sábado, 5 de maio de 2012

O Navio dos Mortos


Um pedaço de luar aparece por entre a negrura das nuvens carregadas de chuva que cruzam o céu subindo dos lados do mar por cima da praia da Madalena e reflecte-se moribundo na água barrenta do Douro. O oceano matizado pelo tom doirado do rio, agita-se bramindo com um louco a descarregar uma fúria colossal nos paredões da Cantareira, espraiando-se depois em devastadores rendilhados amarelos e brancos por sobre as avenidas da Foz que desertas, se deixam engolir no turbilhão de água, pedras e espuma.
É muito mar, são os elementos naturais conjugados num processo de destruição sem precedentes a impossibilitar qualquer tipo de navegação mesmo de urgente socorro a náufragos e só o Lolas, piloto da barra, todo metido dentro de um fato de oleado amarelo, cobrindo a cabeça com um chapéu do mesmo material e cor, ousa enfrentar semelhantes poderes. É uma estátua petrificada e quase consolidada ao cunhal granítico da capela de S. Miguel O Anjo a desafiar sozinho, as leis da natureza. Quando a vaga se levanta num ímpeto mais forte e bruscamente cobre o monumento estilhaçando os vitrais da casa dos Pilotos, ali ao lado, aquela indecifrável figura, move-se então para se encolher um pouco mais abrigado no precário refúgio.
Ao longe, um navio a quem não foi permitida a entrada no porto de Leixões, luta desesperadamente com a fúria da tempestade e as luzes do mastro que assinalam a embarcação, aparecem e desaparecem na fundura das vagas em perigosa oscilação.
As gaivotas permanentes habitantes dos areais do Cabedelo, já há muito migraram para montante do rio na tentativa de fugir aos tormentos devastadores da tormenta.
O velho marinheiro perscruta um horizonte pardo num alerta permanente a calcular as artimanhas do mar, do rio e dos ventos. Ele conhece o sítio, já são muitos os anos a meter-se às ondas em operações de salvamento de pessoas vítimas de naufrágios ali na boca da Barra e no restante troço fluvial-marítimo tendo sido o mais violento o da lancha de Avintes em que pereceram vinte e nove pessoas. É preciso estar atento, a todo o momento poderá acontecer a tragédia. Aqueles olhos pequenitos onde já não mora a luminosidade de outros tempos, viram pasmados soçobrar navios e sucumbir pessoas em desgraças que neste local aconteceram ao longo da sua também já comprida existência.
É quase meia - noite altura em que o rio quer adormecer e, nas profundezas da água desprendem-se os corpos dos afogados que vão aparecer por instantes intactos a boiar à superfície. O sono do rio é curto, só o tempo necessário para que as almas dos mortos se resgatem do forçado cativeiro e possam subir até ao céu.
As noites do Douro são povoadas de densos e impenetráveis enigmas que jamais algum ser vivo conseguiu deslindar. São antigas as lendas, perdem-se na antiguidade da milenar história dos habitantes das beiras da água e, apesar de pouco valorizadas, continuam vivas e a passar de geração em geração. Quantos incautos ignoraram ou menosprezaram os conteúdos fantásticos e alucinantes dessas antigas crenças e foram eles próprios vítimas perdidas na profundidade da quase sempre aparente mansidão do rio. Quando a lua cheia se agiganta no céu, adensam-se os mistérios, as funestas campas abrem-se lá em baixo e, como se movido por um poder oculto, o rio resplandece em labaredas e tonalidades tão fantásticas que nem o mais brilhante pintor conseguiria transmitir nas pinceladas de um quadro. O poder desta toalha de água metamorfoseia-se então na colossal força do firmamento celeste e, incrivelmente o inesperado acontece. Todo o universo plana em sintonia com a terra num ápice de tempo e, ocorre então uma espécie de encantamento, a troca de misteriosas energias que podem perturbar tanto os mortais ao ponto de perderem a vida e até a própria alma.
Todo o Douro, desde a Foz a Barca de Alva, tem memórias de violentos e inexplicáveis acidentes; uns antigos outros mais recentes mas nem por isso menos devastadores.
O lolas recorda o mais terrível e estranho dos naufrágios. Muito embora ainda não tivesse nascido, foi-lhe ministrado cedo o relato dessa imensa tragédia. São cicatrizes tatuadas no rio que nada nem ninguém consegue apagar. Era domingo, dia adequado à realização de festas e outros arrojados eventos. A barca do Castelo, Bateira de transporte que fazia a ligação entre as duas margens do rio tinha capacidade para cinquenta pessoas mas, foram oitenta, quase todos fidalgos, provenientes de Cinfães, Arouca e Castelo de Paiva que embarcaram já noite alta no cais de Bitetos ao fim de grande festividade na quinta de Vilacetinho em Alpendurada. O rio estava manso e reflectia já a lua e as estrelas quando a barca lentamente sulcou as águas na travessia. Havia animação a bordo e os restos da festa consumiam-se ainda no meio do Douro e ninguém se apercebeu que era meia – noite e que as almas dos desaparecidos queriam subir ao céu. Nunca se soube com precisão o que se passou naquela hora dramática, sabe-se que se ouviram-se lancinantes gritos e pedidos de socorro durante algum tempo e depois só a negrura da noite e o silêncio responderam às chamadas de terra. Todos pereceram nesse trágico naufrágio e os seus corpos nunca foram encontrados. O rio Douro é feito de sonhos, de segredos e também de estranhas magias.
As recordações do velho comandante avivam-se em noites bravas como esta, de cheias, de fortes chuvas e de terríveis vendavais. Então como visão impossível de deter, surgem-lhe na mente todos os dramáticos momentos do passado:
- Batiam compassadas no sino da igreja de Santa Maria de Sardoura as doze badaladas e, nesse preciso momento o rio tornou-se um espelho que brilhava reflectindo a lua e as estrelas e, os fogos - fátuos, pareciam labaredas de fogo a surgir da liquida transparência. Acontecia a hora mágica., o momento dos mortos. Ninguém pode perturbar o sono do rio nesta hora de redenção, quem o ousar fazer, perecerá nas suas águas e as almas desses violadores dos segredos do Douro, nunca encontrarão o caminho da luz e vaguearão eternamente nos locais desertos onde as sombras da noite mais se acentuam.
O Vagaroso pescava por baixo do pilar norte da centenária ponte de ferro e pedra de Entre-os-Rios. As canas da Índia, vergavam na ponteira resistindo ao esforço da chumbeira de vinte gramas fixada na extremidade da linha e a bailar nas profundezas da água. No céu escuro como o de hoje, uma lua enorme decifrava de vez em quando os contornos deste vale imenso proporcionando espantoso cenário só apreciado por fantasmas e por este pescador nocturno.
Corria o mês de Março, tardavam os primeiros alvores da Primavera e chovia há mais de dois meses uma chuva estupidamente persistente que parecia nunca mais abandonar o céu e a terra. Debilitado pela idade, o velho marinheiro queria matar o tempo que o reumatismo impedia de passar na cama em repouso prolongado nessas longas invernias. Oitenta anos de vida dura deixaram marcas irreparáveis no corpo e na mente deste homem que o amor enganou. Movido pela força de uma arte antiga, arrepiava caminho até a este recanto mais abrigado do rio onde ficava horas a pescar, a ver o rio em chamas, a falar com mortos e a pensar na vida que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos calejadas. Tempos de outrora onde se perderam as muitas recordações deste ser ribeirinho. Recolhidas no peito, intransferíveis, magoadas, a marcarem o ritmo de uma vida que teima em se extinguir, afloravam-lhe à mente sem aviso prévio martelando-lhe o cérebro como anúncio de televisão.
Os dias, os intermináveis dias, que gastava arrastando os pés de lado para lado neste cais solitário, já não proporcionavam o prazer do passado. Como se um vendaval enorme varresse aquele pedaço de chão, viu serenamente partir um a um, aqueles e aquelas a quem amou e que enfeitaram o percurso dos longos anos que viveu até agora. Os amigos que fez quando chegou trazido pelas mãos de um destino que lhe foi cruel, os companheiros que deixou no Castelo sua terra primeira, eram ainda sombras permanentes a povoar as noites que lhe faltavam viver.Iscava o anzol com pedaços de sardinha e esperava paciente que algum peixe se deixe prender na aguçada armadilha enquanto o alucinado pensamento ressuscitava cenas que julgava já ter esquecido completamente. Pareceu-lhe ver na fantasia do traiçoeiro cérebro, a negra silhueta de um navio encostado ao cais do outro lado. Conseguiu mesmo vislumbrar um nome marcado na linha de proa do barco; Albatroz. Como flash que lhe desventrasse o cérebro, penetrou angustiando na visão:
- Noite tranquila, aquela em que uma lua fugidia produzia efeitos magníficos no liquido lençol. Noite calma só perturbada pelo cochichar das rãs no regato de Fonte Nogueira e por uma brisa suave e demasiado leve para agitar o lustre das águas. De repente ele aparece na curva do Remesal. Era um navio de luz resplandecente de velas erguidas e proa elegante e afiada a rasgar o ventre deste rio doirado.
-É o Navio dos Mortos, murmurou o Vagaroso enquanto apressado manejou o aparelho a recolher a linha. Ele conhecia as manhas do rio que lhe provocavam alucinações e sabia sempre quando os fantasmas dos falecidos resolviam navegar por aqui perturbando-o ao ponto de se julgar também um defunto. Não houve tempo de escapar e ficar a salvo desta sinistra aparição. A embarcação avançava muito mais depressa que a sua precária perícia de velho. Encolheu-se a um canto receoso e ouviu assustado os gemidos lancinantes da tripulação em desespero. O rio agitou-se repentinamente e, lá em baixo, nas Pedras de Linhares, não se sabe se por que artes mágicas, levantou-se um terrível ciclone.
O fantástico barco parecia que a todo o momento iria naufragar e a proa mergulha aflita num turbilhão de espuma. Rangiam as estruturas ferrosas prestes a ceder a tamanho esforço. O rio em agitação inenarrável, mais parecia o mar do Cabo das Tormentas. Havia braços torturados, pessoas presas nas amuradas a pedir socorro. Os gritos horríveis dos tripulantes e passageiros rasgavam a noite cobarde e traidora. O céu era cinzento cor de chumbo e apagaram-se as luzes no cais do Torrão. O pescador desvairado ensaiou uma nova retirada mas o vento forte não o deixou avançar. Encolheu-se mais dentro da roupa e, de olhos arregalados viu esfumar-se à distância de uma mão, o barco fantasma nas águas do Douro.
Primeiro o enorme casco tombou ferido de morte na liquidez do rio, depois os mastros cruzados afundam também numa agonia desesperada e lenta. Calam-se os apelos, cessam os gemidos e o Vagaroso fechou os olhos e tremeu de medo e de perplexidade.
O rio sossegou, o vento também amainou e só a chuva louca continuou a massacrar o homem.
-Que pesadelo, disse o Vagaroso enquanto retirava do bolso das calças um lenço com que secava a humidade dos olhos.
- Também tenho sonhos desses! Todas as noites vejo lume na água do rio acolá em frente à Afurada, diz o Lolas. O doutor Adriano diz que é próprio da idade, que são sonhos de velhos provocados pela solidão.
-O que é a solidão Lolas, perguntou o Vagaroso!
-A solidão é esta sensação de vazio e isolamento. É a gente querer uma companhia ou querer realizar alguma actividade com outras pessoas e ninguém nos dar ouvidos. É precisar como nós de algo novo que transforme os nossos dias! A solidão Vagaroso, é a gente só poder falar com mortos.
O outro calou-se sem perceber bem ao certo o que é a solidão e ficou a senti-la agarrada na alma, a despedaçar-lhe os sorrisos.
O mar continua a devastar a Cantareira, arrastando pedras enormes que deposita no meio da rua e as palmeiras da Meia Laranja vergadas até quase ao chão, lutam desesperadamente contra a fúria dos elementos.
O rio continua agitado, reflecte a lua cheia e as estrelas, a meia-noite é breve e o Lolas tem de regressar a casa antes que soem as doze badaladas porque ele sabe que as almas dos afogados querem subir ao céu.





Do livro, " Dourolindo" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Barca de Fantasia

Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola primária da pequenina povoação de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que lhe pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes, conhecer novas terras as quais pela primeira vez ouviu a professora descrever, na velha escola primária situada junto ao cais do Remoinho a dois paços do rio.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do rio Douro e límpidos como as águas do ribeiro que desaguava ali perto, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do seu primeiro sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar!
Foram estas as palavras da Matilde numa manhã de um dia calmo, doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos.
Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização? Muitas! Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido mas sim outras, comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária.
Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde, de algumas crianças da sua idade e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão fantástica.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corria para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, seguia os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que misturado com água salgada, voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas de Setrembro.
O Rio Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas o rio nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Um dia partiu no sentido inverso do sonho, segiu a familia que emigrava, andou por terras distantes onde se acentuaram as saudades que lhe vevoravam a alma e, movida por elas,e já adulta, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que o rio teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e trocado por outro, sem saber que ela o levara no coração, que o deixou correr nas suas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não minha mãe, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Consegui o seus ententos, Matilde colocava todos os dias a concha nos ouvidos e sentia esse sussuro mágico do mar como se fosse um a voz antiga que de muito loge falava com ela.
Teve a sua prenda a materialização da sua visão quase celeste e, logo no outro dia corria para ele na carreira gondomarense e, já na cidade do Porto partia do Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Os seus olhos de menina reflectiam o azul do mar e do céu, marejavam-se de lágrimas e de água ficou a ser toda apaisagem.
Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, ou outro perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor das histórias fascinantes que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente, que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair.
Uma enclausurada é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Recorda o que era nesse tempo de criança, a felicidade que trasbordava do seu pequenino coração e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha espantada que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido.
Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer possibilidade de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho.
A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava com amão estendida uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio Douro:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

Do Livro "Douro Inteiro" de Manuel Araújo da Cunha

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Stjepan, o menino Croata

Entrei no supermercado quando a noite já se instalava na cidade. Era um rumor surdo que me chegava aos ouvidos de sons de carros e pessoas que passavam apressadas em chegar a casa, outras, centenas delas entravam e saíam num frenesi imenso que me perturbava e confundia. Raramente entro numa grande superfície, prefiro as pequenas lojas tradicionais onde posso olhar nos rostos de pessoas que tentam sobreviver cá em baixo como eu mas, atarefado nas aquisições próprias da época, tinha-me esquecido de comprar um queijo da serra, iguaria que não dispenso no Natal.
Junto da porta da entrada senti que me agarravam pelas abas do casaco, olhei e vi um rapazito que aparentava não ter mais de oito anos, que me sacudia a roupa para chamar a atenção. Usava um gorro de lã na cabeça com desenhos estranhos coloridos e, a cobrir-lhe o corpito frágil, tinha um kispo azul que lhe ampliava a estrutura do físico. Nos pés uma botas –de - água azuis, completavam a vestimenta do pequeno.

A mim que falo com um rio, com as casas e com as pedras, tudo o que é estranho me acontece. Nunca percebi por que será que toda a dor do mundo me encontra esteja eu onde estiver, faça eu o que fizer para passar incógnito na cidade onde ninguém me conhece. Tanta gente a entrar e a sair daquele centro comercial e tinha de ser eu a pessoa escolhida para ser confrontado com uma realidade que poucos querem conhecer.
Já quando era um rapaz adulto, me sentia sujeito a situações semelhantes nesta época. Ou era alguém de mão estendida a pedir pão ou crianças ciganas abrigadas em precárias tendas cobertas de neve gemendo com frio e com fome. Chegava a casa transtornado, contava à minha mãe o que fizera para aliviar tanto sofrimento e ela, na sua extrema bondade dizia-me:

-Deixa lá meu filho, és um homem de sorte, isso é Deus a querer falar contigo! Estranha a forma do Criador comunicar comigo, pensei. Se tinha assim tanto interesse em estabelecer uma ligação com um pecador como eu, devia começar por me ouvir quando inutilmente tento combinar os números felizes da loteria. Acontece que me deixa entregue a mim próprio sem saber que números fariam de mim milionário. Isso é que é o que eu, na minha igual forma de pensar aos outros todos, considero ser um homem de sorte. Acertar em cheio na combinação que todos tentam e que só alguns conseguem podia ser a confirmação de que a dita está comigo. Decerto Ele tem outro entendimento e vai-me dando a felicidade só na medida exacta das minhas necessidades. Os deuses têm métodos de acção que surpreendem os mortais, dizem que escrevem direito por linhas tortas e eu começo a acreditar nesse ditado antigo.

Olhei-o outra vez já sem surpresa e perguntei-lhe o que queria de mim sem perceber que tinha à minha frente um estrangeiro que não falava a minha língua. Olhou-me na profundidade de uns olhos vivamente azuis e falou qualquer coisa que eu não entendi:

Moja majka je gladan!

-Desculpa mas não compreendo uma só palavra do que me estás a dizer, fala numa língua que eu entenda! Disse-lhe eu.

Pegou com a mãozita dele a minha mão como a pretender que o seguisse em direcção da entrada da a área comercial onde tudo se vende.

Hesitei em segui-lo e voltei a perguntar:

Que queres de mim pequeno?

-Moja majka je gladan!

Enquanto falava ia-me arrastado e confesso que comecei a ficar preocupado com tanta insistência e mais por não conseguir perceber os seu objectivos Às vezes não são só as barreiras das línguas que nos impedem de compreender os outros, são as circunstâncias com todo o inesperado que encerram e nos impedem de reagir objectivamente. Se tivesse pensado com mais calma, teria atingido num ápice as pretensões da criança. Demorou, mas como o óbvio é sempre aquilo que menos conseguimos ver, pensei que deveria ter fome e resolvi levá-lo à charcutaria e pedir um copo de leite e uns bolos para lhe aquietar o estômago. Olhou para o lanche que lhe coloquei à frente e depois, com ar triste, colocou os olhos no chão e não comeu.

- Come pequeno, isto é para ti, anda lá não tenhas vergonha, eu pago o que tu quiseres comer!

Moja majka je gladan!

-Já sei, tens razão, não é disto que tu gostas, vamos então ali à montra escolher o que mais te agradar!

Fomos ao local onde se vende de tudo o que são alimentos confeccionados, bolos, queijos, chouriços, chocolates e uma infinidade de outros produtos alinhados em vitrinas frigoríficas a despertar a atenção e o apetite de quem os vê. Apontou para a secção dos pratos pré-cozinhados e o seu dedinho quedou-se num tabuleiro onde a comida tinha um aspecto delicioso e parecia sorri para nós aguçando-nos o apetite:

Eram, repolhos recheados com carne moída, fatias de bacon e de presunto.

-Mama voli Sarme, repetia ele a sorrir de felicidade.

Perguntei ao empregado se poderia servir um prato daquela comida para poder satisfazer a vontade do meu mais recente amigo. Disse que não, que as refeições ali expostas se destinavam a ser consumidas em casa dos clientes.

Pareceu-me que ele entendeu o que o homem me estava a dizer e, na tentativa desesperada de se fazer compreender, ia batendo com a mãozita no peito ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal negativo:

-Monja majka je gla dam!

O senhor do supermercado estava tão atónito quanto eu mas teve a ideia excelente de ir chamar um outro funcionário emigrante de Leste.

Apareceu um homem ainda novo vestindo a farpela própria de quem trabalha com carnes, manchada com sangue apesar do aspecto limpo de quem a vestia:

-Que queres daqui miúdo, perguntou-lhe em português matizado de sotaque.

Isso já eu tinha feito por mais que uma vez,

-Ele não fala português, experimente falar na sua língua, pode ser que ele entenda! Disse-lhe eu. Deu-me ouvidos começando com uma lenga lenga da qual eu não entendia absolutamente nada:

- želite, zelite, zelite?

- Zovem se Stjepan. Ne želi za mene, moja majka je gladan kuće.! Mama voli Sarme!

-Senhor, ele diz que se chama Stjepan e que não quer nada para ele, que é a mãe dele que está doente e com fome em casa e diz que ela gosta muito da comida que está neste tabuleiro a que ele chama de Same!.

O mundo inteiro desabou sobre os meus ombros naquele momento. Fiquei sem poder falar alguns segundo e depois de me ter recuperado da emoção, mandei embalar três doses de Same o petisco preferido da mãe daquela criança.

Depois de passar na caixa, entreguei-lhe dois sacos, um em cada mão e ele afastou-se visivelmente feliz. Parou de repete e virou-se para mim a sorrir com uns olhos tão brilhantes como o azul de um mar que me diziam, obrigado.

Vi-o desaparece nas ruas da cidade fria e surpreendente e fiquei a pensar que aqueles olhos intimamente azuis eram os mesmos ou iguais aos de uma pessoa muito querida que eu tenho guardada lá no céu.















quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Guarda - Soleiro

Tudo se alterou em poucos anos. Os homens da ciência e da técnica transformaram de tal maneira o mundo que seria difícil estabelecer comparações entre o antes e o depois sem causar sérias dúvidas nas criaturas mais jovens. Surpreendem-nos todos os dias com novas invenções e ultra modernos processos de atenuar atrasos milenares. Tudo começou não faz muito tempo, há menos de cem anos antes da Revolução Industrial, a actividade produtiva era artesanal, quase tudo era feito manualmente e usavam-se algumas máquinas simples. Quase todos os trabalhos de manufactura, eram realizados em oficinas existentes nas próprias casas dos artesãos e esses profissionais da época dominavam muitas das etapas do processo produtivo.

A história que te vou contar passou-se há cerca de trinta anos. Como poderás imaginar o processo de expansão dos novos conhecimentos, foi moroso, arrastou-se pelo tempo fora até aos dias de hoje com evidentes prejuízos para as populações.

Parecia impossível mas mal amainavam os calores de Agosto, acabavam as romarias e deixava de se ouvir o estalar dos foguetes nas redondezas e Setembro entrava pela terra dentro melancólico com o céu carregado de nuvens a ameaçar chuva, e logo se ouvia o som estridente daquela gaita de timbres desconformes por todo o lugar.

O som monótono e discordante do aparelho musical, quebrava o silêncio da povoação que ia procedendo às colheitas do vinho, das abóboras e demais produtos que a terra generosa deu e, como autoritário aviso de regedoria, informava o povo que o consertador de guarda-chuvas acabava de chegar a Sardoura vindo não se sabe de onde mas incrivelmente pontual como tem sido ao longo de muitos e incomputáveis anos.

A carroça era um laboratório ambulante suspensa em duas rodas de antiga bicicleta de pedais e tinha formas de bizarro instrumento multifacetado que adquiria formas diferentes quando o artífice resolvia entrar em acção. Os rodados onde se movimentava toda a estrutura da incomum oficina, mudavam repentinamente de função e posição, transformando-se em rodas livres onde assentava uma correia de transmissão de tela que por sua vez fazia girar um esmeril apto a aguçar tesouras, facas, foucinhas e outros artefactos domésticos e agrícolas, obedecendo ao ritmo das firmes pedaladas do Lourenço.

Pendurados por todo o espalhafatoso mecanismo ambulante, viam-se restos de protectores de chuva já irremediavelmente perdidos para o acto mas que iam fornecendo material num concerto ou noutro que exigia maior intervenção de peças usadas.

Era baixo atarracado de pescoço grosso e mancava de uma perna. A cobrir a carne do corpo, vestia um fato-macaco de ganga azul com fecho de correr que abria a vestimenta até ao umbigo e nos pés calçava umas botas da tropa, sem atacadores e demasiado usadas para conseguirem oferecer alguma protecção e aconchego aquela figura castiça. Na cabeça redonda usava um chapéu preto de oleado de abas caídas que não deixava distinguir-lhe perfeitamente a brutalidade das feições mas adivinha-se pelo pedaço visível, que eram negras e curtidas pelo sol e pela chuva e seguram uma barba onde navalha de barbeiro nunca deve ter entrado. Aparentava não ser ainda velho mas tanto podia ter cinquenta como duzentos anos ou até ter a idade do mundo pois desde sempre, de geração em geração, se ouviu falar por aqui do Lourenço guarda –soleiro.

O povo juntou-se em volta do invulgar estabelecimento ambulante que estacou ao pé da igreja onde iria permanecer durante algumas horas. A alguns traziam nas mãos armações de varetas móveis que os últimos temporais deixaram danificados misturados com tesouras, facas e outras ferramentas que o serralheiro reciclaria a troco de dez mil reis.
A tarde avançava por entre o gemer do aço a sofrer no esmeril e do alicate de pontas que dobrava os arames danificados da varas que sustêm arcaboiço onde iria assentar o pano de luto protector de chuva. De vez em quando, e já com uma faca aguçada, experimentava o corte nuns tronchos de couve:
- Olha que maravilha, está como nova, até corta papel!

Por entre conversas circunstanciais e para ter sempre a logística sob controlo enquanto trabalhava, deitava os olhos pela multidão assegurando-se de que nenhum fiscal da câmara rondava o estabelecimento. Porém nem tudo corria de feição ao fazedor de maravilhas, as contas, as malditas contas acabam sempre por ter acerto apesar do tempo ter passado e apagado das memórias alguns concertos menos felizes do ano anterior. Pode acontecer, um artista só é verdadeiramente perfeito quando estão reunidas todas as condições necessárias ao bom funcionamento do seu atelier. A oficina ambulante não permite grandes feitos, tem algumas limitações, é um remedeio.

- Ó senhor Lourenço, o ano passado deixou-me este traste numa miséria, nem dois dias durou, grande concerto senhor Lourenço, mais valia ir-me ao bolso e tirar-me o dinheiro!

Era a Lucrécia a mulher do Antunes Perneta a reclamar dos maus ofícios do homem artista.

- Ò mulherzinha, quem aqui andou o ano passado foi o meu avô, eu nem pôs aqui os pés, andei por Cabeçais e Canedo minha santa!

- Ai foi, e há dois anos!? Foi por acaso o seu pai que me amolou as tesouras da poda que a partir dai só serviram para cortar sabão rosa e marmelada!? Acha que isto é coisa que se faça a uma velha como eu!? O que você precisava era que lhe partisse os restos do guarda chuva no lombo, no seu, no do seu avô e se calhar também no do seu pai!

- Ó mulherzinha remedeia-se já aqui o mal, disse o guarda - soleiro visivelmente agastado, pegando num guarda-chuva dos tais pendurados na oficina; fica com este, é dos bons, tem varas reforçadas e tudo, até lhe digo mais, era do falecido padre de Souzelo e nunca teve uma avaria.

- Dum morto!? Vossemecê anda tolo homem, esse dê-o à sua mulher se a tiver, aqui a Lucrécia nunca quis nada usado, nem guarda – chuva, nem homem!

O Lourenço calou-se, arrumou a tenda que se transformou em carroça e pegou na gaita que passou nos lábios cor de vinho tinto e aquele som desconsolado tomou conta de tudo.





sábado, 2 de outubro de 2010

Lucinda

Lucinda
A terra de Melres é barrenta, quase vermelha, o pó do trilho tinge de escarlate as botas de água do Caga-na-Marca. É encarnada a terra não muito diferente da cor do sangue que corre nas veias do mineiro que é vermelho escuro, carregado, tipo sangue de carrapato e meio espanhol.
Já se enxerga em Moreira, o Douro aqui é plano, largo, espraia-se preguiçoso e quase vem beijar as beiras do caminho que percorre sinuoso a margem do rio. É lindo o verde persistente da ribeira de Melres enfeitada de choupos, castanheiros e frondosas nogueiras perfilados a todo o comprimento do espaço que ladeia o douro. Esta é a terra do mel; a doçura do precioso néctar lambareira, escorre pelas fraldas das serras em jorros de fartura. Em Vilarinho, Branzelo e Moreira, alinham-se nas várzeas os cortiços e as colmeias onde enxames de abelhas saem em busca do pólen da urze e do rosmaninho que depois hão-de de transformar em delicioso mel. Terra rica em tudo, até de lavoura com campos estendidos ao longo da beira do rio ou pendurados nas encostas e vales das serra das Banjas e de Sta. Iria. Já foi Vila em tempos e guarda na fisionomia das casas, traços de poder e de glória apanágio do passado. Melres como as outras terras circunvizinhas, pararam no tempo. Anos e anos a fio de sono dolente a aguardar o futuro que vem distante por de trás das nuvens do isolamento e do esquecimento a que foram votados. A força dos homens daqui esbarrou de frente com o poder da Pátria ávido de maior força centralizadora. Melres tem gente que a troco de parcas alvíssaras, recolhe os centos em volta e paga a Aguiar de Sousa que por sua vez paga a Lisboa terra que desprovida de sentido solidário, se entretêm no ócio e no gozo, enquanto o povo obreiro geme com fome. De nada têm valido as rezas na capela dos Paços. Dali, não fora a fé que persiste, só se aproveita a memória do tempo que faz nos dias das festas para acções meteorológicas:
- Passos molhados, Páscoa enxuta, ou vice-versa.
Em Moreira, lugar de terra barrenta se funde o barro na fábrica da telha e de tijolo burro mas até essa rudimentar indústria vai fechar por imposição da empresa carbinifica do douro, tornando assim a Vila cada vez mais dependente dos campos, do rio e da mina.
Há cenas dramáticas em Cimo de Vila. O lugar abençoado pela capela do Senhor dos Paços cria em seu redor, as mais belas e perfeitas donzelas da freguesia. Procuram-nas aos domingos e nos dias de feira, abastados lavradores de terras vizinhas e até cavalheiros de mais longe.
- Sai da janela Lucinda! Esse homem vai ser a tua desgraça cachopa... é mineiro, morre-te na mina e deixa-te viúva com um bando de filhos nos braços...tens pretendentes mulher... olha o Toninho de Passos...prendado, limpo com quintas e tudo!
É a Rosa Marreca a avisar a filha. A Rosa é tudo menos marreca. O sobrenome herdou-o dos avós que nem sequer conheceu. É uma mulher bem feita, alta de rosto cumprido onde se notam ainda traços da beleza que tivera na juventude. Cobre os longos cabelos negros, soltos pelos ombros abaixo, com um lenço de merino amarelo e vermelho. A saia de roda negra por condição tem bordados a branco temas regionais à base de flores silvestres. De linho é a blusa branca rendada e nos pés desaconchegados de meias, usa umas chinelinhas negras de verniz. A Lucinda ouve mas faz de conta, esta conversa é para boi dormir, não é a mãe quem vai casar é ela e, nisto de amores, as pessoas pendem para onde calhar. A moça é formosa, corpo de mulher talhado por mãos de artista. Na cara de faces coradas, aparece um nariz pequeno e bonito. Os olhos são de um negro impressionante e a cor morena do rosto, condiz com os cabelos soltos pelos ombros, que são também negros e aveludados o que a tornam assim tão graciosa. Tem a quem sair a Lucinda, a mãe era uma estampa no passado.
- Lá está ela outra vez!...Ò mulher, meta-se na sua vida e deixe os outros.
Até parece que você não casou! Tinha de se calar, aquela última frase cortava-lhe o coração. Era verdade que tinha casado com o Lampreia antes não o tivesse visto na festa de S. Domingos. Teve de ir lá,. era a única oportunidade de poder estar perto dos seus admirados, o conjunto de António Mafra, de ouvir ao vivo aquelas músicas e canções ao som das quais muito bailou até esse dia. Foi assim de repente, não se sabe como. Cinco domingos de namoro e, quando deu conta já estava na igreja. E depois!? Aquela miséria do costume. Quatro anos juntos e três filhos para criar. E que é feito do Lampreia? Está em frente á Casa Grande, no cemitério, morto, esborrachado na mina que foi a sua perdição. Bem lhe dizia ela muitas vezes:
- Ò Home sai da mina! Olha o que aconteceu ao Manel do Boi, Cristovão, ao Raposo. Ficaram lá todos, mortinhos, esganados no meio da negrura do carvão! Mas ele não lhe deu ouvidos, preso pela ideia da reforma que ambicionava, foi tentando a sorte ano após ano. Perdeu tudo, a reforma e a vida. Agora ela ao ver a filha ir pelo mesmo caminho, tenta desesperada mudar a agulha dos carris a esse sinistro comboio. Tenta apagar com avisos o fogo daquele amor ardente. Quanto mais ralha mais se convence de que não vale a pena continuar. À vinda e à ida, o mineiro passa por baixo da janela da cozinha e, a filha apaixonada, não tira os olhos daquela figura andrajada.
- Parece bruxedo! O que é que ele te fez mulher!?
- Meta-se na sua vida, deixe os outros em paz! Responde a Lucinda acenando ao Alfredo.
O tempo, esse maldito algoz que nos amarra e nos faz rodopiar, haveria de dar razão à Rosa; a Lucinda casou com o mineiro que não morreu na mina, reservara-lhe o destino um fim ainda mais cruel. Chamado pela tropa, não quis fazê-lo sem antes selar aquele amor pelos sagrados laços do matrimónio. A Lucinda estava grávida.
Naquele domingo de Agosto quem passava na rua das Vergadas ou assistia à missa na igreja Matriz, viu aquele espanto de mulher resplandecente enfeitada como nunca, de grinaldas nos cabelos e segurando nas mãos trémulas um raminho de rosas brancas que simbolizavam a pureza do seu doce coração levando nos olhos um brilho intenso de felicidade, e a cobrir aquele corpo airoso, um vestido todo branco alugado ao Zé Maria Tendeiro, completava o deslumbramento daquela aparição que desafiava todas as leis que os homens insensatos criaram para esta situação específica. Foi efémero o tempo de felicidade resumido nuns poucos de fins-de-semana em que ela ocupou o tempo a lavar, a secar e a passar a ferro as roupas da tropa. Os domingos ficaram todos lancetados pelo apitar do comboio prenho de militares em Campanhã. Embarcou para Angola e, um mês só decorrido, ela recebeu a par com um aerograma do marido, o telegrama fatal e lacónico:
- Alfredo Duarte Saraiva 1º Cabo N.º 1256742, morreu em combate.
Primeiro os olhos abriram-se espantados, secos, depois, o mundo inteiro envelheceu naquele instante. A dor, a suprema dor do ser humano, esmagou-lhe o coração. Qual facada no peito, qual arrancar das víceras em corpo vivo. É dor de mais, é algo que não se consegue traduzir em palavras, é o fim repentino de todas as coisas, o fim do próprio universo. Rompeu-se a presa de Vilarinho, as lágrimas, desciam por aquelas faces belas, soltas, imparáveis, tremendamente líquidas. Num gesto autómato pegou na filhita ao colo e, com toda a força do carinho, apertou-a com alento contra o peito num abraço de tamanha plenitude que comoveu o próprio mundo. Antevia a Lucinda o mundo de solidão que a esperava, a loucura, a demência, o declínio que acarreta semelhante perda e a desordem em que iriam desbotar o resto dos seus dias. A partir daqui, fecham-se os olhos dos demais, ninguém irá querer ver a sua dor, ignorá-la-ão quase de propósito e só a morte pode vir um dia ser companheira desta mulher agora sozinha. De negro se vestiu, negros são todos os gestos, todos os pensamentos, todos os dias e todos os anos. Sente a indiferença de todos e a cobiça de alguns que se querem servir dela. Um dia, posta de lado, tornar-se-á num fantasma vivo e negro, numa bruxa. Ser mulher viúva, equivale a transformar-se num ser vivo com que ninguém se quer cruzar. Corresponde sofrer ao sol de todos os dias e, a morrer devagar todas as noites. Viuva de mineiro, deixa de ser gente.
A Rosa sua mãe, por experiência adquirida, sabia bem as tremendas dificuldades que a vida colocou à filha. Também ela sofria as mesmas dores, as mesmas mágoas calada, esse silêncio atroz que se gera no caos de algumas vidas onde não chega o abraço solidário a mão amiga, o lenço que pode secar as nossas lágrimas.
-Minha Senhora de Fátima ajudai-me, tende compaixão de nós, Senhor dos Passos. Senhor Jesus valei-nos!
A Rosa rezava ajoelhada na laje fria da singela cozinha em apelos desesperados àqueles em quem tinha maior devoção. Pedia clemência pelo infortúnio que por duas vezes lhe bateu à porta sem aviso prévio e sem o merecer. Não se sabe se essas orações foram ouvidas lá no Céu onde todos depositam esperanças mas o que consta é que as duas vivem o resto dos seus dias, felizes em Branzelo

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sangue Cigano

A caravana serpenteou pela poeirenta estrada nas fraldas da serra da Boneca. As carroças, puxadas por cavalos eram sete carregadas com os mais diversos utensílios que podem existir numa habitação e, sentadas por cima dos panais das tendas, seguiam as mulheres, umas ainda jovens, outras mais velhas segurando no colo crianças pequenas que baloiçavam ao sabor dos saltos que as irregularidades do caminho provocava nas molengonas. Ao lado com as rédeas dos animais presas nas mãos, caminhavam os homens e dois cães já velhos com aspecto de cansaço deitando fora da boca a língua seca pelo escaldante calor da tarde.

Uma lata acompanhada por diversos utensílios de cozinha pendurada num dos lados da carroça da frente, continha objectos que tilintavam e anunciavam distante a passagem da peregrina procissão.

Tinham atravessado a fronteira em Bragança vindos de remotas planícies espanholas numa sina pária, vagabunda que lhes lembra todos os dias que a pátria de um cigano é onde estão os seus pés. Estabeleceram-se em Vimioso depois de numa caminhada nómada e sem pressa obedecendo a milenares tradições permanecendo fiéis ao espírito livre do seu povo que os fazia cumprir uma espécie de judaica e errante maldição.

O último acampamento conhecido tinha sido, até à madrugada, o campo da feira em Penafiel mas tiveram de partir para poder sobreviver à habitual hostilidade dos seus hospedeiros. Ninguém quer ciganos por perto; os efeitos de perversas xenofobias hereditárias, prolongam-se de família em família e só a Régua no Douro, Vila Verde no Minho e Oliveira do Douro em Gaia, estabeleceram com eles um pacto de não agressão. Pobres ciganos, inocentes da maioria dos crimes de que são acusados, vão sendo perseguidos ao longo da história, pagando de geração em geração o seu incondicional amor à liberdade.

A fila aparecia no alto a dobar a serra tendo pela frente um cenário maravilhoso que os havia de fazer parar lá ao fundo onde a mancha na paisagem é verde e o Douro corre serenamente. Montaram acampamento por baixo dos sobreiros que ensombravam uma zona plana à porta da taverna do Belmiro e adivinhava-se que ali iriam permanecer algum tempo ramificando os negócios pelas terras vizinhas. Veio a noite que desenhou os contornos das tendas montadas em círculo iluminadas com foscas luzes de lampiões a petróleo e, cá fora, havia já preparativos do ascender de fogueira. Do meio do silêncio do sombrio lugar, começou a ouvir-se o trinar melancólico de uma guitarra espanhola. Palmas e sapateados anunciavam o principio da festa em quanto alguém com mestria dedilhava as cordas ao mesmo tempo que outro sacudia um pandeiro e um cantar dolente que fazia lembrar o vento a acariciar as desérticas planícies de Almería, enchia a noite de festa onde cá fora as mulheres vestidas de coloridos trajes, peça sobre peça, de castanholas batentes enfiadas no dedo polegar, outras agitando leques multicores, dançavam o flamengo transformando o ambiente como se sentissem em Sevilha, Córdova ou no bairro de La Mancha ou ainda em Úbeda ou Baeza aldeias brancas e solitárias rodeadas de olivais tão distantes daqui, exprimindo o espírito, a luta, o desespero, a esperança e o orgulho da raça Calé originária das terras difíceis de Sierra Nevada e toda a província Andaluza.

Ao redor da fogueira entretanto acesa, a dança era guerreira e mourisca antiga herança que os Sarracenos perseguidos deixaram no seu último reduto em Granada e só as mulheres evolucionavam na magia da contra luz que as labaredas produziam e ouviam-se olés em uníssono quando o tocador abafava repentinamente as cordas ao instrumento e só esses sons manuais repercutiam na noite. A voz masculina do esguio e trigueiro cigano, progredia pelas trevas dentro solta, carregada de mágoa, nostalgia e saudades das terras longínquas de Espanha que tinham abandonado há muito.

Que bonitos ojos tienes.

Debajo de esas dos cejas.

Debajo de esas dos cejas

Que bonitos ojos tienes.

Os acordes firmes e melódicos compassados pela mestria do toque da mão do tocador no tampo do instrumento, atraíram o Ramiro que veio ao encontro da improvisada serenata como se seduzido pelo som harmonioso que um vento nocturno lhe fez chegar aos ouvidos. Ele desconhecia que nas suas veias embora, de nacionalidade portuguesa, corria abrasador um sangue a reclamar constantemente o regresso às práticas ancestrais da sua procedência. Sangue cigano herdado à séculos em circunstâncias indefenidas, seiva que lhe alimentava o corpo e parecia reconhecer os sons e as melodias e, como se pretendesse reviver a sua origem, obrigava-o a comportametos muito estranhos.

Ellos me quieren mirar.

Pero si tu no los dejas.

Pero si tu no los dejas.

Ni siquiera parpadear.

Cada vez mais se acentuava o entusiasmo da festa e até o próprio Ramiro, infringindo a rigidez do ritual, já bailava com Vera Lúcia uma das jovens e decerto a mais bela das ciganas do acampamento numa intimidade tal que fazia crer que os dois, já se conheciam desde o princípio da vida.

Malagueña salerosa.

Besar tus lábios quisira.

Besar tus lábios quisira.

Y dicirte niña hermosa.

Que eres linda y hechicera.

Ao fundo da tenda central, Leandro o velho patriarca assistia à dança preocupado enquanto a neta trocava olhares comprometedores com o jovem intruso que parecia fascinado com semelhante visão.

Si por pobre me desprecias.

Yo te concedo razón.

Yo te concedo razón.

Si por pobre me desprecias.

Yo no ofrezco riquezas.

Te oferezco mi corazón.

Te oferezco mi corazón.

A cambio de mi pobreza.

Ramiro já entregava o coração a troco só de um olhar da linda cigana e pouco ou nada haveria a fazer para parar a súbita afeição que nascera ali, a noite apadrinhava e prometia ir crescendo ao longo da dança pagã até se tornar perigosa. A guitarra ia marcando o compasso e a voz do cigano trigueiro era a mágoa feita cantiga no tremer das cordas vocais que prolongavam o fatalismo dos versos e enfeitavam ainda mais aquela maravilhosa noitada de sonho.

Malagueña salerosa.

Besar tus labios quisira.

Besar tus labios quisiera.

Y dicirte niña hermosa.

Que eras linda y hechiera.

Que eras linda e hechiera.

Como el candor de una rosa…

Ele deixou-se prender no amor de um momento por uma cigana morena de cabelos pretos e longos com uma flor de papel espetada, presos por uma fita vermelha e arrecadas douradas a pender em cascata das graciosas orelhas que o olhava na afeição de uns olhos tão brilhantes e negros como as mais negras e belas noites de Andaluzia, desconhecendo a tirania da lei a quem Vera Lúcia jurara obedecer.

Na manhã do outro dia debaixo do sobreiral fumegava ainda a fogueira que aqueceu a festa mas o acampamento tinha partido logo ao alvorecer levado pela nómada caravana que serpenteava lá longe nos caminhos da serra das flores. O velho nómada accionara a sua condição de chefe e patriarca e antes que o ardor do sangue cigano da neta evoluísse até provocar mortes, deu ordem de partir cedo e para longe onde se escoasse para sempre o fogo daquela já maldita paixão. Ramiro chegou ao ser dia ao sobreiral em busca da mulher que o enfeitiçara e prendera e deparou com a solidão e abandono do sítio onde pela primeira vez se deixou encantar. Não viu sequer partir a caravana que levou a sua amada e mesmo hoje não sabe se ela é viva ou se é morta ou anda ainda vagabunda pelo mundo fora e, se lá longe, muito longe, o tenta agora esquecer como ele a recorda agora.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bombeiro

A mão direita recusa-se a acompanhar o metro e oitenta de flacidez deste corpo outrora admirável.
A mão e a perna do mesmo lado, inactivas, desarmadas e mortas perante as necessidades do tempo de vida que ainda lhe falta viver, rejeitam as gloriosas marchas de outros tempos. A voz essa secou-se e emudeceu na garganta como se um pavoroso incêndio lhe tivesse queimado as cordas vocais.
Não fala, não consegue falar mas aqueles olhos grandes perscrutam o espaço que tem pela frente aflitos, e como se fossem dois potentes altifalantes que falassem por eles, vão deambulado pela terra como emissários das coisas fantásticas que passaram por eles.
Já não comanda as forças que devastavam o inferno em que se transformavam as casas e as serras em redor nem a sua voz firme ordena as estratégias de combate a tão traiçoeiro inimigo que deflagrava inesperadamente espalhando terror, dor e sofrimento. Lembra-se, lembra-se sempre dos braseiros terríveis, do clamor das chamas que nunca recusou combater mesmo a troco de nada apenas por solidariedade e porque num gesto responsável o jurou um dia fazer.
Os olhos atentos desse tempo deram lugar a duas lanternas foscas e difusas que ainda gritam de revolta em cada amanhecer.
Encosta-se ao varandim do cais e tem no horizonte imediato a paisagem que conheceu e sempre admirou e amou desde a nascença. O douro corre-lhe nas veias e moldou-lhe este carácter invencível de guerreiro. De vez em quando a cortar este silêncio prolongado, soa o agudo som da sirene do quartel que comandou.
-É fogo! É acidente!
Como se impulsionado por uma mola invisível ele, a quem as forças do corpo já abandonaram há muito, salta perturbado e parece que vai em aflição correr caminho fora apresentar-se ainda voluntário no quartel a responder ao lancinante apelo. Só a alma deste homem se inquieta e sofre mas o corpo alquebrado, negou-se mais uma vez a acompanhar a desprendida solidariedade que sentiu e sente sempre que aquele som ecoa pela terra.
Vejo lágrimas nos olhos do velho soldado, lágrimas gordas que lhe rolam pelas faces enrugadas e vão secar ali; compreendo a sua dor a sua aflição e comovo-me tanto por saber da indiferença do mundo perante tamanha e voluntária servidão.
Foram-se os anos, foi-se a dinâmica juventude que lhe permitiu correr por montes e vales de machado ou mangueira em punho em defesa daquilo que nem seu era mas sabia ser seu dever preservar, e também a companheira aquela que foi o seu amor. Foi-se tudo arrastado no vendaval da vida que o deixou solitário e triste.
Olha a confluência dos dois rios com o olhar preso num infinito que mais ninguém conhece como um louco que espera o navio da sua mocidade que trouxesse as figuras queridas do passado, os amores da juventude, as noites de vigília, o horror dos montes em inferno vivo e atracasse neste cais perdido do Douro só para lhe devolver a força e o vigor de antigamente.
Tudo é silencio agora; o apelo calou-se e já se perderam ao longe os sons estridentes das sirenes das auto-bombas dos camaradas que se fizeram à luta exactamente como no passado, como no seu tempo. Todas as lembranças pairam na mente angustiada do velho Comandante. O tempo, esse maldito carrasco que nos transforma em farrapos físicos, jamais terá dele a desistência a rendição. Luta ainda como o fizera dantes agarrado às cinzas do fogo dos anos que lhe queimaram a vida e o deixaram prostrado a sofrer os tormentos da velhice.
Bombeiro!
Foi o pai quem lhe ditou semelhante sina ao oferecer-lhe como prenda de anos aquele carrinho de folheta vermelho a imitar o real. Brincou com ele inocentemente a fingir que acudia aos fogos que socorria as desgraças de todo o mundo. Esse carrinho de lata que ainda conserva nas relíquias da sua meninice marcou-o como ferro em brasa que deixasse estigma definitiva e irreparável na sua longa historia e, definiu um processo tão deslumbrante que só a amaldiçoada trombose foi capaz de parar.
Nenhum navio chegará para atracar neste cais deserto, não há qualquer embarcação algures no horizonte mas se chegar, não trará certamente o esplendor de antigamente que consolasse e fizesse feliz este valente e heróico soldado da paz.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conta uma História, Avô



Anda cá Beatriz, senta-te aqui deste lado e tu Matilde, ficas à minha direita, uma em cada perna, sossegadas que este é um daqueles momentos que haveis de recordar pela vida fora. A Maria e o Afonso são ainda muito pequeninos mas podem ficar à nossa beira a ouvir sem entender a grandiosidade da herança que os espera. Escutam apenas e sorriem por que os bébes trazem com eles a graciocidade dos anjinhos, a imaculada condição de quem é puro
Hoje vou-vos contar a história do barqueiro que no seu barco azul remava, remava pelo rio abaixo todos os dias e, uma vez…
-Avô conta aquela do Cotiça, quando ele apareceu com o pau dele e começou a bater!
-Hoje não Matilde, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava pelo rio abaixo todos os dias.
-Não avô, conta aquela do gigante que bebeu a água toda do mar!
-Não Beatriz, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava todos os dias pelo rio abaixo.
As duas crianças vencida, anuíram com um sim verbal e um abanar afirmativo de cabeça e, os seu olhos pequeninos, deixaram de ver e perscrutavam já o cenário maravilhoso do rio onde tudo aconteceu. Porém, com a vivacidade própria de quem procura avidamente respostas para as intensas interrogações que o mundo provoca nos seres em processo inicial de vida, uma delas interrompeu:
-O barqueiro do rio doiro avô, o que levava um pau escondido no barco para bater no Cotiça que rouba as galinhas, disse apreensiva a Matilde.
-Eu também tenho um pau escondido no meu barco, disse a Beatriz.
-Tu tens um barco?
-Tenho uma canoa pequenina e às vezes vou a remar, a remar pelo rio abaixo.
-Eu também tenho um barco muito grande avô e levo lá um pau escondido para dar umas cacetadas na Alface Pintada.
Enquanto falavam os braços pequeninos iam imitando a arte de remar o proceeso de locomoção que nunca tinham cisto e, em gestos tão ritmados e perfeitos, pareciam infantis barqueiros, seres que tinham nascido já com a faina do rio entranhada no corpo e na alma.
O homem velho deixou que as duas rapariguinhas fizessem a introdução do conto, permitiu que a imaculada imaginação delas colorisse de fantasia as narrativas com que de vez em quando lhes ocupava a mente. Após breves minutos, serenaram os anjinhos e, como se o livro grande da sua vida se abrisse em determinada página, o avô continuou:
Era uma vez um barqueiro que tinha um barco todo azul e remava pelo rio abaixo todos os dias. Era já velho, na cara enrugada, continuou passando a mão pelo próprio rosto, traziam um mapa que parecia mostrar todos os recantos maravilhosos do douro. Dizem que conhecia todas as manhas do rio, que falavam um com o outro e que gostava tanto dele que não havia dia nenhum sem que ele navegasse pelas suas águas com o seu barco azul. Então o barco aparecia vindo não se sabe de onde, parecia que o rio o levava no seu colo. A água rasgada pela proa do barquinho, fazia um murmurejar suave de ondas a bater nos rochedos das margens. Quando ele passava com o seu barco, todos os peixinhos do rio vinham a acompanhá-lo desde lá de cima de Midões até ao areal de Melres onde ele parava de remar e deixava-se ir a boiar pelo rio abaixo como se fosse uma folha de árvore caída na água.
Uma vez, levantou-se um temporal muito grande por cima de Rio Mau, as nuvens eram tão negras que o sol deixou de iluminar a terra. Fiou escuro como a noite, nada se conseguia ver à distância de uns metros e começou a chover tão forte que até os cães bebiam a água da chuva de pé. O ciclone que apareceu entretanto, fazia as árvores abanar e as pontas mais altas, balanceavam-se quase até tocar no chão.
O barco azul vinha no meio do rio que parecia uma mar embravecido com ondas do tamanho de uma casa, o barqueiro lutava desesperadamente com a fúria da tempestade e, de repente, um forte repelão de vento fez os remos caírem na água e o barco ficou completamente desgovernado. Tudo parecia perdido para o barqueiro, sem remos, nunca conseguiria chegar a terra a salvo e o mais certo seria afundar-se com o seu barco azul nas profundezas do sitio. Então do alto do céu que se abriu como por magia, saiu uma luz muito branca que iluminou o rio e a terra e, como respondendo a uma ordem divina, apareceram milhares de peixinhos que com as pequeninas cabeças, empurraram o barco azul até à margem.
O barqueiro tirou a boina preta, descobriu-se e dizem que pela primeira vez na sua vida se ajoelhou no barco a rezar.
Ainda hoje, quando estou sentado aqui a olhar para a água, continuou o avô, parece-me ver esse barco azul com um barqueiro a remar, a remar por esse rio abaixo.
Fez-se silêncio que durou o tempo que pode levar uma alma a chegar ao céu ou fazer as mentes deslumbradas destas crianças deixar de sonhar e a voltar a experimentar a realidade.
-Olha acolá para baixo para o rio avô, não vês o barco azul a passar? disse a Matilde.
-Também estou a vê-lo avô, é cor-de-rosa, proferiu a Beatriz.
O velho barqueiro olhou para rio e não havia barco nenhum a sulcar as águas mas sorriu afirmativamente por ter reconhecido mais uma vez que é sempre possível ter um barco, um rio e navegar nele quando somos capazes de reinventar o tempo feliz e inocente da nossa meninice.
Todos temos um rio a correr dentro de nós mas são muito poucos a deixa-lo sair das margens que o oprimem.


In, Conversa Com Um Rio de Manuel Araújo da Cunha











segunda-feira, 12 de julho de 2010

Cemitério de Livros

Encontrei-o por acaso quando percorria as difíceis estradas da margem direita do Douro. Estava pendurado numa encosta sobranceira ao rio todo metido numa floresta antiga que ocupa uma vasta extensão de terreno agrícola com leiras cultivadas a medo a aparecerem numa clareira a subir o monte de Arados.
Dali domina-se uma vasta paisagem e, do outro lado do rio surgem lugarejos dispersos, casa de quintas e povoações de média dimensão. O verde persiste ao longo da toalha de água que aparece a rabiscar ao fundo do vale.
Muito antes da fundação do convento, essa floresta selvagem que ainda o envolve, era povoada somente por Lobos, Ursos e Javalis. Ergue-se altivo do chão numa grandiosidade velha que fala permanentemente nos primórdios de uma nação que foi ilustre e sábia.
Em seu redor, fora dos altos muros de granito que delimitam a propriedade, o tempo avançou apressado e, a aldeia pequenina que subsistia do trabalho nas terras, começou a vender e a exportar o seu chão de granito. Evoluiu, os dinheiros da pedra trouxeram progresso e, envaidecida por tanta riqueza, tornou-se vila e, dos tempos remotos da sua origem restam aqui e ali alguns monumentos, um Memorial que assinala a passagem do cadáver de Santa Mafalda a caminho de Arouca, várias igrejas e capelas antiquíssimas a falar e a trazer à memória a história passada.
O Mosteiro Beneditino é sem sobra de dúvida o marco maior, o ex-líbris de que tanto se orgulha apesar de ser propriedade privada. Daquela grandiosa construção, só à igreja situada numa lateral dos claustros tem acesso o público nos dias de actividade religiosa. Construído no ano de 1054 por ordem e a expensas próprias do presbítero Velino que obedecendo a uma voz divina que ouviu durante três noites e o apontava como servo de S. João Baptista, tem enterradas sob as pedras da sua fundação, as relíquias de Santa Comba, Santa Eugénia e do próprio S. João Baptista que lhe deu nome.
Decorriam na altura da minha visita, obras de beneficiação em toda a extensão interior e exterior do monumento que aparecia desnudado de barros e cales com as grossas paredes despidas e andaimes de ferros e pranchas de madeira a abraçá-las assemelhando-se a estrutura esquelética antecipadora de uma ruína total.
Levado pelo Feitor e representante do proprietário que me disse chamar-se Henrique, iniciei uma visita guiada pelos claustros do monumento. Foi num dos vários amplos salões lajeados a enormes pedras de granito que encontrei amontoados no chão centenas de livros.
Era um cemitério onde repousavam caídos os cadáveres das brochuras que outrora constituíram uma enorme e erudita biblioteca que fez parte de muitas vidas, livros que foram escolhidos por uma razão qualquer, que foram lidos pelo menos em parte e sentiram os dedos de mãos carinhosas a acariciar as suas lombadas ao mesmo tempo que olhos apenas curiosos e outros em busca do saber, lhes desventravam as páginas, livros que foram o espelho cultural de um povo comparados com outros que adquiridos por gente vaidosa, só serviram para decorar fachadas de estantes aliás, como acontece hoje em dia. Estavam ali cobertos pelo pó, misturados com restos de madeiras podres, lixos diversos, à mercê de humidades, da traça, em partes ruídos por ratos, alguns abertos mostrando as palavras de determinada página, todos desordenados e sós.
Ao acaso apanhei do chão um deles com encadernação inteira de pele verde, com ferros gravados a pigmento negro nas pastas. Exemplar em excelente estado de conservação, preservava as capas de brochura, apresentando apenas insignificantes e muito ocasionais picos de acidez. Era uma primeira edição do autor, José de Almada Negreiros com título, A Invenção do Dia Claro, seria uma escrita de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, seguida das formas para a Invenção e acompanhada de confidências mais intimas e gerais, ensaios para a iniciação de portugueses na revelação da pintura, editado pela Olíssipo de Lisboa em 1921.
Simultaneamente poesia, prosa e arte poética, vim a sabê-lo mais tarde, aquele livro era um dos trabalhos mais representativos de Almada Negreiros, publicado por Fernando Pessoa, cuja edição constou de um número muito reduzido de exemplares.
Voltei a depositá-lo no caixão colectivo de pedra, sentira-o nas minhas mãos talvez as últimas que lhe acariciaram a capa e as folhas e não pude deixar de sentir pena, a grande pena de quem acaba de perder um caro e ilustre amigo.
-Já faltam aqui muitos, os melhores, o patrão levou-os, ficaram estes que não servem para nada!
Não sabia quem era o patrão, a criatura que de uma montanha de livros soube escolher os melhores mas, nas profundezas do meu silêncio da altura, soltei a raiva de quem discorda completamente com semelhante discriminação. Não existem bons e maus livros, existem apenas livros que mesmo não constituindo duvidosos "best seleres" ou tenham sido escritos por notáveis escritores Nobelados, afirmam-se, todos eles, como instrumentos indispensáveis da cultura de um povo.
A morte de livros é tão trágicas como é a morte de alguém. Representa uma perda irreparável para a humanidade, o sinal evidente de que, apesar de que nada se criando tudo se transforma, haverá um dia em que porque tudo se destruiu e nada se criou, nada haverá para ser transformado. Como acontece com as pessoas idosas, os livros finam-se simplesmente esquecidos e abandonados num sótão de uma velha casa ou ardem em chamas nas praças do mundo que sempre os ignorou e combateu. Estes, cumpriram a sua missão de ensinar, de transmitir mensagens que ajudaram a melhorar o mundo e, mesmo agora a repousar vencidos, continuam a ser livros, pedaços de gente, palavras que alguém disse e escreveu com a mesma vontade dos que ainda hoje teimam em deixar pensamentos e ideias ou simplesmente uma história.
Estes que restaram da escolha feita por um infeliz homem de dinheiro serão cremados, disse o Henrique. As suas cinzas serão devolvidas à terra de onde afinal, tudo nasceu e tudo se transformou.
Sobre as pedras gastas que circundam o fontenário sagrado e decorado com belíssimos azulejos situado um pouco a montante do edifício principal, nesse recanto tranquilo onde à centenas de anos nas noites de estranhas visões o abade Velino se sentava a meditar, comecei a escrever o que viria a ser o meu primeiro livro, a criar os volumes de papel e letras que podem morrer jovens ou ficar vivos até que o tempo um dia também os transforme em pó, na esperança de que as imensas obras literárias que jazem lá dentro, não morram em vão e que, do pó e cinza em que se estão a transformar, renasça uma outra escrita que fale de coisas modernas e antigas, do Douro e da linda Vila de Alpendorada que tem um secular convento beneditino e muitas ricas histórias para contar.
Abandonei o Mosteiro de S. João Baptista por entre imaginários cânticos gregorianos dos monges defuntos levando comigo umas letras de esperança e deixando atrás de mim um cemitério de livros.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Lobisomen

Debruçado sobre a lareira situada no lado esquerdo da singela cozinha, sentado num banco de madeira comprido e remexendo nas brasas já mortiças com um pauzinho que se soltou da lenha amontoada a um canto do pequeno compartimento, o Lourenço contava aos dois netos, acachapados em frente do calor que o aparelho produzia, histórias tão mirabolantes que só mesmo os cérebros inocentes das crianças poderiam aceitar como verdadeiras.
Farto de rebuscar formas de ocupar o tempo nas longas invernias tão frequentes ali à beira do rio Douro, era com muita dificuldade que conseguia responder à natural curiosidade dos miúdos, espicaçados pela necessidade urgente de saber e aprender cada vez mais as coisas da vida e também única forma de matar as horas que a chuva impedia de passarem lá fora na rua a brincar.
É um homem aparentando ser já velho mas na realidade tem apenas cinquenta e seis anos penosamente contados nuns tempos pobres e agrestes que lhe maltrataram o corpo esforçado desde criança em trabalhos desumanos nas beiras do Douro.
Tem os cabelos matizados de branco, rosto aguçado e enrugado onde ao centro aparece um nariz robusto e por baixo dele um farto bigode caído nos cantos da boca e ligeiramente queimado pelo fumo do tabaco, que veste um casaco de bombazina castanha por cima de uma camisa de flanela azul com riscas amarelas que lhe entala o pescoço no colarinho e meio enfiada na cintura das calças de cotim militar. Na cabeça redonda e a cobrir a cabeleira grisalha, usa uma boina preta bastante russa de desbotada, a dar a impressão de ter incalculável idade.
A vida inteirinha passou-a no rio; primeiro na pesca do sável e da lampreia, depois nos barcos Rabões a carregar carvão antracite para o Porto. Dias, meses e anos a percorrer o rio com ou sem a claridade do dia num degredo que lhe consumiu a carne do corpo a par da juventude também sumida a remar como um galego neste pedaço do Douro. A filha Laurinda, sua única semente que germinou no campo miserável da sua existência, levou-a a tuberculose aos vinte e cinco anos de vida deixando-o amparo destes dois cachopos que além do sustento do corpo, reclamam dele cuidados e vigilância permanente. Ávidos de conhecimento e sem as atenções de uma mãe que pudesse satisfazer os naturais anseios dos filhos, parece que trazem com eles todas as interrogações do mundo e, o velho barqueiro rebusca na pálida memória as respostas que julga serem as mais sensatas e que possam ser a pedagogia mais apropriada a estes seres pequeninos. A mulher levou-a uma doença desconhecida apesar dos esforços do Dr. Amorim já lá vão dez anos. Teófilo o genro e pai dos dois moços, logo que se apanhou sem fêmea, abandonou as crias e enfeitado como um chibo com cio, partiu atrás da figura esbelta e avantajada de tetas da Esmeraldina da Seixinha por quem sempre manifestou estranhos apetites.
O barqueiro pousou o graveto na borda da chaminé, aconchegou-se um pouco mais para trás na espreguiçadeira e começou mais uma narrativa...
Aqueles uivos dolorosos que se ouviam bastas vezes em Cruz de Ferro inquietavam todo o povoado que surpreendido no meio do sono acordava transido de medo. Era um som angustiado como o lamento de alguém a quem roubaram a alma ou fêmea de cão desesperada a chorar a perda das crias. Todos sabiam da existência de lobos lá em cima na serra da Boneca mas nunca pensaram que as feras escolhessem precisamente a encruzilhada dos caminhos de Valmourisco para se exibirem todas as Sextas - Feiras à meia -noite, num queixa à lua que fazia estarrecer toda a gente.
Bem procuraram sinais que pudessem indicar o covil desses felinos predadores mas da mesma maneira que apareciam no ermo, também se evaporizavam de forma tão intrigante que se começou a pensar ser obra de seres de um outro mundo.
As duas crianças de olhitos arregalados, assistiam ao desenrolar da história que lhes despertava temores e umas não sei quantas interrogações. Com as vistas fixas no avô, sem pestenejar, aguardavam anciosas pelo momento em que podessem respirar de alívio. Tardava a conclusão e, como quem narra acontecimentos da sua própria vida, o Lourenço assumia a postura própria de um verdadeiro contador de histórias e, sem a menor hesitação, continuava:
O Tardo chegou a ser acusado na praça pública como o responsável de semelhantes desacatos nocturnos e só o Paulo Gigueiro, o mais evoluído do lugar que até chegou a ser soldado na Guarda Republicano, cancelou as fortes suspeitas ao lembrar num ajuntamento popular que o Tardo é completamente surdo mudo e só pretende brincar com as pessoas e fazer algumas travessuras transformando-se e assumindo a forma de qualquer animal conhecido. Dizia que quase todas as noites quando descia a Cancelos, figurado em cão, num em gato, numa porca com bacorinhos atrás e até em cavalo, o endemoninhado saltava à sua frente no caminho à beira da Fonte da Preguiça:
- Aquilo que berra lá em cima de noite, só pode ser o Lobisomem!
Ninguém acreditou nele, quem em juízo perfeito acreditaria num velho borrachão sustentado praticamente com aguardente e vinho!? Ferido no seu orgulho o guarda calou-se. O desgraçado guarda habituado a matar em cega obediência ao comando do Porto, tinha ficado célebre em Felgueiras por ter morto com um tiro de Mauser um pobre lavrador que defendia com unha e dentes as videiras americanas que a ruindade do Governo queria arrancar, emudeceu ali. Não por que a razão o tivesse abandonado, mas porque a sua alma negra que tenta em vão branquear com álcool, o mandou estancar.
Todo o povo, desaproveitando os palpites do Gigueiro, continuou a procurar as causas prováveis dos desacatos nocturnos; se eram lobos, o melhor seria deitar trancas aos portelos dos gados, enfeitar os cães com coleiras com espetos de aço cravados porque os bichos bravos com fome, até os cães estrucegam pelo pescoço e depois num autentico festim, devoram os restantes pedaços dos animais excepto a cabeça.
Falar, todos falavam a dar ideias uns aos outros que passavam quase todas por vigilância apertada e se possível lá bem perto da encruzilhada de onde pareciam vir os gritos dos animais selvagens, mas passar de conjecturas à prática, era quase impossível porque o medo condicionava todas as vontades até as dos mais avantajados de corpo.
Aqueles que mais falavam ali a dizer que faziam e aconteciam, eram os mesmo que à meia-noite dessas fatídicas Sextas-feiras se mijavam todos pelas pernas abaixo ou se refugiavam a tremer de medo nos regaços das esposas quando ouviam os lobos uivar.
O tempo ia passando vagaroso por Sebolido sem que nenhuma das pobres almas se atrevesse a desafiar a matilha que impreterivelmente fazia aquele horripilante espectáculo todas as semanas. Encolhidos nos seus próprios temores, evitavam conversar sobre o assunto e os lancinantes uivos, passaram a fazer parte integrante dos banais acontecimentos da terra com quem todos já se sentiam familiarizados e, só o terror permanecia, agora com dia marcado e só depois das trindades.
Numa noite, o Raposo que regressava a casa vindo de Aveiro da tropa e calcorreou os caminhos desde a estação de Campanha até ali, foi surpreendido ao passar por baixo nas Portelas, pelos uivos aflitivos dos lobos e com a coragem própria de quem dá gratuitamente o corpo ao manifesto em defesa da pátria, jurou logo ali que havia de passar a ferros aquelas ameaçadoras feras.
Se bem o pensou e jurou, também passou rápido à acção e logo no dia seguinte fez constar os seus propósitos por toda a população. Porém, desconhecedor das últimas e novas ocorrência da freguesia devido à prolongada e forçada ausência, não sabia que teria de esperar uma semana para cumprir a promessa que já todo o lugar aplaudia como o mesmo entusiasmo que se aplaude um touro que vai a caminho do matadouro.
Mesmo correndo com lentidão o tempo, a Sexta Feira chegou embrulhada na esperança de todo um povo que já respirava de alivio só de saber que havia um voluntário para enfrentar as fera e, logo um tropa habituado, pensaram, a lidar com canhões e outros tipos de armamento capazes de desbaratar uma alcateia inteirinha.
Bateram as onze da noite num sino algures do outro lado do rio Douro e já o Raposo armado de sachola na mão, esperava os bichos na encruzilhada de Cruz de Ferro. Ainda era cedo mas ele, na sua condição de militar tinha de definir antecipadamente as estratégias do combate e, nesse caso concreto, não há nada melhor que fazer antes de tudo o reconhecimento do campo de batalha. O sino voltou a badalar horas mas o militar nem tempo teve de saber quantas pois um vulto de homem surgiu no meio dos caminhos e num instante transformou-se num lobo.
O tropa venceu depressa a estupefacção e, antes que se lhe arrefecesse o sangue nas veias, avançou resoluto para o animal e espetou-lhe uma sacholada na cabeça que respingou sangue por todos os lados atingindo o Raposo na cara e ele sentiu como se tivesse sido varado por uma espada feita de gelo. Empunhando a arma numa atitude de fúria, viu o lobo transformar-se outra vez em homem e reconheceu-o naquele corpo a sangrar o embora filho de mães diferentes, seu meio-irmão Valdemar. Confuso, desorientado, completamente perdido no meio da encruzilhada experimentou a dor do corpo a metamorfosear-se e, em breves minutos era ele também um lobisomem a uivar como um louco para a lua. Tinha esquecido as orientações que aprendera na tropa e, como não sabia ler nem escrever, nunca tinha consultado os manuais de guerra que diziam ser, conhecer bem o inimigo, a primeira acção de um combatente. Ignorou outras não menos importantes e nem sequer sabia que quem for o oitavo filho varão de mãe que tenha sete filhas, não escapa a ser alma penada e também que, no acto de matança de um deles, quem receber no corpo pingos do seu sangue, virá a ser um Lobisomem.
Os pequenos suspiraram aliviados e a coçar os olhos enquanto o Lourenço parecia ter desperatado de um sonho. Depois de uma breve pausa, retomou a narração:
Sebolido acordou numa paz despreocupada ao verem o Raposo passar acompanhado pelo irmão Valdemar a caminho dos campos. Estava vivo, vencera a alcateia e acabara de vez com aquele inferno semanal. Todos se sentiam felizes e contentes mas longe de imaginar que na próxima semana haveria mais um lobo a uivar à lua.
Já há algum tempo que as duas crianças dormitavam, decerto nem ouviram toda a fantástica e tenebrosa história inventada há séculos com o propósito de lembrar às criaturas mais jovens os numerosos perigos que as sombras da noite agasalham.
Dormiam já tranquilos os anjinhos sob a protecção do Lourenço que com aquela renovada ternura que só um avô sabe dar, lhes pegou ao colo e foi deitá-los na mesma caminha encostada a um canto nos fundos da pequenina sala.
Ali muito perto o rio Douro repousava das freimas do dia, dormia em paz e tão serenamente como se fosse um Deus.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Magnifica


Quando o Zeferino Lucas transpôs mais uma vez a soleira da porta da miserável habitação onde vivia para marchar até ao rio, estava longe de imaginar que aquele casebre sem qualquer conforto haveria de vir a ser o abrigo de uma santa.
As figuras veneradas, que todos consideram e bem, habitar exclusivamente num lugar inacessível, tão longínquo das coisas e vidas terrenas, excepcionalmente adquirem forma de simples mortais e, contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes em que um ser santificado apareceu encarnado neste mundo. Não porque não houvesse necessidade permanente de iluminar e amparar as almas que vagueiam num mundo sem qualquer protecção mas mais pela razão óbvia de que o lugar deles é no céu bem perto do ser Omnipotente. A Ele cabe administrar os destinos do universo, decidir o castigo ou o perdão e, só à sua Santíssima ordem poderão acontecer milagres.
Apesar de serem ainda sete horas da tarde o barqueiro deixou já deitados na cama os cinco filhos pequenos. Anoitece rapidamente e depois luz eléctrica que permitisse ficar mais algum tempo em serão, não existe nesta casa e mesmo nas outras que compõem o lugar salvo raríssimas excepções. Caminhou pelas ruas do Castelhão até à beira do Douro, foi à vida, ganhar o pão de cada dia a remar num monstro de madeira carregado de carvão antracite até Campanhã. Tripulante desses rabões negros, era como outros um escravo entregue à dureza da arte e às muitas fúrias do Douro.
Levou no coração as saudades de casa, da Palmira sua esposa que o via partir sempre com o coração nas mãos a recear o perigo que sabia, espreitava em cada curva do rio em cada madrugada de violento temporal, do Henrique, do Francisco, do Luís, da Ilda e da Isabel crianças pequenas que não compreendiam ainda as forçadas ausências do progenitor e ali ficavam naquele sombrio lugar sem pão, à espera que o seu regresso trouxesse ao menos uma côdea de broa para rilhar.
Nunca se viu semelhante miséria neste mundo, a vida aqui é um tormento, uma constante luta pela sobrevivência que nem todos conseguem garantir. Ficam-se mortos na tenra idade desconfortáveis, famintos, desnutridos e à mercê de todas as doenças do mundo. Morre-se por tudo e por nada, tudo são dificuldades mas vingar um filho é heróica tarefa que nem todos conseguem levar a bom porto.
De vez em quando o sino da capela toca a anjinho e mais uma urna branca e pequenina segue o caminho do cemitério. Lá dentro vai a vida que era flor e murchou antes do tempo. É preciso nascer-se muito forte para resistir.
A Palmira ficou a aconchegar a ninhada que dormitava toda numa cama só. Ali dentro das quatro paredes da casa de xisto faltava quase tudo mas o amor, o carinho e a ternura de uma mãe ainda não tinham acabado e mesmo subjugada pela desgraçada vida, aquela heróica mulher, desdobrava-se em cuidados a tratar dos filhos.
Era Inverno, o frio vindo das serras entrava pelas frestas da porta tangido por um vento muito forte e as mantas de aconchego daquela gente, eram retalhos de velhas velas dos barcos, pano cru tão crua como a realidade da vida.
Serenava a aldeia toda neste refúgio circundado por montanhas com o rio a ser sozinho a fábrica do pão e estalava enfim a paz na humilde casinha na Pia da Casca e um silêncio pesado caiu sobre a terra como um manto divino protector.
Bateram na porta da cozinha única na habitação e a mulher receando um assalto, espreitou pelo portelo antes de abrir com todo o cuidado. Era uma velhinha que batia, desleixada, suja, rota com os cabelos desgrenhados encharcada da cabeça aos pés e a tremer de frio que a olhava com uns olhos a reluzir na noite que eram uma súplica como a pedir-lhe; deixa-me entrar.
Era costume o Zefrino e a Palmira acolherem os pobres vagabundos que por ali passavam frequentemente; gente desalojada pela vida, pessoas vitimas das maldades de alguns e, num gesto solidário só conhecido pelos simples, acolhiam-nos e repartiam com eles o pouco que lhes fazia falta. Porém, já muitos indigentes por aqui passaram e tiveram abrigo mas uma velhinha como esta nunca tinha acontecido aparecer por estas bandas.
Ela entrou aconchegada pela anfitriã que ao reparar no seu miserável estado a lavou e vestiu com as suas próprias roupas. Depois de limpa, do caldo que tinha sobrado da ceia, (os pobres têm sempre caldo) encheu-lhe uma malga que a mendiga saboreou a sorrir. Rezaram o terço e a velhinha levantou-se da mesa da cozinha e foi espreitar pelo postigo e perguntou.
- O que é aquilo amarelo lá em baixo?
-Já vi que a senhora não é daqui perto; aquele ladrão é o rio Douro onde o meu Zeferino ganha o pão! Rouba-me a alma todos os dias e deixa-me aflita todas as noites! Anda cheio, cobre o campo da Redondela todo, é uma aflição! Quando for dia, vê-se melhor, agora a senhora vai dormir aqui, não está tempo para se andar lá fora de noite e muito menos uma pessoa da sua idade, amanhã logo se vê o que se pode arranjar!
Deitou-a na sua própria cama, aconchegou-lhe a roupa um pouco mais ao corpo e foi fechar a porta da entrada à chave como fazia sempre que o marido estava ausente. Meteu-a debaixo do travesseiro e adormeceu tranquila e feliz por mais uma vez ter ajudado um semelhante. Há povo fraterno e generoso em todo o mundo mas este da beira do Douro surpreende pelo tamanho do coração.
Na manhã seguinte, quando a claridade do dia entrou pelas frinchas do telhado, a Palmira levantou-se e foi certificar-se se a sua visita estava confortável.
A cama estava vazia, impecavelmente feita como se ninguém tivesse dormido ali mas da velhinha nem sinal. A chave continuava por baixo do travesseiro e seria impossível alguém passar pelo janelo.
A mulher estremeceu, era estranho o que estava a acontecer e muito mais estupefacta ficou quando vindo da cama da mendiga lhe chegou ao nariz um cheiro a rosa que se espalhou por toda a casa.
Nunca se ouviu falar de semelhante criatura e por mais que indagasse no lugar, ninguém disse ter visto pessoa que correspondesse à discrição da Palmira e nestes tempos de Inverno em Rio Mau quase ninguém passa.
O Zeferino regressou a casa no dia seguinte; vinha assustado, a viajem, tinha sido um suplício num rio turbulento e em Crestuma o barco adornou e esteve à beira de naufragar levando os barqueiros para as profundezas das águas.
- Estivemos perdidos Palmira, vimos a morte à frente dos olhos, só rezamos a Nossa Senhora, até o Bico aquele herege, se ajoelhou aflito!
Ela olhou o marido comovida sem dizer palavra a julgar coitadinha, que a Virgem Maria era aquela velhinha a quem dera guarida na noite anterior e o tinha salvo de uma morte certa.

domingo, 27 de junho de 2010

Serenatas

As guitarras trinaram num parque de campismo algarvio. Foi em Quarteira numa noite quente de sabores diversos a pairar num espaço verdadeiramente comunitário onde pessoas de muitas nações, conviviam e partilhavam usos e costumes durante uns dias de férias nesse ainda paraíso, ainda virgem e quase perfeito lugar da terra. Foi há muitos anos e para me recordar de tudo o que vivi então, recorro a algumas memórias desse tempo mantidas com carinho no meu imenso tabernáculo desta vida.
Às dez horas da noite começaram a ouvir-se os primeiros acordes que rapidamente se espalharam no ar e levaram ao grande acampamento os sons distintos de Coimbra, a melodia de encantos, uma expressão artística musical difícil definir, não só pelas vastíssimas influências musicais e culturais que geraram a sua raiz, mas também pelo infindável rol de sentimentos que no ouvinte desperta. No entanto, após se mergulhar na sua sonoridade, a consigamos caracterizar em três adjectivos: singular, profunda, marcante.
Originária música popular de executar diferente que lhe confere sons divinos parecidos com lamentos ou gargalhadas de deuses que, uma grande parte dos estrangeiros presentes, nunca tinha conhecido e escutado. Música dos estudantes, do antes e do depois, dos que de terras distantes em Coimbra sofriam a dor da ausência, os tormentos próprios de que sofrem todos os que almejam o saber.
À guitarra, instrumento construído de encomenda pelo mestre Grácio, estava o Fernando Cunha Pereira (Figueiras) moço em plena juventude a quem a permanência numa insigne faculdade transformou num dos melhores guitarristas do seu tempo. Marcando os compassos com mestria na viola, estava a Tucha, esposa do Fernando e, no centro da imensa roda que se formou num instante, aparecia o Quim de Lourido e eu um ser nascido e criado à beira de um rio, na força dos meus trinta anos, sem trajes académicos merecidos a cumprir a praxe, a dar voz aos poemas que sempre constituíram o repertório das serenatas monumentais da Sé Velha.



Se tu quisesses ser minha
Minha nau, dos meus desejos
Dava-te a vida inteirinha
Dava-te a vida inteirinha
Num ramalhete de beijos



Foi com este poema, o Fado dos Beijos que iniciei os meus cantares. Em todas as serenatas que fizemos um pouco por todo país, aparecia sempre uma mulher diferente a inspirar e a alterar o calendário antecipadamente acertado que, rapidamente e devido às emoções do momento, deixavam de fazer sentido assim como todas as escolhas premeditadas.
Era de uma de beleza extraordinária aquela holandesa, qualquer coisa só imaginada num sonho, uma perfeição de mulher, um espanto que produzia deslumbramento em todos os homens e e até em muitas mulheres da assistência.
Cada vez mais fascinado por aqueles olhos imensamente azuis, apurei o hino, aperfeiçoei a voz e num esforço muito para além das minhas limitadas cordas vocais, enfeitei ainda mais aquela noite de sonho.



Preferia, ò minha amada.
Ser um pobre, não ter pão.
Antes morrer sem ter nada.
Antes morrer sem ter nada.
Mas sem beijar-te, isso não.



Foi ela a inspiração do cantor que rendido a semelhantes encantos lhe dedicou esse fado. Lembro-me que ela sorria o que me fez convencer que estava a adorar a minha extremosa prenda, porém, vinha a saber depois, ela não entendia uma única palavra de português e, se mostrava tanta alegria ao ouvir-me, era apenas sensibilizada pela melodia suave e mística da guitarra e pelo maravilhoso encanto que a canção de Coimbra tem.
A noite acabou tarde com os sons das guitarras a entoar a balada da despedida e, um clarão de vozes em unissono, fez os olhos emocionados de muitos portugueses e de alguns estrangeiros tomarem o tom de água quando repercutiam no silêncio que se fez e, a minha voz transformada em lamento, dizia a cantar as palavras do belíssimo poema.



Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.



Não me tentes enganar,
Com a tua formosura,
Que para além do luar,
Há sempre uma noite escura.



Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
E as lágrimas do meu pranto
São a luz que me dão vida.



Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

Quem me dera estar contente,
Enganar a minha dor,
Mas a saudade não mente,
Se é verdadeiro o amor.



Calou-se a musa, finou-se o encantamento e eu decepcionado, jurei ali mesmo nunca mais participar em serenatas mas, passados uns dias, já em Ponte de Lima nas velhas escadarias de pedra do soberbo solar da Quinta de Fontão,   propriedade do Sr. Abílio Teixeira e da esposa D. Lurdinhas simpático par que foram elegantes e magníficos anfitriões, se ouvia numa noite tão bela como o são todas as noites daquela encantadora terra do Minho, o trinar da mesma guitarra, da mesma viola e a mesma voz a entoar as mesmas canções coimbrãs dedicadas a uma outra mulher, não tão linda e deslumbrante como a holandesa de Quarteira mas tão ou mais merecedora da minha extremosa prenda como o são todas as mulheres deste mundo.