de viagens constantes ao longo destes cinquenta anos. Rabelos desciam desde o Alto Douro carregados com pipas do generoso vinho a caminho dos armazéns de Gaia e mais tarde regressavam vazios pedindo socorro nos galheiros. Outros cruzavam as águas nas fainas da pesca mas nenhum deles era azul nem aproou ao cais do Remoinho trazendo a bordo o moço que tinha sido o seu enleio. Esperou sempre, enfrentou frio e calor a morrer de saudades todos os dias e ele sem nunca voltar.&lt;br /&gt;Morreram-lhe os pais e os irmãos devorados pela tuberculose, deixando-a aqui abandonada como espólio inútil de antiga batalha. Passou natais a consoar sozinha a ceia da amargura, a ver os sonhos dissolverem-se todos neste sítio descampado e outros amores que lhe surgiram a volatilizarem-se negados pela fidelidade ao juramento de amor e felicidade que um dia lhe tinham prometido.&lt;br /&gt;Os cabelos desgrenhados ficaram ralos, transparentes como rede de pesca apodrecida pelo uso. O rosto enrugou-se e já não tinha a beleza de outrora. Os olhos embaçaram-se, perderam o brilho na contemplação sem descanso daquele pedaço de rio. Suja, andrajosa, comia restos de peixe deixados por pescadores e dormitava enroscada na terra do chão:&lt;br /&gt;— Pobre louca! — Diziam sem saberem e conhecerem o drama que a consumia e a fazia ser assim tão desleixada. Ninguém lhe manifestava qualquer afecto e nunca houve um ser que a fitasse bem nos olhos e que parasse no caminho tortuoso da sua existência e a abraçasse como irmã, como mãe, como amiga, como um ser humano perdido neste oceano turbulento que é o mundo. Alguma pessoa a quem ela abrisse o coração e pudesse dizer toda a verdade, aquela que dói e que paciente sentisse e compreendesse o seu medonho sofrimento, a dor que a tinha enlouquecido.&lt;br /&gt;Já completamente desgastada, vencida pelos anos e quando a fragilidade do corpo se recusava a leva-la mais uma vez ao porto da sua esperança, num esforço derradeiro, arrastou-se pelo chão de cascalho até ao Remoinho quando a lua cheia definia os contornos do lugar numa noite estrelada tão bela como são as noites deste sítio deslumbrante e, deitada nas pedras húmida do cais, viu brilhar lá longe, na sua última alucinação, a embarcação azul tão esperada no seu coração despedaçado que trazia à proa a figura querida do seu adorado António. Nas suas últimas forças, ergueu os braços em acenos desesperados em direcção ao barco fantasma, gritando como uma demente:&lt;br /&gt;— António, António, voltas-te para mim! Olha, eu esperei-te aqui sempre, sabia que me virias buscar um dia como me tinhas prometido!&lt;br /&gt;Fez-se silêncio no cais do Remoinho nessa noite deserta em que só alguns barcos dormiam encostados uns aos outros e nem vivalma cruzava por estes solitários caminhos. A sorrir com a aparente felicidade dos loucos, exalou o seu último suspiro. Morria ali à beira do rio que lhe levou tudo num barco tão azul como o céu do seu nome e o frágil corpinho rolou já sem vida até cair na água.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, encontraram-na a boiar na transparência líquida e o Douro era um esplendor translúcido e rendilhado de espuma branca a envolver o cadáver daquela infeliz. Julgaram que se matou e levaram-na embrulhada num lençol branco e enterraram-na sem honras cristãs fora dos canteiros enfeitados do cemitério, num local sem lápide com um nome, que todos pisam com os pés, destinado aos suicidas, àqueles a quem muitos tolos julgam que até Deus não abençoa.&lt;br /&gt; Passaram-se vinte anos desde esse momento, mas há quem conte que um certo dia um barco azul aproou a Fornelo e trazia em pé na linha da proa um homem já velho vestido de fatiota branca. Dizem que devia ser o António, que procurou pela mulher que um dia aqui deixou à sua espera e que se entristeceu e comoveu ao saber que já não era viva e que, vergado como quem vai a caminho da forca, subiu a encosta na direcção do cemitério e que levava um ramo de flores brancas nas mãos que lhe tremiam.&lt;br /&gt;Na água e no recanto defronte à nogueira em que o corpo de Maria do Céu apareceu morta, nasceu um tapete de nenúfares que todos os anos florescem e ali permanecem ainda hoje apesar de o rio ter mudado totalmente de aspecto.&lt;br /&gt;A velha nogueira deu sementes e agora são três árvores soberbas a enfeitar aquele sítio de rara formosura.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-2274794098815064354?