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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Prisão de Sonhos

Fiz seis anos no dia seis de Outubro e logo na manhã seguinte e contra a minha vontade, meteram-me na escola.
Levava a tiracolo uma saca de serapilheira com um livro de leitura, uma lousa encaixilhada em quatro ripas de madeira e um lápis de pedra. Fiquei surpreendido com aquilo, nunca tinha visto semelhantes coisas e desconhecia em absoluto qual o fim para que serviam. Os meus colegas, rapazes e raparigas, levavam também numa saca igual ou parecida as mesmas ferramentas e, como eu interrogavam-se sobre a utilidade a dar aqueles objectos estranhos. Todos seguia-mos descalços pelo caminho abaixo, a minha mãe não me foi levar nesse primeiro dia, tinha de trabalhar e cuidar dos meus irmãos ainda fora da idade de internamento forçado. Era uma algazarra medonha, falava-se de tudo o que poderia acontecer quando finalmente entrasse-mos o portão de ferro da velha escola primária no Remoinho que tinha, cravada numa das ombreiras de granito, uma placa em mármore esbranquiçado que dizia ser propriedade do Estado.
Chorei, eu e os outros, aquilo aterrorizou-nos, entrar numa casa em que o estado é dono e senhor, era coisa de tal solenidade que nos deixou a todos silenciosos, não fosse o estado não gostar da barulheira que tinha-mos feito ao descer a rua.
O prédio já era velho nesse tempo, acho que nunca deve ter sido novo, sempre o conhecia desnudado de cales e pinturas, com falta de bocados de estuque que davam a ideia de que estava a sofrer de grave doença de pele. As portas eram velhas, as janelas também e em algumas delas os vidros tinham desaparecido partidos talvez por pedradas. Ao cimo das escadas estava a professora quieta, petrificada com um papel numa mão dobrada sobre a outra na barriga. Vindo dela chegava-nos um perfume novo uma fragrância desconhecida que se espalhava por todo o recinto e suavizava e adocicava o nosso olfacto imaculado como se fosse um jardim de rosas a aromatizar a atmosfera carregada de maus odores em que vivíamos e só cheirosa na primavera quando os campos se cobriam de flores de malquereres e os montes se enfeitavam com o amarelo vivo dos tojos e o violeta quase púrpura das urzes. Esperou alguns minutos e quando o sino de uma igreja bateu as nove horas, começou a ler os nossos nomes escritos nesse documento.
Chamou pelo primeiro nome e ninguém respondeu, então como quem já está habituada a situações desse tipo, autoritariamente disse em voz alta:
-Quando chamar pelo vosso nome, digam presente!
Assim foi, aquela turba irrequieta fez silêncio absoluto e as vozes que respondiam à chamada, pareciam vir de muito longe, tímidas abafadas pela tosse persistente de alguns, até chegar à minha vez, a ordem era alfabética portanto fui dos últimos a ser intimado.
-Presente respondi mentindo com quantos dentes tinha na boca. Presente implicava estar ali de corpo e alma, cheio de vontade em apreender as primeiras letras do abecedário ora eu, estava em todos os lugares que conhecia, no ribeiro a pescar, no poço de baixo a tomar banho ou nas bordas do grande rio a guardar a minha cabra, lá é que eu não estava de certeza absoluta e nem queria estar e duvido que, nesse momento aflitivo e de incerteza, todos os meus colegas na fantasia da mente, também não andassem a percorrer os caminhos da minha terra em brincadeiras alegres, livres e despreocupadas, cujo dono do prédio chamado estado, acabava de proibir condenando-nos a todos à prisão por muitos anos. A incerteza do futuro amedrontou-nos, a perspectiva do novo fez-nos tremer de medo.
O que foi que eu fiz para me meterem numa jaula com um quadro preto pendurado na parede rabiscado com letras brancas que nenhum de nós sabia decifrar. Que crime terei praticado para me sentarem numa carteira em que já faltavam algumas tábuas menos a de cima que tinha dois tinteiros de cerâmica branca enfiados em dois buracos? Devo ter deixado a cabra ir ao saco do milho do senhor Viana, pensei. E os outros que nem cabra têm? Que asneiras terão feito para serem como eu, encerrados numa sala com ratos a passear acompanhados por pulgas e piolhos?
As pessoas grandes não gostam mesmo de nós, voltei a matutar. Por que é que só fazem isto à canalha que não faz mal nenhum a ninguém? E os grandes, onde estão as raparigas já com peitos e os rapazes com barba na cara? Por que é que não se vê nenhum aqui e a professora não chamou pelo nome de alguns deles? Vi-os sentados nas pedras do largo quando há bocado passava por lá, riam-se como tolos a olhar para nós figuras simplórias e inocentes. Decerto já sabiam o que nos esperava, o fim da liberdade, a terrível caminhada para o degredo onde todas as luzes da nossa infantil felicidade, se apagavam lentamente.
Nunca me hei-de esquecer desse dia em que entrei pela primeira vez na casa do estado por que foi o momento em que ele me agarrou para sempre. Ainda hoje sinto o seu braço injusto e cruel a arrastar-me pela calçada do remoinho para me enjaular nos escombros que restam da escola primária propriedade que ele faz questão em deixar apodrecer.
A manhã foi passando, a professora esforçava-se para manter o silêncio dentro daquelas quatro paredes, o perfume dela a despertar-me a imaginação enquanto olhava pela janela o rio que passava e não me levava com ele até às mãos salgadas do mar que nunca tinha visto mas imaginava lindo e ficava indiferente apesar dos apelos que os meus olhos lhe faziam:
-Tira-me daqui diziam no silêncio da manhã estas vistas que ainda pouco ou nada tinham visto do mundo que se desenrolava à nossa frente. O mar tão longe e tão perto da minha vida, o oceano imenso que silencioso ouviu os meus apelos de criança e muitos anos depois me veio buscar para junto dele.
- Vais aprender a ler e a contar, tinha-me dito a minha mãe no dia anterior. Não disse nada, mergulhado em sombrios pensamentos só me apeteceu perguntar-lhe para que queria eu saber ler e contar se nada havia para ler nem para contar nesse tempo. Quem era eu para contestar a minha mãe, como poderia alguma vez nessa altura e sempre desrespeitar a sua vontade. Fiquei a olhar para o rio, a ver passar os barcos, a pensar que um dia havia de ser grande como o meu pai e então, ninguém poderia encerrar-me numa prisão como esta.
Os dias passaram, na escola aprendi a fazer números e letras na lousa. Os primeiros riscos podiam bem ser o desenho rudimentar do barco do ti Vicente a navegar no rio ou a água do ribeiro a cair na levada com amieiros tombados sobre o poço a chorar a nossa ausência. Nesse precário ensino aperfeiçoei a escrita, tornei-me num menino instruído cujas redacções impressionavam as próprias professoras. Quando terminei o ensino primário, sabia muito mais que metade das pessoas da minha aldeia.
A velha escola continua lá partida em bocados, silvas e árvores crescem no recreio abandonado e no local onde antes se situava a sala de aulas. Os telhados abateram e as eras, agarra-se às pedras que restam a desafiar a decadência. Nenhum som se ouve no interior do espaço de risos e brincadeiras do passado nem a professora se vê ao cimo das escadas a perfumar o ambiente, com um papel na mão a chamar pelos nossos nomes. Se chamasse já seriam muito poucos a dizer presente, alguns porque já faleceram outros por terem tomado direcções diferentes nas suas vidas, eu seria um deles agora por razões muito distintas das que me agoniavam nesses dias mas, desde esse tempo de criança de escola que nunca mais me perguntaram se eu estava presente fosse para o que fosse.
Desinteressaram-se de mim e dos outros, entregaram-nos ao mundo que fez de nós gato – sapato sem nunca nos terem perguntado se era dessa forma que queríamos viver.
Tenho de subir a calçada, aqui não há sítio onde eu possa enterrar tantas lembranças e já não se vê o barco do ti Vicente a cruzar o rio de uma banda para a outra a transportar passageiros, vou visitar a nova escola que não tem vidros partidos nas janelas nem ratos a passear acompanhados com piolhos e pulgas, onde não faltam tábuas nas carteiras e tudo brilha como novo. Vou observar o futuro que do passado só resto eu e um punhado de homens e mulheres obstinados em proporcionar às crianças de hoje um espaço de liberdade e de aprendizagem digno que nunca retroceda às carências e indiferença dos meus tempos de menino e se transforme numa prisão de sonhos dos mais pequenos.
Lá vão as crianças de mochila às costas sorridentes, uns nem por isso, choram agarrados aos regaços das mães, outros nem mochila levam, numa mão um bolo embrulhado num guardanapo de papel, debaixo do braço, uns cadernos a brilhar como novos. Vão a caminho da escola dos tempos modernos que não fora a tenacidade dos professores, seria transformada em prisão de alunos   pelas incapacidades de gestão dos sábios que nos têm governado. Vão ser encarcerados com os docentes o dia todo para que amanhã sejam homens e mulheres bem formados e muitos pais possam angariar sustento e muitos outros sem apetência para o cargo, fiquem livres para passear nos chopings e as estatísticas engordem com dados errados. Quem sou eu o deles que me lembra a minha meninice? Sou esse em que ninguém repara, que leva uma saca de serapilheira a tiracolo, que vai descalço e olha espantado em seu redor. Sou esse de cabelo espetado, de ranho no nariz, em calções onde já falta uma tira sobre um ombro e camisa branca sem metade dos botões. Sou um passarinho que caiu do ninho e desesperado chama pelos seus pais que não o foram levar pela mão à escola. Olhem todos, eu sou aquele a contar do último para a direita, não sou o que sonhei ser depois de ter aprendido a escrever, a ler a contar, a descrever todos os afluentes dos rios, todas as estações e apeadeiros das linhas de comboio e a fazer todas as contas possíveis e imaginárias. Sou esse que apesar de tudo transformou os rabiscos feitos num rectângulo de ardósia encaixilhado em quatro ripas de madeira, escrevendo com um lápis de pedra, em livros que contam histórias do seu povo. Sou também o menino de saca de serapilheira às costas, com um bolo embrulhado num guardanapo de papel, aquele acolá que chora agarrado às sais da mãe por que pela primeira vez na sua curta existência vai ter de deixar o amor e o carinho dela para ser entregue ao desconhecido que o assusta e amedronta, sou esse e os outros todos, revejo-me em cada um deles pedra bruta que rejeita ser modelada, um ser que se confronta com o saber e treme de medo por causa disso.
Sou outra vez criança, sinto-me parte deles todos, comungo as mesmas angústias e preocupações deste momento, sofro no coração que aperta cada vez mais por que vim de um mundo onde só havia amor, liberdade, beijos e abraços, cantigas ao adormecer, sorrisos de ternura e carinhos, tudo coisas que me faziam lembrar o céu, o paraíso onde julguei ir viver para sempre e agora sinto-me desamparado, sozinho no meio de muitas crianças ansiosas como eu.
Como a velha escola a desmoronar-se sobre o rio, eu aproximo-me do fim, sou tudo e não sou nada, mas consigo retroceder e avançar no tempo sempre que é necessário e encontrar-me puro nas lágrimas e nos sorrisos das crianças de hoje.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Solidão

Às vezes é por terra que percorro a distância entre a foz do rio Douro e Miranda onde ele entra em Portugal e começa a fazer fronteira com Espanha até Barca D´Alva. A partir dali, embrenha-se todo no nosso território e segue a serpentear tortuoso por entre serras até chegar ao mar onde desagua coroado pelas cidades do Porto e V.N. de Gaia.
Vou por estradas que subindo e descendo montanhas, apontam diversificadas direcções sempre com o rio à vista. Nos planaltos do extremo nordeste, assisto à desertificação e ao abandono de campos, de aldeias inteiras deixadas entregues à sua sorte pelo resto de um país que perdeu já a sua identidade. Este comportamento tem uma razão que se prende com a vida desumana que tem feito parte de cada uma das gerações ligadas às actividades agrícolas consideradas, sector primário. Nenhuma das famílias que viveram da agricultura de subsistência desejam para os seus filhos e netos, o regresso a esse tempo de sacrifício motivado pelo desprezo com que a sociedade quase no seu todo em determinado momento da nossa história olhava para os trabalhadores do campo. Intitulava-os de labregos e outros apelidos redutores e depreciativos que aliados a más condições de subsistência fizeram um sector essencial ao equilíbrio sustentado de um país desertar e empreender métodos de vida semelhantes às dos cosmopolitas maldizentes
Há também uma outra razão muito mais pomposa que encanta os ouvidos dos mais susceptíveis às moderníssimas chamadas do mundo em constante mudança. Chama-se cosmopolitismo que desgraçadamente empurra toda uma nação na direcção do mar onde fica emparedada e sem horizonte capaz de lhe proporcionar a continuidade do avanço que empreendeu. Restar-lhe-á recuar, voltar às origens e empreender futuros. As gerações modernas têm pressa de chegar ao fim. Esqueceram o presente e já vivem no futuro onde tudo constitui incógnita e provoca desesperos medonhos. Quem lhes diz que a vida se faz caminhando paulatinamente? Os governos? Não, esses existem para administrar aglomerados centralizados o mais possível, acessíveis aos toques das suas varas, quais pastores que os tosquiam constantemente e, assoberbam com promessas que raramente cumprem. Descaradamente já nem percorrem o país rural de modo a sentir-lhe o pulso, a agonia, a lentidão da morte que também vai ser a deles e quiçá, ajudá-lo a renascer a não ser nas campanhas eleitorais onde se pavoneiam em sumptuosas caravanas de carros de luxo a alta velocidade à cata dos votos dos lorpas e nunca param nas terras pequenas seguindo directos aos auditórios onde os ditos reunidos por pequenos oligarcas locais pacientemente os aguardam agitando freneticamente as bandeiras do partido que muitos nem conhecem. É a política, a arte de vender enchidos com pouca carne lá dentro. Todavia não é a política em si uma actividade perversa, os actores políticos, muitas vezes sem formação cívica, é que não reúnem vocação para desempenhar essa função e dedicam-se em primeira instancia a resolver os seus problemas, os dos amigos e familiares e os da sua quinta improdutiva por flagrante má gestão. Esses representantes do poder eleitos democraticamente, são propostos ao voto não pelas suas capacidades morais, intelectuais ou outras não menos importantes ao desempenho de cargos públicos, são fabricados à medida das necessidades das organizações partidárias onde militam. Indiferentes às causas colectivas, egoístas, ignoram conceitos solidários, procedem como pequenos ditadores impondo a sua vontade contra tudo e contra todos às vezes por manifesta burrice.
A indiferença é o maior sinal da incompetência de quem gere. O castigo surgirá num tempo oportuno não sem antes haver choros e ranger de dentes até que o interior erga altivo a espada da razão para repetir a solidariedade desaproveitada só porque nada teme, nada o assusta nem a morte consentida por quem manda.
Repentinamente o rio desaparece-me das vistas, esconde-se por de trás de uma elevação para inesperadamente me surgir mais à frente surpreendente e majestoso. Cada uma destas sucessivas aparições desvenda um panorama novo e tal como Miguel Torga descreveu num trecho sublime, não é um quadro que os olhos contemplam, é uma desmesura de natureza arrogante. Poios que são esforços de indivíduos formidáveis a subir as encostas, vultos, colorações e toadas que nenhum artífice, escultor, pintor ou até músico nunca conseguiriam representar na perfeição das suas artes, são horizontes ampliados para lá dos patamares admissíveis da visão, um cenário que arrebata, uma vista fantástica a nascer entre a terra e o céu.
Nada me consola mais que essa peregrinação pelas terras que dão vinho generoso e onde corre um rio sempre lá ao fundo dos vales que adoptou como leito. Tudo é dinâmico, nada se repete etapa após etapa e, os contrastes naturais são tão apelativos que algumas vezes assustam e outras vezes nos comovem.
Um dia quando viajava pelo douro, afastei-me um pouco do trilho conhecido e, por uma estrada secundária fui parar a um ermo onde em tempo passado existiu uma aldeia. Havia velhas casas desmoronadas, árvores secas, roseiras que deixaram de ter água, pedras caídas por todo o espaço como se uma bomba atómica tivesse deflagrado ali e deixasse só restos espalhados no chão queimado por sucessivos incêndios e a terra em repouso à espera dos arados a ver ao longe a fome a entrar em muitas casas.
No meio desse cenário desolador, havia um edifício cujo aspecto me pareceu ter resistido à fúria de todas as intempéries, ao desleixo que a nação aplaude.
Sentada na pedra de um fontenário que teimava em gotejar dia e noite estava uma velha mulher e, ao lado dela um cão já velho deitado no chão de cascalho, dormia tranquilamente. O suposto atento vigilante, não tinha dado pela minha presença ou então já nem lhe interessava quem quer que fosse a pessoa que viesse interromper-lhe o deleite do sono. A prolongada solidão gera o cansaço no ser e transforma homens e animais em pedras de indiferença.
As ervas cresceram ao ritmo acelerado do abandono, o único conhecido ritmo deste lugar perdido. A velocidade da seiva que nutre caules verdes, já há muito que só alimenta os fios do esquecimento. São silvas que crescem espinhosas e amortalham lugares onde a vida existiu. Quase todos os homens e mulheres que aqui nasceram, envelheceram com a terra, morreram ou partiram em busca de melhor pão.
A velha parecia-me uma fotografia antiga perfeitamente enquadrada na tristeza da paisagem, descolorida como estátua onde se agarram musgos eternos. A sua cabeça coberta por grinaldas de cabelos brancos, tombava sobre o peito como quem subitamente adormeceu cansado. Talvez sinta o desespero de quem ficou quando todos partiram ou reflicta sobre o mundo que a deixou sozinha neste deserto sem pessoas que se precipita sobre um rio. Resta-lhe pousar a mão sobre o joelho sentada nesta pedra de granito tornada áspera pelo tempo e esperar pelo fim dos dias.
Uns olhos pequeninos afundados em dois buracos circundados por peles encorrilhadas vieram sem pressa até mim e, a expressão daquele rosto antigo manteve-se inalterada como se eu próprio fosse apenas mais um vento que vinha do sul sacudir-lhe os cabelos ralos e brancos. Ventos perpétuos que por aqui passam todos os dias a sacudirem as pedras e transportam dentro da sua permanente erosão poeiras que vão apagando os vestígios humanos.
Senti desejo de comunicar com aquela figura que me fazia lembrar a escultura do mestre Soares dos Reis, O Desterrado, magnifica simbologia do espírito de decadência da nação, que imperava em finais do século XIX. Desterrada também ela estava num lugarejo esquecido por via de acontecimentos semelhantes aos de hoje ocorridos há muito mais de cem anos.
A história repete-se duas vezes, escreveu um dia Marx: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Curioso, qualquer uma delas refere-se a uma peça teatral, será então de supor que a história ao repetir-se não passa de mera representação previamente encenada onde as pessoas se movimentam num palco colectivo sem esperança e embarca no mesmo conflito de identidade característica dos povos em vias de desenvolvimento.
Segundo Aristóteles, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens de elevada condição e ser contada em linguagem distinta e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados pelo seu orgulho ao tentarem rebelar-se contra as forças do destino. De finais tristes e desmesuradas loucuras está repleta a nossa história contemporânea vergada a interesses individuais que geram disparidades e acentuam distâncias abismais entre ricos e pobres.
Por sua vez a farsa é uma modalidade burlesca também de peça teatral caracterizada por personagens e situações caricatas, é um texto de carácter cómico que o autor faz com o objectivo de satirizar algum comportamento que ele considera nocivo para a sociedade, fazendo com que, quem assistisse ao teatro, visse como é ridículo ter aquele procedimento passando a repudia-lo. Isso fez com que a sociedade rejeitasse determinadas conduta, prejudiciais a todo o povo.
Burlescos e cómicos têm sido os últimos tempos que vivemos em que parte da sociedade enaltece a falta de cultura, ética, a ausência de princípios, a desqualificação e, em prejuízo destas, se elogia a esperteza, a ganância, o exibicionismo folclórico e quem mediático se tornou pelo simples motivo de agradar às massas estúpidas que cultivam celebridades duvidosas.
Seja como for, nenhuma delas impede a caminhada do mundo para a auto-destruição deste tipo civilizacional tal o conhecemos, cenário cada vez mais plausível no horizonte contaminado da terra, tragédia ou farsa a história moderna não é mais que o reflexo da nossa incapacidade de conquistar o futuro honrando o passado e de corrigir imensos erros transactos apreendendo com eles e não os repetindo, ou será a inevitável execução de ordens naturais programadas para mudanças sucessivas no universo onde habitamos? Outras culturas emergirão após o desaparecimento da nossa, nada se perderá e, como aconteceu até aqui, tudo se vai transformar.
- Bom dia minha senhora!
- Muito bom dia, respondeu-me sem qualquer surpresa nas mãos que lhe dormiam no regaço, quietas, enrugadas e queimadas por um estranho lume.
-A senhora mora aqui, perguntei.
-Há oitenta e nove anos e meio meu senhor, nunca daqui saí até hoje!
-Tem mais alguém a viver consigo?
-Não meu senhor, já há quinze anos que moro aqui sozinha, foram-se todos embora!
-E não tem família?
-Não meu senhor, morreram todos, fiquei só eu!
Enquanto falava reparei que os olhos dela pareciam duas telas onde passavam imagens de cenas que só ela viveu. Olhos de velhos onde se acumulam saberes e visões esquecidas, vistas que a bruma dos anos embaciou e roubou o brilho mas nem por isso deixaram de ter a sua luz magnífica.
-Deve ser muito difícil viver neste sítio sem ter companhia, murmurei.
- Não meu senhor, tenho aqui a minha vida toda, criei-me nestes caminhos, corri os montes antes florestados na apanha das lenhas para sustentar o lume da lareira onde se cozinhava todos os dias, aqui me fiz mulher e me casei, foi aqui que eu nasci e fui muito feliz durante muitos e bons anos! Isto dantes era uma terra cheia de gente e de vida, havia festas e romarias, as vinhas estendiam-se quase até tocar no rio, os campos davam comida para as pessoas e para os gados. Depois começaram a ir uns atrás dos outros para o estrangeiro, isto parou de recompensar o esforço que se fazia para tratar a terra, o vinho deixou de valer dinheiro, ninguém o queria nem de graça, compravam outro que vinha de fora mais barato mas feito a martelo, desapareceu tudo até só ficarem os velhos, os cães e os gatos. Acabou tudo meu senhor até as árvores que existiam aqui em volta foram queimadas pelo lume dos fogos que já ninguém apaga.
Nisto o cão levantou-se e começou a ladrar ameaçadoramente na minha direcção.
-Cala-te Mondego, só te chegou o cheiro ao nariz agora? É um senhor do Porto que aqui está, veio visitar-nos disse ela enquanto lhe afagava ternamente a cabeça. O animal calou-se, rodou duas vezes sobre si próprio e voltou a esticar-se tranquilo no chão.
- Sabe meu senhor, ele ficou velho como eu fiquei, está surdo e cego, só atina pelo faro coitadinho!
-Pobre e dedicado animal, o que será que te prende aqui pensei!
-Deve ser muito triste viver neste lugar sem ver nada para lá dos montes, retorqui.
-Olhe lá para baixo meu senhor, não vê o rio douro? Está sozinho como eu e não se queixa, fazemos companhia um ao outro, vamos vivendo olhando-nos todos os dias!
Apeteceu-me beijar aquele rosto sereno, contendo todavia esse impulso repentino, perguntei-lhe:
-Posso dar-lhe um beijinho de despedida?
-Beijos não meu senhor, desculpe mas eu só fui beijada por um homem em toda a minha vida, era o meu António que descansa além no cemitério, todos os meus beijos ainda são só os dele!
Ah ínclito povo do meu país quase desfeito, roubam-te tudo o que te fez culto e empreendedor e impassível, continuas a envelhecer sentado numa pedra.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Navio dos Mortos


Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.
As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.
O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.
É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.
As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.

Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.

O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.

As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:

- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.

O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.

Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.

Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:

- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.

-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.

O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.

Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.

O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.

-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.

- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.

-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!

-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.

O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.

O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.

O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.



Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Este Natal Ofereça um Rio


"...O sol finou-se já no horizonte. Uma paz quente desce sobre Barca de Alva. É um crepúsculo macio, em que o cheiro salobro do rio se confunde com o acre da terra barrenta. As águas do Douro parecem ter cintilações de prata reflectidas pela luz de uma lua gigante. Nada mexe na Natureza envolvente e só um pequeno barco a remos surge dos lados da foz do Águeda. Em pé, remando lentamente, um vulto de mulher entoa uma canção magoada. É mais um gemido, um lamento, do que cantiga, é um som que perdeu a musica, agonizante, um poema rasgado a meio mas que ainda perdura em cântico apesar de amarelecido pelo tempo. Som que uma alma sem luz vai propagando sem pressa, sem esperar ovações, desanimado, murmúrio de quem já não tem esperança de viver..."


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sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Velha

 A velha estava sentada na pedra à beira do rio. As roupas eram farrapos negros, as roupas das velhas são quase sempre negras. Segurava nas mãos um pedaço de rede de pesca apodrecida que desdobrava lentamente e parecia que desfiava um rosário sem princípio nem fim. As mãos da velha eram compridas, os dedos mostravam toda a estrutura esquelética, sem carne e com as veias azuis salientes que pareciam raízes de salgueiro fora da terra e deviam estar agarradas aos ossos cobertas pela pele engelhada com manchas castanhas e pretas. A velha tinha a cara enrugada como um papel amarrotado num bolso e parecia queimada por um lume estranho e tinha uns olhos da cor do rio apagados reflectido a solidão e metidos ao fundo de duas cavernas fundas e usava um xaile negro a cobrir-lhe os ombros e um lenço de merino preto por cima dos cabelos cor de cinza. Via-se um pedaço dos cabelos da velha a sair por baixo do lenço na testa engelhada e eram fios de pó cinzento a desbotar ao sol.
A velha olhava para as mãos enrugadas sem carne e com veias azuis salientes que pareciam raízes de salgueiro de fora da terra. O rio reflectia o rosto da velha e ela via a sua cara engelhada que lhe parecia uma folha de papel amarrotada num bolso e queimada por um estranho lume. Às vezes a velha mexia com um pauzito na água e desfazia a imagem espelhada que ficava a contorcer-se num esquisito bailado de água e cara enrugada queimada por um estranho lume. Depois apagavam-se as ondas e aparecia na água outra vez a cara enrugada da velha reflectida como se fosse num espelho.
Antes tinha as mãos com a pela macia e mimosa e não se viam as veias azuis que parecem raízes de salgueiro de fora da terra. Antes, o rosto da velha era liso e as faces eram mimosas, coradas e os cabelos eram fortes e negros e caíam numa trança pelas costas abaixo. Antes, os olhos da velha eram vivos e da cor do rio e brilhavam como o rio brilha agora. O rio conhece os segredos da velha, viu-a nascer e crescer, viu-a ser feliz e depois desmaiar como um sol de Outono. Agora entra-lhe na cabeça e só encontra lá coisa e pessoas mortas como num cemitério abandonado.
Antes, a velha não era vadia e Deus não estava zangado com ela e podia ir falar com Ele à capela. Antes, a velha era nova e corria-lhe nas veias um sangue atrevido e a carne cobria-lhe os ossos e a pele era lisa e não era parecida com um papel enrugado no bolso. Quando passava nas ruas de canastra de peixe à cabeça, parecia que bailava ao som ritmado de orquestra sinfónica a interpretar O lago dos Cisnes de Tchaikovsky e os peitos saltitavam numa dança sensual onde a firmeza dos bicos parecia que a todo o momento iria perfurar o tecido da blusa de chita, soltando-se livres como livres sempre foram. Os homens viam-na passar risonha e ficavam loucos e cegos pela beleza e luz intensa que ela irradiava dos olhos e imaginavam fantasias eróticas que nunca tinham vivido.
Antes era nova, teve namoros mas nunca casou e teve três filhos por causa do sangue atrevido que lhe corria nas veias mas tiraram-lhos por que ela era vadia e os filhos tinham piolhos na cabeça. Levaram-nos para um orfanato do Porto há quinze anos e ela nunca mais soube deles. Tirara-lhos por causa dos piolhos que tinham na cabeça e porque ela era vadia.
Antes chamavam-na de Luciana o seu nome de baptismo. Depois, apelidaram-na de velha como se inadvertidamente alguém tivesse apagado o seu nome no almanaque da vida.
Depois a carne sumiu-se do seu corpo formoso e ficou só uma montanha de ossos que a pela e os músculos articulavam e permitiam mover-se.
Uma vez o senhor Oliveira chamou-lhe puta. Antes o senhor Oliveira servia-se dela na casa das abelhas no Vale dos Lobos. Dava-lhe vinte e cinco tostões para se servir dela. Uma vez uns pequenitos da escola chamaram-lhe vadia. As crianças imitam os adultos. Uma vez as pessoas todas chamaram-lhe porca e vadia. O rio nunca lhe chamou vadia e porca, fazia estranhos bailados quando reflectia a imagem dela que tinha os cabelos negros e fortes, a pele macia e mimosa, os peitos duros e os olhos eram cor de rio e brilhavam como o rio brilha agora. Uma vez as mulheres que obedeciam aos maridos e algumas que também iam à casa das abelhas e as outras que não deixam os piolhos passear na cabeça dos filhos, bateram-lhe, arrastaram-na pelo chão, chamaram-lhe vadia e porca e rasgaram-lhe o vestido de chita. Antes, sentou-se na pedra à beira do rio a chorar por lhe chamarem porca evadia e também com saudades dos filhos e porque pensava que Deus estava zangado com ela por ela ser vadia.
Deus não fala com mulheres vadias, Deus só fala com mulheres que têm maridos, que obedecem aos maridos e não deixam os piolhos andar na cabeça dos filhos. Zangou-se com ela antes e, ela agora não pode falar com Deus.
Uma vez lembrou-se dos filhos que lhe tiraram e chorou sentada na pedra à beira do rio. Um vez lembrou-se da mocidade, dos amores perdidos, de quem a enganou e prometeu casamento e voltou a chorar sentada na pedra à beira do rio. Uma vez lembrou-se que não tinha casa nem pão para dar aos filhos, que o senhor Oliveira já não se queria servir dela e que não se importou quando lhos tiraram para internar no Porto. Diziam que os filhos eram de pai incógnito e o senhor Carvalho escreveu isso nas cédulas que lhe deu no Registo Civil. Ela sabia quem era o pai deles mas o senhor do registo não lhe perguntou nada. Ela ia dizer mas o senhor Carvalho disse para se calar, que era vadia e ninguém iria acreditar nela.
Vinha um barco lá em baixo a subir lentamente o rio. A velha levantou-se e passou uma mão na cabeça, ajeitou o lenço, olhou para o barco que vinha lá em baixo e o pedaço de rede podre que segurava na outra mão, reluziu quando o sol lhe acertou em cheio. A velha viu o barco passar carregado com pipas vazias a caminho do Alto Douro e sentou-se outra vez na pedra à beira do rio.




In, "Conversas com Um Rio" de Manuel Araújo da Cunha












sábado, 20 de março de 2010

Sonhos

O primeiro sonho guardou-o numa caixinha de fósforos usada. Era um sonho pequenino, tinha a ver com beijos e abraços de ternura que a mãe lhe dava quando despertava dos sonos de menino. Foi em cima do armário da cozinha que guardou essa pequena caixa de magia. Lembra-se que teve de subir acima da mesa para poder colocar esse cofre atrás das panelas grandes que raramente eram usadas. Guardo-a lá embrulhada num pedacito de jornal velho e continuou a sonhar.
O segundo sonho, era uma pouco maior, era um sonho com uma bola, que tinha um rio  e homens e mulheres lá dentro a quem ele e os companheiros de escola davam pontapés e atiravam para longe. Enquanto a bola subia no ar, ele ficava a pensar porque é que os homens e as mulheres que estavam dentro da bola não se importavam de andar aos salto, atirados de lado para lado e não fugiam de dentro da bola. Então no sonho viu o mundo, que era uma bola, com os homens e as mulheres lá dentro e ficou feliz por lhe poder dar pontapés e brincar com a bola que no sonho era o mundo.
Esse sonho tinha personagens verdadeiras e conhecidas dele, misturadas com algumas que lhe eram estranhas de corpos transfigurados como se fossem fantasmas. Enquanto a bola subia no ar ele via as pessoas a serem projectadas umas de encontro às outras num espaço vazio, lá dentro da bola. Depois a bola caìa no chão com estrondo e as pessoas dentro da bola caìam também desamparadas no chão vazio da bola e faziam gestos grotescos, e gritavam desesperadas dentro da bola.
No meio desse sonho, quando o seu peito arfava aflito viu criaturas a tentar sair de dentro da bola mas a bola, redonda, compacta e hermeticamente fechada, não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola. Farto do espectáculo de horror que os seus olhos estavam a observar, deu um pontapé com muita força na bola e a bola ficou algum tempo a pairar no espaço e, todas as pessoas dentro da bola sorriam felizes. Ele ficou feliz também porque ficou a saber nesse momento que as pessoas gostam de andar no ar dentro da bola que é redonda como o mundo que também tem pessoas e rios lá dentro. Lembra-se ter tido algum medo e de se agachar a tremer no meio do calor dos cobertores. A mãe disse-lhe depois que aquilo era um pesadelo e que havia de ter muitos mais sonhos desses no decorrer da vida. Apesar do incómodo e da angústia que lhe causou essa quimera, resolveu guardá-lo numa caixa de sapatos vazia. Pensou que um sonho mau como aquele tinha de ser enterrado na horta por baixo da figueira onde as galinhas depenicam ervas daninhas. Era mais seguro, um pesadelo assim, teria de ficar bem longe da casa e fora do seu alcance porque ele nunca mais queria voltar a sentir o desespero daquela noite em que sonhou com a bola que era igual ao mundo com rios  e pessoas lá dentro.
O terceiro sonho foi lindo, foi maravilhoso. Foi um sonho com raparigas vestidas de noiva a dançar numa festa em que ele era a figura principal e o rapaz mais desejado por todas as lindas mulheres vestidas de noiva. Lembra-se de uma que o fascinou nas voltas de valsas lindíssimas do sonho e o prendeu tanto nas elegantes mãos, que só um súbito acordar desfez esse feliz enleio. Esse que foi o seu mais belo sonho, guardou-o numa lata que tinha sido de tinta e pendurou-a amarrada com um arame ao lado da roda do carro de bois. Um sonho destes, pensou, tem de estar sempre perto e ao alcance de uma mão. Fechou o sonho na lata e depois nunca mais se lembrou dele.
Um dia de repente,deixou se sonhar e rebolava-se horas e horas na cama à espera dos sonhos que tardavam em chegar. Ele queria sonhar outra vez com as raparigas vestidas de noiva mas por mais que tentasse,o sonho não aparecia. Uma noite os sonhos voltaram e um deles, tinham a ver com uma bola que era igual ao mundo com rios e pessoas lá dentro que as crianças atiravam ao ar e davam pontapés. Neste novo sonho, ele estava do lado de dentro da bola que evoluía no ar e ele e as pessoas todas que estavam lá dentro sorriam felizes. Ao bater no chão a bola fazia um estrondo e ele era projectado para o chão vazio da bola de encontro às outras pessoas que gritavam desesperadas presas dentro da bola e tentavam sai de dentro da bola que era compacta, hermeticamente fechada e não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola.
Acordou desse sonho e ficou a pensar que o mundo é uma bola com rios e pessoas lá dentro e que só as crianças podem brincar com ela, dar-lhe pontapés e atirá-la ao ar e que, as pessoas não podem sair de dentro da bola porque a bola é compacta, hermeticamente fechada e não tem sitio de fuga possível como uma bola.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O SORRISO DO RIO


Todas as noites ouves as antigas vozes.
Raparigas alegres girando sob a lua.
E as tuas mãos a procurar os versos que faltam no último poema.
Os arco-iris desenhados na água, são as cores do passado.
E tu sorris como o vento.
Mas conheces a verdade toda
e sentes a partida das gaivotas.
O Douro compreende esse acenar e chora.
E as rugas a enfeitar o céu
derradeiro porto no teu rio.
E o barco à espera de um sinal, que fale na última viagem.
Olha, ela sacudindo as tranças acolá, a saltitar na areia.
Que linda que ela era a mocidade, borboleta que tão pouco durou.
Lembras-te Barqueiro!?
Eu sei que não! Então porque sorris!?
ah! Tu és o rio Douro inteiro e os rios são eternos...