Mostrar mensagens com a etiqueta rio mau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta rio mau. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tempo Perdido

Antes os cães e os gatos entravam nos tascos e nos cafés da minha aldeia. As portas estavam escancaradas, entravam todos, pessoas, gatos e cães menos as mulheres.
Os tascos eram divididos em duas partes, numa as pipas, os barris, as canecas, o mosqueiro em cima do balcão que guardava as pataniscas, as sardinhas e os peixinhos do rio fritos, na outra, mercearias diversas, quinquilharias, carboneto para gasómetros, fardos de bacalhau e tecidos, era o compartimento onde as mulheres estavam autorizadas a entrar apesar de não haver qualquer aviso a discriminar os dois sexos, era por respeito dizia o meu pai. A divisão não tinha porta, os homens viam as mulheres, as mulheres podiam ver os homens e, de vez enquanto a caneca do vinho tinto saltava de um compartimento para o outro num ritual sem falas, consentido por ambos, demonstrador de afectos.
Os animais enroscavam-se debaixo das mesas a dormitar à espera de restos. Antes havia poucos restos, não sobejava nada do molete que trazia duas sardinhas entrincheiradas lá dentro, comia-se tudo, até as cabeças esturricadas no tacho de fritar, eram saboreadas até ao último estalido nos dentes.
Antes os animais falavam com as pessoas, era raro o dia em que não houvesse debates e discussões acesas sobre isto e sobre aquilo e que acabavam sempre regadas com vinho nos tascos sempre num ambiente de alegria e fraternidade. Conta-se, não se sabe se é fábula ou acontecimento verdadeiro por que os nossos antepassados eram useiros e vezeiros a misturar as duas hipóteses, que uma vez um porco entrou na taberna do ti Narciso no centro do lugar e disse que estava farto de ser porco e que gostava de ser presidente de uma coisa qualquer. Ninguém dos presentes no estabelecimento, pessoas e animais lhe respondeu, isso de ser presidente de uma coisa qualquer era assunto que não interessava muito aos humanos nem aos animais. Os presidentes das juntas, das câmaras e até das repúblicas passando pelos chefes de governos da época e em certa medida os futuros, já nasciam com inclinação para desempenhar o cargo, não eram eleitos pelas pessoas nem pelos cães, nem mesmo pelos gatos, eram nomeados conforme a procedência familiar ou pelos bons serviços prestados ao regime estabelecido. Ninguém se importava com isso para além dos cantores, pensadores, dos poetas e dos escritores que arriscavam o coiro a protestar contra eles e contra a situação contrária à democracia.
Os animais sempre dispuseram de língua própria e independente e formas de governação autónomas, até dá a ideia de que os humanos copiaram por eles, são comandos semelhantes, tal como entre nós, os mais fortes, os mais espertos, os mais imbecis e os que dormem enquanto os outros caçam e depois escolhem a maior e melhor porção do produto da caça e até as melhores fêmeas para brincar ou procriar, são designados altas individualidades se forem humanos, chefes da matilha se forem cães, da vara se forem porcos, do rebanho se forem cabras ou ovelhas, alcateia se forem lobos e até colmeia se forem abelhas estas com a particularidade de serem monárquicas pois não dispensam uma rainha que engordam com todos os cuidados e obedientes aceitam unanimemente o seu comando faz-de-conta. Claro que a rainha ou mestra, não manda nada, limita-se a pôr ovos multiplicadores do enxame perpetuando a espécie. As abelhas não querem nada com as republicas porque a qualquer momento podem destruir a chefe e criar uma nova e depois debandar do grupo formando nova colmeia, pois de tão obesa a mestra fica sem mobilidade e incapaz de se defender.
Há muitas semelhanças entre os bichos e as pessoas, a grande divergência é de que os humanos adoptaram formas e tipos de comunicação complicados ao passo que o idioma animal é universal. Um cão português fala a mesma língua de um cão americano, chinês ou de qualquer outro país, os gatos exprime-se na mesma linguagem de todos os gatos espalhados pelo mundo, isto só para exemplo pois é do conhecimento público em geral esta democrática forma de comunicar adoptada pelos irracionais.
Os animais não vivem num estado de direito situação jurídica criada e utilizada pelas criaturas mais fortes para oprimir as mais fracas que, contrariamente ao espírito consagrado na lei, nunca têm direito a nada. Os cães, os porcos, as cabras, os gatos e todos os bichos que convivem no planeta, não obedecem a este estatuto, são livres como deviam ser todas as criaturas da terra.
Antes todos dormitavam na taberna; os cães enroscados debaixo das mesas, os gatos empoleirados na prateleira dos copos e das canecas e as pessoas debruçadas sobre o tampo de um barril ou sentados de cabeça a cair sobre o peito, ressonavam baixinho. Ao fim da tarde tocava-se viola braguesa e começavam os animados cantares ao desafio. Eram quadras inventadas no momento, rimas que reflectiam sentimentos das angustiadas vidas de todo um povo. Os cantadores, barqueiros, mineiros e pescadores, desafiavam-se ao longo dos versos e, numa atmosfera carregada de vapores de vinho, pataniscas e iscas de bacalhau só o som arrastado e melodioso do instrumento e as vozes esganiçadas dos cantadores, quebravam o silêncio do sagrado templo.
Era um mundo feliz onde se ficava a conversar, a cantar, a beber, a escarafunchar os dentes e a falar com os animais a tarde toda e só se saía de lá para urinar ou quando as portas se fechavam à noitinha. Antes podia-se verter águas em qualquer lado, no muro da casa da Sobreira, na esquina da loja do Viana e até atrás da sacristia da capela.
Antes não havia contentores de plástico com lixo dentro, queimava-se tudo na horta e até se podia arriar o calhau no meio de um campo ou nas bordas por baixo das ramadas. Antes os camiões da câmara não vinham buscar as imundices à minha aldeia para levar outra vez para a minha aldeia.
Antes havia peixeiras de canastra à cabeça carregada de sardinhas ou peixinhos do rio e os gatos e os cães corriam pelos caminhos atrás delas. De vez em quando aparecia um peixe moído e era deitado aos gatos e aos cães que repartiam entre si o produto da longa espera.
Agora há cães e gatos como dantes mas os peixinhos do rio acabaram e as sardinhas que já não se pode garantir serem do nosso mar, viajam na carrinha do Zé Martelo misturadas com peixes criados a farelos e os gatos e os cães não correm atrás da carripana pela aldeia toda. Esperam no sítio onde o Zé pára para aviar os fregueses e não se pode mijar nas paredes. O Zé Martelo é amigo dos gatos e dos cães, tem bom interior e dá-lhes peixes todos os dias.
Agora há uma casa de banho na minha aldeia mas ninguém vai lá urinar nem arriar o calhau porque dizem que cheira a comida sintética de passarinhos, vão aos cafés empestar aquela coisa toda e desenham corações trespassados por setas e escrevem versos nas paredes da retrete.
Uma vez o ti Vicente estava a urinar virado para o rio no porto do Remoinho e passou um barco carregado com pipas. O mestre da embarcação chamou-lhe porco e o ti Vicente peidou-se para ele com a tringalha na mão.
Antes podia-se peidar em todo o lado, mijar e até arriar o calhau, agora não. O ilustre e entendido médico do Porto que morava na minha aldeia, dizia muitas vezes: Reter um peido é abrir o caminho a um ataque cardíaco! Ele próprio lançava umas farpas que se ouviam do outro lado do rio. Há pessoas assim, parecem autênticas botijas de gáz. Dados a imperfeita nutrição, cultivam e alimentam o estado de flatulência permanente e podem descarregar gazes a qualquer momento. O próprio planeta terra expulsa os seus gases acumulados através de erupções vulcânicas e outras formas semelhantes, se somos o produto daquilo que comemos, simples átomos alimentados pelas fermentações orgânicas que o solo produz, é pois natural padecermos dos mesmos excessos vitamínicos das matérias que consumimos.
Agora há contentores de plástico com letras nos tampos a dizer que são limpos e que não se pode urinar neles, só os cães e os gatos.
Agora os camiões da câmara vêem buscar o esterco à minha terra porque um senhor da câmara mandou e vão deitá-lo outra vez na minha aldeia por que o senhor que estava na câmara disse que o lixo todo do concelho e dos concelhos vizinhos, devia ser depositado em cima do povo da minha aldeia, que um aterro sanitário seria como se uma dádiva caída do céu para quem convivia há mais de trinta anos com uma lixeira a céu aberto.
- Depois até se pode fazer lá um parque de merendas, imaginem como será tudo verde e arborizado e as famílias a conviver umas com as outras aos fins-de-semana. Um jardim na perspectiva do homem politico, um horto semeado com delicadas plantas e flores que ninguém quer perto de sua casa. Há afeições duradoiras, gratidões que se pagam com veneno e ainda hoje passados onze anos após a inauguração do monstro e ao contrário do que havia sido prometido, o depósito de trampas não encerrou, cresceu como um desalmado e as pessoas da minha aldeia continuam à espera dos camiões cisterna carregados de perfume francês para aromatizar o sitio.
Uma vez as pessoas da minha terra criaram uma banda filarmónica e uma casa para a cultura das pessoas da minha terra. Outra vez as pessoas da minha aldeia construíram um ramal de água ao domicílio e iluminaram a terra toda com luz pública. Uma vez as pessoas da minha terra criaram um campo para jogar bola. Uma vez as pessoas da minha aldeia fizeram uma capela nova. Outra vez algumas pessoas da minha terra urinaram nas paredes da casa de cultura da minha aldeia. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram no muro do campo da bola e arriaram o calhau lá dentro. Outra vez algumas pessoas da minha aldeia mijaram na parede da capela nova atrás da sacristia.
Uma vez apareceu um político à minha terra que disse que era doutor e algumas pessoas da minha terra acreditaram nele e deixaram de urinar nas paredes e de arriar o calhau nos campos e passaram a mijar em cima umas das outras porque o senhor doutor que veio de fora disse numa reunião com algumas pessoas da minha aldeia que o melhor era elas mijarem umas em cima das outras.
Agastado ele disse:
-Amanhã vou à feira comprar um cabo novo para a foucinha. Amanhã se me apetecer vou urinar no muro da casa do Viana e arriar o calhau no campo da bola mas não é por que o senhor doutor que veio de fora mandou, é por que se o fizer estarei a pensar nele e em todos os que quiseram dominar este povo que sabe remar, pescar, ler e fazer coisas novas.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Estórias aos Quadradinhos

Quando há alguns milhares de anos nascemos neste recanto do mundo, julgava-mos que iríamos ser muito felizes por toda a eternidade.
Nos primeiros tempos da nossa já longa existência, eu olhava para ti, via-te crescer lentamente e tu do outro lado do rio, olhavas para mim e, presumivelmente, deverias sentir o que eu sentia.
Passamos muitos anos, muitos dias e muitas noites a contemplar-nos um ao outro remetidos ao silêncio das coisas eternas e, nos dias em que a neblina te cobria totalmente, eu ficava só a pressentir-te desse lado a viver a angústia de quem perdeu um amigo. A manhã despontava e o lençol de algodão que te cobria, subia a serra e tu reaparecias a brilhar sob os matinais raios do sol.
Juntos vimos acontecer tanta coisa, pessoas nascerem e morrerem, crianças que se transformaram em adultos, vimos chegar outros que te desventraram as entranhas e retiraram de lá o minério cujo produto da venda, nunca foi usado em teu beneficio. Deixaram os teus e os meus filhos doentes, usaram a força da sua juventude em trabalhos forçados e a até desumanos para extraírem da terra o carvão que alimentava a indústria, os transportes e as caldeiras do aquecimento citadino enquanto o nosso povo, sofria as agruras do frio nos prolongados Invernos. Tinhas no interior do teu corpo as minas do Pejão indústria que ao mesmo tempo que dava ocupação laboral ao povo, aniquilava toda a esperança de poderes enfrentar o mundo novo que se avizinhava. Ficaste como eu agarrado ao passado, a ver secarem todas as ideias de moderno progresso, impedidas pela empresa de que todos dependiam e que como impiedoso opressor comandava tudo e quase todos não permitindo a instalação de outras fábricas no extenso raio que dominava. A mão-de-obra da região era dela, tudo o que atentasse contra esse privilégio era imediatamente abafado recorrendo a cooperações bem pagas vindas do poder instalado na capital do país. Dizem que foi a salvação destes povos que não dispunham de outras alternativas capazes de lhes assegurar sobrevivência mas e a par dessa realidade, obstruiu os caminhos que poderiam trazer novas dinâmicas, fechou as portas à esperança legítima, apanágio de todos os povos. Tudo poderia ter sido diferente não fora a continuidade da exploração da antracite minério poluidor responsável por centenas de mortes, presente envenenado, riqueza que reluziu por alguns anos e se desfez em nada.
Tanto passado, tanta história submersa nos rios que são nossos ou soterrada nas profundezas da terra agora vazia de riqueza, tantas mortes, tanta vergonha por terem consentido a fúria dos estrangeiros sedentos de abundâncias para si próprios, tanto orgulho nos povos resistentes e fazedores de esperança que viveram e vivem em nós. Tantos factos negativos que essas dinâmicas criaram e nos tornaram simples espectadores sentados na plateia do imenso teatro do mundo a testemunhar a inevitabilidade dos acontecimentos por que, nessa altura, nada poderíamos fazer para alterar a orientação à dramática história que se desenrolava em frente aos nossos olhos.
Lembras-te de quando éramos pequeninos e a mãe natureza nos colocou aos pés duas correntes de água cristalina e pura? A ti tocou-te o Arda, a mim a sorte ditou que fosse o rio Mau mas, para que os dois se sentissem protegidos, fez correr entre eles, o rio Douro imenso e então, a partir daí, tudo começou a ganhar forma.
Não falamos um com o outro durante este tempo todo e no entanto sabemos tudo o que se passa em cada uma das bandas do rio. Se o sino de Santa Eulália espalha badaladas no vento, fico a saber se vai haver missa, se morreu gente, se era homem ou mulher ou um anjinho cujo florir para a vida foi lancetado por efeito de doença, fome ou insuficiente nutrição.
Quando o sino da minha capela de S. João Baptista se faz ouvir desse lado, também tu tomas conhecimento das notícias mais urgentes e mais importantes. Se um foguete estoira sob o teu céu, ou escuto os sons de música difundida em potentes e amplificadas colunas, sei que estás em festa, que o teu povo rejubila de alegria e felicidade. Contigo acontece o mesmo quando os iguais sinais ecoam sobre o vale onde correm três rios.
Estamos frente a frente há milhares de anos e no entanto nunca nos consentiram um abraço que quebrasse este divórcio forçado onde o amor continua a ser a componente mais forte da separação. Bastava uma ponte que ligasse as duas margens do Douro para podermos enlaçar as mãos e seguir juntos até ao fim dos tempos. Os homens não permitem afectos, decidem sempre em seu próprio proveito sem atender às justas reivindicações dos povos e da salutar harmonia criada e abençoada pela natureza.
Como se não fosse suficiente a barreira do grande rio, separaram-nos quando decidiram dividir o país em distritos. Tu ficaste a pertencer a Aveiro e nem percebias patavina de ovos-moles nem tão pouco te dedicavam à recolha de moliços com barcos de borda baixa e de proa e ré elevadas, coisas muito diferentes dos teus barcos valboeiros conservadores das artes de navegar em rio, característica deixada pelos povos fenícios que aqui viveram.
Eu fui integrado no distrito do Porto, não protesto mas custa-me que tu fosses para tão longe do rio, dos barcos e do vinho generoso. Tu és mais douro, mais rabelo, mais valboeiro, enfim, és como eu uma entidade própria que não depende de ninguém nem recebe lições de nenhuma história escrita para justificar o injustificável e branquear a maldade de alguns dos mortos. Aliás todas as histórias são o produto de encomendas da época, recheadas de inverdades, fantasiadas de modo a provocar confusões, lavagem de consciências, reabilitação de figuras desastrosas misturadas com meia dúzia de casos por ventura verdadeiros. Para exemplo, cito-te uma pequena parte da história de Portugal que relata a tomada de Lisboa aos mouros pelo nosso vizinho Afonso Henriques de Guimarães. Isso foi quase verdade, aproxima-se do real embora atulhada da ficção que convinha na altura e veio a revelar-se importante para a nossa afirmação como pátria mas sucede, para desonra nossa, que em mais nenhuma história relatada do mundo aconteceu o inédito e impensável caso que viria a seguir. Os conquistados passaram a mandar nos conquistadores coisa que ainda hoje acontece e, este pequeno recanto onde nasceu a nacionalidade, só tarde demais ficou a saber que tinha lutado e vencido para ser transformado em dependente dos novos tiranos ocupadores do recinto. São pois os sucessores dos antigos mouros que nunca foram grandes guerreiros, mas mais vendedores de tecidos e camelos do que outra coisa, a decidir os destinos de todos nós. Fazem-no com a habilidade característica dos negociantes sem escrúpulos, ficam com a carne e deixam-nos as tripas, integram os muitos de nós que se deixam comprar alucinados pelo poder e mediatismo perpetuando assim o seu déspota e intolerável reinado que basicamente consiste em manter a abundância de alguns em prejuízo de todos os outros. Nunca percebi por que é que pessoas originais do interior, uma vez eleitos ou nomeados para ocupar cargos de grande decisão, na altura de decidir, fazem-no sempre em favor do litoral onde agora residem. O homem é um bicho muito complicado, nunca se deve atender às suas justas aspirações pois desde que as alcancem, transformam-se em autênticos canalhas.
Ai daquele ou daqueles que levantarem a voz contra tal opressão democrática, um coro de vozes obtusas atestadas por medalhões presenteados em cerimónias faustosas no dia de Camões e das Comunidades, aparece imediatamente a realçar o provincianismo de tal ou tais atitudes contra aquilo que consideram ser a união nacional desmentida permanentemente pelas estatísticas que provam as assimetrias e por tal objectividade dos números, confirma-se que sempre tivemos razão em protestar. As instâncias superiores do poder estão lá ao dispor e prontas a virem em massa e em força em defesa dos seus direitos que julgam adquiridos. Mete nojo, provoca desânimos em muitos, solturas que nenhum remédio cura mas contra aquilo que é considerado ordem, ninguém pode avançar. É por isso irmãos que nunca nos construíram aqui uma ponte. Lembro-me de um recente secretário de estado de um governo democraticamente eleito que um dia sentado deste lado do rio a olhar para ti, soltou do interior da sua falta de sentido de estado e de cultura, a seguinte observação: para que querem aqueles gajos uma ponte aqui, se ficam na mesma longe de tudo? Um ignorante é um homem perigoso à sociedade em qualquer parte do mundo mas nota-se mais a sua insipiência quando de ânimo leve analisa e decide sobre assuntos que desconhece. Só é possível haver gente assim por causa de um povo inculto que é como um rebanho de ovelhas, obedece ao pastor e vai sempre na direcção que ele soberanamente lhes indicar, até para a morte.
Lembro-me do dia do teu baptizado e daquela princesa moira que rasgou um dos pés nas pedras dos teus caminhos. Sentada nas Côncas a estrangeira, exclamou a frase de que parte viria a tornar-se o teu nome de menino;
-Tenho o pé dorido!
E tinha, não só pelas irregularidades dos carreiros mas também pela interminável e inútil viajem a que se tinha proposto. É uma lenda e, como todas as lendas obedece a um carácter fantástico ou fictício que combina factos reais e históricos com outros irreais que são meramente produto da imaginação dos povos. Seja como for algum motivo ou motivos existiriam na altura para que as pessoas te rebaptizassem rejeitando todos os nomes que a história pensa serem os da tua origem. Petraído não era de facto a designação mais correcta para definir um lugar maravilhoso banhado por dois rios. O mais certo será teres sido Pedorio, assim soa melhor e situa-te claramente no lugar que hoje ocupas ao pé do rio.
Pedorido, parece que a tua sina acabava de ser amaldiçoada por uma princesa vinda dos confins do mundo. Dorido foi o teu passado, talvez mais doloroso do que alguém pudesse imaginar para chegares como eu aos tempos da modernidade onde já nos apetece viver.
A mim baptizaram-me de Rio Mau e tu sabes porquê. Este pequeno curso de água que quase me cerca, transformava-se num louco quando absorvia os dilúvios que vinham dos montes. Rio Mau, rio muito mau.
Tudo se alterou desde então, o que era desolação e miséria foi transformado em beleza que extasia, ignorada cá dentro mas apreciada por gente estrangeira e representada em bagadas de água pura que são maravilhas e repouso para os olhares de quem já avançou para além da mediocridade e da indiferença e o que de mais maravilhoso a terra tem, a essência da vida. Somos bonitos meu irmão, não há neste mundo nada que se compare à nossa esbelta fisionomia de traços delicados onde a mãe natureza vem brinca todos dias.
Temos tanto orgulho em nós, tanta admiração pelo assombro que causamos a quem nos visita que muitas vezes coramos no rosto da nossa humildade. Tanta gente vive agora em nós, somos duas povoações viradas para o futuro assente num desenvolvimento sustentado que une e permite o nascer de uma nova cultura voltada para o que o mundo tem de novo e de esperança sempre com o passado preso numa das mãos.
Hoje apetecia-me abraçar-te meu irmão, sei que não me é possível estender os braços sobre o rio Douro e enlaçar-te com todo o enternecimento deste momento solene mas e perante essa impossibilidade, vou mandar-te o rio Mau ao encontro do teu Arda e então, as duas águas misturadas num abraço, vão assemelhar-se a um beijo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Prisão de Sonhos

Fiz seis anos no dia seis de Outubro e logo na manhã seguinte e contra a minha vontade, meteram-me na escola.
Levava a tiracolo uma saca de serapilheira com um livro de leitura, uma lousa encaixilhada em quatro ripas de madeira e um lápis de pedra. Fiquei surpreendido com aquilo, nunca tinha visto semelhantes coisas e desconhecia em absoluto qual o fim para que serviam. Os meus colegas, rapazes e raparigas, levavam também numa saca igual ou parecida as mesmas ferramentas e, como eu interrogavam-se sobre a utilidade a dar aqueles objectos estranhos. Todos seguia-mos descalços pelo caminho abaixo, a minha mãe não me foi levar nesse primeiro dia, tinha de trabalhar e cuidar dos meus irmãos ainda fora da idade de internamento forçado. Era uma algazarra medonha, falava-se de tudo o que poderia acontecer quando finalmente entrasse-mos o portão de ferro da velha escola primária no Remoinho que tinha, cravada numa das ombreiras de granito, uma placa em mármore esbranquiçado que dizia ser propriedade do Estado.
Chorei, eu e os outros, aquilo aterrorizou-nos, entrar numa casa em que o estado é dono e senhor, era coisa de tal solenidade que nos deixou a todos silenciosos, não fosse o estado não gostar da barulheira que tinha-mos feito ao descer a rua.
O prédio já era velho nesse tempo, acho que nunca deve ter sido novo, sempre o conhecia desnudado de cales e pinturas, com falta de bocados de estuque que davam a ideia de que estava a sofrer de grave doença de pele. As portas eram velhas, as janelas também e em algumas delas os vidros tinham desaparecido partidos talvez por pedradas. Ao cimo das escadas estava a professora quieta, petrificada com um papel numa mão dobrada sobre a outra na barriga. Vindo dela chegava-nos um perfume novo uma fragrância desconhecida que se espalhava por todo o recinto e suavizava e adocicava o nosso olfacto imaculado como se fosse um jardim de rosas a aromatizar a atmosfera carregada de maus odores em que vivíamos e só cheirosa na primavera quando os campos se cobriam de flores de malquereres e os montes se enfeitavam com o amarelo vivo dos tojos e o violeta quase púrpura das urzes. Esperou alguns minutos e quando o sino de uma igreja bateu as nove horas, começou a ler os nossos nomes escritos nesse documento.
Chamou pelo primeiro nome e ninguém respondeu, então como quem já está habituada a situações desse tipo, autoritariamente disse em voz alta:
-Quando chamar pelo vosso nome, digam presente!
Assim foi, aquela turba irrequieta fez silêncio absoluto e as vozes que respondiam à chamada, pareciam vir de muito longe, tímidas abafadas pela tosse persistente de alguns, até chegar à minha vez, a ordem era alfabética portanto fui dos últimos a ser intimado.
-Presente respondi mentindo com quantos dentes tinha na boca. Presente implicava estar ali de corpo e alma, cheio de vontade em apreender as primeiras letras do abecedário ora eu, estava em todos os lugares que conhecia, no ribeiro a pescar, no poço de baixo a tomar banho ou nas bordas do grande rio a guardar a minha cabra, lá é que eu não estava de certeza absoluta e nem queria estar e duvido que, nesse momento aflitivo e de incerteza, todos os meus colegas na fantasia da mente, também não andassem a percorrer os caminhos da minha terra em brincadeiras alegres, livres e despreocupadas, cujo dono do prédio chamado estado, acabava de proibir condenando-nos a todos à prisão por muitos anos. A incerteza do futuro amedrontou-nos, a perspectiva do novo fez-nos tremer de medo.
O que foi que eu fiz para me meterem numa jaula com um quadro preto pendurado na parede rabiscado com letras brancas que nenhum de nós sabia decifrar. Que crime terei praticado para me sentarem numa carteira em que já faltavam algumas tábuas menos a de cima que tinha dois tinteiros de cerâmica branca enfiados em dois buracos? Devo ter deixado a cabra ir ao saco do milho do senhor Viana, pensei. E os outros que nem cabra têm? Que asneiras terão feito para serem como eu, encerrados numa sala com ratos a passear acompanhados por pulgas e piolhos?
As pessoas grandes não gostam mesmo de nós, voltei a matutar. Por que é que só fazem isto à canalha que não faz mal nenhum a ninguém? E os grandes, onde estão as raparigas já com peitos e os rapazes com barba na cara? Por que é que não se vê nenhum aqui e a professora não chamou pelo nome de alguns deles? Vi-os sentados nas pedras do largo quando há bocado passava por lá, riam-se como tolos a olhar para nós figuras simplórias e inocentes. Decerto já sabiam o que nos esperava, o fim da liberdade, a terrível caminhada para o degredo onde todas as luzes da nossa infantil felicidade, se apagavam lentamente.
Nunca me hei-de esquecer desse dia em que entrei pela primeira vez na casa do estado por que foi o momento em que ele me agarrou para sempre. Ainda hoje sinto o seu braço injusto e cruel a arrastar-me pela calçada do remoinho para me enjaular nos escombros que restam da escola primária propriedade que ele faz questão em deixar apodrecer.
A manhã foi passando, a professora esforçava-se para manter o silêncio dentro daquelas quatro paredes, o perfume dela a despertar-me a imaginação enquanto olhava pela janela o rio que passava e não me levava com ele até às mãos salgadas do mar que nunca tinha visto mas imaginava lindo e ficava indiferente apesar dos apelos que os meus olhos lhe faziam:
-Tira-me daqui diziam no silêncio da manhã estas vistas que ainda pouco ou nada tinham visto do mundo que se desenrolava à nossa frente. O mar tão longe e tão perto da minha vida, o oceano imenso que silencioso ouviu os meus apelos de criança e muitos anos depois me veio buscar para junto dele.
- Vais aprender a ler e a contar, tinha-me dito a minha mãe no dia anterior. Não disse nada, mergulhado em sombrios pensamentos só me apeteceu perguntar-lhe para que queria eu saber ler e contar se nada havia para ler nem para contar nesse tempo. Quem era eu para contestar a minha mãe, como poderia alguma vez nessa altura e sempre desrespeitar a sua vontade. Fiquei a olhar para o rio, a ver passar os barcos, a pensar que um dia havia de ser grande como o meu pai e então, ninguém poderia encerrar-me numa prisão como esta.
Os dias passaram, na escola aprendi a fazer números e letras na lousa. Os primeiros riscos podiam bem ser o desenho rudimentar do barco do ti Vicente a navegar no rio ou a água do ribeiro a cair na levada com amieiros tombados sobre o poço a chorar a nossa ausência. Nesse precário ensino aperfeiçoei a escrita, tornei-me num menino instruído cujas redacções impressionavam as próprias professoras. Quando terminei o ensino primário, sabia muito mais que metade das pessoas da minha aldeia.
A velha escola continua lá partida em bocados, silvas e árvores crescem no recreio abandonado e no local onde antes se situava a sala de aulas. Os telhados abateram e as eras, agarra-se às pedras que restam a desafiar a decadência. Nenhum som se ouve no interior do espaço de risos e brincadeiras do passado nem a professora se vê ao cimo das escadas a perfumar o ambiente, com um papel na mão a chamar pelos nossos nomes. Se chamasse já seriam muito poucos a dizer presente, alguns porque já faleceram outros por terem tomado direcções diferentes nas suas vidas, eu seria um deles agora por razões muito distintas das que me agoniavam nesses dias mas, desde esse tempo de criança de escola que nunca mais me perguntaram se eu estava presente fosse para o que fosse.
Desinteressaram-se de mim e dos outros, entregaram-nos ao mundo que fez de nós gato – sapato sem nunca nos terem perguntado se era dessa forma que queríamos viver.
Tenho de subir a calçada, aqui não há sítio onde eu possa enterrar tantas lembranças e já não se vê o barco do ti Vicente a cruzar o rio de uma banda para a outra a transportar passageiros, vou visitar a nova escola que não tem vidros partidos nas janelas nem ratos a passear acompanhados com piolhos e pulgas, onde não faltam tábuas nas carteiras e tudo brilha como novo. Vou observar o futuro que do passado só resto eu e um punhado de homens e mulheres obstinados em proporcionar às crianças de hoje um espaço de liberdade e de aprendizagem digno que nunca retroceda às carências e indiferença dos meus tempos de menino e se transforme numa prisão de sonhos dos mais pequenos.
Lá vão as crianças de mochila às costas sorridentes, uns nem por isso, choram agarrados aos regaços das mães, outros nem mochila levam, numa mão um bolo embrulhado num guardanapo de papel, debaixo do braço, uns cadernos a brilhar como novos. Vão a caminho da escola dos tempos modernos que não fora a tenacidade dos professores, seria transformada em prisão de alunos   pelas incapacidades de gestão dos sábios que nos têm governado. Vão ser encarcerados com os docentes o dia todo para que amanhã sejam homens e mulheres bem formados e muitos pais possam angariar sustento e muitos outros sem apetência para o cargo, fiquem livres para passear nos chopings e as estatísticas engordem com dados errados. Quem sou eu o deles que me lembra a minha meninice? Sou esse em que ninguém repara, que leva uma saca de serapilheira a tiracolo, que vai descalço e olha espantado em seu redor. Sou esse de cabelo espetado, de ranho no nariz, em calções onde já falta uma tira sobre um ombro e camisa branca sem metade dos botões. Sou um passarinho que caiu do ninho e desesperado chama pelos seus pais que não o foram levar pela mão à escola. Olhem todos, eu sou aquele a contar do último para a direita, não sou o que sonhei ser depois de ter aprendido a escrever, a ler a contar, a descrever todos os afluentes dos rios, todas as estações e apeadeiros das linhas de comboio e a fazer todas as contas possíveis e imaginárias. Sou esse que apesar de tudo transformou os rabiscos feitos num rectângulo de ardósia encaixilhado em quatro ripas de madeira, escrevendo com um lápis de pedra, em livros que contam histórias do seu povo. Sou também o menino de saca de serapilheira às costas, com um bolo embrulhado num guardanapo de papel, aquele acolá que chora agarrado às sais da mãe por que pela primeira vez na sua curta existência vai ter de deixar o amor e o carinho dela para ser entregue ao desconhecido que o assusta e amedronta, sou esse e os outros todos, revejo-me em cada um deles pedra bruta que rejeita ser modelada, um ser que se confronta com o saber e treme de medo por causa disso.
Sou outra vez criança, sinto-me parte deles todos, comungo as mesmas angústias e preocupações deste momento, sofro no coração que aperta cada vez mais por que vim de um mundo onde só havia amor, liberdade, beijos e abraços, cantigas ao adormecer, sorrisos de ternura e carinhos, tudo coisas que me faziam lembrar o céu, o paraíso onde julguei ir viver para sempre e agora sinto-me desamparado, sozinho no meio de muitas crianças ansiosas como eu.
Como a velha escola a desmoronar-se sobre o rio, eu aproximo-me do fim, sou tudo e não sou nada, mas consigo retroceder e avançar no tempo sempre que é necessário e encontrar-me puro nas lágrimas e nos sorrisos das crianças de hoje.

sábado, 16 de outubro de 2010

Nostalgia

Nasci à beira de dois rios, o douro e o rio mau, cresci com eles e permiti que o meu corpo e o meu carácter fossem moldados na lentidão com que os dias e os anos iam passando desde a meninice e infância à juventude. Brinquei num espaço limitado a um raio de cem metros da casa onde vim à luz. Mundo pequeno esse que aos meus olhos de menino, parecia grande demais. Para lá dessa cativeiro onde voluntariamente fui vivendo, pouco mais havia além das serras, dos rios e do céu. As casas empoleiradas umas nas outras, apartadas por caminhos estreitos, eram poucas resumindo o aglomerado da povoação a essa pequena cavidade abrigada das intempéries, formada há milhões de anos quase na confluência desses dois cursos de água
Era muito raro subir a calçada estreita que confluía num largo para depois atravessar a estrada e mergulhar a pique na margem do rio. Quando acontecia, ficava fascinado pela imensidão desse lençol de água que me surgia longe onde a vista podia alcançar, pelos barcos rabelos que passavam de velas desfraldadas, e pela maravilhosa paisagem que se abria em frente dos meus olhos surpreendidos. Era momentos em que eu ousava sonhar mas os meus sonhos já eram grandes de mais para um ser tão pequenino como eu os poder realizar. Ficava nesse outeiro horas a fio a contemplar, a sentir a vida pulsar de uma maneira que nunca tinha visto. Tinha medo, estava sozinho, as pedras, as árvores as casas, o rio todos me olhavam mas ninguém me conhecia. Passavam pessoas, homens e mulheres atarefados, uns seguiam para as fainas da pesca outros de gasómetro pendurado nas golas das casacas de ganga azul, com um capacete de chapa enfiado na cabeça, marchavam a caminho das minas. Olhava-os um a um, assustavam-me esses rostos martirizados onde nenhum sorriso se abria para mim, tentava compreender as razões de tanta agitação, procurava entender o porquê de semelhante corrida, para onde iriam, de onde chegavam, que força os movia em direcções tão diversas, que mundo estranho era aquele onde ninguém brincava.
Uma secreta esperança ardia-me no peito e fazia-me rebuscar lá em cima onde a estrada me aparecia súbita, a miragem de uma motorizada que trouxesse o meu pai. Sempre ausente nesses primeiros seis anos da minha existência, aparecia raramente e à noite quando eu e os meus dois irmãos já dormíamos. Por que a sua terra era outra, os seus afazeres eram muitos e as actividades comerciais a que se dedicava eram vastas, ia-se embora de madrugada, ainda com o escuro e, nós crianças, deitados na mesma cama, acordava-mos com o ruído intenso do motor da bicicleta que nos fazia estremecer. Às vezes de manhã, em cima da mesa da cozinha apareciam uns brinquedos deixados pelo meu pai, eram carrinhos de lata a imitar veículos que ainda não passavam por aqui. Na noite seguinte debaixo das mantas da nossa cama, na escuridão, ouvia-se um ranger de folhetas contorcidas e as prendas que o meu pai tinha deixado, transformavam-se em pedacitos de chapa esmagados. A minha mãe ralhava connosco, não era propriamente uma acção de castigo, era mais o assumir da personagem de líder do bando perante o nosso desrespeito ao nosso pai:
- Nunca mais haveis de ter brinquedos, anda o vosso pai a gastar dinheiro em coisa bonitas para vocês desfazerem numa noite. Nunca mais haveis de ter nada, onde é que já se viu uma coisa destas!
Estava feito o sermão, a causa e o efeito sujeitos à cegueira da justiça, o castigo pouco provável, o propositado ignorar das razões que nos levaram a cometer semelhante crime. A minha mãe era uma pessoa inteligente com um índice de cultura muito acima da média para a época e sabia também como nós quais foram os motivos da destruição dos carritos de chapa. Eram os mesmos que os dela com a diferença de que ela nunca teve uma boneca que a ajudasse a sonhar e o seu tempo das brincadeiras já tinham acabado há muito. Passou por ela, ignorou-a como ignorou todas as crianças do seu tempo. À noitinha quando se sentava na cozinha cansada e todos juntos rezávamos o terço, reparava que o seu olhar divagava por um mundo distante onde já tinha sido feliz, decerto imaginava-se pequenina a brincar à beira do ribeiro tal qual eu me imagino agora.
A pesca era nesse tempo, a par com a actividade mineira que se desenvolvia na outra margem do douro, a razão maior da existência desta e de outras pequenas aldeias perdidas no meio do nada.
Um dia, seguindo os meus pais que finalmente resolveram unificar os negócios, emigrei para uma outra povoação igualmente pobre e isolada entre o rio e as serras. Saímos ao alvorecer da casa que nos acolheu e viu nascer. Um carro puxado a bois levava os apetrechos do nosso lar perdido, mesas, cadeiras loiças e panos. Os mais pequenos seguiam em cima das trouxas formadas por mantas e lençóis, a minha mãe cabisbaixa, calcava a pé o pó da estrada. Eu segurava nas mãozitas uma caixinha de fósforos com uma pedrinha do ribeiro lá dentro e olhava para ela e via os seus olhos azuis marejados de lágrimas. Foi essa imagem que me doeu mais, ainda hoje não posso quantificar a grandeza da sua amargura mas imagino-a constantemente a olhar para trás à medida que o carro se afastava. Nunca me hei-de esquecer desse dia trágico, ia viver com o meu pai mas o meu mundo pequenino desmoronava-se, desfazia-se atrás de mim irremediavelmente.
 O rio, as casas, os meus amigos de então estendiam-me as mãos nessa despedida enquanto os meus dois irmãos estupefactos, não compreendiam a tragédia mas choravam a meu lado. Foi doloroso de viver esse momento mas a maior de todas as dores já eu a tinha sofrido de véspera quando mataram a Farrusca, a minha cabra que não tinha lugar na nossa nova habitação. Nesse dia perdi tudo o que consegui amealhar nos meus seis anos de vida. A minha ligação a esse animal, era mais forte que tudo o possível neste mundo. Era um apego quase indestrutível, um laço que nem a morte conseguiu desfazer. Ela tinha-nos dado o seu leite generoso, ajudou-nos no difícil processo de sobrevivência em troca de milho e da minha inocente e descomprometida afeição. Fui o seu guardador, companheiro de muitas horas passadas à beira dos rios em que ela pastava e eu assistia à passagem dos barcos, sentia o rio correr enquanto imaginava como seria o mundo escondido por detrás das serras.
. Partimos muito cedo, o dia despontava sobre o rio e sobre as serras mas dentro do meu peito, uma espécie de noite ia tomando conta de tudo. A perda nascia ali e iria ficar a doer dentro de mim para sempre.
Por esse pedaço de terra onde a minha família paterna era natural, permaneci alguns anos da meninice e juventude. Sai de lá para servir na marinha em Lisboa depois embarquei para Moçambique onde permaneci dois anos. Um dia regressei à minha origem, aos locais onde deixei presa a amarra da âncora que me segurava ao mundo, aos sítios onde o meu sangue corria a céu aberto.
Sempre desejei percorrer os caminhos da minha infância, abeirar-me do antigo ribeiro e permitir as lembranças de um tempo que sei não voltar mais, porém só o fiz ao fim de trinta anos contados desde o dia em que pela última vez mergulhei nas sua águas. O que eu sentia era medo, o terror de me encontrar sozinho e desprotegido num mundo onde fui feliz numa época, a constatação das irreparáveis perdas que sofri desde então, o assombro tremendo das saudades que iria sentir e de saber que todos os que amei e já perdi, estavam nesse presépio desfeito à minha espera para me interrogar sobre tão infame deserção.
Hoje, nunca hei-de saber o porquê de ser hoje o dia em que decidi visitar esse curso de água por que o coração tem recantos onde a maioria de nós jamais consegue entrar e, nesse arrebatamento que não podemos controlar, ele abre de para em par as portas dos misteriosos lugares da mente onde se perfilam intactas as imagens queridas que ele acautelou como quem defende pedras preciosas da cobiça do mundo, com o coração em sobressalto, percorri a pé os caminhos desses tempo de plena felicidade.
O antes e o depois enlaçados num estranho bailado que magoa. As lembranças que doem misturadas com outras que despertam sorrisos.
Antes, éramos tantos a brincar nas águas deste maravilhoso rio. Rapazes e raparigas, crianças descalças, sem roupa que cobrisse e agasalhasse a fragilidade dos nossos corpos pequeninos. Rostos inocentes que espalhavam sorrisos, corações que palpitavam a candura das coisas mais simples da vida enlaçados à natureza que extasiada nos acolhia num abraço de suprema ternura.
Olho-te hoje velho curso de água da minha meninice e no reflexo do teu espelho líquido, encontro o meu pião, a minha mãe, o meu pai, o meu irmão Hélder, a minha cabra farrusca e todos os meus amigos desses tempos a sorrir-me como tu me sorris agora.
Eu sei que o tempo empalideceu as flores silvestres que enfeitavam as tuas margens, que os milhares de peixinhos que em ti viviam, deixaram de te ter como habitat, que  fez irreparáveis estragos em ti e em mim e que, estes olhos que te contemplam neste momento de redenção, já não brilham com a imensa intensidade desses dias antigos, mas reconheço todavia em ti o berço que me embalou, a água pura que banhou e fez valer o sinuoso percurso dos meus dias.
Nem palavras mais me sobram para te dizer do quanto amor que te dedico, nem o coração me deixa afogar nas tuas águas as dores que desde então sofri, mas neste silencioso declinar da minha vida, regresso ao teu leito que um dia me acarinhou e, ao ver a minha imagem de agora espelhada nesse teu reflexo mágico, cedo a uma lágrima que dos olhos me aparece e é tão sincera e pura como puros são os sorrisos de todas as crianças de ontem e de hoje que foram descuidadas e livres e continuam a ser felizes contigo e te guardam para sempre na lembrança.
-Manel!
Afigura-se-me na ilusão deste momento a voz daquela santa a chamar-me lá em cima à beira da ponte. Olhei e vi-a tão nitidamente como nesse tempo, sem rugas, esbelta, linda e feliz a chamar por mim. Corri desvairado e nu pelo caminho acima e ela secou-me o corpito molhado que tremia com o avental de chita às florinhas e depois seguimos os dois, de mão dada a caminho de casa.
Desvaneceu-se-me a visão, despertei do sonho e lá em cima à beira da ponte não estava ninguém à minha espera.
Apeteceu-me dizer-lhe o que nunca fui capaz de transmitir por palavras. Palavras, apenas palavras que na sua simples ordem alfabética poderiam ter transformado tudo entre nós dois.
-Mãe, eu precisava tanto de te ter aqui à beira do ribeiro. Olha, sou outra vez pequenino, sinto frio, estou a tremer, tenho o corpo molhado, seca-me com o teu avental de chita às florinhas minha mãe e depois dá-me a tua mão e leva-me outra vez para a nossa casa.



IN, Conversas com um Rio de Manuel Araújo da Cunha



quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Magnifica


Quando o Zeferino Lucas transpôs mais uma vez a soleira da porta da miserável habitação onde vivia para marchar até ao rio, estava longe de imaginar que aquele casebre sem qualquer conforto haveria de vir a ser o abrigo de uma santa.
As figuras veneradas, que todos consideram e bem, habitar exclusivamente num lugar inacessível, tão longínquo das coisas e vidas terrenas, excepcionalmente adquirem forma de simples mortais e, contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes em que um ser santificado apareceu encarnado neste mundo. Não porque não houvesse necessidade permanente de iluminar e amparar as almas que vagueiam num mundo sem qualquer protecção mas mais pela razão óbvia de que o lugar deles é no céu bem perto do ser Omnipotente. A Ele cabe administrar os destinos do universo, decidir o castigo ou o perdão e, só à sua Santíssima ordem poderão acontecer milagres.
Apesar de serem ainda sete horas da tarde o barqueiro deixou já deitados na cama os cinco filhos pequenos. Anoitece rapidamente e depois luz eléctrica que permitisse ficar mais algum tempo em serão, não existe nesta casa e mesmo nas outras que compõem o lugar salvo raríssimas excepções. Caminhou pelas ruas do Castelhão até à beira do Douro, foi à vida, ganhar o pão de cada dia a remar num monstro de madeira carregado de carvão antracite até Campanhã. Tripulante desses rabões negros, era como outros um escravo entregue à dureza da arte e às muitas fúrias do Douro.
Levou no coração as saudades de casa, da Palmira sua esposa que o via partir sempre com o coração nas mãos a recear o perigo que sabia, espreitava em cada curva do rio em cada madrugada de violento temporal, do Henrique, do Francisco, do Luís, da Ilda e da Isabel crianças pequenas que não compreendiam ainda as forçadas ausências do progenitor e ali ficavam naquele sombrio lugar sem pão, à espera que o seu regresso trouxesse ao menos uma côdea de broa para rilhar.
Nunca se viu semelhante miséria neste mundo, a vida aqui é um tormento, uma constante luta pela sobrevivência que nem todos conseguem garantir. Ficam-se mortos na tenra idade desconfortáveis, famintos, desnutridos e à mercê de todas as doenças do mundo. Morre-se por tudo e por nada, tudo são dificuldades mas vingar um filho é heróica tarefa que nem todos conseguem levar a bom porto.
De vez em quando o sino da capela toca a anjinho e mais uma urna branca e pequenina segue o caminho do cemitério. Lá dentro vai a vida que era flor e murchou antes do tempo. É preciso nascer-se muito forte para resistir.
A Palmira ficou a aconchegar a ninhada que dormitava toda numa cama só. Ali dentro das quatro paredes da casa de xisto faltava quase tudo mas o amor, o carinho e a ternura de uma mãe ainda não tinham acabado e mesmo subjugada pela desgraçada vida, aquela heróica mulher, desdobrava-se em cuidados a tratar dos filhos.
Era Inverno, o frio vindo das serras entrava pelas frestas da porta tangido por um vento muito forte e as mantas de aconchego daquela gente, eram retalhos de velhas velas dos barcos, pano cru tão crua como a realidade da vida.
Serenava a aldeia toda neste refúgio circundado por montanhas com o rio a ser sozinho a fábrica do pão e estalava enfim a paz na humilde casinha na Pia da Casca e um silêncio pesado caiu sobre a terra como um manto divino protector.
Bateram na porta da cozinha única na habitação e a mulher receando um assalto, espreitou pelo portelo antes de abrir com todo o cuidado. Era uma velhinha que batia, desleixada, suja, rota com os cabelos desgrenhados encharcada da cabeça aos pés e a tremer de frio que a olhava com uns olhos a reluzir na noite que eram uma súplica como a pedir-lhe; deixa-me entrar.
Era costume o Zefrino e a Palmira acolherem os pobres vagabundos que por ali passavam frequentemente; gente desalojada pela vida, pessoas vitimas das maldades de alguns e, num gesto solidário só conhecido pelos simples, acolhiam-nos e repartiam com eles o pouco que lhes fazia falta. Porém, já muitos indigentes por aqui passaram e tiveram abrigo mas uma velhinha como esta nunca tinha acontecido aparecer por estas bandas.
Ela entrou aconchegada pela anfitriã que ao reparar no seu miserável estado a lavou e vestiu com as suas próprias roupas. Depois de limpa, do caldo que tinha sobrado da ceia, (os pobres têm sempre caldo) encheu-lhe uma malga que a mendiga saboreou a sorrir. Rezaram o terço e a velhinha levantou-se da mesa da cozinha e foi espreitar pelo postigo e perguntou.
- O que é aquilo amarelo lá em baixo?
-Já vi que a senhora não é daqui perto; aquele ladrão é o rio Douro onde o meu Zeferino ganha o pão! Rouba-me a alma todos os dias e deixa-me aflita todas as noites! Anda cheio, cobre o campo da Redondela todo, é uma aflição! Quando for dia, vê-se melhor, agora a senhora vai dormir aqui, não está tempo para se andar lá fora de noite e muito menos uma pessoa da sua idade, amanhã logo se vê o que se pode arranjar!
Deitou-a na sua própria cama, aconchegou-lhe a roupa um pouco mais ao corpo e foi fechar a porta da entrada à chave como fazia sempre que o marido estava ausente. Meteu-a debaixo do travesseiro e adormeceu tranquila e feliz por mais uma vez ter ajudado um semelhante. Há povo fraterno e generoso em todo o mundo mas este da beira do Douro surpreende pelo tamanho do coração.
Na manhã seguinte, quando a claridade do dia entrou pelas frinchas do telhado, a Palmira levantou-se e foi certificar-se se a sua visita estava confortável.
A cama estava vazia, impecavelmente feita como se ninguém tivesse dormido ali mas da velhinha nem sinal. A chave continuava por baixo do travesseiro e seria impossível alguém passar pelo janelo.
A mulher estremeceu, era estranho o que estava a acontecer e muito mais estupefacta ficou quando vindo da cama da mendiga lhe chegou ao nariz um cheiro a rosa que se espalhou por toda a casa.
Nunca se ouviu falar de semelhante criatura e por mais que indagasse no lugar, ninguém disse ter visto pessoa que correspondesse à discrição da Palmira e nestes tempos de Inverno em Rio Mau quase ninguém passa.
O Zeferino regressou a casa no dia seguinte; vinha assustado, a viajem, tinha sido um suplício num rio turbulento e em Crestuma o barco adornou e esteve à beira de naufragar levando os barqueiros para as profundezas das águas.
- Estivemos perdidos Palmira, vimos a morte à frente dos olhos, só rezamos a Nossa Senhora, até o Bico aquele herege, se ajoelhou aflito!
Ela olhou o marido comovida sem dizer palavra a julgar coitadinha, que a Virgem Maria era aquela velhinha a quem dera guarida na noite anterior e o tinha salvo de uma morte certa.