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://dourolindo.blogspot.com' title='A Promessa'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/2274794098815064354/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=2274794098815064354&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2274794098815064354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/2274794098815064354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2008/05/promessa.html' title='A Promessa'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-470407612557133540</id><published>2007-12-15T12:12:00.001+01:00</published><updated>2008-12-10T22:07:48.204+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poema'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Barqueiro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rio'/><title type='text'>O SORRISO DO RIO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/R2O26cuXxRI/AAAAAAAAACo/2yasZ8YKeXw/s1600-h/teixeira+029.JPG"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5144156314646594834" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/R2O26cuXxRI/AAAAAAAAACo/2yasZ8YKeXw/s400/teixeira+029.JPG" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;Todas as noites ouves as antigas vozes.&lt;br /&gt;Raparigas alegres girando sob a lua.&lt;br /&gt;E as tuas mãos a procurar os versos que faltam no último poema.&lt;br /&gt;Os arco-iris desenhados na água, são as cores do passado.&lt;br /&gt;E tu sorris como o vento.&lt;br /&gt;Mas conheces a verdade toda&lt;br /&gt;e sentes a partida das gaivotas. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;O Douro compreende esse acenar e chora.&lt;br /&gt;E as rugas a enfeitar o céu&lt;br /&gt;derradeiro porto no teu rio. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;E o barco à espera de um sinal, que fale na última viagem.&lt;br /&gt;Olha, ela sacudindo as tranças acolá, a saltitar na areia.&lt;br /&gt;Que linda que ela era a mocidade, borboleta que tão pouco durou.&lt;br /&gt;Lembras-te Barqueiro!?&lt;br /&gt;Eu sei que não! Então porque sorris!?&lt;br /&gt;ah! Tu és o rio Douro inteiro e os rios são eternos...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-470407612557133540?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/470407612557133540/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=470407612557133540&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/470407612557133540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/470407612557133540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2007/12/o-sorriso-do-rio_15.html' title='O SORRISO DO RIO'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_IRWK7xkmscQ/R2O26cuXxRI/AAAAAAAAACo/2yasZ8YKeXw/s72-c/teixeira+029.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-1355883386781108164</id><published>2007-04-13T16:04:00.003+02:00</published><updated>2008-10-25T19:51:50.888+02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O PREGADOR&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;No largo da Sobreira em Rio Mau, o Ernesto ensaia os primeiros retoques do que vai ser um quase improvisado discurso. Quase, porque o mendigo trás no cérebro atrofiado, uma lição fixada, como relógio que parou subitamente e continua a perpetuar uma determinada hora, ignorando o passar do tempo, refém das memórias que lhe restam. Vem de longe, do Porto a pé pelos montes fora. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Alto e crestado do sol da chuva e do vento, deixa cair pelo rosto abaixo uma barba longa e incrivelmente loira. Os olhos de um azul celeste, parecem abrir-se em espantos contínuos e interrogações sem respostas. As mãos sustentam uns dedos esguios, descarnados de onde aparecem umas unhas compridas e perfeitamente talhadas. Não fora a rasca indumentária composta por umas calças de pano-cru, uma camisa de flanela cor – de – barro e os pés nus, poder-se-ia dizer tratar-se de um autêntico cavalheiro. É-o na verdade apesar de tudo, tanto nos gestos e modos, como nas palavras que profere carregadas de ideologias filosóficas demais, para tão arruinado personagem. Desenha a vida, a sua e a dos outros, em pinceladas de cor e poesia salpicadas aqui e ali por uma objectiva e pertinaz crueldade. Trata toda a gente bem, só à canalha tem verdadeira aversão. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;No largo central da aldeia, tendo como cenário privilegiado o rio Douro e um secular fontanário que teima em acudir às sedes dos caminhantes, junta-se o Abraão moço na força da juventude, pária e vagabundo como ele. As mãos deste miserável forasteiro, são sapudas e a cara redonda onde baila uma expressão de menino medroso, assemelha-se a uma bexiga de porco atestada. A indumentária do jovem indigente, pouco varia em relação ao primeiro. Usa roupas já usadas por terceiros que se nota não serem adequadas ao seu corpo atarracado onde sobressai um velho sobretudo comprido que vai arrastando pelo chão. De vez em quando um patético esgar risonho rasga de lés a lés uma boca fina e ficam à mostra duas carreiras de dentes incertos e podres. Também desprovido do juízo certo, albergando na cabeça um cérebro cuja lâmpada da razão já se fundiu, misturam-se ali algumas ideias patetas, com outras perfeitamente normais, que o fazem desgarra-se e deixar Trancoso sua terra primeira e, por montes e vales sempre distantes do seu chão natal, chegar a Rio Mau. Estudara num seminário do norte, ali a fraqueza do corpo provocada pela deficiente nutrição, bloqueara-lhe o conhecimento ficando assim à mercê e abandono da sorte.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O distinto pregador é o Ernesto decerto o ser mais bizarro que demandou estas bandas e trás, no seu entender, todo o desânimo da humanidade julgando que não merece a pena nascer. Para ele, o simples acto de vir ao mundo é só por si um desperdício total: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;-A vida é pois a pior herança da humanidade! Quando se nasce marcado pelo ferro de uma morte que pode ser tardia ou breve, mas sempre inevitável, herdamos logo ai a funesta razão de existir!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;-Porque nascestes vós!? Porque não ficastes no limbo, no desconhecido, onde o corpo não sofre e alma não é nossa!? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;É assim que o louco filosofa e explica uma certa aversão aos mais pequenos talvez no cumprimento de uma espécie de protecção a que se julga obrigado. Trinta e dois anos de vida, dez deles a carregar na mente a pavorosa loucura, não o demoveram destas convicções e firmes propósitos. Fora também estudante universitário mas o frágil poder do seu arquivo não foi capaz de suportar tamanho conhecimento; enlouqueceu! Dirige a sua revolta ao Criador e é frequente usar da palavra horas a fio a desafiar as Suas leis. No meio deste largo despovoado tendo como cenário preveligiado o rio Douro, assume uma postura erecta de pregador. As mãos e o rosto viram-se para o céu ásperas e com firmeza de voz inicia o eloquente discurso: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Já sei que hoje não vai haver paz para mim! Começa o pregador: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Neste dia que corre, não sentirei a Tua presença! Nasceu um novo sol mas não será para me iluminar! Aquecerás as vidas de muitos, mas não a minha! Eu sou pobre um desgraçado a quem Tu, nem a memória deixastes progredir! Agora o rosto toma uma forma dolorida onde se desenha um sorriso imbecil. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Arrasto pela vida uma cruz tão ou mais pesada que a Tua! É este o meu castigo, mas não fui julgado como Tu, ninguém me perguntou nada sobre nada e no entanto condenaram-me! Diz-me onde estavas nesse momento!? Não me respondes por que não queres saber de mim e nem sequer ouves as minhas súplicas! Posso até reconhecer-te, não como um Deus generoso e bom, mas como aquele que permite esta miséria imensa pelo mundo! Sou eu quem Tu diz! Nada posso perder, pela simples razão de que nada tenho. Por isso Te falo de homem para homem, sem temer as Tuas hostilidades. Sim porque Tu és vingativo. Houve tempo em que acreditei em Ti cegamente mas foi tudo uma ilusão, reconheço que não há reciprocidade no meu amor por Ti e de mim não queres ouvir falar mas lembra-Te que também eu saberei punir os Teus desmandos, as tuas omissões!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O Abraão contorce as mãos em desespero:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Fala-lhe de mim! Diz o seminarista assumindo uma atitude de pedinte onde as mãos se estendem numa súplica de crédulo e o rosto adquire uma expressão ridícula e temerosa: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- De ti!? Fala-lhe tu, pois é bem possível que Ele te dê ouvidos! Tu, membro e sócio fundador da sua quadrilha de benfeitores demasiado ocupada em gerir os pessoais bens terrenos, estás decerto em melhor posição para lhe falares de ti! És cúmplice deles, eu sinto as dores da discriminação e do desespero, tu não! Aceitas o castigo que julgas generoso curvando-te perante a razão que desconheces, e não protestas. Tu Abraão, és realmente um pobre! Dás-me pena, Inspiras-me dó e muita piedade!...Mas perdoou-te, perdoou-te por uma razão simples...