sábado, 28 de março de 2009

Zahra

Bailava como uma deusa agitando o corpo de serpente em movimentos ritmados por uma música que fazia lembrar o vento a agitar as areias das dunas de um deserto longínquo, algures na Babilónia. Cobria ligeiramente a elegante e esbelta silhueta com um Sarki azul céu de delicada seda enfeitado com contas e lantejoulas em ondas pretas, ouro e vidrilhos de desenhos intrincados com pérolas. Acima da fina cintura, cobrindo o bikini, realçando o busto, um cinto shakira de tons amarelo-torrado com brilhantes, enfeitavam a harmónica moira que na cabeça tinha, sobre a negrura de suaves cabelos, um colar de brilhantes pedras a descer em cascata pela testa pequena, produzindo um efeito de inigualável formosura àquela mulher oriental.
A saia que se desprendia da cintura livre, deixava visível um ventre perfeito e em voos sinuosos e ondulantes, ia evoluindo no ar ao sabor dos graciosos e sensuais movimentos das ancas e quadris, era transparente, pouco mais que um ténue véu da cor de pálidas rosas, com desenhos nos bordados de linha dourada a completar o traje da dançarina do raks sharki, que punha nos braços e nos tornozelos, enfeites de arcos de metal colorido de circulo descontinuado, encrostados de pedras cintilantes e lindas.
As difusas luzes coloridas da média sala onde acontecia a dança, produzia efeitos fantásticos naquela divindade e a suavidade da música de compasso sensual, lânguido e erótico, geravam um clima de magia e sublime misticismo num encantamento tão intenso que Leopoldo se imaginava como a viver em sonhos, as cenas dos contos mirabolantes das mil-e-uma-noites.
Essa que foi a noite de todas as noites, aquela em que os seus olhos de juventude encararam pela primeira vez com a visão celeste de Zahra, ainda tem dele a viva e intacta recordação desse momento fabuloso e ímpar apesar do tanto tempo que já passou desde esse dia, apesar da vida o ter transformado neste solitário cangalho velho sem préstimo mas sepulcro de afectos e recordações inenarráveis. Não por que escandalizem, magoem ou causem repulsa, mas tão-somente por que são só suas e constituem o tesouro sacro e incalculável da sua juventude. Coisas lindas que o fazem sorrir misturadas com algumas amarguras que os homens como ele guardam no coração até à eternidade.
O barco, o velho barco a remos em que ele e ela navegavam por este rio de sonho nos fins de tarde em que o horizonte crepuscular enrubescia e as águas tingidas de reflexos de oiro e prata, eram suaves e os dois trocavam afectos, beijos e juras de amor, baptizou-o ele já perdido no enredo dessa paixão cigana, com o nome daquela moira belíssima:
-Zahra!
As letras que carinhosamente desenhou com tintas cor de fogo nos lados da proa da insigne embarcação, apregoavam e espalhavam por todo um rio como folha morta ao sabor do vento, o nome da senhora herdeira do seu coração. Amor assim nunca se viu aqui. Raças tão distintas comungavam a mesma hóstia que a paixão fabrica sem atender a credos, a usos e costumes que quase sempre separam o que a natureza quer unir.
O Douro, aquele que o viu nascer e crescer, que lhe afeiçoou a meninice e juventude, testemunha silenciosa das suas angústias e contentamentos, o maior apego de uma vida, havia de num gesto de gigante enraivecido, desfazer o idílico momento que foi de suprema elevação e colocar uma cruz de cemitério naquelas duas vidas onde um afeição sem limites já tinha feito morada.
Nessa noite de cheia descomunal naufragou o barco valboeiro no turbilhão das águas revoltas e levou com ele para as profundezas do sítio a deslumbrante senhora que nunca mais voltou à superfície.
Hoje, depois de já terem passado cinquenta anos desde esse trágico acontecimento, o velho Leopoldo olha o rio Douro com uns olhos sem brilho, cansados e cegos, incapazes de distinguir claramente o horizonte mas imaginando ainda a dança de Zahra como se ela evoluísse delicada por sobre a superfície das ondas e o olhasse com aqueles olhos rasgados de um verde que se confundia com a cor do rio e lhe viesse dar agora um sorriso de amante cumplicidade, um beijo um carinho como tantas vezes lhe tinha dado.
Aqui entre Pombal de Medas e Porto Carvoeiro sitio onde o rio Douro é mais deserto e agreste, onde as sombras da noite mais se acentuam e um silêncio de morte paira sobre as coisa, um velho barqueiro louco indaga o horizonte líquido aflito julgando que a morte um dia lhe devolverá a sua amada. Espera, espera ainda como esperou sempre pelo seu amor que as águas têm no seu seio e que nunca mais há-de chegar e o rio douro arrependido chora de tristeza quando todas as noites ele grita desesperado:
- Zahraaaa! Zahraaaa!
O eco do grito perde-se abafado no vale onde o rio dorme e, aqueles olhos ceguinhos do barqueiro derramam lágrimas pela mulher que um dia tanto amou.

1 comentário:

Fernanda Ferreira disse...

Amigo do Douro,
Eu sou fanática...veja porquê em, Sempre Jovens, temos muito que partlhar..eu volto para comentar em detalhe...Prometo.

Bem-haja,
Fernanda Ferreira