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quinta-feira, 29 de março de 2012

Barco Velho




Havia um velho barco a boiar nas águas do rio escondido num recanto ao fundo das arribas de Várzea do Douro que se estendem florestadas e pedregosas até ao cais de Bitetos. Quase destruído, parecia um tronco de madeira a flutuar meio submerso com a água a bordejá-lo conforme a ondulação que o vento provocava.  
Tinha sido uma embarcação de pesca há muitos anos atrás e, decerto nas suas lembranças, haverá histórias de barqueiros, pescadores e de muita outra gente que nele navegou ao longo do rio Douro.  Suportou ocasiões de naufrágios iminentes, resistiu às fúrias de um rio turbulento, imenso de caudal da cor do mais fino ouro. Muitas vezes empinado nas cristas das ondas, parecia uma leve pena levada por correntes traiçoeiras que constantemente ameaçavam arremessá-lo de encontro às pedregosas margens.
A tudo resistiu manobrado pelas firmes mãos de um barqueiro que lhe dedicava consertos após terem passado as tormentas que lhe provocavam lesões um pouco por todo o casco. Só a idade o abateu, vencido, transformou-se num pedaço de madeira apodrecida.
A vida de um barco é como a vida de um homem do rio, são quase semelhantes, ambos trazem um destino para cumprir e por mais tentativas que se faça para alterar esse fado, é impossível fazer com que não se realize. Um barco não vive sem um barqueiro e um barqueiro não vive sem um barco, por mais que a efemeridade das coisas humanas ou materiais muitas vezes os separem, permanece a queimar no coração de cada um deles, as lembranças dos momentos felizes que viveram misturadas com outras por ventura menos agradáveis.  
Esse velho casco que teimava em flutuar, pertencia a um homem que se deixou envelhecer dentro dele. Foi o palco onde decorreram as mais relevantes cenas da sua vida, o navio que rasgava a água lançado pela força dos seus braços de barqueiro, fez parte da sua história e foi testemunha impassível de acontecimentos espantosos até vir aproar nessa reentrância da água, agonizante.  
Que belo era o cenário que rodeava o recanto onde dormia tranquilo o seu último sono. Que maravilhoso  o verde frondoso de milhares de árvores que ladeavam o rio e deixavam tombar os ramos sobre a água parecendo agasalhar o barco moribundo. Tantas flores silvestres a enfeitar um local de silêncio quebrado apenas pela sinfonia delicada dos pássaros. A natureza inteira parecia estar em prece, abraçava-o como se fora um filho que perdeu, uma árvore metamorfoseada em batel porque quis seguir um sonho e se deixou transformar num cisne que nunca voou e estranhamente permaneceu toda uma vida a boiar nas águas do Douro. 
Um velho sentado na margem contemplava o horizonte, com ele um rapazito que tentava absorver todas as fragrâncias da manhã, eram testemunhas desse aprazível momento. De vez em quando o velho deixava cair demoradamente os olhos no bote que foi seu. Não havia lágrimas nem se adivinhava sofrimento no rosto do pescador. Sereno se mantinha porque sabia que tudo e todos acabam por chegar a um último porto onde carregados por lembranças, ficam a aguardar o golpe final. 
Nada fará voltar o esplendor dos dias passados sobre a água de um rio tão assombroso de belo como aquele mas, quem teve o privilégio de viver esse encantamento, sentirá a doçura dessa espera a amenizar os irreparáveis danos que o tempo inclemente vai causando. 
Ainda se notava na proa da velha embarcação umas letras desenhadas à mão no casco de madeira. Manchadas pelo desgaste natural, ficaram imperceptíveis e só quando a ondulação acalmava se conseguia ver a silhueta disforme de duas delas. 
O velho pescador ajeitou-se até à beira dele e, com as mãos a tremer limpou a sujidade e apareceu o nome de baptismo do seu querido barco que brilhou como antigamente e pode ver-se desenhado um nome de uma mulher, quem sabe, talvez aquela que foi senhora do seu rude coração: 
-Inês, era o nome que as letras formavam.
O rapazito surpreendido perguntou-lhe: 
-Quem era a Inês avô? 
-Era uma mulher muito linda que tive filho e também era esta minha barca! 
-Mas a avó chamava-se Carolina, interpelou confusa a criança.   
-Antes de ela ser  minha esposa e depois tua avó, já este barco navegava vaidoso com este nome escrito por mim na popa! 
Nesse momento notou-se  que o velho estava perturbado, os seus olhos reflectiam as águas do rio e pareceu que espelhado nas suas pupilas, um rosto de mulher sorria feliz. 
A vida de um barco assemelha-se muito à vida de um homem do rio porque ambos trazem um nome de uma misteriosa mulher desenhado à mão a reluzir na proa.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tempo Perdido

Antes os cães e os gatos entravam nos tascos e nos cafés da minha aldeia. As portas estavam escancaradas, entravam todos, pessoas, gatos e cães menos as mulheres.
Os tascos eram divididos em duas partes, numa as pipas, os barris, as canecas, o mosqueiro em cima do balcão que guardava as pataniscas, as sardinhas e os peixinhos do rio fritos, na outra, mercearias diversas, quinquilharias, carboneto para gasómetros, fardos de bacalhau e tecidos, era o compartimento onde as mulheres estavam autorizadas a entrar apesar de não haver qualquer aviso a discriminar os dois sexos, era por respeito dizia o meu pai. A divisão não tinha porta, os homens viam as mulheres, as mulheres podiam ver os homens e, de vez enquanto a caneca do vinho tinto saltava de um compartimento para o outro num ritual sem falas, consentido por ambos, demonstrador de afectos.
Os animais enroscavam-se debaixo das mesas a dormitar à espera de restos. Antes havia poucos restos, não sobejava nada do molete que trazia duas sardinhas entrincheiradas lá dentro, comia-se tudo, até as cabeças esturricadas no tacho de fritar, eram saboreadas até ao último estalido nos dentes.
Antes os animais falavam com as pessoas, era raro o dia em que não houvesse debates e discussões acesas sobre isto e sobre aquilo e que acabavam sempre regadas com vinho nos tascos sempre num ambiente de alegria e fraternidade. Conta-se, não se sabe se é fábula ou acontecimento verdadeiro por que os nossos antepassados eram useiros e vezeiros a misturar as duas hipóteses, que uma vez um porco entrou na taberna do ti Narciso no centro do lugar e disse que estava farto de ser porco e que gostava de ser presidente de uma coisa qualquer. Ninguém dos presentes no estabelecimento, pessoas e animais lhe respondeu, isso de ser presidente de uma coisa qualquer era assunto que não interessava muito aos humanos nem aos animais. Os presidentes das juntas, das câmaras e até das repúblicas passando pelos chefes de governos da época e em certa medida os futuros, já nasciam com inclinação para desempenhar o cargo, não eram eleitos pelas pessoas nem pelos cães, nem mesmo pelos gatos, eram nomeados conforme a procedência familiar ou pelos bons serviços prestados ao regime estabelecido. Ninguém se importava com isso para além dos cantores, pensadores, dos poetas e dos escritores que arriscavam o coiro a protestar contra eles e contra a situação contrária à democracia.
Os animais sempre dispuseram de língua própria e independente e formas de governação autónomas, até dá a ideia de que os humanos copiaram por eles, são comandos semelhantes, tal como entre nós, os mais fortes, os mais espertos, os mais imbecis e os que dormem enquanto os outros caçam e depois escolhem a maior e melhor porção do produto da caça e até as melhores fêmeas para brincar ou procriar, são designados altas individualidades se forem humanos, chefes da matilha se forem cães, da vara se forem porcos, do rebanho se forem cabras ou ovelhas, alcateia se forem lobos e até colmeia se forem abelhas estas com a particularidade de serem monárquicas pois não dispensam uma rainha que engordam com todos os cuidados e obedientes aceitam unanimemente o seu comando faz-de-conta. Claro que a rainha ou mestra, não manda nada, limita-se a pôr ovos multiplicadores do enxame perpetuando a espécie. As abelhas não querem nada com as republicas porque a qualquer momento podem destruir a chefe e criar uma nova e depois debandar do grupo formando nova colmeia, pois de tão obesa a mestra fica sem mobilidade e incapaz de se defender.
Há muitas semelhanças entre os bichos e as pessoas, a grande divergência é de que os humanos adoptaram formas e tipos de comunicação complicados ao passo que o idioma animal é universal. Um cão português fala a mesma língua de um cão americano, chinês ou de qualquer outro país, os gatos exprime-se na mesma linguagem de todos os gatos espalhados pelo mundo, isto só para exemplo pois é do conhecimento público em geral esta democrática forma de comunicar adoptada pelos irracionais.
Os animais não vivem num estado de direito situação jurídica criada e utilizada pelas criaturas mais fortes para oprimir as mais fracas que, contrariamente ao espírito consagrado na lei, nunca têm direito a nada. Os cães, os porcos, as cabras, os gatos e todos os bichos que convivem no planeta, não obedecem a este estatuto, são livres como deviam ser todas as criaturas da terra.
Antes todos dormitavam na taberna; os cães enroscados debaixo das mesas, os gatos empoleirados na prateleira dos copos e das canecas e as pessoas debruçadas sobre o tampo de um barril ou sentados de cabeça a cair sobre o peito, ressonavam baixinho. Ao fim da tarde tocava-se viola braguesa e começavam os animados cantares ao desafio. Eram quadras inventadas no momento, rimas que reflectiam sentimentos das angustiadas vidas de todo um povo. Os cantadores, barqueiros, mineiros e pescadores, desafiavam-se ao longo dos versos e, numa atmosfera carregada de vapores de vinho, pataniscas e iscas de bacalhau só o som arrastado e melodioso do instrumento e as vozes esganiçadas dos cantadores, quebravam o silêncio do sagrado templo.
Era um mundo feliz onde se ficava a conversar, a cantar, a beber, a escarafunchar os dentes e a falar com os animais a tarde toda e só se saía de lá para urinar ou quando as portas se fechavam à noitinha. Antes podia-se verter águas em qualquer lado, no muro da casa da Sobreira, na esquina da loja do Viana e até atrás da sacristia da capela.
Antes não havia contentores de plástico com lixo dentro, queimava-se tudo na horta e até se podia arriar o calhau no meio de um campo ou nas bordas por baixo das ramadas. Antes os camiões da câmara não vinham buscar as imundices à minha aldeia para levar outra vez para a minha aldeia.
Antes havia peixeiras de canastra à cabeça carregada de sardinhas ou peixinhos do rio e os gatos e os cães corriam pelos caminhos atrás delas. De vez em quando aparecia um peixe moído e era deitado aos gatos e aos cães que repartiam entre si o produto da longa espera.
Agora há cães e gatos como dantes mas os peixinhos do rio acabaram e as sardinhas que já não se pode garantir serem do nosso mar, viajam na carrinha do Zé Martelo misturadas com peixes criados a farelos e os gatos e os cães não correm atrás da carripana pela aldeia toda. Esperam no sítio onde o Zé pára para aviar os fregueses e não se pode mijar nas paredes. O Zé Martelo é amigo dos gatos e dos cães, tem bom interior e dá-lhes peixes todos os dias.
Agora há uma casa de banho na minha aldeia mas ninguém vai lá urinar nem arriar o calhau porque dizem que cheira a comida sintética de passarinhos, vão aos cafés empestar aquela coisa toda e desenham corações trespassados por setas e escrevem versos nas paredes da retrete.
Uma vez o ti Vicente estava a urinar virado para o rio no porto do Remoinho e passou um barco carregado com pipas. O mestre da embarcação chamou-lhe porco e o ti Vicente peidou-se para ele com a tringalha na mão.
Antes podia-se peidar em todo o lado, mijar e até arriar o calhau, agora não. O ilustre e entendido médico do Porto que morava na minha aldeia, dizia muitas vezes: Reter um peido é abrir o caminho a um ataque cardíaco! Ele próprio lançava umas farpas que se ouviam do outro lado do rio. Há pessoas assim, parecem autênticas botijas de gáz. Dados a imperfeita nutrição, cultivam e alimentam o estado de flatulência permanente e podem descarregar gazes a qualquer momento. O próprio planeta terra expulsa os seus gases acumulados através de erupções vulcânicas e outras formas semelhantes, se somos o produto daquilo que comemos, simples átomos alimentados pelas fermentações orgânicas que o solo produz, é pois natural padecermos dos mesmos excessos vitamínicos das matérias que consumimos.
Agora há contentores de plástico com letras nos tampos a dizer que são limpos e que não se pode urinar neles, só os cães e os gatos.
Agora os camiões da câmara vêem buscar o esterco à minha terra porque um senhor da câmara mandou e vão deitá-lo outra vez na minha aldeia por que o senhor que estava na câmara disse que o lixo todo do concelho e dos concelhos vizinhos, devia ser depositado em cima do povo da minha aldeia, que um aterro sanitário seria como se uma dádiva caída do céu para quem convivia há mais de trinta anos com uma lixeira a céu aberto.
- Depois até se pode fazer lá um parque de merendas, imaginem como será tudo verde e arborizado e as famílias a conviver umas com as outras aos fins-de-semana. Um jardim na perspectiva do homem politico, um horto semeado com delicadas plantas e flores que ninguém quer perto de sua casa. Há afeições duradoiras, gratidões que se pagam com veneno e ainda hoje passados onze anos após a inauguração do monstro e ao contrário do que havia sido prometido, o depósito de trampas não encerrou, cresceu como um desalmado e as pessoas da minha aldeia continuam à espera dos camiões cisterna carregados de perfume francês para aromatizar o sitio.
Uma vez as pessoas da minha terra criaram uma banda filarmónica e uma casa para a cultura das pessoas da minha terra. Outra vez as pessoas da minha aldeia construíram um ramal de água ao domicílio e iluminaram a terra toda com luz pública. Uma vez as pessoas da minha terra criaram um campo para jogar bola. Uma vez as pessoas da minha aldeia fizeram uma capela nova. Outra vez algumas pessoas da minha terra urinaram nas paredes da casa de cultura da minha aldeia. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram no muro do campo da bola e arriaram o calhau lá dentro. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram na parede da capela nova atrás da sacristia.
Uma vez apareceu um político à minha terra que disse que era doutor e algumas pessoas da minha terra acreditaram nele e deixaram de urinar nas paredes e de arriar o calhau nos campos e passaram a mijar em cima umas das outras porque o senhor doutor que veio de fora disse numa reunião com algumas pessoas da minha aldeia que o melhor era elas mijarem umas em cima das outras.
Agastado ele disse:
-Amanhã vou à feira comprar um cabo novo para a foucinha. Amanhã se me apetecer vou urinar no muro da casa do Viana e arriar o calhau no campo da bola mas não é por que o senhor doutor que veio de fora mandou, é por que se o fizer estarei a pensar nele e em todos os que quiseram dominar este povo que sabe remar, pescar, ler e fazer coisas novas.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Navio dos Mortos


Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.
As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.
O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.
É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.
As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.

Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.

O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.

As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:

- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.

O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.

Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.

Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:

- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.

-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.

O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.

Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.

O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.

-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.

- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.

-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!

-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.

O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.

O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.

O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.



Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Este Natal Ofereça um Rio


"...O sol finou-se já no horizonte. Uma paz quente desce sobre Barca de Alva. É um crepúsculo macio, em que o cheiro salobro do rio se confunde com o acre da terra barrenta. As águas do Douro parecem ter cintilações de prata reflectidas pela luz de uma lua gigante. Nada mexe na Natureza envolvente e só um pequeno barco a remos surge dos lados da foz do Águeda. Em pé, remando lentamente, um vulto de mulher entoa uma canção magoada. É mais um gemido, um lamento, do que cantiga, é um som que perdeu a musica, agonizante, um poema rasgado a meio mas que ainda perdura em cântico apesar de amarelecido pelo tempo. Som que uma alma sem luz vai propagando sem pressa, sem esperar ovações, desanimado, murmúrio de quem já não tem esperança de viver..."


Compre em: N.º de telefone
  • 22 242 2182

Morada
  • R. Actor Ferreira da Silva, 373/381
  • Porto, Portugal 4200-301 P

sábado, 13 de novembro de 2010

PESCADOR

Não sei se são recordações ou traumas de uma infância infeliz que fizeram esse homem regressar ao fim de tantos anos ao lugar onde nasceu e viveu até se fazer homem, o que sei é o que me conta o Sr. Engenheiro, isso é o que verdadeiramente tem significado para mim, é uma realidade, foi uma verdade da qual, alguns filhos e netos dessa gente antiga já morta, não querem ouvir falar agora. Preferem esquecer, deixar enterrada no passado, a carta mestra das suas origens, a matriz onde tudo se processou um dia. Não sei se por vergonha de assumir a herança ou se por que os tempos de agora não se compadecem com lembranças que julgam minimizá-los aos olhos de todos. Mesmo ciente dessa realidade objectiva que nunca compreendi, eu conto o que ele me contou, sentados os dois à beira do rio:
"... O meu pai era pescador, tinha um barco, uma rede a quem dedicava muitas horas do dia e uma enorme força de vontade na realização dessas tarefas.
Lembro-me dos meus tempos de criança em que tiritava com frio e com fome, Se me perguntassem hoje como consegui sobreviver a esses tempos de absoluta miséria, julgo que não encontraria as palavras adequadas para definir semelhante privação de tudo o que era essencial para poder resistir e chegar à condição de homem adulto. Confesso que não sei mesmo.
Sai daqui aos vinte e dois anos, tornei-me um outro homem longe deste local de onde sou filho e, sempre tentando abafar o sofrimento do passado, esqueci tudo o que me fazia lembrar Rio Mau, os rios e os montes. Os anos passaram, foram quarenta e cinco a viver numa outra terra onde, confesso, fui quase feliz. A vida proporcionou-me tudo o que constava na carta das minhas ambições e, se alguma vez senti alguma nostalgia dos meus tempos de criança e juventude, foi um sentimento passageiro, uma ténue recordação logo abafada por lembranças dolorosas que a todo o custo eu queria destruir.
Nunca poderei explicar por que me encontro aqui hoje. Foi uma espécie de chamamento, um súbito desejo de aqui vir, uma força interior que nasceu espontaneamente e à qual, por mais que tentasse não consegui resistir. Dizem que quem nasce à beira do rio douro, fica preso para sempre ao lugar onde nasceu, que embora a vida nos leve para sítios remotos onde nada nos faça recordar o passado, um dia chega em que o apelo do rio é tão forte que só mortos lhe podemos resistir. Nunca acreditei nisso mas hoje sei  que foi o que aconteceu comigo, tenho quase a certeza de que este nó que se me formou na garganta e foi apertando cada vez com mais força e que só aqui afrouxou, tem a ver com esse desígnio que a natureza impõe aos filhos desta terra.
Então voltei e, se quer saber o que senti quando o meu olhar avistou o rio e as casa, apenas lhe digo que foi como se me tirassem do peito um peso enorme que me esmagava o coração. Nenhumas palavras podem definir a sensação de liberdade que senti e a paz que de repente se instalou em todo o meu ser. Foi como se estivesse estado morto estes anos todos e agora ressuscitasse. Todas as imagens desse tempo a reclamar de mim uma visão e, o filme da minha vida começou-me a ser projectado na mente desde o princípio de tudo. Quero contar-lhe apenas uma história retirada do cofre das centenas que lá dentro arquivo. Sinto este desejo de partilhar com alguém instântes desse passado talvez na tentativa vã de me redimir do pecado do esquecimento, de dizer-lhe a si que nem sequer conheço, que sou filho desta terra, que este rio me corre nas veias e que sinto remorso de ter pensado que era possível esquecê-lo. Deixe-me contar-lhe uma história, apenas uma para que melhor compreenda as minhas angústias:
-Era um dia de Maio, o sol desabrochava por cima das serras e iluminava a pequena aldeia onde nasci. Como todos os dias, o meu pai e a minha mãe pescavam no rio o peixe que constituía a única forma de ganha-pão conhecida. Fui assistir ao recolher das redes na esperança de que a pescaria fosse abundante e sobrasse algum peixe com que poderíamos matar a fome.
O barco vinha ao sabor da corrente, a minha mãe remava enquanto o meu pai, debruçado sobre a proa, recolhia a rede vagarosamente como se de um ritual por ele há muito conhecido se tratasse. Ele conhecia as artes de pescar e envolvia-se de alma e coração nessa tarefa árdua, nesse estranho bailado que fazia com o rio de cujo artifício solene nunca percebi.
O barco, o meu pai, a minha mãe, o rio e a rede, deixavam por algum tempo de ser apenas os actores de uma peça assombrosa que se repetia constantemente para se me afigurarem personagens de um acontecimento único, um jogo de sorte e azar, cruel como todos os jogos e ao mesmo tempo doce e admirável por que nele se jogava a vida e a morte.
Grandes eram os esforços dos dois em perfeita sintonia no recolher da rede que, quanto mais se aproximava de terra maior dificuldade apresentava devido ao peso que adquiria molhada.
O barco chegou, os dois saltaram para a areia e, fincados a esse chão que se movia, iam arrastando as artes feitas de fio de sisal, patelas de pedra e rodelas de cortiça, para fora das águas do rio.
A rede recolheu, o barco balançava sozinho encalhado nos godos e um peixe saltitava na areia da praia. Sorri, finalmente havia alguma coisa com que matar a fome, o rio tinha sido generoso, deu-nos um sável grande e já me imaginava a comê-lo à noite sentado em volta da lareira.
Corri para ele feliz e alegre, agarrei-o pelas guelras e levantei-o no ar como quem exibe um troféu de grande batalha quando o meu pai me disse:
- Deixa estar aí o peixe filho, vai para a pensão da Foz, precisamos de dinheiro para comprar remédios para o teu irmão!
-Dei-te outra vez a rede pai, pode ser que apanhes mais um para a gente comer, só mais um lanço, pai!
Ele não me respondeu, limpava a armadilha dos muitos lixos que se prendiam nela com os olhos fixos num lugar que nunca conheci.
Olhei para o rio desiludido, perdera o alimento mas compreendi nesse dia a força da palavra solidariedade, o fazer da tripas coração na dádiva aos semelhantes e que, não basta ter um barco e uma rede para pescar, que é preciso muito mais para se poder sobreviver num mundo tão feroz onde tudo o que se consegue pode já estar comprometido..."
Nisto um barco velho apareceu no rio, uma mulher remava e um homem sentado na proa, consertava as redes tranquilamente.
- Ainda há barcos de pescadores, perguntou-me o Sr. Engenheiro!?
-Não ligue, são fantasmas, é o rio a brincar com a gente! Não se pode falar alto, ele ouve tudo e depois começa também a contar histórias, respondi!
Olhou para mim visivelmente transtornado e incrédulo, aposto que pensou que eu era também uma alucinação igual à que acabara de assistir sem perceber que o rio o tinha reconhecido e acabara de o absolver por ele o ter esquecido.
- ah rio Douro, quanto de ti são lágrimas de gente da minha terra, sofrimento e amargura que tu às vezes transformavas em pão e sorrisos de alegria! É por isso que te quero tanto e te guardo como preciosidade num cantinho do peito!

In, "Conversas Com um Rio" de Manuel Araújo da Cunha








sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Libras de Oiro

O Lopes andou pelo Brasil trinta anos. Chegou lá com uma mão à frente e outra atrás, teso como um virote mas transportando no peito uma gigantesca e inabalável força de vontade de enriquecer depressa e voltar de seguida à terra onde nasceu.
Embarcou para fugir às inclemências da guerra das guerras em 1914, terrível conflito mundial que deixou estas bandas num autêntico campo de concentração sem alimento e também por receio de ser mobilizado para África onde tropas portuguesas juntas com os aliados, já combatiam os alemães nas fronteiras.
Foi do porto de Leixões que largou num cargueiro inglês e cheio de saudades, deixou para trás Sebolido a sua terra natal e a ditosa pátria entregue a si própria.
Enquanto outros emigrantes portugueses se estabeleciam e se dedicavam ao fabrico de pão que abastecia a cidade do Rio de Janeiro, ele recolhia embalagens usadas, sacos de transporte de cerais, café e outros produtos de importação que ali chegavam a granel e eram transbordados em fracções que seguiam para as firmas importadoras.
Foram trinta anos penosamente vividos abdicando de tudo o que lhe poderia dar prazer na mira de amontoar lentamente a fortuna que viria mais tarde a transformar em libras de ouro. Voltou rico, muito rico e a primeira coisa que fez logo que pisou terra firme, foi comprar quintas e terrenos florestados no monte da sua terra de origem.
O Lopes vivia bem e, embora já entrado na idade sem grade dificuldade, acabou por casar com uma fidalga mantida pelos pais em reserva, aguardando o momento de a entregar a um homem de teres e haveres que lhe garantisse vida boa e farta. Muito mais nova que ele, a Serafina espalhava pela vida do Lopes enorme vitalidade de corpo que se tornou bastante e acabou por lhe dar dois filhos varões.
Poucas ou nenhumas vezes o Lopes saiu de Sebolido, da quinta que produzia vinho, milho e outros produtos que garantiam a subsistência da família bem como mantinha com pasto, quatro juntas de bois obreiros no lavrar dos campos e motores dos carros de madeira que transportavam todos os materiais necessários ao perfeito funcionamento de uma casa de agrícola como a dele.
Não há criaturas eternas, tudo o que nasce morre e, como tal, ricos ou pobres, todos acabamos mais tarde ou mais cedo por esticar o pernil abandonando com alguma tristeza tudo o que amealhamos nesta vida. Foi o que aconteceu ao Lopes, com oitenta e nove anos feitos em Agosto, viu por altura da feira das colheitas em Arouca, o anjo da morte a rondar-lhe a casa que tinha mandado construir no intuito de vir a ser um hotel, à espera que desse o seu último estremecimento para então lhe levar a alma, sabe-se lá para onde mas de certeza que não para o maravilhosos céu que o padre António lhe garantia sempre que contribuía com avultada quantia para a obra da igreja.
Pressentido o fim, sentido aquele aperto na garganta própria dos agonizantes, num gesto que parecia ser de generosidade, mandou chamar com urgência os dois filhos à cabeceira da cama.
-Estás aqui Bernardino? E tu Manuel, também estás?
Os olhos já só lhe distinguiam vultos, tão cegos como na hora do seu nascimento, deixaram que fossem os ouvidos sozinhos a identificar a sua criação:
-Estou aqui pai, sou Bernardino. Eu também estou aqui, sou o Manuel, não fale, não se esforce tanto.
A resposta chegou ofegante entrecortada pela tosse e, o inesperado aconteceu então:
-Ide ao Courel, ide ao Courel, balbuciava o moribundo.
-O que é que tem no Courel pai, perguntaram os dois em simultâneo.
O Lopes ia e vinha ao sabor da agonia, mais morto que vivo reuniu as últimas forças e desvendou o mistério:
-Libra de oiro, três panelas cheias de libras de oiro.
-O Courel é muito grande pai, diga o sitio onde as enterrou perguntou o Bernardino.
O Lopes ficou alguns momentos sem lhe responder, de olhos cerrados pensou-se que tinha exalado o último suspiro.
Os dois filhos possessos pela cobiça já não se importavam com o doloroso esforço do pai para falar, sacudiam-lhe energicamente os ombros, sempre a perguntar:
-Diga lá pai, diga onde enterrou as libras de oiro, diga!
O velho arregalou os olhos e agora na agonia final interpelou-os
-E se eu não morro!?
Estremeceu e ficou -se como um passarinho.
Os filhos nem esperaram pelo funeral, mal sentiram que o velho tinha morrido, dirigiram-se apressados ao Courele, munidos de enxadas e picaretas esburacaram a quinta toda mas nunca conseguiram encontrar as panelas com as libras.
Passaram-se muitos anos, o Bernardino e o Manuel já repousam na terra fria sem nunca terem gozado do ouro do pai mas quem ainda hoje for ao Courel, pode ver as muitas crateras existentes nos campos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bombeiro

A mão direita recusa-se a acompanhar o metro e oitenta de flacidez deste corpo outrora admirável.
A mão e a perna do mesmo lado, inactivas, desarmadas e mortas perante as necessidades do tempo de vida que ainda lhe falta viver, rejeitam as gloriosas marchas de outros tempos. A voz essa secou-se e emudeceu na garganta como se um pavoroso incêndio lhe tivesse queimado as cordas vocais.
Não fala, não consegue falar mas aqueles olhos grandes perscrutam o espaço que tem pela frente aflitos, e como se fossem dois potentes altifalantes que falassem por eles, vão deambulado pela terra como emissários das coisas fantásticas que passaram por eles.
Já não comanda as forças que devastavam o inferno em que se transformavam as casas e as serras em redor nem a sua voz firme ordena as estratégias de combate a tão traiçoeiro inimigo que deflagrava inesperadamente espalhando terror, dor e sofrimento. Lembra-se, lembra-se sempre dos braseiros terríveis, do clamor das chamas que nunca recusou combater mesmo a troco de nada apenas por solidariedade e porque num gesto responsável o jurou um dia fazer.
Os olhos atentos desse tempo deram lugar a duas lanternas foscas e difusas que ainda gritam de revolta em cada amanhecer.
Encosta-se ao varandim do cais e tem no horizonte imediato a paisagem que conheceu e sempre admirou e amou desde a nascença. O douro corre-lhe nas veias e moldou-lhe este carácter invencível de guerreiro. De vez em quando a cortar este silêncio prolongado, soa o agudo som da sirene do quartel que comandou.
-É fogo! É acidente!
Como se impulsionado por uma mola invisível ele, a quem as forças do corpo já abandonaram há muito, salta perturbado e parece que vai em aflição correr caminho fora apresentar-se ainda voluntário no quartel a responder ao lancinante apelo. Só a alma deste homem se inquieta e sofre mas o corpo alquebrado, negou-se mais uma vez a acompanhar a desprendida solidariedade que sentiu e sente sempre que aquele som ecoa pela terra.
Vejo lágrimas nos olhos do velho soldado, lágrimas gordas que lhe rolam pelas faces enrugadas e vão secar ali; compreendo a sua dor a sua aflição e comovo-me tanto por saber da indiferença do mundo perante tamanha e voluntária servidão.
Foram-se os anos, foi-se a dinâmica juventude que lhe permitiu correr por montes e vales de machado ou mangueira em punho em defesa daquilo que nem seu era mas sabia ser seu dever preservar, e também a companheira aquela que foi o seu amor. Foi-se tudo arrastado no vendaval da vida que o deixou solitário e triste.
Olha a confluência dos dois rios com o olhar preso num infinito que mais ninguém conhece como um louco que espera o navio da sua mocidade que trouxesse as figuras queridas do passado, os amores da juventude, as noites de vigília, o horror dos montes em inferno vivo e atracasse neste cais perdido do Douro só para lhe devolver a força e o vigor de antigamente.
Tudo é silencio agora; o apelo calou-se e já se perderam ao longe os sons estridentes das sirenes das auto-bombas dos camaradas que se fizeram à luta exactamente como no passado, como no seu tempo. Todas as lembranças pairam na mente angustiada do velho Comandante. O tempo, esse maldito carrasco que nos transforma em farrapos físicos, jamais terá dele a desistência a rendição. Luta ainda como o fizera dantes agarrado às cinzas do fogo dos anos que lhe queimaram a vida e o deixaram prostrado a sofrer os tormentos da velhice.
Bombeiro!
Foi o pai quem lhe ditou semelhante sina ao oferecer-lhe como prenda de anos aquele carrinho de folheta vermelho a imitar o real. Brincou com ele inocentemente a fingir que acudia aos fogos que socorria as desgraças de todo o mundo. Esse carrinho de lata que ainda conserva nas relíquias da sua meninice marcou-o como ferro em brasa que deixasse estigma definitiva e irreparável na sua longa historia e, definiu um processo tão deslumbrante que só a amaldiçoada trombose foi capaz de parar.
Nenhum navio chegará para atracar neste cais deserto, não há qualquer embarcação algures no horizonte mas se chegar, não trará certamente o esplendor de antigamente que consolasse e fizesse feliz este valente e heróico soldado da paz.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Navio dos Mortos

Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.

As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.

O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.

É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.

É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.

As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.

Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.

O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar.

Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.
As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:

- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.
O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.

Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.

Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.

Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:

- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.

-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.

O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.

Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.

O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.

-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.

- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.

-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!

-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.

O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.

O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.

O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.



Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cartas de Amor

Esta história nunca devia ser contada. Acontecem-nos coisa na vida que mais parecem ser autênticos milagres ou coicidências tão estranhas que nos marcam e deixam comovidos. Já naveguei muito por este rio todo. Conheço-lhe as manhãs tranquilas em que espelha o azul do ceu, as ramagens das árvores ribeirinhas e as casas. Sei dos dias de cheias descomunais em que se transforma num colosso de água e não permite um abraço. Escuto os rumores da sua aflição qundo invade a terra e procuro compreender a sua história. São muitas as recordações, muitas mais as vezes em que deixo o meu barco boiar apenas ao sabor da corrente para poder sentir o que o rio sente preso num leito que conquistou à força. Tantas coisas se passaram sobre este inconstante lençol de ilusões que se torna dificil descrever todas elas. Todavia, e por que esta história me marcou profundamente, tenho de a partilhar convosco. Eu conto:
-Era uma vez um barqueiro que se apaixonou por uma Ninfa do Douro. Conta-se que eram belas e fantásticas as cartas que ele lhe escrevia e que possivelmente por que todas seguiram as águas do rio dentro de garrafas, nunca lhe foram entregues. Muitas se perderam, outras vagueiam ainda ao sabor das correntes do rio ou navegam no mar alto à procura do seu destinatário, mas uma delas, talvez aquela que se pensa ter sido a última, não se sabe porquê, sobreviveu a tempo de revelar o seu conteúdo.
Um dia, viajando pelo rio como regularmente o fazia, encontrei a boiar na água uma garrafa de cor branca, transparente. Recolhi-a para bordo e vi que tinha uma mensagem no seu interior. A água já tinha entrado na vasilha e o papel da carta, apresentava-se com alguma humidade. Deixei que o sol fizesse o seu trabalho de secagem e depois desdobrei-o com todo o cuidado e profanei a escrita que alguém enviou pelo correio do desespero. Tinha um nome de mulher e um endereço como se fosse uma carta e estava assinada por um homem.
Era mesmo uma carta de amor talvez igual a todas as cartas de amor que até hoje se escreveram e começava assim:
Terra dos sonhos, 31 de Dezembro de 2005
"... O rio deixou de ser nosso, agora é só meu e do meu barco. Há ventos de Leste que perturbam as águas ainda há pouco tranquilas. Há vagas que se formam não sei onde e agitam este lençol liquido de ouro. A paisagem mudou radicalmente, perdeu o verde e a imensa esperança que depositei nela. Os tons são castanhos, vermelhos da aflição pungente que antecipa uma morte anunciada. Despem-se os choupos, as nogueiras, os amieiros e só os salgueiros insistem nas festivas vestes. Não sei se a tristeza destes dias ásperos, conseguirá vencer a minha força de barqueiro, este desejo imenso de te procurar mesmo sabendo apenas que existes algures na crista de uma vaga que ameaça o meu barco ou num deslumbrante pôr-do-sol já falecido. Desconheço o amanhã que se anuncia em cada batida do meu peito onde voltarei a esperar-te como sempre, mas lembro-me do passado a reluzir de sol nas tardes magníficas do Douro a bronzear as formas mágicas do teu corpo meu altar, meu último e desejado porto. Recordo os ventos atentos, as suaves brisas que te agitavam os cabelos que eram então fios de ouro a correr como as puras águas do meu rio ou como se eles fossem as minhas peregrinas mãos desdobradas em ternas carícias que nunca tinham fim.
Naveguei pelo teu ser como se um mar distante me chamasse e tu eras a Sereia tentadora a desviar-me o rumo, a enlouquecer-me num lamento de guitarra agora transformada em musa nos sonhos que povoam as minhas noites desesperadas sem te ter.
Lembro a Natureza inteira a cantar um hino para te agradar e os sons dessa antiga melodia permanecem ainda a enfeitar os meus dias e as longas noites de solidão que tu deixaste.
Chegou o Inverno; navego agora solitário rumo ao mar. Não, não irei numa viagem para alem do horizonte. Ali nada haverá que me possa encantar. Não, vou apenas ver a foz onde as águas do rio se confundem com as do oceano e olhar pela última vez o porto da tua ausência, perguntar às gaivotas famintas da Afurada, se te viram passar sorrindo algures no cais. Vou atracar em Oliveira do Douro ou na marina do Freixo e subir ao bar onde um dia à tua espera, só imaginei o teu sorriso. Talvez fique por lá algumas horas porque eu só quero estar perto de ti ou então, desalentado, zarparei rumo a montante e só te deixarei nesse porto o meu olhar.
Urge navegar rio acima. Esperam-me em Porto Carvoeiro ou em Pédemoura onde atracarei num porto agora já sem barcos. Chamam-me em Bitetos, no Castelo como quem chama a Primavera que tão longe ficou no teu olhar. A ilha onde o amor foi só um relâmpago imaginário, é ali em frente e apenas silêncio se houve em seu redor.
Sinto frio, treme-me o corpo, devo estar doente ou talvez seja apenas a imensa dor de te não ter. Escrevo, escrevo sempre para transformar a tristeza em saudade, a solidão em lembranças para que um dia a nossa história que devia ser de amor feliz, seja lançada na corrente deste rio que eu amo e as sua águas apaguem para sempre o fogo das palavras que te dedico hoje e que são a narrativa que só conto a mim mesmo por que sei que nunca lerás esta carta.
Correm-me lágrimas dos olhos, rolam-me pelas faces, misturam-se com as gotas da chuva e caem nas águas do rio que as vai levar para longe e assim, tu meu amor, nunca saberás que um dia chorei por ti.
Chegou o Inverno e o rio despovoou-se e agora é só meu e do meu barco sentinela atenta em busca da tua imagem adorada. Nunca te disse que te amava, talvez por que pressenti que tudo era apenas ilusão. Coisas que o rio produz, devaneios, mentiras com que me tenta enlouquecer.
Somos ausentes um do outro sem nunca nos termos encontrado e no entanto, tu és a imagem materializada de um sonho que sonhei sobre a água, uma criação só minha por que te inventei dentro de mim e sabia que, para além da fantasia da minha mente exausta, tu existias fosse de que forma fosse. Pobre de mim que tive medo de ultrapassar as barreiras do fantático para não me decepcionar nunca, que abafei na alma as ilusões pensando evitar o sofrimento que quem segue um sonho tem de padecer. Sabia que um dia arrependido, haveria de olhar para trás e esse dia é hoje por que o coração me diz:
-Que fizeste com os teus sonhos? Enterraste-os no fundo do teu rio com medo de perdê-los. Tentaste a dureza da indiferença perante os impulsos que te dei. Bati no teu peito alucinado, fiz tudo o que pode fazer um grande amigo e tu amordaçaste-me, deixaste-me descer ao poço frio onde guardas todas as lembraças. Agora é tarde, demasiado tarde, eu transformei-me em pedra, sou um velho relógio a bater as horas que perdeste, morri, já não me sinto como um louco a palpitar como daquela vez em que ela apareceu materealizada sobre a água a sorrir para ti. Por tudo isso sofres, desperdiçaste a tua vida, deixaste os teus sonhos morrer dentro de mim.
O tempo passou sobre as terras e sobre o rio e, às vezes, particularmente quando as águas reflectem tons deslumbrantes de um céu que arde ou desespera e se instala na atmosfera uma espécie de encantamento, eu vejo a tua imagem reflectida nesse espelho de fogo e lembro-me dolorosamente de ti. Mas o rio, ele que me conhece desde sempre, cria logo uma outra ilusão, distraí-me para que eu não sofra outra vez a dor que ele sabe ser antiga.
Haverá outras primaveras, muitas por que o tempo não pára a sua sina e eu e tu, havemos de envelhecer um sem o outro mas sempre suportando no peito as saudades dos beijos, dos abraços que não demos e dos dias felizes que nunca chegamos a viver. Nada fará voltar o esplendor ao rio, o meu barco apodrece num recanto e eu deixei de navegar para sempre..."
Dobrei o papel novamente emocionado, doeu-me o peito por ter profanado aquele segredo e voltei a colocá-lo dentro da garrafa com todo o carinho deste mundo. Para lhe facilitar a viagem, fui devolvê-la ao rio já depois da barragem de Crestuma. Queria que ela seguisse o seu destino sem obstáculos, desejava que, se tivesse de ser, o encontrasse por si própria como decerto tinha sido esse o desejo do Barqueiro. Vi-a boiar na água alguns segundo e depois desaparecer na corrente do Douro que a levou para os lados da sua foz à procura de uma mulher.
Certo dia, já lá vão cinco anos, ao percorrer os caminhos do Douro, por obra do acaso, conheci o Barqueiro numa taberna que existe num recanto à beira da água. Conhecendo-lhe o nome não foi difícil perceber que tinha sido ele o autor da carta. Com calma fui contando essa história enquanto ele parecia estar a viver o momento que a criou balbuciando com os lábios passagens daquilo que escreveu. Então perguntei-lhe pela mulher destinatária dessa missiva e confrontei-o com esse amor antigo. Ele apontou com uma mão estendida e a tremer as águas do rio Douro e disse-me:
-O meu amor é o rio!
Mentiu por que eu vi os seus olhos marejados de lágrimas. Senti nesse momento a imensa dor de um e imaginei a pena de outro mas desconheço as razões da impossibilidade de realização dos seus sonhos de amor. Decerto esses motivos eram fortes e intransponíveis, possivelmente ele ou ela, sacrificou a própria felicidade para que outros fossem felizes.
O Douro é um rio que compreende todos os milagres da vida e deixa sempre que o inesperado aconteça mesmo sabendo que alguém vai sofrer por isso. Ele sabe que não podemos mudar a nossa história e que feliz ou infelizmente algumas vezes, todos temos de caminhar sozinhos neste mundo.


IN, "Conversas com um Rio" de Manuel Araújo da Cunha







sábado, 20 de março de 2010

Sonhos

O primeiro sonho guardou-o numa caixinha de fósforos usada. Era um sonho pequenino, tinha a ver com beijos e abraços de ternura que a mãe lhe dava quando despertava dos sonos de menino. Foi em cima do armário da cozinha que guardou essa pequena caixa de magia. Lembra-se que teve de subir acima da mesa para poder colocar esse cofre atrás das panelas grandes que raramente eram usadas. Guardo-a lá embrulhada num pedacito de jornal velho e continuou a sonhar.
O segundo sonho, era uma pouco maior, era um sonho com uma bola, que tinha um rio  e homens e mulheres lá dentro a quem ele e os companheiros de escola davam pontapés e atiravam para longe. Enquanto a bola subia no ar, ele ficava a pensar porque é que os homens e as mulheres que estavam dentro da bola não se importavam de andar aos salto, atirados de lado para lado e não fugiam de dentro da bola. Então no sonho viu o mundo, que era uma bola, com os homens e as mulheres lá dentro e ficou feliz por lhe poder dar pontapés e brincar com a bola que no sonho era o mundo.
Esse sonho tinha personagens verdadeiras e conhecidas dele, misturadas com algumas que lhe eram estranhas de corpos transfigurados como se fossem fantasmas. Enquanto a bola subia no ar ele via as pessoas a serem projectadas umas de encontro às outras num espaço vazio, lá dentro da bola. Depois a bola caìa no chão com estrondo e as pessoas dentro da bola caìam também desamparadas no chão vazio da bola e faziam gestos grotescos, e gritavam desesperadas dentro da bola.
No meio desse sonho, quando o seu peito arfava aflito viu criaturas a tentar sair de dentro da bola mas a bola, redonda, compacta e hermeticamente fechada, não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola. Farto do espectáculo de horror que os seus olhos estavam a observar, deu um pontapé com muita força na bola e a bola ficou algum tempo a pairar no espaço e, todas as pessoas dentro da bola sorriam felizes. Ele ficou feliz também porque ficou a saber nesse momento que as pessoas gostam de andar no ar dentro da bola que é redonda como o mundo que também tem pessoas e rios lá dentro. Lembra-se ter tido algum medo e de se agachar a tremer no meio do calor dos cobertores. A mãe disse-lhe depois que aquilo era um pesadelo e que havia de ter muitos mais sonhos desses no decorrer da vida. Apesar do incómodo e da angústia que lhe causou essa quimera, resolveu guardá-lo numa caixa de sapatos vazia. Pensou que um sonho mau como aquele tinha de ser enterrado na horta por baixo da figueira onde as galinhas depenicam ervas daninhas. Era mais seguro, um pesadelo assim, teria de ficar bem longe da casa e fora do seu alcance porque ele nunca mais queria voltar a sentir o desespero daquela noite em que sonhou com a bola que era igual ao mundo com rios  e pessoas lá dentro.
O terceiro sonho foi lindo, foi maravilhoso. Foi um sonho com raparigas vestidas de noiva a dançar numa festa em que ele era a figura principal e o rapaz mais desejado por todas as lindas mulheres vestidas de noiva. Lembra-se de uma que o fascinou nas voltas de valsas lindíssimas do sonho e o prendeu tanto nas elegantes mãos, que só um súbito acordar desfez esse feliz enleio. Esse que foi o seu mais belo sonho, guardou-o numa lata que tinha sido de tinta e pendurou-a amarrada com um arame ao lado da roda do carro de bois. Um sonho destes, pensou, tem de estar sempre perto e ao alcance de uma mão. Fechou o sonho na lata e depois nunca mais se lembrou dele.
Um dia de repente,deixou se sonhar e rebolava-se horas e horas na cama à espera dos sonhos que tardavam em chegar. Ele queria sonhar outra vez com as raparigas vestidas de noiva mas por mais que tentasse,o sonho não aparecia. Uma noite os sonhos voltaram e um deles, tinham a ver com uma bola que era igual ao mundo com rios e pessoas lá dentro que as crianças atiravam ao ar e davam pontapés. Neste novo sonho, ele estava do lado de dentro da bola que evoluía no ar e ele e as pessoas todas que estavam lá dentro sorriam felizes. Ao bater no chão a bola fazia um estrondo e ele era projectado para o chão vazio da bola de encontro às outras pessoas que gritavam desesperadas presas dentro da bola e tentavam sai de dentro da bola que era compacta, hermeticamente fechada e não tinha sitio de fuga possível como o mundo que é uma bola.
Acordou desse sonho e ficou a pensar que o mundo é uma bola com rios e pessoas lá dentro e que só as crianças podem brincar com ela, dar-lhe pontapés e atirá-la ao ar e que, as pessoas não podem sair de dentro da bola porque a bola é compacta, hermeticamente fechada e não tem sitio de fuga possível como uma bola.