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segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Navio dos Mortos


Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.
As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.
O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.
É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.
As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.

Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.

O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.

As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:

- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.

O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.

Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.

Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:

- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.

-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.

O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.

Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.

O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.

-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.

- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.

-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!

-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.

O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.

O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.

O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.



Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha