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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Estórias aos Quadradinhos

Quando há alguns milhares de anos nascemos neste recanto do mundo, julgava-mos que iríamos ser muito felizes por toda a eternidade.
Nos primeiros tempos da nossa já longa existência, eu olhava para ti, via-te crescer lentamente e tu do outro lado do rio, olhavas para mim e, presumivelmente, deverias sentir o que eu sentia.
Passamos muitos anos, muitos dias e muitas noites a contemplar-nos um ao outro remetidos ao silêncio das coisas eternas e, nos dias em que a neblina te cobria totalmente, eu ficava só a pressentir-te desse lado a viver a angústia de quem perdeu um amigo. A manhã despontava e o lençol de algodão que te cobria, subia a serra e tu reaparecias a brilhar sob os matinais raios do sol.
Juntos vimos acontecer tanta coisa, pessoas nascerem e morrerem, crianças que se transformaram em adultos, vimos chegar outros que te desventraram as entranhas e retiraram de lá o minério cujo produto da venda, nunca foi usado em teu beneficio. Deixaram os teus e os meus filhos doentes, usaram a força da sua juventude em trabalhos forçados e a até desumanos para extraírem da terra o carvão que alimentava a indústria, os transportes e as caldeiras do aquecimento citadino enquanto o nosso povo, sofria as agruras do frio nos prolongados Invernos. Tinhas no interior do teu corpo as minas do Pejão indústria que ao mesmo tempo que dava ocupação laboral ao povo, aniquilava toda a esperança de poderes enfrentar o mundo novo que se avizinhava. Ficaste como eu agarrado ao passado, a ver secarem todas as ideias de moderno progresso, impedidas pela empresa de que todos dependiam e que como impiedoso opressor comandava tudo e quase todos não permitindo a instalação de outras fábricas no extenso raio que dominava. A mão-de-obra da região era dela, tudo o que atentasse contra esse privilégio era imediatamente abafado recorrendo a cooperações bem pagas vindas do poder instalado na capital do país. Dizem que foi a salvação destes povos que não dispunham de outras alternativas capazes de lhes assegurar sobrevivência mas e a par dessa realidade, obstruiu os caminhos que poderiam trazer novas dinâmicas, fechou as portas à esperança legítima, apanágio de todos os povos. Tudo poderia ter sido diferente não fora a continuidade da exploração da antracite minério poluidor responsável por centenas de mortes, presente envenenado, riqueza que reluziu por alguns anos e se desfez em nada.
Tanto passado, tanta história submersa nos rios que são nossos ou soterrada nas profundezas da terra agora vazia de riqueza, tantas mortes, tanta vergonha por terem consentido a fúria dos estrangeiros sedentos de abundâncias para si próprios, tanto orgulho nos povos resistentes e fazedores de esperança que viveram e vivem em nós. Tantos factos negativos que essas dinâmicas criaram e nos tornaram simples espectadores sentados na plateia do imenso teatro do mundo a testemunhar a inevitabilidade dos acontecimentos por que, nessa altura, nada poderíamos fazer para alterar a orientação à dramática história que se desenrolava em frente aos nossos olhos.
Lembras-te de quando éramos pequeninos e a mãe natureza nos colocou aos pés duas correntes de água cristalina e pura? A ti tocou-te o Arda, a mim a sorte ditou que fosse o rio Mau mas, para que os dois se sentissem protegidos, fez correr entre eles, o rio Douro imenso e então, a partir daí, tudo começou a ganhar forma.
Não falamos um com o outro durante este tempo todo e no entanto sabemos tudo o que se passa em cada uma das bandas do rio. Se o sino de Santa Eulália espalha badaladas no vento, fico a saber se vai haver missa, se morreu gente, se era homem ou mulher ou um anjinho cujo florir para a vida foi lancetado por efeito de doença, fome ou insuficiente nutrição.
Quando o sino da minha capela de S. João Baptista se faz ouvir desse lado, também tu tomas conhecimento das notícias mais urgentes e mais importantes. Se um foguete estoira sob o teu céu, ou escuto os sons de música difundida em potentes e amplificadas colunas, sei que estás em festa, que o teu povo rejubila de alegria e felicidade. Contigo acontece o mesmo quando os iguais sinais ecoam sobre o vale onde correm três rios.
Estamos frente a frente há milhares de anos e no entanto nunca nos consentiram um abraço que quebrasse este divórcio forçado onde o amor continua a ser a componente mais forte da separação. Bastava uma ponte que ligasse as duas margens do Douro para podermos enlaçar as mãos e seguir juntos até ao fim dos tempos. Os homens não permitem afectos, decidem sempre em seu próprio proveito sem atender às justas reivindicações dos povos e da salutar harmonia criada e abençoada pela natureza.
Como se não fosse suficiente a barreira do grande rio, separaram-nos quando decidiram dividir o país em distritos. Tu ficaste a pertencer a Aveiro e nem percebias patavina de ovos-moles nem tão pouco te dedicavam à recolha de moliços com barcos de borda baixa e de proa e ré elevadas, coisas muito diferentes dos teus barcos valboeiros conservadores das artes de navegar em rio, característica deixada pelos povos fenícios que aqui viveram.
Eu fui integrado no distrito do Porto, não protesto mas custa-me que tu fosses para tão longe do rio, dos barcos e do vinho generoso. Tu és mais douro, mais rabelo, mais valboeiro, enfim, és como eu uma entidade própria que não depende de ninguém nem recebe lições de nenhuma história escrita para justificar o injustificável e branquear a maldade de alguns dos mortos. Aliás todas as histórias são o produto de encomendas da época, recheadas de inverdades, fantasiadas de modo a provocar confusões, lavagem de consciências, reabilitação de figuras desastrosas misturadas com meia dúzia de casos por ventura verdadeiros. Para exemplo, cito-te uma pequena parte da história de Portugal que relata a tomada de Lisboa aos mouros pelo nosso vizinho Afonso Henriques de Guimarães. Isso foi quase verdade, aproxima-se do real embora atulhada da ficção que convinha na altura e veio a revelar-se importante para a nossa afirmação como pátria mas sucede, para desonra nossa, que em mais nenhuma história relatada do mundo aconteceu o inédito e impensável caso que viria a seguir. Os conquistados passaram a mandar nos conquistadores coisa que ainda hoje acontece e, este pequeno recanto onde nasceu a nacionalidade, só tarde demais ficou a saber que tinha lutado e vencido para ser transformado em dependente dos novos tiranos ocupadores do recinto. São pois os sucessores dos antigos mouros que nunca foram grandes guerreiros, mas mais vendedores de tecidos e camelos do que outra coisa, a decidir os destinos de todos nós. Fazem-no com a habilidade característica dos negociantes sem escrúpulos, ficam com a carne e deixam-nos as tripas, integram os muitos de nós que se deixam comprar alucinados pelo poder e mediatismo perpetuando assim o seu déspota e intolerável reinado que basicamente consiste em manter a abundância de alguns em prejuízo de todos os outros. Nunca percebi por que é que pessoas originais do interior, uma vez eleitos ou nomeados para ocupar cargos de grande decisão, na altura de decidir, fazem-no sempre em favor do litoral onde agora residem. O homem é um bicho muito complicado, nunca se deve atender às suas justas aspirações pois desde que as alcancem, transformam-se em autênticos canalhas.
Ai daquele ou daqueles que levantarem a voz contra tal opressão democrática, um coro de vozes obtusas atestadas por medalhões presenteados em cerimónias faustosas no dia de Camões e das Comunidades, aparece imediatamente a realçar o provincianismo de tal ou tais atitudes contra aquilo que consideram ser a união nacional desmentida permanentemente pelas estatísticas que provam as assimetrias e por tal objectividade dos números, confirma-se que sempre tivemos razão em protestar. As instâncias superiores do poder estão lá ao dispor e prontas a virem em massa e em força em defesa dos seus direitos que julgam adquiridos. Mete nojo, provoca desânimos em muitos, solturas que nenhum remédio cura mas contra aquilo que é considerado ordem, ninguém pode avançar. É por isso irmãos que nunca nos construíram aqui uma ponte. Lembro-me de um recente secretário de estado de um governo democraticamente eleito que um dia sentado deste lado do rio a olhar para ti, soltou do interior da sua falta de sentido de estado e de cultura, a seguinte observação: para que querem aqueles gajos uma ponte aqui, se ficam na mesma longe de tudo? Um ignorante é um homem perigoso à sociedade em qualquer parte do mundo mas nota-se mais a sua insipiência quando de ânimo leve analisa e decide sobre assuntos que desconhece. Só é possível haver gente assim por causa de um povo inculto que é como um rebanho de ovelhas, obedece ao pastor e vai sempre na direcção que ele soberanamente lhes indicar, até para a morte.
Lembro-me do dia do teu baptizado e daquela princesa moira que rasgou um dos pés nas pedras dos teus caminhos. Sentada nas Côncas a estrangeira, exclamou a frase de que parte viria a tornar-se o teu nome de menino;
-Tenho o pé dorido!
E tinha, não só pelas irregularidades dos carreiros mas também pela interminável e inútil viajem a que se tinha proposto. É uma lenda e, como todas as lendas obedece a um carácter fantástico ou fictício que combina factos reais e históricos com outros irreais que são meramente produto da imaginação dos povos. Seja como for algum motivo ou motivos existiriam na altura para que as pessoas te rebaptizassem rejeitando todos os nomes que a história pensa serem os da tua origem. Petraído não era de facto a designação mais correcta para definir um lugar maravilhoso banhado por dois rios. O mais certo será teres sido Pedorio, assim soa melhor e situa-te claramente no lugar que hoje ocupas ao pé do rio.
Pedorido, parece que a tua sina acabava de ser amaldiçoada por uma princesa vinda dos confins do mundo. Dorido foi o teu passado, talvez mais doloroso do que alguém pudesse imaginar para chegares como eu aos tempos da modernidade onde já nos apetece viver.
A mim baptizaram-me de Rio Mau e tu sabes porquê. Este pequeno curso de água que quase me cerca, transformava-se num louco quando absorvia os dilúvios que vinham dos montes. Rio Mau, rio muito mau.
Tudo se alterou desde então, o que era desolação e miséria foi transformado em beleza que extasia, ignorada cá dentro mas apreciada por gente estrangeira e representada em bagadas de água pura que são maravilhas e repouso para os olhares de quem já avançou para além da mediocridade e da indiferença e o que de mais maravilhoso a terra tem, a essência da vida. Somos bonitos meu irmão, não há neste mundo nada que se compare à nossa esbelta fisionomia de traços delicados onde a mãe natureza vem brinca todos dias.
Temos tanto orgulho em nós, tanta admiração pelo assombro que causamos a quem nos visita que muitas vezes coramos no rosto da nossa humildade. Tanta gente vive agora em nós, somos duas povoações viradas para o futuro assente num desenvolvimento sustentado que une e permite o nascer de uma nova cultura voltada para o que o mundo tem de novo e de esperança sempre com o passado preso numa das mãos.
Hoje apetecia-me abraçar-te meu irmão, sei que não me é possível estender os braços sobre o rio Douro e enlaçar-te com todo o enternecimento deste momento solene mas e perante essa impossibilidade, vou mandar-te o rio Mau ao encontro do teu Arda e então, as duas águas misturadas num abraço, vão assemelhar-se a um beijo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Coirão

Pedorido aparece ao virar da última curva negro de aspecto como negra é a terra que os homens vão pisar ali. A lava seca da ulha já há muito que tomou conta de tudo. A aldeia ficou feia, perdeu a graça e a beleza de terra de lovoura e de pescadores. Por baixo do pó negro que a enluta, não há nada só tocas de toupeiras humanas que lhe luram o chão até aos infinitos.
O Coirão, rapaz alto e escanzelado, descalço à dezasseis anos, envergando umas calças que desmedidas não ultrapassam o meio das pernas, fuma desesperadamente uma barôna de cigarro atirada fora por um dos mineiros, enquanto que com o pé direito, coça a canela da perna do pé esquerdo, olha atónito o cortejo que vê passar nas Côncas. Ausente de tudo, vivendo num mundo ainda mais irreal e fantástico e totalmente inacessível aos outros seres vivos, em regulares devaneios de objectiva lucidez, tinge as doiradas águas do douro de um vermelho vivo de sangue.