és meu irmão! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Mas eu rezo! Diz angustiado o Abraão. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Rezas!? - Tu sabes lá o que é rezar Abraão! Rezar é isto irmão! Rezar é falar com Deus! É dar-lhe a notícia das nossas angústias, dos nossos desesperos! É fazer com que veja a miséria brutal em que se transformaram as nossas vidas! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Sabes uma coisa Ernesto!? Eu acho que tu blasfemas! &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Blasfemo!? &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Cala-te desgraçado que não sabes o que dizes. Cortam-te o corpo e o espírito a golpes de espada e não protestas, sequer sabes quem empunha a arma causadora do nosso sofrimento! Há culpados companheiro, gente que julga que tem privilégios e que come o meu e o teu pão! Gente que se julga acima do comum dos mortais e usa-os para engrossar as grandes fortunas vitalícias! Acaso dar notícia da verdade da humilhação é blasfemar!? Deita-te ai irmão, dorme o sono da ignorância eterna e deixa-me protestar pois um dia virá em que por farto dos meus protestos ou por divina piedade, Ele nos abençoará! Acaso tu não sabes que o tempo se esgota e torna-se urgente mudar este estado das coisas!? Agora vira-se novamente para o alvo das suas críticas, o Céu.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;- Desce daí do Teu Céu esplendoroso e vem aqui falar comigo cara a cara! Não me respondes, nem Tu nem ninguém! As minhas palavras são o eco das minhas palavras, do meu sofrimento, do meu imenso desespero, desta minha lúcida loucura. E, apesar de tudo, ainda Te espero Deus mudo, Deus, ingrato. Vem quando quiseres, todos nós precisamos urgentemente de Ti. Este povo desgraçado ama-te, adora-te e acredita que um dia virás salvá-los!.. Vem antes que se me aflorem os nervos e deixe de ser responsável pelos meus actos. Lembra-te que também eu sei castigar!.. Prova-me ao menos que existes, que és realmente o Salvador do mundo! Eu não sou deus mas em verdade Te digo, tempos virão em que poucos ou nenhuns Te prestarão vassalagem e Te irão trocar por outros deuses mais generosos!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;As mãos ainda há pouco em riste, fecham-se sobre o peito numa atitude de penitência e o azul daqueles olhos toldou-se de lágrimas. Parece angustiado o Ernesto, fita o céu como quem espera aflito, uma resposta ou um sinal enviado por aquele Deus com quem protesta. No íntimo ele sabe que só Ele e a Sua infinita misericórdia poderão salvá-los. Vagarosamente, estende-se no chão de terra batida ao lado do amigo e vão ficar horas prostrados ali sem dar sinais de vida. Todo o orvalho deste mundo humedece e gela estes dois corpos desgraçadamente desamparados.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O rio Douro escuta em silêncio e tenta em vão compreender a aflição deste homem. Hoje é véspera de Natal. O povo já recolheu às casas onde irão consoar as couves, o bacalhau e as deliciosas rabanadas, talvez bolo-rei ou sopa seca. Eles refugiar-se-ão na rua da Torre na tasca da tia Albertina que os acolherá e adoçará um pouco mais a amargura das suas vida. Poucos querem saber deles! Alguns passaram ao meio do discurso e não pararam. Desumanizados e cegos, seguem a ilusão da individualidade que os divorcia da fé, e os faz julgarem-se eles próprios, os loucos, muito acima da virtuosa caridade. É muito mais que falta de fé, é indiferença, o escárnio da ignorância, é a solidão que se ganha por se matar o amor dentro de nós. Também por isso o Abraão e o Ernesto se estendem na laje fria do largo da Sobreira, nesta noite que há-de ser de luz e renovadas esperanças, sem um gesto de carinho, ternura ou piedade de quase ninguém. Jesus nascerá em Belém daqui a pouco! Uma estrela já o anuncia refulgindo além no Céu por cima de Pedorido e, estas duas almas, no barracão da lenha, já num profundo sono e a sonhar com o Deus menino, deixar-se-ão acariciar por Ele &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-1355883386781108164?