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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Estórias aos Quadradinhos

Quando há alguns milhares de anos nascemos neste recanto do mundo, julgava-mos que iríamos ser muito felizes por toda a eternidade.
Nos primeiros tempos da nossa já longa existência, eu olhava para ti, via-te crescer lentamente e tu do outro lado do rio, olhavas para mim e, presumivelmente, deverias sentir o que eu sentia.
Passamos muitos anos, muitos dias e muitas noites a contemplar-nos um ao outro remetidos ao silêncio das coisas eternas e, nos dias em que a neblina te cobria totalmente, eu ficava só a pressentir-te desse lado a viver a angústia de quem perdeu um amigo. A manhã despontava e o lençol de algodão que te cobria, subia a serra e tu reaparecias a brilhar sob os matinais raios do sol.
Juntos vimos acontecer tanta coisa, pessoas nascerem e morrerem, crianças que se transformaram em adultos, vimos chegar outros que te desventraram as entranhas e retiraram de lá o minério cujo produto da venda, nunca foi usado em teu beneficio. Deixaram os teus e os meus filhos doentes, usaram a força da sua juventude em trabalhos forçados e a até desumanos para extraírem da terra o carvão que alimentava a indústria, os transportes e as caldeiras do aquecimento citadino enquanto o nosso povo, sofria as agruras do frio nos prolongados Invernos. Tinhas no interior do teu corpo as minas do Pejão indústria que ao mesmo tempo que dava ocupação laboral ao povo, aniquilava toda a esperança de poderes enfrentar o mundo novo que se avizinhava. Ficaste como eu agarrado ao passado, a ver secarem todas as ideias de moderno progresso, impedidas pela empresa de que todos dependiam e que como impiedoso opressor comandava tudo e quase todos não permitindo a instalação de outras fábricas no extenso raio que dominava. A mão-de-obra da região era dela, tudo o que atentasse contra esse privilégio era imediatamente abafado recorrendo a cooperações bem pagas vindas do poder instalado na capital do país. Dizem que foi a salvação destes povos que não dispunham de outras alternativas capazes de lhes assegurar sobrevivência mas e a par dessa realidade, obstruiu os caminhos que poderiam trazer novas dinâmicas, fechou as portas à esperança legítima, apanágio de todos os povos. Tudo poderia ter sido diferente não fora a continuidade da exploração da antracite minério poluidor responsável por centenas de mortes, presente envenenado, riqueza que reluziu por alguns anos e se desfez em nada.
Tanto passado, tanta história submersa nos rios que são nossos ou soterrada nas profundezas da terra agora vazia de riqueza, tantas mortes, tanta vergonha por terem consentido a fúria dos estrangeiros sedentos de abundâncias para si próprios, tanto orgulho nos povos resistentes e fazedores de esperança que viveram e vivem em nós. Tantos factos negativos que essas dinâmicas criaram e nos tornaram simples espectadores sentados na plateia do imenso teatro do mundo a testemunhar a inevitabilidade dos acontecimentos por que, nessa altura, nada poderíamos fazer para alterar a orientação à dramática história que se desenrolava em frente aos nossos olhos.
Lembras-te de quando éramos pequeninos e a mãe natureza nos colocou aos pés duas correntes de água cristalina e pura? A ti tocou-te o Arda, a mim a sorte ditou que fosse o rio Mau mas, para que os dois se sentissem protegidos, fez correr entre eles, o rio Douro imenso e então, a partir daí, tudo começou a ganhar forma.
Não falamos um com o outro durante este tempo todo e no entanto sabemos tudo o que se passa em cada uma das bandas do rio. Se o sino de Santa Eulália espalha badaladas no vento, fico a saber se vai haver missa, se morreu gente, se era homem ou mulher ou um anjinho cujo florir para a vida foi lancetado por efeito de doença, fome ou insuficiente nutrição.
Quando o sino da minha capela de S. João Baptista se faz ouvir desse lado, também tu tomas conhecimento das notícias mais urgentes e mais importantes. Se um foguete estoira sob o teu céu, ou escuto os sons de música difundida em potentes e amplificadas colunas, sei que estás em festa, que o teu povo rejubila de alegria e felicidade. Contigo acontece o mesmo quando os iguais sinais ecoam sobre o vale onde correm três rios.
Estamos frente a frente há milhares de anos e no entanto nunca nos consentiram um abraço que quebrasse este divórcio forçado onde o amor continua a ser a componente mais forte da separação. Bastava uma ponte que ligasse as duas margens do Douro para podermos enlaçar as mãos e seguir juntos até ao fim dos tempos. Os homens não permitem afectos, decidem sempre em seu próprio proveito sem atender às justas reivindicações dos povos e da salutar harmonia criada e abençoada pela natureza.
Como se não fosse suficiente a barreira do grande rio, separaram-nos quando decidiram dividir o país em distritos. Tu ficaste a pertencer a Aveiro e nem percebias patavina de ovos-moles nem tão pouco te dedicavam à recolha de moliços com barcos de borda baixa e de proa e ré elevadas, coisas muito diferentes dos teus barcos valboeiros conservadores das artes de navegar em rio, característica deixada pelos povos fenícios que aqui viveram.
Eu fui integrado no distrito do Porto, não protesto mas custa-me que tu fosses para tão longe do rio, dos barcos e do vinho generoso. Tu és mais douro, mais rabelo, mais valboeiro, enfim, és como eu uma entidade própria que não depende de ninguém nem recebe lições de nenhuma história escrita para justificar o injustificável e branquear a maldade de alguns dos mortos. Aliás todas as histórias são o produto de encomendas da época, recheadas de inverdades, fantasiadas de modo a provocar confusões, lavagem de consciências, reabilitação de figuras desastrosas misturadas com meia dúzia de casos por ventura verdadeiros. Para exemplo, cito-te uma pequena parte da história de Portugal que relata a tomada de Lisboa aos mouros pelo nosso vizinho Afonso Henriques de Guimarães. Isso foi quase verdade, aproxima-se do real embora atulhada da ficção que convinha na altura e veio a revelar-se importante para a nossa afirmação como pátria mas sucede, para desonra nossa, que em mais nenhuma história relatada do mundo aconteceu o inédito e impensável caso que viria a seguir. Os conquistados passaram a mandar nos conquistadores coisa que ainda hoje acontece e, este pequeno recanto onde nasceu a nacionalidade, só tarde demais ficou a saber que tinha lutado e vencido para ser transformado em dependente dos novos tiranos ocupadores do recinto. São pois os sucessores dos antigos mouros que nunca foram grandes guerreiros, mas mais vendedores de tecidos e camelos do que outra coisa, a decidir os destinos de todos nós. Fazem-no com a habilidade característica dos negociantes sem escrúpulos, ficam com a carne e deixam-nos as tripas, integram os muitos de nós que se deixam comprar alucinados pelo poder e mediatismo perpetuando assim o seu déspota e intolerável reinado que basicamente consiste em manter a abundância de alguns em prejuízo de todos os outros. Nunca percebi por que é que pessoas originais do interior, uma vez eleitos ou nomeados para ocupar cargos de grande decisão, na altura de decidir, fazem-no sempre em favor do litoral onde agora residem. O homem é um bicho muito complicado, nunca se deve atender às suas justas aspirações pois desde que as alcancem, transformam-se em autênticos canalhas.
Ai daquele ou daqueles que levantarem a voz contra tal opressão democrática, um coro de vozes obtusas atestadas por medalhões presenteados em cerimónias faustosas no dia de Camões e das Comunidades, aparece imediatamente a realçar o provincianismo de tal ou tais atitudes contra aquilo que consideram ser a união nacional desmentida permanentemente pelas estatísticas que provam as assimetrias e por tal objectividade dos números, confirma-se que sempre tivemos razão em protestar. As instâncias superiores do poder estão lá ao dispor e prontas a virem em massa e em força em defesa dos seus direitos que julgam adquiridos. Mete nojo, provoca desânimos em muitos, solturas que nenhum remédio cura mas contra aquilo que é considerado ordem, ninguém pode avançar. É por isso irmãos que nunca nos construíram aqui uma ponte. Lembro-me de um recente secretário de estado de um governo democraticamente eleito que um dia sentado deste lado do rio a olhar para ti, soltou do interior da sua falta de sentido de estado e de cultura, a seguinte observação: para que querem aqueles gajos uma ponte aqui, se ficam na mesma longe de tudo? Um ignorante é um homem perigoso à sociedade em qualquer parte do mundo mas nota-se mais a sua insipiência quando de ânimo leve analisa e decide sobre assuntos que desconhece. Só é possível haver gente assim por causa de um povo inculto que é como um rebanho de ovelhas, obedece ao pastor e vai sempre na direcção que ele soberanamente lhes indicar, até para a morte.
