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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Stjepan, o menino Croata

Entrei no supermercado quando a noite já se instalava na cidade. Era um rumor surdo que me chegava aos ouvidos de sons de carros e pessoas que passavam apressadas em chegar a casa, outras, centenas delas entravam e saíam num frenesi imenso que me perturbava e confundia. Raramente entro numa grande superfície, prefiro as pequenas lojas tradicionais onde posso olhar nos rostos de pessoas que tentam sobreviver cá em baixo como eu mas, atarefado nas aquisições próprias da época, tinha-me esquecido de comprar um queijo da serra, iguaria que não dispenso no Natal.
Junto da porta da entrada senti que me agarravam pelas abas do casaco, olhei e vi um rapazito que aparentava não ter mais de oito anos, que me sacudia a roupa para chamar a atenção. Usava um gorro de lã na cabeça com desenhos estranhos coloridos e, a cobrir-lhe o corpito frágil, tinha um kispo azul que lhe ampliava a estrutura do físico. Nos pés uma botas –de - água azuis, completavam a vestimenta do pequeno.

A mim que falo com um rio, com as casas e com as pedras, tudo o que é estranho me acontece. Nunca percebi por que será que toda a dor do mundo me encontra esteja eu onde estiver, faça eu o que fizer para passar incógnito na cidade onde ninguém me conhece. Tanta gente a entrar e a sair daquele centro comercial e tinha de ser eu a pessoa escolhida para ser confrontado com uma realidade que poucos querem conhecer.
Já quando era um rapaz adulto, me sentia sujeito a situações semelhantes nesta época. Ou era alguém de mão estendida a pedir pão ou crianças ciganas abrigadas em precárias tendas cobertas de neve gemendo com frio e com fome. Chegava a casa transtornado, contava à minha mãe o que fizera para aliviar tanto sofrimento e ela, na sua extrema bondade dizia-me:

-Deixa lá meu filho, és um homem de sorte, isso é Deus a querer falar contigo! Estranha a forma do Criador comunicar comigo, pensei. Se tinha assim tanto interesse em estabelecer uma ligação com um pecador como eu, devia começar por me ouvir quando inutilmente tento combinar os números felizes da loteria. Acontece que me deixa entregue a mim próprio sem saber que números fariam de mim milionário. Isso é que é o que eu, na minha igual forma de pensar aos outros todos, considero ser um homem de sorte. Acertar em cheio na combinação que todos tentam e que só alguns conseguem podia ser a confirmação de que a dita está comigo. Decerto Ele tem outro entendimento e vai-me dando a felicidade só na medida exacta das minhas necessidades. Os deuses têm métodos de acção que surpreendem os mortais, dizem que escrevem direito por linhas tortas e eu começo a acreditar nesse ditado antigo.

Olhei-o outra vez já sem surpresa e perguntei-lhe o que queria de mim sem perceber que tinha à minha frente um estrangeiro que não falava a minha língua. Olhou-me na profundidade de uns olhos vivamente azuis e falou qualquer coisa que eu não entendi:

Moja majka je gladan!

-Desculpa mas não compreendo uma só palavra do que me estás a dizer, fala numa língua que eu entenda! Disse-lhe eu.

Pegou com a mãozita dele a minha mão como a pretender que o seguisse em direcção da entrada da a área comercial onde tudo se vende.

Hesitei em segui-lo e voltei a perguntar:

Que queres de mim pequeno?

-Moja majka je gladan!

Enquanto falava ia-me arrastado e confesso que comecei a ficar preocupado com tanta insistência e mais por não conseguir perceber os seu objectivos Às vezes não são só as barreiras das línguas que nos impedem de compreender os outros, são as circunstâncias com todo o inesperado que encerram e nos impedem de reagir objectivamente. Se tivesse pensado com mais calma, teria atingido num ápice as pretensões da criança. Demorou, mas como o óbvio é sempre aquilo que menos conseguimos ver, pensei que deveria ter fome e resolvi levá-lo à charcutaria e pedir um copo de leite e uns bolos para lhe aquietar o estômago. Olhou para o lanche que lhe coloquei à frente e depois, com ar triste, colocou os olhos no chão e não comeu.

- Come pequeno, isto é para ti, anda lá não tenhas vergonha, eu pago o que tu quiseres comer!

Moja majka je gladan!

-Já sei, tens razão, não é disto que tu gostas, vamos então ali à montra escolher o que mais te agradar!

Fomos ao local onde se vende de tudo o que são alimentos confeccionados, bolos, queijos, chouriços, chocolates e uma infinidade de outros produtos alinhados em vitrinas frigoríficas a despertar a atenção e o apetite de quem os vê. Apontou para a secção dos pratos pré-cozinhados e o seu dedinho quedou-se num tabuleiro onde a comida tinha um aspecto delicioso e parecia sorri para nós aguçando-nos o apetite:

Eram, repolhos recheados com carne moída, fatias de bacon e de presunto.

-Mama voli Sarme, repetia ele a sorrir de felicidade.

Perguntei ao empregado se poderia servir um prato daquela comida para poder satisfazer a vontade do meu mais recente amigo. Disse que não, que as refeições ali expostas se destinavam a ser consumidas em casa dos clientes.

Pareceu-me que ele entendeu o que o homem me estava a dizer e, na tentativa desesperada de se fazer compreender, ia batendo com a mãozita no peito ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal negativo:

-Monja majka je gla dam!

O senhor do supermercado estava tão atónito quanto eu mas teve a ideia excelente de ir chamar um outro funcionário emigrante de Leste.

Apareceu um homem ainda novo vestindo a farpela própria de quem trabalha com carnes, manchada com sangue apesar do aspecto limpo de quem a vestia:

-Que queres daqui miúdo, perguntou-lhe em português matizado de sotaque.

Isso já eu tinha feito por mais que uma vez,

-Ele não fala português, experimente falar na sua língua, pode ser que ele entenda! Disse-lhe eu. Deu-me ouvidos começando com uma lenga lenga da qual eu não entendia absolutamente nada:

- želite, zelite, zelite?

- Zovem se Stjepan. Ne želi za mene, moja majka je gladan kuće.! Mama voli Sarme!

-Senhor, ele diz que se chama Stjepan e que não quer nada para ele, que é a mãe dele que está doente e com fome em casa e diz que ela gosta muito da comida que está neste tabuleiro a que ele chama de Same!.

O mundo inteiro desabou sobre os meus ombros naquele momento. Fiquei sem poder falar alguns segundo e depois de me ter recuperado da emoção, mandei embalar três doses de Same o petisco preferido da mãe daquela criança.

Depois de passar na caixa, entreguei-lhe dois sacos, um em cada mão e ele afastou-se visivelmente feliz. Parou de repete e virou-se para mim a sorrir com uns olhos tão brilhantes como o azul de um mar que me diziam, obrigado.

Vi-o desaparece nas ruas da cidade fria e surpreendente e fiquei a pensar que aqueles olhos intimamente azuis eram os mesmos ou iguais aos de uma pessoa muito querida que eu tenho guardada lá no céu.















quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conta uma História, Avô



Anda cá Beatriz, senta-te aqui deste lado e tu Matilde, ficas à minha direita, uma em cada perna, sossegadas que este é um daqueles momentos que haveis de recordar pela vida fora. A Maria e o Afonso são ainda muito pequeninos mas podem ficar à nossa beira a ouvir sem entender a grandiosidade da herança que os espera. Escutam apenas e sorriem por que os bébes trazem com eles a graciocidade dos anjinhos, a imaculada condição de quem é puro
Hoje vou-vos contar a história do barqueiro que no seu barco azul remava, remava pelo rio abaixo todos os dias e, uma vez…
-Avô conta aquela do Cotiça, quando ele apareceu com o pau dele e começou a bater!
-Hoje não Matilde, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava pelo rio abaixo todos os dias.
-Não avô, conta aquela do gigante que bebeu a água toda do mar!
-Não Beatriz, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava todos os dias pelo rio abaixo.
As duas crianças vencida, anuíram com um sim verbal e um abanar afirmativo de cabeça e, os seu olhos pequeninos, deixaram de ver e perscrutavam já o cenário maravilhoso do rio onde tudo aconteceu. Porém, com a vivacidade própria de quem procura avidamente respostas para as intensas interrogações que o mundo provoca nos seres em processo inicial de vida, uma delas interrompeu:
-O barqueiro do rio doiro avô, o que levava um pau escondido no barco para bater no Cotiça que rouba as galinhas, disse apreensiva a Matilde.
-Eu também tenho um pau escondido no meu barco, disse a Beatriz.
-Tu tens um barco?
-Tenho uma canoa pequenina e às vezes vou a remar, a remar pelo rio abaixo.
-Eu também tenho um barco muito grande avô e levo lá um pau escondido para dar umas cacetadas na Alface Pintada.
Enquanto falavam os braços pequeninos iam imitando a arte de remar o proceeso de locomoção que nunca tinham cisto e, em gestos tão ritmados e perfeitos, pareciam infantis barqueiros, seres que tinham nascido já com a faina do rio entranhada no corpo e na alma.
O homem velho deixou que as duas rapariguinhas fizessem a introdução do conto, permitiu que a imaculada imaginação delas colorisse de fantasia as narrativas com que de vez em quando lhes ocupava a mente. Após breves minutos, serenaram os anjinhos e, como se o livro grande da sua vida se abrisse em determinada página, o avô continuou:
Era uma vez um barqueiro que tinha um barco todo azul e remava pelo rio abaixo todos os dias. Era já velho, na cara enrugada, continuou passando a mão pelo próprio rosto, traziam um mapa que parecia mostrar todos os recantos maravilhosos do douro. Dizem que conhecia todas as manhas do rio, que falavam um com o outro e que gostava tanto dele que não havia dia nenhum sem que ele navegasse pelas suas águas com o seu barco azul. Então o barco aparecia vindo não se sabe de onde, parecia que o rio o levava no seu colo. A água rasgada pela proa do barquinho, fazia um murmurejar suave de ondas a bater nos rochedos das margens. Quando ele passava com o seu barco, todos os peixinhos do rio vinham a acompanhá-lo desde lá de cima de Midões até ao areal de Melres onde ele parava de remar e deixava-se ir a boiar pelo rio abaixo como se fosse uma folha de árvore caída na água.
Uma vez, levantou-se um temporal muito grande por cima de Rio Mau, as nuvens eram tão negras que o sol deixou de iluminar a terra. Fiou escuro como a noite, nada se conseguia ver à distância de uns metros e começou a chover tão forte que até os cães bebiam a água da chuva de pé. O ciclone que apareceu entretanto, fazia as árvores abanar e as pontas mais altas, balanceavam-se quase até tocar no chão.
O barco azul vinha no meio do rio que parecia uma mar embravecido com ondas do tamanho de uma casa, o barqueiro lutava desesperadamente com a fúria da tempestade e, de repente, um forte repelão de vento fez os remos caírem na água e o barco ficou completamente desgovernado. Tudo parecia perdido para o barqueiro, sem remos, nunca conseguiria chegar a terra a salvo e o mais certo seria afundar-se com o seu barco azul nas profundezas do sitio. Então do alto do céu que se abriu como por magia, saiu uma luz muito branca que iluminou o rio e a terra e, como respondendo a uma ordem divina, apareceram milhares de peixinhos que com as pequeninas cabeças, empurraram o barco azul até à margem.
O barqueiro tirou a boina preta, descobriu-se e dizem que pela primeira vez na sua vida se ajoelhou no barco a rezar.
Ainda hoje, quando estou sentado aqui a olhar para a água, continuou o avô, parece-me ver esse barco azul com um barqueiro a remar, a remar por esse rio abaixo.
Fez-se silêncio que durou o tempo que pode levar uma alma a chegar ao céu ou fazer as mentes deslumbradas destas crianças deixar de sonhar e a voltar a experimentar a realidade.
-Olha acolá para baixo para o rio avô, não vês o barco azul a passar? disse a Matilde.
-Também estou a vê-lo avô, é cor-de-rosa, proferiu a Beatriz.
O velho barqueiro olhou para rio e não havia barco nenhum a sulcar as águas mas sorriu afirmativamente por ter reconhecido mais uma vez que é sempre possível ter um barco, um rio e navegar nele quando somos capazes de reinventar o tempo feliz e inocente da nossa meninice.
Todos temos um rio a correr dentro de nós mas são muito poucos a deixa-lo sair das margens que o oprimem.


In, Conversa Com Um Rio de Manuel Araújo da Cunha