Quando a lua se agiganta no céu ou nos dias de vendavais em que os ventos sopram desesperados sobre a água do rio, o louco altera a sua habitual conduta pacífica, enfurece-se e inicia o resumido discurso que melhor descreve a parte mais sombria do lugar. O Coirão conserva arquivadas na doença do cérebro as magoas acumuladas ao longo da vida e, quando há uns anos se apercebeu que agigantado pela cheia o rio lhe cobria a barraca de dois metros quadrados onde ele e a mãe vivem, constitui-o no seu principal e talvez único inimigo:
-Rio é sangue, diz grosseiramente o Coirão que mal sabe falar. O pescoço desprende-se dos ombros oscilante e a cara toma uma forma grotesca e dolorida quando tenta pronunciar as palavras. No tremendo esforço para comunicar, a boca adquire formas medonhas e expele babas enquanto a cabeça se balanceia de lado para lado insegura e nervosa. O Coirão nunca conheceu o pai, sabe-se lá quem será. Tanto pode ser um mineiro como um doutor como um padre. Aquilo que ele conhece perfeitamente é a fome, o frio e muitos outros sofrimentos que o tornaram demente. Também reconhece pessoas importantes que com nojo o sacodem para longe como a um cão com lepra e lhe chamam tolinho. Nenhum deles lhe estende a mão caridosa, o abraça ou lhe calça os pés nus.
- Ele gosta de andar descalço, dizem.
Como se fosse justo e verdadeiro, como se houvesse alguém neste mundo tão insensível ao frio ao ponto de dispensar tal aconchego, nem um louco senhores, nem um louco.
Rio é sangue Coirão. Nunca ninguém conseguiu retratar como o Coirão o rigor absoluto da verdade. Porque não consegue encontrar as palavras exactas para definir a dor da sua mãe perante a calamidade causada pela descomunal cheia, mas sabe que o sangue brota sempre doloroso, encontra nessa frase atabalhoada o sinónimo que a sua voz jamais pronunciaria correcta e claramente. Rio é sangue! É sangue de facto por isso e também por outros motivos que te passam bem longe dos recantos até onde abrange a tua compreensão e que por isso desconheces. Sangue dos barqueiros do douro e dos marinheiros dos Rabões da Esquadra Negra. Em cada escarpa das margens há vincos gravados a encarnado a perpetuar a história desses desgraçados e os gomos da água do rio falam constantemente desse imenso sofrimento.
Os mundos do Coirão são outros, bem mais complicados, muito mais negros. O louco sente e sofre no interior da sua insanidade ao ver com espanto as caras e as mãos dos homens, tracejadas com feridas cicatrizadas com mijo e pó de carvão, marcas irreversíveis companheiras até á morte, até à cova onde a terra gorda, apagará para sempre essas sinistras tatuagens. Adivinha-lhes o resto do corpo que, todo coberto pelas esfarrapadas roupas não é visível, também marcado, desenhado a negro como se um pintor louco tecesse essa estranha tela.
Todos passam por ele neste amanhecer tranquilo. Qualquer dos mineiros o conhece e respeita a sua loucura. Olham-no como quem olha uma flor que murchou, com pena e com raiva. O louco assiste impassível a estas marchas sinistras todos os dias e olha-os um a um com uns olhos parados a perscrutar um horizonte tão infinito como a sua loucura. A barôna queima-lhe já os lábios e indiferente à dor que lhe provoca aquele pedaço de cigarro, só se lhe nota no rosto um esgar estranho que chega a assustar os mais pequenos.
O choupal ensombra este bocado de terra porque o sol se escondeu na Póvoa. O rio Douro segue o seu destino tranquilo brincando com as pedrinhas do galheiro e, o Coirão sozinho, deita-se na areia da praia e dorme tranquilamente o sono dos simples.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Marcha ao Alvorecer


Marcha ao Alvorecer

Conto



Em fila indiana, no centro da madrugada escura e fria, gasómetro pendurado na gola da camurcina de ganga azul, capacete de chapa enfiado na cabeça, os homens que minam o interior da terra em Germunde descem o empedrado granítico da rua do Remoinho, arrastando pesadas botas de água, de marca pinta - amarela.
As silhuetas recortadas nas coçadas pedras da calçada pelo difuso clarão de uma alvorada que se declara ainda afastada, fazem lembrar estranhos fantasmas de gente ou fila de condenados à morte a caminho da forca.