Lembro-me do dia do teu baptizado e daquela princesa moira que rasgou um dos pés nas pedras dos teus caminhos. Sentada nas Côncas a estrangeira, exclamou a frase de que parte viria a tornar-se o teu nome de menino;
-Tenho o pé dorido!
E tinha, não só pelas irregularidades dos carreiros mas também pela interminável e inútil viajem a que se tinha proposto. É uma lenda e, como todas as lendas obedece a um carácter fantástico ou fictício que combina factos reais e históricos com outros irreais que são meramente produto da imaginação dos povos. Seja como for algum motivo ou motivos existiriam na altura para que as pessoas te rebaptizassem rejeitando todos os nomes que a história pensa serem os da tua origem. Petraído não era de facto a designação mais correcta para definir um lugar maravilhoso banhado por dois rios. O mais certo será teres sido Pedorio, assim soa melhor e situa-te claramente no lugar que hoje ocupas ao pé do rio.
Pedorido, parece que a tua sina acabava de ser amaldiçoada por uma princesa vinda dos confins do mundo. Dorido foi o teu passado, talvez mais doloroso do que alguém pudesse imaginar para chegares como eu aos tempos da modernidade onde já nos apetece viver.
A mim baptizaram-me de Rio Mau e tu sabes porquê. Este pequeno curso de água que quase me cerca, transformava-se num louco quando absorvia os dilúvios que vinham dos montes. Rio Mau, rio muito mau.
Tudo se alterou desde então, o que era desolação e miséria foi transformado em beleza que extasia, ignorada cá dentro mas apreciada por gente estrangeira e representada em bagadas de água pura que são maravilhas e repouso para os olhares de quem já avançou para além da mediocridade e da indiferença e o que de mais maravilhoso a terra tem, a essência da vida. Somos bonitos meu irmão, não há neste mundo nada que se compare à nossa esbelta fisionomia de traços delicados onde a mãe natureza vem brinca todos dias.
Temos tanto orgulho em nós, tanta admiração pelo assombro que causamos a quem nos visita que muitas vezes coramos no rosto da nossa humildade. Tanta gente vive agora em nós, somos duas povoações viradas para o futuro assente num desenvolvimento sustentado que une e permite o nascer de uma nova cultura voltada para o que o mundo tem de novo e de esperança sempre com o passado preso numa das mãos.
Hoje apetecia-me abraçar-te meu irmão, sei que não me é possível estender os braços sobre o rio Douro e enlaçar-te com todo o enternecimento deste momento solene mas e perante essa impossibilidade, vou mandar-te o rio Mau ao encontro do teu Arda e então, as duas águas misturadas num abraço, vão assemelhar-se a um beijo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Solidão

Às vezes é por terra que percorro a distância entre a foz do rio Douro e Miranda onde ele entra em Portugal e começa a fazer fronteira com Espanha até Barca D´Alva. A partir dali, embrenha-se todo no nosso território e segue a serpentear tortuoso por entre serras até chegar ao mar onde desagua coroado pelas cidades do Porto e V.N. de Gaia.
Vou por estradas que subindo e descendo montanhas, apontam diversificadas direcções sempre com o rio à vista. Nos planaltos do extremo nordeste, assisto à desertificação e ao abandono de campos, de aldeias inteiras deixadas entregues à sua sorte pelo resto de um país que perdeu já a sua identidade. Este comportamento tem uma razão que se prende com a vida desumana que tem feito parte de cada uma das gerações ligadas às actividades agrícolas consideradas, sector primário. Nenhuma das famílias que viveram da agricultura de subsistência desejam para os seus filhos e netos, o regresso a esse tempo de sacrifício motivado pelo desprezo com que a sociedade quase no seu todo em determinado momento da nossa história olhava para os trabalhadores do campo. Intitulava-os de labregos e outros apelidos redutores e depreciativos que aliados a más condições de subsistência fizeram um sector essencial ao equilíbrio sustentado de um país desertar e empreender métodos de vida semelhantes às dos cosmopolitas maldizentes
Há também uma outra razão muito mais pomposa que encanta os ouvidos dos mais susceptíveis às moderníssimas chamadas do mundo em constante mudança. Chama-se cosmopolitismo que desgraçadamente empurra toda uma nação na direcção do mar onde fica emparedada e sem horizonte capaz de lhe proporcionar a continuidade do avanço que empreendeu. Restar-lhe-á recuar, voltar às origens e empreender futuros. As gerações modernas têm pressa de chegar ao fim. Esqueceram o presente e já vivem no futuro onde tudo constitui incógnita e provoca desesperos medonhos. Quem lhes diz que a vida se faz caminhando paulatinamente? Os governos? Não, esses existem para administrar aglomerados centralizados o mais possível, acessíveis aos toques das suas varas, quais pastores que os tosquiam constantemente e, assoberbam com promessas que raramente cumprem. Descaradamente já nem percorrem o país rural de modo a sentir-lhe o pulso, a agonia, a lentidão da morte que também vai ser a deles e quiçá, ajudá-lo a renascer a não ser nas campanhas eleitorais onde se pavoneiam em sumptuosas caravanas de carros de luxo a alta velocidade à cata dos votos dos lorpas e nunca param nas terras pequenas seguindo directos aos auditórios onde os ditos reunidos por pequenos oligarcas locais pacientemente os aguardam agitando freneticamente as bandeiras do partido que muitos nem conhecem. É a política, a arte de vender enchidos com pouca carne lá dentro. Todavia não é a política em si uma actividade perversa, os actores políticos, muitas vezes sem formação cívica, é que não reúnem vocação para desempenhar essa função e dedicam-se em primeira instancia a resolver os seus problemas, os dos amigos e familiares e os da sua quinta improdutiva por flagrante má gestão. Esses representantes do poder eleitos democraticamente, são propostos ao voto não pelas suas capacidades morais, intelectuais ou outras não menos importantes ao desempenho de cargos públicos, são fabricados à medida das necessidades das organizações partidárias onde militam. Indiferentes às causas colectivas, egoístas, ignoram conceitos solidários, procedem como pequenos ditadores impondo a sua vontade contra tudo e contra todos às vezes por manifesta burrice.
A indiferença é o maior sinal da incompetência de quem gere. O castigo surgirá num tempo oportuno não sem antes haver choros e ranger de dentes até que o interior erga altivo a espada da razão para repetir a solidariedade desaproveitada só porque nada teme, nada o assusta nem a morte consentida por quem manda.
Repentinamente o rio desaparece-me das vistas, esconde-se por de trás de uma elevação para inesperadamente me surgir mais à frente surpreendente e majestoso. Cada uma destas sucessivas aparições desvenda um panorama novo e tal como Miguel Torga descreveu num trecho sublime, não é um quadro que os olhos contemplam, é uma desmesura de natureza arrogante. Poios que são esforços de indivíduos formidáveis a subir as encostas, vultos, colorações e toadas que nenhum artífice, escultor, pintor ou até músico nunca conseguiriam representar na perfeição das suas artes, são horizontes ampliados para lá dos patamares admissíveis da visão, um cenário que arrebata, uma vista fantástica a nascer entre a terra e o céu.
Nada me consola mais que essa peregrinação pelas terras que dão vinho generoso e onde corre um rio sempre lá ao fundo dos vales que adoptou como leito. Tudo é dinâmico, nada se repete etapa após etapa e, os contrastes naturais são tão apelativos que algumas vezes assustam e outras vezes nos comovem.
Um dia quando viajava pelo douro, afastei-me um pouco do trilho conhecido e, por uma estrada secundária fui parar a um ermo onde em tempo passado existiu uma aldeia. Havia velhas casas desmoronadas, árvores secas, roseiras que deixaram de ter água, pedras caídas por todo o espaço como se uma bomba atómica tivesse deflagrado ali e deixasse só restos espalhados no chão queimado por sucessivos incêndios e a terra em repouso à espera dos arados a ver ao longe a fome a entrar em muitas casas.
No meio desse cenário desolador, havia um edifício cujo aspecto me pareceu ter resistido à fúria de todas as intempéries, ao desleixo que a nação aplaude.
Sentada na pedra de um fontenário que teimava em gotejar dia e noite estava uma velha mulher e, ao lado dela um cão já velho deitado no chão de cascalho, dormia tranquilamente. O suposto atento vigilante, não tinha dado pela minha presença ou então já nem lhe interessava quem quer que fosse a pessoa que viesse interromper-lhe o deleite do sono. A prolongada solidão gera o cansaço no ser e transforma homens e animais em pedras de indiferença.
As ervas cresceram ao ritmo acelerado do abandono, o único conhecido ritmo deste lugar perdido. A velocidade da seiva que nutre caules verdes, já há muito que só alimenta os fios do esquecimento. São silvas que crescem espinhosas e amortalham lugares onde a vida existiu. Quase todos os homens e mulheres que aqui nasceram, envelheceram com a terra, morreram ou partiram em busca de melhor pão.
A velha parecia-me uma fotografia antiga perfeitamente enquadrada na tristeza da paisagem, descolorida como estátua onde se agarram musgos eternos. A sua cabeça coberta por grinaldas de cabelos brancos, tombava sobre o peito como quem subitamente adormeceu cansado. Talvez sinta o desespero de quem ficou quando todos partiram ou reflicta sobre o mundo que a deixou sozinha neste deserto sem pessoas que se precipita sobre um rio. Resta-lhe pousar a mão sobre o joelho sentada nesta pedra de granito tornada áspera pelo tempo e esperar pelo fim dos dias.
Uns olhos pequeninos afundados em dois buracos circundados por peles encorrilhadas vieram sem pressa até mim e, a expressão daquele rosto antigo manteve-se inalterada como se eu próprio fosse apenas mais um vento que vinha do sul sacudir-lhe os cabelos ralos e brancos. Ventos perpétuos que por aqui passam todos os dias a sacudirem as pedras e transportam dentro da sua permanente erosão poeiras que vão apagando os vestígios humanos.
Senti desejo de comunicar com aquela figura que me fazia lembrar a escultura do mestre Soares dos Reis, O Desterrado, magnifica simbologia do espírito de decadência da nação, que imperava em finais do século XIX. Desterrada também ela estava num lugarejo esquecido por via de acontecimentos semelhantes aos de hoje ocorridos há muito mais de cem anos.
A história repete-se duas vezes, escreveu um dia Marx: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Curioso, qualquer uma delas refere-se a uma peça teatral, será então de supor que a história ao repetir-se não passa de mera representação previamente encenada onde as pessoas se movimentam num palco colectivo sem esperança e embarca no mesmo conflito de identidade característica dos povos em vias de desenvolvimento.
Segundo Aristóteles, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens de elevada condição e ser contada em linguagem distinta e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados pelo seu orgulho ao tentarem rebelar-se contra as forças do destino. De finais tristes e desmesuradas loucuras está repleta a nossa história contemporânea vergada a interesses individuais que geram disparidades e acentuam distâncias abismais entre ricos e pobres.
Por sua vez a farsa é uma modalidade burlesca também de peça teatral caracterizada por personagens e situações caricatas, é um texto de carácter cómico que o autor faz com o objectivo de satirizar algum comportamento que ele considera nocivo para a sociedade, fazendo com que, quem assistisse ao teatro, visse como é ridículo ter aquele procedimento passando a repudia-lo. Isso fez com que a sociedade rejeitasse determinadas conduta, prejudiciais a todo o povo.
Burlescos e cómicos têm sido os últimos tempos que vivemos em que parte da sociedade enaltece a falta de cultura, ética, a ausência de princípios, a desqualificação e, em prejuízo destas, se elogia a esperteza, a ganância, o exibicionismo folclórico e quem mediático se tornou pelo simples motivo de agradar às massas estúpidas que cultivam celebridades duvidosas.
Seja como for, nenhuma delas impede a caminhada do mundo para a auto-destruição deste tipo civilizacional tal o conhecemos, cenário cada vez mais plausível no horizonte contaminado da terra, tragédia ou farsa a história moderna não é mais que o reflexo da nossa incapacidade de conquistar o futuro honrando o passado e de corrigir imensos erros transactos apreendendo com eles e não os repetindo, ou será a inevitável execução de ordens naturais programadas para mudanças sucessivas no universo onde habitamos? Outras culturas emergirão após o desaparecimento da nossa, nada se perderá e, como aconteceu até aqui, tudo se vai transformar.
- Bom dia minha senhora!
- Muito bom dia, respondeu-me sem qualquer surpresa nas mãos que lhe dormiam no regaço, quietas, enrugadas e queimadas por um estranho lume.
-A senhora mora aqui, perguntei.
-Há oitenta e nove anos e meio meu senhor, nunca daqui saí até hoje!
-Tem mais alguém a viver consigo?
-Não meu senhor, já há quinze anos que moro aqui sozinha, foram-se todos embora!
-E não tem família?
-Não meu senhor, morreram todos, fiquei só eu!
Enquanto falava reparei que os olhos dela pareciam duas telas onde passavam imagens de cenas que só ela viveu. Olhos de velhos onde se acumulam saberes e visões esquecidas, vistas que a bruma dos anos embaciou e roubou o brilho mas nem por isso deixaram de ter a sua luz magnífica.
-Deve ser muito difícil viver neste sítio sem ter companhia, murmurei.
- Não meu senhor, tenho aqui a minha vida toda, criei-me nestes caminhos, corri os montes antes florestados na apanha das lenhas para sustentar o lume da lareira onde se cozinhava todos os dias, aqui me fiz mulher e me casei, foi aqui que eu nasci e fui muito feliz durante muitos e bons anos! Isto dantes era uma terra cheia de gente e de vida, havia festas e romarias, as vinhas estendiam-se quase até tocar no rio, os campos davam comida para as pessoas e para os gados. Depois começaram a ir uns atrás dos outros para o estrangeiro, isto parou de recompensar o esforço que se fazia para tratar a terra, o vinho deixou de valer dinheiro, ninguém o queria nem de graça, compravam outro que vinha de fora mais barato mas feito a martelo, desapareceu tudo até só ficarem os velhos, os cães e os gatos. Acabou tudo meu senhor até as árvores que existiam aqui em volta foram queimadas pelo lume dos fogos que já ninguém apaga.
Nisto o cão levantou-se e começou a ladrar ameaçadoramente na minha direcção.
-Cala-te Mondego, só te chegou o cheiro ao nariz agora? É um senhor do Porto que aqui está, veio visitar-nos disse ela enquanto lhe afagava ternamente a cabeça. O animal calou-se, rodou duas vezes sobre si próprio e voltou a esticar-se tranquilo no chão.
- Sabe meu senhor, ele ficou velho como eu fiquei, está surdo e cego, só atina pelo faro coitadinho!
-Pobre e dedicado animal, o que será que te prende aqui pensei!
-Deve ser muito triste viver neste lugar sem ver nada para lá dos montes, retorqui.
-Olhe lá para baixo meu senhor, não vê o rio douro? Está sozinho como eu e não se queixa, fazemos companhia um ao outro, vamos vivendo olhando-nos todos os dias!
Apeteceu-me beijar aquele rosto sereno, contendo todavia esse impulso repentino, perguntei-lhe:
-Posso dar-lhe um beijinho de despedida?
-Beijos não meu senhor, desculpe mas eu só fui beijada por um homem em toda a minha vida, era o meu António que descansa além no cemitério, todos os meus beijos ainda são só os dele!
Ah ínclito povo do meu país quase desfeito, roubam-te tudo o que te fez culto e empreendedor e impassível, continuas a envelhecer sentado numa pedra.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha