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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Louca da Praia

A taberna seria o centro das atenções dos mais idosos, a sala de visitas, o espaço de tertúlia, de encontros diários de quem já perdeu os hábitos de trabalho, o templo onde se reza a deuses desconhecidos. Tinha uma espécie de esplanada no passeio com apenas uma mesa de chapa e duas cadeiras de plástico branco e, no lado direito, pousado no chão, um pequeno fogareiro pronto a grelhar peixe ia ardendo lentamente e, encostado à ombreira da porta de alumínio prateado, estava uma caixa de sardinhas com alguns restos lá dentro namorados à distância por dois gatos.
Numa das cadeiras coçadas pelo tempo estava sentado um homem de idade avançada que segurava na mão direita um copo com vinho tinto e atravessado nos dedos da outra mão pousada sobre o tampo da mesa, tinha um cigarro a fumegar.
Sentei-me na cadeira disponível não sem antes pedir licença ao sujeito com aspecto de pescador antigo.
O tasco ficava em frente à praia numa rua movimentada por gente que ia e vinha em direcção da lota onde todos os dias se transacciona o pescado capturado em alto mar. O cheiro característico das zonas piscatórias, impregnava a atmosfera misturado com o da maresia que chegava activo ao meu nariz e ao das pessoas que passavam transportado por uma leve brisa. O mar a uma distância curta sobrevoado por centenas de gaivotas aos gritos, era um colosso adormecido com ondas melancólicas que vinham desmaiar sem pressa na areia deserta.
Os meus olhos perscrutavam o horizonte de água limitado por uma delicada neblina que me impedia de ver até ao infinito e, como objectiva de máquina de filmar iam-me transmitido informações diversas, barcos ao longe, traineiras a entrar na barra, navios ao largo fundeados à espera de porto, tudo movimentos que o meu cérebro arquivava na rigidez de um disco feito de matéria orgânica. Subitamente repararam num vulto negro espetado na areia muito próximo do sítio onde o mar rebenta. Ao longe, parecia-me a quilha de uma embarcação à espera de se fazer ao mar ou destroço de naufrágio que o oceano expulsou para terra. De repente moveu-se, deixou a posição hirta em que estava para se sentar sobre o tapete húmido e então pude ver que se tratava de uma mulher já de uma certa idade toda vestida de negro.
A indiscrição tomou conta de mim e impelido por essa estranha sensação de curiosidade, decidi perguntar ao velho sentado na mesa ao meu lado quem era aquela pessoa e o que fazia ali:
-É uma louca, há sessenta e quatro anos que vem todos os dias sentar-se naquele lugar, fica lá um bocado de tempo e depois vai-se embora.
Sem esperar qualquer comentário da minha parte continuou:
-É uma longa história, se o senhor não tiver pressa eu conto-lhe.
-Não tenho pressa nenhuma, respondi, até gostava de ouvir essa narrativa se o senhor não se importar de me contar, confirmei.
Pegou no copo do vinho já vazio e entrou na taberna para regressar um minuto depois com ele a transbordar de cheio. Bebeu um trago longo da bebida que pode destruir o corpo mas simultaneamente anestesiar a alma. Os olhos do velho fundiram-se mais com a agrestia do rosto, mal se viam enfiados a reluzir nos dois buracos ornamentados com rugas e sobrancelhas espessas. Eram dois pequeninos pontos luminosos a recuar no tempo, a espelhar acontecimentos arquivados na memória sabe-se lá desde quando. Como um narrador de espantosas histórias, começou a contar:
- Aconteceu, já lá vão sessenta e quatro anos, faz agora no dia um de Dezembro. O dia nasceu meio encoberto, não chovia nem fazia grande vento, as traineiras regressavam com o peixe mas a pescaria não tinha sido abundante. Por volta das dez horas da manhã entrou por ali dentro um barco carregado de sardinhas. Os mestres das outras embarcações perante tão afortunada captura, decidiram chamar as suas tripulações e à tarde fizeram-se ao mar mais uma vez. Eram cento e três barcos a rumar ao sul em direcção ao mar da Figueira da Foz. Ainda não tinham passado muitas horas quando o tempo mudou inesperadamente, o vento acelerou, as ondas transformara-se em montanhas cavando precipícios de mais de dez metros de profundidade onde as traineiras entravam e saiam numa luta de morte. Sem que ninguém contasse o vento rodou para noroeste transformando-se num ciclone com rajadas tão fortes que despedaçavam os mastros dos navios e a atmosfera começou a ficar gelada. Negras nuvens formavam-se no inferno e despejavam chuva em cima das embarcações que com os motores a toda a força procuravam um porto de abrigo. A noite desceu sobre o mar e sobre a terra e no meio das trevas mais de uma centena e meia de homens lutava desesperadamente contra a fúria dos elementos e na praia nova começaram a ouvir-se rumores misturados com soluços, pessoas a correr de um lado para o outro desorientadas e aflitas.
Calou-se por momentos, passou a mão engelhada pela testa suada, pegou no copo e bebeu mais um trago de vinho. Olhei-o com mais atenção nesse momento de pausa, tinha um rosto cavado por profundas rugas que começavam na testa e acabavam no pescoço que parecia uma folha de papel amarrotada. Na cabeça um boné de pala assegurava conforto a um crânio sem cabelos. Que idade teria, oitenta, talvez um pouco mais a julgar pelo rosto enrugado e pelas mãos de dedos estragados pela artrose. Era um pescador sem dúvida nenhuma a figura que estava sentada a meu lado, via-se nos seus olhos cor de mar que reflectiam vagas, turbilhões de espuma e azuis permanentes.
Pousou o copo sobre o tampo da mesa, com as costas da mão limpou os beiços e continuou:
- Acolá em baixo no molhe sul, as famílias daqueles desgraçados apinhavam-se na esperança de verem entrar as traineiras que tinham levado os seus maridos, os seus filhos, os seus avós e muitos amigos para a faina que prometia pão. Tanta angústia e tanto desespero em cima daquelas pedras lambidas pelo mar, nunca se viram até hoje.
Em determinado momento começaram a ver-se ao longe as luzes de navegação dos barcos, alguns tinham encontrado o caminho para casa e entraram salvos no porto.
Havia tantos gritos ali na praia quando chegou a notícia de que quatro traineiras tinham naufragado e que noutras os homens tinham sido arrastados pelas vagas medonhas de um mar enfurecido. Confirmou-se a morte de cento e cinquenta pescadores e de dois desaparecidos. Era gente daqui de Matosinhos, de Espinho, da Murtosa, da Póvoa de Varzim e das Caxinas de Vila do Conde.
Mais uma pausa e o resto do vinho escorregou a ferver pela sua garganta seca. Outra vez as costas da mão a passar nos lábios, mais um cigarro a sair do maço engelhado e o fumo a esmurrar a pala do boné tentando evoluir no espaço.
- Dois nunca apareceram, um deles era o marido dela. Deixou-a com três filhos pequenos nos braços, criou-os como pode mas todos os dias enlouquecia um bocadinho até se tornar naquela desgraça que o senhor está ver. Se ao menos ela tivesse o corpo do seu homem enterrado numa campa do cemitério, se pudesse ir lá de vez em quando rezar e levar-lhe flores, as coisas poderia não ter chegado a este ponto. Para a gente o mar é quem manda meu amigo, tanto dá como tira e dessa vez tirou demais. Comovo-me sempre quando conto esta história, dantes até me vinham as lágrimas aos olhos, agora não, o meu coração transformou-se numa pedra, às vezes ainda tenta voltar aos tempos em que se emocionava até com o sorriso de uma criança mas desanima depressa, falta-lhe a pureza de quando era novo, durante estes anos todos a sofrer constantes desilusões, ofensas de muitas pessoas e a perda de um filho que o mar me roubou, endureceu e deixou-se envelhecer como eu.
O copo estava vazio, ele fez o gesto de o levar à boca que tremia mas desistiu ao verificar que não tinha mais vinho. Levantei-me, peguei na vasilha e fui dentro da taberna enchê-la mais uma vez do líquido que pode matar o corpo mas que anestesia a alma.
Deixei que o silêncio que se fez a seguir fizesse a sua cura, senti que o velho pescador estava perturbado e muito longe da insensibilidade que me disse trazer dentro do peito. Os homens do mar são duros como as rochas que só um oceano desfaz, há uma altivez nas suas personalidades que sem ser prepotente, reflecte o cunho do seu arquitecto. Foi o mar quem os fez à sua semelhança, foi ele que os transformou em coragem e dureza, foi também ele que lhes legou parte de si próprio, generosidade, solidariedade e valentia sem limites.
Precisava de ver ao perto aquela mulher sentada na areia, tentando antecipar uma possível rejeição perante um estranho e assim evitar dissabores, perguntei ao meu amigo:
-Acha que se fosse à beira dela falaria comigo?
- Falar não fala muito, as palavras já lhe morreram nos olhos mas de certeza que lhe vai perguntar se viu o homem dela por aí!
Fui ao areal, para não parecer tão óbvio dei uma volta mais longa e vim com calma como quem se passeia à beira mar. Quando estava a cerca de dois metros dela, pode ver um rosto transfigurado, encorrilhado como uma folha de papel calcada por centenas de botas de batalhão militar e os cabelos ralos e brancos apareciam-lhe a espreitar por debaixo do lenço negro que lhe cobria a cabeça. Olhou para mim com uns olhos a reluzir de vivos e onde a luz da esperança possivelmente ainda tinha morada e, sem que eu pudesse dizer nada perguntou.
- O senhor não viu por aí o meu homem? É alto, moreno, bonito e tem um bigode parecido com o seu um bocadinho mais farfalhudo.
-Não, não vi ninguém que corresponda à sua descrição minha senhora!
- Ninguém o viu, ninguém sabe dele, ninguém me diz onde ele está, murmurou como se falasse consigo própria.
As ondas vinham molhar-lhe os pés nus, rendilhados de espuma carregada de salitre ou lágrimas salgadas de um mostro que não sabe controlar a sua força?
Alguém viu por aí o homem desta mulher vestida de negro? É alto, moreno, bonito e usa um bigode parecido com o meu um bocadinho mais farfalhudo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha