segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Prisão de Sonhos

Fiz seis anos no dia seis de Outubro e logo na manhã seguinte e contra a minha vontade, meteram-me na escola.
Levava a tiracolo uma saca de serapilheira com um livro de leitura, uma lousa encaixilhada em quatro ripas de madeira e um lápis de pedra. Fiquei surpreendido com aquilo, nunca tinha visto semelhantes coisas e desconhecia em absoluto qual o fim para que serviam. Os meus colegas, rapazes e raparigas, levavam também numa saca igual ou parecida as mesmas ferramentas e, como eu interrogavam-se sobre a utilidade a dar aqueles objectos estranhos. Todos seguia-mos descalços pelo caminho abaixo, a minha mãe não me foi levar nesse primeiro dia, tinha de trabalhar e cuidar dos meus irmãos ainda fora da idade de internamento forçado. Era uma algazarra medonha, falava-se de tudo o que poderia acontecer quando finalmente entrasse-mos o portão de ferro da velha escola primária no Remoinho que tinha, cravada numa das ombreiras de granito, uma placa em mármore esbranquiçado que dizia ser propriedade do Estado.
Chorei, eu e os outros, aquilo aterrorizou-nos, entrar numa casa em que o estado é dono e senhor, era coisa de tal solenidade que nos deixou a todos silenciosos, não fosse o estado não gostar da barulheira que tinha-mos feito ao descer a rua.
O prédio já era velho nesse tempo, acho que nunca deve ter sido novo, sempre o conhecia desnudado de cales e pinturas, com falta de bocados de estuque que davam a ideia de que estava a sofrer de grave doença de pele. As portas eram velhas, as janelas também e em algumas delas os vidros tinham desaparecido partidos talvez por pedradas. Ao cimo das escadas estava a professora quieta, petrificada com um papel numa mão dobrada sobre a outra na barriga. Vindo dela chegava-nos um perfume novo uma fragrância desconhecida que se espalhava por todo o recinto e suavizava e adocicava o nosso olfacto imaculado como se fosse um jardim de rosas a aromatizar a atmosfera carregada de maus odores em que vivíamos e só cheirosa na primavera quando os campos se cobriam de flores de malquereres e os montes se enfeitavam com o amarelo vivo dos tojos e o violeta quase púrpura das urzes. Esperou alguns minutos e quando o sino de uma igreja bateu as nove horas, começou a ler os nossos nomes escritos nesse documento.
Chamou pelo primeiro nome e ninguém respondeu, então como quem já está habituada a situações desse tipo, autoritariamente disse em voz alta:
-Quando chamar pelo vosso nome, digam presente!
Assim foi, aquela turba irrequieta fez silêncio absoluto e as vozes que respondiam à chamada, pareciam vir de muito longe, tímidas abafadas pela tosse persistente de alguns, até chegar à minha vez, a ordem era alfabética portanto fui dos últimos a ser intimado.
-Presente respondi mentindo com quantos dentes tinha na boca. Presente implicava estar ali de corpo e alma, cheio de vontade em apreender as primeiras letras do abecedário ora eu, estava em todos os lugares que conhecia, no ribeiro a pescar, no poço de baixo a tomar banho ou nas bordas do grande rio a guardar a minha cabra, lá é que eu não estava de certeza absoluta e nem queria estar e duvido que, nesse momento aflitivo e de incerteza, todos os meus colegas na fantasia da mente, também não andassem a percorrer os caminhos da minha terra em brincadeiras alegres, livres e despreocupadas, cujo dono do prédio chamado estado, acabava de proibir condenando-nos a todos à prisão por muitos anos. A incerteza do futuro amedrontou-nos, a perspectiva do novo fez-nos tremer de medo.
O que foi que eu fiz para me meterem numa jaula com um quadro preto pendurado na parede rabiscado com letras brancas que nenhum de nós sabia decifrar. Que crime terei praticado para me sentarem numa carteira em que já faltavam algumas tábuas menos a de cima que tinha dois tinteiros de cerâmica branca enfiados em dois buracos? Devo ter deixado a cabra ir ao saco do milho do senhor Viana, pensei. E os outros que nem cabra têm? Que asneiras terão feito para serem como eu, encerrados numa sala com ratos a passear acompanhados por pulgas e piolhos?
As pessoas grandes não gostam mesmo de nós, voltei a matutar. Por que é que só fazem isto à canalha que não faz mal nenhum a ninguém? E os grandes, onde estão as raparigas já com peitos e os rapazes com barba na cara? Por que é que não se vê nenhum aqui e a professora não chamou pelo nome de alguns deles? Vi-os sentados nas pedras do largo quando há bocado passava por lá, riam-se como tolos a olhar para nós figuras simplórias e inocentes. Decerto já sabiam o que nos esperava, o fim da liberdade, a terrível caminhada para o degredo onde todas as luzes da nossa infantil felicidade, se apagavam lentamente.
Nunca me hei-de esquecer desse dia em que entrei pela primeira vez na casa do estado por que foi o momento em que ele me agarrou para sempre. Ainda hoje sinto o seu braço injusto e cruel a arrastar-me pela calçada do remoinho para me enjaular nos escombros que restam da escola primária propriedade que ele faz questão em deixar apodrecer.
A manhã foi passando, a professora esforçava-se para manter o silêncio dentro daquelas quatro paredes, o perfume dela a despertar-me a imaginação enquanto olhava pela janela o rio que passava e não me levava com ele até às mãos salgadas do mar que nunca tinha visto mas imaginava lindo e ficava indiferente apesar dos apelos que os meus olhos lhe faziam:
-Tira-me daqui diziam no silêncio da manhã estas vistas que ainda pouco ou nada tinham visto do mundo que se desenrolava à nossa frente. O mar tão longe e tão perto da minha vida, o oceano imenso que silencioso ouviu os meus apelos de criança e muitos anos depois me veio buscar para junto dele.
- Vais aprender a ler e a contar, tinha-me dito a minha mãe no dia anterior. Não disse nada, mergulhado em sombrios pensamentos só me apeteceu perguntar-lhe para que queria eu saber ler e contar se nada havia para ler nem para contar nesse tempo. Quem era eu para contestar a minha mãe, como poderia alguma vez nessa altura e sempre desrespeitar a sua vontade. Fiquei a olhar para o rio, a ver passar os barcos, a pensar que um dia havia de ser grande como o meu pai e então, ninguém poderia encerrar-me numa prisão como esta.
Os dias passaram, na escola aprendi a fazer números e letras na lousa. Os primeiros riscos podiam bem ser o desenho rudimentar do barco do ti Vicente a navegar no rio ou a água do ribeiro a cair na levada com amieiros tombados sobre o poço a chorar a nossa ausência. Nesse precário ensino aperfeiçoei a escrita, tornei-me num menino instruído cujas redacções impressionavam as próprias professoras. Quando terminei o ensino primário, sabia muito mais que metade das pessoas da minha aldeia.
A velha escola continua lá partida em bocados, silvas e árvores crescem no recreio abandonado e no local onde antes se situava a sala de aulas. Os telhados abateram e as eras, agarra-se às pedras que restam a desafiar a decadência. Nenhum som se ouve no interior do espaço de risos e brincadeiras do passado nem a professora se vê ao cimo das escadas a perfumar o ambiente, com um papel na mão a chamar pelos nossos nomes. Se chamasse já seriam muito poucos a dizer presente, alguns porque já faleceram outros por terem tomado direcções diferentes nas suas vidas, eu seria um deles agora por razões muito distintas das que me agoniavam nesses dias mas, desde esse tempo de criança de escola que nunca mais me perguntaram se eu estava presente fosse para o que fosse.
Desinteressaram-se de mim e dos outros, entregaram-nos ao mundo que fez de nós gato – sapato sem nunca nos terem perguntado se era dessa forma que queríamos viver.
Tenho de subir a calçada, aqui não há sítio onde eu possa enterrar tantas lembranças e já não se vê o barco do ti Vicente a cruzar o rio de uma banda para a outra a transportar passageiros, vou visitar a nova escola que não tem vidros partidos nas janelas nem ratos a passear acompanhados com piolhos e pulgas, onde não faltam tábuas nas carteiras e tudo brilha como novo. Vou observar o futuro que do passado só resto eu e um punhado de homens e mulheres obstinados em proporcionar às crianças de hoje um espaço de liberdade e de aprendizagem digno que nunca retroceda às carências e indiferença dos meus tempos de menino e se transforme numa prisão de sonhos dos mais pequenos.
Lá vão as crianças de mochila às costas sorridentes, uns nem por isso, choram agarrados aos regaços das mães, outros nem mochila levam, numa mão um bolo embrulhado num guardanapo de papel, debaixo do braço, uns cadernos a brilhar como novos. Vão a caminho da escola dos tempos modernos que não fora a tenacidade dos professores, seria transformada em prisão de alunos   pelas incapacidades de gestão dos sábios que nos têm governado. Vão ser encarcerados com os docentes o dia todo para que amanhã sejam homens e mulheres bem formados e muitos pais possam angariar sustento e muitos outros sem apetência para o cargo, fiquem livres para passear nos chopings e as estatísticas engordem com dados errados. Quem sou eu o deles que me lembra a minha meninice? Sou esse em que ninguém repara, que leva uma saca de serapilheira a tiracolo, que vai descalço e olha espantado em seu redor. Sou esse de cabelo espetado, de ranho no nariz, em calções onde já falta uma tira sobre um ombro e camisa branca sem metade dos botões. Sou um passarinho que caiu do ninho e desesperado chama pelos seus pais que não o foram levar pela mão à escola. Olhem todos, eu sou aquele a contar do último para a direita, não sou o que sonhei ser depois de ter aprendido a escrever, a ler a contar, a descrever todos os afluentes dos rios, todas as estações e apeadeiros das linhas de comboio e a fazer todas as contas possíveis e imaginárias. Sou esse que apesar de tudo transformou os rabiscos feitos num rectângulo de ardósia encaixilhado em quatro ripas de madeira, escrevendo com um lápis de pedra, em livros que contam histórias do seu povo. Sou também o menino de saca de serapilheira às costas, com um bolo embrulhado num guardanapo de papel, aquele acolá que chora agarrado às sais da mãe por que pela primeira vez na sua curta existência vai ter de deixar o amor e o carinho dela para ser entregue ao desconhecido que o assusta e amedronta, sou esse e os outros todos, revejo-me em cada um deles pedra bruta que rejeita ser modelada, um ser que se confronta com o saber e treme de medo por causa disso.
Sou outra vez criança, sinto-me parte deles todos, comungo as mesmas angústias e preocupações deste momento, sofro no coração que aperta cada vez mais por que vim de um mundo onde só havia amor, liberdade, beijos e abraços, cantigas ao adormecer, sorrisos de ternura e carinhos, tudo coisas que me faziam lembrar o céu, o paraíso onde julguei ir viver para sempre e agora sinto-me desamparado, sozinho no meio de muitas crianças ansiosas como eu.
Como a velha escola a desmoronar-se sobre o rio, eu aproximo-me do fim, sou tudo e não sou nada, mas consigo retroceder e avançar no tempo sempre que é necessário e encontrar-me puro nas lágrimas e nos sorrisos das crianças de hoje.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Gaivota

A auto-estrada quase deserta, a máquina com voz impessoal de mulher a pedir moedas no fim de cada lanço que o meu carro devorava. Esta voz persegue-me por todo o país. Insira o cartão. Efectue o pagamento. Retire o título. A última frase já quase não a oiço, arranco antes que a máquina me obrigue a retirar um papel que não serve para nada. Não há afectos vindos do aparelho de metal brilhante cheio de ranhuras onde se podem meter cartões, nem bom dia, nem boa tarde ou boa noite. Sempre a mesma ladaínha, sempre a mesma voz de telefonista antiga. Vou depressa, não sei andar a passo de caracol quando tenho urgência em chegar a lugar nenhum. O meu carro sabe isso, embala como um louco ultrapassado todos os outros automóveis e todos os limites. O mar a vir ao meu encontro perguntando-me por que foi que demorei tanto tempo a chegar. Resmungava visto de longe, ao perto era um monstro a comer os pedaços da manhã embrulhados na neblina.
No primeiro semáforo, um miúdo dentro do carro parado ao lado do meu com o dedo indicador espetado na testa, faziam-me por gestos o sinal de que eu deveria ser maluco. Acenei-lhe com a mão, depois e já quando o carro avançou ao sinal verde, retribuindo a minha saudação, com os outros dedos encolhidos e com o polegar em riste, incitava-me a fazer aquilo que eu tanto gosto.
Vai haver uma procissão à tarde parece, há tapetes de flores a cobrir os paralelos da avenida onde não passam carros nos dias com rezas. Um cartaz pendurado nos postes da electricidade indicam que são as festas da Senhora da Ajuda. Quem me ajuda a mim sem sitio para estacionar a máquina que me transportou neste dia de aglomeração de fiéis.
A areia da praia está sozinha, os barcos dos pescadores dormem sobre ela desalinhados como tropas derrotadas sem comando. Um miúdo a chamar-me louco de dentro de um carro nos semáforos. Um miúdo a dizer-me para ir aquele sitio que eu desejo ir. Uma gaivota que se desprende da nuvem de aves que sobrevoam aos gritos um espaço sem comida. Uma delas vem ao meu encontro, parece um mensageiro que trás noticias de um outro longe diferente do meu. Sobrevoa-me, grita-me aos ouvidos, parece conhecer-me desde o princípio da vida. Que vida! Qual de nós ainda respira o ar de um mar que nem nos reconhece, quem será o destinatário de mensagem tão urgente!
Posso tocar-lhe com as mãos, está tão perto de mim e da cidade que tem carrosséis a cercá-la como se a vida fosse isso mesmo, coisa feita de carros eléctricos de brincar e berrarias medonhas de alto falantes que animam os pobres. Parece que me olha com olhos de maresia habituados a oceanos desertos. Pára de repente de asas abertas sobre o ar e, no momento seguinte evolui contra o vento norte que sopra sobre a vendida junto à praia.
Não sei por que razão, fixei-me naquela gaivota tresmalhada, não compreendo o seu voo incerto, a emergência de terra que a trouxe junto de mim.
Aterrou sobre a areia, as asas abertas como se o seu voou nunca mais acabasse estendiam-se no chão inanimadas. Ergueu a cabeça, olhou o mar distante e depois lentamente deixou-se cair no tapete branco da praia. O vento sacudia-lhe as asas e as penas, era um anjo caído, parecia que voava depois de tudo ter terminado.
O que foi que se passou ave dos céus, por que deixaste de me mostrar o teu voo encantador, que força estranha te fez cair morta no sítio onde em breve vai passar a procissão da Senhora da Ajuda.
A cabeça caída sobre a arei prenunciava o pior. Estava muribunda com os olhos abertos a perpetuarem a imagem de um penedo em oceanos longínquos onde decerto tinha nascido.
Que sonhos são os teus ave que o mar adora, que destino te trouxe até esta praia onde só eu reparei em ti, na tua aflição e onde os miúdos nos chamam de loucos e se morre ao domingo num lugar enfeitado com flores e onde daqui a pouco vai passar uma procissão ?

Espinho, 18-09-2011, 12, 10h

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Um Amor Assim

Outubro de um ano que já passou confundido no calendário com o dia do meu aniversário. Já nem me lembro de quantos anos fazia nesse dia, provavelmente muitos, eu sou uma oferta dos dias, uma criatura que nunca há-de saber o dia e a hora exacta em que veio ao mundo. Há um perfume a cegar os momentos, uma fragrância que os rios produzem com o propósito de enganar e de iludir todos aqueles que julgam poder desvendar os mistérios que as águas encerram. Poderes ocultos só apreciados nos instantes em que o universo plana em sintonia com a terra e, das forças do firmamento celeste se soltam energias que se abatem sobre as correntes liquidas onde os deuses caminham à noitinha. Sou pois o produto de um amor antigo, genuíno e secreto como o eram quase todos os amores dessa época. Sentimentos fermentados nas profundezas de todos os infernos e abençoados por todas as divindades.
Lembro-me de coisas, de algumas outras me esqueci porque nenhum ser humano consegue reter na mente tantos episódios decorridos ao longo de duas gerações onde se acentuavam as diferenças, os métodos de vida, as dificuldades e as formas de pensar.
– Não dormes?
A noite pergunta-me incessantemente porque estou ali em frente da janela a pesar figos, a tentar imortalizar coisas perdidas, a reinventar momentos que passaram, a rever os cadernos rabiscados dos meus primeiros tempos de escola, estranha grafia imperceptíveis, gatafunhos que me abriram a mente e que hoje só me lembram a criança que já fui.
Às vezes olhava para a minha mãe sentada no sofá com o livro de orações preso nas mãos e os óculos a tombar em cima da ponta do nariz tentando descobrir naquele rosto enrugado as respostas às minhas tantas inquietações, aos meus conflitos interiores, à minha incapacidade de perceber o mundo que acontecia em frente dos meus olhos na vã expectativa de perceber tudo o que ignorava apesar de ser adulto e já ter vivido meia vida. De dentro daquele corpo outrora admirável, surgiram as respostas, frases soltas, silêncios prolongados, histórias de vidas que passaram por ela, pequenas dicas que pacientemente seria preciso decifrar e compreender. O seu coração era a minha sala de aulas, e ela a professora omnipresente que nunca se ausentava um só minuto durante o tempo das primeiras lições, que assistia ao seu aluno durante as vinte e quatro horas do dia ensinando-lhe tudo o que haveria de ser importante e decisivo na sua vida. Quando a surpreendia a ler ou a rezar, eu via nela todas as mães do mundo que vivem numa sociedade que as exalta e simultaneamente as obriga a tratar da casa e criar os filhos sejam quais forem as circunstâncias das suas próprias vidas muitas vezes desordenadas ao ponto de dificultar e tornar quase impossível o cumprimento de tão importante missão. Mulheres transformadas em donas de casa que se desdobram e acumulam tarefas num esforço sobre-humano para que nada falte no lar e à sua criação.
Era uma dama assim que estava sentada à minha frente depois de ter percorrido um longo caminho de sacrifícios misturados com algumas alegrias. Podia estar triste ou desanimada mas quando os seus olhos caiam sobre mim, o seu rosto iluminava-se de repente. Sorria ainda apesar de a vida lhe começar a escapar só porque uma das suas criações estava à sua frente e era como se um arquitecto a contemplar a sua obra-prima, um pintor vaidoso a admirar o seu próprio quadro exposto numa galeria de arte. Decerto procurava em mim defeitos e imperfeições sabendo de antemão que nunca os iria descobrir apesar de serem bem perceptíveis e abundantes, pois aos olhos das nossas mães somos todos perfeitos e irrepreensíveis.
Chegou o dia dos meus anos repetindo-se cronologicamente como no relógio dependurado na nossa sala de jantar a quem periodicamente o meu pai, subindo sobre uma cadeira, ia dando corda para que, impassível, marcasse as horas de muitas vidas num ritmo certo e implacável. O tic tac desse maquinismo antigo parecia o bater de um coração mas não era. As máquinas são insensíveis a tudo, ao avançar da idade, à dor e ao sofrimento e ficam a assinalar o tempo depois de todos nós desaparecermos. Não há como fugir das horas, dos dias e dos anos, queiramos nós ou não, o velho cronómetro tendo corda nunca pára, faz constar na monotonia com que a sua engrenagem se movimenta, que o tempo não tem retorno e quão efémera é a nossa passagem pela terra. Quando era necessário, o meu pai dava força ao aparelho, metia a chave adequada nos dois orifícios do mostrador prateado parecendo estar a apertar ou a desapertar parafusos. A seguir iniciava o processo de sincronizar as badaladas sonoras com os números romanos estampados na frente, rodando com os dedos os ponteiros para a direita. Batiam doze badalas, seguidamente uma, depois duas e assim sucessivamente até completar o ciclo de doze horas requerido pelo relógio. Eu ficava a vê-lo evolvido nessa tarefa e a dizer só para mim: Pai continue, não pare, faça o tempo avançar rapidamente, eu quero ser adulto amanhã, não me sinto bem a desempenhar o papel de criança sem nada com que brincar. Eu tinha a sardanisca que se passeava à beira do tanque mas deve ter morrido ou desaparecido e fiquei sem poder distrair-me. Não pare pai, já passou meio-dia de repente, nem dois minutos os seus dedos demoraram a cavalgar tantas horas que teria de matar com as minhas próprias mãos. Outra volta pai, muitas mais voltas, milhares delas até me sentir um homem grande como tu.
Quando terminava a empreitada, descia do escabelo e ficava frente à frente com a máquina a observar o compasso ritmado do seu bater, ao contrário de mim, desgostoso por que acabava de avançar mais umas horas na sua vida que já se inclinava perigosamente para o fim, parecia-me um ser humano com sentimentos iguais aos meus. Quando finalmente desistia de meditar, perguntava-me:
– Está certo?
Eu respondia quase sempre da mesma maneira:
– Tanto faz, para mim está sempre certo, pai!
Fazia uma rotação de noventa graus com a cabeça e olhava-me como quem olha para um extraterrestre:
– Sempre certo não, pode estar atrasado ou adiantado uns minutos, interpelava.
– E que interessa isso pai, mais minuto menos minuto para trás ou para a frente não tem importância nenhuma, horas certas só interessam aos aviões e aos comboios e nós somos pessoas, pai, dizia eu.
Calava-se, não me respondia, o diálogo entre nós foi sempre e só o essencial, havia uma muralha a separar-nos, um silêncio que nunca compreendi mas que podia ser de cumplicidade mas não o era. Ainda hoje procuro situar-me na sua posição, tento perceber o que o levava a ser tão ausente de mim e tão próximo de outras pessoas que nem da nossa família eram. Intimamente eu sei que ele me considerava como obra sua e que tão manifesto afastamento era apenas e só modéstia de artista, desprendimento após conclusão do prodígio. Com os pulsos um de cada lado da cintura puxava as calças com folga para cima e ia aviar os fregueses da taberna.
Nesse dia do meu aniversário em que todos parecíamos felizes e, como se pressentisse a proximidade do fim dos seus dias, a minha mãe disse-me:
– Filho, eu quero ser sepultada na minha terra!
Já sabia, aliás sempre tive a quase certeza de que a minha mãe nunca me iria desiludir mesmo nas horas antecessoras da morte, no dia em que já com noventa e três anos completados, lúcida e em pleno uso de todas as suas faculdades, marcava a ferros de fogo os traços das suas origens, renegava às dezenas de anos de convívio numa terra que sempre lhe foi estranha apesar de se lhe ter dedicado e dado tudo o que tinha para lhe dar.
Tentei contrariar a sua vontade, todavia sem grande convicção devo confessar. Lembrei-me nesse momento de cenas do passado longínquo e vi-a a calcar a pé o pó da estrada marejada em lágrimas acompanhando o carro de bois que trazia todos os nossos bens, quando tivemos de ir viver para outra terra.
– Mãe, ainda tem muito para viver, não pense nessas coisas agora, deixe-me festejar o meu aniversário consigo aqui presente, falaremos disso noutra altura.
Insistiu, esta é a melhor altura para falarmos disso, estamos todos juntos, assim não haverá desculpa para não cumprirem a minha vontade, disse ela a sorrir.
– Mãe, o pai está enterrado aqui, não acha que seria melhor ficar numa campa ao lado dele?
Olhou-me de uma forma estranha, acho que nunca vi aqueles olhos cor de mar tomarem uma tonalidade que se assemelhava à cor das águas de um rio como o douro. Pareceram-me então os meus, agrestes, violentos, suaves, ternos, verdes e penetrantes. Os meus olhos são os olhos da minha mãe, fabricados por ela, feitos como os dela.
– Não! Este meu desejo terá de ser cumprido. A minha terra é Rio Mau, foi lá que eu nasci e vivi. Durante muitos anos fui ausente dela, suportei saudades, chorei muitas lágrimas, só Deus sabe o quanto eu sofri durante estes anos todos. É lá que eu quero repousar para sempre!
Não era a minha mãe que dizia aquelas palavras duras com voz elevada, era antes um ser determinado em ser obedecido, um guerreiro que manifesta com veemência a sua última vontade.
Apertei-lhe as mãos nas minhas e fiquei a pensar que talvez um dia que agora recuso porque não quero lembrar-me de que vou perder todos os que amo, seja eu a fazer as mesmas exigências aos que me sucederão na certeza de que já sinto dentro de mim o mesmo apelo da terra que me viu nascer, o grito que vem do passado e me esmaga o coração, as vozes de antigamente a clamar nas noites de vigília, o desejo de repousar também lá em cima onde mesmo depois de mortos poderemos ver o rio Douro, o rio Arda e o rio Mau a toda a hora.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Solidão