Na realidade, escondidos nas sombras desta noite constelada, irmanados no idêntico sentimento de uma aflição redobrada, movem-se como autómatos sem vacilar para um desfecho silencioso e lento, às vezes abrupto, mas sempre inexorável. Esta estranha marcha poderá ser a derradeira e, muitas vezes, para alguns deles é. Apesar da bestial realidade, do fantástico drama humano que por repetido se adivinha, esta é uma ocasião de beleza rara com o manto da noite a cobrir as terras, a desenhar os contornos das serranias na débil claridade. É colossal a força que vem dos lados de leste a elevar-se vagarosamente rasgando com um gigantesco clarão de luz, todos os mistérios da natureza que as sombras nocturnas agasalharam. Que maravilhoso momento é contemplar o nascer do sol no alto da serra de S. Domingos. É um esplendor fantástico este que deixa os nossos olhos deslumbrados perante a magnífica obra celeste.
O rumor surdo das pesadas botas a pisar as pedras da calçada, corta o absoluto silêncio dos pobres condenados. Não falam, há muito que se esgotaram as palavras pela ausência de quem afectuoso as ouvisse e, a violenta realidade desta hora convida ao silêncio e à meditação.
São muitos a povoar a noite. De variadas e diferentes procedências, algumas situadas muito longe das beiras do rio douro onde igualmente se não pode ficar imóvel à espera do sustento, todos se reencontram aqui na confluência dos caminhos que atravessam montes e vales e, quase sem um cumprimento ou outro qualquer gesto de saudação, completam o resto da jornada lado a lado envolvidos numa mudez terrível e assustadora. Todos eles carregam nas pernas, além do resto do sacrificado corpo, as mais complexas emoções que um ser humano pode experimentar em semelhantes circunstâncias. Cada alma destes mineiros é uma alma desamparada e sozinha, entregue a si própria, sem passado, sem presente, sem futuro e até sem Deus. Os olhos que reluzem nas duas cavernas ao cimo do rosto, deixam perceber a medonha angústia que os deteriora e mal reflectem as semelhantes que a vida produz, arquivadas à força no espírito e que se manifestarão num noutro tempo e em outros diferentes lugares. Não desapareceram por qualquer arte de magia, foram apenas substituídas pela mais pavorosa de todas; serem enterrados vivos.
Na funesta procissão que rabisca pelos caminhos do monte em frente a S. Domingos e já a aproximar-se do leito do rio, vai o Alberto Minhoca que delgado pela magreza carrega nas pernas um metro e noventa de corpo esquelético. Ao cimo da cara cumprida reluzem espantados uns olhitos claros e imóveis. Na cabeça uma boina preta e, por cima desta o capacete de chapa enfiado, cobrem-lhe a quase totalidade dos cabelos castanhos. Na sua companhia e deveras taciturno vai o Isidro Sardão sujeito que aparenta ter à volta de trinta anos vestindo uma indumentária que em pouco varia da do companheiro e parece ser manifestamente uma figura desempenada que assume a mudez matinal muito embora a mente lhe trabalhe, ruminando pensamento. O Alberto submerso dentro de si próprio, pensa na mulher prenhe de nove meses prestes a parir e na incerteza dessa hora feliz e trágica da sua vida. Já é pai de três filhos e, a inevitável possibilidade de nascer mais um, agita compulsivamente todo o seu ser. A ideia consola-o e ao mesmo tempo aflige-lhe a alma, pela certeza de que o pão que dia a dia procura, não vai chegar para todos.
- E se é hoje!? Pensa!
- Se calhar vai nascer e eu na mina!
A tortura da ausência obrigatória faz-lhe doer o peito mas logo vem o lenitivo débil, intemporal, quase ridículo.
- A ti Joaquina toma conta dela, Já foi ela que pôs os outros cá fora. Não vai haver nenhum perigo!
Num ápice dissipa-se o medo, esclarece-se a dúvida, ganha forma a esperança. Mas que esperança? Conhecedores do antigo provérbio usado ao longo de séculos - enquanto há vida há esperança, sabem perfeitamente que pode haver vida, que embora palpite o coração, pode não existir qualquer espécie de fé num futuro melhor.
São poucos ou nenhuns os adjectivos capazes de qualificar o estado de espírito do Minhoca. As muitas adversidades quotidianas são o somatório de infindáveis amarguras, são mágoas acumulada ao longo da vida a sangrar e a doer em carne viva. Por isso o Alberto tem sempre presente que, enquanto avança por instinto na existência, pode já ter acabado toda a esperança.
O companheiro de anormal estatura ostenta na cara oval, onde esvoaça mirrado um sorriso permanente, uma barba que aparece rara e combina com cor dos cabelos. Vem de longe, de Cabroelo e já traz nas botas duas extenuantes horas de caminhada a atravessar de lés – a – lés a serra da Boneca. A sua preocupação é real e todavia patética por tão desajustada ao drama presente:
Não há dinheiro para comprar foguetes para a festa de S. Mateus. O pouco que resta vai leva-lo a banda musical de Lagares. Ele é um dos mordomos e, só a possibilidade de falhar ao compromisso assumido na roda da última festividade momento em que pela primeira vez se sentiu orgulhoso, massacra-lhe o espírito. Já fizera três peditórios, ele e os outros mordomos. Foram esmolar às freguesias da Capela, Canelas e Figueira mas apesar de se terem empenhado, pouco rendeu a recolha. As vidas andam baixas. Não há tostão nos bolsos do povo.
- E se fosse às Termas de S. Vicente, pensou!
Aquela é uma terra farta, pelo menos consta-se. Dizem haver lá lavradores a colher vinte e trinta pipas de vinho e dez carros de milho. Pensando melhor, havia de lá ir no próximo fim-de-semana, talvez no Domingo. Saia cedo e era capaz de chegar no fim da missa encontrando assim o povo todo reunido A correr pelo melhor, podia render uns trezentos a quatrocentos mil réis. Era bem bom, já se comporiam as coisas. Duas ou três dúzias de foguetes, bombas umas seis, o resto de revolta e seriam plenamente atingidos os fins a que como festeiro se propôs. Os habitantes da vizinha povoação da Capela, sede da freguesia a que pertence, haviam de ver então, quem é que canta-de-galo.
A sua mente simples e tacanha já o transportava à festa e, no seu subconsciente, no precário imaginário da mente, via o Coelho regedor encolhido e envergonhado perante tal afronta e, ele Isidro Sardão todo enfiado num fato de mescla, com uma gravata às riscas ao pescoço a sair tombada por entre os colarinhos da camisa de popelina branca, ao lado da corpulenta mulher, satisfeito com a vida.
A alvorada aproxima-se, a barca que vai transportar este grupo na travessia do rio acaba de atracar e, todos em fila calcam a improvisada prancha de madeira e entram na embarcação amontoando-se em pé cabisbaixos.
Germunde a terra negra para onde se dirigem, está à vista lá ao fundo na outra banda do douro e já lhe adivinham a sombria fachada enquanto as suas almas amarguradas começam a rezar baixinho.Parecem ter entrado no momento pavoroso da submissão. O espírito etéreo abandona por algumas horas o corpo que vai mergulhar na terra. O alma procura a luz e abomina as escuridões sem nunca cooperar com este intolerável enterro de pessoas vivas e assim sendo, ficam só os articulados esqueletos mecanicamente a avançar para o buraco onde a noite se perpétua. Não existe permitida determinação própria nestes pedaços de carne humana. Simples seres sem quaisquer direitos, manejados por vontades interesseiras que não contemplam a análise da dor, do sofrimento e da desumanidade do trabalho, vergados e impotentes perante semelhante desdita, totalmente desprotegidos caminham como bizarras marionetes para uma labuta que quem ordena torna desonrosa e desprezível.
Não há homens em Germunde, as figuras estrambóticas que passam na escuridão são a matéria, a energia barata que vai ser usada a cavar o chão. Estas despersonalizadas criaturas pouco valem aos olhos dos patrões, ou melhor, não valem nada. Cada um representa-se a si próprio e, se alguma vez se lhes enfeita um sorriso nas caras enegrecidas pelo carvão, é fugaz, passageiro e maculado por uma névoa de mágoa e tristeza que nunca lhes abandona o olhar.
É difícil entender, compreender o que surpreende mais nestes mineiros se a sua submissão ao trabalho sem um protesto, se a apatia com que deixam passar os dias e os anos a morrer aos poucos nas profundezas da terra. Tal abandono à sorte vai ter de ter um fim.