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/1355883386781108164/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=1355883386781108164&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1355883386781108164'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/1355883386781108164'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2007/04/o-pregador-no-largo-da-sobreira-em-rio.html' title=''/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-4984361916484960004</id><published>2007-03-14T11:11:00.003+01:00</published><updated>2008-10-25T19:55:25.461+02:00</updated><title type='text'>Barqueiros da Esquadra Negra</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://dourointeiro.blogspot.com/Conto"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;BARQUEIROS DA ESQUADRA NEGRA&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;A alvorada acorda medrosa no vale do douro. Uma espécie de neblina envolve toda a paisagem e S. Domingo adivinha-se por dentro do denso nevoeiro. As serranias em volta goraram-se da vista, apenas se vislumbra o rio e Pedorido é um quadro abstracto à frente dos olhos, encoberto, difuso e molhado. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Das chaminés do casario de Rio Mau sai um fumo pardo, preguiçoso, que evolui no espaço alguns instantes para depois se diluir na acentuada humidade do ar. O cheiro da terra é intenso, acre, misturado com o perfume da urze que o vento acarta das serras em volta. Madrugadores os galos desatam em cantilena na rua do Lugar e, os dos Estercos respondem afinados bem antes de findar o nostálgico eco em S. João. O sino da igreja de Santa Eulália em Pedorido badala dolentes as sete da manhã. O som do bronze paira por momentos no tempo, depois perde-se melancólico nas quebradas dos montes. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Batem sete horas no sino do campanário mas não acorda ninguém, há muito que o povoado mexe, acordou cedo porque o pão não se ganha aqui, é preciso procurá-lo longe ou então na banda de lá do rio na sinistra indústria. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Na Lingueta, espécie de rampa de varar que desce até entrar naa água, vêem-se encostados uns aos outros os barcos Rabões que carregados de carvão irão partir para Campanhã pelo rio abaixo e, as silhuetas escuras das embarcações, assemelham-se a cascos de túneis a boiar na água. Campanhã é longe, nas bordas do Porto, a descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentiar o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na preia-mar, é custoso arrastar à força de braços, tantas toneladas de madeira e carvão antracite. A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o vento da barra que enche as pardas velas. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada enfolada, ela e os homens lá vão fazendo de tudo para amenizar o esforço. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrastam no fundo, é muito difícil de progredir. Aí três homens saltam para terra, descalços nas escarpadas pedras da margem, munidos com uma corda presa há embarcação, puxam à frente desta enquanto a sirga esticada lhes vai provocando feridas nos ombros. As pedras de xisto, sulcadas com profundos regos feitos pelas cordas a raspar, cortam-lhes os pés nus deixando as chagas abertas a cicatrizar ao tempo. Outros de vara de Carregar fincada no peito, lisa, que as mãos dos barqueiros já lhe retiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração quando a espetam no fundo do rio e caminham desde a proa até à ré, vergados para a frente num tremendo esforço, agonizam em cada minuto que passa. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Nos dias de cheias o Douro transtorna-se e, como um louco apressado em chegar à foz, parece que leva consigo a força de mil demónios. Os barqueiros não o temem, embrenha-se com ele numa luta de morte num feitiço estranho que os empurra cegos para o colo de tão enganadora amante. Dão-lhe tudo, o suor dos corpos, o sangue das veias e até própria vida. Ficam doidos como ele condescendendo sempre a esta paixão dominadora, só em troca do pão que lhes falta em casa, numa entrega total a uma afeição demasiado infame para ser amor. Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda se pratica aqui neste magnífico vale do Douro. São tantos a padecer tão desditosa sorte. Vêem dos mais diversos lados; Espadanedo, Couto, Escamarão, Bitetos, do Castelo, Sardoura, Pedorido, Melres, de Rio Mau e de outros mais longínquos sítios. Todos irmanados do mesmo sentimento de uma solidariedade ímpar, tratam-se por companheiros e estabelecem entre si laços de verdadeira fraternidade. As refeições são comunitárias, a mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou a mesma colher. A dor de um transforma-se sempre no sofrimento de todos e mesmo assim é tão pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor as barreiras da pobreza extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, os outros têm de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada uma destas vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem, dão largas sempre que podem a uma réstia de alegria que docemente acalentam na alma. Dá gosto vê-los em tempos de calmaria, entre abraços fraternos dão liberdade a esse minguado consolo que de vez em quando desponta nos seus corações. Então sai uma desgarrada acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do verde tinto de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Que lindo é o berço sagrado.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Que lindo é o berço sagrado.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Que me criou e alumia. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Aqui a braguesa faz dois compassos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Que me criou e alumia.&lt;br /&gt;Entre beijos e abraços.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Lá vim eu à luz do dia! &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;O melancólico e bizarro dedilhar da viola enche o espaço e a noite. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taberna oscilando vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas, um ramo de louro e presuntos pendurados mais os efeitos de tosca contra luz, dão às paredes de caliça, formas bizarras e fantasmagóricas tornando o local num sítio castiço. Agora entra o Malhado a matar: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Ó cantador afamado. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;O cantador afamado. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Aprecio os teus cantares.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Outra vez a viola dolente.&lt;br /&gt;Aprecio os teus cantares.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Bem puxas pela goela.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Mas não me chegas aos calcanhares!&lt;br /&gt;Está lançado o mote que servirá de tema aos cantares desafiadores. Como dois galos em capoeira, lá se vão crispando no fazer de cada quadra transformando a noite num momento de sonho. Consolados ficam então em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho bebendo em grandes goles o néctar de Baco. Meio vivo, meio morto, escuta fascinado as narrativas dos barqueiros que falam de tudo e de nada contando entre si, algumas histórias de valentia que nunca chegaram a viver. Transforma-se em heróis repentinamente e ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez e no entanto são antigos, recontados por dias e noites semelhantes a esta alterados aqui e ali conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de luta como quem desfere certeiro golpe de espada afiada. Os companheiros sentados no comprido banco da tasca, ou se chegam à frente para ouvir melhor nos momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste. Comungam a mesma hóstia sagrada do irreal e do fantástico que chega a assumir contornos de verdade autêntica. Mas não, são apenas desabafos, pedaços das almas mutiladas dos marinheiros da Esquadra Negra que já tarde, felizes e alegres regressam aos lares abraçados uns aos outros.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;O último a abandonar o tasco é o Zé Esperança; manco há muitos anos, cambaleia e tenta arrastar-se até à barraca distante onde vive. O velho Zé parou ao cimo da costeira e, com muito custo tenta reconstruir um cigarro que traz meio desfeito no bolso da samarra. A chuva tangida por um vento forte vai ensopando as roupas do velho desgraçado que perdido no meio das trevas ensaia um princípio de canção: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;- É tão bom ser pequenino,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;ter mãe ter pai, ter avós. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;Pára! Decerto já não sabe o resto da letra ou então é a emoção que não o deixa avançar. Grossas nuvens de fumo aparecem da boca que cheira a vinho tinto e a caldo de couves. Lá ao fundo corre sereno o Rio Mau. Cambaleando inseguro, o Zé retoma a estranha marcha mas já não há controle de nada. O corpo cede em cada passada e as pedras soltas do carreiro, impedem qualquer progresso. Rolou pela encosta pedregosa como se fosse pedra lançada em ribanceira e ao fundo arrastou-se penosamente pelo chão e só a muito custo conseguiu chegar à miserável habitação. Adormeceu e sonhou não se sabe com quê, talvez com a mãe que perdeu aos cinco anos ou com o pai que nunca conheceu. Na manhã seguinte encontraram-no morto na enxerga molhada. Olharam pelo postigo e reparam que o sol lhe iluminava o rosto sereno já sem vida. Conta-se que quem passa a horas mortas da noite junto ao rio mau, tem a sensação de ouvir as águas a cantar: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;- É tão bom ser pequenino, ter mãe, ter pai, ter avós... &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-4984361916484960004?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/4984361916484960004/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=4984361916484960004&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4984361916484960004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/4984361916484960004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2007/03/barqueiros-da-esquadra-negra-alvorada.html' title='Barqueiros da Esquadra Negra'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6443861195776894485</id><published>2007-02-06T16:19:00.002+01:00</published><updated>2008-10-25T19:57:16.331+02:00</updated><title type='text'>A CHICA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A CHICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas Córgas o alvor da manhã surpreendeu a Chica, mulher do Marto, a cavar as leiras para semear batatas.&lt;br /&gt;Quarenta anos de vida dura, transformaram uma figura de mulher bela, numa silhueta cinzenta de gata desleixada. O rosto outrora mimoso, tem agora a idade do mundo, rugoso, segura dois olhos azuis e mortiços ao fundo de duas profundas cavernas. Os maxilares salientes onde dentes raros cravados dão forma e antecipam um esqueleto mortal, definem a escanzelada magreza do corpo.&lt;br /&gt;As hortas tomadas a terço ao senhor Raposo, que constituem o suplementar orçamento do casal, são bocaditos dispersos aqui e ali, amanhados pelos mais pobres a troco de uma parte da produção que pode ou não ser generosa. O tempo o irá determinar correndo lento, soalheiro ou chuvoso, procederá sozinho à criação dos mimos. As contas, essas acertam-se pelo S. Miguel, por alturas da feira das colheitas em Arouca.&lt;br /&gt;Na alma desta pobre mulher, o dilema provoca a angústia e dá lugar a um misto de raiva e de resignação que não consegue conter. A causa de semelhante dor, é Rosalina a filha mais velha criança ainda com dezasseis anos, largou a escola aos dez e foi lançada num mundo agreste e desconhecido onde toda a meninice feliz e despreocupada deu lugar ao esforço fabril como se já fosse um ser adulto. Trabalha numa serração em Gondomar a carregar madeiras na fragilidade de uns ombros tenros ainda para semelhantes tarefas. Ali conheceu um rapaz corticeiro de quem nem o nome sabe mas que na fúria de uma paixão efémera, lhe encheu a barriga repentinamente. Apareceu chorosa em casa trazendo nos olhos cor – de - céu, a ruína de uma juventude lancetada, o desgosto impune que a iria transformar num ser anormal e desprezado.&lt;br /&gt;- Prenhe, vá lá que não vá, ora não saber nada acerca do pai da criança, isso é que é o cabo dos trabalhos! Como é que iria apresentar a notícia ao Marido!? Ele era capaz de entender a prenhes, a vinda do neto...mas sem pai? Não podia ser!&lt;br /&gt;Dá voltas e reviravoltas à cabeça mas nada lhe surge de lucidez ou de consolo. Ela também emprenhara do Marto antes do tempo, mas em circunstâncias muito diferentes destas em que a filha desconhece por completo quem é o pai da criança. Resignada cava a terra dura e a erva orvalhada molha-lhe os pés gretados e nus.&lt;br /&gt;Volta a realidade a consumir-lhe a cabeça:&lt;br /&gt;- Mais uma boca! Já eram sete! E agora!&lt;br /&gt;Olha o cesto das batatas rachadas em quatro onde uma criança com quatro meses de vida, dorme regalada embrulhada nos restos de uma manta.&lt;br /&gt;- Que vaca! Mal saiu de casa meteu-se logo debaixo do primeiro que lhe apareceu! Ela ficou cheia solteira mas era diferente, foi com o mineiro que além de vizinho é amigo da família com cartão da empresa e tudo o mais!&lt;br /&gt;- Precisa que lhe cheguem a roupa ao pelo! Mas prenha não, pode perigar!&lt;br /&gt;- Mas dumas lostras bem dadas, ai que precisa, só se perdem as que caírem no chão!&lt;br /&gt;- A porca! Onde é que se viu isto! Vai ter de fazer um desmancho, nascer é que não pode! E comida? Quem é que a vai sustentar? O Marto!? Ela vai boa, o desgraçado mal ganha para o caldo, que fará para alimentar mais uma boca! Tem de ir a Avintes fazer um aborto! Tem de tirar aquilo do bucho!&lt;br /&gt;Clarifica-se a ideia da Chica, pensou e encontrou a solução, afinal o problema nem é assim tão grande, cabeça fria e tempo e lá está o povo a encontrar improvisadas soluções.&lt;br /&gt;Vai a Avintes mas não sabe se volta depois de sujeita aos artifícios de mãos de carniceiras inábeis que lhe rasgarão o ventre sem qualquer piedade. Pode esvair-se em sangue e morrer ou então humilhada e calada, deixar a alegria num recanto obscuro das tramóias inconscientes da sociedade hipócrita.&lt;br /&gt;- Vai ser já amanhã! O Marido nem vai saber de nada, e se souber, se lhe chegar aos ouvidos!? Também não interessa, é um perfeito anjinho, cala-se e pronto!&lt;br /&gt;Aqui está a mão do destino ou o poder do infortúnio a suster a vida e a morte por um ténue fio. Morre-se ou vive-se nas Córgas conforme a honra e o pão! Nada mais se joga no desgraçado tabuleiro da vida. Por ausência de acompanhamento especializado, julga-se, condena-se e executa-se a sentença na leira a plantar batatas sem aconselhamento e sem ouvir as partes. Continuará a ser um pouco assim por este país fora onde os clarões do progresso já permitem alguma atenção e começam a iluminar muitas almas. A Chica não pode saber nem sequer conhecer os imprevisíveis golpes do destino. Também ele vai mexer as pedras do malfadado xadrez e nada será como ela determinou. O dia é ainda uma criança, até anoitecer muitas coisas podem e vão mudar radicalmente. Ninguém é dono de nada, senhor sequer do seu próprio destino, muito menos do dos outros. Esta mulher é apenas a vítima de um mal que alastra como um vírus desde sempre. As grandes decisões da vida, aquelas que a solidariedade e a justiça social deviam acompanhar de perto, perdem grandeza e normal efeito, perante as condições de abandono e miséria absoluta em que este povo vive. A Chica é também culpada mas a verdadeira culpa, neste e em muitos outros casos, possivelmente morrerá solteira.&lt;br /&gt;Cava a terra desconhecendo que lá longe em Germunde nas profundezas do chão de carvão aconteceu a tragédia que acaba de lhe matar o marido. A notícia demorará a chegar mas virá trazida nos olhos do companheiro de viagem.&lt;br /&gt;Desata o nó do lenço de merino amarelo e preto que prende na cabeça e olha o horizonte com um olhar perdido e desconsolado e nem o rio Douro a correr sereno, dá paz a esta criatura. A criança chora no cesto das batatas e sem largar a enxada, a mãe entoa dolente uma canção de embalar:&lt;br /&gt;- Dorme, dorme meu menino, que a tua mãe logo vem! Foi lavar os teus paninhos, ao reguinho de Belém!&lt;br /&gt;Que grande mentira! Que desconexa realidade, ou então, por efeito de estranha magia, os paninhos que a mulher diz que lava, são este pedaço de aço enfiado num pau, que sobe e desce num ritmo vertiginoso e dorido rasgando as entranhas da terra que há-de dar o sustento. Canta uma canção de amor, tentando dar-lhe um som de ternura, carinho e súbita alegria mas o coração vai negro como as noites da inocente filha Rosalina.&lt;br /&gt;A criança reconhece a doce melodia, sossega e cala-se, a mãe retoma as preocupações da vida que lhe vão enrugar ainda mais o rosto. O Douro comove-se e jura vingança.&lt;/span&gt; &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28872606-6443861195776894485?l=dourointeiro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://dourointeiro.blogspot.com/feeds/6443861195776894485/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28872606&amp;postID=6443861195776894485&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6443861195776894485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28872606/posts/default/6443861195776894485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://dourointeiro.blogspot.com/2007/02/chica-nas-corgas-o-alvor-da-manh.html' title='A CHICA'/><author><name>Manuel Araújo da Cunha</name><uri>https://profiles.google.com/110045214842583680664</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='//lh5.googleusercontent.com/-ZwqO3Nsrd-E/AAAAAAAAAAI/AAAAAAAAAPE/6dgtMNiSSZU/s512-c/photo.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28872606.post-6852087794578006974</id><published>2007-02-06T16:11:00.005+01:00</published><updated>2009-12-09T17:09:33.531+01:00</updated><title type='text'>Arraial de Santa Eufémia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;O Pestana, o Maneta e o Rã, chegam