Às vezes é por terra que percorro a distância entre a foz do rio Douro e Miranda onde ele entra em Portugal e começa a fazer fronteira com Espanha até Barca D´Alva. A partir dali, embrenha-se todo no nosso território e segue a serpentear tortuoso por entre serras até chegar ao mar onde desagua coroado pelas cidades do Porto e V.N. de Gaia.
Vou por estradas que subindo e descendo montanhas, apontam diversificadas direcções sempre com o rio à vista. Nos planaltos do extremo nordeste, assisto à desertificação e ao abandono de campos, de aldeias inteiras deixadas entregues à sua sorte pelo resto de um país que perdeu já a sua identidade. Este comportamento tem uma razão que se prende com a vida desumana que tem feito parte de cada uma das gerações ligadas às actividades agrícolas consideradas, sector primário. Nenhuma das famílias que viveram da agricultura de subsistência desejam para os seus filhos e netos, o regresso a esse tempo de sacrifício motivado pelo desprezo com que a sociedade quase no seu todo em determinado momento da nossa história olhava para os trabalhadores do campo. Intitulava-os de labregos e outros apelidos redutores e depreciativos que aliados a más condições de subsistência fizeram um sector essencial ao equilíbrio sustentado de um país desertar e empreender métodos de vida semelhantes às dos cosmopolitas maldizentes
Há também uma outra razão muito mais pomposa que encanta os ouvidos dos mais susceptíveis às moderníssimas chamadas do mundo em constante mudança. Chama-se cosmopolitismo que desgraçadamente empurra toda uma nação na direcção do mar onde fica emparedada e sem horizonte capaz de lhe proporcionar a continuidade do avanço que empreendeu. Restar-lhe-á recuar, voltar às origens e empreender futuros. As gerações modernas têm pressa de chegar ao fim. Esqueceram o presente e já vivem no futuro onde tudo constitui incógnita e provoca desesperos medonhos. Quem lhes diz que a vida se faz caminhando paulatinamente? Os governos? Não, esses existem para administrar aglomerados centralizados o mais possível, acessíveis aos toques das suas varas, quais pastores que os tosquiam constantemente e, assoberbam com promessas que raramente cumprem. Descaradamente já nem percorrem o país rural de modo a sentir-lhe o pulso, a agonia, a lentidão da morte que também vai ser a deles e quiçá, ajudá-lo a renascer a não ser nas campanhas eleitorais onde se pavoneiam em sumptuosas caravanas de carros de luxo a alta velocidade à cata dos votos dos lorpas e nunca param nas terras pequenas seguindo directos aos auditórios onde os ditos reunidos por pequenos oligarcas locais pacientemente os aguardam agitando freneticamente as bandeiras do partido que muitos nem conhecem. É a política, a arte de vender enchidos com pouca carne lá dentro. Todavia não é a política em si uma actividade perversa, os actores políticos, muitas vezes sem formação cívica, é que não reúnem vocação para desempenhar essa função e dedicam-se em primeira instancia a resolver os seus problemas, os dos amigos e familiares e os da sua quinta improdutiva por flagrante má gestão. Esses representantes do poder eleitos democraticamente, são propostos ao voto não pelas suas capacidades morais, intelectuais ou outras não menos importantes ao desempenho de cargos públicos, são fabricados à medida das necessidades das organizações partidárias onde militam. Indiferentes às causas colectivas, egoístas, ignoram conceitos solidários, procedem como pequenos ditadores impondo a sua vontade contra tudo e contra todos às vezes por manifesta burrice.
A indiferença é o maior sinal da incompetência de quem gere. O castigo surgirá num tempo oportuno não sem antes haver choros e ranger de dentes até que o interior erga altivo a espada da razão para repetir a solidariedade desaproveitada só porque nada teme, nada o assusta nem a morte consentida por quem manda.
Repentinamente o rio desaparece-me das vistas, esconde-se por de trás de uma elevação para inesperadamente me surgir mais à frente surpreendente e majestoso. Cada uma destas sucessivas aparições desvenda um panorama novo e tal como Miguel Torga descreveu num trecho sublime, não é um quadro que os olhos contemplam, é uma desmesura de natureza arrogante. Poios que são esforços de indivíduos formidáveis a subir as encostas, vultos, colorações e toadas que nenhum artífice, escultor, pintor ou até músico nunca conseguiriam representar na perfeição das suas artes, são horizontes ampliados para lá dos patamares admissíveis da visão, um cenário que arrebata, uma vista fantástica a nascer entre a terra e o céu.
Nada me consola mais que essa peregrinação pelas terras que dão vinho generoso e onde corre um rio sempre lá ao fundo dos vales que adoptou como leito. Tudo é dinâmico, nada se repete etapa após etapa e, os contrastes naturais são tão apelativos que algumas vezes assustam e outras vezes nos comovem.
Um dia quando viajava pelo douro, afastei-me um pouco do trilho conhecido e, por uma estrada secundária fui parar a um ermo onde em tempo passado existiu uma aldeia. Havia velhas casas desmoronadas, árvores secas, roseiras que deixaram de ter água, pedras caídas por todo o espaço como se uma bomba atómica tivesse deflagrado ali e deixasse só restos espalhados no chão queimado por sucessivos incêndios e a terra em repouso à espera dos arados a ver ao longe a fome a entrar em muitas casas.
No meio desse cenário desolador, havia um edifício cujo aspecto me pareceu ter resistido à fúria de todas as intempéries, ao desleixo que a nação aplaude.
Sentada na pedra de um fontenário que teimava em gotejar dia e noite estava uma velha mulher e, ao lado dela um cão já velho deitado no chão de cascalho, dormia tranquilamente. O suposto atento vigilante, não tinha dado pela minha presença ou então já nem lhe interessava quem quer que fosse a pessoa que viesse interromper-lhe o deleite do sono. A prolongada solidão gera o cansaço no ser e transforma homens e animais em pedras de indiferença.
As ervas cresceram ao ritmo acelerado do abandono, o único conhecido ritmo deste lugar perdido. A velocidade da seiva que nutre caules verdes, já há muito que só alimenta os fios do esquecimento. São silvas que crescem espinhosas e amortalham lugares onde a vida existiu. Quase todos os homens e mulheres que aqui nasceram, envelheceram com a terra, morreram ou partiram em busca de melhor pão.
A velha parecia-me uma fotografia antiga perfeitamente enquadrada na tristeza da paisagem, descolorida como estátua onde se agarram musgos eternos. A sua cabeça coberta por grinaldas de cabelos brancos, tombava sobre o peito como quem subitamente adormeceu cansado. Talvez sinta o desespero de quem ficou quando todos partiram ou reflicta sobre o mundo que a deixou sozinha neste deserto sem pessoas que se precipita sobre um rio. Resta-lhe pousar a mão sobre o joelho sentada nesta pedra de granito tornada áspera pelo tempo e esperar pelo fim dos dias.
Uns olhos pequeninos afundados em dois buracos circundados por peles encorrilhadas vieram sem pressa até mim e, a expressão daquele rosto antigo manteve-se inalterada como se eu próprio fosse apenas mais um vento que vinha do sul sacudir-lhe os cabelos ralos e brancos. Ventos perpétuos que por aqui passam todos os dias a sacudirem as pedras e transportam dentro da sua permanente erosão poeiras que vão apagando os vestígios humanos.
Senti desejo de comunicar com aquela figura que me fazia lembrar a escultura do mestre Soares dos Reis, O Desterrado, magnifica simbologia do espírito de decadência da nação, que imperava em finais do século XIX. Desterrada também ela estava num lugarejo esquecido por via de acontecimentos semelhantes aos de hoje ocorridos há muito mais de cem anos.
A história repete-se duas vezes, escreveu um dia Marx: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Curioso, qualquer uma delas refere-se a uma peça teatral, será então de supor que a história ao repetir-se não passa de mera representação previamente encenada onde as pessoas se movimentam num palco colectivo sem esperança e embarca no mesmo conflito de identidade característica dos povos em vias de desenvolvimento.
Segundo Aristóteles, a tragédia deve cumprir três condições: possuir personagens de elevada condição e ser contada em linguagem distinta e digna e ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados pelo seu orgulho ao tentarem rebelar-se contra as forças do destino. De finais tristes e desmesuradas loucuras está repleta a nossa história contemporânea vergada a interesses individuais que geram disparidades e acentuam distâncias abismais entre ricos e pobres.
Por sua vez a farsa é uma modalidade burlesca também de peça teatral caracterizada por personagens e situações caricatas, é um texto de carácter cómico que o autor faz com o objectivo de satirizar algum comportamento que ele considera nocivo para a sociedade, fazendo com que, quem assistisse ao teatro, visse como é ridículo ter aquele procedimento passando a repudia-lo. Isso fez com que a sociedade rejeitasse determinadas conduta, prejudiciais a todo o povo.
Burlescos e cómicos têm sido os últimos tempos que vivemos em que parte da sociedade enaltece a falta de cultura, ética, a ausência de princípios, a desqualificação e, em prejuízo destas, se elogia a esperteza, a ganância, o exibicionismo folclórico e quem mediático se tornou pelo simples motivo de agradar às massas estúpidas que cultivam celebridades duvidosas.
Seja como for, nenhuma delas impede a caminhada do mundo para a auto-destruição deste tipo civilizacional tal o conhecemos, cenário cada vez mais plausível no horizonte contaminado da terra, tragédia ou farsa a história moderna não é mais que o reflexo da nossa incapacidade de conquistar o futuro honrando o passado e de corrigir imensos erros transactos apreendendo com eles e não os repetindo, ou será a inevitável execução de ordens naturais programadas para mudanças sucessivas no universo onde habitamos? Outras culturas emergirão após o desaparecimento da nossa, nada se perderá e, como aconteceu até aqui, tudo se vai transformar.
- Bom dia minha senhora!
- Muito bom dia, respondeu-me sem qualquer surpresa nas mãos que lhe dormiam no regaço, quietas, enrugadas e queimadas por um estranho lume.
-A senhora mora aqui, perguntei.
-Há oitenta e nove anos e meio meu senhor, nunca daqui saí até hoje!
-Tem mais alguém a viver consigo?
-Não meu senhor, já há quinze anos que moro aqui sozinha, foram-se todos embora!
-E não tem família?
-Não meu senhor, morreram todos, fiquei só eu!
Enquanto falava reparei que os olhos dela pareciam duas telas onde passavam imagens de cenas que só ela viveu. Olhos de velhos onde se acumulam saberes e visões esquecidas, vistas que a bruma dos anos embaciou e roubou o brilho mas nem por isso deixaram de ter a sua luz magnífica.
-Deve ser muito difícil viver neste sítio sem ter companhia, murmurei.
- Não meu senhor, tenho aqui a minha vida toda, criei-me nestes caminhos, corri os montes antes florestados na apanha das lenhas para sustentar o lume da lareira onde se cozinhava todos os dias, aqui me fiz mulher e me casei, foi aqui que eu nasci e fui muito feliz durante muitos e bons anos! Isto dantes era uma terra cheia de gente e de vida, havia festas e romarias, as vinhas estendiam-se quase até tocar no rio, os campos davam comida para as pessoas e para os gados. Depois começaram a ir uns atrás dos outros para o estrangeiro, isto parou de recompensar o esforço que se fazia para tratar a terra, o vinho deixou de valer dinheiro, ninguém o queria nem de graça, compravam outro que vinha de fora mais barato mas feito a martelo, desapareceu tudo até só ficarem os velhos, os cães e os gatos. Acabou tudo meu senhor até as árvores que existiam aqui em volta foram queimadas pelo lume dos fogos que já ninguém apaga.
Nisto o cão levantou-se e começou a ladrar ameaçadoramente na minha direcção.
-Cala-te Mondego, só te chegou o cheiro ao nariz agora? É um senhor do Porto que aqui está, veio visitar-nos disse ela enquanto lhe afagava ternamente a cabeça. O animal calou-se, rodou duas vezes sobre si próprio e voltou a esticar-se tranquilo no chão.
- Sabe meu senhor, ele ficou velho como eu fiquei, está surdo e cego, só atina pelo faro coitadinho!
-Pobre e dedicado animal, o que será que te prende aqui pensei!
-Deve ser muito triste viver neste lugar sem ver nada para lá dos montes, retorqui.
-Olhe lá para baixo meu senhor, não vê o rio douro? Está sozinho como eu e não se queixa, fazemos companhia um ao outro, vamos vivendo olhando-nos todos os dias!
Apeteceu-me beijar aquele rosto sereno, contendo todavia esse impulso repentino, perguntei-lhe:
-Posso dar-lhe um beijinho de despedida?
-Beijos não meu senhor, desculpe mas eu só fui beijada por um homem em toda a minha vida, era o meu António que descansa além no cemitério, todos os meus beijos ainda são só os dele!
Ah ínclito povo do meu país quase desfeito, roubam-te tudo o que te fez culto e empreendedor e impassível, continuas a envelhecer sentado numa pedra.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fado Falado

Anda cá, vem sentar-te no meu colo, apetece-me falar contigo hoje de homem para homem sem ter de partilhar com o mundo que não me quer ouvir, as razões por que as palavras podem ser um fado.
És ainda uma criança que não entende a grandeza do projecto que te colocaram nas mãos. Viver é muito mais que respirar, é muito mais que adquirir força nos músculos e empreender grandes caminhadas. Há só duas formas de viver uma vida; Uma é deixar que seja ela a escolher o caminho, a outra é sermos nós a definir o rumo e a marcar o ritmo das passadas no percorrer da direcção que pretendemos seguir. É como um barco que vai sempre para onde o comandante o manobrar.
A tua irmã e as tuas primas, brincam com bonecas, são mulheres, nascidas mulheres, sempre desempenharão o papel de dar amor, consolar, ponderar, discernir, eleger, conciliar, planear e procurar o ninho onde cresçam sob sua protecção os seus descendentes. Tarefa dificil, gigantesco empenho, vocação natural. Trazem dentro delas na carta mestra das suas origens uma lâmpada de Aladino que realiza sonhos e pode tornar em realidade as mais extraordinárias fantasias. Porém só lhes vai ser possível pedir três desejos que no limiar da vida se ressumem a virem a ser rainhas ou princesas e poder casar com o homem mais rico e mais bonito do mundo.
A lâmpada dos milagres esgota-se cedo, quando crescerem, chegará o dia em que vão ter de ser elas sozinhas a tentar realizar todos os sonhos que sonharam. Momento dramático esse meu pequeno em que sem ninguém que as possa amparar e aconselhar na tomada de tantas e dificeis decisões, sucumbirão em lágrimas aos golpes traiçoeiros do destino. Destino, lembra-te que segundo a mitologia grega, eram três mulheres, todas irmãs quem determinava o destino de todos os mortais. Mantém-se todavia dentro delas intacta a esperança, a mesma que vem de geração em geração a temperar os desenganos e as angústias dos dias que todos os que vivem experimentam. O sol que, aconteça o que acontecer, erguer-se-á todas as manhãs por detrás daquelas montanhas com a eterna missão de aquecer a terra e trazer de volta os sonhos e as ilusões que no dia anterior levou com ele.
Se respeitares a natureza inteira da mesma forma com que ela vai ser generosa contigo e te vai amar, virás a ser um homem realizado alcançando aquilo que é afinal o desejo comum a todos os mortais; viver em paz e ser feliz.
Respeita-a portanto acima de tudo e de todos por que sem ela jamais conseguirias pisar o chão deste mundo e se conseguisses, nunca sobreviverias num caos então tornado absoluto. Usa da mesma consideração para com os teus semelhantes e nunca permitas que conscientemente, dos olhos de alguém brote uma só lágrima de sofrimento causada pela tua indiferença e insensibilidade perante as fraquezas dos outros.
Ainda não te contei o que foi a minha vida mas temo que tenha sido uma fotocopia tirada na mesma máquina que regista e duplica as vidas de biliões de pessoas espalhadas pela terra, por humildade nem sequer te falarei nisso. Teve tudo e de tudo como as deles como decerto vai ter a tua com uma pequena particularidade comparada com as de muitos é que, apesar de ter sido ela a escolher o meu caminho, momentos houve em fui eu a comandar o meu barco e a traçar os desejados nazimutes. Nunca hei-de saber se o fiz bem ou se o fiz mal mas aprendi e fiquei a saber que, por nescessidade, algumas vezes todos nós teremos de agarrar com força o leme da nossa embarcação e marcar o rumo que nos pode levar ao porto da salvação ou a desfazer-se contra as pedras.
Olha duas rolas a cantar pousadas naquele pinheiro. Vieram de muito longe, atravessaram mares e continentes estranhos em busca de um lugar de paz onde criar os filhos. Tal como o seres humanos, invadiu-as um sentimento de melhor vida, um apelo do sangue herdado dos seus antepassados que num dia longínquo também para aqui vieram à procura do sol para criarem os filhos. Há um ninho naquele arcipreste, nesse mesmo ninho que vai resistindo às inclemências do tempo como ligeiras reparações feitas por eles. Dentro dele duas pequenas crias que os pais alimentam e desdobrando-se em permanente vigilância cuidam e protejem e fazem-nas crescer, há vidas dependentes nesse ninho tal qual como tu estás agora. Talvez nenhuma delas sobreviva e, depois de tantos desvelos e aprendizagem, deixem de voar vazadas por um tiro de caçador de mortes sempre prontos a destruir as belezas do mundo por que os homens gastam biliões para se instruírem e tostões para se cultivarem. Repete-se à frente dos teus olhos pequeninos as cenas centenárias que conduzem à preservação e continuação das espécies, caminho que a natureza percorre incansavelmente contra tudo e contra todos, sem ajuda de ninguém.
O sol vai a desaparecer por cima de Melres, é um enganoso por-de-sol, por que nesta fase o astro rei não pôe nada, tira tudo, leva dentro daquele clarão vermelho, muitas fantasias, os sonhos de alguns e outras abundantes ilusões que não chegaram a concretizar-se no efémero espaço de um só dia com luz.
Voltará amanhã então para repôr a esperança, vamos os dois vê-lo nascer do alto da serra da Boneca. Será um momento esplendoroso e inesquecível, maravilhosa e perfeita sinfonia que nenhum famoso compositor seria capaz de executar numa grandiosa partitura.
Primeiro um clarão enorme elevar-se-á no céu a Este, uma bola de fogo crescerá lentamente como se das entranhas da terra se soltassem em erupções fantásticas, todos os magmas ainda incandescentes. Iluminará as cristas das montanhas e fará ressuscitar a vida em todos os recantos onde chegar. Sem vacilar um instante que seja, descerá às profundezas dos vales onde correm rios como corre o douro que é nosso que, num cintilar de ouro e prata, despertarão também. Trará com ele novas e diferentes fantasias, outros sonhos e muito mais ilusões que poderão ou não sobreviver como aconteceu aos que ele leva hoje consigo. É um ciclo Afonso, uma roda viva que não pára repetindo-se eternamente.
Adormeceste no meu regaço, deves ter regressado agora no lugar de onde vieste, este mundo aflige, desilude e ilude, não é tão igual ao ventre de uma mãe onde toda a protecção é natural e todos os sonhos são permitidos, decerto nem conseguiste ouvir um terço das minhas palavras. Também não interessa para nada repeti-las por que a vida Afonso, não cabe em nenhum livro nem em nenhum filme e ninguém te poderá descrever por palavras o que ela é, como irá ser a tua por que apenas se conhece como foi parte da de alguns. A vida meu amor, é uma fado falado!



In "Insónias" de Manuel Araújo da Cunha

domingo, 24 de julho de 2011

Cidade Surpreendente

A noite desceu sobre o rio tão repentinamente que entretido a contemplar a beleza do céu, nem sequer me apercebi. A luz do sol esgueirou-se no cume de uma montanha que delimitava o cenário que tinha pela minha frente e, a claridade crepuscular que ficou, apenas possibilitava vislumbrar as silhuetas do meu pequeno mundo, espaço demarcado que me cercava e um rio ao fundo a brincar com as mãos.
Primeiro escondeu-se o fulgor que mostra tudo, desnuda, fere com brutal realidade e faz resplendecer as vidas das pessoas e as coisas comuns da terra, depois afluíram as sombras que ocultam, atemorizam e resumem a paisagem à condição de matéria sem vida. Começava um período sombrio, onde a visão fica diminuída, espaço propício para que a humanidade crie os seus mitos e temores incompreensíveis. Ruídos inexplicáveis, visões sombreadas incendeiam a imaginação de muitos, fazendo surgir os vampiros, lobisomens, bruxas, deuses coléricos e todo um exército de entidades fantásticas.
Enquanto a terra faz o seu movimento de rotação, os morcegos e as corujas de pios agourentos, sobrevoam desajeitados o espaço à procura de insectos voadores para se alimentarem e outras espécies de bichos rastejantes e cobras, lagartos, sapos, javalis, ouriços-cacheiros e muitos outros que durante o dia permanecem escondidos nas suas tocas, vagueiam por todos os lados movidos pela necessidade de sustento, pela segurança que as trevas proporcionam e pela ausência de luminosidade que tornaria alguns quase cegos. Uma vida repleta de seres que a noite agasalha no seu manto protector eclode lentamente, a terra anima-se de uma forma completamente distinta da que mostra durante o período com luz e a natureza aproveita para continuar o processo quase perfeito de manutenção das espécies.
A minha janela aberta, a cadela a dormitar enroscada a meus pés lá fora um sopro quente e abafado de verão a percorrer os caminhos vazios da minha aldeia lado a lado com fantasmas de criaturas já falecidas a tentar reviver momentos de uma vida inacabada ou mortos à procurara por vingança, ou aprisionados à terra por actos ruins que praticaram durante a vida ou ainda uma pessoa que lhes jurara amor eterno.
Eram quatro, três homens e uma mulher, pararam por baixo da minha janela, acenavam-me com gestos de mãos e na penumbra não reconheci nenhum deles, não era gente do meu tempo, talvez fossem criaturas que aqui residiram em épocas passadas. Distingo-lhes as feições as próprias roupas cujo estilo me parece ser antigo. Ao contrário das discrições sobre fantasmas, de que eles seriam formados por um material enevoado, etéreo que escapa ao tacto dos vivos, estes apresentam-se demasiado reais, parecem-me tão autênticos que nem sequer me assustam.
-Que estás aí a fazer, anda connosco, vem para um lugar onde tudo é maravilhoso, deixa de te preocupar com os outros, não precisas, isso é tudo uma mentira, o mundo não merece a tua preocupação, vem, tens gente à tua espera, os teus pais, os teus avós, o teu irmão e todos os outros a quem amavas estão ansiosos pela tua chegada, disse um deles
-Fora daqui, desaparecei, estou farto da vossa conversa, todos os dias a mesma retórica, deixem-me sossegado, respondi meio irritado.
-Vais ter de vir, é uma questão de tempo, o que é que te prende aqui, achas que isso é viver, disse outra vez a mesma voz. Agastado, apontei com um dedo as luzes a tremular no horizonte negro e não disse nada.
-As luzes, tu estás preso às luzes mas olha que a ti já nenhuma luz te pode valer, acabou o teu tempo, vais ficar no escuro quando tudo se apagar, anda connosco, vem enquanto te podemos ajudar!
Já não se encontra paz em lugar nenhum, balbuciei, durante o dia são os vivos a transformar-nos a vida num inferno, durante a noite são os mortos a proibir os sonhos.
-Fora daqui repeti agora elevando a voz. Se não se põem a mexer atiço-vos o cão! Foram-se por entre gargalhadas colectivas enquanto a minha cadela levantava a cabeça lentamente e olhava para mim como quem olha para ninguém, como um cão que sente pena do chefe da matilha que enlouqueceu. Julgo que perdia a minha autoridade sobre ela nessa madrugada, pareci-lhe humano e os cães gostam mais dos seus iguais e só nos obedecem e aceitam como líderes por que vêm em nós um cão como eles embora mais corpulento e mais forte.
Um rumor surdo chegou-me amortecido pela aragem, um clarão desconforme no horizonte pressagiava a vizinhança da cidade surpreendente onde tudo sucede sem qualquer antecipado aviso ou compaixão e as criaturas coabitam amontoadas em silos gigantescos ignorando-se umas às outras, vegetando na selva supostamente civilizada. Aglomerado urbano e humano de grandes dimensões, a metrópole à noite transforma-se numa gigantesca central eléctrica produtora de luzes que matam as estrelas, ocultam o céu e despedaçam os sonhos.
Os clarões intermitentes que rasgam a noite, não são apenas labaredas a ferir um firmamento pardo transformado em cemitério onde jazem as esperanças de muitos, são interferências nas vidas privadas das pessoas e agressões a toda a natureza envolvente. Nos bares e outros clubes de diversão nocturna que ela sustenta, desarticulam-se corpos nas pistas de dança, marionetas bizarras possuídas e dominadas pelo efémero efeito de pastilhas de felicidade instantânea misturadas com bebidas exóticas de elevado teor alcoólico manipuladas por pessoas dementes e as lâmpadas multi-coloridas como loucas, rebolam-se nos tectos e às vezes as potentes luzes dos holofotes que cegam, desvendam pedaços de semblantes de jovens velhos, olhos baços, esgares de alienação, expressões comuns características dos momentos de pavor antecessores da morte colectiva e inesperada. O potente e ensurdecedores sons de músicas estranhas, abafam as palavras, os sorrisos e as lágrimas. Regabofe, festança e folia são os ingredientes que a cidade serve em taças de desespero que os jovens sorvem até à exaustão. A cidade não dorme, surpreende! Lá fora haverá gente a dormitar estendidos nos chãos dos átrios exteriores aos bancos e a outros estabelecimentos comerciais. Desabrigados agasalhados precariamente por papelões despejados na rua, pessoas que nós todos expulsamos da fraternidade, seres a quem a cidade hospeda no seu espaço de todos, prostram-se sobre a indiferença, ameaçam morrer antes de o sol chegar. A urbe já não tem quem a habite durante a noite onde tudo pode suceder e a segurança enfraquece, os milhares que a enchem em quanto é dia, afastaram-se para a periferia na tentativa de encontrarem paz e sossego.
Tens frio? Tens fome?
Havia luzes artificiais acesas nas ruas e nas casas espalhadas pelos povoados rurais que se avistavam da minha janela indiscreta de onde tudo se vê, tudo se compreende e pouco ou nada se sente por ser interdito e politicamente incorrecto exteriorizar emoções.
Primeiro eram centenas depois e à medida que a noite avançava, iam-se apagando, uma aqui, outra ali como se uma mão gigantesca dispusesse da claridade e das sombras conforme a sua vontade ou as suas particulares conveniências. Tudo a recolher ao silêncio absoluto, tudo a desaparecer na escuridão onde os corpos descansam vigiados de perto pelos sonhos misturados de pesadelos medonhos. Sob vigilância do clarão distante, ficaram apenas duas luzitas a tremular no escuro, sentinelas atentas, candeias que perpetuavam os vestígios da presença humana que teme as trevas ou apenas artificial claridade de dois lares, moradias onde o esforço diário ainda não tinha terminado. Já não dedilhava a minha guitarra, pousei-a a meu lado e deixei que os sons da noite tomassem conta de todo o ambiente que me cercava enquanto o meu pensamento se fixava nas tuas palavras tardias, ecos que se repercutiam no meu cérebro e naquelas duas luzes teimosas em se extinguir.
Olho as minhas mãos, os dedos que fabricam acordes nas cordas do instrumento e entristeço-me por me sentir tão incapaz e pequenino perante uma noite que, sabe-se lá porquê, decidiu abrir-se para mim.
Onde estás?
Era já madrugada, dentro das quatro paredes daquelas duas habitações, alguém ultimava tarefas, talvez duas mulheres a preparar roupas para o dia seguinte, a limpar, a lavar, a passar a ferro os trapos de crianças que já dormiam acumulado trabalho que se repetiria todos os dias, todos os anos, nos seus lares e nos silos da cidade surpreendente limpando o sujo de estranhos para poderem sobreviver, mulheres que tantas vezes fazem o papel de mãe e de pai em simultâneo ou outras pessoas que acudiam a idosos enfermos desesperados na solidão dos dias e das noites. Apeteceu-me gritar nessa hora de deslumbramento, a injustiça do mundo molesta-me, quase me faz perder a esperança e então, imbuído por sentimentos solidários, desejei que os acordes e sons da minha guitarra pudessem chegar até aquelas duas moradias e amenizassem as canseiras de uma ou outra mulher martirizadas ou suavizassem os tormentos de um idoso doente e a paz e tranquilidade que o corpo e o espírito anseiam, descessem para todos sobre o mundo.
O rio brilhava reflectido o luar, desenhos rabiscados na água tela de abstraccionismos, a decomposição da figura, a simplificação da forma, os diferentes usos da cor, o descarte da perspectiva, da técnicas de modelagem, a rejeição natural dos jogos convencionais de sombra e luz, ruídos, melodias, sucessão coerente de sons e silêncios com identidade própria, estranhas formas a gritar vivas na penumbra. O pintor é louco!
Onde estás?
Só o rio douro sentia e compreendia a minha reflexão em silêncio enquanto eu permaneci acordado até à última luz se apagar nas casas e a magia da noite que me fascinava, onde já esquecido do tempo, dos fantasmas que me perseguem desde que nasci, ia-me falando do clarão distante, apontando a cidade surpreendente onde os meus sonhos de felicidade se desvaneciam em cada grito lancinante dos que já não têm lá abrigo.
A madrugada e eu, protótipo de futuro fantasma isolados e perdidos algures numa outra dimensão onde tudo é excessivamente real e a vida dói e tu a chegares demasiada tarde ao princípio da minha noite.
Onde estás?
Quando amanhecer tu vais perguntar-me constantemente por que não consigo ser feliz! Dois barcos no rio a ressuscitarem das sombras, criação da minha mente exausta, duas novas esperanças ou apenas mais duas ilusões a juntar ao imenso rol de acontecimentos de uma vida.
A cidade vai acordar daqui a pouco, o clarão artificial que denunciava a sua presença, confundir-se-á com a luz de mais um dia que nasce e, liberta dos lixos nocturnos, resplandecerá distanciada e muito longe do alcance dos meus olhos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha

quinta-feira, 24 de março de 2011

Palavras -Conversas com um rio.




NOVO LIVRO. Apresentação, Sábado 26 Março 2011, pelas 17 horas no El Corte Inglês, V. N. Gaia.

Entrada livre

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Migalhas

Uma chuva miudinha cai lentamente sobre a terra já encharcada até aos ossos. De vez em quando um raio de sol rasga as nuvens e dá pálido colorido à paisagem molhada. No sino da capela de Rio Mau batem cinco horas da tarde, o douro está sereno como um lago e o perfil prateado das águas, reflectem o casario e as árvores da beirado rio.
Migalha vem dos lados da taberna onde certamente afogou mais uma tarde na ilusão dos copos de vinho tinto. Cambaleia o barqueiro que perdeu já o modo de traçar um azimute, o rumo que o poderia levar a dias mais felizes. Há muito tempo largou o leme que comandava a embarcação da sua vida deixando-a à deriva num oceano austero, solitário e sem afectos: Todavia segue em frente num caminho conhecido e traçado pelas infelizes circunstâncias da vida.; o banco de pedra junto à tília, onde decerto ainda pairam fantasmas de outros tempos.
Abeire-me dele tentando não perturbar a magia deste momento.
- Boa tarde, digo.
Não respondeu, julgo até que nem deu pela minha chegada. A chuva cai e molha-lhe a roupa, molha-lhe o corpo, mas ele serenamente e absorto, continua a olhar para o rio testemunha silenciosa de amores que faliram e paixões que vingaram. Assim permaneceu por algum tempo quedo, mudo, silencioso como se o mundo se tivesse afastado e o deixasse sozinho nesta hora dramática. Repentinamente sai dos seus lábios um murmúrio de canção. Primeiro baixinho como quem chora, depois um pouco mais alto como quem timidamente canta:
- Tu não sabes que dentro da minha alma, conservo aquele carinho que tive para ti. Tu não sabes, que nunca te esqueci, se lembrares o passado, te lembrarás de mim...
Agora há lágrimas no rosto do barqueiro, o fumo do cigarro é denso, tapa-lhe o rosto por instantes transformando-o numa espécie de estátua viva objecto de processo teatral.
- Boa tarde, repito!
Nem um gesto, nem uma palavra, continua a olhar para o rio e a entoar aquela estranha canção que me perturba, que me molha por dentro como se fosse uma súplica a deuses que já não existem ou o bramir de uma recordação que me magoa, que me dói profundamente.
-Tu não sabes, que dentro da minha alma conservo aquele carinho que tive para ti...
Olho-o como se fora a primeira vez surpreendido. Então o Migalhas tem alma? Uma alma que para além do seu teor espiritual é de carne sofredora que me parece capaz deter sentido um dia longínquo um certo carinho e ternura por alguém. Mas por quem!? Nunca lhe conheci namorada ou esposa, a minha lembrança deste homem é remota quase se perde no tempo e no entanto nela não consta qualquer relação de amor fosse por quem fosse.
Agora canta ainda mais baixinho, é só um murmúrio, quase não se faz ouvir:
- Desde o dia em que partistes sinto angústia no meu peito, que será que terás feito, do meu pobre coração...
Com as mãos a tremer, tira do bolso um lenço e seca as lágrimas que lhe afloram aos olhos e se misturam com as gotas da chuva. Dá por mim, olha-me longamente com aqueles olhos de menino medroso como a apelar à minha compreensão.
- Boa tarde, repito!
-Boa tarde, respondeu o Migalhas ensaiando uma breve explicação para o que lhe pareceu um acto menos digno:
- Sabe, estava aqui a olhar o rio e de repente vieram-me à lembrança coisa da vida já de há muito tempo, de há muitos anos...
- Pois é ti Migalhas, às vezes a gente lembra-se do passado...
- Pois, você era uma criancinha nessa altura. Sabe, eu também já fui jovem, tive as minhas coisas, nem lhe conto. Algumas mulheres povoaram os meus sonhos da mocidade. Foi bonito de viver esse tempo mas infelizmente tudo passa, tudo morre. Morre para o mundo onde tudo aconteceu mas não morre para a gente, dentro do nosso peito fica sempre uma lembrança, uma recordação. Lembranças boas, recordações más, conforme a pessoa, conforme a vida.
- Esta era uma recordação boa ti Migalhas, perguntei!
-Era, era uma recordação boa. Lembro-me como se fosse hoje; sentada neste mesmo banco ao meu lado o seu perfume misturava-se com o perfume da tília em flor, o seu sorriso meigo, o seu andar gentil de menina, a sua beleza infinita embriagavam o ar e até o rio tinha ciúmes dela. Quantas vezes aquele tolo me tentou fazer esquecer essa paixão, quantas vezes. Como amei essa mulher meu Deus, exclamou com um suspiro.
- Se a amou assim tanto porque nunca se casou, ou aconteceu alguma fatalidade, perguntei!
- Coisas da vida filho, coisas da vida. Secou novamente as lágrimas e as gotas de chuva com o lenço e levantou-se lentamente. Olhou para o céu e depois para a mim com um olhar estranho que pareceu durar eternamente como se a tentar certificar-se de que eu entendia as coisas, essas coisas da vida que nos fazem sorrir e muitas das vezes chorar chorar de dor.
- Até amanhã.
Fico-me a olhá-lo até ao fundo da rua a vê-lo desaparecer na esquina da casa da Sobreira. Falou mas não me contou tudo, haveria muito mais para dizer, pressenti-o nos seus olhos magoados nos seus gestos de desânimo persistente. Certamente nunca o fará, morrerá com ele esse segredo que carrega no coração e na alma há tanto tempo.
A chuva torna-se mais densa e uma brisa forte agita as folhas da tília e parece-me ouvir nesse sacudir do vento o murmurar daquela nostálgica canção:
…Tu não sabes que dentro da minha alma, conservo aquele carinho que tive para ti. Tu não sabes, que nunca te esqueci, se lembrares o passado te lembrarás de mim...
Até amanhã, ti Migalhas!
Nunca houve amanhã. Nessa noite, o barqueiro adoecera gravemente vindo a falecer poucos dias depois. Nunca me contou o resto da história e eu em sua memória, só pude sentar-me neste banco junto a uma nova tília onde me encontro agora imaginando o fascínio e a beleza de uma mulher que nunca conheci e recordando um homem para quem o amor foi deveras traiçoeiro.
O tempo foi passando, nova primavera desabrochou, os passarinhos cantavam enamorados, muitos perfumes se espalhavam pelo ar, as árvores despontavam para nova vida, mas a tília onde sob os seus frondosos ramos o migalhas se sentava, nunca mais deu folhas, nem flores, nem perfume, simplesmente secou.
Olhei para o rio neste fim de tarde chuvoso onde também eu procuro os meus fantasmas do passado. Talvez que no cintilar das suas águas douradas eu encontre o rosto de alguém que me deixou um dia sem me ter dito adeus.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Navio dos Mortos


Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.
As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.
O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas.É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.
É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.
As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.

Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.

O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.

As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:

- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.

O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.

Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.

Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:

- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.

-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.

O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.

Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.

O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.

-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.

- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.

-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!

-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.

O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.

O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.

O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.



Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Stjepan, o menino Croata

Entrei no supermercado quando a noite já se instalava na cidade. Era um rumor surdo que me chegava aos ouvidos de sons de carros e pessoas que passavam apressadas em chegar a casa, outras, centenas delas entravam e saíam num frenesi imenso que me perturbava e confundia. Raramente entro numa grande superfície, prefiro as pequenas lojas tradicionais onde posso olhar nos rostos de pessoas que tentam sobreviver cá em baixo como eu mas, atarefado nas aquisições próprias da época, tinha-me esquecido de comprar um queijo da serra, iguaria que não dispenso no Natal.
Junto da porta da entrada senti que me agarravam pelas abas do casaco, olhei e vi um rapazito que aparentava não ter mais de oito anos, que me sacudia a roupa para chamar a atenção. Usava um gorro de lã na cabeça com desenhos estranhos coloridos e, a cobrir-lhe o corpito frágil, tinha um kispo azul que lhe ampliava a estrutura do físico. Nos pés uma botas –de - água azuis, completavam a vestimenta do pequeno.

A mim que falo com um rio, com as casas e com as pedras, tudo o que é estranho me acontece. Nunca percebi por que será que toda a dor do mundo me encontra esteja eu onde estiver, faça eu o que fizer para passar incógnito na cidade onde ninguém me conhece. Tanta gente a entrar e a sair daquele centro comercial e tinha de ser eu a pessoa escolhida para ser confrontado com uma realidade que poucos querem conhecer.
Já quando era um rapaz adulto, me sentia sujeito a situações semelhantes nesta época. Ou era alguém de mão estendida a pedir pão ou crianças ciganas abrigadas em precárias tendas cobertas de neve gemendo com frio e com fome. Chegava a casa transtornado, contava à minha mãe o que fizera para aliviar tanto sofrimento e ela, na sua extrema bondade dizia-me:

-Deixa lá meu filho, és um homem de sorte, isso é Deus a querer falar contigo! Estranha a forma do Criador comunicar comigo, pensei. Se tinha assim tanto interesse em estabelecer uma ligação com um pecador como eu, devia começar por me ouvir quando inutilmente tento combinar os números felizes da loteria. Acontece que me deixa entregue a mim próprio sem saber que números fariam de mim milionário. Isso é que é o que eu, na minha igual forma de pensar aos outros todos, considero ser um homem de sorte. Acertar em cheio na combinação que todos tentam e que só alguns conseguem podia ser a confirmação de que a dita está comigo. Decerto Ele tem outro entendimento e vai-me dando a felicidade só na medida exacta das minhas necessidades. Os deuses têm métodos de acção que surpreendem os mortais, dizem que escrevem direito por linhas tortas e eu começo a acreditar nesse ditado antigo.

Olhei-o outra vez já sem surpresa e perguntei-lhe o que queria de mim sem perceber que tinha à minha frente um estrangeiro que não falava a minha língua. Olhou-me na profundidade de uns olhos vivamente azuis e falou qualquer coisa que eu não entendi:

Moja majka je gladan!

-Desculpa mas não compreendo uma só palavra do que me estás a dizer, fala numa língua que eu entenda! Disse-lhe eu.

Pegou com a mãozita dele a minha mão como a pretender que o seguisse em direcção da entrada da a área comercial onde tudo se vende.

Hesitei em segui-lo e voltei a perguntar:

Que queres de mim pequeno?

-Moja majka je gladan!

Enquanto falava ia-me arrastado e confesso que comecei a ficar preocupado com tanta insistência e mais por não conseguir perceber os seu objectivos Às vezes não são só as barreiras das línguas que nos impedem de compreender os outros, são as circunstâncias com todo o inesperado que encerram e nos impedem de reagir objectivamente. Se tivesse pensado com mais calma, teria atingido num ápice as pretensões da criança. Demorou, mas como o óbvio é sempre aquilo que menos conseguimos ver, pensei que deveria ter fome e resolvi levá-lo à charcutaria e pedir um copo de leite e uns bolos para lhe aquietar o estômago. Olhou para o lanche que lhe coloquei à frente e depois, com ar triste, colocou os olhos no chão e não comeu.

- Come pequeno, isto é para ti, anda lá não tenhas vergonha, eu pago o que tu quiseres comer!

Moja majka je gladan!

-Já sei, tens razão, não é disto que tu gostas, vamos então ali à montra escolher o que mais te agradar!

Fomos ao local onde se vende de tudo o que são alimentos confeccionados, bolos, queijos, chouriços, chocolates e uma infinidade de outros produtos alinhados em vitrinas frigoríficas a despertar a atenção e o apetite de quem os vê. Apontou para a secção dos pratos pré-cozinhados e o seu dedinho quedou-se num tabuleiro onde a comida tinha um aspecto delicioso e parecia sorri para nós aguçando-nos o apetite:

Eram, repolhos recheados com carne moída, fatias de bacon e de presunto.

-Mama voli Sarme, repetia ele a sorrir de felicidade.

Perguntei ao empregado se poderia servir um prato daquela comida para poder satisfazer a vontade do meu mais recente amigo. Disse que não, que as refeições ali expostas se destinavam a ser consumidas em casa dos clientes.

Pareceu-me que ele entendeu o que o homem me estava a dizer e, na tentativa desesperada de se fazer compreender, ia batendo com a mãozita no peito ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal negativo:

-Monja majka je gla dam!

O senhor do supermercado estava tão atónito quanto eu mas teve a ideia excelente de ir chamar um outro funcionário emigrante de Leste.

Apareceu um homem ainda novo vestindo a farpela própria de quem trabalha com carnes, manchada com sangue apesar do aspecto limpo de quem a vestia:

-Que queres daqui miúdo, perguntou-lhe em português matizado de sotaque.

Isso já eu tinha feito por mais que uma vez,

-Ele não fala português, experimente falar na sua língua, pode ser que ele entenda! Disse-lhe eu. Deu-me ouvidos começando com uma lenga lenga da qual eu não entendia absolutamente nada:

- želite, zelite, zelite?

- Zovem se Stjepan. Ne želi za mene, moja majka je gladan kuće.! Mama voli Sarme!

-Senhor, ele diz que se chama Stjepan e que não quer nada para ele, que é a mãe dele que está doente e com fome em casa e diz que ela gosta muito da comida que está neste tabuleiro a que ele chama de Same!.

O mundo inteiro desabou sobre os meus ombros naquele momento. Fiquei sem poder falar alguns segundo e depois de me ter recuperado da emoção, mandei embalar três doses de Same o petisco preferido da mãe daquela criança.

Depois de passar na caixa, entreguei-lhe dois sacos, um em cada mão e ele afastou-se visivelmente feliz. Parou de repete e virou-se para mim a sorrir com uns olhos tão brilhantes como o azul de um mar que me diziam, obrigado.

Vi-o desaparece nas ruas da cidade fria e surpreendente e fiquei a pensar que aqueles olhos intimamente azuis eram os mesmos ou iguais aos de uma pessoa muito querida que eu tenho guardada lá no céu.















quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Guarda - Soleiro

Tudo se alterou em poucos anos. Os homens da ciência e da técnica transformaram de tal maneira o mundo que seria difícil estabelecer comparações entre o antes e o depois sem causar sérias dúvidas nas criaturas mais jovens. Surpreendem-nos todos os dias com novas invenções e ultra modernos processos de atenuar atrasos milenares. Tudo começou não faz muito tempo, há menos de cem anos antes da Revolução Industrial, a actividade produtiva era artesanal, quase tudo era feito manualmente e usavam-se algumas máquinas simples. Quase todos os trabalhos de manufactura, eram realizados em oficinas existentes nas próprias casas dos artesãos e esses profissionais da época dominavam muitas das etapas do processo produtivo.

A história que te vou contar passou-se há cerca de trinta anos. Como poderás imaginar o processo de expansão dos novos conhecimentos, foi moroso, arrastou-se pelo tempo fora até aos dias de hoje com evidentes prejuízos para as populações.

Parecia impossível mas mal amainavam os calores de Agosto, acabavam as romarias e deixava de se ouvir o estalar dos foguetes nas redondezas e Setembro entrava pela terra dentro melancólico com o céu carregado de nuvens a ameaçar chuva, e logo se ouvia o som estridente daquela gaita de timbres desconformes por todo o lugar.

O som monótono e discordante do aparelho musical, quebrava o silêncio da povoação que ia procedendo às colheitas do vinho, das abóboras e demais produtos que a terra generosa deu e, como autoritário aviso de regedoria, informava o povo que o consertador de guarda-chuvas acabava de chegar a Sardoura vindo não se sabe de onde mas incrivelmente pontual como tem sido ao longo de muitos e incomputáveis anos.

A carroça era um laboratório ambulante suspensa em duas rodas de antiga bicicleta de pedais e tinha formas de bizarro instrumento multifacetado que adquiria formas diferentes quando o artífice resolvia entrar em acção. Os rodados onde se movimentava toda a estrutura da incomum oficina, mudavam repentinamente de função e posição, transformando-se em rodas livres onde assentava uma correia de transmissão de tela que por sua vez fazia girar um esmeril apto a aguçar tesouras, facas, foucinhas e outros artefactos domésticos e agrícolas, obedecendo ao ritmo das firmes pedaladas do Lourenço.

Pendurados por todo o espalhafatoso mecanismo ambulante, viam-se restos de protectores de chuva já irremediavelmente perdidos para o acto mas que iam fornecendo material num concerto ou noutro que exigia maior intervenção de peças usadas.

Era baixo atarracado de pescoço grosso e mancava de uma perna. A cobrir a carne do corpo, vestia um fato-macaco de ganga azul com fecho de correr que abria a vestimenta até ao umbigo e nos pés calçava umas botas da tropa, sem atacadores e demasiado usadas para conseguirem oferecer alguma protecção e aconchego aquela figura castiça. Na cabeça redonda usava um chapéu preto de oleado de abas caídas que não deixava distinguir-lhe perfeitamente a brutalidade das feições mas adivinha-se pelo pedaço visível, que eram negras e curtidas pelo sol e pela chuva e seguram uma barba onde navalha de barbeiro nunca deve ter entrado. Aparentava não ser ainda velho mas tanto podia ter cinquenta como duzentos anos ou até ter a idade do mundo pois desde sempre, de geração em geração, se ouviu falar por aqui do Lourenço guarda –soleiro.

O povo juntou-se em volta do invulgar estabelecimento ambulante que estacou ao pé da igreja onde iria permanecer durante algumas horas. A alguns traziam nas mãos armações de varetas móveis que os últimos temporais deixaram danificados misturados com tesouras, facas e outras ferramentas que o serralheiro reciclaria a troco de dez mil reis.
A tarde avançava por entre o gemer do aço a sofrer no esmeril e do alicate de pontas que dobrava os arames danificados da varas que sustêm arcaboiço onde iria assentar o pano de luto protector de chuva. De vez em quando, e já com uma faca aguçada, experimentava o corte nuns tronchos de couve:
- Olha que maravilha, está como nova, até corta papel!

Por entre conversas circunstanciais e para ter sempre a logística sob controlo enquanto trabalhava, deitava os olhos pela multidão assegurando-se de que nenhum fiscal da câmara rondava o estabelecimento. Porém nem tudo corria de feição ao fazedor de maravilhas, as contas, as malditas contas acabam sempre por ter acerto apesar do tempo ter passado e apagado das memórias alguns concertos menos felizes do ano anterior. Pode acontecer, um artista só é verdadeiramente perfeito quando estão reunidas todas as condições necessárias ao bom funcionamento do seu atelier. A oficina ambulante não permite grandes feitos, tem algumas limitações, é um remedeio.

- Ó senhor Lourenço, o ano passado deixou-me este traste numa miséria, nem dois dias durou, grande concerto senhor Lourenço, mais valia ir-me ao bolso e tirar-me o dinheiro!

Era a Lucrécia a mulher do Antunes Perneta a reclamar dos maus ofícios do homem artista.

- Ò mulherzinha, quem aqui andou o ano passado foi o meu avô, eu nem pôs aqui os pés, andei por Cabeçais e Canedo minha santa!

- Ai foi, e há dois anos!? Foi por acaso o seu pai que me amolou as tesouras da poda que a partir dai só serviram para cortar sabão rosa e marmelada!? Acha que isto é coisa que se faça a uma velha como eu!? O que você precisava era que lhe partisse os restos do guarda chuva no lombo, no seu, no do seu avô e se calhar também no do seu pai!

- Ó mulherzinha remedeia-se já aqui o mal, disse o guarda - soleiro visivelmente agastado, pegando num guarda-chuva dos tais pendurados na oficina; fica com este, é dos bons, tem varas reforçadas e tudo, até lhe digo mais, era do falecido padre de Souzelo e nunca teve uma avaria.

- Dum morto!? Vossemecê anda tolo homem, esse dê-o à sua mulher se a tiver, aqui a Lucrécia nunca quis nada usado, nem guarda – chuva, nem homem!

O Lourenço calou-se, arrumou a tenda que se transformou em carroça e pegou na gaita que passou nos lábios cor de vinho tinto e aquele som desconsolado tomou conta de tudo.