sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Chove em Pedorido








Chove em Pedorido




1957










Em fila indiana, no centro da madrugada negra e fria, gasómetro pendurado na gola da camurcina de ganga azul, capacete de chapa enfiado na cabeça, os homens que minam o interior da terra em Germunde descem o empedrado granítico da rua do Remoinho, arrastando pesadas botas de água, de marca pinta - amarela.


As silhuetas recortadas nas coçadas pedras da calçada, pelo difuso clarão de uma alvorada que se declara ainda afastada, fazem lembrar estranhos fantasmas de gente ou fila de condenados à morte a caminho da forca.


Na realidade, escondidos nas sombras desta noite constelada, irmanados no idêntico sentimento de uma aflição redobrada, movem-se como autómatos sem vacilar para um desfecho silencioso e lento, às vezes abrupto, mas sempre inexorável. Esta estranha marcha poderá ser a derradeira e, muitas vezes, para alguns deles é.


Apesar da bestial realidade, do fantástico drama humano que por repetido se adivinha, esta é uma ocasião de beleza rara com o manto da noite a cobrir as terras, a desenhar os contornos das serranias na débil claridade. Que força vem dos lados de nordeste a elevar-se vagarosamente rasgando com um colossal clarão de luz, todos os mistérios da natureza que as sombras nocturnas agasalharam. Que maravilhoso momento é contemplar o nascer do sol no alto da serra de S. Domingos. Que esplendor fantástico este que deixa os nossos olhos deslumbrados perante a magnífica obra celeste.


O rumor surdo das pesadas botas a pisar as pedras do chão, corta o silêncio dos pobres condenados. Não falam, há muito que se esgotaram as palavras pela ausência de quem afectuoso as escute e, a violenta realidade desta hora convida ao silêncio e à meditação.


São muitos a povoar a noite. De variadas e diferentes procedências, algumas situadas muito longe das beiras do rio douro onde igualmente se não pode ficar imóvel à espera do sustento, todos se reencontram aqui na confluência dos caminhos que atravessam montes e vales e, quase sem um cumprimento ou gesto de saudação, completam o resto da jornada lado a lado envolvidos nessa mudez terrível e assustadora. Cada um deles carrega nas pernas, além do resto do sacrificado corpo, as mais complexas emoções que um ser humano pode experimentar em semelhantes circunstâncias. Cada alma destes mineiros é uma alma desamparada e sozinha, entregue a si própria, sem passado, sem presente, sem futuro e até sem Deus. Os olhos que reluzem nas cavernas ao cimo do rosto, deixam perceber a medonha angústia que os deteriora mal reflectindo as semelhantes que a vida produz, arquivadas à força no espírito e que se manifestarão num noutro tempo e em outros diferentes lugares. Não desapareceram por qualquer arte de magia, foram apenas substituídas pela mais horrível de todas; serem enterrados vivos.


Na funesta procissão que rabisca pelos caminhos do monte em frente, vai o Alberto Minhoca que delgado pela magreza acarta nas pernas um metro e oitenta de pele e ossos descarnados. Ao cimo da cara cumprida reluzem estupefactos uns olhitos claros e parados. Na cabeça uma boina preta e, por cima desta o capacete de chapa enfiado, cobrem-lhe a quase totalidade dos cabelos castanhos. Na sua companhia e taciturno vai o Isidro Sardão sujeito que aparenta ter à volta de trinta anos vestindo uma indumentária que em pouco varia da do companheiro e aparenta ser manifestamente uma figura desempenada que assume a mudez matinal muito embora a mente lhe trabalhe, ruminando lembranças. O Alberto mergulhado dentro de si próprio, pensa na mulher prenhe de nove meses prestes a parir e na incerteza dessa hora feliz e trágica da sua vida. Já é pai de três filhos e, a inevitável possibilidade de nascer mais um, agita compulsivamente todo o seu ser. A ideia consola-o e ao mesmo tempo comprime-lhe a alma, pela certeza de que o pão que dia a dia procura, não vai chegar para todos.


- E se é hoje!? Pensa!


- Se calhar vai nascer e eu na mina!


A tortura da ausência obrigatória, faz-lhe doer o peito mas logo vem o lenitivo, frágil, intemporal, quase ridículo.


- A ti Joaquina toma conta dela, Já foi ela que pôs os outros cá fora. Não vai haver nenhum perigo!


Por instantes dissipa-se o medo, esclarece-se a dúvida, ganha forma a esperança. Mas que esperança? Conhecedores do real provérbio usado nos livros, enquanto à vida há esperança, sabem também que pode haver vida, que pode palpitar o coração mas pode não existir qualquer espécie de fé num futuro melhor.


São poucos ou nenhuns os adjectivos capazes de qualificar o estado de espírito do Minhoca. As adversidades quotidianas são o somatório de pequenas e grandes amarguras, são dor acumulada ao longo da existência a sangrar e a doer em carne viva. Por isso o Alberto tem sempre presente que, enquanto avança na vida, pode já ter acabado toda a esperança.


O companheiro de mediana estatura ostenta na cara larga onde paira seco um sorriso permanente, uma barba cerrada e negra. Vem de longe, de Cabroelo e já traz nas botas duas extenuantes horas de caminhada a atravessar de lés – a – lés a serra da Boneca. A sua preocupação premente é real e todavia patética por tão desajustada ao drama actual:


Não há dinheiro para comprar foguetes para a festa de S. Mateus. O pouco que resta levava-o a banda musical de Lagares. Ele é um dos mordomos e, só a ideia de falhar ao compromisso assumido na roda da última festividade momento em que pela primeira vez se sentiu orgulhos, massacra-lhe a alma. Já fizera três peditórios, ele e os outros mordomos. Foram esmolar às freguesias da Capela, Canelas e Figueira mas apesar de se terem empenhado, pouco rendeu a recolha. As vidas andam baixas. Não há tostão nos bolsos do povo.


- E se fosse às Termas de S. Vicente, pensou!


Aquela é uma terra farta, pelo menos consta-se. Dizem haver lá lavradores a colher vinte e trinta pipas de vinho e dez carros de milho. Pensando melhor, havia de lá ir no próximo fim-de-semana, talvez no Domingo. Saia cedo e era capaz de chegar no fim da missa encontrando assim o povo todo reunido A correr pelo melhor, podia render uns trezentos a quatrocentos mil réis. Era bem bom, já se comporiam as coisas. Duas ou três dúzias de foguetes, bombas umas seis, o resto de revolta e seriam plenamente atingidos os fins a que como festeiro se propôs. Os habitantes da vizinha povoação da Capela, sede da freguesia a que pertence, haviam de ver então, quem é que canta-de-galo.


A sua mente simples e tacanha já o transportara à festa, já via no precário imaginário o Coelho regedor encolhido e envergonhado perante tal afronta e, ele Isidro Sardão todo enfiado num fato de mescla, com uma gravata às riscas ao pescoço a sair tombada por entre os colarinhos da camisa de popelina branca, ao lado da avantajada mulher, feliz da vida.


A alvorada aproxima-se, a barca que vai transportar este grupo na travessia do rio acaba de atracar e, todos em fila indiana calcam a improvisada prancha de madeira e entram na embarcação amontoando-se em pé, taciturnos.






Germunde a terra negra para onde se dirigem, está à vista lá ao fundo na outra banda do rio, já lhe adivinham o sombrio rosto enquanto as suas almas amarguradas começam a rezar baixinho.


Parecem ter entrado no momento pavoroso da submissão. O espírito etéreo abandona por algumas horas o corpo que vai mergulhar na terra. O alma procura a luz e abomina as escuridões sem nunca cooperar com este intolerável enterro de pessoas vivas e assim sendo, ficam só os articulados esqueletos mecanicamente a avançar para o buraco onde a noite se perpétua. Não existe permitida determinação própria nestes pedaços de carne humana. Simples seres sem quaisquer direitos, manejados por vontades interesseiras que não contemplam a análise da dor, do sofrimento e da desumanidade do trabalho, vergados e impotentes perante semelhante desdita, totalmente desprotegidos caminham como bizarras marionetes para um labuta que quem ordena torna desonrosa e desprezível.


Não há homens em Germunde, as figuras estrambóticas que passam na escuridão são a matéria, a energia barata que vai ser usada a cavar o chão. Estas despersonalizadas criaturas pouco valem aos olhos dos patrões, ou melhor, não valem nada. Cada um representa-se a si próprio e, se alguma vez se lhes enfeita um sorriso nas caras enegrecidas pelo carvão, é fugaz, passageiro e maculado por uma névoa de mágoa e tristeza que nunca lhes abandona o olhar.


É difícil entender, compreender o que espanta mais nestes mortais se a sua submissão ao degredo sem um protesto, se a indiferença com que deixam passar os dias e os anos a morrer aos poucos nas profundezas da terra. Tal abandono à sorte vai ter de ter um fim.


Nas fraldas da serra de S. Domingos, nas duas vertentes, a noite já deixa enxergar as diversas filas que se vão formando.


Do lado de Serradelo, juntam-se aqueles que vêm mais de norte; Escamarão, Couto, Tarouquela, Espadanedo, Cinfães, Bairros, Travanca, Sobrado de Paiva e de mais longe.


Do outro lado do monte na vertente a sul em Folgoso, associam-se os vindos de Guirela, Gaído, Real, Pejão, Carvalho Mau e até de Arouca. A postura é a mesma e os passos da marcha marcados no caminho, fazem lembrar fantasmagórico exército vencido e desarmado a caminho da capitulação. Rendidos sim eles vão, à desventura, ao destino traçado desde a nascença que lhes impede qualquer assumo de liberdade. Desarmados, impotentes, abandonados perante a crueza da vida, como escravos resigna-se e marcham.


Do lado norte da serra que faz frente à freguesia da Raiva, o alvor da manhã desenha difusas e dantescas formas nos cerros da serra da Boneca e, os penedos da Abitureira imponentes e majestosos a despenharem-se sobre o rio, ameaçam ir esmagar o pequenino lugar de Cancelos.


Ao fundo na profundeza do vale corre o rio douro sereno, tranquilo parecendo indiferente à desgraça.


Do lado sul o rio Arda aparece de repente vindo de não sabe de donde, manhoso e encoberto pela neblina matinal. A Senhora das Amoras é encruzilhada de três caminhos. Uma capelinha construída em xisto caiada de branco, de cunhais e ombreiras graníticas e cercada de frondosas tílias, apadrinha todas estas gentes. Sítio de muitos milagres prestados a quem à santa recorreu, tem o ex-líbris no maior deles de que se perde a exacta memória no longínquo passado, mas diz-se que a santa, ou princesa moira, passando por este lugar transformou as bolotas de um sobreiro aqui existente em apetecíveis amoras.


Os da Raiva e de Sardoura vêm por baixo, pela Vista Alegre e aparecem no fundo do barranco a dobrar poeirenta e extensa curva da Rabuça. Ao passar em frente à capela fazem meia vénia continuando a marcha de enterro tão taciturnos como os de além, carregando aos ombros a mesma cruz pelo caminho que pisam. O trilho abeira-se do rio, os carreiros pedregosos do monte encontram finalmente a estrada esburacada transformando a extensa fila num amontoado de criaturas em marcha contínua. Passam o lugar da Estação e embrenham-se no frondoso arvoredo da margem do douro.


Pedorido aparece ao virar a última curva negro de aspecto como negra é a terra que os homens vão pisar ali. A lava seca da hulha transformada em pó, já há muito tomou conta de tudo. Pedorido ficou feio, perdeu a beleza de terra de lavoura e de pescadores. Negros são os caminhos, negros são os homens as mulheres e as crianças, negras são as casas assentes em cima de terra oca que cede, cede e vai deixando marcas, rachas profundas irreparáveis nas ombreiras e nos cunhais.


Foge a chão a Pedorido, a aldeia afunda-se irremediavelmente no abismo. Por baixo do pó negro não existe mais nada, só buracos construídos por estas toupeiras humanas que cavam e luram o chão até aos infinitos.


O Coirão, rapaz alto e escanzelado, descalço à dezasseis anos, envergando umas calças que desmedidas não ultrapassam o meio das pernas, fuma desesperadamente uma barôna de cigarro deitada fora por um dos mineiros, enquanto que com o pé direito, coça a canela da perna do pé esquerdo, olha atónito o cortejo que vê passar nas Côncas. Ausente de tudo, vivendo num mundo ainda mais irreal e fantástico e totalmente inacessível aos outros seres vivos, em regulares devaneios de objectiva lucidez, tinge as doiradas águas do douro de um vermelho vivo de sangue.


Quando a lua se agiganta no céu ou quando os ventos sopram desesperados sobre a água do rio, o louco altera a sua habitual conduta pacífica, enfurece-se e inicia o discurso que melhor descreve a parte mais sombria do lugar. O Coirão conserva arquivadas na doença do cérebro as magoas amontoadas ao longo da vida e, quando há uns anos se apercebeu que agigantado pela cheia o rio lhe cobria a barraca de dois metros quadrados onde ele e a mãe vivem, constitui-o no seu principal e talvez único inimigo:


Rio é sangue, diz grosseiramente o Coirão que mal sabe falar. O pescoço desprende-se dos ombros oscilante e a cara toma uma forma grotesca e dolorida quando tenta pronunciar as palavras. No tremendo esforço para comunicar, a cabeça balanceia-se de lado para lado insegura e nervosa. O Coirão nunca conheceu o pai, sabe-se lá quem será. Tanto pode ser um mineiro como um doutor como um padre. Aquilo que ele conhece perfeitamente é a fome, o frio e muitos outros sofrimentos que o tornaram demente. Também reconhece pessoas importantes que com nojo o sacodem para longe como a um cão com lepra e lhe chamam tolinho. Nenhum deles lhe estende a mão caridosa, o abraça ou lhe calça os pés nus.


- Ele gosta de andar descalço, dizem.


Como se fosse justo e verdadeiro, como se houvesse alguém neste mundo tão insensível ao frio ao ponto de dispensar tal aconchego, nem um louco senhores, nem um louco.


Rio é sangue Coirão. Nunca ninguém conseguiu retratar como tu o rigor absoluto da verdade. Porque não consegues encontrar as palavras exactas para definir a dor da tua mãe perante a calamidade causada pela cheia, mas sabes que o sangue brota sempre doloroso, encontraste nessa frase atabalhoada o sinónimo que a tua voz jamais pronunciaria correcta e claramente. Rio é sangue! É sangue de facto por isso e também por outros motivos que te passam bem longe dos recantos até onde atinge a tua compreensão e que por isso desconheces. Sangue dos barqueiros do douro e dos marinheiros dos Rabões da Esquadra Negra. Cada pedrinha das margens conserva em vincos gravados a encarnado a história dos infelizes e os olhos da água são de um vermelho vivo de sofrimento.


Os mundos do Coirão são outros, bem mais complicados, muito mais negros. O louco sente e sofre no interior da sua insanidade ao ver espantado as caras e as mãos dos homens, tracejadas com feridas cicatrizadas com mijo e pó de carvão, marcas irreversíveis companheiras até á morte, até à cova onde a terra gorda, apagará para sempre essas sinistras tatuagens. Adivinha-lhes o resto do corpo que, todo coberto pelas andrajosas roupas não é visível, também marcado, desenhado a negro como se um pintor louco tecesse essa estranha tela.


Todos passam por ele neste amanhecer tranquilo. Qualquer dos mineiros o conhece e respeita a sua loucura. Olham-no como quem olha uma flor que murchou, com pena e com raiva.






O Pestana alto e russo de cara oval onde um bigodito também grisalho parece ir cair ao chão a cada momento, desce a serra de S. Domingos acompanho do Râ. Mais à frente juntam-se-lhes o Maneta um tipo invulgar de cara redonda boca larga onde aparecem uns dentes raros e podres. O Pestana abandonou Serradelo pelas seis da madrugada e, no cumprimento da missão diária, calca as pedras dos caminhos da serra lançando uma atrás da outra as pernas arcadas, enquanto um lenço tabaqueiro vermelho matizado por riscados brancos lhe tapa o pescoço grosso e curto. Olham-se de soslaio um ao outro devidos à briga que tiveram no arraial de Sta. Eufémia e essas contas ainda não foram ajustadas. Não se perdem de vista, cada um sente que a ofensiva pode vir a todo o momento e sem qualquer aviso prévio.


O esplendor da alvorada descobre vagarosamente todo o encanto da paisagem à frente dos seus olhos. O rio douro imponente serpenteia lá em baixo por entre as fumegantes casas de Rio Mau, Pedorido e de Melres, para depois repentinamente, esconde-se na prolongada curva da Lomba. As serras em frente, a Boneca e as Banjas, aparecem coloridas do violeta da flor da urze matizado pelo amarelo vivo da carqueja como se um gigantesco tapete de flores silvestres cobrisse todos os montes. É a natureza em toda a sua beleza, em todo o seu encanto e esplendor. Não há decerto sítio onde a vista se deslumbre tão comovida e crente, como no alto da serra de S. domingos. Os três mineiros não têm olhos para tamanho encanto, ignoram este cenário de sonho paralisados por pensamentos sinistros carregando o olhar e o semblante, de uma austeridade que os cega e enlouquece. Não bastava o martírio da mina, o sofrimento e a aflição que diariamente os domina, teve de aparecer aquela raiva surda a nublar a miserável existência. Apesar do aperto do caminho seguem lado a lado, nem uma passada de avanço, nem um passada de atraso, parecem dois bonecos, autómatos e mecânicos. Nestas almas rudes e penadas, só há lugar para o rancor que apesar de tudo ainda os vai mantendo unidos.






No alto da Póvoa amanheceu de repente. O sol desabrochou ao longe, por de trás da capela do Senhor dos Remédios em Rio de Moinhos e ergueu-se no céu gordo e quente. Fumegam as urzes e o rosmaninho da serra a secar o orvalho da noite. O ar perfuma-se num instante. Vê-se o vale do douro prostrado aos pés dos caminhantes e o rio adivinha-se por entre a neblina com o casario de Rio Mau e Melres a espelhar na água. Soberbo é o panorama, retrato de tons diversos caracterizados pela ampla liquidez, extasiaria qualquer caminhante na contemplação do quadro, demasiado belo para justificar a ignorância de todos.


A aurora cintila lá longe e ilumina as serras e os vales, desperta a vida no chilrear dos melros e no chiar dos pardais. Nos homens a noite de todos os tormentos, vai permanecer negra e fria.


Uma extensa fila dobra o alto da serra grossa de mineiros que vêm de Labercos, da Corga do Lobão, de Avintes, de Crestuma, de Lever, de Canedo, da Vila da Feira e de mais longe. Os da Lomba, Pé-de-Moura e de Areja, vêm mais por baixo junto à margem esquerda do rio e prestes a atingir o destino marcado - Germunde.


Jerónimo Marto é muito baixo e arredondado e atira para a frente a cabeça e o pescoço por força da corcunda que lhe aparecera há anos devido a andar permanentemente vergado nas baixas galerias da mina, segue atrás do Milheira. Este é moço que aparenta ter trinta anos. Alto e magro a contrastar dramaticamente com o companheiro, lança a cabeça e o troco para trás quando avança, desfasados do ritmo das passadas. Da cinta para cima assemelha-se a um soldado em sentido tal é a rigidez do tronco e dos braços.


O primeiro marca o compasso da caminhada que dura há algumas horas. Atrás deles um cachorro caminha humilde. Vêm da Corga de Lobão distância de duas léguas derreados de cansaço, prestes a desfalecer. Germunde não tem dó, tão pouco alguma piedade. Chegando à boca do inferno, os homens num esforço colectivo vão dar tudo por tudo debaixo do chão a cavar as fragas. Para os fazer cumprir e impossibilitar qualquer distracção, existem os encarregados, alguns deles sem qualquer preparação na condução de homens, obedecendo cegamente a quem manda, avinagram um pouco mais o tormento.


- Anda malandro! Então querias férias!? Verga mas é a anha, pensas que isto aqui é pão-de-ló!? Se te vejo ao alto parto-te a espinha! Queres ganha-lo a coçar os tomates?


São inenarráveis as cenas humilhantes, de lesa honra e dos mais elementares direitos do ser humano, ofensas morais e corporais que esta gente sofre diariamente. A empresa completa o cerco editando um jornal, O Pejão, que não fora alguns dados técnicos que apresenta e algumas crónicas históricas, mais parece um panfleto da pide. As lavagens ao cérebro são mensais. Em todos os números o pequeno folheto suporta mal a carga ideológica que espalha aos quatro ventos. Os temas repetem-se ano após ano versando sempre a religião, a pátria, a família e a incitação ao trabalho num apelo constante à total entrega dos humildes operários, pregando sempre a sabida e intolerante doutrina.


De vez em quando o Jolim, alça a perna traseira e urina nos arbustos da margem do carreiro. A quietude desta hora mágica principia a desvanecer-se com o rumor surdo vindo da proximidade de Germunde. E um ruído estranho que se julga vir das entranhas da terra, assim como se um terramoto varresse toda esta zona. Esse ruído atemoriza e impressiona os homens que sentem um frio gelado na espinha do cerro. Uma espécie de pânico corta-lhes a respiração por momentos, mas logo vem o imperativo do acto acelerar a marcha.


A brutal realidade não para a fila que sem vacilar, segue mecanicamente em frente, alheia à paisagem, alheia a tudo e até a si própria.






Ainda com madrugada do outro lado do rio, mais precisamente às quatro da manhã, uma música dolente, tocada ao vivo pelos Finfas de Nespereira, onde sobressai a rabeca, saia pelas janelas abertas da casa da encosta, na quinta de Santa Cruz. As cortinas de linho, rendadas, balouçam ao sabor da ligeira brisa. Ora para dentro, ora para fora, numa dança suave e fresca.


O Vaz Figueira, moço fidalgo, alto e magro, já recolhera ao quarto cor-de-rosa onde uma lâmpada eléctrica encasquilhada num prato de esmalte balouça com o ar da brisa dando contornos indecifráveis aos móveis de século. Com gestos de mestria, próprios de quem se dedica de alma e coração ás artes do amor, o fidalgo, tosquia a filha do Fidalgo das Ganjas. Ela, moçoila de vinte anos, estatura mediana, magra e bonita, culta de colégios de Lisboa, aproveita as férias para distrair e retemperar forças para o ano escolar que se avizinha.


No salão, o Conde do Pedregal, gordo como um chino, completamente tomado pelo álcool, vai elogiando a mulher por feitos e dotes de cozinheira que nunca demonstrou a ninguém, só a ele. O Rocha Melo, figura nutrida, segura uma barriga do tamanho de um pipo de dois almudes descaída sobre as partes e assentes nas coxas, ouve entusiasmado as narrativas do outro enquanto imagina as partes baixas da mulher do conde sufocadas e cobertas entre as pernas pelas grandes saias de roda com folhinhos. De vez enquanto, a mulher do Conde, redonda e feia, deita um olhar dócil e sensual ao Melo que cruza as pernas aflito e retribui com um sorriso besta estatelado na cara.


A noite não ficará por aqui, embalados pela contradança musical do conjunto, abraçam-se apertados e espremem os peitos das damas num roço permanente. O champanhe corre afoito, transborda das taças trazidas pelo Pinto da Rabuça que faz de criado. Vestindo uma jaleca branca e luvas da mesma cor, mais parece um pinguim. As calças são pretas e justas ao corpo, os sapatos de verniz, brilham e condizem perfeitamente com o empastado cabelo à força de brilhantina.


- E virou!


É a voz do improvisado mandador o Toninho da Tulha, arrebanhado entre os mais abastados do sítio, assume atitudes de quem só vive do gozo. Gordito e baixote, vermelho da cara mais parece um tomate maduro. A cabeça redonda, assenta em cima dos ombros e o pescoço pura e simplesmente desaparece na grossura da carne. Do queixo saem a pender umas bofelas que fazem lembrar um porco matadouro, se bem que todo ele é parecido com tal, ou então visto de cima da varanda, é o retrato chapado de um saco de batatas com pernas. Os olhos são arregalados, brancos raiados por veias de sangue, tem ao centro por duas pupilas dilatadas que assustam qualquer um. Enverga umas calças pretas de fazenda às riscas e uma camisa de popelina branca aparece à cinta a sair por baixo do colete preto forrado na traseira a cetim da cor de vinho tinto.


Na Quinta da Tulha onde vive e é proprietário, junta os velhotes na adega e enche-os de vinho onde previamente mistura aguardente embebedando-os a todos. Comida não dá o filho da mãe, mas vinho é à discrição. Quer vê-los a tombar como postes de telefone arrancados por grande temporal e fazer as piruetas ridículas próprias dos embriagados. Ri-se a bandeiras despregadas até se mijar todo.


Faz mais o remelado da trampa, como lhe chama a Micas Barulha. Contrata mulheres para as tarefas do campo e depois anda a correr atrás delas com a gaita de fora, sem a folia da juventude que já lhe morreu dentro das ceroulas há muito tempo e nunca deu provas de reprodução. É assim atolascado o velhote, cobiça tudo o que vê com saias e, as cenas de cio que desempenha acabavam sempre da mesma maneira, alaga-se todo pelas pernas abaixo.


Às quatro e pouco da manhã a sanfona de Nespereira começa a tocar a Balsa da Meia-noite no salão. Onde é que ela já vai! entretidos no regabofe nem deram pelo passar do tempo embora isso não lhes faça grande diferença pois vão dormir ali até á próxima noite. Pior estão os mineiros que passam a caminho da mina. Vêm de longe, trazem no cansaço das pernas horas e horas de jornada desde o cimo do Marco de Canavezes, Penafiel e de outras terras. A cama foi-lhes breve, marcham solitários pelas serras abaixo e os sinais do gozo burguês, só lhes provocam comichões nos tomates. Querem lá saber da festa. Festas, festas são as de S. Domingos, da Sta. Eufêmia, da Senhora das Amoras e o S. João no Porto. O resto é assim uma coisa desengraçada, própria de quem não tem mais que fazer, de ricos. Vão aos anos uns dos outros e, trocam de mulher mais vezes que um mineiro troca de camisa.






Por entre os primeiros alvores do amanhecer, Sebolido aparece ao fundo da serra da boneca, encravado entre as fragas da Abitureira os Penedos da Sombra e o rio. Estende dois braços lancinantes na paisagem. É terra de lavoura de pescadores e de mineiros. Casas afidalgadas alinham-se aqui e ali no caminho que conduz á igreja de S. Paulo. Não há luz eléctrica em Sebolido como não existe nas outras terras vizinhas. A luz é de candeias, de lampiões a petróleo e de velas de sebo. As noites são escuras como breu e, só muito raramente cortam as trevas os difusos clarões das artesanais lanternas ou quando algum ser aflito procura ajuda no lugar ou ainda se alguma bruxa vai lavar roupa à presa de Junçadelo. Fazem alarido, batem com as mãos na água e agitam-se desesperadas no meio da noite. Cobrem os corpos nus com longos lençóis brancos que lhes dão um ar mais sinistro nesta escuridão. Dizem ser as mesmas que assombram as margens do rio Mau. Aparecem sempre nas noites de lua cheia a espalhar o medo e o terror por estas bandas. São bruxas, ou mulheres viúvas, que vivem sozinhas e, nas trevas dão largas às emoções angustiantes contidas durante os dias. É gente que vive em desespero curtindo solidões eternas, desnorteadas, aflitas comportam-se como mortos-vivos.


Sentado no cruzeiro o Cipriano vai assistindo ao passar dos companheiros.


Está de baixa há seis meses e doente, muito doente. É pele e osso o mineiro. A carne, se é que existiu ali, já há muito se ausentou definitivamente. Ficou esquelético, tísico, um fiapo de gente.


Vencido pela silicose, acalenta ainda uma réstia de melhoras mas tem consciência de que se fora já a terna juventude, o jogo do peão e da pincha dos botões. Agarrou-se na infância ao trabalho da mina para poder casar e sustentar a mulher e os filhos. De uma vez só, rendeu-se ao tormento que no íntimo sabia que acabaria assim.


Breves foram as ilusões da mocidade, perdidas entre alguns dias de escola e da saca das pinhas que apanhava no monte para acender o lume. O sonho da meninice era lindo e abrasados, ocupara-lhe o peito na peregrinação dos anos.


- Ser pescador do rio.


Mas a arte de cercar o peixe, não dura mais que três meses. Depois, com os primeiros alvores do verão, finda-se em tentativas infrutíferas de lanços e lanços perdidos. O rio dá o pão em fartura. Prenhe de lampreia e sável, sacia as barrigas dos pobres por algum tempo mas acabada a migração dos peixes, deixa o povo de mãos atadas à cabeça, sem saber o que fazer á vida.


O Cipriano passa a mão no cachaço e olha o horizonte largo que têm pela frente. Há rugas nas faces do mineiro. Traços adquiridos pela dureza da vida e não pela idade que ainda não justifica esta velhice precoce. O cigarro forte baila-lhe nos beiços apagado, como se tivesse nascido ali e fosse perpétua a sua estadia. Queima ainda o resto de vida que pode existir naquele corpo.


Pouco dorme, a tosse rouca e profunda, é um tormento e, a falta de ar nos pulmões, arruína-o e sufoca-o. Levanta-se muito cedo, ainda com noite cerrada e, é para aqui que vêm matar saudades dos amigos, da labuta, ou então, do meio salário que perdeu por ter metido baixa.


Olha as mãos onde a vida lhe seca desesperada. Quer gritar, soltar ao vento deste florir do dia, a revolta que acolhe no peito há muitos anos. Nem um som produz a sua voz embargada, parece que nunca será capaz de tal atrevimento. Há-de ficar-se pelo silêncio eterno, levará para o túmulo todo esse sofrimento, todo esse sentir destruidor. Não há lágrimas nos olhos parados deste homem, por mais dolorosas que sejam as dores, um mineiro não chora, apenas se lhe nota a quebrar a aparente serenidade umas gotas de suor gelado na testa franzida. Tudo é sombras, tudo é silêncio neste claro amanhecer. A dor, cada um sente-a no peito e é só sua. Mais ninguém, só Deus os pode ajudar se quisesse. De vez em quando, reluz junto ao cruzeiro, a trémula luzinha do cigarro que o Cipriano reacendeu lentamente e que lhe vai antecipar o fim programado. Aqui, neste recanto onde dão a volta as procissões, está sentado um homem que nunca aprendeu a rezar.


O tormento que o vai minando começou há muito tempo. A tosse, a falta de ar nos pulmões impossibilitavam qualquer esforço mas foi-se mantendo animado escondido na ténue esperança de melhoras, que no fundo sabia não existirem. A partir de agora, é a piorar a olhos vistos. Já viu outros mais novos do que ele, entrevados pelo mesmo mal embarcarem para a terra fria. O médico da empresa, na consulta de rotina, todavia não fora peremptório:


- Isto é pó Cipriano! Abifa-te homem que isso passa, senão, mete-se a reforma, ficas a receber uma tensa, és capaz de dar trinta por cento de pó, são mais quinhentos por mês!


- Abifa-te!


Esta palavra martelava incessantemente a cabeça do mineiro.


- Abifa-te!


Como é que podia abifar-se, se nunca na vida tinha visto um bife à frente dos olhos!?


- Abifa-te!


O doutor deve estar tolo! Ele saberá quanto custa um quilo de carne de vaca? Então a confirmar a realidade por todos ignorada, vêm-lhe à cabeça as cenas diárias da ceia. A mesa da cozinha estreme, em redor os oito filhos fraldrucas, no centro um prato de barro com um galo desenhado no fundo a criar ilusões e, em volta deste, dez garfos de ferro com cabo de madeira à espera dos bifes. Eles vêm, redondos, castanhos, com casca e, por cima deles, mais bifes, compridos, escamudos com cabeça e tudo.


- Abifa-te Cipriano ou morres!


Não há escolha possível entre as duas possíveis opções.


- Abifa-te ou morres!


Os bifes são sardinhas, cinco para dez bocas, mesmo assim não é mau de todo. O dinheiro da baixa não dá para mais. Meio salário, como meia é agora a cabaça do vinho. A farmácia leva tudo. Sendo assim, morre Cipriano, decide pela parte mais barata, não há outra hipótese, só te resta morrer.


Esta é a realidade nua e crua, tão verdade, tão nua, tão crua, que o sino da igreja de Sebolido o irá confirmar muito em breve, dobrando a finados.


Que desgraça de vida!


No entanto há cães em Sebolido e Rio Mau que comem bife todos os dias. Os que se marram nas perdizes da Fraga Amarela e os que empeugam nos carreiros do areio de Hortos atrás de coelhos. Cães de raça, tratados melhor que gente.


O Cipriano vai falecer esganado pelo pó, faltoso de ar nos pulmões, aflito na agonia e por falta de bifes. O médico está farto de saber o que o espera desde a primeira consulta. Já deu esta receita a muitos, a mesma, a certidão de óbito antecipada, sem nome, sem data, sem critério, desumana, injusta e cruel.


- Abifa-te!


- Ele o doutor, abifa-se. O Toninho de Melres sabe quem lhe pode pagar a carne e abre-lhe as portas do talho de par em par. E os galos e cabritos que recebe por dar baixa a alguns malandros e lhes facilitar as reformas? Abifa-se o homem tanto, tanto, que há-de morrer novo. Talvez não faleça de silicose, mas de fartura de bifes.






Nada, nem mesmo o prenuncio da morte pode parar a estranha fila que vem a marchar desde Penafiel, Cabeça Santa, Oldrões, Valpedre, S. Paio, Rio de Moinhos, Eja, Alpendurada, Penha Longa, Marco de Canavezes, de Várzea do Douro e de muitos outros lugares, engrossando sempre até fazer centenas.


A morte não existe nestas bandas. Morre-se só. Abandona-se o mundo sem se perceber bem porquê mas conscientes da certeza de que aqui ninguém pode viver. Parte-se com um misto de consolo e desespero estampados nos olhos. Uns, usam as sogas dos bois para se enforcarem, outros finam-se nos poços do rio Mau afogados. Viver é um martírio, um degredo que provoca o desânimo. Podiam até suicidar-se muitos mais não fora um último pensamento solidário com os que ficam e que terão de suportar o preço dos caixões que essa circunstancia sim, inviabiliza algumas vontades urgentes de abalar deste mundo.


A morte já não anda por Sebolido. Saciada, regressou a Germunde e, ali continuará a matar silenciosamente. Virá repetidamente dos lados do Poço Negro, da Fraga Amarela, do Vale dos Lobos, ou até do Penedo Gordo, mas o mais certo é vir dos lados da mina sem se saber quando nem porquê. Vai-se adivinhando nas badaladas do sino, na força da nortada e na escuridão das noites povoadas de formas fantasmagóricas e de bruxas. Virá sempre, constantemente, as gentes sabem isso desde que nasceram. Por isso não estranham, não se pasmam nem protestam, convivem com ela numa indiferença e num estreitar de laços arrepiante.


Outra fila aparece na longa recta da estrada já perto de Melres. A cauda estende-se até longe e chega a Zebreiros, Gens, Covelo, Medas, Sarnada, Aguiar de Sousa, Recarei e a Branzelo. Por ela o mortífero vírus espalha-se longe e mata em diferentes lados.


Ficam-se os olhos da madrugada pregados a uma figura castiça Caga- na- Marca, a quem a alcunha ficou por ter defecado nas profundezas da terra, mas quem não o fez? Quantos são os que caminham duzentos metros e mais duzentos a subir o poço mestre para vir aliviar cá fora? Nenhum, todos o fazem, ali atrás das bolorentas madeiras de pinho que sustentam os tectos das galerias embora e incompreensivelmente só ele foi baptizado e marcado até ao fim dos seus dias:


- Caga- na- Marca.


É baixote. O seu andar assemelha-se ao andar de um porco velho aos saltinhos.


Caminha na fila de saco de ganga azul a tiracolo onde adormecida repousa a marmita do caldo. Na gola da casaca suja, o gasómetro pendurado balouça ao sabor dos passos decididos do mineiro. À cintura presa por um atilho de sisal, a cabaça do vinho americano tinto, baldeia a pinga que vai criando gás.


Batem sete horas da manhã no sino da igreja de Pedorido. Este som lúgubre e sinistro estarrece os homens. Na memória de dias e anos passados, paira este toque que denuncia a morte, que antecipa a notícia e difunde desgraças.


Dlan, Dlan, Dlan.


A nortada traz o eco audível às vezes, outras vezes muito distante a perecer no horizonte, mas logo vem mais forte implacável recordar a tragédia.


Dlan, Dlan, Dlan.


As mulheres das redondezas, aflitas e angustiadas, gritam nos largos das aldeias vizinhas.


- Ai o meu Tono. Ai o meu Manel. Ai o meu rico Filho. Ai o meu rico Pai. Enchem de ruvina os povoados, por culpa do sino que não diz os nomes. Comunica apenas a morte e deixa por entre as melancólicas badaladas, instalar-se a incerteza e o desespero.


- O sino de Sta Eulalia não é bem-querido aqui. Transformou-se no gonzo da morte, só toca a anunciar fatalidades ou para convidar a rezas e missas a que só assistem as beatas e alguns ricos ociosos a pretender mostrar que a relação deles com Deus é muito maior e mais importante que a dos outros. Preces e missas em Latim sem qualquer significado conhecido pela maioria esmagadora do povo que não entende essa forma linguística, proferidas a correr, decoradas há centenas de anos mas que não levam a lado nenhum já que, desprovidas das práticas caridosas, dos exemplos de caridade e solidariedade visível, se tornam praticamente nulas.


- O povo sabe isso, mas assiste. Não por crença nessas rotinas, conservando embora grande fé em Deus, mas por respeito aos ensinamentos do passado. Reza-se em Rio Mau e Pedorido e Melres, porque já se rezava noutros tempos, aliás, sempre se rezou. Nada se recebe em troca destas mecanizadas orações, ou melhor, recebe-se o consolo de ter cumprido uma dever, de ter feito a descarga, a desobriga, ou até o aborrecimento de aturar o vociferar de um padre irado só porque uma ovelha teve a ousadia de dançar ao som da harmónica ou gaita-de-correr-nos-beiços do Albertino Ganso.


- É pecado, grita ele do cimo do altar.


- Estais todos no inferno! Já vejo as vossas almas a arder naquele fogo!


Qual inferno qual carapuça! Só as beatas acreditam nisso com muita fé, e os mais endinheirados anuem com a cabeça por conveniência. O inferno de que o padre fala não é para eles. Quem contribui com volumosas verbas para o culto, está longe de recear as hostilidades de Deus.


Mas a verdadeira fé, aquela que pode dignificar a existência, poucos a conservam. Fartos de penar, acreditam mais no poder da força dos braços, no salário da mina e nas farturas do rio, que essas sim se transformam em pão. O alimento do corpo sobrepõe-se ao alimento da alma. Sem o primeiro, compromete-se perigosamente o segundo.


Batem sete horas no sino da igreja de Sta. Eulália em Pedorido e o Caga – na - Marca treme da cabeça aos pés. Também ele entende a letra da mensagem, mas nunca vai entender o verdadeiro conteúdo.


Um manto de luz desce do céu e pousa na terra. Estala enfim, a terna claridade. As difusas silhuetas dos homens ganham forma de gente. Não há engano posivel, a madrugada encobriu tudo, até o ódio do Pestana e do Maneta, mas não a triste realidade, são de facto mineiros a caminho da morte.


- Fica ai Jolim! Até logo!


É o Marto para o cão, arraçado de perdigueiro e podengo, travesso, que o olha com uns olhos profundos e dóceis. De orelha tombada, deu meia volta e deitou-se na borda do caminho. Aqui é o limite, o fim da caminhada desde a Corga até Germunde, atrás do dono já lá vão nove anos. Vai ficar por ali a dormir todo o dia, e quem passa, vê-o enroscado e sai o cumprimento


:- Olá Jolim! Ele abre os olhos inocentes, abana o rabito e embrenha-se novamente no sono que só seria interrompido pelo atirar das pedradas do Lesmia. Este nunca aceitara o bicho. A sua mente tacanha, nunca viu com bons olhos tamanha fidelidade. O mineiro não podia dar-se ao luxo de ter uma afeição, fosse de quem fosse, nem mesmo de um cão. Para ser fiel estava lá ele sempre a render vassalagem ao senhor Jean Tyssen. Raivoso, não dá sossego ao animal.


Quando chegarem as cinco e meia da tarde, o Jolim interrompe o deleite. Com o rabito a dar a dar, anda numa agitação de trás para a frente, inquieto, e impaciente. Olha frequentemente para baixo até que o Marto apareça por de trás da carpintaria. Quando este se aproxima é vê-los aos dois envolvidos em festas e carinhos que até provoca invejas. O cão salta-lhe ao peito e ele puxa da saca de ganga azul e presenteia-o com restos de côdeas de broa de milho. Depois, seguem caminho. Um a arrastar as pesadas botas de água. O cão alegre e feliz a saltar à sua frente.


O Jolim é um rico cão de caça. De vez em quando empeuga nas bordas do carreiro e começa a correr pelo monte atrás dum coelho que perseguido, entra na toca mas só depois de uma extenuante perseguição.


O Marto aprecia estas traquinices hereditárias do cão e logo lhe vêm à lembrança os dias em que com o Manel Vasconcelos, o encarregado da serração das Concas, viajando na mota Harley Davidson, se metiam à estrada até Barca de Alva às perdizes. Tempos bons esses, de arma Francot de Liége calibre dezasseis de canos truxados ao ombro presa pela bandoleira, batiam as encostas do Douro naquela lonjura. Na viagem paravam em Cernancelhe e temperavam a tarde com fêveras de javali e cogumelos silvestres


O Manel, rapaz para uns vinte e tal anos, alto magro, bem parecido, carregando no peito um coração do tamanho dele, vestia a rigor os trajes da caçada. Botas caneladas, por dentro delas, calças de bombazina castanha a condizer com uma samarra tipo gabardina, com gola de pele de raposa e a cobrir a cabeça um chapéu de feltro, com uma pena de perdiz espetada no laço, dava o toque final na ornamentação.


O Marto, usava a mesma indumentária conhecida da mina, só alterada pela ausência da sujidade negra que ficara nas águas da ribeira e, na cabeça, em vez do capacete de chapa, levava enfiado até ás orelhas, um boné de pano e couro que sobrara ao companheiro de caçada. Entre os dois, deitado ao través na mota , ia o Jolim a filmar com os olhitos arregalados toda a paisagem da estrada. No suporte da motocicleta, atrás, amarravam uma pequena caixa onde levavam sardinhas que em Barca de Alva trocavam por bifes que depois assavam no meio do monte.


- Levantou um bando ali, dizia o Marto alvoraçado e logo o Manel galgava terreno e ouvia-se o estampido do tiro que ecoava como um trovão nos cabeços.


- Boca lá Jolim, soava a ordem do dono e o cão respondia correndo pelo monte abaixo. Já está marrado! Gitava um deles e, dali a instantes o cão aparecia com a peça de caça atravessada na boca. Vinham então as festas ao bicho que saltava perdido de contente. Depois punham-se de novo em andamento, o Marto por cima e o Manel mais por baixo. Nuns carriços, três perdizes saltaram picadas, ouviram-se dois tiros e o Marto corria a bramir com o cão.


- Vai de asa, boca ó ferido Jolim! Era inútil, a perdiz ferida corria pelo monte abaixo à procura de refugio perto da água e foram debaldes os esforços do cão.


O mineiro passa o lenço na testa suada com a querer afastar aquela recordação, mas há ali uma testemunha, já velha, cansada e meio cega, o Jolim. Os anos apagaram no bicho e nele próprio, o vício terrível, que os fizera correr montes e vales. Os anos, as infelicidades da vida, e o trabalho penoso no fundo da terra que o tornou velho antes do tempo


- Então, vais dormir aqui?


É o Milheira a lembrar ao amigoo que Germunde ainda é longe. Ele sacode a cabeça e retomam a marcha.






O Pestana, o Maneta e o Rã, chegam finalmente a Fornêlo. Daqui à mina são quinze minutos a pé para as centenas que vãoa enfiar-se na linha da máquina a vapor, caminhando uns de cada lado dos carris:


- Então Maneta, os bifes eram tenros?


Foi o Rã quem arremessou a pergunta, como quem não quer a coisa. Ele sabe da história e quer meter veneno.


O Rã é loiro, meio arruivado de beiços grossos a pender para Albino, irrequieto, e sacana.


Já fora o ano passado. O Maneta, antes do dia da festa, mandara um recado ao Quintela de Paiva pelo Faísca, a marcar mesa para quatro. Que cortasse quatro valentes bifes. Aí para meio quilo cada um. Tenrinhos. Lá para as duas da tarde, que a mulher ia dar trinta voltas de joelhos á capela, cumprir uma promessa e aquilo botava para tarde. O Pestana soubera da coisa e antecipou-se. Pegou na mulher dois cunhados e apareceu antes. Ao meio-dia, na barraca situada no meio do arraial da Santa Eufémia comiam já os bifes. Os quatro lamberam tudo.


Acabada a promessa o Maneta mais a mulher e os dois filhos, chegaram-se à barraca e não havia bifes. As mesas estavam todas ocupadas por forasteiros. Falou ao Quintela, mas este na confusão daquela hora não tinha feito reparo. Aí o Maneta ficou a saber que tinha sido enganado.


Encostado ao coreto, o Pestana olhava-o de soslaio e ria-se a bom rir.


-Á patife! Gritou o Maneta.


- Vais vomitá-los inteiros, filho-de- uma-puta! Até os dentes te vão sair da boca! De rompante avançou para ele. Mas o povo era muito e, na hora de tratar do papo, quer tudo, menos chinfrim. Ainda se fosse mais à tarde, depois da procissão, não tinha mal nenhum. Já era costume e depois, até animava a festa, ora agora, com as mesas repletas de tachos com tripas, feijão e canecas de porcelana cheias de vinho tinto de Bairros, não podia ser. O que se quer nestas alturas é comer descansado. E impediu a peleja.


O ódio nascia ali e haveria de crescer no peito, até há hora de ajustar as contas.


É bonita a festa da Santa. Eufémia! Ali, no meio da serra, entre Serradelo e Cruz da Carreira a meia dúzia de passos de Castelo de Paiva, logo de véspera se enfeita o descampado para receber os forasteiros quase todos gente de bem comer e beber.


À entrada do arraial, os improvisados talhos, vão desmanchando bois e vitelas e os pedaços seguem na direcção das barracas cobertas de lona branca, espalham-se pelos campos abaixo. Entre umas e outras, tendas de bonecada que fazem as delícias da pequenada, vendem apitos e carrinhos de lata, miniaturas de carros puxados a bois, em madeira, acentuando aquele ambiente rural. Outras mais pequenas e mais simples, protegidas por um panal branco seguro por toros de pau em cruz, recolhem uma mesa, coberta por uma larga e comprida toalha de linho onde repousam os deliciosos bolos de Serradelo, redondos, achatados enfeitados por um raiado de açúcar branco que fazem companhia às cavacas doces.


Em baixo, num amplo largo que um centenário castanheiro ensombra, monta-se o colorido coreto, enfeitado por girândolas de papéis multicores e balões. Ao lado, a capelinha da santa, construída em xisto, forrada a saibro e pintada de caliça branca, deixa sobressair um rodapé azul-escuro e uns cunhais de granito.


Ao centro da cripta, uma cruz também ela em granito onde o musgo se agarra há dezenas de anos, distingue-a das demais e lembra ao povo ser aquele um local sagrado. Mas o sagrado alia-se por conveniência ao pagão por dois dias. Transborda as barreiras do aconselhável e, a feira de gado que se realiza na véspera, proporciona as bulhas, os negócios, os arraiais de pancadaria misturados com severas penitencias e fervorosas preces das mulheres mais crentes.


De vez em quando, a avisar mais uma peça da banda, ou a saída da procissão, os foguetes estoiram no céu e espantam a passarada. Os putos correm atrás das canas pelos campos além e quebram o milho à sua passagem. Nas barracas que são improvisadas pensões, as canecas de asa circulam afoitas e o vinho da Quinta da Fisga de Bairros tinge de vermelho as blusas brancas rendadas das moçoilas, que, com as costas da mão limpam os beiços rosados.


É grande a alegria e o entusiasmo do povo e, neste ambiente de excitação e confusão da festa, tanto pode sair um abraço como uma bengalada nas costas. Em cima das adaptadas mesas, grandes tachos de feijoada, garantem fartura aos romeiros. Dos talhos, saírem postas de carne fresca, que ainda quente se transforma em bifes de quilo nas mãos do Lapadas. Primeiro comem-se as vitelas, no resto, servem-se os bois. Agora, já não faz diferença a tenrura da carne e só existe a preocupação de manter vivo o espírito da festa, prolongando-a pela noite dentro, até que, cansados e emborrachados, caem como mortos na relva calcada.


- Então Maneta, os bifes eram tenros?


Aquelas palavras tingidas de escárnio, dão-lhe voltas na barriga, ressuscitam a raiva escondida no peito.


- Vai ser hoje! Pensou. Espeto-lhe a picareta nos olhos e o cabrão morre. Depois, fica lá no fundo, enterrado já está por natureza, faz-se de conta que foi sem querer!


O Pestana parece adivinhar os pensamentos do outro. Vigia-o, mas não cede. É manhoso, arraçado de galego, fino como uma raposa e marca - pistola. Tosse, para disfarçar o riso no canto da boca. Continuam lado a lado, sempre a medir-se de cima a baixo. Se o maneta pára para acender o cigarro forte, o Pestana para também a coçar a barriga.


- São pulgas?


Pergunta o Maneta.


- Não! São percevejos e grandes.


Responde o Pestana.


E neste jeito de vida, vão comendo metros e metros ao caminho que têm pela frente.






O dia estala neste imenso vale do Douro, fumegam as casas das aldeias dispersas pelas margens do rio. Retoma-se todas as tarefas da vida nestes presépios de pobreza onde não chega um sopro de progresso e só exigências de mais produção se abatem sobre os ombros de homens, mulheres e crianças.


No largo da Sobreira considerado o centro da aldeia de Rio Mau, o Ernesto ensaia os primeiros retoques do que vai de ser um quase improvisado discurso.


Vem de longe, das beiras do Porto, percorrendo a distância a pé pelos trilhos dos montes. Alto e crestado do sol, da chuva e do vento, deixa cair pelo rosto abaixo uma barba longa e loira. Os olhos de um azul celeste, parecem abrir-se em invulgares espantos e oceanos de interrogações. As mãos, sustentam uns dedos esguios, esqueléticos de onde aparecem umas unhas compridas e perfeitamente talhadas. Não fora a rasca indumentária composta por umas calças de pano-cru e a cobri as pernas e uma camisa de flanela cor – de – barro a tapar o tronco, poder-se-ia dizer tratar-se de um autêntico cavalheiro. É-o na verdade, apesar do desregro e versatilidade da roupa mas apurado nos gestos e nas palavras que profere.


Delineia a vida, a sua e a dos outros, em pinceladas de romance e poesia entrecortadas de quando em vez por desvairos de consciência. Trata toda a gente elegante e educadamente, mas à canalha tem verdadeiro asco. Ali, no largo da povoação onde a história se faz sem pressa, junta-se-lhe o Abraão, moço ainda jovem, pária e vagabundo como ele. Tem as mãos sapudas e a cara redonda que lhe dão estranhas parecenças com uma abóbora sendo a indumentária deste indigente, muito pouco variada em relação ao primeiro. Usa roupas já usadas por terceiros que se nota não serem adequadas ao seu corpo atarracado transformando-o numa espécie de espantalho andante.


De vez em quando um esgar risonho rasga de lés a lés uma boca fina e ficam à mostra duas carreiras de dentes certos e brancos. Também ele desprovido do juízo certo que lhe conferisse estabilidade na vida, hospedando na cabeça um cérebro onde se misturam ideias de jerico com outras perfeitamente normais, desgarrou-se e deixou Trancoso sua terra primeira e, percorrendo caminhos que se estendem por montes e vales sempre distantes do quinhão natal, chegou a Rio-Mau.


Estudara num seminário do norte, ali a fraqueza e a deficiente nutrição bloqueara-lhe o conhecimento.


O Ernesto é decerto o ser mais bizarro que demandou estas bandas porque dotado de extremas filosofias faz constar que no seu entender não vale a pena nascer. Para ele, o simples acto de vir ao mundo, é só por si um desperdício total:


A vida é pois a pior herança da humanidade! Quando se nasce marcado pelo ferro de uma morte que pode ser tardia ou breve, mas sempre inevitável, herdamos logo ai a funesta razão de existir!


Porque nascestes vós!? Porque não ficastes no limbo, no desconhecido, onde o corpo não sofre e alma não é nossa!?


É assim que o louco raciocina e explica uma certa aversão aos mais pequenos, talvez usando numa espécie de sentimento de protecção a que se julga obrigado.


Trinta e dois anos de vida, dez deles a carregar na mente a pavorosa loucura, agravaram definitivamente a doença que lhe retira a postura e o coloca irremediavelmente às portas da total insanidade mental.


Fora estudante universitário mas o frágil poder do seu arquivo não foi capaz de suportar tamanho conhecimento; enlouqueceu!


Dirige a sua revolta ao Criador e, é frequente usar da palavra horas a fio a desafiar as Suas leis. No meio deste largo, assume uma postura erecta de pregador estendendo as mãos e erguendo o rosto para o céu, com firmeza de voz inicia o eloquente discurso:


- Já sei que hoje não vai haver paz para mim! Começava o pregador.


- Neste dia que nasce, não sentirei a Tua presença! Nascerá um novo sol mas não será para me iluminar! Aquecerás as vidas de muitos, mas não a minha. Eu sou pobre, um desgraçado a quem Tu, nem a memória deixastes progredir. Por inveja, ou por maldade, arrancaste-me a alma que dizes ser tua propriedade! Fica com ela, para que quero eu uma alma se nunca a vou poder usar neste falso presépio que Tu criaste!? Aqui não há lugar para quem tiver uma alma, abandonados por Ti, somos obrigados a rendemo-nos ao poder dos mais fortes!..


- Agora o rosto toma uma forma dolorida onde se desenha um sorriso imbecil.


- Nunca Te pedi nada. Afinal o que é que tens para me dar!? Tu que deixastes o Teu único filho nascer na mais extrema miséria, desprovido de tudo, e permitiste que morresse às mãos de um povo velhaco, nada, absolutamente nada terás para oferecer em troca das minhas orações! Eu não Te adoro, tão pouco creio em Ti. Arrasto pela vida uma cruz bem maior e bem mais pesada que a Tua. É este o meu castigo, mas não fui julgado como Tu foste, ninguém me perguntou nada sobre nada e no entanto condenaram-me! Diz-me onde estavas nesse momento!? Em lado nenhum, porque Tu certamente não existes. Até podes existir, mas não como o Deus dos mais necessitados porque não ouves as súplicas dos sedentos de justiça! Posso até reconhecer-te, não como Deus misericordioso, mas como aquele que permite esta miséria imensa pelo mundo! Sou eu quem Tu diz! Nada posso perder, pela simples razão de que nada tenho. Por isso Te falo de homem para homem, longe de temer as Tuas hostilidades. Sim porque Tu és rancoroso. Houve tempo em que acreditei em ti. Mas foi tudo uma ilusão, cedo me apercebi que nunca haveria de fazer parte dos teus planos de salvação, que entre ti e satanás, não há escolha possível. Sois iguais, divergis dos meios mas não nos fins que são os mesmos. O que vos alimenta é a ideia de posse das nossas almas infelizes.


O Abraão ouve em silêncio e retorce as mãos em desespero.


- Fala-lhe de mim!


Diz o seminarista assumindo uma atitude de pedinte.


As mãos estendem-se-lhe numa súplica angustiante e, o rosto adquire uma expressão caricata e grotesca.


- De ti!?


.Fala-lhe tu, pois é bem possível que Ele te dê ouvidos! Tu, membro e sócio fundador da sua quadrilha de benfeitores, estarás decerto em melhor posição para lhe falar! És cúmplice Dele, eu sinto as dores da discriminação e do desespero, Tu não; aceitas o castigo que julgas generoso curvando-te perante a razão que desconheces. Tão pouco sabes se ela existe e não protestas. Tu Abraão, és realmente um pobre! Dás-me pena! Inspiras-me dó e piedade. Apesar de tudo perdoou-te! Perdoou-te por uma razão simples...és meu irmão!


- Mas eu rezo!


Diz angustiado o Abraão.


- Rezas!?


- Tu sabes lá o que é rezar Abraão! Recitas palavras usados por muitos sem as sentires no coração. Rezar é abrir a alma, é comungar com Deus dos sentimentos que nos preocupam e angustiam. Rezar é isto irmão! É falar com Deus e dar-lhe noticia das nossas aflições, dos nossos desesperos! É fazer com que veja e repare a miséria brutal a que fomos votados!


- Sabes uma coisa Ernesto!? Eu acho que tu blasfemas!


- Blasfemo!?


- Cala-te desgraçado, tu não atinges a essência da questão, cortam-te o corpo e o espirito a golpes de espada e não protestas, sequer sabes quem empunha a arma causadora do nosso desespero! Acaso dar notícia da verdade e da vergonha é blasfemar!? Deita-te ai irmão, dorme o sono da ignorância eterna e deixa-me protestar pois um dia virá, em que por farto dos meus protestos ou por divina piedade, Ele nos abençoará! Acaso tu não sabes que o tempo urge!?


Faz uma pausa e de seguida vira-se novamente para o alvo das suas críticas, o Céu.


- Porque não desces daí do Teu Céu esplendoroso e vens aqui reconhecer as Tuas faltas! Vem confrontar-te comigo cara a cara! Não me respondes, nem Tu nem ninguém! As minhas palavras são o eco das minhas palavras, do meu sofrimento do meu imenso desespero, desta minha lúcida loucura. E, apesar de tudo, ainda Te espero Deus mudo, Deus, ingrato. Vem quando quiseres, todos os povos precisam urgentemente de Ti. Eu não, mas eles amam-te, adorna-te e acreditam que virás salvá-los! Vem antes que se me aflorem os nervos e deixe de ser responsável pelos meus actos. Lembra-te que também eu sei castigar!. Prova-me que existes, que és realmente o salvador olhando a turbulência deste mundo injusto, o teu rebanho tresmalhado sem esperança! Faz alguma coisa, não os abandones a esta sorte tão madrasta!


As mãos, ainda há pouco em riste, fecham-se-lhe sobre o peito penitenciosas e, o azul daqueles olhos tolda-se de lágrimas. Vagarosamente, estende-se no chão ao lado do amigo e ficam horas prostrados ali, sem dar sinais de vida. Todo o orvalho desta madrugada fria humedece estes dois corpos desamparados.


Regressa a solidão que reflecte a insensibilidade do mundo perante a doença da loucura, da indiferença com que o mundo cuida daqueles cuja capacidade mental se alterou por qualquer razão. O Homem não quer saber!. Numa atitude hipócrita, esconde tudo o que reproduz as suas fragilidades colectivas. Despersonificado, sem qualquer esperança, segue uma ilusão cegamente, tentando por métodos absurdos torná-la realidade. É muito mais que a constatada falta de fé e de esperança, é a solidão que se ganha por se matar o amor dentro de nós. Por isso o Abraão e o Ernesto se estendem na laje fria do largo da Sobreira sem um gesto de piedade de ninguém. Quantos mais não o farão no futuro, nesta maravilha de mundo que gira há milénios num frio e austero universo.






A alvorada acorda medrosa no vale do douro. Uma espécie de neblina envolve toda a paisagem. S. Domingo adivinha-se por dentro do nevoeiro. As serranias em volta, goraram-se da vista, apenas se vislumbra o rio. Pedorido é um quadro abstracto à frente dos olhos, encoberto, difuso e molhado.


Das chaminés do casario de Rio Mau, sai um fumo pardo, preguiçoso, que evoluía no espaço alguns instantes, para depois se diluir na humidade do ar. O cheiro da terra, é intenso, acre, misturado com o perfume da urze que o vento trouxe das serras. Madrugadores, os galos desatam em cantilena no Lugar e, os dos Estercos respondem, bem antes de findar o eco em S. João.


O sino da igreja de Sta Eulália em Pedorido badala dolentes as sete da manhã. O som do bronze paira por momentos no tempo, depois perde-se nas quebradas dos montes. Batem sete horas no campanário, mas não acordam ninguém. Há muito que o povoado mexe, acordou cedo porque o pão não se ganha aqui. É preciso procura-lo longe ou então na banda de lá, na sinistra indústria Que a terra nunca seja leve para as peças da engrenagem que a fazem mover. Que mil anos de purgatório não bastem para remir as culpas de alguns senhores que se tornaram carrascos por vontade própria no fito de ficarem bem vistos aos olhos de quem manda.


O tempo há-de tentar esquecer os crimes sem que o perdão venha, que não virá nunca, Enquanto o mundo girar, a nortada se encarregará de manter presente a má memória varrendo nas suas rajadas os vestígios do mal.


Doce é a noite que embala os barcos na calmia do rio. Doce é o manto estrelado num céu profundamente azul e doces são os sonhos das gentes da borda de água.


O sossego total da aldeia engana o mais pintado. Nem vivalma se vê ou se ouve. Não fora o ladrar dos cães do Álvaro Moleiro, poder-se-ia dizer que aqui não habita ninguém. A noite medonha e feia é aqui estimada como preciosidade. Ninguém ousa desafiar e rasgar com passos a quietude das destas gentes. O manto de estrelas é o manto caridoso de uma paz efémera.


Soam as quatro da madrugada nos Estercos e Joaquim Correia salta da tarimba sem enxerga lastrada com mato. O que cobre os vegetais fetos e carquejas secas, são retalhos de mantas já velhas. A tarimba formada por barrotes de eucalipto toscamente pregados tem por baixo dela, mais duas idênticas onde dormem os filhos amontoados.


Saltou o rego de água que atravessa o compartimento único da habitação. Abriu o postigo e uma baforada de ar envolveu-lhe o corpo. Abriu também a porta da entrada e foi ao anexo coberto de lousa que compõe a cozinha onde a Balbina, a esposa, mexe a panela de ferro onde um caldo de couves, feijão e batatas, ferve a bom ferver fazendo vir à tona de vez em quando, um naco de adubo de porco que ali mora há muito tempo.


Ele partirá breve para a faina do rio e ela batalhadora, subirá a serra na apanha da carqueja, queiró e chamiça, lenhas que depois venderá. Calcará lousas, calhaus e pedregulhos que lhe provocam gretas nos pés nus. Vergada ao chão, arrancará com mãos extremes os matos do monte com que vai fazer molhinhos. Atados como mandam as exigências dos compradores, levá-los-á para o cais do Remoinho onde grandes barcos transportarão para as padarias do Porto. Comerá as papas que o diabo amassou sem um gemido, sem um protesto e toda a revolta retida na lama manifestar-se-á no seu corpo a tornar as noites dolorosas e repletas de dor nas costas. Amargo é o ínfimo pão destas bocas, puro fel misturado de suor e muitas lágrimas silenciosas.


- Ó Balbina, já está amanhado?


- Vai para dentro homem, calça-te, olha a suféca!


O Joaquim não falou, voltou-lhe as costas e voltou a entrar na húmida e fria habitação. O seu pensamento recuou à véspera quando por questões políticas ligadas ao corte de sobreiros no maninho e que lhe eram alheias, teve de ir a Penafiel ser ouvido como testemunha.


Antes de arrepiar caminho rumo à capital do concelho, achou por conveniente levar uma carta de recomendação.


Foi ter com um tal Oliveira pessoa influente nos meios da política e do poder considerado um filho da terra, portanto um amigo. O homem lá lhe passou a dita credencial de abonação. Antes do raiar da clara luz do dia meteu-se o Joaquim a pé pelo caminho fora até Penafiel.


Nas Termas de São Vicente o tempo toldou e começou a cair uma chuva grossa, que o obrigou a procurar brigo no Escondidinho do Parque, espécie de tasca conhecida pela abundância de presuntos. Meteu conversa com os aos presentes e relatou os motivos da viagem e da aflição que transportava. Um deles sabia ler, pediu-lhe a carta de recomendação e desvendou o conteúdo enganador. Dizia mais ou menos isto a missiva:


- Este melro também é dos tais. Dêm-lhe uma carga de lenha e prendam-no aí por dois dias!


Grande recomendação levava o Joaquim. Com amigos destes não precisaria de inimigos. Claro que já não levou a sentença ao carrasco e ficou por ali a ouvir história de arrepiar, as tais do Penado do Corvo e a dar troçadas na caneca do encorpado tinto da Quinta da Amélia de Boelhe.


A mulher entra com fumegante e enorme tigela na mão cheia de caldo. O barqueiro esmigalha nos dedos miolo e côdea de broa que vão caindo por cima da sopa fazendo um pequeno monte no centro da vasilha. Depois pausadamente, desarrolha a cabaça e entornou no caldo vinho tinto até a acabar de encher. Ficou assim uma massa vermelho negro a cheirar a tanino. Comeu apressado e saiu a correr.


Na largo da aldeia já o esperam o Pereira, o Rufino e o Malhado de Sebolido, que encurtou caminho e meteu a direito pela Senhora do Monte afim de estar ali aquela hora.


Esta É a tripulação de um barco. Um arrais, o Rufino, os outros três marinheiros. Fazem parte integrante dos famosos Rabões da Esquadra Negra dirigem-se ao cais do Remoinho onde atravessarão o rio até Pedorido.


Lá chegados, fazem mais um bocado do percurso a pé até Germunde ao o local das cargas.


Uma estrutura de cimento paralela ao rio contendo na base inferior um caleiro de madeira que fica a três metros da água, recebe o carvão que se precipita no barco através dela.


Completa a carga de mais ou menos quarenta toneladas, começa então o martírio dos quatro homens. Numa formação em fila segue a esquadra toda composta por quarenta batelões.


O Joaquim Correia é doente do peito e dizem que sofre de esgana. A suféca da- lhe de vez em quando colocando-o à beira da morte. Já foi ao médico mas este não encontrou remédio para aquilo e também achou que não era motivo para meter baixa. Observou e sentenciou:


- É esgana! Não tem cura, vai trabalhar que isso passa. E ele foi, pudera, não havia remédio possível para a doença e para ele. O que mais tinha era de ganhar algum para sustentar a casa.


Na Lingueta, espécie de rampa metida na água, vêm-se encostados uns aos outros os barcos Rabões, que carregados de carvão irão partir para Campanhã, directos pelo rio abaixo e parecem cascos de túneis a boiar na água.


Campanhã é longe, nas bordas do Porto. A descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentiar o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na praia mar, é custoso arrastar à força de braços tantas toneladas de madeira e carvão antracite.


A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o vento da barra que enche as escuras velas. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada, elas e os homens lá vão fazendo o trabalho. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrasta no fundo, é muito difícil de avançar. Aí três homens saltam para terra, descalços nas escarpadas pedras da margem, munidos com uma soga presa ao barco, puxam á frente deste. A corda abre-lhes os ombros em ferida, as pedras do chão, sulcadas com profundos regos, feitos pelas cordas a esfregar, cortam-lhes os pés nus. Outros de A vara de Carregar fincada no peito, lisa, que as mãos dos barqueiros já lhe tiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração, vai se espetando no fundo do rio, desde a proa á ré, Vergados, num tremendo esforço, agoniam em cada minuto que passa.


E nos dias de cheias! Que louco se tornava o rio. Louco e apressado em chegar á foz. Parece que leva consigo a força dos infernos. Mas os barqueiros não o temem, embrenha-se com ele numa luta de morte. Que feitiço este que empurra os homens para o colo de tão traiçoeira amante. Dão-lhe tudo, o suor o sangue e a própria vida. Cegos e loucos como ele, cedendo sempre a esta paixão avassaladora, só em troca do pão que lhes mingua em casa, numa entrega total a um amor infame.


Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda!


São tantos a sofrer tão desditosa sorte. Vêem dos mais diversos lado. De Espadanedo, do Couto, de Escamarão, de Bitetos, do Castelo, de Sardoura, de Pedorido, de Melres, de Rio Mau e demais sítios. Todos eles irmanados do mesmo sentimento, de uma solidariedade ímpar. Tratam-se por companheiros, e estabelecem entre si laços de verdadeira fraternidade.


As refeições são comunitárias. A mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou colher. A dor de um, transforma-se sempre no sofrimento de todos, mas mesmo assim é tão pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor as barreiras da pobreza extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, os outros têem de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada uma destas vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem, dão largas sempre que podem a uma réstia de alegria que docemente acalentam.


Dá gosto vê-los em tempos de calmaria. Entre abraços fraternos, dão azo a esse minguado consolo, que de vez em quando, desponta nos seus corações. Então sai uma desgarrada, acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do tinto, de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique:






Que lindo é o berço sagrado


Que lindo é o berço sagrado


/Que me criou e alumia.






Aqui a braguesa fazia dois compassos.






Que me criou e alumia


Entre beijos e abraços


lá vim eu á luz do dia






O melancólico e bizarro dedilhar da viola enche o espaço e a noite. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taverna. Oscilam vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas e presuntos pendurados e, os efeitos de contra luz projectam nas paredes formas bizarras e fantasmagóricas. Logo entrava o Malhado a matar:






Ó cantador afamado


ó cantador afamado


aprecio os teus cantares






Outra vez a viola dolente.






Aprecio os teus cantares


bem puxas pela goela


mas não me chegas aos calcanhares.






Está lançado o mote, que servirá de tema aos cantares desafiadores Como dois galos em capoeira, lá se vão crispando no fazer de cada quadra. Consolados, ficam então em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.


Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho. Bebe em grandes goles pela noite fora. Meio vivo, meio morto, escuta as narrativas dos barqueiros.


Falam de tudo e de nada. Contam uns aos outros, histórias de valentia que nunca viveram. Transforma-se em heróis repentinamente. Ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez. Mas não, são antigos, recontados por dias e noites iguais, alterados aqui e ali, conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de luta, como quem desfere certeiro golpe de espada afiada.


Os companheiros, sentados no comprido banco da tasca, ora chegam á frente para ouvir melhor os momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste e dobravam-se para trás assustados.


Comungam a hóstia sagrada do irreal e do fantástico, que chega a assumir contornos de verdade autêntica. Mas não, são apenas desabafos, pedaços das almas sangrantes dos marinheiros da Esquadra Negra. Já tarde, felizes e alegres, regressam aos lares abraçados uns aos outros.






O Caga-na-Marca coloca o último pé na prancha do barco. Esgueirou-se por entre os outros até à ré. Portador de tantas preocupações, alimenta todos os dias aquele medo que lhe nasce em cada amanhecer. Medo da mina, medo da morte que espreita em cada rebentamento do dinamite no fundo da terra. Medo de tudo e de nada, ou apenas a constatação do obrigatório serviço que quer queira quer não tem de cumprir.


Os filhos, a ninhada que deixa todos os dias embrulhada em pedaços de manta da tropa, aparecem na sua mente estendendo as mãos à sua chegada. Dali, da ré do barco olha a sua terra saudoso, pensa no porco de cobrição que deixou na corte e, rebenta-lhe nos olhos uma nuvem de preocupação.


O porco é a suplementar fonte de rendimento. Tratado como porco, mas o com respeito devido à sua condição de galinha dos ovos douro, o animal come e bebe à barba longa, mantendo-se assim em forma para as tarefas a que está destinado. Caga -na -Marca, consulta a agenda mental num relance, constata que logo pelas seis da tarde terá de ir a Rio Mau cobrir três porcas.


A ida é sempre fácil. O animal, bicho a perfazer quinze arrobas, carregando no meio das patas traseiras um par de testículos que enchem um cesto vindimeiro, corre apressado afazendo abanar aquele monte de carne ciosa. Parece que adivinha, corre, corre e faz o dono também correr atrás dele. Quando chega ao local, vai direitinho à corte, onde o aguardam contentes, as ansiosas porcas. Não são exigentes, serve por assim dizer, qualquer um, desde que cumpra fielmente o dever imposto pela suína natureza enfiando como quem enfia a craveira no tampo de uma pipa numa prova de vinhos.


No regresso é difícil convencer o animal a caminhar. O dono recebe quinhentos mil réis por cada cópula, o porco, vê à frente dos olhos, a uma distância de um metro, três folhas de couve que lhe fogem sempre.


- Anda pintado!


E mostra-lhe as couves.


O porco iludido corre para elas, mas o Caga – na – Marca, já está posicionado cinco metros à frente. É um martírio arrastar aquele monte de carne viva até Moreira. Cansado desfalece e, esbaforido deita-se na beira do caminho.


O pensamento do mineiro foi lancetado ao meio. A barca chega finalmente a Pedorido. O bater da proa no cascalho, desperta o homem. Do outro lado do rio, olham as casas alpendradas a espelhar na água. Três colinas erguidas, aparecem na neblina, parecem mãos erguidas a rezar ao céu. Pela manhã fora, lá para as dez, as crianças da escola no recreio, vão soltar na brisa, as suas inocentes canções. Formando várias rodas cantarão assim:






Eu fui ao jardim celeste, giroflé, fla, fla.


O que foste lá fazer, giroflé, fla, fla.


Fui lá buscar uma rosa, giroflé fla fla.


E para quem é essas rosa, giroflé, fla fla.


É para a menina gracinha, giroflé, fla fla






E continuariam em maneira de perguntas e respostas, ou então saia o sarrabisco:






Sarrabisco, bisco, bisco,


quem te deu tamanho bisco.


Foi a velha chocalheira


que come ovos e manteiga.


Os cavalos a corre,.


e as meninas a aprender.


Qual será a mais bonita,


que se vai arrecolher!






Ou ainda, duas entrelaçam as mãos e as outras em fila, vão passando por baixo de mãos postas nos ombros das da frente sempre a cantar:






Bom barqueiro, bom barqueiro.


Deixai-me passar.


Tenho filhos pequeninos,


não os posso aturar.






E logo as duas de mãos entrelaçadas respondem:






Passarás, passarás.


mas algum deixará.


Se não for o da frente.


Há-de ser o de trás.






Ali estaria a verdade, pronunciada a cantar pelas bocas inocentes


- Algum deixarás, se não for o da frente há-de ser o de trás...


Das filas adultas, alguns vão deixar as vidas nas mãos do mau barqueiro. Tanto fazia ser o da frente, como ser o de trás. É indiferente, desde que passassem as barreiras do medo, da angústia e do desespero. Que se prostrem à mercê da sorte. Libertos de ideais de melhor vida. Asfixiados por doutrinas incitadoras ao trabalho pela nação. Nação que nunca lhes reconheceu méritos e, nunca pagou às terras, nem a eles, as justas compensações pelo atraso e abandono a que os sujeitaram.






Matilde é decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola de Rio Mau. Usa nas tranças do cabelo negro que pendemm sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que via bailando de forma graciosa quando ela, salta as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada pode perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imagina o mundo inteirinho em sonhos e manifesta vontades interesseiras de alargar horizontes e conhecer terras as quais pela primeira vez ouviu descrever no ensino primário.


Há nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do Douro, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que vai crescendo no seu coração e haveria de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.


-Eu quero ver o mar! Foram estas as palavras da Matilde, numa manhã de um dia calmo doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice, quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos. Prenda!


Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização!? Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido, mas sim outras tão pouco comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária. Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde e de muitos já idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão querida.


O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela nasceu mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só pode imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corre para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, segue os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que volta a Pédemoura empurrado pelas marés vivas. O Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes e primeiras fantasias, tem para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas nunca impediu, não quer impedir, que as águas da vida lhe dêem outro chão por alguns anos.


-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?


-Não, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!


O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Teve a sua prenda a materialização da sua visão celeste e, logo no outro dia corria para ele desde o Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor da história fascinante que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais será capaz de sair.


-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe, e eu queria tanto ver um barco!


Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue, que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido. Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer ensejo de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho. A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio:


-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...


-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia.






Na corga, o alvor da manhã surpreende a Chica, mulher do Marta, a cavar as leiras para meter batatas.


Cinquenta anos de vida dura, transformaram uma reluzente figura numa silhueta de gata parda e cinzenta.


O rosto, outrora belo, tem agora a idade do mundo. Rugoso, segura dois olhos mortiços ao fundo de duas cavernas. Os maxilares salientes antecipam um esqueleto mortal. As hortas tomadas a terço ao senhor Raposo, constituem o suplementar orçamento minguado do casal. Bocaditos dispersos aqui e ali são amanhados pelos mais pobres a troco de umas partes da produção. As contas essas acertam-se pelo S. Miguel, por alturas da feira das colheitas em Arouca.


Na alma da pobre, o dilema provoca a angústia e, dá lugar a um misto de raiva e de resignação. A Rosalina, a filha mais velha, com dezasseis anos, apareceu-lhe prenhe pela porta dentro. Trabalha numa fábrica em Sanguedo. Lá conheceu um rapaz cortiçeiro, de quem nem o nome sabe, mas que lhe encheu a barriga


- Prenha, vá lá que não vá, ora não saber nada acerca do pai da criança, isso é que era o cabo dos trabalhos. Como é que ia apresentar a notícia ao Marto? Ele era capaz de entender, a prenhes, a vinda do neto...mas sem pai? Não pode ser. Dá voltas e reviravoltas á cabeça, mas nada. Ela Chica, também embarrigara solteira, do Marto, mas sem pai? Resignada cava a terra dura e a erva orvalhada, molha-lhe os pés. E torna a consumir a cabeça.


- Mais uma boca! Pensa. Já eram sete! E agora!


Olha o cesto das batatas rachadas em quatro, onde um pimpolho com quatro meses, dorme regalado, embrulhado nos restos de uma manta.


- Que vaca! Mal saiu de casa, meteu-se logo debaixo do primeiro que lhe apareceu!


Ela engravidara solteira, mas era diferente. Foi com o Marto, que além de vizinho, é amigo da família com cartão da empresa e tudo o mais


.- Precisa que lhe cheguem a roupa ao pelo! Mas prenha não, pode perigar.


- Mas dumas lostras bem dadas, ai que precisa... só se perdem as que caírem no chão


- A porca! Onde é que se viu isto!...Vai ter de fazer um desmancho!...nascer é que não pode!...E comida? Quem é que a vai sustentar? O Marto!? Ela vai boa, o desgraçado mal ganha para o caldo, tem de ir a Avintes fazer um desmancho! Tem de tirar aquilo do bucho.


Clarifica-se a ideia da Chica, pensou e encontrou a solução. Afinal o problema nem é assim tão grande. Cabeça fria e tempo e lá está a gente a amanhar-se.


- Vai ser já amanhã! O Marto nem vai saber de nada...e se souber se lhe chegar aos ouvidos!? Também não interessa, é um perfeito anjinho, cala-se e pronto.


É a trágica mão do destino a suster a vida e a morte por um frágil fio. Mata-se ou vive-se na Corga conforme a honra e o pão. Nada mais se joga no tabuleiro da sorte. Julga-se, condena-se e executa-se a sentença, na leira a plantar batatas e sem ouvir as partes. Continuará a ser um pouco assim por este pais fora onde apesar de tudo os clarões do progresso já iluminam muitas almas. A Chica não pode saber nem conhecer as lides do destino. Também ele vai mexer nas pedras deste xadrez e nada será como ela determinou. O dia é uma criança e até anoitecer, muitas coisas podem mudar radicalmente. Ninguém é dono de nada, senhor sequer do seu próprio destino, que fará do dos outros.


A Chica é apenas a vítima de um mal que alastra desde sempre. As grandes decisões da vida perdem importância e grandeza perante as condições miseráveis em que este povo vive. A Chica é culpada mas a verdadeira culpa, neste e em muitos outros casos possivelmente morrerá solteira.


Desata o nó do lenço da cabeça enquanto olha o horizonte com olhar perdido. A criança chora no cesto das batatas e, sem largar a enxada, a Chica entoa uma canção de embalar:


- Dorme, dorme meu menino, que a tua mãe logo vem. Foi lavar os teus paninhos, ao reguinho de Belém.


Que grande mentira! Ou então os paninhos que a Chica lava são este pedaço de aço enfiado num pau, que sobe e desce num ritmo vertiginoso e dorido. A criança cala-se e, a mãe retoma as preocupações da vida que lhe vão enrugar ainda mais o rosto.






Germunde é feia carrancuda e fria. Aparece estampada na encosta, como um ovo podre atirado à parede com as claras negras a escorrer até ao rio.


Súbita, se venho do lado da Póvoa ou de Pedorido. De Melres, vê-se como nódoa sombria, na serra em frente. O entulho desprende-se cascalhudo e solto até á beira da água.


Enormes pavilhões cobertos de chapas de zinco e fibrocimento, fazem lembrar escangalhadas tendas de campo de concentração abandonado. Mais ao centro, há casas, vivendas amontoadas com grandes prédios urbanizados e barracas pré-fabricadas que abrigam o pessoal médio e também campo de ténis, piscina, bar luxuoso e messe limpa para os mais ganhadores de salário.


Por baixo de uma enorme placa de betão, fica o refeitório da classe baixa. Lá dentro há mesas de madeira compridas, alinhadas com bancos corridos alinhados sobre um chão de cimento bruto. Há cedros, ciprestes a delimitar as zonas, livres para alguns e interdita a outros, que dão um ar de cemitério aquele local. O sol ainda não despontou em Germunde, nem vai despontar. Distante lá em cima no céu, passa por trás desconfiado e ensombra a terra que já de si é negra.


A claridade chega pelas oito e define um pouco mais a estrutura esquelética do aglomerado. Germunde não é cidade não é vila nem aldeia, não é nada, nem uma coisa nem outra, o que mais parece, é um espinho cravado na encosta do monte.


Ninguém é natural de Germunde, a história não reza esta estranha espécie de vida aqui, mas ela existe, trazida de longe, importada, alguma aciganada, tipo gente dos colonatos árabes. Ninguém se conhecia antes, como não vão ficar conhecidos depois. Convivem mas ignoram-se. Partilham estes espaços de terra, como quem partilha a água de lavar tripas de porco. Germunde é um nicho para alguns vampiros que chupam o sangue a quem lhes cair nas mãos. Transformam o castigo, em obra de misericórdia.


Em Germunde só se pára para morrer ou mijar, aqui não existe nada para ninguém, até a própria água das nascentes é férrea e preta. Bem se enfeitou ela de natureza vinda de fora, mas em vão, aqui não nasciam cedros, nem ciprestes, nem rosas, só urtigas azevinho e mato. De Germunde ninguém gosta, nem os que lá hão - de nascer depois, vão fugir para longe e não voltarão mais. Mas em tempos remotos ouve vida em Germunde, o edifício da messe, foi solar de fidalgos e lavradores, abastados. Agricultores só de nome, que quem lavrava a terra eram outros. Tinham cavalos e coches, meio de transporte para se deslocarem aos salões da Granja em busca de divertimento. Ali desbaratavam à sorte, o que os outros produziam. Eles, os senhores envergando farpelas luxuosas banqueteavam-se em lautos almoços e jantares antes de seguirem para as salas da roleta do casino de Espinho.


Elas as madames, alçavam as pernas e mostravam aos amigos, as coxas alvas e luzidias, enquanto fumavam cigarrilhas cubanas. Os almoços, também eles abundantes eram no restaurante Galo de Ouro em Aveiro e começava sempre por uma avantajada caldeirada de enguias a que se seguiam bifes de vitela enfeitados com tartulhos. Enfartados adormeciam e ressonavam alto.


Ficavam por alguns dias até gastarem dez anos de salário de um cavador de terra a beber champanhe como quem no dia quatro de Agosto, na festa do S Domingos, bebe uma esturraçada de água do cântaro do Fome Negra. Quando regressavam vinham indispostos e agressivos, maus como as cobras e então quem pagava esses maus humores, eram os trabalhadores do campo.


Esta era pois a espécie de vida que em tempos remotos proliferava em Germunde, todavia nesse tempo ainda não se adivinhava o calvário que vinha a seguir, aquilo era só o prelúdio de uma tragédia que se haveria de avolumar. Germunde é uma terra propicia às maleitas, nasceu ou foi criada à imagem e semelhança do inferno.


Bem ao centro do cenário e em patamar de entulheira, discreta mas presente, o possível disfarçada, fica a boca do suplício. A entrada da mina. Por aquela escancarada boca vão entrar as filas dos que vieram a caminhar há horas.


E ai estão eles.


Os gasómetros prenhes de carboneto, que balouçam nas costas dos homens vão entrar em acção. Uns atrás dos outros desaparecem ao fundo da ampla galeria transformando-se em pequeninas luzes, trémulas e difusas. Lá vão o Marto, o Pestana, o Maneta o Isidro, o Rã e os outros todos. Caminham cem metros pelo lado do trilho das vagonetas e ao fundo deparam com três enormes poços.


No primeiro denominado de Mestre, dois elevadores fazem a descida. As Jaulas, que consistem num patamar de madeira de dois metros e oitenta de altura, por um e trinta de largura, cercado com grades de ferro constituem as cabines dos homens e material. Quando um desce, o outro sobe carregando uma Vagoneta cheia de carvão. Os mineiros baixam também aos poços por escadas de madeira, que de dez em dez metros têm um patamar e assim sucessivamente até atingir os trezentos metros de profundidade.


Chegados ao fundo, novas galerias estendem-se pelas diversas frentes de exploração do minério onde se faz a distribuição do pessoal pelas diversas zonas de serviços. Uns para um lado, outros para outro, dispersando-se pelas travessas a começar nas numero seis e acabar nas trinta e cinco. Uns cavam, outros enchem á pá pesados carros de mão construídos em madeira.


Vê-los agora é extremamente penoso. Quais toupeiras. Essas escolhem o terreno onde pretendem cavar, eles não têm essa possibilidade. As marcas foram definidas antecipadamente e, seja duro ou seja mole, tem de se avançar. Inclemente e dura a vida aqui. Molhados, sempre molhados, se não é do suor é da água negra que pinga do tecto. Das mãos e braços chagosos pelas pedras afiadas e soltas, escore sangue que se mistura com a massa preta do carvão. Transfigurados em camisola interior ou de tronco nu e em cuecas, assemelham-se a penduricalhos vivo.


Ah mineiros do Pejão, que erigirá o templo das vossas memórias. Quem lá há-de chorar o vosso sofrimento. Que cá fora a nortada sopra, agita as folhas dos salgueiros, tenta desesperadamente abafar os vossos gritos. Ela que vos conhece, que afagou o rosto da vossa juventude lancetada, sofre também em rajadas de revolta.


Pára rio Douro, escuta os lamentos dos homens, enterrados vivos, lava-lhes as feridas do corpo e da alma com as tuas doiradas águas.


Parai barcos rabelos que da Régua vindes desfraldando ao vento vossas velas brancas e encarvalhado trazeis o precioso néctar que outros escravos fizeram, mas que não corre nas gargantas dos pobres.


Pára, vento norte, não vês que é impossível calar o desespero destas almas famintas de luz!? Deixai que se faça silencio, que cá fora a noite desça solidária com a noite deles. Que Deus e Santa Bárbara os protejam e velem então pelas suas almas.






Parda a madrugada desponta em Pedorido. As casas encosteiradas pela serra acima parecem abandonadas ao sabor dos mistérios da noite que as cobriu. Uma paz milenar abate-se sobre a terra. A noite acolhe em manto de silêncio, os corpos estafados dos que cavam o chão. De vez em quando um mocho pia agoirento e, o sinistro grito, dilui-se na neblina. Dorme o povoado em paz orvalhada. As feridas abertas pararam de sangrar por instantes tentando cicatrizar no precário repouso. A alvorada lúcida vai interromper a obra caridosa da natureza. Breves são os momentos de tranquilidade, que cedo vem a ordem de avançar em busca do pão.


De horizontes tapados, só mais tarde esta aldeia sentirá o raiar da claridade, Assim, deixa-se ficar mais tempo ao abandono do descanso merecido.


A alvorada rompe as barreiras e um raio de luz clareia a serra desferindo o golpe finalàá noite cerrada. Não tarda que o povoado mexa, que as chaminés das casas de xisto fumeguem por todo o lugar. Livra-se assim da noite embora o sono permaneça por aqui, o sono e o espectro dos crimes cometidos pela calada das noites, tiros desferidos à queima-roupa que trespassam os corpos de quem cai nas malhas do vinho da tasca do Iscas. Mortes silenciosas tão inúteis como as vidas de quem os pratica. Há fantasmas em Pedorido como os haverá em outras terras vizinhas. Uns clamam por vingança, outros vagueiam fantasmas pelas ruas aldeia porque nunca encontraram o caminho de regresso às suas terras de origem.


Acorda Pedorido que a manhã vai alta. Desperta desse sono centenário. Anda ver o sol a crestar as serras da outra banda, que só pela tarde te há-de acarinhar o rosto. Anda vê-los passar, são tantos e vão para o degredo de Germunde. Humildes, esfarrapados e pretos mas campeões nacionais de disco, de dardo, de atletismo, de natação. Aqueles a quem o Francisco Duarte, o Chico, , o homem bom, acarinha. Esse que das terras de Aveiro veio estender as mãos aos desgraçados um dos poucos a sentir pena e compaixão e a pegar-lhes nas mãos calosas fazendo-os viver momentos de honra e de glória. Eles agitam o pó dos teus caminhos com pesadas botas, cobrem a tua terra castanha avermelhada com pó negro. Mudam-te a face que embora austera nunca foi preta. Mandados por outros agasalhados em ricas vivendas, humilham-te os filhos, rasgam-te as entranhas dilaceram-te a alma e tu deixas.


Acorda Pedorido. Impede a gula dos estrangeiros, dos pulhas vadios do mundo sem alma. Vem para a rua e sê testemunha ao menos da desgraça que te mutila. Acorda Pedorido que o Arda já canta e o douro já te beija os pés caridoso, amigo e companheiro. Ele tem pão para as bocas famintas do teu povo. Tem sável, tem lampreia, tainhas, barbos bogas, escalos e areia, muita areia, que há-de suster as casas do Porto e de outras terras. Riqueza enorme, incalculável que o rio te deixa aos pés todos os dias. Fecha as portas do inferno e vira-te para o rio que é lá que está o ouro com que hás-de comprar o pão. É no rio que reside a tua salvação.


Só o silencio me responde! O sono é inimigo do cão e começa a chover em Pedorido.






Nas terras em volta começam a ser retomadas as tarefas da vida. Amanheceu, já é possível subir aos montes para colher as lenhas, queirós e chamissas, que depois seguirão em barcos com destino às padarias do Porto e necessária ao aquecimento e à cozedura dos caldos. Quem tem hortas, procede ao cultivo dos legumes enquanto as mulheres presenteiam os gados e as mundices com a primeira refeição do dia. Neste recanto do rio a vida renasce todas as manhãs sem promessas e alheia à realidade que os poderes permitem. O sol não tarda a aquecer os povoados e essa luz maravilhosa é quem permite a continuidade da sobrevivência.


- Quem é Deus!?


A pergunta estala na quietude da tarde e o eco explode nos vitrais coloridos da igreja de S. Paulo em Sebolido mais parecendo um ribombar de trovão produzido na garganta do padre examinador:


- Quem é Deus?


Aqui, no meio da canalha quase ninguém sabe, só o Chico Marta ousa explicar:


- Deus é o meu pai!


Aquele som arrastado, sai a custo da garganta e mais parece um grunhido agonizante. Os olhitos pequenos aparecem e desaparecem por entre um pestanejar nervoso e rapidíssimo


- O teu Pai do Céu? Pergunta o padre.


- Não senhor abade, o meu pai Zé Maria!


A resposta é lógica e admirável por vir de um cérebro tão atrofiado. O resto da canalha, das pequeninas ovelhas, ri a bandeiras despregadas.


Crente, Chico liga Deus à hóstia consagrada, ao pão de trigo sem fermento que lhe alimenta a alma e o corpo. Ele sabe ou apenas sente desde a nascença que o verdadeiro Deus está ali materializado naquele pedaço de pão tão doloroso como se todo ele fosse o próprio corpo do Senhor.


- Tomai e comei todos, este é o meu corpo!


É aqui que o Chico bebe a verdade de que precisa. Pão, dor de o conseguir, esforço tenaz e sofrimento, por tanto igual a Zé Maria Marta


O homem da batina preta fica calado por instantes, entende o conteúdo da resposta mas não lhe interessa divulgá-la. No entanto sabe que o Chico tem a razão toda pois Deus é o pão de cada dia, aquele que alimenta, que acarinha, que protege, que ama e não castiga. Deus é no entender do Chico o Zé Maria Marta. Um borrachola, que nos fins de tarde após o trabalho ingere o vinho maduro até se perder nele. O que chega a casa ébrio e resmunga com a mulher. O que mija e entorna o carboneto do gasómetro no quinteiro. O que cava o chão de Germunde, um mineiro, um letrado que busca a notícia nos poucos jornais e livros que lhe chegam às mãos. Jornais velhos que já embrulharam sardinhas, livros antigos sebentos pelo uso, mas a quem o Marta arranca as últimas letras como se de perfume se tratasse. O que discute na taberna as questões políticas que a poucos interessam. O que fala na consciência colectiva, no poder da classe operária organizada, na democracia. O que tem cartão da empresa que lhe permite comprar alimento na malfadada cooperativa dos mineiros e barqueiros do Pejão, aquela que lhe fica com tudo, ou melhor com o resto do todo. Deus para o Chico é o seu próprio pai. Essa figura que consome os seus dias a cavar o carvão nas profundezas da terra, sem nunca ter tratado de si. Este é o Deus do Chico, um homem, um imbecil que nunca soube o que é o assentar de um fato de fazenda no corpo, só a ganga azul da camorcina e das calças que compõem o fato da mina. Um se humano exactamente igual a todos os homens feito por Ele à sua imagem e semelhança.


O Zé Maria Marta não é Deus não senhor. É apenas um homem e todos o sabem, mas o Chico dá essa resposta no exame para a comunhão solene.


- Deus é o meu Pai!


O padre passa à frente, disfarça, dá como válida a resposta ao consenti-la e, o Chico vestido a rigor e de sapatilhas azuis, vai professar e assumir a responsabilidade da fé que lhe indicaram num próximo Domingo quente de Agosto.


Nada se alterará na vida dele a partir desse dia. A demência envelhecerá com ele e vai perder o seu Deus para sempre.


Então, vagueará pela vida inquieto. Quererá rezar mas não sabe a quem. Por isso vai contorcer as mãos em desespero quando ouvir as badaladas do sino da igreja de S. Paulo em Sebolido. O Chico é meio anormal como diz o povo. Não tem as luas todas, é meio inocente como dizem alguns. Mas o certo é que, o Chico sofre e chora por pressentir que um dia vai perder o seu Deus.






O Passarinho, é uma criança dos seus quatro anos, órfão de pai que fora mineiro e morrera na mina quando ele tinha apenas dois meses. É conhecido assim por toda a aldeia, dá por este nome, pelo próprio que é Francisco nem pensar, corrige de imediato qualquer engano.


- Não sou Chico, sou Passarinho.


Um cabelo espetado na cabeça empresta-lhe um ar de ougado. Uma camisa cobre-lhe parte do corpito apertada apenas com o botão cimeiro, que os outros, já os perdeu a jogar à pincha. Uns calções de fioco todos remendados herdados de umas calças dos irmãos mais velhos, presos com uma alça a tiracolo e a outra a pender pelo rabito abaixo, descalço, com os dedos grandes dos pés esfolados pelo tropeçar nas pedras do caminho, é a imagem perfeita de um pedinte desleixado.


A alvura da manhã surpreendeu-o na margem do rio já a caminho do Corgo de Cima. À sua frente a cabra Farrusca corre enquanto ele tentando apanhar a guita que largara das pequeninas mãos, corre também.


O trabalho do Passarinho consiste em guardar a cabra que fornece leite para ele e para os dois irmãos. Vai para o cimo da aldeia onde há pastagem com fartura. A cabra rapa as ervas que proliferam na margem do rio, viçosas e verdejantes aparecem como um tapete estendido na paisagem.


O Passarinho passa os dias completamente só, manhãs e tardes entretido a curtir os seus inocentes pensamentos envolvido numa alegria pura e calma. Desde há muito que matuta num sonho e procura a forma de conseguir a chave do cemitério pois a mãe sempre lhe disse que o pai estava lá preso pela morte. Penetrar no mistério do lugar sagrado e resgatar aquele que nem sequer conheceu, mas sabie que lhe tinha dado a vida, fá-lo carregar no alma dia após dia, a esperança de o reaver.


O tempo passa lento pelas bordas do douro. A tranquilidade das águas mansas desperta na criança com mais vigor essa paixão avassaladora. Fala com o rio, conta-lhe histórias que ouve no lugarejo com devoção e verdade. O rio escuta em silêncio e, só altera a espelhada atitude, à passagem das patelas coçadas da areia que o pequeno lança devagarinho


Pelo meio-dia abre a saquita de ganga que tinha sido do pai e retira o pão, as azeitonas e a cebola salgada que vão ser o seu almoço. Come vagarosamente, aprecia a económica alimentação como se de lauto manjar se tratasse e, venha quem vier, será difícil convencê-lo que aquilo é comida de gente pobre. O Migalhas, rapaz para uns sete anos, andrajoso e sujo, filho do Manel da Touça, aparece por lá a essa hora. Os olhos estalam-se ao ver a comida e, o Passarinho estende a mão ofrendosa ao companheiro:


- Come Migalhas!


- Já comi o caldo, estou cheio!


Mentira! A boca não é capaz de convincentemente negar aquilo que o estômago sente e lhe transparece nos olhos. O guardador da cabra sabe bem que o amigo tem fome e que ainda é mais miserável do que ele:


- Toma. Come daqui!


São segundos em que a pequena refeição passa a garganta do Migalhas. As azeitonas saem da saca de repente às mãos - cheias, algumas caem no chão tufoso e, num ápice, depois de limpas nas calças sujas, estalam-lhe mastigadas na boca. O Passarinho não se importa, são amigos e, de mais a mais, um dia houvera em que caíra no rio cheio e doirado e, foi o Migalhas quem o salvou de uma morte certa.


- Tu sabes o que é a morte migalhas?


A pergunta estala na calmaria da tarde. A resposta demora a chegar. O Migalhas olha o céu como se procurasse ali o termo certo para explicar ao amigo. Passam minutos e, como que se o cérebro se lhe iluminasse de repente, disse:


- A morte é a ti Júlia do Vale dos Lobos!


- Porquê? Pergunta o Passarinho!


- Porque é negra e feia!


Errado, mas sem dúvida a figura que melhor poderia descrever a morte. É negra a Julia mas só de aspecto. A longa viuvez transformara-a numa espécie de bruxa. As roupas negras que cobrem a quase totalidade do seu corpo onde só reluzem uns olhitos na cara enrugada, fazem dela uma figura sinistra que só calca as pedras do caminho da aldeia depois de o sol se ter posto. É uma coruja!


O Passarinho aceita como certa a resposta do amigo. Demais a mais, a ti Júlia vive mesmo encostada ao cemitério, na casa da colina.


Do Corgo olha o alto de S. João e magica na forma de pedir a chave do cemitério e, sorrateiramente, entrar salvando o pai das garras daquela traiçoeira. Neste coraçãozito, instalou-se há muito um terrível dilema; É que, sempre que deixa a Farrusca fugir, ela vai direitinha à venda do Viana e, num ápice, abarbata-se ao milho reluzente do saco. Então a mãe repreende-o severamente e, não são as pancadas no corpo quem o fazem sofrer mais, são as palavras da pobre em desespero, que enchem de terror aquela alma infantil.


- Se o teu pai fosse vivo, dava-te uma sova que te ponha de cama um mês.


- Rais parta o moço que não aprende de maneira nenhuma! Falta cá o teu pai para te meter na linha!..


Eis a razão do cruel dilema. Quer muito libertar o pai mas o medo às pancadas que pode levar, tolhem-lhe o gesto.


Hoje as saudades do progenitor são mais vivas, queimam-lhe o peito depositando nele uma angústia infinita. Deixou passar o tempo e pelas seis da tarde, desamarrou a cabra do graveto em que a prendera e, agarrado na ideia até aqui acalentada, arrepiou caminho até ao cemitério. Por baixo da capela olhou o adro cauteloso. Viu a figura do prior, homem alto, de cabelos brancos que lia o breviário em passadas calmas em volta do templo. Esperou que dobrasse a esquina e, numa corrida foi a casa do Carrucho o guarda do cemitério e pediu as chaves, dizendo que eram para a mãe que estava à espera para enfeirar a campa.


O guarda lá lhas entregou. É um molho delas, pesadas e grandes. As da capela vêm juntas presas na argola. Vigia-se do padre e, quando este mais uma vez dobra a esquina, correu até ao objectivo. No entanto é difícil chegar ao buraco da fechadura. Põe-se em bicos de pés mas nem assim consegue. Entretido na tarefa, não dá pela chegada do padre que, curioso, ao ver a cabra amarrada em baixo, se pôs atento.


- Então Passarinho? Que fazes aqui a esta hora?


Nem chus nem mus. De olhos arregalados, esconde atrás das costas o molho das chaves.


- Perdestes alguma coisa rapaz?


Nada, nem um ai sequer. É a figura chapada de uma ave medrosa. Acertou quem o baptizou; nada faz lembrar melhor um passarinho, que este corpito inocente e indefeso, à espera do pavoroso castigo.


- O que é que tens ai nas mãos, ora deixa lá ver!?


É o padre, de batina até aos pés, negra e coçada, lembrando neste momento um abutre prestes a atirar-se sobre a presa. Mas não! É um homem bom, reage apenas ao sabor da curiosidade que lhe despertou a presença do catraio, neste local e a esta hora tardia.


- Olha são umas chaves, são as chaves do cemitério e da capela!


- Para que queres tu isto, pequeno?


O passarinho respirou fundo. Foi mais um suspiro do que outra coisa. Da candura dos olhitos negros, soltam-se em desespero ribeiros de lágrimas e, os ombros sacodem-se na tremura dos soluços. Levantou a cabeçita e, com firmeza, respondeu:


- São as chaves da morte senhor abade. Ela tem o meu paizinho ali dentro preso. Eu vim buscá-lo. Quero levá-lo para minha casa. A minha mãe chora de noite por ele. Eu tenho muita pena dela. Não me bata senhor abade; eu só levo o meu pai e não estrago nada!


A tarde finda-se, um doce crepúsculo cobre a aldeia, o céu estrela-se num instante e o rio ao fundo da encosta é um lago verde matizado por reflexos de luz e esplendoroso. O velho sacerdote tira os óculos e, com o lenço, limpa as grossas lentes e os olhos que se lhe humedecem de repente. Pega o pequeno ao colo, com as costas da mão enxuga-lhe as lágrimas e acaricia-lhe os cabelos. Com o dedo indicador aponta uma estrela e diz-lhe baixinho:


- Não chores mais meu filho. O teu pai está acolá em cima naquela estrela. Não o procures ali no cemitério. Procura-o no céu que é onde ele está agora. Tu ainda não compreendes meu pequenino, mas, um dia, hás-de saber que é assim mesmo. O corpo do teu pai está ali dentro, mas a alma, a alma boa que ele tinha, essa está no reluzir daquela estrela no firmamento celeste, muito pertinho de Deus. Não o podes levar para casa Passarinho. Agora a casa dele é a casa do Senhor. Olha, neste momento o teu paizinho está a ver-te e está muito feliz, meu querido filho.


- Mas eu não o vejo senhor abade?


Diz criança elevando os olhitos ao céu indagadores.


. - Verás um dia, quando fores mais crescido. Continua a olhar o céu todos os dias que um virá em que tu, como eu, conseguirás ver para além das últimas estrelas. Então Passarinho, nesse dia, encontrarás o teu querido pai.


- Ainda falta muito senhor abade?


- Não meu filho, apenas o tempo de te fazeres homem, pouco, muito pouco. Um dia acordarás lá em cima junto do teu pai. Olha que é breve Passarinho. Quem tu diz, está a um passo desse dia


- O senhor abade também vai ter com o meu pai?


Perguntou a avezita contentada.


- Vou filho, vou ter com o teu e com o meu que não vejo há muitos anos!


- O seu pai também é preso da morte?


- A morte não existe passarinho. Apenas o corpo se transforma em pó, mas a alma que tens aí dentro do peito, volta para o lugar de onde veio, lá para cima, para a beira do Criador, do nosso Pai celeste!


- Mas então temos dois pais senhor abade?


- Temos! Temos dois pais. Nós e todos os meninos e meninas e todos os homens e mulheres deste mundo.


- Até o Melrinho que rouba laranjas ao senhor Viana e parte os gamões das videiras do senhor Geraldo?


Pergunta ele admirado.


- Sim, até o Melrinho, até esse, apesar de ser tão traquina e tão rebelde, também é filho de Deus.


- E o nosso Pai do Céu bate-nos quando deixamos fugir a cabra?


- Não Passarinho, não bate. É muito nosso amigo. Fica triste quando fazemos asneiras mas não é capaz de levantar a mão para ninguém. Ama-nos como o teu paizinho te amava!


- Mas a mãe diz que o meu pai batia!


- Não! A tua mãe diz isso em desespero. Ela também sabe que se o teu pai fosse vivo, nem sequer andavas perdido, sozinho pelas beiras do rio a guardar a Farrusca. Havias de brincar com os teus amigos e estar sempre perto de casa!


O miúdo aconchegou-se mais à batina do padre.


Aqui está a reza abreviada, a doutrina simples do velho padre. Poucos discursos ou sermões terão mais agradado efeito. Na verdade Deus está sempre em todas as coisas das nossas vidas. Não o podemos procurar no inferno, único lugar onde de certeza Ele não está. Cegos pelo poder material ou pelo desejo de superioridade o esquecemos, ou iludidos no sentido inglório da vida, não queremos ver, que na realidade o Deus verdadeiro existe em cada um dos nossos semelhantes. Escasseado de tudo às vezes, mas nem por isso diferente do Deus todo-poderoso o Criador de todas as coisas visíveis e não visíveis, o ser infinitamente misericordioso.


Um suspiro de alívio parou aquele vale de lágrimas. Nos olhitos ainda liquefeitos, brilha a luz de uma nova esperança. Afinal temos dois pais, foi senhor abade quem o disse e mais que ninguém é pessoa em quem se pode confiar. Dois pais e qual deles o melhor. Um a viver numa estrela, tão perto dos seus olhos. Outro no céu, que mesmo que se deixe fugir a cabra, não é capaz de bater! Ainda hoje havia de dizer à cabra Farrusca e amanhã ao rio seu grande confidente.


Tudo se alterou de repente. Aquilo que era uma angústia e lhe transformava a alma numa uma noite escura, abria-se agora num paraíso multicor. Muito pouco é necessário para contentar um pobre inocente.


Com o pequeno ao colo e a cabra presa pela guita na mão direita, o abade sobe devagar a rua dos Estercos.










Na Lingueta, espécie de rampa metida na água, vêm-se encostados uns aos outros vêm-se os barcos Rabões, que carregados de carvão irão partir para Campanhã, navegando pelo rio abaixo e vistos daqui, mais parecem cascos de túneis a boiar na água.


Campanhã é longe, nas bordas do Porto. A descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentear o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na preia - mar, é custoso arrastar à força de braços, tantas toneladas de madeira e carvão antracite.


A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o auxilio do vento da barra que enche as escuras velas e impulsiona a embarcação. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada içada, ela e os homens lá vão fazendo o trabalho todavia penoso. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrastam no fundo, é muito difícil de progredir. Nesse caso três homens saltam para terra sem protecção nos pés calcando as escarpadas fragas da margem, munidos com uma corda presa ao barco vão, puxando uns metros à frente deste. A corda abre-lhes os ombros em ferida e as pedras do chão, sulcadas com profundos regos, provocados pelos cabos continuamente a raspar, cortam-lhes os pés nus. Outros de vara de Carregar fincada no peito, polida pelas mãos dos barqueiros que já lhe tiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração, vão espetando varapau no fundo do rio, desde a proa até à ré. Vergados e num tremendo esforço, agoniam em cada minuto que passa.


E nos dias de cheias em que num louco se converte o rio apressado em chegar à foz, agiganta-se e parece que leva consigo a força dos infernos. Os barqueiros não intimidam com este embrutecimento do rio e embrenha-se com ele numa luta de morte. Assemelha-se a um feitiço, a uma espécie de maldição que empurra os homens para o colo de tão traiçoeira amante. No efeito de semelhante adoração, dão-lhe tudo, o suor do rosto, o sangue das veias e a própria vida. Ficam cegos e loucos como ele, só em troca do pão que lhes falta em casa para alimentar a família.


Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda!


São tantos a sofrer tão desgraçada sorte. Vêm dos mais diversos lugares. Espadanedo, Couto, Escamarão, Bitetos, Castelo, Sardoura, Pedorido, Melres, Rio Mau e de outros sítios bem mais afastados daqui. Todos irmanados do mesmo sentimento de uma solidariedade única, tratam-se por companheiros estabelecendo entre si laços de verdadeira fraternidade.


As refeições são comunitárias. A mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou a mesma colher. A dor de um, transforma-se sempre no sofrimento solidario de todos, mas mesmo assim é muito pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor os obstáculo da miséria extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, alguns dos outros têm de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada um deste conjunto de vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem e embora esporadicamente, ao longo dos tempos dão largas a uma réstia de alegria que docemente acalentam.


É um raro privilégio vê-los em tempos de calmaria quando entre abraços fraternos dão largas a esse minguado consolo que de vez em quando desponta nos seus corações sofredores. Então sai uma desgarrada acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do verde tinto de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e, os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique:






Que lindo é o berço sagrado.


Que lindo é o berço sagrado.


Que me criou e alumia.






Aqui a braguesa fazia dois compassos.






Que me criou e alumia.


Entre beijos e abraços.


Lá vim eu à luz do dia.






O melancólico e bizarro dedilhar do tocador no modesto instrumento, enche o espaço e a noite de um romantismo nostálgico. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taverna, oscilando vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas e alguns presuntos pendurados provocando efeitos de contra luz que dão às paredes da casa formas bizarras e fantasmagóricas.


Agora entra o Malhado a matar:






Ó cantador afamado


Ó cantador afamado.


Aprecio os teus cantares.






Outra vez a viola dolente!






Aprecio os teus cantares.


Bem puxas pelas goelas.


Mas não me chegas aos calcanhares.






Está lançado o mote que servirá de tema aos cantares desafiadores. Como dois galos em capoeira, lá se vão encrespando no fazer de cada quadra. Consolados, ficam perdidos em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.


Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho. Bebe em grandes goles pela noite fora. Meio vivo, meio morto, escuta as narrativas dos barqueiros.


Falam de tudo e de nada. Contam uns aos outros, histórias de valentia que nunca chegaram a viver transformando-se em heróis repentinamente. Ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez que os ouvissem. Mas não, são antigos, recontados por dias e noites semelhantes a esta e alterados aqui e ali conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de combate como quem desfere certeiro golpe de espada afiada.


Os companheiros sentados no comprido banco da tasca, ora chegam à frente para ouvir melhor os momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste dobrando-se para trás apavorados.


Comungam a hóstia sagrada do irreal e do fantástico que chega a assumir contornos de absoluta e autêntica verdade. Talvez não, decerto nem interessa saber e conhecer a realidade, são apenas desabafos, pedaços das almas sangrantes dos marinheiros da Esquadra Negra. Já tarde felizes e alegres, regressam aos lares abraçados uns aos outros.


O último a abandonar o tasco é o Esperança. Manco há muitos anos, cambaleia e tenta arrastar-se até à barraca distante onde vive sozinho.


O velho Zé parou ao cimo da costeira. Muito a custo tenta reconstruir um cigarro que traz meio desfeito no bolso da samarra. A chuva tangida por um vento forte vai ensopando as roupas do homem. Perdido no meio das trevas, embriagado, ensaia um princípio de canção:


- É tão bom ser pequenino, Ter mãe Ter pai, Ter avós.


Pára, decerto já não sabe o resto da letra ou então é a emoção que lhe embarga a garganta. Grossas nuvens de fumo aparecem da boca que cheira a vinho e a caldo de couves. Lá ao fundo corre sereno o rio mau cumprindo a sua sina milenar. Cambaleando, apalpando aqui e ali, o Zé retoma a estranha marcha. Já não há controle de nada. O corpo cede em cada passada e, as pedras soltas do carreiro, impedem qualquer progresso. Caiu, rolou pela encosta pedregosa como se fosse pedra lançada aos tombos numa ribanceira. Ao fundo arrasta-se penosamente pelo chão e, só muito a custo conseguiu chegar à miserável habitação. Adormeceu e sonhou não se sabe com quê. Na manhã seguinte encontraram-no morto na enxerga molhada. Olharam pelo postigo e reparam que o sol lhe iluminava o rosto já sem vida. Conta-se que ainda hoje, quem passa a horas mortas da noite no local, tem a sensação de ouvir as águas do rio mau a cantar:


- É tão bom ser pequenino, ter mãe, ter pai, ter avós.






Nem só da mina, da pesca e dos barcos vivem as gentes das povoações em redor. Os campos onde se cultiva o milho, o centeio e as batatas, estendem-se por toda a margem do douro. A principal fonte de rendimento de quem trabalha as terras é sem sombra de dúvida o cultivo das vinhas.


Cá de cima da Ladroeira vêm-se arranjadas as vertentes que descem em cascata até à ponte romana da Bateira. Alinhadas perpendicularmente, as vinhas alongam-se por toda a encosta como em canteiros de jardins suspensos a receber o microclima generoso que sustenta o vale e a quem o rio Paiva a correr lá ao fundo, vai temperando com exóticos vapores. É vinho verde tinto de castas Vinhão e Amaral e outras escolhidas a dedo que amadurece nas agruras dum sol que passa por cima de Carreiros e ainda castiga a Natureza e os homens. É um produto único no Mundo o que vai nascer desta colheita; verde como a paisagem em que é cultivado, verde da cor da esperança de quem o trabalha com dedicação e muito amor e verde como a juventude que encerra e vai espalhando pelo mundo fora em tragos de sabor inimitável, a pedirem carne de vitela arouquesa assada ou grossas fatias de presunto acompanhadas por broa de milho e azeitonas pretas curtidas bem como cebolas rachadas em quatro espargidas com sal grosso e abundantemente regadas com o tinto do mesmo vinho.


Gemem as videiras e, os cachos de negros bagos em cujo interior germina o açucarado precioso néctar, recolhem-se apertados sob a folhagem das videiras. Entrou Setembro e já pouco falta para as vindimas e o Julião recomeçou as canseiras anuais de preparação dos artefactos que muito em breve, numa freima louca, irão entrar em acção.


Lá fora na eira, espalham-se cestos e gigas misturados com arcos e aduelas de pipas e alguns túneis de bocas abertas a sofrerem a artística reparação do Ricardo tanoeiro. Há material da Dorna e barrotes do Cachaço da prensa do lagar que já foi lavado e reluz como novo no recanto frontal do ladrilho. Na penumbra do interior da cave, almeja-se as grandes e robustas pedras de granito que formam o tanque rectangular onde as uvas serão pisadas por pés nus e esmagadas na prensa que se vê ao centro desarmada e, por cima dela, a trave de pressão em carvalho velho, enfiada num eixo de pedra na parede da residência. O fuso, que desce desde a Concha até à monstruosa laje suspensa pela Tranca, aparece polido de fresco e oleado com banha de porco. Ao alto e paralelas à Vara, as Virgens da frente e de trás, perpetuam-se a guiar aquele maciço de madeira bruta e, já fora do enorme reservatório, surge a Tina luzidia contendo o cesto coador do mosto.


A azáfama é grande aqui em Bairros, dos campos que rodeiam a freguesia, chega um perfume macio a erva, canas de milho de espigas trigueiras e a uvas maduras que antecede a um outro, vinhão, lagareiro, a mosto fermentando nas adegas espalhadas um pouco por todo o vale. Chiam os carros de bois no aperto dos caminhos em missão de recolha de abundante colheita de abóboras e arreganhadas espigas do cereal que há-de dar o pão de cada dia. Aproxima-se o momento da mais importante das apanhas, aquela que garantirá mais um ano de sobrevivência se for abundante. Outros rendimentos aqui não existem; se a terra não for generosa no compensar do tenaz esforço desta nobre gente, muitas agruras terão de passar e outros tantos projectos de vida facilitada, terão de aguardar mais um ano recolhidos no infinito sacrário das esperanças.


Povo humilde e generoso este de Castelo de Paiva que no percurso dos tempos quase sempre desgraçados da sua existência, prestaram honras e vassalagem a tiranos que lhes roubaram quase tudo e ergueram tributo a gente que nunca soube o que é cavar um campo mas amealhou colossal riqueza em dinheiro e haveres à custa do seu esforço colectivo. Fazem-no com o mesmo desprendimento com que podam as vides, sorribam os campos, regam os milhos ou cavam nas profundezas da mina. Forçosamente distantes do poder central, separados do todo nacional por uma linha imaginária e só imaginada na cabeça de alguns senhores, nem sequer pedem ajuda pois sabem bem que, manter-se incógnitos é a melhor forma de sobreviver. Seria legítimo protestar mas como há gente em Sobrado que vende a liberdade dos conterrâneos a troco de uma malga de vinho, o mais certo seria acabarem por baixo do posto da guarda na cadeia a olharem permanentemente para a estátua do Conde. O poder totalitário é cego e sacana, aniquila os projectos dos simples cedendo sempre às conveniências dos que o sustentam ignorando por completo que quando acabarem os campos cultivados, estará comprometido o sustento e extinta a valente e heróica raça Lusitana.


Aqui já não é litoral, muito menos Douro; a faixa que absorve a maior parte da riqueza, encurtou terrenos por artes de magia transformando esta região que dista apenas cinquenta quilómetros do Porto, na mais permitida e lamentável das interioridades, assemelhando-se a baldios ou terras de ninguém. A única ponte que une as duas margens do Douro é estreitíssima com mais de cem anos de serventia e apodrece em cada dia que passa. A que atravessa o rio Paiva, perdeu-se-lhe a conta da idade mas sabe-se com toda a certeza ser obra dos povos Romanos. Tudo tão perto e tudo tão longe como lápide eterna a explicar ao mundo as razões objectivas do persistente atraso de um país


O Julião é um homem forte, vermelhado da cara que parece ostentar um sorriso persistente e trás na cabeça um chapéu de palha de abas largas, tão velho como ele, que o protege das inclemências do sol enquanto trabalha as terras. Sentou-se no rebordo do canastro agora de portas escancaradas aguardando as espigas do milho desfolhadas deixando soltar-se-lhe livre o pensamento que divaga nas longínquas paragens do passado. Afloram-lhe lembranças que voam na vertigem da idade que já vai avançada como noitada da festa de S. Domingos e só descansam acolá do outro lado da Paiva onde os olhos esquadrinham solos de Travanca, num súbito estremecimento do corpo por ter sido aquela a terra pequenina onde nasceu. Chegou criança a Bairros trazido no colo de uma mãe que bem cedo perdeu o amparo do marido e, forçada pelas adversas circunstancias da vida, teve de atravessar o rio e instalar-se na encosta do outro lado onde vegetam as vides que prometiam sobrevivência.


Travanca, terra de Cinfães tão distante da Vila, encravada entre as serras e o rio Paiva que lhe beija os pés que são gigantes penedos de granito mergulhados na água numa aflição pungente a tentar impedir a perda do regadio, nas funduras da ponte Romana da Bateira e a deixar-se lavrar por mãos calosas de outros desventurados em declives acentuados também manchados com uvas e frondosos castanheiros, julga que a sede do concelho já nem sequer sabe que este pedaço de mundo lhe pertence. Toda a expectativa destas pessoas reside nos campos, nas minas e nas vinhas que se Deus quiser hão-de parir o encorpado e delicioso néctar de Baco ansiosamente esperado e acalentado na alma destes seres dos campos que lutam desesperadamente como escravos a remar em antigo veleiro de piratas.


Retomam-se as tarefas da vida, o Julião grita pela esposa que ocupada nas lides da cozinha cumpre também as suas obrigações como quem desfia rosário de penas ao longo de uma vida inteira.


Na sala da humilde habitação está um quadro dependurado com a fotografia dos dois no dia do casamento mas, esses rostos de juventude, em pouco ou nada se parecem com estes desfigurados, rugosos, gastos e curtidos pelos anos.


- Ó Anunciação, corta ai um salpicão às rodelas e trás broa e azeitonas aqui para o senhor Ricardo meter uma bucha, diz ele a dirigir-se para a adega com uma jarra de barro na mão.


É a hora da merenda aqui em Bairros no logradouro da casa do caseiro servido em toalha bordada que protege a mesa de pedra assente debaixo da figueira com as galinhas a depenicar as couves e ervas que nasce em redor tendo como cenário a verdura dos campos que se alongam pelas serras até se perderem de vista. O vinho laçou a caneca de porcelana vivo e escorreram gotas vermelhas nas paredes exteriores da vasilha que ficaram paradas a meio caminho gordas como melaço risonho.


O lavrador está feliz e contente e, como tristezas não pagam dividas, apetece-lhe cantar. Entra outra vez na adega e de trás da porta fronha retira a viola braguesa rendada de teias de aranha que dedilha sem grande mestria e um som de festa espalha-se como sulfato nos campos:






Ó terra da minha alma.


Ó terra da minha alma.


Lugar da minha afeição


Ora como é lindo.


Lugar da minha afeição.


Que me dá paz, me dá calma.


E alegras o meu coração.






Não tenho mais que te dar.


Não tenho mais que te dar.


Nem tu mais que me pedir.


Ora como é lindo.


Nem tu mais que me pedir.


Aqui tens meu coração.


E a chave para o abrir.






Ressuscitou subitamente o tempo da alegria como recordação ainda viva da festa de Nossa Senhora dos Aflitos em que em romaldeira ele e os amigos entravam no arraial apinhado de gente tocando e cantando ao redor da capela.






Vareira minha vareira


Vareira ó lari ló lela


Vareira linda vareira


Vareira da nossa terra.






Tanta lima, tanta lima.


Tanta lima, tanta amora.


Tanta menina bonita.


E o meu pai sem uma nora






A esposa apareceu no pátio a limpar as mãos no avental de chita castanho às florinhas brancas, o amplo sorriso desenhado no rosto com sinais de velhice precoce, deixou à mostra uma boca desdentada que desmente a perfeição daquela captada num momento feliz e distante que se perpétua a preto e branco no antigo retrato encaixilhado na sala. Tudo passa mas nem tudo esquece, os tempos antigos eram duros mas havia alegria no povo. As feiras eram animadas e até nos onze e nos vinte e seis em Nojões se dançava no meio das tendas e do gado e cantava-se ao desafio no tasco da Leopoldininha e do Landreiro.


Agora é preciso começar a vindimar os campos, manter acesa a chama de um vinho que merece grandes cuidados e, apesar de tudo o Julião sabe que será impossível reinventar o espírito de uma época mesmo desditosa que ela por ventura tenha sido; atira o chapéu para o cimo da cabeça e mergulha de novo na esperança que acalenta. O rio Paiva lá em baixo, segue indiferente o seu percurso, ali bem perto no Castelo, entrará no Douro, outro rio que meio desprezado, ainda não sabe o seu futuro propósito e juntos esquecerão as tragédias deste povo porque o seu comum destino é o mar e os dois sabem bem que num oceano por enquanto ninguém manda.






Rio Mau é terra soalheira toda virada ao sul. As casas de xisto estendem-se pela beira do rio e outras sobem por três colinas. É terra formosa e de bons ares, de horizontes largos e de gente que labuta pela sobrevivência. O rio que lhe dá o nome, corta-a ao meio e na sua foz, rebenta no Douro zangado ao deparar com o Arda ali em frente. Nunca se juntaram e nunca se entenderam. Um segue na margem esquerda a roçar as entulheiras de Fornêlo, o outro encosta-se à pedregosa margem direita inquieto e nervoso.


O Rio Mau não nasce em lugar definido, inventa-se a si próprio recorrendo às sobras de vários ribeiros lá no alto da serra da Boneca. Nos estios é um lacrimejar penoso que o sustenta e que se vai sumindo nas areias do leito até ficar num fio. Nos dias de vendavais, nas bastas invernias, aumenta de caudal e torna-se perigoso arrastando tudo à sua passagem. As pontes que o atravessavam foram destruídas várias vezes ao longo dos anos. É um rio mau e senhor absoluto do seu leito. Porém, nos verões é dócil. Toda a gente desta terra aprende a nadar nas suas águas puras e cristalinas.


A neblina cobre os montes, parece um tecto de algodão entre o céu e o rio. Descansa ainda a terra do habitual reboliço da véspera.


O sol ainda verde tenta romper o nevoeiro e, os seus raios aparecem indirectos mas definidos tomando a forma de arco-íris. A aldeia parece encantada e, esse encantamento já se prolonga por muitos e longos anos fazendo-a mirrar de fome e de miséria. Embalada pelo som monótono das águas do rio a cair na levada, dorme também o sono dos justos. Tal postura convém a muitos, alguns que já lá estão no reino dos Céus (?). Viveram à grande à francesa e partiram sem nada deixando a terra completamente morta para os vindouros fazerem progredir e crescer.


Os anos vão apagado as marcas do passado mas, aqui e ali, ficará sempre uma pedra, um fontanário ou um cunhal, uma ombreira de casa a lembrar aos vivos os tempos de agora. E que tempos duros estes onde poucos resistem ainda em crianças às maleitas que a fome e a falta de condições de higiene provoca. Morre-se de gripe, de tuberculose, de tísica e de pequenas doenças que um dia já nem sequer existirão ou se tornarão banais e terão cura. Não fora o empenho da senhora Maria Galinheira, as coisas passariam a assumir contornos de calamidade.


E uma espécie de médica, enfermeira e parteira. Todos os males dos que recorrem a ela são tratados à base de rezas misturadas com múltiplas práticas ervanárias. Talha o sarampo como talha o ventre caído ou a íntricia. De todos os tratamentos que faz, o mais rigoroso tem a ver com a zipla ou zeripela, mal de pele que alastra até se tornar numa só ferida ulcerada por todo o corpo.


Munida com uma caçoleta de barro onde previamente mistura azeite, água pura e alecrim, procede aos tratamentos. Mexe tudo pacientemente, depois, com um ramo de carqueja verde, vai molhando na punção que fabricou e esfregando em cruz sobre o ventre do paciente ao mesmo tempo que cita uma oração:






Pedro e Paulo vai a Roma,


Pedro e Paulo vem de Roma,


Pelo caminho encontrou Nosso Senhor


E ele lhe perguntou:


- Pedro e Paulo, de donde vens?


- Meu Senhor venho de Roma!


- Que vai lá por essas terras?


- Muita gente morta com zriplões e zripelas,


Muita gente com elas.


- Pedro e Paulo torna atrás


E co’ a tua mão cortarás zripelões e zripelas


Com uma folha de azeite e água da fonte


E espargos do monte.


Farás três vezes esta reza e três dias e o mal será curado.


Em louvor do Anjo da Guarda e da Virgem Maria.






Também cura os ougados principalmente crianças que desejaram comida que viram e lhes foi sempre negada. Confecciona um bolo de farinha de milho e centeio em que durante o processo de fabrico o paciente espeta os dedos das duas mãos, quantos conforme a idade, deixando as marcas esburacadas que depois será comido atrás da porta da cozinha. Detectar a ougadês é fácil. Esta doença é muito particular nas crianças pobres que vítimas da cobiça de um alimento melhor ficam com o cabelo espetado parecido com os dos ouriços caixeiros. Outros de bocas em chaga, devido à ingestão de alimentos ratados e deteriorados, recorrem a ela. A senhora Galinheira tem rosto enrugado pela eternidade da vida. Uma boca meio desdentada e uns olhitos pequeninos a reluzir ao fundo da cara que dão um resto de luz esta mulher que já não sabe sorrir, conserva a sabedoria popular e usa-a para socorrer os seus semelhantes a troco de nada. Espelha apenas o testemunho de uma vida repleta de sofrimento cobrindo o corpo seco com uma saia de merino velha revestida à frente por um avental de chita preto às florinhas brancas e na cabeça, cobrindo parcialmente a cabeleira embranquecida, um lenço preto amarrado na nuca, condiz com uma blusa também de chita e negra e completam a sua indumentária. Viúva há vinte e tal anos criou na carência de tudo, um bando de filhos. Em certos casos, e principalmente nos que apresentam feridas nos lábios, usa um tição em brasa que via passando a curta distância da boca do paciente em cruz, ao mesmo tempo que reza uma oração;


Bicho bichão, aranha aranhão, cobra ou cobrão, sapo ou sapão, bicho de qualquer nação, esturrado sejas tu como este carvão.


É remédio santo, dois ou três dias a ser tratado o doente fica curado.


Também trata o Arejo, a Espinhela Caída, o Tresurelho e até os males dos ventres femininos infecundos isto é, mulheres que apesar de esforços incontáveis, não alcançam a gravidez. Umas benzeduras e uns chás de ervitas e lá estão elas a parir em pouco tempo. Não se sebe se é pelo beneficio do tratamento ou se porque certamente, mudam de parceiro.


O sino da capela dobra a finados, a morte silicósica fez mais uma vítima. O Profeta caiu varado pela espada da sorte. Novo ainda, quarenta e poucos, jaz em leito pobre após dois anos de agonia. A razão a mesma, o pó maldito que se agarrara aos pulmões definitivamente e sufoca as criaturas. Lenta é a morte mas certa, tão certa como um tiro desferido à queima-roupa que deixa-se ferida a sangrar devagarinho. Morto é agora o corpo do Profeta, esguio, só pele e osso.


E a alma camarada? Essa perdeu-se no vácuo do firmamento onde decerto vagueia atónita à procura da luz. Que dela a nortada já levou a lembrança e, vazia é a casa que te viu nascer.


Anda comigo agora companheiro. Dá-me a tua mão a quem a terra já começou a comer a carne remindo a dádiva do teu corpo doente e morto. Vem ver o que te restou desta vida feita de inutilidades. Vamos juntos à Godinha, aos Estercos e ao Castelhão. Vamos percorrer os caminhos da nossa infância. Subiremos ao bairro de horizontes belos, onde a nossa vista comovida se espalhará no rio que foi toda a nossa esperança. Anda ver agora que te sobra o tempo, como linda, como airosa se fez a nossa aldeia. Anda comigo, vamos ver a horta que cultivavas, as roseiras que plantaste com amor e com carinho tudo sentimentos que diziam não haver no teu coração duro mas onde a candura da meninice nunca deixou de viver. Ninguém sente a dor que os outros têm companheiro. Os olhos dos outros cegam-se e deixam de ver, perante tamanha miséria.


Ninguém penetrou nunca no secreto da tua alma e viram somente a rudeza aparente do teu propósito, do teu jeito sem nunca pressentiem as tuas lágrimas nocturnas quando fugias dos desesperados gritos dos teus filhos com fome. Ali na horta as tuas lágrimas em bagadas grossas regavam a terra que havia de dar sustento.


Vamos a Pedorido de Paiva que de dorido tem tudo, até nas chagas negras abertas na terra até às infinitas profundezas. De Paiva Pedorido não tem nada, é mais Arda, mais Douro que a Vila sempre lhe virou as costas. De Paiva a única recordação é o tribunal e as finanças, qualquer uma delas para castigar. Envergonhada por ter consentido tanto martírio sem um protesto, se queda agora ao abandono e à prolongada meditação.


Descansa em paz companheiro, que eu lhes avivarei as memórias, escancararei as portas da ignorância assumida e contar-lhes-ei a verdade. Eu que partilhei contigo os dias de fome de desgraça e desespero fá-lo-ei legitimado pela circunstância da tua morte que foi escandalosamente óbvia. Dorme na campa rasa, numerada apenas, onde o teu nome nunca será escrito e onde as flores nunca alegrarão a tua noite eterna.










O dia vai avançando no areio de hortos local propicio à concentração dos barcos de pesca que alinhados na margem encostados uns aos outros, toscamente pintados à mão com temas religiosos, dormem a sesta forçada. Em cada um, do lado da proa, letras de cores berrantes apelam silenciosamente à benevolência dos santos. «Senhora da Piedade», «Deus me Guarde», «Coração de Jesus» e por ai além. Pescam o sável e a lampreia no areal comunitário que os pesqueiros, espécie de promontórios erguidos com xisto nas margens do rio, onde se pode armar as Cabaceiras e os Aranhôs são propriedade da classe superior que os dá à consignação aos pescadores mediante pagamento em espécime.


Só o Sarrano um remediado de Areja, entroncado e forte de baixa estatura, goza de imunidade diplomática e pode armar os Aláres nos galheiros. Poder não pode, no entanto admite-se que os guarda-rios não tenham uma visão muito apurada e, na sua generosidade, permitam a devassa da lei.


O Serrano é uma figura singular, conta-se que uma vez foi testemunha de uma desonra feminina no tribunal de Paiva. O juiz bem tentava sacar-lhe os factos no interrogatório, mas ele não abdicava dos seus metafóricos argumentos e, a resposta era sempre a mesma como lição estudada:


- Eu ia pela vereda acima, o serradouro estava montado, que serrava, serrava mas se o serrote estava metido na madeira é que eu não sei! Manteve esta versão por quatro vezes até que impotente o juiz o mandou em paz.


Hoje os lanços não são fartos e por isso a maior parte dos pescadores, repousam estendidos na areia da praia. Só o Manel Rouxinol insiste na arte com a ajuda dos filhos em lanços após lanços em tentativas sucessivas de contrariar a sorte. E pode acontecer uma importante captura de peixes bastando que em algum momento venha a passar um cardume movidos pela natural força de desovar mais acima. São infrutíferas as tentativas da pescaria, decididamente hoje não é dia de peixe, é mais dia de enterro. O sino em badaladas perdidas no espaço, convida os viventes a uma funesta procissão. O vento suão se encarrega de desanimar a arte fazendo cavadia no rio e os barcos ancorados batem uns nos outros com pancadinhas de amor.


- É suão Manel, nem pesca nem cão!


Tratasse do Peixoto um pescador de rosto enrugado e curtido pela brisa do rio que usa uma boina preta enfiada na cabeça quase a tapar-lhe os olhos e com o cigarro forte a morrer no canto da boca. Deitado na areia a deixava passar as horas vai recordando dias passados. Foi em Março do ano passado quando lançou a rede e apanhou trezentos e vinte sáveis e doze lampreias. Foi bonito de viver esse dia. Eram tantos, tantos a saltitar que estrumavam a praia toda. Nem pesados foram. Foi olho que se venderam à Baralda de Ente – os - Rios e ao Almeida de Escamarão. Gigos e gigos de peixe vendidos a eito pelo preço de vinte e cinco tostões por cabeça. Tinha peixes bons, alguns davam bem quatro e cinco quilos cada, mas o mais deles eram fêmeas e andavam à volta dos três e dos três quilos e meio.


O pescador deixa passar o olhar pela paisagem mas nada do que mexe em seu redor consegue enxergar. Absorto no saboroso pensamento, deixa desenhar-se-lhe no rosto um largo sorriso de satisfação. Neste local o douro faz uma curva prolongada. Muito embora hoje corra seco, tem épocas em que altera radicalmente o caudal. Um enorme caroço de areia e godos toma o leito todo em frente á Penela e só do lado da Lingueta, as águas ultrapassam o cerco correndo num vertiginoso galheiro apertado e baixo. Do lado de cá, na margem direita, corre junto à Arialva onde faz uma profunda queda. Mais acima e da outra banda encosta-se às terras de Fontainhas da Raiva e, desde Gondarém até aqui, é um estreito carreiro onde penosamente corre pouca água.


Em tempos de cheia, raro é o ano em que não acontece, este rio agiganta-se e enlouquece num turbilhão de detritos e espuma. De águas barrentas e gigantescos remoinhos amarelos, sai das margens, entra em casa do Vicente no Remoinho e, na Foz, toma de assalto a bigorna da oficina da Lisboa.


Em Melres, espraia-se gordo e largo e inesperadamente cobre a Ribeira. Em Montezelo galga os muros do Gama e enche de água a loja do Ferreiro. Corre pelo largo da feira e rápido, cancela o comércio na loja do Martins Alves. São dias de desespero os dias de cheia. O povo vigia o rio de noite e de dia e, as notícias correm vindas de Entre –os - Rios:


- Já anda na venda do Toninho Alves!


É o sinal de alerta máximo que constitui verdadeiro perigo. A partir daqui, perde-se o controlo ao rio e às coisas. Na enorme corrente que faz no meio, transporta lenhas, madeiras, abóboras, pipas, bois e outros gados afogados surpreendidos a montante. As águas revoltas tomam uma cor amarelo - doirada, barrenta que deixam montões de lama nas casas que o douro ocupa sem licença. Traiçoeiro é o rio gozando da liberdade absoluta a surpreender os homens, poucas ou nenhumas alternativas lhes deixa para salvarem os bens. No entanto, crê-se que não é por mal que o faz. Estrangulado à nascença por xistos, fraguedos e granito, quer, como forma de protesto assenhorar-se do leito que conquistou há milhares de anos.


Estas enchentes imprevistas trazem benefícios às terras. Aduba os campos das ribeiras e das várzeas com os sais minerais e outros fertilizantes orgânicos que transporta. Além disso, faz a limpeza dos aluviões e outros lixos depositados nas margens. Renova as areias transportando nas correntes, sempre mais e mais, Modifica o leito, altera a paisagem e permite aos peixes migradores, uma subida sem medos.


O Douro tem razões para tal comportamento. Razões óbvias que alguns teimam em ignorar. Um dia ficará malandro, engordará, entregar-se-á à preguiça própria dos ociosos, ficará desfigurado e transfigurado e nunca mais quebrará as correntes que o vão amarrar. Não voltará a será livre e nunca mais correrá desordenado como agora por entre montes e vales. Terminarão as delícias das gentes que o utilizam para veranear e até o sável e a lampreia não voltarão ao rio deixando de haver fartura nas mesas de todos. O mais certo é voltar a matar como sempre matou. Encher-se-á de raiva esporadicamente e arrastará na sua fúria louca, tudo o que se atravessar no seu caminho. Será o prazer momentâneo de alguns e o cemitério imprevisto de muitos. Assim se cumprirá a sua sina de vida e de morte, como ontem, como hoje e como sempre.


Da banda de lá do rio no areal de Pedorido, só o Violas lança teimosamente as redes. O barquito levava-as amontoadas na proa. Uma ponta da corda fica presa em terra e, à medida que o barco avança contra a corrente, movido pela força dos remos, vai largando a armadilha engatada à corda fazendo um cerco de mais de cem metros.


A boiar na água vêm-se as rodelas de cortiça furadas a meio enfiadas no cabo do debruado das redes. A cair borda fora e afundando-se, as patelas de xisto presas na outra corda pelo furo do meio, levam a outra parte da rede a roçar no fundo.


O Wilson usa na cabeça um chapéu de feltro que não permite vislumbrar-lhe as feições e transporta aos ombros uma molhada de redes.


- Boieiro! Boieiro, gritou em forma de gozo para os camaradas. Podia ser verdade, é normal ouvir-se este chamamento nas bordas do rio. São os Barqueiros dos Rabelos do Douro que regressam do Porto depois de lá terem deixado as pipas cheias de vinho, voltam agora carregado as vazias.


Neste local, um pouco acima da queda os barcos raspam com o sargo no fundo do rio e ficam paralisados. Então, soa aquele grito de socorro:


- Boieiro!


- A resposta vem rápida, acalentada na alma do Balaído e dos filhos, que de bois cabanos à soga, respondem ao desesperado apelo. Lança-se a sirga aos barcos e, os animais enterram as patas na areia puxando frenéticos à voz do Daniel que não lhes poupa incentivos:


- Ei cabano força! Ei amarelo para a frente. Com a vara aguilhoada na mão, vai espetando os bichos no lombo o que provocava uns arranques incertos nas cordas esticadas.


Duas horas de esforço e estão safos os barcos que fundeiam um pouco ao cimo do galheiro a fazer contas e a beber uma pinga.


O sol esconde-se em Branzelo. O suão amaina e as águas do douro tranquilizam-se tomando uma cor verde azulada, o horizonte ruboresce e tinge os olhos das águas de um vermelho vivo de sangue. Uma doce melancolia invade os homens e, finalmente a noite vai descer apaziguando a terra.






Cancelos é um lugarejo da freguesia de Sebolido todo debruçado sobre o rio de onde tira a maior parte do rendimento que constitui a sobrevivência do seu povo. Não há calçadas em Cancelos. As servidões do lugar são carreiros abertos ao acaso nos fraguedos da margem do Douro. Pedregosos e inclinados, obrigam estas gentes a sacrifícios enormes para chegarem ao Outeiro das Cortes o centro do lugar.


Ninguém se safa em Cancelos, no meio desta centena e meia de habitantes, não há um com dinheiro suficiente que possa por um cego a cantar. São mais pobres que Jó todos eles. Geme-se com fome todos os dias dentro das casas xistosas e as lousas das coberturas, já não conseguem encobrir semelhante miséria. Pelas frestas onde passa o vento, saem gemidos e choros de crianças com fome misturados com berros medonhos de esposas aflitas tentando escapar às pancadas dos maridos de cabeças toldadas pelo vinho e pela vida. Estas casas rústicas conservam entre paredes, imensas histórias tristes e tenebrosas. Tantos gritos suspensos que ainda não eclodiram no espaço. Alguns ficarão calados para sempre, sem notícia, sem conhecimento, como ferida que nunca cicatrizou. Se não fosse o rio! Sim se não fosse esta corrente liquida que teima em passar por aqui, já há muito se teria desertificado este sitio.


Em casa do Simão o primeiro fio de fumo sobe da lareira. Ergue-se na humidade do ar perfumada de rosmaninho, tímido e medroso para depois alarga-se no céu e dilui-se à distância.


Da horta vem um cheiro a estrume fumegante que retirado das cortes, aguarda em pilha a hora de lastrar os regos das batatas e dos feijões. Daqui vê-se Midões e Gondarém na outra banda do rio. As casas dalém, já todas fumegam e o povo sai cedo para a lida diária. Os mais deles vão para a Vista Alegre dar o dia ao Virgílio ou ao Manel, no corte das madeiras que hão - de suster as galerias da mina.


Sobem a encosta em carreira, levando ao ombro os machados e os serrotes arcados afiados de véspera. Viajam de noite e perdem o horizonte ao entrar no vale das Fontainhas onde o Anastácio já levantado carrega o barco de sacos de carvão vegetal para levar para o Porto


- Então ao trabalho? Cumprimenta o Anastácio. E logo o Sobradelo lhe responde em modo de informação que lhe não foi pedida.


- Andamos em Fontâo na sorte do Américo!


- Tem lá bons paus! Retorque o Anastácio morto por saber mais.


- É tudo de reserva e vão pró Torrão!


- É o que quer ouvir, virou-lhe as costas e continuou a carregar o barco.


O Simão madrugador sobe Junçadelo até ao Outeiro das cortes. Chinelo nos pés, o corpo de quarenta quilos a segurar-se todo numa vara de marmeleiro pendido para a frente, dão-lhe um aspecto rocambolesco. Uma boina preta cobre-lhe a nuca e, a cara enegrecida sustenta ao centro um nariz pencudo onde por baixo espetado, aparece um bigode farfalhudo e preto. Leva nas mãos, embrulhada em papel de jornal, a sua própria dor constituída pelas roupas da Ana que agoniza no Porto tolhida pela icterícia. Já foi talhada em Branzelo mas alastrou na mesma. Está no hospital de Santo António à espera da morte, mas nem ali pode estar; vem morrer a casa por mando do médico impotente perante a doença. Traz nos olhos amarelados a certidão de óbito já assinada e pronta, só faltando colocar-lhe a data da morte. Precisa de transfusão de sangue, mas o dela é raro e caro demais para a bolsa do Simão.


Sangue venoso, Ibérico, Celta, Celtibérico, Vândalo, Suevo, Alano, Muçulmano ou Moiro. Pedrês, como pedreses são os galos do Caga – na - Marca, Lusitano, bravo, sedento de distâncias, suave como as planícies Alentejanas, agreste como as serranias de Trás - os – Montes. Lusitano por definição, como definido é o que corre nas veias das cavalgaduras de Alter do Chão. Raro e difícil de arranjar.


Chora Simão no meu peito, pedaço de pedra igual às do muro de Jerusalém onde Cristo chorou na derradeira hora. Abafa-te no escasso calor que dele emana, brando e insuficiente para aquecer as minhas próprias mágoas. Partilho-o contigo companheiro e afago os teus cabelos com estas peregrinas mãos.


Anda comigo, vamos subir a serra da Boneca até ao marco geodésico que de geo tem pouco, é mais garrafa feito de barro e pedras, mas marco também, porque marca as coordenadas da terra. De um lado, para o norte, as de Valpedre e Penafiel fartas e ricas. Do outro lado as do sul, maninho, baldio ou terras de ninguém. Lá do alto e na linha do horizonte, avistaremos o casario enevoado do Porto e poderás ver o Douro sinuoso que vem de Espanha da serra do Urbião onde nasce esmagado pelos fraguedos e ali se alarga a rabiscar por entre as serras. Chorarás então e as tuas lágrimas hão-de parecer os Penedos da Sombra a rolar pela serra abaixo abrindo-lhe regueiras profundas até se afogarem no rio.


Chora que as tuas lágrimas serão pétalas de rosa que a nortada levará consigo através do espaço e do tempo que te falta viver. Espalhadas à solta no vento, permanecerão intactas a fazer-te lembrar todos os dias as cenas do passado, cicatrizes marcadas na tua vida que ninguém jamais conseguirá apagar. Chora por tanto sacrifício, tantas lágrimas vertidas nas vossas vidas comuns terem acabado assim aos quarenta anos sem nunca terem florido.


Chora tudo companheiro que a Ana de sangue podre e canceroso se finou já.






O sol vai a pino neste dia que promete trovoadas. Lá ao fundo um comboio passa na ponte Dona Maria e faz ranger os carris e os ferros entrelaçados que sustentam a passagem.


Do chão empedrado da rua do Freixo parece sair lume tal é a força do sol a crestar os paralelos.


O Rufino desce a rua a pé trazendo no braço presa pela asa, a cesta de vime que trouxera carregada de ovos. Tinha ido levá-los a vender à padaria Corneta, ali próximo da estação do comboio, em Campanhã. É quantos haja e já lhos pagam bem, dois tostões cada um, vinte e quatro tostões a dúzia. Ora a multiplicar por seis, dá catorze escudos com quatro tostões. É bem bom. Com a outra mão apalpa o bolso das calças onde meteu as moedas. Dobra a esquina da fábrica de fundição Mário Navega e avista o barco encostado ao cais. Mais á frente, vira-se para a foz e sente na cara a força da nortada. Um folgado sorriso inunda-lhe o rosto. Apressadamente caminha para o barco onde a tripulação descansam na ré ainda exaustos. Recuperam forças para em breve fazer a viagem de regresso pelo rio acima dobrando os galheiros e contornando os caroços do meio que fazem lembrar carecas a crestar ao sol.


A ordem veio seca do arrais.


- Alar companheiros!


De um salto todos se erguem-se para começar a faina. Soltam as amarras e a Verga sobe ao Capelo do mastro. Rangem as Drinças, as Troças e a Ostaga. O Estaio estica na proa. Os Vergueiros sustentam a vela enquanto o Ougue afina também. Os Braços fincam na ré e os Mancebos e as Relingas caem a prumo. Começa a navegação de regresso interrompida logo à frente no primeiro obstáculo em Ribeira de Abade. Três saltam para fora descalços, com as calças arregaçadas. O Pereira em ceroulas esforça-se ao máximo e o Rufino dá frenético à espadela.


É penoso vê-los nesta luta titânica quando mais parecem bois cavanos a espumar da boca puxando o arado que desventra a terra.


-Alar companheiros! Grita o Rufino. Está parado!


- O Malhado responde e anui esbaforido.


- Está encavernado, aqui é muito baixo!


- Afinca-te homem. Grita o arrais.


Bem se afincam eles e a nortada que sopra e enfola as velas desfraldadas, mas em vão. Pregado ao fundo o barco mal se mexe. Rangem desesperadas as madeiras e o mastro oscila perigosamente.


É difícil a subida pelo rio acima até á Varziela. Aqui, devido ao amuntuado de fragas no meio do rio, é o cabo dos trabalhos. O douro apresenta apenas um estreito atalho onde a pouca água corre a serpentear por entre um enorme caroço não dando calado ao barco. Os três homens no limite das forças dão o máximo. A grossa corda sucada nos ombros e nas mãos fere-lhes os ombros desnudados.


Subitamente o Joaquim Correia cai sufocado. As cordas e as Drinças amainam. A Espadela ergue-se da água e mostra a nu o Paíl, a Crista e o Coração.


O barco perde velocidade e ameaça inverter a subida. O arrais grita desesperado:


- Passa a laçada, sustenta! Amaina!


As cordas fazem vergar as árvores da margem onde foram passadas sustentando aquele peso bruto a lutar contra a corrente. Os barqueiros correm a pegar nos braços o companheiro abatido.


- É a sufeca! Diz o Pereira.


- Deitem-no nos taburnos,g grita o Rufino. Espera-se que acalme!


O sol é um braseiro no meio do céu e as pedras da margem queimam os pés. O Malhado dá de beber ao Joaquim com a Escudela, mas este parece não querer vir a si.


- Tem de ir a Melres ao médico e depressa! Sentencia o Rufino.


No silêncio da tarde estalou a ordem seca do comandante.


- Alar companheiros! Soltem as cordas!


Todos se entregam novamente à gigantesca tarefa de tentar mover o monstro, fazendo das tripas coração numa tremenda luta contra o tempo. A vida foge ao Correia e eles já se aperceberam disso.


Chegam finalmente a Melres e Malhado vai a correr à farmácia onde o doutor joga dominó com o farmacêutico


- Ó senhor doutor, é o Correia, está pronto!


- Está assim tão mal? Perguntou o médico.


- Já não dá sinais de vida, é vir depressa, antes que seja tarde!


O médico vem à beira-rio. O farmacêutico deixou a farmácia de portas abertas e seguiu também levando na mão uma pequena mala com primeiros socorros. Demoraram cerca de um quarto de hora e, quando chegaram ao barco já era demasiado tarde. O Joaquim Correia era um homem moribundo. O doutor ainda o auscultou, mas foi apenas para confirmar o irremediável pois , o barqueiro finou-se ali.


O sol encobre no céu. Um trovão medonho abala os montes e a chuva cai em bagadas grossas e dispersas.


A voz do médico faz-se ouvir autoritária.


- Arranjem um lençol e levem-no para casa, faz-se de conta que morreu lá, é melhor assim!


O Rufino ainda deixou escapar um princípio de palavra, talvez um protesto, mas é logo cortado pelo doutor


- Já te disse, levem-no para casa e enterrem-no! O meu colega passa a certidão depois!


É daqui que o mal provém. A indiferença da vocação (?) perante a desgraça alheia. Já de si a morte é a suprema perda, o bastante para despertar num cão certa piedade. Hoje ela ausentou-se da arte de tratar e do coração daquele que mais que ninguém, tinha e devia de mostrar compaixão. Mas só os quatro, o Malhado, o Rufino, o Pereira e o farmacêutico, à palavra morto reagiram; tiram as boinas e descobertos, com um joelho dobrado nos taburnos do barco, benzem-se e rezam um Padre-nosso.


Chora rio doirado que aquele que te curtia as margens com os pés nus, que te afeiçoava os galheiros, que te conhecia as secretas manhãs, que te bebias as suaves madrugadas, que te deliciava os poentes, teu adversário sim, mas nunca inimigo, se quedou morto na derradeira luta. Chora por entre amieiros verdes, onde rouxinóis cantam a última canção. Depois espraia-te no mar largo e diz às gaivotas que o marinheiro vencedor do rio partiu para sempre.






O laínho contempla o rio com espírito saudoso. Tantas lembranças o assaltam nesta clara madrugada. Ajeita a velha boina remendada e permite ao pensamento peregrinar pelo passado que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos descarnadas. Pensa em Deus, num ser de quem sempre ouviu falar e foi presença constante nas vidas de muitos mas não na dele. Magica na possibilidade de Ele existir na realidade. Quer uma justificação plausível e imediata para a emoção que o assaltou de repente quando julgava em bom rigor nunca vir a reflectir sobre tão remota personagem.


Nunca aprendeu a rezar, afastou-se da capela talvez cedo demais para poder entender a realidade da doutrina cristã apregoada ali todos os dias pelo velho padre Manuel. Agora, depois de ter percorrido uma vida de trabalhos e canseiras, pressentindo que o fim se aproxima repentinamente, sente tristeza por não ter essa esperança de fé plantada no peito.


O Laínho é um iletrado, não sabe ler nem escrever e por isso desconhece que não é absolutamente necessário um curriculum recheado de práticas litúrgicas para se alcançar as bem - aventurança após a morte. Nem tão-pouco lhe passa pela cabeça que o reino do Céu pode estar ao seu alcance. Sabe apenas que não rezou, que não assistiu a missas e isso é bastante para se sentir um condenado às terríveis penas do inferno. Se não sabe, basta-lhe perguntar ao padre que esse sim, mandatado para educar o rebanho na rigidez da sua fé, sem favor algum, o vai elucidar acerca dos tormentos a que Deus o vai sujeitar, logo que estique o pernil. No entanto, longe de se resignar a esse destino que apesar de tudo julga merecer, deambula pelas lindezas que a vida lhe deu, pelos momentos em que julgou ter estado muito pertinho desse Deus. Sentado nesta pedra centenária, recorda as cenas que podem amansar-lhe o coração e a alma.


Lembra-se de um dia que ficou para sempre gravado no seu coração e na memória das gentes da aldeia de Rio Mau.


Foi num domingo de Julho que nasceu cedo em traços de calor.


Batiam as nove horas dessa ridente manhã no sino da capela quando a banda musical ensaiava um breve concerto no coreto situado ali no meio do largo.


O padre João perfilava as criancinhas, à frente as raparigas, logo atrás os rapazes.


Elas, vestidas com longos vestidos brancos e grinaldas nos cabelos, faziam lembrar as noivas dos lindíssimos contos de fadas. Eles, trajando a rigor, impecáveis, pareciam príncipes de contos antigos.


O céu profundamente azul a agasalhar o rio douro, estava a ser testemunha deste belo cortejo. Momento único feito de ternura, de carinho e emoção em que a alma das gentes parecia estalar no marejado dos olhos.


Bateram as e dez horas quando a banda principiou o toque da pequena marcha. De vez enquanto um foguete estoirava no azul do céu e o seu eco entoava pelas encostas dos montes mergulhadas na doçura da manhã. O sino repicava em alegria festiva, era uma melodia com sabor a pureza, o toque por que são chamados os anjos.


Alice passava, era a segunda a contar da frente. Por momentos o Laínho quedou-se nos rostos de cada um dos pequeninos que alinhavam tão graciosa procissão. Viu azuis de felicidade em cada um daqueles olhares deslumbrados e a tranquilidade dos seres inocentes e puros. Porem Alice não sorria, o rosto dela tinha-se fechado sobre a terra e era num mundo muito distante que flutuava o seu frágil pensamento. O mineiro franziu a testa porque notou naqueles olhos lindos uma imensa e profunda ausência.


A procissão entrou na capela de S. João e o padre iniciou a cerimónia:


- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...


Pela manhã fora iria ser lindo estar ali.


Mas eis que chega o momento mais solene, aquele em que o sacerdote ergue solenemente a Sagrada hóstia para celebrar a eucaristia, o instante da ceia que antecedeu a Paixão de Cristo.


- Tomai e comei todos, este é o meu corpo...


Alice fitava sem cessar a imagem da Virgem Santíssima e, naquele rosto meigo de menina bailavam duas lágrimas que lhe rolavam docemente pelas faces e depois iam cair no seu gracioso vestidinho branco. De repente pelas portas grandes da capela abertas de par – em - par, irrompeu uma pomba branca que esvoaçou ao de leve sobre os presentes e depois foi poisar no ombro de Alice. Todos se entreolharam espantados...


- Uma pomba branca, uma pomba branca?!.


Padre João surpreendido, hesitou por alguns momentos, depois continuou...


- Tomai e bebei todos este é o meu sangue, derramado por vós e pela multidão dos homens para remissão dos pecados, fazei isto em memória de mim!


A pomba levantou ligeiro voo e foi poisar no ombro da imagem da Virgem Santíssima que do altar olhava para todos com a celestial bondade dos santos.


O mineiro repara em Alice e, nos seus olhos verdes da cor do rio, nota um brilho estranho, um brilho de imensa felicidade. Pareceu-lhe então que a mão de alguma divindade estava ali firme a segurar os fios do destino.


Logo que terminou a santa missa todos regressaram às suas casas onde os esperavam as bodas próprias de tão importante ocasião. A pomba mais uma vez levantou voo e saiu da capela enquanto Alice olhava o céu azul onde ela fazia acrobacias de sonho.


À tarde, pelas seis horas após brevíssima cerimónia, saiu a procissão que percorreu as ruas da terra. Quem subia nessa hora as íngremes escadas que conduzem à capela deparava com a pomba branca poisada à beira do sino.


Do alto dessa colina via-se o rio douro tranquilo, imponente e belo no seu verde azulado. A procissão desceu as escadas depois serpenteou em cânticos ao longo da estrada. No céu, a pomba voava e acompanhava o cortejo enquanto Alice não desprendia os olhos daquela aparição. Os sinos repicavam alegres, era o fim da festa, o fim da comunhão solene.


No adro da capelinha, Alice, com o seu lenço branco rendilhado, acenava à pomba branca que partia rumo ao por do sol.


Padre João aproximou-se e abraçou a criança enquanto perguntava:


- Tanta felicidade Alice,vejo-te tão contente?!


A menina, sem tirar os olhos do poente, respondeu:


- Senhor Padre, quando erguias a hóstia do Senhor, eu rezei muito e pedi à nossa Virgem Mãe:


- Minha querida Mãe do Céu, pede ao teu filho Jesus que deixe a minha mãezinha, que ele tem no seu reino, vir aqui nem que seja um só momento, ver como estou linda neste vestido branco da minha comunhão solene que é decerto igual ao que ela usa ai nesse lugar onde está. Vês Mãe Santíssima, estão aqui todos os pais e todas as mães dos meus companheiros e companheiras só a minha é que não!


- Viu Senhor padre aquela pomba branca!? Era a minha mãezinha que Jesus mandou do Céu para estar comigo neste dia. Sou tão feliz Senhor padre!


O sacerdote apertou a criança contra o peito, lágrimas gordas brilharam no rosto daquele homem. Ajoelhou ali mesmo, ergueu os olhos ao firmamento e disse.


- Obrigado Senhor!


O mineiro, levanta a boina e coça na cabeça. Um sorriso enigmático desenha-se-lhe nos olhos, decerto esta recordação acabou de provar-lhe que afinal sabe rezar que, quem sabe, na sua hora final em que nada nem ninguém poderão valer-lhe também haja uma pomba branca para ele, enviada de um céu pela infinita misericórdia daquele Deus que sempre ignorou.






O Maneta e o Marto após longa caminhada acabam de chegar à mina e são destacados para as primeiras camada na travessa oito situadas a trezentos metros de profundidade. Sitio difícil para perfurar a terra onde o calor é tão forte vindo do carvão incandescente que quase sufoca os homens. O ar carrega-se com nuvens de tufo só sendo possível escavar aqui no máximo duas horas seguidas. Uns carregam grossos toros de pinho que levam aos ombros para as frentes afim de escorar o entulho do tecto e das laterais das marcas, assemelhando-se a formigas no transporte de alimento para o formigueiro. Outros carregam à pá os carros de mão com carvão e despejam-nos num caleiro construído em madeira, que o guia até às vagonetas. Estas os elevadores levam cheias para cima e simultaneamente trazem as vazias para baixo. Neste medonho habitat, os mineiros deixam de ser homens e transforma-se em reclusos em trabalhos forçados de cuja única diferença visível destes é a ausência de corrente a amarrar os pés. Existem todavia outras que embora escondidas, são ainda mais fortes que aquelas e os prendem a um destino fatal. De vez em quando uma lasca de pedra afiada solta-se e corta-lhes as mãos que sangram e é com urina que desinfectam as feridas e depois o pó acumulado faz o resto do curativo. Mais uma cicatriz negra para o resto da vida, mais uma marca azul, a marca do diab


As horas avançam cruéis na profundeza do subsolo, numa azáfama constante os mineiros picam a terra e acartam o carvão de lado para lado. Com as mãos negras limpam o suor das testas e a humidade, transforma-os em figuras ridículas e apalhaçadas. Rangem as madeiras dos quadros que suportam os tetos das galerias. Uns serram grossos toros de pinho e vão escorando as laterais da marca. O tufo mal os deixa respirar denso que é, por momentos deixam de se ver uns aos outros principalmente quando o carvão se desprende do tecto e rola pela perigosamente pela galeria abaixo


Hoje o trabalho está a correr bem, tudo indica ser um dia melhor que tantos outros e é grande a produção do minério. A manter-se assim acabará por dar prémio permitindo aos mineiros receber mais alguns tostões no fim do mês.. De repente a terra cede, toneladas de pedras desabam sobre a camada e sobre os dois mineiros envolvendo o ambiente em ensurdecedor estrondo. Uma nuvem de tufo abarca completamente a cena.O o pó negro fica a pairar no ar fechando a vista do encarregado que ao ouvir o estouro correu apressado desde o poço mestre, com outros mineiros. As ténues luzes dos gasómetros não conseguem rasgar semelhantes escuridão. Na alma dos companheiros desenha-se já a tragédia até que finalmente a nuvem se dissipa. O espectáculo que se lhe depara é dantesco e aterrador. As pedras negras fizeram um monte enorme e no meio desta entulheira, sobressaía a mão do Maneta crispada a sair da terra num derradeiro apelo. Do Marto nem sinal, certamente ficou enterrado mais fundo mas o fio de sangue que corre vindo do meio do carvão deixa adivinhar o sucedido. O encarregado benze-se e começa a rezar o Pai-nosso. O tempo perdeu-se nesta hora, gastou-se por encantamento. Entretanto o Pestana chegou aflito e, ao deparar com este espectáculo horrível não conseguiu conter a revolta:


-Que crime é nós cometemos para sermos tão duramente castigados!? Diga-me senhor Mota, o que foi que eles fizeram para serem sepultados vivos? Ninguém faz isto a ninguém, não há direito! Somos tratados como bichos!? Nem Deus nos ajuda, até Ele tem vergonha da gente. Abandonou-nos a esta infeliz sorte e no entanto nós rezamos. Todos os dias desfia-mos o terço a louvá-lo! Diga-me, onde é que ele se meteu hoje!? Olhe para ali, aquilo é sangue, sangue de gente, sangue humano, igual ao seu e ao dos filhos da mãe que nos governam, mas o deles não corre vermelho pela terra preta, está protegido em Lisboa pela sua camarilha, a engrossar à custa do nosso esforço. O encarregado nem sequer falou, virou as costas e foi apressado a caminho do escritório. As lágrimas correram abundantes pelo rosto do mineiro e a comoção suspende-lhe a voz. Encostou os ombros às madeiras dos quadros e chorou como um menino enquanto erguia as mãos ao céu e pedia perdão a Deus entre soluços. Mais tarde ele e o Faísca traziam debaixo do braço dois lençóis brancos em que piedosamente embrulharam os corpos dos companheiros. Do Maneta foi-se o ódio acalentado no peito prestes a brotar. Do Marto, foi-se a ignorância das coisas que lhe tocavam de perto. Mortos, enterrados vivos, desenterrados pelos camaradas, recolheram à morgue semi-nus e negros.






O poente desenha em Melres perfumes e cores matizadas. Na Lomba já fumega a chaminé do Paixão. As outras não tardarão a seguir-lhe a freima. Cozinha-se já a esperada ceia.


O Caga – na - Marca sobe a encosta e lesto chega a Moreira. Larga a saca de ganga, o gasómetro e o capacete em cima da mesa da cozinha. Abre a porta de lousa do forno e tira um naco de broa. Pega na concha de alumínio, mete-a na vasilha de barro arrumada a um canto e ela aparece cheia de azeitonas curtidas.


Broa numa mão, azeitonas na outra seguiu em direcção ao quinteiro. Come devagar, está-lhe a custar a engolir estes bocados negros. Já decidiu, não irá a Rio Mau cobrir as porcas. Fica para outra vez, não faz diferença. Elas andam cinco dias saídas e, o seu bicho está sempre pronto.


Acabadas as azeitonas e a broa, esfrega as mãos nas penas sujas das calças. Abre o cancelo que dá para a horta situada nas traseiras da casa. Ali colhe um braçado de couves e vai à corte onde está deitado o Pintado e atira-as para a pia desalentado.


O Alberto chega a casa triste e esbaforido. No banco da lareira a mulher mexe o caldo que ferve numa panela de ferro de três pernas. Magra, esbatida e desolhada, até parece que foi desenterrada. Um raio passa-lhe no pensamento; vai à sala e, deitado na cama de ferro, embrulhado num cobertor, está um rapaz ai para três quilos com uns olhitos ainda cegos a reluzir no escuro. O seu primeiro impulso é pegar-lhe ao colo. Despertara nele aquele carinho que a rudeza da vida apagara há muito. Perdeu já a lembrança do dia em que pele última vez acariciara um filho, só ralha e bate, por tudo e por nada. Não por ódio, mas toldado pela inclemência da vida, que lhe faz perder a paciência, a tolerância para com os outros, tornou-se carrasco e vítima. Descarrega desta bruta maneira a dor que o consume. Mas esta criatura ali deitada, indefesa inocente a florir para a vida, comove-o e merece dele um gesto mais ousado.


Estanca de repente. A criança é demasiado frágil para ser pegada por mãos tão calosas e negras. Olha apenas emocionado. Volta novamente à cozinha e, no lavatório de lata, passa as mãos com sabão rosa. O negro não sai completamente e depois ficam visíveis aquelas marcas azuladas, cicatrizadas que parecem mal a qualquer um. Olha-se no espelho encaixilhado e pendurado de esguelha na parede e vê reflectida a sua imagem apalhaçada e preta que o faz tremer de medo e de vergonha. Vira-se então para a mulher e diz, em modo de compensação;


- Sábado, vamos à feira a Melres.


Nesta frase, simples e sozinha estão implícitos, embora disfarçados, a ternura e as carícias que morreram no dia seguinte em que vestida de noiva a levara à capela de S. João. E o amor!? Esse nunca existiu ali. Houvera na verdade, mas não por esta mulher que carregou no ventre estes filhos todos. Por outra, de quem a última carta desbotada de letras, acendera a lareira alguns anos atrás. Morrera a ilusão definitivamente. Num gesto já sem esperança, queimara o último capítulo desse idílico romance.


Tudo acontecera à quinze anos em plena juventude quando seu coração dava largas a uma paixão desenfreada e quase louca.


Foi na Senhora das Amoras que conhecera aquela que havia de se tornar no grande e único amor da sua vida.


Era de Guirela a mocetona alta e bonita de cabelos soltos a caírem pelos ombros abaixo em cascata, com um sorriso desenhado no rosto que encantava qualquer um. Mas foi ele a ser de todos aquele a sucumbir á beleza infinita da Cristina.


Correu para lá meses a fio. Atravessava o rio nas tardes de domingo e enfiava a pé pelo monte fora até à terra da noiva. Como risonha e feliz foi essa época. Movido primeiro pela desmedida paixão, deixou-se prender todo nas garras de um amor que havia de ser eterno. Eterno! Como se alguma coisa deste mundo enganador permanecesse e vingasse aos ventos maléficos e cruéis desta vida. Assim como nascera apagou-se a chama daquela ilusão. Os pais da Cristina, abastados lavradores com criados e tudo, não podiam aceitar e, não aceitaram, a ligação da filha ao mineiro. Lembrança terrível esta! E as palavras do Sr. Arnaldo!


-Ò homem, você tem lá sustento para dar à minha filha. Ela está habituada a fartura e a vida mimosa. Vai lá agora ser criada de alguém, lavar roupa preta todos os dias e você nem para sabão ganha. A mina não é vida para ninguém, é um cemitério, trabalho de pobres e analfabetos!


- Mas!..


- Não há mas, nem meio mas, as coisas são como são e de mais a mais tenho coisa melhor em vista para a minha filha. Agradecia que desandasse daqui, ela vai para Cabeçais para uma casa farta já está tudo tratado!


Foram estas palavras ditas secas que o encheram de vergonha e de raiva. O último adeus ao seu amor, foi feito ali do caminho virado para a janela num acenar de mãos trémulas. Tudo se perdera naquele instante, desabou o teto do mundo e esmagou-lhe o coração. Moeu aquilo pelo caminho de regresso a casa. Vergado ao sofrimento maior do ser humano, arrastou consigo um tormento indizivel e uma alma pura dilacerada e quase morta. Como dói ainda essa lembrança. Remexeu nas cinzas do passado e encontrou ainda um brando lume teimoso em se extinguir, talvez aquele que a última carta acendera. O que vale a vida perante esse momento de elevação suprema, reprimida e deixada desde então ao sabor do acaso!? Nada, apenas o mesmo que vale a existência de um cão vadio que conhecera o dono e fora abandonado por ele. Pobre Alberto, sabe-se lá qual foi a dimensão do teu crime primeiro, que te sujeitou a tamanho castigo. Inocente de alma, desconhecedor dos progressos do mundo, desconhecias quão efémeras são as paixões da juventude. Mal desabrocham, indefesas perante as muitas contrariedades, logo murcham como belas e delicadas rosas.


Como apareceu também se abafou o sentimento repentino. Fechou-se novamente a porta do sacrário da sua alma. Quis voar por instantes, mostrar num afeiçoado gesto de carinho e de ternura, sentimentos que reprimia no peito há muitos anos e que por breves instantes ultrapassaram sem ele querer, as barreiras da mudez assumida. Sente ainda uma necessidade imperiosa de recordar. Falta-lhe a última lembrança desse amor, a tragédia que lhe ensombra a vida desde então e que ainda lhe dói e muito na carne.


Nesse dia a Cristina ouvira tudo em silêncio. Do pai já esperava aquilo, da vida muita e muita felicidade. Ruiu naquele instante todo o projecto de futuro. Enlutou-se-lhe o coração. De alma já prometida ao mineiro, nunca haveria de trair aquele amor fatal.


Foi um Domingo pela madrugada enquanto o povoado ainda dormia. Foi à arca da mãe e, do enxoval guardado ali desde o casamento, tirou o vestido de noiva antigo e branco e vestiu-se com ele. Na cabeça colocou uma grinalda de flores, malmequeres presos a um pequeno véu e, assim preparada saiu de casa. Percorreu descalça os caminhos da terra, aqueles que lhe traziam maior recordação. Depois foi sentar-se na pedra da mó, local onde aos domingos trocava juras de amor com o Alberto. O dia nasceu por entre as badaladas do sino a convidar para a missa, ao mesmo tempo, a Cristina, lançava-se em voo do penedo da águia. Toda a aldeia a procurou aflita e, pelo meio-dia o povo viu ao fundo da ravina o corpo despedaçado da jovem rapariga. Ao vento balouçava a fita dos cabelos, o vestido branco perdera a alvura e transformara-se numa mancha escarlate.


A aldeia chorou como nunca o fizera por ninguém e, há quem diga que naquele local onde nasceu uma roseira brava, quando a brisa sopra mais intensa se ouvem sons que parecem gemidos de uma mulher. Uns dizem que é o rio Arda a bater nas pedras, outros que é o vento nos fraguedos e, muitos outros dizem serem suspiros da noiva infeliz. Ao certo ninguém sabe, mas a verdade é que se chora naquele local ainda hoje.


A dura realidade sobrepõe-se ao bater do coração. Enfia a boina na cabeça. Pára na soleira de lousa da porta. Puxa do bolso o atado dos cigarros fortes, acende um com as mãos negras e vacilantes. Grossas nuvens de fumo envolvem-lhe a cara ocultando duas lágrimas que rolam desesperadas pelas faces negras de carvão abrindo dois regos paralelos.


Foi preciso muito para o mineiro chorar, nem a rudeza e as inclemências da funesta existência, a perda do seu grande amor o conseguiram, mas a visão destes olhitos frágeis e sem futuro à procurar de luz, humedece e rega os seus olhos verdes.






O Milheira vai apanhar o caminho da Póvoa à beira da carpintaria. O Jolim enroscado na berma abana o rabo alegremente a olhar o mineiro com os olhos tristes.


- Anda Jolim, anda pequenino! Nada, o bicho olha para baixo e não arreda pé.


- Anda Jolim! Não vale a pena, o animal cumpre à risca o mandato do Marto e só avançará à voz do dono. Enroscou-se novamente e meteu o focinho no meio das patas da frente e ficou à espera.


O Milheira vai já a desaparecer na primeira curva e mais uma vez se volta para trás insistindo.


- Anda Jolim! O eco da sua voz perde-se por entre o barulho medonho da lavaria sem cumprir os objectivos pretendidos. Continua a marcha vergado ao peso da notícia que transporta.


- O Marto morreu.


Na ponte do Ínha volta-se e olha para trás, parece-lhe ouvir os passos do companheiro nas tábuas rangentes da ponte. Puro engano, é o vento a agitar com força os salgueiros da margem. Começa a subir o monte e a pensar, sempre a pensar. Como é que iria enfrentar a Chica, a Rosalina e o bando de filhos do amigo, sentados à espera na parede do grilo!?


Angustiado segue lento, tão lento contrastando com as apressadas batidas do seu coração inquieto, atónito e desorientado. Não será preciso que o Milheira fale. A notícia não vai no seu coração, esse leva a dor e o sofrimento. A notícia vai nos seus olhos espantados, escrita com lágrima, e é clara como clara fora a madrugada que os trouxera a Germunde. Não faz diferença que não fale, que a voz se lhe embargue na garganta, presa e comovida, bastará um olhar silencioso e todos compreenderão. Morreu o Marto súbita e precocemente, ignorante das coisas que o rodeavam, das angústias da Chica e das negruras das noites da Rosalina. Morreu sem saber que a sua morte decidirá a vida do neto que não iria conhecer nunca.


O cão esperou pela noite fora, deitado, enroscado no pó negro, sem comer nem beber por dias a fio. De vez em quando dava uma volta por ali, mas a força do seu instinto dizia-lhe que não podia avançar mais. Impaciente girava de um lado para o outro sempre à espera do Marto. Desanimado, voltava ao sono que haveria de ser eterno. O Lesmia passou por lá como de costume e sorrateiramente aproximou-se no propósito de lhe espetar dois pontapés mas, ao constatar a morte do animal, estacou de repente. Ninguém bate num cão morto. Um sorriso cínico atravessou-lhe o rosto. Virou as costas e subiu feliz e certo de que a partir de agora só ele era fiel ao patrão.


Pela manhã o Milheira piedosamente, com a mesma pá que enchia o carvão, cobriu o seu corpo morto com entulho.


Findou assim a fidelidade ao dono. Nove anos de dedicação total pedindo em troca restos de broa e algumas carícias. Deixou de saltar alegre à frente do mineiro e, de Barca de Alva e das perdizes, já nem recordação guardava. Cumpriu até ao fim a sua missão. Morreu no seu posto como um soldado, firme sem arredar pé, à espera do Marto, indiferente a tudo, até à própria morte.






Na margem esquerda, os que vão para norte, param nas Concas no tasco do Alfredo onde a Silvina, frita sardinhas e peixes do rio.


Os mineiros tiram os restos de broa das sacas de ganga e molham o bico com vinho palhete produzido e engarrafado na rua Justino Teixeira no Porto.


O Rã também parou no tasco das Concas. Encostou-se ao balcão, atirou o capacete para o alto da cabeça e pediu um quartilho maduro branco.


- Não vai uma bucha!?


Perguntou o Alfredo com o prato das sardinhas na mão. São gordas e são boas, parecem bifes!


Palavra que tu disseste.


- Ó senhor Alfredo, se o senhor é meu amigo nunca mais me fale em bifes.


O Alfredo fica pasmado.


- Homessa! O que é que lhe deu agora? Vá lá a gente entender esta malta!


Malta sim, este por acaso não era desses, mas são os companheiros que vivem no Choupelo na casa da malta. Boas rolhas, sempre a deitarem pó de carboneto e a mijar no castanheiro que acabou por secar. Falam para um homem como se tivessem o rei na barriga...


- Parece que vem mal disposto, voltou o Alfredo.


- Ó homem bote mais meio e deixe-me em paz, se elas são assim tão boas coma-as você, que lhe façam bom proveito!


O Alfredo tem razão. As sardinhas são de facto boas e gordas. Deitam um cheirinho a fervilhar no tacho que apetece comê-las todas. Porem, o Rã não as quer por razões que escapam ao taberneiro. Bem sabe ele que são um petisco, mas na sua garganta não passam sólidos, só líquidos e de preferência com muito álcool, afim de lhe tolher o cérebro rapidamente. Embebedar-se e pronto, lá se diluiriam as recordações pelo menos até amanhã.


Amargurado bebe quartilho, atrás de quartilho. Por entre as goladas do vinho relâmpagos de lucidez cortam-lhe o pensamento a ficar toldado. Um sorriso besta aflora-lhe à cara e, a seguir soluça em pranto inconsciente. Tomba de lado em cima dos sacos da farinha, levanta-se a custo e faz gesto sem significado que morrem sem razão de ser. A voz torna-se-lhe rouca e imperceptível, é mais um roncar do que outra coisa. Os olhos minguam e adquirem um tom avermelhado escondidos na máscara de pó negro. Parece um palhaço, um espantalho caído no lameiro derrubado por violenta tempestade. Apanha restos de conversas que pairam no ar e tenta dizer qualquer coisa, mas a voz já se lhe morreu na garganta. A expressão do rosto é ridícula e grotesca. Já não é um homem, um mineiro, não é nada.


Finalmente o maduro abateu-o e caiu varado no chão de cimento.


Pela noite, o Alfredo num gesto amigo, pega-lhe num braço e arrasta-o para a palha do armazém em frente onde ficou num roncadoiro infernal, mais morto que vivo a curtir a monumental bebedeira e o remorso que permanentemente lhe vai consumindo a alma.






O Isidro Sardão atravessou o rio e meteu ao cimo por caminhos tortuosos que diversificados atravessam a serra da Boneca de e lés a lés e se perdem nas distancias de Cabroelo e de Valpedre.


No alto, mesmo no ponto onde o terreno se torna mais plano e é escassa a vegetação florestal e os montes são limpos e só atapetados de chamiça, quiró e carqueja, parou a contemplar o horizonte vermelho alcançável como se ali procurasse algo que perdera há muito tempo mas que permanece na mente a perturbá-lo de forma constante e a faze-lo estancar como um soldado à voz do comando, sempre que por aqui passa. Vislumbrou lá ao fundo do extensíssimo vale mergulhado num maravilhoso entardecer, o rio Douro a desaparecer nos labirintos de Melres imponente como um rei a marcar a solidez do seu domínio absoluto.


Recomeçou a marcha interrompida, passou por baixo da capela solitária de S. Pedro e continuou a caminhar até ao Loureiro e ali na encruzilhada, pensou em seguir em frente até à Fonte que Ferve mas, sem saber bem porquê, virou à esquerda direito a Vilarinho do Monte lugar que mergulhado nas últimas tarefas do dia, nem deu pela sua chegada.


Em Moreira de Melres onde há três horas atravessou o rio vindo de Germunde, bem podia ter encurtado caminho seguindo a Sobrido e ali virar na direcção de Aguiar de Sousa e caminhar até Alvre onde atravessaria a frágil ponte sobre o Rio Sousa e correria na direcção de Santa Comba e dali seria um pulo até Lagares, mais precisamente até S. Julião sua terra de origem onde o esperavam já a mulher e os dois filhos. Porém, as manhas da sua engrenagem corporal morada de todas interdições e de todas as liberdades, são muitas e têm de ser saciadas mesmo que para isso tenha de alterar completamente a aconselhável trajectória da vida; ele bem sabia que economizaria caminho e dificuldades mas é sempre difícil resistir aos apelos do cio que o têm transformado num autêntico cão rafeiro atrás de cadela à queira.


O Isidro anda apaixonado há muitos anos e, essa paixão que transformou em ampliação quase cega do amor, fê-lo perder a individualidade, esquecer as obrigações e os deveres e ceder sem pensar ao fascínio que uma mulher exerce sobre ele.


Há fortes motivos para seguir este itinerário custoso que provoca sucessivos arranques de esforço a trepar a serra desgastando o buxo e as pernas que vacilam e parecem desfalecer nas costeiras mais íngremes. Os seres apaixonados imitem ondas ultra sónicas que se espalham pelos ares subindo serras, descendo aos vales mais profundos como as radiofónicas da Emissora Nacional e são recebidas lá longe no receptor sintonizado na mesma frequência. A razão tem razões que a própria razão desconhece, assim, movido por um sentimento que não consegue controlar, deixa-se envolver no enredo do que julga ser amor num rosário de anos perdidos num namoro que sabe de antemão, nunca virá a ter futuro. No entanto mantêm acesa a labareda da esperança que lhe causa dor e sofrimento misturados com muitas arrelias mas constitui também a razão única para se manter vivo, esmourando no degredo do Pejão como uma toupeira, transformado num farrapo humano sempre pintado de negro a cavar carvão nas profundidades da terra.


Pouco ou nada lhe resta de consolo e apenas se lhe mantêm viva a doentia esperança dos loucos que nunca se convencem que o futuro para eles é só uma miragem e que nada nem ninguém os poderão salvar das maldosas combinações deste mundo. O Isidro não está sozinho nesta via – sacra, são tantos a padecer destes indesejáveis tormentos pelas mais diversas razões, que chega a parecer impossível o mundo acertar o compasso dos dias sem qualquer alteração. Decerto o planeta inteiro não sabe nem quer saber das angústias dos seus habitantes. Todos os dias o sol nasce desinteressado de tudo o que ilumina e mexe cá em baixo como a dizer aos seres vivos que lhe é completamente indiferente as formas que adoptaram para sobreviver.


É pois uma questão de equidade e justiça duas coisas que por acarretarem deveres, poucos ou nenhuns conhecem. Nasce-se já desgraçado nestas miseráveis terras; o dulcíssimo pão – de – ló se é que por ventura existiu aqui, já há muito foi abarbatado pelos espertalhões perpétuos que vão passando o testemunho da rapinice de geração em geração e, só mato, carquejas, tojos e chamiças sobraram para o resto do povo comer.


À entrada de Cabroelo onde se avista a capela do santo padroeiro estacou de repente. Num campo que dá margem ao caminho, a Maria Rosa cegava erva de cócoras, mostrando um pouco da brancura das coxas. Dava-lhe certo jeito aquele propósito; arregaçava a saia para trabalhar mais à vontade e demais a mais não passava por ali ninguém àquelas horas e mesmo a outras com o dia bem alto, nem uma alma penada cruzaria estes caminhos ermos.


O mineiro ajeitou-se para a junto da parede, colocou uma perna em cima das pedras de xisto e botou faladura:


-Então a lidar a esta hora Rosa!?


-Tem de ser, os bois também são gente, ninguém os cala com fome! Respondeu ela suspirando à óbvia interpelação do Isidro.


Fome, e talvez sede da juventude do corpo a denúnciar calor em cada palavra que a sua boca quente pronunciava. A voz tremeu-lhe e a mão que empunhava a alfaia da cega.


- Ò Gracinha parece tão cansada, não quer vossemecê vir descansar um bocado aqui na borda do campo? Perguntou o mineiro.


Já ardia uma espécie de lume por todo o corpo do Isidro. Aquele ardor aparecia sempre a perturbá-lo quando via a cachopa como se todo o organismo reclamasse a dádiva dum beijo que amenizasse o lume aceso que o andava a assar por dentro há muitos anos e só em raros momentos como este tinha manifesta e necessária acalmia.


Não fora a teimosia dos pais da rapariga em permitir o enlace e teriam selado as suas vidas ali à frente na capela de S. Mateus. Porém a sorte ditou outra coisa, outro rumo que o fez definir diferentes estratégias mas que nunca conseguiram varrer por completo esta paixão.


Ela caminhou ao encontro dele, podera, o que é bom ou é pecado ou engorda e assim sendo vale sempre a pena arriscar. Corada de foucinha na mão esquerda e com a outra a limpar a testa suada, como quem se vai submeter a um castigo que apesar de tudo sabe ser consolo e redenção, era então um anjo a subir ao céu dos seus desejos. No brilho de uns olhos profundamente azuis, trazia a mensagem que todo o seu corpo também ansioso andava a redigir em espasmos nocturnos sem que ninguém conhecesse o bálsamo capaz de aliviar aquele corpo minado por tão intensos anseios. Foram uns minutos de colossal paixão em que as bocas se colaram num delírio inflamado em ao mesmo tempo as mãos do Isidro procuravam aflitas os secretos e sensuais recantos do corpo daquela mulher ainda formosa que tinha sido a sua primeira paixão, enquanto a marmita se lhe desprendia da cinta e rolava aos saltos pela borda do lameiro e ia cair como morta no rego que leva a água para a Bouça.


Foi um relâmpago, qualquer coisa violenta que nem um nem outro poderão nunca explicar. Realidades adúlteras que sucedem assim de repente sem cálculo, sem premeditação como erupção vulcânica, ou apelo dramático da terra que quer fazer justiçam redigindo a direito as escritas que os humanos complicam, ou sabe-se lá o quê.


Tudo acabou num instante; os dois já de pé, pareciam ignorar completamente o ocorrido de quem só a natureza inteira foi testemunha silenciosa.


- Então até amanhã. Disse o Isidro enquanto abotoava a portinhola das calças. -Vá com Deus homem! Respondeu a Rosa a quem a cor dos olhos se tinha tornado mais clara e mais brilhante, ajeitando a engelhada saia de roda.


-Diga ao seu paizinho que lhe fico com o toiro. Disse o Isidro pendurando à cinta a marmita do caldo.


Reiniciou a marcha interrompida, meteu na direcção do Outeiro da Velha, desceu a Lenteiros e subiu a Bouça, ao cimo da costeira a sua magra figura, desenhou-se no horizonte vermelho, indecifrável.


Os melros chilreavam aflitos à procura de guarida enquanto a Maria Rosa, muito de vagar acamava e enchia o gingo com paveias de erva, ciente de que os bois já não tinham fome.






- Tira-lhe os olhos. Chega-lhe a roupa ao pelo. Parte esse estupor, essa besta de merda. Dá-lhe com a caneca!..


É o Bicha-cadela para o Concertina. Incita à luta movido por ódios antigos que nem sempre foi incapaz de concretizar transformando-os em pancada. Hoje por obra do acaso, dispõe do meio para atingir os malvados fins. Pegas antigas, guardadas dentro do peito tempos indeterminados, contidas por necessidade e pela incapacidade da força do corpo que já se esgotou no trabalho dos barcos Rabões. Reformado e velho, arrasta ainda aquele corpo torcido, alquebrado e doente, morada do reumatismo mas albergue de queixas e ódios sem limites.


No tédio dos dias, ele e muitos outros, vêm para a venda do Cunha transformar o sitio numa espécie de lar da terceira idade. Uns afogam as horas em canecas de verde tinto, outros dissertam pintando o tempo ora de cores sinistras, ora de formosura inigualável.


Histórias intermináveis são contadas e saboreadas pelos dias fora. Começadas parecem formar sentido até que lhes perdem o fio e engatam noutras sem pés nem cabeça. Qualquer presente desconhecedor do fenómeno, às páginas tantas, fica sem saber de que terra é. Confusos, estranhos e malabaristas são eles e as conversas. Desarranjados da mente pelo diário e avantajado consumo de álcool, falam, falam sem dizer coisa com coisa. Muitas vezes se desentendem no comungar do mesmo pão da demência efémera. Então, como gatos no mesmo saco, enraivecem-se e dos instintos sai a ferver o ódio dissimulado e disfarçado a custo. Tudo é pouco claro nesses momentos de fúria. O beijo colectivo na caneca de asa dá lugar ao nojo destas bocas porcas. E lá vêm as pragas infernais, injúrias despropositadas, ofensas diversas a todos e a tudo.


- Á seu filho da p!...Hoje é que vais morrer cabrão! A tua mulher a dá-lo no areio, e tu aqui armado em cão com pulgas!. Tens comichões!? Eu tiro-tas meu bandalho! Racho-te os cornos a meio e faço-te em pantanas num instante!


No decorrer da contenda sai tudo e de tudo. As ofensas são o menos, repetidas que são dia sim dia não, já há muito perderam o real significado. Pior é a ousadia do desafio à porrada. Está tudo muito bem, mas isso não tem, nem fica sem perdão. Activa-se a pancadaria nas costas, murros na cara que põem os olhos de quem acertam avermelhados em volta e mais tarde pisados e negros. De vez em quando se a luta teima em persistir, suge a tranca de ferro empunhada pelo Cunha a restabelecer a paz. E restabelece.


- Ó Pinto, esteja ai quieto nesse canto, você não é para aqui chamado, ouviu!?


É o Afonso, o regedor advertindo o Pinto que procura a pistola que traz à cinta que de velha e ferrugenta, já não dá tiros nem assusta ninguém.


- Vai já fogo! Mato dois ou três num instante! São todos meus inimigos!...


- Esteja mas é calado homem! Se você em vez dessa merda trouxesse ai à cinta um ou dois salpicões, não lhe faltavam amigos, ora assim!?


Uns minutos de silêncio sucedem-se à bulha, mas soçobram logo na voz do Muge:


- Ó Sr. Cunha, bote aqui mais um. É a senha, o anjo mensageiro da tranquilidade. A caneca de asa de folheta circula novamente no recolher dos beijos tintos de todos eles.


As mulheres acocoradas ao longo das escada do Cipriano, vão-se afligindo durante as bulhas e, molhando o bico de vez em quando às escondidas dos homens. A noite restabelece a paz. E os galos cantam em diferentes lados. Os fumos das lareiras, convidam às ceias antecipadas da reza do terço. A partir daqui, entregam-se à Providência Divina de alma e coração.






O Pestana não parou no tasco. Seguiu a direito pela linha da máquina na borda do rio Arda até ao lugar da Estação continuou até Oliveira do Arda. Leva no cansaço das pernas uma outra carga de mágoa e amargura. De vez em quando passa o lenço tabaqueiro na testa a enxugar as grossas gotas de suor que lhe escorrem para os olhos e o impedem de ver claramente. Estacou por instantes na íngreme subida e, os seus olhos molhados, perscrutam o horizonte inquieto. Tudo é difícil de entender para o Pestana, por mais que dê voltas à cabeça, nunca conseguirá explicação ou consolo para o tormento da angústia que lhe inunda o peito. Tudo se passou de repente como se por magia, como se na verdade tivesse sido apenas um sonho. As repetidas paragens do caminho não são mais que tentativas de encontrar a realidade que lhe foge há umas horas. Olha o horizonte como se procurasse as silhuetas ou os passos dos companheiros perdidos. Tudo em vão, que ao fundo do vale só corre o rio Arda silencioso e, no céu apenas algumas nuvens matizam um azul permanente. Está de facto sozinho, fora então verdade a tragédia que teimava em admitir. Se nada o consegue retirar do sonho, basta-lhe dar ouvidos às badaladas do sino de Pedorido. Esse diz tudo claramente, não se sabe quem, mas fica-se a saber que morreu gente.


Avança de novo na costeira e ao suor da testa juntam-se-lhe umas poucas de lágrimas que rebeldes lhe saltam dos olhos encovados. Já vai a passar em frente ao hospital quando lhe parece ouvir um recado trazido no som da ligeira brisa:


- Pára camarada. Entra na morgue onde jazem em pedra fria os teus irmãos. Ordena-lhes em nome do Deus que lhes estendeu os braços da libertação, que se levantem do leito da morte. Pede-lhes as mãos lívidas agora. Diz-lhes que não receiem, que venham, que não se envergonhem da condição de mortos, que morto também foi Cristo e ressuscitou. Tira-os dali antes que os médicos lhes cortem a carne e lhes serrem os ossos à procura das causas da morte que foi óbvia. Não os deixes escrever na folha, morte natural por que isso é mentira, tu sabes que é mentira.


Leva-os contigo e sobe com eles de mãos dadas ao alto de S. Domingos. Mostra-lhes a paisagem que ignoraram em vida, o arda a beijar o douro, as terras do Porto e de Gaia onde se vive melhor prostradas à vossa frente. Escutai a Banda dos Mineiros do Pejão formada pelos vossos camaradas, a entoar no coreto uma marcha triunfal. Senti o arraial pejado de gente que pelas fraldas da serra se delicia com farnéis trazidos de longe.


A seguir a Banda vai tocar o 1812 a magnifica e longa sinfonia musical de Tchaikovsky, com rigor com perfeição como só ela é capaz. Nenhum de nós há-de lá estar para ouvir. Tu Pestana, de um salto estarás em casa, em Serradelo que é já ali; eles abraçados subirão ao céu que é perto, por detrás daquelas nuvens que vêm dos lados da Serra da Freita; eu descerei os carreiros da serra que me vão perguntar pelo Maneta, num pulo estarei na Senhora das Amoras; chegarei ao Choupal a Pedorido; atravessarei o douro até ao cais do Remoinho; subirei a calçada íngreme e vou sentir nas ruas de Rio Mau o cheiro das sardinhas assadas; ouvirei rezar o terço dentro de todas as casas, a oração dos pobres, o apelo àqueles que julgam ser os únicos a poder salvá-los. Deixarei a noite fechar-se sobre mim, sobre a terra que me viu nascer. Deixarei os corpos dos mineiros, esgotados, doentes de alma infinitamente sofredores, tombarem nas enxergas das camas de ferro coroa – de - rei de enxergas de palha, descansarem enfim, adormecerem e sonharem com uma risonha Primavera que traga consigo um futuro melhor.



terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Saudades

Os seus olhos cansados voltaram a engolir ávidos o retrato verdadeiro da terra onde nasceu. Como num filme antigo, as imagens passavam rápidas sobre os anos e sobre as suas lembranças. A vista tolda-se-lhe por água que não é da chuva nem do rio mas humidade que nasce de mais fundo, das entranhas que choram a dor imensa das saudades transformadas no perfume da solidão, no pesadelo dos dias, no cansaço das noites, na insónia que perturba e abala quem as sente.
Passaram cinquenta anos desde a última vez que aqui veio ainda à procura dos restos da sua meninice lancetada, cortada a meio por um rio que adorava e que tinha sido o seu embalo. A vida levou-o, a ele e aos pais e irmãos, afastou-o do sítio onde pela primeira vez viu as claras madrugadas, as chamas dos dias e colocou-o do outro lado do Douro a escassos metros de distancia mas demasiado longe para poder sentir o pulsar daquela aldeia de pescadores e mineiros, branca e pobre que tem colinas nas fraldas da serra da Boneca e água a cercá-la quase por todos os lados. É perto dizia-lhe o pai! É daquele lado, é como se estivesses aqui! Quando quiseres, vens de barco, ver os teus amigos, a rapaziada, nem saudades vais ter! Mentira, as mágoas vieram certas com a ausência, doeram na alma de tal maneira que julgou ir morrer de coração partido. Era à noitinha, na abençoada hora do crepúsculo quando os corpos exaustos de quem arduamente trabalha para angariar o sustento, encontram finalmente a paz, que debruçado sobre o douro, olhava o povoado sentindo a calmaria a descer sobre a terra como manto divino e protector. Nessa hora mágica, deixava correr dos olhos algumas lágrimas furtivas e, preso só pela violência da separação, jurava ali mesmo nunca mais se esquecer dela.
Mais tarde à procura de melhor vida, abandonou também esta terra adoptiva e fixou-se para os lados de Ovar onde a pulsava um maior desenvolvimento capaz de lhe proporcionar um outro modo de vida.
O tempo foi apagando essa dor com visões diferentes, de mundos desiguais, de novas pessoas, amigos e colegas. Mudaram-se os hábitos, os costumes, as rotinas, alterou-se tudo no rodopiar dos anos e, preso em outras novas ilusões, o coração sarou. Agora chegava para reviver o passado. Enterneceu-se ao olhar Pedorido a sua terra adoptiva a reluzir do outro lado do Douro. Sentiu no peito a dúvida do afecto. Qual das duas terras amaria mais!? As duas por igual! A uma e a outra quer como se quer a uma mãe. Ensaio um suspiro e deixou-se prender nos laços das recordações. Percorreu a aldeia, foi ao centro do lugar em busca dos rostos da sua meninice rasgada e um misto de júbilo e tristeza apoderou-se de todo o seu ser ao tomar conhecimento das alegrias e tragédias que aconteceram durante estes anos todos. Conheceu alguns do seu tempo, abraçou-os com a mesma força de antigamente num entusiasmo que sabia ser breve. Pouco ou nada se recupera da nossa meninice e juventude; se partimos, deixa-mos que se desliguem as amarras que nos mantinham presos a um mundo que por mais pobre que seja, transformar-se-á num tesouro incalculável. Ele tinha consciência disso, experimentou uma vida nova num mundo novo onde se envolveu totalmente durante meia vida e, aos primeiros alvores de um Outono implacável, aconteceram mais vivas as saudades. Ia perguntando por este e por aquele, obtinha respostas que lhe magoavam a alma:
- O Raspa já morreu, o Ricardo, o Hélder, o Neves e muitos mais num rol que parecia nunca mais acabar:
- E o Zé Abílio, perguntou? Esse anda por aqui, ainda há pouco aqui estava! E o Marau? Olha está dentro do café, espera, vou chamá-lo! Mais um abraço, mais um pedaço da infância a palpitar ali. Olhava-os um a um aos antigos companheiros tentando reconhecer neles os meninos de outrora mas o que tinha na sua frente eram apenas despojos de juventude que o tempo traiçoeiro envelheceu. A vida a fazer-se vida novamente nas lembranças. Imaginou-se criança, descalço a correr pelas ruas poeirentas desta Aldeia e, as imagens desse tempo iam-lhe passando difusas e a preto e branco. A mente a levá-lo ao passado, a condená-lo pelo abandono em que deixou o seu torrão Natal. Sacudiu a cabeça, meteu-se no carro e voltou lá para longe onde as saudades moram e decerto por ai ficará até fechar os olhos para sempre obedecendo aos apelos do sangue. De Rio Mau e Pedorido, lembrar-se-á sempre porque aqui jazem a sua meninice e juventude.
Ao meu amigo, Augusto Silva emigrante em Ovar

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Convite


sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

A Primeira Dança

Pedorido acordou frio embrulhado num manto de neblina de um branco imaculado, lençol de puro algodão com que a Natureza acaricia quem a estima. Das serras que delimitam a aldeia nem sinal, perderam-se na nuvem gigantesca que avançou sobre ela e só um pedaço da povoação se avista lá ao fundo recolhida na margem do Douro. A manhã avançou sem pressa espreguiçando-se sobre a água e, aos primeiros alvores da tarde o sol espargiu uns raios de luz sobre aquelas almas perdidas num deserto tão longínquo da civilização que provavelmente ninguém neste mundo teria conhecimento da sua existência.
Tem campos estendidos em socalcos por uma área limitada com matos e, como num jardim babilónico, as bastas oliveiras, carvalhos, laranjeiras e alguns choupos são as únicas árvores inclinadas para o céu. As videiras que produzem o vinho amareicano, alinham-se em bardos perpendiculares uns aos outros até quase tocarem no rio Arda que quebra a meio a povoação e desagua ali perto por entre choupos que, perfilados, parecem grandioso exército em cerrada formação à espera do combate final.
A claridade alastrou enfim mostrando a soberba paisagem envolvente onde, do outro lado do rio Douro a aldeia branca de Rio Mau, aparece debruçada sobre a água numa cumplicidade permitida há séculos e, já com meio caminho percorrido no céu, o astro rei principiou a aquecer medroso os povoados. Fumegavam os matos, as oliveiras, as vides e a serras em volta eram um processo inteiro de evaporação dos cristalinos orvalhos que o nevoeiro deixou. Um cheiro acre e doce espalhou-se pela aldeia que assistia serena ao evoluir de mais um dia tão igual a tantos outros de que nenhuma história fala e de que só os poucos habitantes deste ermo vão acumulando no baú das recordações como quem acautela incalculável tesouro das cobiças de olhos alheios.
Depois de demoradas actividades no recolher dos milhos lá em baixo onde uma reentrância de água refresca e permite o cultivo do cereal, a noite veio num entardecer fantástico onde as cores da paisagem se modificavam em cada segundo e os rios eram dois fios de oiro e prata a serpentear lentamente no seu milenar leito, imperturbáveis e sossegados, sem fazerem contas à muita vida que tinham e que haveriam de conservar por toda a eternidade. Os melodiosos sons de música de concertina, viola e cavaquinho espalharam-se sobre a eira onde o Sebastião comandava o racho de mulheres e homens que desfolhavam espigas e os cantares ao desafio formavam o despique de nostálgica doçura. Depois veio o baile em que rapazes e raparigas evoluíam no estrado de ardósia negra, descalços, ao ritmo da chula e do importado vira do Minho. Margarida sentada na sua cadeira ao lado das outras via-as felizes rindo e dançando. De vez em quando, e porque escasseavam os rapazes, lá vinha um e ela de olhos em súplica, com um tumulto a fazer-se no peito, ansiosa, esperava o ambicionado resgate que a metesse na dança e a fizesse rodopiar nos braços de alguém no improvisado palco. Eles passavam pela mole de raparigas expostas e prendiam-se ao seu lado numa cachopa que não era ela. Sobressaltava-se-lhe o coração cada vez com mais força pois já quase todas bailavam e ela a quem Deus não s abençoou de cara perfeita e corpo esbelto, delgada e desengraçada, permanecia quieta a sofrer as dores do abandono. Dentro do peito, no seu jovem coraçãozito, fervia o desejo e a ardente promessa feita a si própria de recompensar o homem que a escolhesse, de lhe pagar com deleites o favor de uma dança, fosse quem fosse a figura de homem que deixasse cair um olhar sobre o seus olhos verdes e lhe estendesse a mão que convida ao abraço.
Naquela noite, fria mas quente de emoções quando já tudo fazia adivinhar mais um desconsolo na sua alma despedaçada, apareceu o Sebastião que retardara a entrada no baile ocupado na recolha das espigas. Estatura media, olhos azuis, calças de ganga, camisa de flanela, parecia um ser enviado do céu ao encontro das mulheres desejosas. As outras excitadas pela presença do rapaz, mais bonitas que elas compunham os cabelos, faziam poses e as mais atrevidas, sorriam-lhe de longe e mostravam a brancura das coxas trespassando as pernas joelho sobre joelho. Ele veio caminhando de uma ponta à outra da eira, até dobrar-se em frente de Margarida e perguntar-lhe humildemente:
-A menina quer dançar comigo?
- Eu? Perguntou atónita?
Margarida não esperava semelhante convite de um homem daqueles pois nunca nenhum, feio ou bonito se aproximou dela e a convidou para dançar e, se fosse verdade, seria a coisa mais bela que alguma vez lhe aconteceria na vida. Como envolvida no torpor de um sonho, de faces coradas, deixou-se envolver pelas fortes mãos do rapaz que a conduziram levitando por sobre toda a sua enorme emoção. As outras morriam de inveja cochichando a um canto e ela volteando nos braços daquele moço, príncipe encantado que vinha redimi-la de tantas humilhações do recente passado, era um anjo em ascensão a um céu só imaginado.
Rodopiavam certos os dois agora sozinhos no meio da eira, que Margarida transformou no centro do mundo durante minutos. Momentos maravilhosos, todos a olha-la, suspensos e surpresos, quase esquecidos da própria dança, rendiam-se ao inesperado e inimaginável.
Margarida era agora uma rainha, a mais bela de todas, a única, a eleita do homem que todas cobiçavam. Ele falou-lhe baixinho ao ouvido nas voltas da dança que agora era um tango e as sua mãos fortes cingiram-lhe mais a cintura fina apertando-a contra si com força e ela feliz sorria com lágrimas nos olhos.
A dança acabou e ele veio traze-la agradecido e as outras olhavam-na espantadas e ciumentas enquanto ela segurava um lacinho do vestido de chita, fingindo-se ocupada para esconder a enorme felicidade que pela primeira vez sentia na vida.
O rapaz voltaria? Não, decerto foi um engano; agora iria dançar com outras muito mais bonitas!
A orquestra começou a tocar um bolero, Margarida entristecendo a cada acorde e Sebastião de novo a entrar na eira.
Quem seria agora? Talvez a Rosa, de todas a mais atraente e cobiçada por muitos, também à espera de orgulho ferido por não ter sido a escolha primeira daquele homem bonito.
Sebastião levantou os olhos e sorriu, sorriu para Margarida lá do fundo da eira.
-Ai Virgem Santíssima, rezou ela apreensiva de olhos outra vez marejados. Lá de longe, Sebastião com um dedo apontando para o chão a fazer um circulo, perguntava-lhe se ela queria dançar. Ela sorriu como o rosto iluminado que dizia, sim! A orquestra tocava um slow, ele a apertá-la contra si, ela a sentir-lhe o bater do coração, o calor do corpo, o sangue a ferver-lhe nas veias e a respiração quente pertinho da sua boca. Ergueu um pouco a cabeça, olho-o nos olhos e depois semi-cerrou os dela suplicante da carícia do seu primeiro beijo.
A música evoluía no espaço da eira num sussurro mágico e Margarida perdida no sonho, agarrada a ele, sentiu pela primeira vez a quentura de uns lábios pousarem nos dela.
O nevoeiro voltava a formar-se no rio que sorria e, lentamente ia subindo as serras fazendo Pedorido desaparecer mais uma vez do mapa do Mundo.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Feliz Aniversário


Depois dos oitenta já muito pouco ou mesmo nada pode fascinar um homem. As circunstâncias da vida vão moldando o carácter, atenuando comportamentos, suavizando os anos e os dias e até modificando as feições do rosto ao ponto de um ser humano ficar praticamente irreconhecível. Perdem-se no percurso sinuoso dos tempos os tumultuosos apelos da carne, as vastíssimas fantasias da mente, as forças dos músculos, a rigidez dos ossos, a vontade de viver e até afrouxam as correntes que nos prendem ao mundo. Depois de velhos, é rara a lucidez e, nos labirintos do cérebro tornam-se frequentes os curto-circuitos que deformam a realidade, alteram a forma de pensa, provocando angústias e medos.
Não se sabe para onde vamos como nunca chegamos a saber de onde viemos. Esse irritante mistério deixa-nos petrificados e frágeis perante o rapidíssimo evoluir da civilização. No curto espaço de uma vida somos sujeitos a uma aprendizagem contínua, massificada e à dolorosa adaptação a métodos e filosofias de vida que não conhecíamos e nos dizem constantemente terem sido adoptada para nossa exclusiva felicidade num engano tão óbvio que perturba ainda mais pelo constatar de que quem nos prega tão imbecil doutrina, nem se quer sonha que esse estado deslumbrante de um ser, não se adquire tomando punções mágicas, nem se vende nas farmácias, nos hipermercados nem mesmo pela Internet. A felicidade é o equilíbrio do corpo e do espírito.
Se alguns se deixam prender nesse frenesi incontrolável, outros, a maioria de nós, prefere seguir o padrão da tranquilidade tendo sempre como referencia, aquilo que foi na meninice e juventude mantendo-se consistentes e inabaláveis aos apelos de uma sociedade mais mecanizada que humana onde só os espertos, os larápios e os beneficiários de estatuto de diferentes, conseguem sobreviver embora infelizes. Depois dos oitenta o corpo inicia a inclinação à terra, verga-se ao apelo do chão como centenária árvore que perdeu as raízes e só aguarda um golpe de vento para tombar vencida.
Todos morremos sem dignidade por que na morte ela não existe. Os pobres, os ricos, os espertos os tolos e até mesmo os contadores de histórias, só em vida podem ter esse titulo de nobreza. A morte é pois uma coisa má, indigna, a pior de todas as coisas.
Acabou tudo quando o Abade Aniceto derramou em cruz a última água benzida em cima do caixão ao mesmo tempo que apressado, encerrava a encomenda da alma deste pobre homem a Deus. As flores, aquelas que nunca teve em vida oferendadas, cobriam agora o esquife, amontoando-se mortas, como num dia de Santos, transpondo as barreiras do exagero, numa inutilidade gritante a lembrar aos vivos o que é a fantochada dos seus corriqueiros hábitos fingidores dos mais puros e idolatrados sentimentos.
Mal sabiam estes desgraçados acompanhantes do féretro onde repousavam os restos mortais do contador de histórias, que neste preciso momento se iniciava mais uma alucinante volta do carrossel das suas atarefadas vidas e que estas flores, ou outras iguais iriam, mais dia menos dia, mortas também, fazer parte do cenário cómico das suas próprias mortes. Não há forma conhecida de escapar ao incidente inevitável, então, ignorando a comum fatalidade, num rasgo de perícia teatral, assumem a postura de gatos-pingados transformando o desenlace num mero e chato acontecimento a que, por obrigação, têm de assistir, mostrando-se todavia infelizes com a perda. O morto já com oitenta e nove anos feitos hoje seis de Outubro deste ano sem graça, já pouco ou nada ambicionava deste presépio que teima em se fazer sinistro e frio onde os rostos mais representativos deixaram há muito, de retratar as santas do seu homólogo de Belém. Tinha perdido tudo aquilo que transformou em esperança na roleta da existência, no jogo sujo de uma humanidade demasiado materialista, despersonalizada e má, que nunca soube e tão cedo não vai quer saber com quantos paus se faz uma canoa, entregando-se de alma e consciência na mãos dos tiranos que circunstancialmente comandam a embarcação deste mundo e, julga-se que decepcionado deixou-se morrer. Foi-se na que julgamos a sua hora, precisamente no dia do seu aniversário, apagando-se lentamente como pavio de vela a quem falhou a cera, na serenidade impressionante de nenúfar ao sabor das tímidas correntes de um qualquer rio algures em Trás-os-Montes.
Finou-se ali no alto da colina mirante perpétuo da sua vida, lançando um último olhar sobre o rio dos seus sonhos, cúmplice das suas alquimias como quem se despede dos segredos, sorrisos e carícias de adorável amante ou como se fosse andorinha que rasga um horizonte infinito a caminho de outras diferentes e novas primaveras.
Tudo o que de luzidio tornou a sua vida jaz em campa esquecida, derrubado mais pela transformação do mundo de que pela inevitabilidade da morte, como espólio de antiga batalha em que só este guerreiro sobreviveu para vir cair hoje aqui desamparado como se também fosse ele parte integrante das ínclitas e infelizes personagens das tantas histórias que nos contou.
Acabou! A morte redentora fez o seu trabalho e leva nas lívidas mãos o que resta deste homem. Baila neste ar cinzento de Outono esse fantasma de gente que se recusa a partir nessa estonteante viagem sem antes, num descaramento macabro, narrar a sua própria morte. Erro colossal! O que o faz ficar mais uns segundos a pairar sobre a terra, mais que essa recusa de partir que sabe impossível, é ter percebido a tempo, embora no último sopro da existência, que afinal a vida é toda ela uma ilusão e que muito mais que a soma de pequenos gostos e grandes desgostos é uma mentira, tudo uma mentira.
Olha-os um a um, aos seres vivos que taciturnos imitam na perfeição a mágoa da sua perda, como quem finalmente percebeu a comédia colectiva do mundo, a inutilidade em que se transformam as relações mundanas, as grandes amizades, o amor e outros mais enérgicos afectos. Deixou de compor, deixou de sonhar mas aquele, já perpetuo sorriso na cara gelada, indicia o gozo de quem finalmente encontrou o caminho da verdade absoluta e pensa voltar quando Deus lho permitir. Deixou-nos uns livros e um rio que transformou em flores.
Que descanse em paz entre os esplendores da luz que ele não deseja perpétua, ámen…

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Cipriano

CONTO
Sebolido aparece ao fundo da serra da boneca, encravado entre as fragas da Abitureira, os Penedos da Sombra e o rio e estende dois braços lancinantes na paisagem. É terra de lavoura de pescadores e de mineiros. Casas afidalgadas alinham-se aqui e ali no caminho que conduz à igreja de S. Paulo situada no local mais plano do sitio.
Não há luz eléctrica em Sebolido como também não existe nas outras terras vizinhas. A luz que alumia as almas que a aqui habitam, é de candeias, de lampiões a petróleo e de velas de sebo. As noites no Inverno são escuras como breu e, só muito raramente cortam as profundas trevas, os difusos clarões das artesanais lanternas quando algum ser aflito procura ajuda no centro do povoado ou ainda se algumas bruxas vão lavar roupa à presa de Junçadelo. Fazem alarido, batem com as mãos na água e agitam-se desesperadas no meio da noite. Cobrem os corpos nus com longos lençóis brancos que lhes dão um ar muito mais sinistro no meio da noite. Dizem ser as mesmas que assombram as margens do rio Mau mas também têm sido vistas a apavorar as margens do douro na Ribeira de Melres. Aparecem sempre nas noites de lua cheia quando o clarão mortiço que o astro produz, desenha estranhas e fantasmagóricas formas nos montes e nos rio e espalham o medo e o terror por estas bandas. São bruxas, ou mulheres viúvas, que vivem sozinhas e, nas tenebrosas sombras dão largas às emoções angustiantes contidas durante os dias. É gente que vive em desespero curtindo solidões eternas, desnorteadas, aflitas comportam-se como mortos-vivos.
Sentado no rebordo do cruzeiro, o Cipriano vai assistindo ao passar dos companheiros. A manhã ainda não rompeu em claridade e muito pouco se distingue à distância de um metro. Está de baixa médica há seis meses, doente, muito doente. É pele e osso o mineiro. A carne, se é que existiu ali, já há muito se ausentou definitivamente deixando-o esquelético, tísico, um fio de gente. Vencido pela silicose, acalenta ainda no peito uma réstia de melhoras mas tem consciência de que se fora já a terna juventude, o jogo do peão e da pincha dos botões. Agarrou-se novo ao trabalho da mina para poder sustentar os filhos e durante anos esburacou as entranhas das terras de Germunde. De uma vez só, sem alternativa, rendeu-se ao tormento que no íntimo sabia que acabaria assim. Breves foram as ilusões da mocidade, perdidas entre alguns dias de escola e da saca das pinhas que apanhava no monte para acender o lume. O sonho da meninice era lindo e abrasador, ocupara-lhe o alma na peregrinação dos anos:
- Ser pescador do rio. Porém, a arte de cercar o peixe não dura mais que três meses. Depois, com os primeiros alvores do verão, desaparece em tentativas infrutíferas de lanços e lanços perdidos. O rio dá o pão em fartura, prenhe de lampreia e sável, sacia as barrigas dos pobres por algum tempo e, desbarrigado que é, deixa o povo de mãos atadas à cabeça, sem saber o que fazer à vida.
O Cipriano passa a mão que lhe treme no cachaço engelhado e olha o horizonte que têm pela frente. Há rugas nas faces do mineiro, traços adquiridos pela dureza da vida e não pela idade que ainda não justifica esta velhice precoce. O cigarro forte baila-lhe nos beiços apagado, como se tivesse nascido ali e fosse perpétua a sua estadia. Queima ainda o resto de vida que pode existir no seu corpo. Pouco dorme, a tosse rouca e profunda é um tormento e, a falta de ar nos pulmões, arruína-lhe a respiração e sufoca-o. Levanta-se muito cedo, alta madrugada, ainda com noite cerrada e, é para aqui que vêm matar saudades dos amigos, da labuta, ou então, do meio salário que perdeu por ter metido baixa. Olha as mãos onde a vida lhe seca desesperada e quer gritar, soltar ao vento deste florir do dia, a revolta que acolhe no peito há muitos anos. Nem um som produz a sua voz embargada, parece que nunca será capaz de tal atrevimento. Há-de ficar-se pelo silêncio eterno, levará para o túmulo todo esse sofrimento, todo esse sentir destruidor. Não há lágrimas nos olhos parados deste homem, por mais dolorosas que sejam as mágoas, um mineiro não chora, apenas se lhe nota a quebrar a aparente serenidade umas gotas de suor gelado na testa franzida.
Tudo é sombras, tudo é silêncio neste claro amanhecer. A dor, cada um sente-a no peito e é só sua. Ninguém, só Deus o poderia ajudar se quisesse. De vez em quando, reluz junto ao cruzeiro, a trémula luzinha do cigarro que o Cipriano reacendeu lentamente e que lhe vai antecipar o fim programado. Aqui, neste recanto onde dão a volta as procissões, está sentado um homem que nunca aprendeu a rezar. O tormento que o vai minando começou há muito tempo. A tosse, a falta de ar nos pulmões impossibilitavam qualquer esforço mas foi-se mantendo animado escondido na ténue esperança de melhoras, que no fundo sabe não existirem. A partir de agora, é a piorar a olhos vistos. Já viu outros mais novos do que ele, entravados pelo mesmo mal embarcarem para a terra fria. O médico da empresa, na consulta de rotina, todavia não fora peremptório:
- Isto é pó Cipriano! Abifa-te homem que isso passa, senão, mete-se a reforma, ficas a receber uma tensa, és capaz de dar trinta por cento de pó, são mais quinhentos por mês!
- Abifa-te! Esta palavra martelava incessantemente a cabeça do mineiro.
- Abifa-te! Como é que podia abifar-se, se nunca na vida tinha visto um bife à frente dos olhos!?
- Abifa-te! O doutor deve estar tolo! Ele saberá quanto custa um quilo de carne de vaca? Então a confirmar a realidade por todos propositadamente ignorada, vêm-lhe à cabeça as cenas diárias da ceia. A mesa da cozinha estreme, em redor os oito filhos fraldrucas, no centro um prato de barro com um galo desenhado no fundo a criar ilusões e, em volta deste, dez garfos de ferro com cabo de madeira à espera dos bifes. Eles vêm, redondos, castanhos, com casca e, por cima deles, mais bifes, compridos, escamudos com cabeça e tudo.
- Abifa-te Cipriano ou morres! Não há escolha possível entre as duas opções.
- Abifa-te ou morres! Os bifes são sardinhas, cinco para dez bocas, mesmo assim não é mau de todo. O dinheiro da baixa não dá para muito mais. Meio salário, como meia é agora a cabaça do vinho americano. A farmácia leva tudo. Sendo assim, morre Cipriano, opta pela parte mais barata, não há outra hipótese, só te resta morrer. Esta é a realidade nua e crua, tão verdade, tão nua, tão crua, que o sino da igreja de Sebolido o irá confirmar muito em breve, dobrando a finados. Que desgraça de vida!
No entanto há cães em Sebolido e Rio Mau que comem bife todos os dias. Os que se marram nas perdizes da Fraga Amarela e os que empeugam nos carreiros do areio de Hortos atrás de coelhos. Cães de raça, tratados melhor que gente. O Cipriano vai falecer esganado pelo pó, faltoso de ar nos pulmões, aflito na agonia e por falta de bifes. O médico está farto de saber o que o espera desde a primeira consulta. Já deu esta receita a muitos, a mesma, a certidão de óbito antecipada, sem nome, sem data, sem critério, desumana, injusta e cruel.
- Abifa-te! O doutor, abifa-se, quando quer, o Toninho de Melres sabe quem lhe pode pagar a carne e abre-lhe as portas do talho de par em par. E os galos e cabritos que recebe por dar baixa a alguns malandros e lhes facilitar as reformas? Abifa-se o homem, tanto, tanto, que por este andar vai morrer novo. Talvez não de silicose, mas por enfartamento provocado pela fartura de bifes.
O Douro serenou mais uma vez; é um encanto. Espelha uma magnífica lua prateada e parece um poema de amor, uma sinfonia silenciosa, o canto de uma possível esperança ou o choro dos puros.

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Milagre em Julho

O laínho contempla o rio com o espírito saudoso. Tantas lembranças o assaltam nesta clara madrugada. Ajeita a velha boina remendada e permite ao pensamento peregrinar pelo passado que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos descarnadas. Durante trinta anos cavou a terra nas profundidades das minas de carvão de Germunde. Adquiriu a silicose que lhe abafa os pulmões e lhe vai comendo os dias que tinha para viver. Seco por dentro e sem carne agarrada aos ossos, é um ser carcomido pela doença. Agora, velho antes do tempo, perdeu a agilidade do corpo, a despreocupada forma de estar no mundo e, como se fosse um navio encalhado, aguarda apenas que um golpe de mar mais forte, destrua toda a sua arruinada estrutura.
Pensa em Deus, num ser de quem sempre ouviu falar e foi presença constante nas vidas de muitos companheiros seus, amparo e receptáculo de todas as esperanças, mas não das dele. Magica na remota possibilidade de Ele existir na realidade. Quer uma justificação plausível e imediata para a emoção que o assaltou de repente quando julgava em bom rigor, nunca vir a reflectir sobre tão distante personagem.
Nunca aprendeu a rezar, ocupado nas apanhas da lenha no monte em criança, afastou-se da capela talvez cedo demais para poder entender a realidade da doutrina cristã apregoada ali todos os dias pelo velho padre Manuel. Hoje, depois de ter percorrido uma vida de trabalhos e canseiras, pressentindo que o fim que julgava inalcançável se aproxima repentinamente, sente tristeza e desconforto por não ter essa esperança de fé plantada no peito. O Laínho é um iletrado, porque nunca entrou na escola, não sabe ler nem escrever e por isso desconhece que não é absolutamente necessário um curriculum recheado de práticas litúrgicas para se alcançar as bem-aventuranças em vida e, muito mais importante, após a morte. Nem tão-pouco lhe passa pela cabeça rude, que o reino do Céu pode estar ao seu alcance. Sabe apenas que não rezou, que não se confessou nem assistiu a missas e isso é bastante para se sentir um condenado às terríveis penas do inferno. Se não sabe, basta-lhe perguntar ao padre que esse sim, mandatado para educar o rebanho na absoluta rigidez da sua fé, sem favor algum, o vai elucidar acerca dos tormentos a que Deus o irá sujeitar, logo que bata as botas. No entanto, longe de se resignar a esse destino que apesar de tudo como reconhecido pecador, julga merecer, deambula pelas belezas que a vida lhe deu contemplando o Douro, a obra imensa do Criador que o rodeia e pelos raros instantes em que julgou ter estado muito pertinho de Deus. Ficará sentado nesta pedra centenária até ao anoitecer e, enquanto as horas passam, aviva lembranças, recorda as cenas que podem amansar-lhe o coração e a alma.
Lembra-se de um dia distante que ficou para sempre gravado no seu intimo e na memória das gentes simples da aldeia de Rio Mau.
Foi num domingo de Julho que nasceu cedo em traços de calor.
Batiam as nove horas dessa ridente manhã no sino da capela quando a banda musical ensaiava um breve concerto no coreto, situado ali no meio do largo.
O padre João fazia os preparativos da festa perfilando em duas alas as criancinhas, à frente as raparigas, logo atrás os rapazes.
Elas, vestidas com longos vestidos brancos e grinaldas nos cabelos, faziam lembrar as noivas dos lindíssimos e fantásticos contos de fadas. Eles, trajando com rigor, metidos nos fatinhos impecáveis, pareciam príncipes de contos antigos.
O céu profundamente azul a agasalhar o rio Douro, estava a ser testemunha silenciosa deste belo cortejo. Momento único, aquele feito de ternura, de carinho e emoção em que a alma das gentes parecia estalar no marejado dos olhos.
Bateram as e dez horas quando a banda iniciou o toque da pequena marcha. De vez enquanto um foguete estoirava no azul do céu e o seu eco entoava pelas encostas dos montes mergulhadas na doçura da manhã. O sino repicava em alegria festiva, era uma melodia com sabor a pureza, o toque por que são chamados os anjos.
Alice passava, era a segunda a contar da frente na fila da direita. Por momentos o Mineiro quedou-se nos rostos de cada um dos castos pequeninos que alinhavam tão graciosa procissão. Viu azuis de felicidade em cada um daqueles olhares deslumbrados, a tranquilidade dos seres ainda com a áurea da inocência, imaculados. Porém, Alice não sorria, o rosto dela tinha-se fechado sobre a terra e era num mundo muito distante que flutuava o seu frágil pensamento. O Mineiro franziu a testa porque notou naqueles olhos lindos uma imensa, triste e profunda ausência.
A procissão subiu a rua de S.João e pouco tempo depois entrou na capela e o padre, já no cimo do altar, iniciou a cerimónia:
- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...
Pela manhã fora iria ser lindo estar ali.
Mas eis que chega o momento mais solene, aquele em que, depois de se curvar sobre a pedra de Ara, o sacerdote ergue solenemente a Sagrada hóstia para celebrar a eucaristia, o momento da ceia que antecedeu a dolorosa Paixão de Jesus Cristo.
- Tomai e comei todos, este é o meu corpo...
Alice fitava sem cessar a imagem da Virgem Santíssima prostrada num altar e, naquele rosto meigo de menina bailavam duas lágrimas que lhe rolavam docemente pelas faces e depois iam cair no seu gracioso vestidinho branco. De repente, pelas portas grandes da capela hoje abertas de par-em-par, irrompeu uma pomba branca que voou ao de leve sobre os presentes e depois foi poisar no ombro de Alice. Todos se entreolharam espantados...
- Uma pomba branca, uma pomba branca?!.
Padre João elevava o cálice, surpreendido, hesitou por alguns momentos, depois continuou...
- Tomai e bebei todos este é o meu sangue, derramado por vós e pela multidão dos homens para remissão dos pecados, fazei isto em memória de mim...
A pomba levantou ligeiro voo e foi poisar no ombro da imagem da Virgem Santíssima.
O Laínho repara em Alice e, nos seus olhos verdes da cor do rio, vê um brilho estranho, um brilho de imensa felicidade. Pareceu-lhe então que a mão de alguma divindade estava ali firme a segurar os fios do destino.
Logo que terminou a santa missa todos regressaram às suas casas onde os esperavam as bodas próprias de tão importante ocasião. A pomba levantou voo e saiu da capela enquanto Alice olhava o céu azul onde ela fazia acrobacias de sonho.
À tarde, pelas seis horas após brevíssima cerimónia, saiu a procissão que percorreu as engalanadas ruas da terra. Quem subia nessa hora as íngremes escadas que conduzem à capela de S. João, deparava com a pomba branca poisada na cripta à beira do sino.
Do alto dessa colina via-se o rio douro tranquilo, imponente e belo no seu verde azulado. A procissão desceu as escadas depois serpenteou em cânticos ao longo da estrada. No céu, a pomba voava em círculos e acompanhava o cortejo enquanto Alice não desprendia os olhos daquela aparição. Os sinos repicavam alegres, era o fim da festa, o fim da comunhão solene.
No adro da capelinha, Alice, com o seu lencinho branco rendilhado, acenava à pomba branca que partia rumo ao por do sol.
Padre João aproximou-se e abraçou a criança enquanto perguntava:
- Tanta felicidade Alice vejo-te tão contente?!
A menina, sem tirar os olhos do poente, respondeu assim:
- Senhor Padre, quando erguias a hóstia do Senhor, eu pedi à nossa Virgem Mãe.
- Minha querida Mãe do Céu, pede ao teu filho Jesus que deixe a minha mãezinha, que ele tem no seu reino, vir aqui nem que seja um só momento, ver como estou linda neste vestido branco da minha comunhão solene que é decerto igual ao que ela usa ai na tua santa casa. Vês Mãe Santíssima, estão aqui todos os pais e todas as mães dos meus companheiros e companheiras só a minha é que não. Viu Senhor padre aquela pomba branca!? Era a minha mãezinha que Jesus mandou do Céu para estar comigo neste dia. Sou tão feliz Senhor padre...
O sacerdote apertou a criança contra o peito, lágrimas gordas brilharam no rosto daquele homem emocionado. Ajoelhou ali mesmo, ergueu os olhos ao firmamento e disse.
- Obrigado Senhor!
O mineiro, levanta a boina e coça na cabeça. Um sorriso enigmático desenha-se-lhe nos olhos, decerto esta recordação acabou de provar-lhe que afinal sabe rezar que, quem sabe, na sua hora final, também haja uma pomba branca para ele, enviada do céu pela infinita misericórdia daquele Deus que sempre ignorou.
O rio Douro é um espelho que reflecte o lindíssimo rosto da mãe Natureza. Comovido, aconchega-se um pouco mais no leito e docemente prepara-se para dormir.

terça-feira, 28 de Abril de 2009

O Doutor de Arouca

Conto


É alto, magro e careca. De rosto comprido tostado pelo sol onde ao centro um nariz proeminente salta à vista de qualquer um, empurra uma carroça construída por restos de velho trem desmantelado. Os aros das rodas são pintados de vermelho, o eixo em ferro, suporta uma espécie de barraca em madeira coberta por uma chapa de zinco colorida de amarelo. Na frente e sob um fundo azul-turquesa, tem toscamente desenhado à mão, umas letras a branco que anunciam a actividade do artista:
- Dr. de Arouca Especialista Estrangeiro.
Pendurada num dos rebordos do aparelho circulante, uma corneta da tropa em metal amarelo polido, aguarda o momento de entrar em acção. Usa, por cima de um fato castanho de fazenda às riscas em adiantado estado de decomposição, uma bata branca salpicada por toda, de nódoas de gordura, azeite ou banha de porco, que chega cá abaixo ao meio das canelas das pernas. A camisa é branca rota e suja nos colarinhos; no pescoço, um laço vermelho com pintinhas brancas enfeita esta figura ridícula. Calça os pés quarenta e quatro com umas alpercatas galegas de flanela vermelha demasiado amaricadas no conjunto notável da vestimenta do homem. Bem se esforça ele por parecer um doutor mas, a qualquer cidadão mais atento o que mais parece na verdade é um qualquer cortador de carnes verdes de matadouro clandestino.
Empurra a carroça das virtudes curandeiras no caminho por baixo das fragas da Abitureira ao cimo de Cancelos e já perto da casa do Zé Maria cantoneiro, mesmo a esbarrar com Sebolido. Curvado para a frente, pés fincados no chão de terra batida, a suar como um toiro, arrasta a pesada carroça portadora de milagres. Já por alturas da padaria do Álvaro onde o caminho se torna mais suave e se alarga o horizonte, pára a viatura e enxuga a testa suada com um lenço tabaqueiro vermelho às riscas brancas e pretas.
O silêncio é pesado em Sebolido. A aldeia em peso dedica-se aos trabalhos da rega dos milhos nos campos dispersos pelas fraldas da serra da Boneca. Os sons que perturbam este ambiente rural, são de cigarras a gemer nos montes e de melros em franca e aberta cantoria. De repente explode na quietude da tarde um som estridente e desafinado de gaita de fanfarra de bombeiros. Os galos do Jerónimo respondem ao inaudito desafio em cantoria pegada. Os cães do Pinto desatam num ladrar irritante. A galinha preta do Valdemar que depenicava as couves do Cipriano corre aflita a proteger a ninhada recém-nascida. Aquele som estridente volta a fazer-se ouvir no povoado e já Gondarém e Midões do outro lado do rio, se sobressaltou com tamanha algazarra.
A carroça vai andando lentamente a percorrer os cem metros que faltam para alcançar o centro do Outeiro das Cortes enquanto o doutor vai soprando no endiabrado instrumento. O povo começa a aparecer aos postigos das casas e já muitas crianças acompanham o inesperado circo correndo atrás numa gritaria medonha.
Parou ali por baixo da tilia, sentou-se no banco de pedra de granito a aguardar que o povo se juntasse e ficasse a saber das últimas novidades da medicina mundial. Quando umas vinte pessoas, homens e mulheres já se interrogavam acerca da actividade do homem, entra em acção o propagandista. Usa um funil a servir de amplificador afim de que todos possam ouvir o seu improvisado e eloquente e institucional discurso:
-Acabo de chegar do estrangeiro e o que tenho para vos dizer pode ser a salvação de muitas vidas. Alguns dos senhores cavalheiros e das senhoras madames por acaso não padecem de males desconhecidos e incuráveis? A quem dos aqui presentes e não presentes não dói uma perna, um braço, a barriga ou tem queda de cabelo? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras madames tem dificuldade em obrar? Por acaso nenhum dos vossos filhos tem piolhos, pulgas ou até carraças? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras cavalheiras, não trás uma praga de percevejos ou lêndias? Acabo de chegar do estrangeiro e aqui na minha farmácia ambulante trago praticamente remédio para todos os males. Não, não é banha da cobra não senhor, eu não sou contrabandista, sou um especialista estrangeiro encarregado pelo Estado para curar as pessoas. Isto é um xarope inventado há um mês na costa do oriente médio, na terra onde as ruas são calcetadas com sêmeas, as fontes deitam ora vinho tinto ora vinho branco e andam sempre a passear nas ruas, porcos, metade cozidos e metade assados com uma faca e um garfo espetados no cerro. Ali teve lugar esta invenção maravilhosa que já salvou muitas vidas mas infelizmente não as vai poder salvar todas porque só uma pequena quantidade de produto se recuperou do naufrágio do navio que trazia este potente remédio.
O povo começa-se a agitar, nos olhos arregalados de alguns, um brilho de alegria começa a florir. As mulheres em cochicho, contam umas às outras os males terriveis de que padecem. Uma atmosfera de urgência hospitalar estabelece-se ali. O Serafim começa a mancar, o Simão deita as mãos às costas e faz uma cara de sofrimento, o Ribeiro coça ao fundo da barriga, nas partes, e faz também um ar de consumissão, a Rita acachapada, mija atrás da tileira e o cão do Luís Manco ferra na perna do TonoCarriço. A filha do Mocho cai com o fanico e esperneia-se histérica no chão de cascalho.
- Dá-lhe água gelada!, diz o Bernardino.
Qual água gelada qual carapuça, diz o Barnabé, do que ela precisa é de umas varadas nesse corpo vintão a derreter com cio!
- Cala-te malcriado podia ser tua irmã!, diz o Paulo irritado.
- Vão ver então a mercadoria! O especialista já se apercebeu que estão reunidas as condições favoráveis à venda do famoso medicamento e começa a tirar de uma lata de bolacha maria, uns frascos usados de óleo-de-figado-de-bacalhou recolhidos numa entulheira qualquer e que agora aparecem cheios de um líquido cor de melancia. -Por apenas vinte mil réis qualquer senhora, qualquer cavalheiro, pode por fim ao seu sofrimento. Não estou aqui para enganar ninguém, e a prova disso é a garantia que dou a este formidável produto. Se qualquer senhora, qualquer cavalheiro tiver alguma reclamação a fazer, daqui por um ano, nesta mesma hora, neste mesmo local, poderá trocar esta maravilha por uma pomada ainda melhor! -Chegue-me dois! Grita o Angolano! -Não cavalheiro, primeiro é para aquele senhor com a marreca nas costas, o cavalheiro não vê que a criatura está a sofrer? Diz o doutor apressado em recolher a nota de vinte que o doente tinha na mão.
Vinte minutos de feira e o famoso produto esgotou na carroça. Dez frascos de água colorida eram o conteúdo da lata das bolachas. -Cheira a bagaço!, diz o Marreco com o nariz espetado no frasco.
- Não cheira a bagaço nenhum cavalheiro, cheira a aguardente dos Pirinéus preciosidade rara das Américas latinas!
O Marreco calou-se envergonhado pela ignorância e a carroça afastou-se em direcção a Vale-dos-Travessos. Chiavam as rodas a esmagar um eixo sem lubrificação na subida da costeira do Penedo Gordo. O Dr. de Arouca num esforço enorme empurrava aquele monte de sucata portador de inventos multinacionais. Parou na beira do caminho já com Vale-dos-Travessos no horizonte. Passou o lenço tabaqueiro no pescoço suado e preparou-se para nova invenção. De um saco habilmente guardado na viatura, retirou latas vazias de graxa Rosete, encheu-as com banha de porco que escondia numa lata maior e fez-se de novo ao caminho. No espaço quase despovoado da serra, soou novamente a maldita gaita da tropa e o eco esganiçado estoirou como trovão no calmo entardecer. Juntou-se o povo e o contrabandista reinicia o repetitivo discurso:
- Acabo de chegar do estrangeiro e o que tenho para vos dizer pode ser a salvação de muitas vidas. Alguns dos senhores cavalheiros e das senhoras madames por acaso não padecem de males desconhecidos e incuráveis? A quem dos aqui presentes e não presentes não dói uma perna, um braço, a barriga ou tem queda de cabelo? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras madames tem dificuldade em obrar? Por acaso nenhum dos vossos filhos tem piolhos, pulgas ou até carraças? Por acaso nenhum dos senhores cavalheiros ou das senhoras cavalheiras, não trás uma praga de percevejos ou lêndias? Acabo de chegar do estrangeiro e aqui na minha farmácia ambulante trago praticamente remédio para todos os males. Não, não é um xarope qualquer que só provocaria desinterias e até podia matar as criancinhas, eu não sou contrabandista, sou um especialista estrangeiro encarregado pelo Estado para curar as pessoas. Isto é uma pomada rara inventada há um mês na costa do oriente médio, na terra onde as ruas são calcetadas com sêmeas, as fontes deitam ora vinho tinto ora vinho branco e andam sempre a passear nas ruas, porcos, metade cozidos e metade assados com uma faca e um garfo espetados no cerro. Ali teve lugar esta invenção maravilhosa que já salvou muitas vidas mas infelizmente não as vai poder salva-las todas porque só uma pequena quantidade de produto se recuperou do naufrágio do navio que trazia este potente remédio...
Já quase noite cerrada e às portas de Vilarinho, encostado à carroça portadora de milagres, o Dr. de Arouca secava com o lenço tabaqueiro, as lágrimas que lhe caíam dos olhos
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sábado, 28 de Março de 2009

Zara

Zahra
Conto


Bailava como uma deusa agitando o corpo de serpente em movimentos ritmados por uma música que fazia lembrar o vento a agitar as areias das dunas de um deserto longínquo, algures na Babilónia. Cobria ligeiramente a elegante e esbelta silhueta com um Sarki azul céu de delicada seda enfeitado com contas e lantejoulas em ondas pretas, ouro e vidrilhos de desenhos intrincados com pérolas. Acima da fina cintura, cobrindo o bikini, realçando o busto, um cinto shakira de tons amarelo-torrado com brilhantes, enfeitavam a harmónica moira que na cabeça tinha, sobre a negrura de suaves cabelos, um colar de brilhantes pedras a descer em cascata pela testa pequena, produzindo um efeito de inegualável formosura àquela mulher oriental. A saia que se desprendia da cintura livre, deixava visível um ventre perfeito que em voos sinuosos e ondulantes, ia evoluindo no ar ao sabor dos graciosos e sensuais movimentos das ancas e quadris, era transparente, pouco mais que um véu e da cor de pálidas rosas, com desenhos nos bordados de linha dourada a completar o traje da dançarina do raks sharki, que punha nos braços e nos tornozelos, enfeites de arcos de metal colorido de circulo descontinuado, encrostados de pedras cintilantes e lindas.

As difusas luzes coloridas da média sala produzia efeitos fantásticos naquela divindade e a suavidade da música, de compasso, sensual, lânguido e erótico, geravam um clima de magia e sublime misticismo num encantamento tal que Leopoldo se imaginava como a viver em sonhos, as cenas dos contos mirabolantes das mil-e-uma-noites. Essa que foi a noite de todas as noites, aquela em que os seus olhos de juventude encararam pela primeira vez com a visão celeste de Zahra, ainda tem dele a viva e intacta recordação desse momento fabuloso e ímpar apesar do tanto tempo que já passou desde esse dia, apesar da vida o ter transformado neste solitário cangalho velho sem préstimo mas sepulcro de afectos e recordações inenarráveis. Não por que escandalizem, magoem ou causem repulsa, mas tão-somente por que são só suas e constituem o tesouro sacro e incalculável da sua juventude. Coisas linda que fazem sorrir misturadas com algumas amarguras que os homens guardam no coração até à eternidade.

O barco, o velho Valboeiro em que ele e ela navegavam por este rio de sonho nos fins de tarde em que o horizonte crepuscular enrubecia e as águas tínjidas de reflexos de oiro e prata, eram suaves e os dois trocavam afectos, beijos e juras de amor, baptizou-o ele já perdido no enredo dessa paixão cigana, com o nome daquela moira belíssima:

-Zahra!

As letras que carinhosamente desenhou com tintas cor de fogo nos lados da proa da insigne embarcação, apregoavam e espalhavam por todo um rio como folha morta ao sabor do vento, o nome da senhora herdeira do seu coração.

O Douro, aquele que o viu nascer e crescer, que lhe afeiçoou a meninice e juventude, testemunha silenciosa das suas angústias e contentamentos, havia de, num gesto de gigante enraivecido, desfazer o idílico momento de suprema elevação e colocar uma cruz de cemitério naquelas duas vidas onde um afeição sem limites já tinha feito morada.

Um dia de cheia descomunal naufragou o Valboeiro no turbilhão das águas e levou com ele para as profundezas do sítio a deslumbrante senhora que nunca mais voltou à superficie.

Hoje, depois de já terem passado cinquenta anos desde a trágica noite, o velho Leopoldo olha o rio Douro com uns olhos sem brilho, cansados e incapazes de distinguir claramente o horizonte mas imaginando ainda a dança de Zahra como se ela evoluísse delicada por sobre a superfície das ondas e o olhasse com aqueles olhos rasgados de um verde que se confundia com a cor do rio e lhe viesse dar ainda um sorriso de amante cumplicidade.

Aqui entre Pombal de Medas e Porto Carvoeiro sitio onde o Douro é mais deserto e agreste, onde as sombras da noite mais se acentuam, um velho louco indaga o horizonte líquido aflito julgando que a morte lhe devolverá a sua Zahra. Espera, espera ainda como esperou sempre pela sua amada que as águas têm e que nunca vai chegar e o rio arrependido chora de tristeza quando ele todas as noites grita desesperado:

- Zahraaaa!

terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Lucinda

Lucinda

Conto


A terra de Melres é barrenta, quase vermelha, o pó do trilho tinge de escarlate as botas de água do Caga-na-Marca. É vermelha a terra não muito diferente da cor do sangue que corre nas veias do mineiro, que é vermelho escuro, carregado, tipo sangue de carrapato e meio espanhol.
Já se enxerga em Moreira, o Douro aqui é plano, largo, espraia-se preguiçoso e quase vem beijar as beiras do caminho que percorre sinuoso a margem do rio. É lindo o verde persistente da ribeira de Melres enfeitada de choupos, castanheiros e frondosas nogueiras perfilados a todo o comprimento do espaço que ladeia o douro. Esta é a terra do mel; a doçura do precioso néctar lambareira, escorre pelas fraldas das serras em jorros de fartura. Em Vilarinho, Branzelo e Moreira, alinham-se nas várzeas os cortiços e as colmeias onde enxames de abelhas saem em busca do pólen da urze e do rosmaninho que depois hão-de de transformar em delicioso mel. Terra rica em tudo, até de lavoura com campos estendidos ao longo da beira do rio ou pendurados nas encostas e vales das serra das Banjas e de Sta. Iria. Já foi Vila em tempos e guarda na fisionomia das casas, traços de poder e de glória apanágio do passado. Melres como as outras terras circunvizinhas, pararam no tempo. Anos e anos a fio de sono dolente a aguardar o futuro que vem distante por de trás das nuvens do isolamento e do esquecimento a que foram votados. A força dos homens daqui esbarrou de frente com o poder da Pátria ávido de maior força centralizadora. Melres tem gente que a troco de parcas alvíssaras, recolhe os centos em volta e paga a Aguiar de Sousa que por sua vez paga a Lisboa terra que desprovida de sentido solidário, se entretêm no ócio e no gozo, enquanto o povo obreiro geme com fome. De nada têm valido as rezas na capela dos Paços. Dali, não fora a fé que persiste, só se aproveita a memória do tempo que faz nos dias das festas para acções meteorológicas:

- Passos molhados, Páscoa enxuta, ou vice-versa.

Em Moreira, lugar de terra barrenta se funde o barro na fábrica da telha e de tijolo burro mas até essa rudimentar indústria vai fechar por imposição da empresa carbinifica do douro, tornando assim a Vila cada vez mais dependente dos campos, do rio e da mina. Há cenas dramáticas em Cimo de Vila. O lugar abençoado pela capela do Senhor dos Paços cria em seu redor, as mais belas e perfeitas donzelas da freguesia. Procuram-nas aos domingos e nos dias de feira, abastados lavradores de terras vizinhas e até cavalheiros de mais longe.

- Sai da janela Lucinda! Esse homem vai ser a tua desgraça cachopa... é mineiro, morre-te na mina e deixa-te viúva com um bando de filhos nos braços...tens pretendentes mulher... olha o Toninho de Passos...prendado, limpo com quintas e tudo!
É a Rosa Marreca a avisar a filha. A Rosa é tudo menos marreca. O sobrenome herdou-o dos avós que nem sequer conheceu. É uma mulher bem feita, alta de rosto cumprido onde se notam ainda traços da beleza que tivera na juventude. Cobre os longos cabelos negros, soltos pelos ombros abaixo, com um lenço de merino amarelo e vermelho. A saia de roda negra por condição tem bordados a branco temas regionais à base de flores silvestres. De linho é a blusa branca rendada e nos pés desaconchegados de meias, usa umas chinelinhas negras de verniz. A Lucinda ouve mas faz de conta, esta conversa é para boi dormir, não é a mãe quem vai casar é ela e, nisto de amores, as pessoas pendem para onde calhar. A moça é formosa, corpo de mulher talhado por mãos de artista. Na cara de faces coradas, aparece um nariz pequeno e bonito. Os olhos são de um negro impressionante e a cor morena do rosto, condiz com os cabelos soltos pelos ombros, que são também negros e aveludados o que a tornam assim tão graciosa. Tem a quem sair a Lucinda, a mãe era uma estampa no passado.

- Lá está ela outra vez!...Ò mulher, meta-se na sua vida e deixe os outros.

Até parece que você não casou! Tinha de se calar, aquela última frase cortava-lhe o coração. Era verdade que tinha casado com o Lampreia antes não o tivesse visto na festa de S. Domingos. Teve de ir lá,. era a única oportunidade de poder estar perto dos seus admirados, o conjunto de António Mafra, de ouvir ao vivo aquelas músicas e canções ao som das quais muito bailou até esse dia. Foi assim de repente, não se sabe como. Cinco domingos de namoro e, quando deu conta já estava na igreja. E depois!? Aquela miséria do costume. Quatro anos juntos e três filhos para criar. E que é feito do Lampreia? Está em frente á Casa Grande, no cemitério, morto, esborrachado na mina que foi a sua perdição. Bem lhe dizia ela muitas vezes:

- Ò Home sai da mina! Olha o que aconteceu ao Manel do Boi, Cristovão, ao Raposo. Ficaram lá todos, mortinhos, esganados no meio da negrura do carvão! Mas ele não lhe deu ouvidos, preso pela ideia da reforma que ambicionava, foi tentando a sorte ano após ano. Perdeu tudo, a reforma e a vida. Agora ela ao ver a filha ir pelo mesmo caminho, tenta desesperada mudar a agulha dos carris a esse sinistro comboio. Tenta apagar com avisos o fogo daquele amor ardente. Quanto mais ralha mais se convence de que não vale a pena continuar. À vinda e à ida, o mineiro passa por baixo da janela da cozinha e, a filha apaixonada, não tira os olhos daquela figura andrajada.

- Parece bruxedo! O que é que ele te fez mulher!?

- Meta-se na sua vida, deixe os outros em paz! Responde a Lucinda acenando ao Alfredo.

O tempo, esse maldito algoz que nos amarra e nos faz rodopiar, haveria de dar razão à Rosa; a Lucinda casou com o mineiro que não morreu na mina, reservara-lhe o destino um fim ainda mais cruel. Chamado pela tropa, não quis fazê-lo sem antes selar aquele amor pelos sagrados laços do matrimónio. A Lucinda estava grávida. Naquele domingo de Agosto quem passava na rua das Vergadas ou assistia à missa na igreja Matriz, viu aquele espanto de mulher resplandecente enfeitada como nunca, de grinaldas nos cabelos e segurando nas mãos trémulas um raminho de rosas brancas que simbolizavam a pureza do seu doce coração levando nos olhos um brilho intenso de felicidade, e a cobrir aquele corpo airoso, um vestido todo branco alugado ao Zé Maria Tendeiro, completava o deslumbramento daquela aparição que desafiava todas as leis que os homens insensatos criaram para esta situação específica. Foi efémero o tempo de felicidade resumido nuns poucos de fins-de-semana em que ela ocupou o tempo a lavar, a secar e a passar a ferro as roupas da tropa. Os domingos ficaram todos lancetados pelo apitar do comboio prenho de militares em Campanhã. Embarcou para Angola e, um mês só decorrido, ela recebeu a par com um aerograma do marido, o telegrama fatal e lacónico:

- Alfredo Duarte Saraiva 1º Cabo N.º 1256742, morreu em combate.

Primeiro os olhos abriram-se espantados, secos, depois, o mundo inteiro envelheceu naquele instante. A dor, a suprema dor do ser humano, esmagou-lhe o coração. Qual facada no peito, qual arrancar das víceras em corpo vivo. É dor de mais, é algo que não se consegue traduzir em palavras, é o fim repentino de todas as coisas, o fim do próprio universo. Rompeu-se a presa de Vilarinho, as lágrimas, desciam por aquelas faces belas, soltas, imparáveis, tremendamente líquidas. Num gesto autómato pegou na filhita ao colo e, com toda a força do carinho, apertou-a com alento contra o peito num abraço de tamanha plenitude que comoveu o próprio mundo. Antevia a Lucinda o mundo de solidão que a esperava, a loucura, a demência, o declínio que acarreta semelhante perda e a desordem em que iriam desbotar o resto dos seus dias. A partir daqui, fecham-se os olhos dos demais, ninguém irá querer ver a sua dor, ignorá-la-ão quase de propósito e só a morte pode vir um dia ser companheira desta mulher agora sozinha. De negro se vestiu, negros são todos os gestos, todos os pensamentos, todos os dias e todos os anos. Sente a indiferença de todos e a cobiça de alguns que se querem servir dela. Um dia, posta de lado, tornar-se-á num fantasma vivo e negro, numa bruxa. Ser mulher viúva, equivale a transformar-se num ser vivo com que ninguém se quer cruzar. Corresponde sofrer ao sol de todos os dias e, a morrer devagar todas as noites. Viuva de mineiro, deixa de ser gente. A Rosa sua mãe, por experiência adquirida, sabia bem as tremendas dificuldades que a vida colocou à filha. Também ela sofria as mesmas dores, as mesmas mágoas calada, esse silêncio atroz que se gera no caos de algumas vidas onde não chega o abraço solidário a mão amiga, o lenço que pode secar as nossas lágrimas.

-Minha Senhora de Fátima ajudai-me, tende compaixão de nós, Senhor dos Passos. Senhor Jesus valei-nos!

A Rosa rezava ajoelhada na laje fria da singela cozinha em apelos desesperados àqueles em quem tinha maior devoção. Pedia clemência pelo infortúnio que por duas vezes lhe bateu à porta sem aviso prévio e sem o merecer. Não se sabe se essas orações foram ouvidas lá no Céu mas o que consta é que as duas vivem o resto dos seus dias, felizes em Branzelo

sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Conto de Natal

NATAL

Conto

E ele a dar-lhe e a burra a fugir. Tanto já se tinha esforçado para vender os toiros em condições vantajosas que perdeu a conta aos artifícios montados nesse firme propósito de fazer o negócio que agora acabara de concluir na feira de Melres.
Nem em Canedo lhos quiseram por duas notas de cem mil reis a quantia que correspondia exactamente à última avaliação feita pelo Roto de Cabeçais nos vinte e cinco em Entre-os-rios.
- Tratantes, passa um homem um ano inteiro a pastar e a engordar o gado e agora dão-lhe aquela miséria de compensação por tanto esforço! Ele é erva, folhelho, palha e muitas vezes milho do canastro para manter uns bois sempre na esperança de, depois de bem medrados, tirar deles um suplementar rendimento de forma a poder sobreviver enfrentando as muitas adversidades que podem surgir sem a gente contar.
- Cento e oitenta paus por dois touros; bichos graúdos, possantes, capazes de lavrar num só dia dois campos de milho ou acartar do monte, cinco ou seis carros de mato, é mesmo a gozar com quem trabalha a terra!
Mas pronto, agora é rezar-lhes pela alma, no fundo o que interessava mesmo era sentir no bolso das calças de ganga o bafo das notas que pareciam acabadinhas de fazer na Casa da Moeda. São raras, quem tiver a felicidade de deitar os olhos em cima de uma montanha daquelas, todas de vinte escudos, pode considerar-se um homem rico.
Caminhava em direcção a casa pelos caminhos do monte levando numa mão a soga agora desocupada e na outra a vara de marmeleiro com que tocou os animais até à Melres.
- Isto de antecipar as feiras também tem que se lhe diga, um homem faz contas à vida e tudo o que lhe alterar o calendário religiosamente estabelecido no princípio do ano, acaba sempre por trazer grandes contrariedades. Falhou um dia de poda lá em baixo nas Enxurreiras e ainda por cima se havia de fazer bom tempo, era hoje. José Ratana é um tipo rude e de aspecto típicamente labrego. Tem feições largas onde sobressai uma boca larga por baixo de um nariz achatado a marcar o meio da cara queimada pelo sol. Umas ligeiras rugas começam já a florir um pouco por todo o rosto e um cabelo expesso e esbranquiçado, afirmam uma meia idade feita de muito esforço para sobreviver. As roupas que lhe cobrem o corpo, são do melhor que adquiriu nas nas tendas das feiras das redondezas e só a samarra aconchego fundamental, engolada por pele de raposa, foi feita por medida nos armazéns Peixoto em PenafielAs gentes do campo, na sua simplicidade herditária, constituem decerto a mais pura raça Lusitana incapaz de ferir e magoar seja quem for mas detentores da força e do engenho que além de produzir o pão, sabe o que quer da vida e cumpre com rigor absoluto as tarefas que lhe forem confiadasTarde de Dezembro, véspera de Natal e ele a passar nas Corgas a digerir um negócio que sem ser bom ou mau, acabou por não atingir os desejados objectivos. A vida é cheia de surpresas e raramente concede aos mortais o pleno realizar das suas aspirações. Decerto para bem deles pois a cumprir-se os desejos de cada um, seria impossivel haver harmonia no universoQue se lixe, haverá outros negócios mais vantajosos, a vida e o mundo não acabam hoje e, se Deus quiser, os acertos deste prejuizo hão-de ser recompensados para o ano que vem. É tudo uma questão de tempo mais coisa menos coisa; quem aqui anda a dar o corpo ao manifesto há tantos anos, também pode esperar mais alguns por melhoras de vida. Um pobre, por mais voltas que dê à caximónia, só por milagre sai da cêpa torta; são muitos a cobiçar-lhes os tostões e, como os lobos da serra, estão sempre à espreita a agurdar o momento de dar a ferradela. O Ratana está farto de ser mordido e venha quem vier será dificil convencê-lo que isto não é obra do destino, daquela marca que trazemos ao nascer que não há sabão que consiga tirar. O filho apesar meio cego de uma vista, teve se ir para a tropa, apurado para todo o serviço militar na ispecção em Penafiel, viu outros, filhos de gente rica bem nutridos ficarem livres, dados como incapazes escapando assim à guerra do ultramar. É fodido mas não há volta a dár-lhe; o mundo foi feito só para alguns e se Deus não voltar cá abaixo, vai continuar a ser por muitos e longos anosUm lavrador também pensa e embora seja raro perder tempo a meditar sobre a vida, há momentos em que apetece um homem desabafar nem que seja consigo próprio e assim sendo, não corre o risco de ser tupado por um bufo e ir direitinho ao chelindró levado pela Pide.
Anoitecia, o sino da igreja de Sebolido batia as cinco horas da tarde e o Ratana aconchegou-se um pouco mais dentro da samarra tentando impedir que o ar gelado de Inverno lhe penetrasse no corpo e chegasse até aos ossos.
Já perto do povoado, ali onde os caminhos se encontram e prometem variadas e incógnitas direcções, parou a contemplar a capelinha da Senhora do Monte. De chapéu na mão, sim porque um verdadeiro devoto tem de se descobrir e guardar respeito às coisas de da fé, benzeu-se e fez uma prolongada vénia. Um homem trás sempre dentro da solidão sentimental da sua vida, intangíveis mistérios e ele na condição de criatura feita à imagem e semelhança de Deus, não escapava aos propósitos do destino e carregava também a pesar-lhe em cima do lombo, inquietações, angústias e medos e muito mais coisas que o iam minando como a aguardente a um alcoólico.
Como se de repente lhe viessem à cabeça todas as dolorosas realidades da vida, avançou para a entrada da capela disposto a rezar. Foi um desejo imprevisto, um baque no coração que não tem explicação mas que lhe condicionou todas as vontades previsíveis e lhe ordenou numa hipnose estranha o que tinha de fazer.
- O meu Quim! - Exclamou
O filho ausente na tropa a lutar na Guiné, nesse ultramar que derrete juventudes inocentes e que já há dois natais não se sentava à mesa da ceia, entrou-lhe pelo pensamento dentro com um tiro desferido à queima – roupa que o degolasse ali, entupido por um nó que se formou de repente na garganta e a ferida da sua quase insuportável ausência, aquela fenda no peito que lhe andava a esmagar o coração, principiou de novo a sagrar.
Ajoelhou na terra húmida do recinto e, como um naufrago aflito no mar alto que visse ao longe o navio da salvação, ergueu as mãos ao céu e soltou o apelo que o devorava:
- Senhor, eu sei que sou pecador que decerto nem mereço um simples olhar da Vossa Divina Graça mas se poderes trazei de volta o meu pequeno, não por mim mas pela minha Ana que morre de saudades do filho! Não sabemos dele há mais de dois meses, o Maioto carteiro não nos chega com notícias, tão-pouco com um aerograma a dizer se está mal ou bem!
Os olhos humedeciam-se à medida que se embrenhava no entorpecimento da espontânea oração e aquele ser dos campos, era então o símbolo vivo de todas as fraquezas humanas, reduzido ao nada, ao barro de que foi formado ao pó a que há-de voltar a ser um dia. Recorria à santa que nem sequer via porque fechada dentro da capela decerto nem o ouvia e pelo mais certo ignoraria as suas preces. Tão pequena e frágil é a condição humana, desprotegido agarrava-se ao divino com tal devoção que só um Deus muito severo e cruel não atenderia a tão humildes e sinceras súplicas.
Levantou-se e benzeu-se de novo com mãos trémulas ao mesmo tempo que deu um passo em frente e empurrou a porta do pequenino templo que se abriu e deixou ver na penumbra do reduzido compartimento, um altar mais ao fundo com a imagem de N. Senhora de Lurdes pausada em cima de uma toalha de linho branco que o olhava com a celeste bondade dos santos.
Assaltado por um sentimento de piedade repentino avançou timidamente para ela e ajoelhado disse:
- Estou eu para aqui feito tolo a pedir coisas e a senhora ai sozinha ao frio dentro da capela sem comer e sem beber. Hoje é dia de festa e se vossemecê não se importar, vai consoar lá a casa comigo e com a minha Ana. A comida já deve andar às voltas na panela, são batatas cozidas com bacalhau e tronchudas regadas com azeite da terra, do mesmo que ilumina o Santíssimo Vosso filho que está lá em baixo na igreja e, se Ele quiser, há-de haver uma rabanadita ou duas feitas com mel do Manel da Deolinda e também um naco de bolo rei para socega! Não sei se a Senhora gosta mas é sempre melhor que nada! Se a deixar aqui, nem consoada vai ter! Olhe que a minha Ana cozinha que é uma maravilha!
Sem esperar resposta pegou na estátua da santa, embrulhou-a na toalha, meteu-a debaixo da samarra saindo a caminho de casa.
Passou à Cruz de Ferro já a noite descia em manto gelado a cobrir os campos e os montes e as tronchudas nas leiras da Rodela, luziam já cobertas pela humidade do sereno nocturno.
Chegou finalmente a casa quando a esposa preocupada já se tinha decidido a procurá-lo. Ao ver aquele embrulho debaixo do braço do marido exclamou surpreendida:
- Que é que trazes ai homem, é um bacalhau? Se for já vem tarde, o que vais comer hoje, já está cozido!
-Não mulher, respondeu num sorriso de contente, trago aqui a N. Senhora de Lurdes que este ano resolveu vir consoar cá a casa! Em falta do nosso Quim fica ela a fazer companhia à gente, é sempre uma mulher que mete respeito!
Ela calou-se entupida por brusca e inesperada emoção a olhar para o marido, aquele pedaço de asno, rude como toco de carvalho, mas que tinha dentro do peito uma alma do tamanho do mundo. Chorou por que ele lhe lembrou o adorado filho ausente e também por confirmar mais uma vez ao longo desta vida de trabalhos e canseiras, que casou com um homem capaz de retroceder no tempo e reencarnar a inocente época em que foi criancinha.
A ceia estava pronta, na travessa de barro com ramos de flores estampados, apareceram as fumegantes batatas cozidas meio cobertas com postas de bacalhau e tronchudas. Um cheirinho a Natal espalhou-se na cozinha que a luz de um lampião a petróleo mal iluminava e a mesa posta tinha três talheres e outros tantos pratos, ao centro mais um outro cheio de rabanadas e um bolo rei embrulhado num papel de fantasia com pequeninas árvores de natal desenhadas, completava a fartura que se repetia todos os anos nesta noite.
A lareira crepitava em farto lume e, pela primeira vez neste Inverno, superava o frio que entrava pelas frinchas da parede e das lousas da cobertura porque o lavrador tinha trazido do monte um enorme tronco de castanho.
Trum, trum, trum
Alguém batia no postigo. O Ratana levantou-se num pulo e foi abrir a porta ao inesperado visitante. Ali, à frente dos seus olhos estava o filho fardado de camuflado militar. Nem um som pronunciou a sua boca estupefacta e sem medir os gestos, avançou e abraçou-se a ele a soluçar. A Ana veio também a correr e, por entre lágrimas e risos os três eram um só de pé na soleira da porta da singela casinha.
Veio a ceia agora ainda mais apetecida e os quatro a consoar em volta da mesa, faziam lembrar o santo presépio de Belém

quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Lavradores

Lavradores



Cortiça é terra de lavoura alpendrada nas arribas do Douro estende os campos em socalcos até lá abaixo às beiras do rio. Dali mira-se Midões e Gondarém encravadas no sopé da montanha receber os ventos do rio que parecem eternos. O povo é muito mas raro o casario. Daqui mingúem sai durante toda a existência que proventos novos em horizontes próximos não existem e mesmo por de trás das montanhas, nas lonjuras avistadas do alto de S. Domingos, pouco ou nada há onde um um homem possa ganhar o sustento. Tudo mirrado e abandonado nestes confins do mundo onde nunca chegou a mão protectora que gerasse progresso que se visse. É então na terra e no rio que o povo deposita a esperança de sobrevivência pescando, amanhando leiras, tratando das vinhas, das oliveiras e de algumas árvores de fruto que aparecem dispersas ao longo da encosta numa batalha terrível para se manterem de pé. Ninguém quer saber deles, abandonados nestas bandas desoladas, só alcançam algum consolo da alma nas festas e romarias que um pouco ao redor de cada uma das ermidas plantadas nos altos dos montes, se vão matematicamente realizando todos os anos.align="justify">
O Labaredas e a Júlia Ricardina passaram a vida a pescar e tratar dos campos. Ano após ano, dias intermináveis de uma vida a fazer da terra a fábrica do pão, o sustento de toda a família, amealhando migalha a migalha a parca riqueza com o suor do rosto tendo como objectivo uma meta distante que os fazia correr e sofrer.
Os dois filhos, na esperança de futuro melhor, partiram para terras estrangeiras em busca de melhor pão e por lá ficaram casados, também com filhos, acolhidos sob pátria diferente que lhes dava tudo para sobreviverem condignamente.
Muitos anos passaram pela vida deste par de idosos sem a presença de quem poderia dar algum consolo numa velhice que trás sempre o desconforto das maleitas, feita de manhãs e tardes sentados no velho alpendre da humilde casinha plantada ali numa arriba do Douro a desmoronar-se sobre a água, no pedaço de chão que os vira nascer, com os campos todos estendidos à frente dos olhos cansados e o rio Douro a correr sinuoso e sereno lá em baixo nas profundezas dos penhascos de Cancelos, trocavam afectos e carinhos e desfiavam lembranças de tudo o que de feliz e doloroso ficara irremediavelmente para trás, nos anos da já longínqua existência, sorrido todavia e esperando calmos por um dia que haveria de ser o derradeiro.
-Lembras-te Júlia da Festa de S. Mamede em sessenta? Foi lá que o nosso Afonso encontrou a Joana. E aquele beijo e abraço na desfolhada de Paços quando ele encontrou a espiga do milho - rei?

Se não fosse o milho - rei
O que seria eu não sei.
Não há desfolhada, animada.
sem milho - rei?
Se vem uma espiga, rapariga.
Cumpre-se a lei.
Um abraço, tens de dar.
Não te podes escusar.
Era o gira-discos do Correia brasileiro quem tocava essas saudosas músicas do baile! Melodias com sabor a terra, genuínas de um povo tão ilustre como a nação que o tem.
-Se me lembro António, ele dançava rapioqueiro e levava-a presa nos braços a voar pela eira toda!
-E o casamento do Fernando, retorquiu ela? A igreja estrumada de gente só para o ver casar com a Rosa! A cachopa era jeitosa, linda e ele apanhou-a num repete!
-Ah, mas os bailes eram de satisfazer um homem, repicava ele a seguir sempre comovido as suas saudades.
Lembras-te do Verdinho?
A voz sem já timbre do Labaredas procurou a música e a letra da velha cantiga numa memória quase apagada:

Ai verdinho meu verdinho.

Esquecer-te não há maneira.

Escorrega devagarinho.

Apaga-me esta fogueira.

Que importa o vinho ser verde

E me faz cantar na rua

Ai verdinho meu verdinho

Não há côr igual à tua.

Gosto muito do verdinho

Nem que seja de Amarante

Na caneca ou no copinho

Desaparece num instante.

Ai verdinho meu verdinho

Que nasceste da videira

Tu para mim és pão e vinho

E cor da minha bandeira.

O António escondeu-se nos confins das suaves recordações por alguns momentos enquanto ela trauteava baixinho a sua modinha predilecta:

A pantufa de flanela do António batia ao compasso da cantiga na madeira pôdre do chão do varandim e, na magia do imaginário, vislumbrava o rancho de Santa Marta de Portuzelo a evoluir no palanque da festa do Senhor dos Remédios em Rio de Moinhos e o ramalhete de oiro agarrado aos pescoços das moçoilas, balançava rico ao sabor do enfeitado som das concertinas.

Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.

De dia ao sol, de noite ao luar
De noite ao luar, de noite ao luar.

Ó minha Rosinha eu hei-de te amar.

Ai a lai a larai a lai

Ó minha Rosinha eu queria-te tanto.

Como a rosa branca nascida no campo
Nascido no campo, nascida no campo.

Ó minha Rosinha, eu queria-te tanto.

Ai a lai a larai a lai
Ó minha Rosinha bailaste, bailei.

Bailaste no adro que eu bem te mirei
Que eu bem te mirei, que eu bem te mirei.

Ó minha Rosinha bailaste, bailei.

Ai a lai a larai a lai
Ó minha Rosinha do meu coração.

Tu vais p'ra Lisboa, não levas paixão.
Não levas paixão, não levas paixão.

Ó minha Rosinha do meu coração.

Ai a lai a larai a lai
Ó minha Rosinha cartas são papéis.

Não quero que gastas comigo dez reis
Comigo dez reis, comigo dez reis.

Ó minha Rosinha cartas são papéis.

Ai a lai a larai a lai

Ai a lai a larai a lai.

Ela calou-se; nos seus olhos lindos de épocas distantes apareceu o brilho da mocidade e aquele rosto sofrido de mulher do campo, voltou a ter as belas e mimosas faces de menina.
Depois vinham as longas pausas, o deixar fluir as lembranças no silêncio crespuscular do rio e da generosa terra como quem fala e agradece ao Criador pelo alcançar de tantos e felizes objectivos.
A Júlia Ricardina e António Labaredas, figuras singelas de um mundo ainda rural onde alegres e livres cantam passarinhos, os ares são ainda de pureza e há bosta de boi caída nas ruas, entretidos no amanho das terras, nunca imaginaram na sua humilde simplicidade, nunca poderiam ter imaginado, que o destino muitas vezes é cego e cruel e raramente distingue o trigo do jóio e vai pregando partidas com uma crueldade que estarrece um santo.
Assim apareceu a doença, um flagelo que incapacitou Júlia a camponesa por quem o tempo passou oitenta e cinco vezes e deixou marcas, feridas que não sagram mas acumulam constantemente dor e sofrimento, rendida a um calvário indescritível, vivendo presa numa cama sem se poder mexer, num estado de coma quase profundo, dependente de tudo e de todos, sobrevivendo apenas pela dedicação e o amor solidário do velho marido.

-Júlia, Júlia sou eu, estou aqui à tua beira; abre os olhos, fala comigo!

Nada! Só a mão direita da muribunda lavradeira responde ao desesperado apelo crispando-se na mão dele como se a dizer-lhe, estou aqui.

A amargura e o desespero viveram com o Labaredas estes últimos anos fazendo estragos irreparáveis na sua alma.
Foi cuidado dela como pode amarrado ao infortúnio, vergado pela má sorte, torturado e já no limiar de tantos anos de vida de canseiras e trabalhos, quando mais necessitava e julgava mercer algum apoio e carinho, uma réstia de ternura e conforto para os últimos tempos de existência, foi abandonando as terras por amor à esposa vendo o destino a tornar-lhe o fim num verdadeiro suplício.
Tempo longos a viver de braço dado com a dor, nunca sentiu a mão amiga de ninguém que lhe estendesse uma manta de aconchego, uma alma generosa que procurasse ajudar este homem a quem a desgraça bateu à porta.
Acentuou-se o abandono das coisas, a terra deixou de ter água, as roseiras secaram, as silvas evadiram os campos, o próprio sol deixou de lhes esquentar a alma e o desconforto daquela singela habitação desprezada, tornou quase impossível lá viver.
O Labredas olhava o horizonte do rio impaciente à espera que alguma embarcação viesse com auxilio. Nenhum barco cruza o rio neste tempo. Terminaram já as fainas da pesca e os Rabelos presentindo as asprezas do Inverno, ficam-se âncorados na Régua. Rezava, pedia a Deus que lhe renovasse a esperança que ia morrendo aos poucos em cada amanhecer, que permitisse um pouco de melhoras à esposa, que lhe minguasse o sofrimento que era demais e porque viver assim era já impossível.
Nenhuma resposta chegou vinda do céu nem mesmo da terra onde os homens loucos cultivam a insensibilidade e a descarada hipocrisia. Então, numa madrugada, num daqueles límpidos amanheceres que só o Douro tem, a Júlia deu o seu último suspiro. Ele, chorou agarrado ao corpo da mulher que o tinha acompanhado desde a juventude sem uma queixa, sem um protesto perante as asprezas das suas vidas comuns. Depois, já muito para além do desespero, abraçando agora a dor da solidão, pegou na caçadeira, amiga e companheira de felizes caçadas, sentou-se na varanda e olhou pela última vez o rio Douro e os campos que com tanta ternura cultivou suicidando-se de seguida com um tiro na cabeça. Houve um silêncio pesado na Cortiça que durou dois dias, o tempo suficiente para ser notada a falta do casal. Encontrara-nos finalmente
num dia em que o sol continuava a brilhar no céu, os passarinhos a cantar e o rio Douro a correr serenamente enquanto os dois seguiam prostrados em caixões a caminho do túmulo.
Os filhos atónitos vieram ao funeral sem compreenderem semelhante atitude do pai que fora sempre um homem honrado e crente, incapaz aos olhos do povo de tão horripilante proeza.
Destino malfadado que, quase sempre, inunda de felicidade a vida de muitos que passam a vida a rouba-la aos outros, enquanto tantos vivem em aflição permanente.
Ainda há lindas flores num cemitério em Canelas, ali onde o esplendor do Douro mais se acentua, que nasceram selvagens em cima de duas campas a par. A resposta do céu chegou tardiamente mas veio transformada em rosas.

Dizem que, em noites de luar, quando serena o rio e o silêncio se instala nos montes, as roseiras se entrelaçam e as rosa parecem beijar-se ternamente.

sábado, 25 de Outubro de 2008

A Sanfona de Nespereira

SANFONA DE NESPEREIRA

É madrugada mais precisamente quatro da manhã. Uma música dolente tocada ao vivo pela sanfona de Nespereira de Cinfães onde sobressai, a rabeca saia pelas janelas abertas da casa da encosta na quinta de Santa Cruz. A música é tipicamente regional e os sons das melodias difundem-se na noite e espraiam-se em ecos doces pelo rio abaixo. As cortinas de linho da imponente mansão rendadas e bordadas com fantasias, balouçam ao sabor da ligeira brisa, ora para dentro, ora para fora, numa dança melancólica suave e fresca.

O Vaz Figueira moço fidalgo alto e magro na verdura da mocidade, já recolheu ao quarto cor-de-rosa onde uma lâmpada eléctrica enroscada num casquilho protegida por um prato de esmalte, balouça ao ritmo da brisa conferindo contornos indecifráveis aos móveis de século. Com gestos de mestria próprios de quem se dedica de alma e coração às artes do amor, o rapazola tosquia a filha do colega da quinta das Granjas. Ela moçoila de vinte anos, estatura mediana, magra e bonita, culta de colégios internos de Lisboa, aproveita as férias para distrair e retemperar forças para enfrentar o ano escolar que se avizinha. No salão nobre, o conde do Pedregal gordo como um chino, elogia a quarentona da mulher por feitos e dotes de cozinheira que nunca mostrou a ninguém nem mesmo a ele. O Rocha Melo figura cebada não muito entrado na idade, segura uma barriga do tamanho de um pipo de dois almudes e ouve entusiasmado as narrativas que o champanhe faz soltar de quase todos os presentes, enquanto imagina as partes baixas da mulher do conde sufocadas e cobertas entre as pernas pelas grandes saias de roda com folhinhos. A noite não ficará por aqui, embalados pela contradança do conjunto dos Finfas, abraçam-se apertados enquanto rodopiam ao som da melodia e espremem os peitos das damas num roçar permanente. O champanhe corre afoito nas taças de cristal trazidas pelo Pinto da Rabuça que faz de criado. Vestindo uma jaleca branca e luvas da mesma cor, mais parece um pinguim. As calças são pretas, os sapatos de verniz brilham e condizem na perfeição com o empastado cabelo à força de brilhantina.

- E virou! É a voz do mandador o Toninho da Tulha recrutado à pressa entre os mais abastados do sítio. Gorducho e baixote, vermelho da cara parece um tomate maduro. A cabeça parece feita a torno não se sabendo onde começa nem onde acaba dado que o pescoço pura e simplesmente desaparece na grossura da carne. Do queixo saem a pender perpendicularmente umas bofélas que fazem lembrar um bem cevado porco matadouro, se bem que todo ele é parecido com tal, ou então visto de cima da varanda, é o retrato chapado de um saco de batatas com pernas. Os olhos são arregalados, brancos, raiados de vermelho e quebrados ao centro por duas pupilas dilatadas e pretas. Enverga umas calças escuras de fazenda às riscas e uma camisa de popelina branca aparece à cinta a sair por baixo do colete preto forrado na traseira a cetim da mesma cor.

Boa rolha é este Toninho; na Quinta da Tulha onde vive e de que é proprietário, junta os velhotes na adega e enche-os de vinho onde previamente mistura aguardente embebedando-os a todos. Comida não dá o filho da mãe, mas vinho é à discrição. Quer vê-los a tombar como postes de telefone arrancados por violenta tempestade e fica a rir-se a bandeiras despregadas até se mijar todo. Faz mais o remelado da trampa, como lhe chama a Micas Barulha. Contrata mulheres para a jeira do campo e depois anda a correr atrás delas com a gaita de fora pequenita e murcha, que a folia da juventude já lhe morreu dentro das ceroulas há muito tempo sem nunca ter dado provas de reprodução. O velhote cobiça tudo e, as cenas de cio que só representa acabavam sempre da mesma maneira; alaga-se todo pelas pernas abaixo.

A sanfona dos Finfas de Nespereira toca a Valsa da Meia-noite no salão mas onde é que ela já vai! Para os fidalgos não faz diferença nenhuma pois vão dormir e ressonar alto até à próxima noite. Pior estão os mineiros que passam a caminho da mina vindos de longe trazendo nas pernas horas e horas de caminhada desde o cimo do Marco de Canavezes, de Penafiel e de outras terras. A cama foi-lhes breve, marcham há horas pelas serras abaixo e os sinais do gozo burguês, só lhes provocam comichões nas partes. Querem lá saber da festa; festas em condições são as de S. Domingos, de Santa Eufémia, da Senhora das Amoras e o S. João do Porto. O resto é assim uma coisa feia e desengraçada, própria de quem não tem mais que fazer, de ricos que trocam de mulher mais vezes que o um mineiro troca de camisa.

A música abrandou e os últimos acordes ficam a pairar nos campos, a alvorada rompe por cima das serras e descobre ao fundo do vale, um rio imenso a despertar também.

sábado, 18 de Outubro de 2008

A Barca de Fantasia

A BARCA DE FANTASIA


Matilde era decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola de Rio Mau. Usava nas tranças do cabelo negro que pendiam sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que ia bailando de forma graciosa quando ela, saltava as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada podia perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imaginava o mundo inteirinho em sonhos e manifestava vontades interesseiras de alargar horizontes e conhecer terras as quais pela primeira vez ouviu descrever no ensino primário.
Havia nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do Douro, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que foi crescendo no seu coração e se havia de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada. -Eu quero ver o mar! Foram estas as palavras da Matilde, numa manhã de um dia calmo doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice, quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos. Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização!? Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido, mas sim outras tão pouco comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária. Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde e de muitos idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão querida. O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela tinha nascido mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só poderia imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corre para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, segue os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que voltava a Pédemoura empurrado pelas marés vivas. O Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes e primeiras fantasias, tinha para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas nunca impediu, não quis impedir, que as águas da vida lhe dessem outro chão por alguns anos. Partiu no sentido inverso do sonho e, movida por medonhas saudades, voltou ao lugar onde nasceu.
Soube que ele teve saudades dela, que se revoltou na sua ausência o tolo; perdido de ciúmes, a julgar que ela o tinha esquecido e sem saber que o levou no coração, que o deixou correr nas veias livre e senhor de todo o seu destino, como um louco inundou a terra.

-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?

-Não, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala! O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Teve a sua prenda a materialização da sua visão celeste e, logo no outro dia corria para ele desde o Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor da história fascinante que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais foi capaz de sair. Uma enclausurada, é o que se sente hoje por nunca ter quebrado as amarras das conspirações em que a vida a meteu sem lhe ter dado ouvidos, sem lhe perguntar ao menos, se ela queria ou não ser feliz.
Olha ainda agora esse horizonte de água, perdido nas neblinas da vida como um náufrago solitário e aflito em alto mar. Olha o que era nesse tempo de criança e o que é agora depois de ter perdido o mar, o seu veleiro, o pai que lhe contou as histórias e a mãe que a levou até ao oceano só para lhe mostrar uma ilusão. Olha o que sobrou desse feliz presépio desfeito reconhecendo ainda em si própria, a criança desejosa a quem só sobrou um horizonte.

-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe, e eu queria tanto ver um barco! Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue, que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido. Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer ensejo de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho. A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio:

-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...

-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia…

quarta-feira, 2 de Julho de 2008

SANGUE CIGANO

SANGUE CIGANO

A caravana serpenteou pela poeirenta estrada nas fraldas da serra da Boneca. As carroças, puxadas por cavalos eram sete carregadas com os mais diversos utensílios que podem existir numa habitação e, sentadas por cima dos panais das tendas, seguiam as mulheres, umas ainda jovens, outras mais velhas segurando no colo crianças pequenas que baloiçavam ao sabor dos saltos que as irregularidades do caminho provocava nas molengonas. Ao lado com as rédeas dos animais presas nas mãos, caminhavam os homens e dois cães já velhos com aspecto de cansaço deitando fora da boca a língua seca pelo escaldante calor da tarde.

Uma lata acompanhada por diversos utensílios de cozinha pendurada num dos lados da carroça da frente, continha objectos que tilintavam e anunciavam distante a passagem da peregrina procissão.

Tinham atravessado a fronteira em Bragança vindos de remotas planícies espanholas numa sina pária, vagabunda que lhes lembra todos os dias que a pátria de um cigano é onde estão os seus pés. Estabeleceram-se em Vimioso depois de numa caminhada nómada e sem pressa obedecendo a milenares tradições permanecendo fiéis ao espírito livre do seu povo que os fazia cumprir uma espécie de judaica e errante maldição. O último acampamento conhecido tinha sido, até à madrugada, o campo da feira em Penafiel mas tiveram de partir para poder sobreviver à habitual hostilidade dos seus hospedeiros. Ninguém quer ciganos por perto; os efeitos de perversas xenofobias hereditárias, prolongam-se de família em família e só a Régua no Douro, Vila Verde no Minho e Oliveira do Douro em Gaia, estabeleceram com eles um pacto de não agressão. Pobres ciganos, inocentes da maioria dos crimes de que são acusados, vão pagando de geração em geração o seu incondicional amor à liberdade.

A fila aparecia no alto a dobar a serra tendo pela frente um cenário maravilhoso que os havia de fazer parar lá ao fundo onde a mancha na paisagem é verde e o Douro corre serenamente. Montaram acampamento por baixo dos sobreiros que ensombravam uma zona plana à porta da taverna do Belmiro e adivinhava-se que ali iriam permanecer algum tempo ramificando os negócios pelas terras vizinhas. Veio a noite que desenhou os contornos das tendas montadas em círculo iluminadas com foscas luzes de lampiões a petróleo e, cá fora, havia já preparativos do ascender de fogueira. Do meio do silêncio do sombrio lugar, começou a ouvir-se o trinar melancólico de uma guitarra espanhola. Palmas e sapateados anunciavam o principio da festa em quanto alguém com mestria dedilhava as cordas ao mesmo tempo que outro sacudia um pandeiro e um cantar dolente que fazia lembrar o vento a acariciar as desérticas planícies de Almería, enchia a noite de festa onde cá fora as mulheres vestidas de coloridos trajes, peça sobre peça, de castanholas batentes enfiadas no dedo polegar, outras agitando leques multicores, dançavam o flamengo transformando o ambiente como se sentissem em Sevilha, Córdova ou no bairro de La Mancha ou ainda em Úbeda ou Baeza aldeias brancas e solitárias rodeadas de olivais tão distantes daqui, exprimindo o espírito, a luta, o desespero, a esperança e o orgulho da raça Calé originária das terras difíceis de Sierra Nevada e toda a província Andaluza. Ao redor da fogueira entretanto acesa, a dança era guerreira e mourisca antiga herança que os Sarracenos perseguidos deixaram no seu último reduto em Granada e só as mulheres evolucionavam na magia da contra luz que as labaredas produziam e ouviam-se olés em uníssono quando o tocador abafava repentinamente as cordas ao instrumento e só esses sons manuais repercutiam na noite. A voz masculina do esguio e trigueiro cigano, progredia pelas trevas dentro solta, carregada de mágoa, nostalgia e saudades das terras longínquas de Espanha que tinham abandonado há muito.

Que bonitos ojos tienes.

Debajo de esas dos cejas.

Debajo de esas dos cejas

Que bonitos ojos tienes.

Os acordes firmes e melódicos compassados pela mestria do toque da mão do tocador no tampo do instrumento, atraíram o Ramiro que veio ao encontro da improvisada serenata como se seduzido pelo som harmonioso que um vento nocturno lhe fez chegar aos ouvidos.

Ellos me quieren mirar.

Pero si tu no los dejas.

Pero si tu no los dejas.

Ni siquiera parpadear.

Cada vez mais se acentuava o entusiasmo da festa e até o próprio Ramiro, infringindo a rigidez do ritual, já bailava com Vera Lúcia uma das jovens e decerto a mais bela das ciganas do acampamento numa intimidade tal que fazia crer que os dois, já se conheciam desde o princípio da vida.

Malagueña salerosa.

Besar tus lábios quisira.

Besar tus lábios quisira.

Y dicirte niña hermosa.

Que eres linda y hechicera.

Ao fundo da tenda central, Leandro o velho patriarca assistia à dança preocupado enquanto a neta trocava olhares comprometedores com o jovem intruso que parecia fascinado com semelhante visão.

Si por pobre me desprecias.

Yo te concedo razón.

Yo te concedo razón.

Si por pobre me desprecias.

Yo no ofrezco riquezas.

Te oferezco mi corazón.

Te oferezco mi corazón.

A cambio de mi pobreza.

Ramiro já entregava o coração a troco só de um olhar da linda cigana e pouco ou nada haveria a fazer para parar a súbita afeição que nascera ali, a noite apadrinhava e prometia ir crescendo ao longo da dança pagã até se tornar perigosa. A guitarra ia marcando o compasso e a voz do cigano trigueiro era a mágoa feita cantiga no tremer das cordas vocais que prolongavam o fatalismo dos versos e enfeitavam ainda mais aquela maravilhosa noitada de sonho.

Malagueña salerosa.

Besar tus labios quisira.

Besar tus labios quisiera.

Y dicirte niña hermosa.

Que eras linda y hechiera.

Que eras linda e hechiera.

Como el candor de una rosa…

Ele deixou-se prender no amor de um momento por uma cigana morena de cabelos pretos e longos com uma flor de papel espetada, presos por uma fita vermelha e arrecadas douradas a pender em cascata das graciosas orelhas que o olhava na afeição de uns olhos tão brilhantes e negros como as mais negras e belas noites de Andaluzia, desconhecendo a tirania da lei a quem Vera Lúcia jurara obedecer. Na manhã do outro dia debaixo do sobreiral fumegava ainda a fogueira que aqueceu a festa mas o acampamento tinha partido logo ao alvorecer levado pela nómada caravana que serpenteava lá longe nos caminhos da serra das flores. O velho nómada accionara a sua condição de chefe e patriarca e antes que o ardor do sangue cigano da neta evoluísse até provocar mortes, deu ordem de partir cedo e para longe onde se escoasse para sempre o fogo daquela já maldita paixão. Ramiro chegou ao ser dia ao sobreiral em busca da mulher que o enfeitiçara e prendera e deparou com a solidão e abandono do sítio onde pela primeira vez se deixou encantar. Não viu sequer partir a caravana que levou a sua amada e mesmo hoje não sabe se ela é viva ou se é morta ou anda ainda vagabunda pelo mundo fora e, se lá longe, muito longe, o tenta agora esquecer como ele a recorda agora.

domingo, 8 de Junho de 2008

Coisas boas da beira do Douro


Algures em Arnelas ,V.N. Gaia 06 de Junho 2008
Sável a assar lentamente em brasas de lenha de poda de videira

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

A Promessa

A Promessa

Ainda existe a frondosa nogueira a sobreviver num aluvião formado pelos detritos que violentas cheias deixaram na foz do rio Mau como se o tempo não tivesse passado por ela. Aquele pequeno promontório feito de areia e lodo conserva no silêncio das coisas materiais dramáticas histórias das vidas de gentes que por ali passaram anónimas ao longo de dezenas de anos. Algumas, por tão banais que foram, esqueceram-nas definitivamente os homens e nunca mais eclodirão nos céleres espaços das memórias; outras, talvez aquelas que mais e maior dor provocaram, permanecem como ferida a sangrar pelos tempos fora sem qualquer possibilidade de cicatrização. A vida é feita de gostos e desgostos e de muitos mais adjectivos que qualificam os momentos em que acaba a fraternidade nas pessoas e começa a hipocrisia. Nem tudo o que reluz é oiro e se muitos, em paz, se julgam cumpridores dos deveres que têm em relação ao próximo, falece-lhes a tranquilidade da consciência por haver ainda tanta gente a sofrer inocentemente por esse mundo alem.
Sítio de beleza inigualável onde a imensa massa montanhosa se deixa enfeitar por esta corrente líquida, transparece reluzente nas profundezas de um vale só imaginado num sonho. E são precisamente os sonhos, antes esporádicas alucinações que nascem e morrem todos os dias como gritos imediatamente abafados mas teimosamente a sobressair do abandono e da miséria quase absoluta que por aqui campeia forçosamente aceite sem claros queixumes mas anseio permanente de revolta por parte de um povo generoso, herdeiro de tradições milenares, conservador e continuador das artes de navegar e pescar neste rio que é um prodígio da Natureza. Artífice na construção dos próprios barcos e redes com que ganha o sustento, é objectivo, e pragmático mas infelizmente vive preso nas garras de obsoleto poder.
Quem vem dos lados de Entre-os-Rios, surpreende-se com a terra encravada num recanto do rio com as casas debruçadas sobre a água numa harmonia perfeita, numa cumplicidade permitida por ambos só raramente quebrada por cheias descomunais que afligem, destroem e matam o resto da esperança.
Vista do lado de lá, da margem onde Pedorido tenta progredir, é um presépio que Deus quis deixar ali. Rio Mau é decerto um dos locais mais paradisíacos do rio, mas isso de pouco ou nada lhe tem valido porque beleza não enche barriga e moça bonita raramente casa rica.
Havia a viver numa barraca de madeira situada por baixo desta árvore centenária uma rapariga que sonhou vir um dia a ser feliz. Viam-na ali parada a olhar um horizonte feito de céu e rio a procurar na bruma daqueles tranquilos amanheceres, um pequeno barco azul que vira partir num dia já meio esquecido na sua lembrança e era como se uma grotesca e imóvel estátua de gesso esculpida por algum tresloucado escultor.
Nessa embarcação de madeira, alguém tão importante e essencial como o ar que respirava fora-se nas distâncias da sua plena e airosa juventude rumo ao país da árvore das patacas carregando aos ombros montanhas de ilusões à mistura com sonhos trazidos pela carta de chamada enviada lá de longe pelo seu primo João.
— Vou para o Brasil, Maria do Céu! Voltarei rico para te levar comigo, meu amor! Vais viver como uma princesa! Espera por mim! Prometo-te que voltarei!
Os seus olhos inocentes ficaram pregados àquele barco que partia do cais do Remoinho. Correu desvairada pelo carreiro pedregoso da margem acompanhando a embarcação até ao promontório e viu-a desaparecer lentamente na curva das entulheiras de Germunde. As lágrimas vieram depois suplantar a alegria da promessa como se o céu desabasse todo nesse instante. O coração sente primeiro que a razão e, embora a esperança se mantivesse intacta, lá dentro onde o peito é sacrário inviolável, começava a nascer o sofrimento.
Tinha então dezoito anos a menina, qual mariposa em flor que emanava a angélica beleza de uma rapariga criada na doçura das brisas do rio, tão delicada como nenúfar a boiar na superfície de um lago tranquilo. Semanas, meses, anos se passaram desde esse dia fatídico que marcou a espera feita de uma esperança tão cruel como devastadora na sua vida de mulher a quem prometeram um sonho no azul imaculado de um maravilhoso conto de fadas.
Ali na foz do rio Mau onde se vislumbra a liquidez que o barco sulcou, estava sempre alerta a figura transformada em louca de Maria do Céu desgrenhada, um fiapo de gente que o tempo alheio a tão grande sofrimento ia consumindo sem qualquer piedade. Olhava uma paisagem de abandono, às vezes enegrecida pelo fumo de uma locomotiva que passava em Pedorido, puxando vagonetas de carvão, a caminho das lavarias de Germunde.
Se um barco aproava o horizonte de Fornelo e as velas se distinguiam pequeninas em frente a Moreira, ela levantava-se como um falecido do caixão e indagava aflita quem viria nesse batel, mais parecendo um morto que procura o instante antecessor de uma abrupta morte que lancetou a felicidade e todas as aspirações de um ser tão inocente como ela. Tanta amargura contida nos seus imensos tempos de solidão fixada num único objectivo que a transformou nesse farrapo humano desamparado no mundo sem receber uma carta que fosse do seu amor, uma notícia do distante Brasil a refazer a esperança que morria lenta e inexoravelmente dia após dia.
Muitos barcos passaram no rio numa sina de viagens constantes ao longo destes cinquenta anos. Rabelos desciam desde o Alto Douro carregados com pipas do generoso vinho a caminho dos armazéns de Gaia e mais tarde regressavam vazios pedindo socorro nos galheiros. Outros cruzavam as águas nas fainas da pesca mas nenhum deles era azul nem aproou ao cais do Remoinho trazendo a bordo o moço que tinha sido o seu enleio. Esperou sempre, enfrentou frio e calor a morrer de saudades todos os dias e ele sem nunca voltar.
Morreram-lhe os pais e os irmãos devorados pela tuberculose, deixando-a aqui abandonada como espólio inútil de antiga batalha. Passou natais a consoar sozinha a ceia da amargura, a ver os sonhos dissolverem-se todos neste sítio descampado e outros amores que lhe surgiram a volatilizarem-se negados pela fidelidade ao juramento de amor e felicidade que um dia lhe tinham prometido.
Os cabelos desgrenhados ficaram ralos, transparentes como rede de pesca apodrecida pelo uso. O rosto enrugou-se e já não tinha a beleza de outrora. Os olhos embaçaram-se, perderam o brilho na contemplação sem descanso daquele pedaço de rio. Suja, andrajosa, comia restos de peixe deixados por pescadores e dormitava enroscada na terra do chão:
— Pobre louca! — Diziam sem saberem e conhecerem o drama que a consumia e a fazia ser assim tão desleixada. Ninguém lhe manifestava qualquer afecto e nunca houve um ser que a fitasse bem nos olhos e que parasse no caminho tortuoso da sua existência e a abraçasse como irmã, como mãe, como amiga, como um ser humano perdido neste oceano turbulento que é o mundo. Alguma pessoa a quem ela abrisse o coração e pudesse dizer toda a verdade, aquela que dói e que paciente sentisse e compreendesse o seu medonho sofrimento, a dor que a tinha enlouquecido.
Já completamente desgastada, vencida pelos anos e quando a fragilidade do corpo se recusava a leva-la mais uma vez ao porto da sua esperança, num esforço derradeiro, arrastou-se pelo chão de cascalho até ao Remoinho quando a lua cheia definia os contornos do lugar numa noite estrelada tão bela como são as noites deste sítio deslumbrante e, deitada nas pedras húmida do cais, viu brilhar lá longe, na sua última alucinação, a embarcação azul tão esperada no seu coração despedaçado que trazia à proa a figura querida do seu adorado António. Nas suas últimas forças, ergueu os braços em acenos desesperados em direcção ao barco fantasma, gritando como uma demente:
— António, António, voltas-te para mim! Olha, eu esperei-te aqui sempre, sabia que me virias buscar um dia como me tinhas prometido!
Fez-se silêncio no cais do Remoinho nessa noite deserta em que só alguns barcos dormiam encostados uns aos outros e nem vivalma cruzava por estes solitários caminhos. A sorrir com a aparente felicidade dos loucos, exalou o seu último suspiro. Morria ali à beira do rio que lhe levou tudo num barco tão azul como o céu do seu nome e o frágil corpinho rolou já sem vida até cair na água.
Na manhã seguinte, encontraram-na a boiar na transparência líquida e o Douro era um esplendor translúcido e rendilhado de espuma branca a envolver o cadáver daquela infeliz. Julgaram que se matou e levaram-na embrulhada num lençol branco e enterraram-na sem honras cristãs fora dos canteiros enfeitados do cemitério, num local sem lápide com um nome, que todos pisam com os pés, destinado aos suicidas, àqueles a quem muitos tolos julgam que até Deus não abençoa.
Passaram-se vinte anos desde esse momento, mas há quem conte que um certo dia um barco azul aproou a Fornelo e trazia em pé na linha da proa um homem já velho vestido de fatiota branca. Dizem que devia ser o António, que procurou pela mulher que um dia aqui deixou à sua espera e que se entristeceu e comoveu ao saber que já não era viva e que, vergado como quem vai a caminho da forca, subiu a encosta na direcção do cemitério e que levava um ramo de flores brancas nas mãos que lhe tremiam.
Na água e no recanto defronte à nogueira em que o corpo de Maria do Céu apareceu morta, nasceu um tapete de nenúfares que todos os anos florescem e ali permanecem ainda hoje apesar de o rio ter mudado totalmente de aspecto.
A velha nogueira deu sementes e agora são três árvores soberbas a enfeitar aquele sítio de rara formosura.

sábado, 15 de Dezembro de 2007

O SORRISO DO RIO


Todas as noites ouves as antigas vozes.
Raparigas alegres girando sob a lua.
E as tuas mãos a procurar os versos que faltam no último poema.
Os arco-iris desenhados na água, são as cores do passado.
E tu sorris como o vento.
Mas conheces a verdade toda
e sentes a partida das gaivotas.
O Douro compreende esse acenar e chora.
E as rugas a enfeitar o céu
derradeiro porto no teu rio.
E o barco à espera de um sinal, que fale na última viagem.
Olha, ela sacudindo as tranças acolá, a saltitar na areia.
Que linda que ela era a mocidade, borboleta que tão pouco durou.
Lembras-te Barqueiro!?
Eu sei que não! Então porque sorris!?
ah! Tu és o rio Douro inteiro e os rios são eternos...

sexta-feira, 13 de Abril de 2007

O PREGADOR

No largo da Sobreira em Rio Mau, o Ernesto ensaia os primeiros retoques do que vai ser um quase improvisado discurso. Quase, porque o mendigo trás no cérebro atrofiado, uma lição fixada, como relógio que parou subitamente e continua a perpetuar uma determinada hora, ignorando o passar do tempo, refém das memórias que lhe restam. Vem de longe, do Porto a pé pelos montes fora.
Alto e crestado do sol da chuva e do vento, deixa cair pelo rosto abaixo uma barba longa e incrivelmente loira. Os olhos de um azul celeste, parecem abrir-se em espantos contínuos e interrogações sem respostas. As mãos sustentam uns dedos esguios, descarnados de onde aparecem umas unhas compridas e perfeitamente talhadas. Não fora a rasca indumentária composta por umas calças de pano-cru, uma camisa de flanela cor – de – barro e os pés nus, poder-se-ia dizer tratar-se de um autêntico cavalheiro. É-o na verdade apesar de tudo, tanto nos gestos e modos, como nas palavras que profere carregadas de ideologias filosóficas demais, para tão arruinado personagem. Desenha a vida, a sua e a dos outros, em pinceladas de cor e poesia salpicadas aqui e ali por uma objectiva e pertinaz crueldade. Trata toda a gente bem, só à canalha tem verdadeira aversão.
No largo central da aldeia, tendo como cenário privilegiado o rio Douro e um secular fontanário que teima em acudir às sedes dos caminhantes, junta-se o Abraão moço na força da juventude, pária e vagabundo como ele. As mãos deste miserável forasteiro, são sapudas e a cara redonda onde baila uma expressão de menino medroso, assemelha-se a uma bexiga de porco atestada. A indumentária do jovem indigente, pouco varia em relação ao primeiro. Usa roupas já usadas por terceiros que se nota não serem adequadas ao seu corpo atarracado onde sobressai um velho sobretudo comprido que vai arrastando pelo chão. De vez em quando um patético esgar risonho rasga de lés a lés uma boca fina e ficam à mostra duas carreiras de dentes incertos e podres. Também desprovido do juízo certo, albergando na cabeça um cérebro cuja lâmpada da razão já se fundiu, misturam-se ali algumas ideias patetas, com outras perfeitamente normais, que o fazem desgarra-se e deixar Trancoso sua terra primeira e, por montes e vales sempre distantes do seu chão natal, chegar a Rio Mau. Estudara num seminário do norte, ali a fraqueza do corpo provocada pela deficiente nutrição, bloqueara-lhe o conhecimento ficando assim à mercê e abandono da sorte.
O distinto pregador é o Ernesto decerto o ser mais bizarro que demandou estas bandas e trás, no seu entender, todo o desânimo da humanidade julgando que não merece a pena nascer. Para ele, o simples acto de vir ao mundo é só por si um desperdício total:
-A vida é pois a pior herança da humanidade! Quando se nasce marcado pelo ferro de uma morte que pode ser tardia ou breve, mas sempre inevitável, herdamos logo ai a funesta razão de existir!
-Porque nascestes vós!? Porque não ficastes no limbo, no desconhecido, onde o corpo não sofre e alma não é nossa!?
É assim que o louco filosofa e explica uma certa aversão aos mais pequenos talvez no cumprimento de uma espécie de protecção a que se julga obrigado. Trinta e dois anos de vida, dez deles a carregar na mente a pavorosa loucura, não o demoveram destas convicções e firmes propósitos. Fora também estudante universitário mas o frágil poder do seu arquivo não foi capaz de suportar tamanho conhecimento; enlouqueceu! Dirige a sua revolta ao Criador e é frequente usar da palavra horas a fio a desafiar as Suas leis. No meio deste largo despovoado tendo como cenário preveligiado o rio Douro, assume uma postura erecta de pregador. As mãos e o rosto viram-se para o céu ásperas e com firmeza de voz inicia o eloquente discurso:
- Já sei que hoje não vai haver paz para mim! Começa o pregador:
- Neste dia que corre, não sentirei a Tua presença! Nasceu um novo sol mas não será para me iluminar! Aquecerás as vidas de muitos, mas não a minha! Eu sou pobre um desgraçado a quem Tu, nem a memória deixastes progredir! Agora o rosto toma uma forma dolorida onde se desenha um sorriso imbecil.
- Arrasto pela vida uma cruz tão ou mais pesada que a Tua! É este o meu castigo, mas não fui julgado como Tu, ninguém me perguntou nada sobre nada e no entanto condenaram-me! Diz-me onde estavas nesse momento!? Não me respondes por que não queres saber de mim e nem sequer ouves as minhas súplicas! Posso até reconhecer-te, não como um Deus generoso e bom, mas como aquele que permite esta miséria imensa pelo mundo! Sou eu quem Tu diz! Nada posso perder, pela simples razão de que nada tenho. Por isso Te falo de homem para homem, sem temer as Tuas hostilidades. Sim porque Tu és vingativo. Houve tempo em que acreditei em Ti cegamente mas foi tudo uma ilusão, reconheço que não há reciprocidade no meu amor por Ti e de mim não queres ouvir falar mas lembra-Te que também eu saberei punir os Teus desmandos, as tuas omissões!
O Abraão contorce as mãos em desespero:
- Fala-lhe de mim! Diz o seminarista assumindo uma atitude de pedinte onde as mãos se estendem numa súplica de crédulo e o rosto adquire uma expressão ridícula e temerosa:
- De ti!? Fala-lhe tu, pois é bem possível que Ele te dê ouvidos! Tu, membro e sócio fundador da sua quadrilha de benfeitores demasiado ocupada em gerir os pessoais bens terrenos, estás decerto em melhor posição para lhe falares de ti! És cúmplice deles, eu sinto as dores da discriminação e do desespero, tu não! Aceitas o castigo que julgas generoso curvando-te perante a razão que desconheces, e não protestas. Tu Abraão, és realmente um pobre! Dás-me pena, Inspiras-me dó e muita piedade!...Mas perdoou-te, perdoou-te por uma razão simples...és meu irmão!
- Mas eu rezo! Diz angustiado o Abraão.
- Rezas!? - Tu sabes lá o que é rezar Abraão! Rezar é isto irmão! Rezar é falar com Deus! É dar-lhe a notícia das nossas angústias, dos nossos desesperos! É fazer com que veja a miséria brutal em que se transformaram as nossas vidas!
- Sabes uma coisa Ernesto!? Eu acho que tu blasfemas!
- Blasfemo!?
- Cala-te desgraçado que não sabes o que dizes. Cortam-te o corpo e o espírito a golpes de espada e não protestas, sequer sabes quem empunha a arma causadora do nosso sofrimento! Há culpados companheiro, gente que julga que tem privilégios e que come o meu e o teu pão! Gente que se julga acima do comum dos mortais e usa-os para engrossar as grandes fortunas vitalícias! Acaso dar notícia da verdade da humilhação é blasfemar!? Deita-te ai irmão, dorme o sono da ignorância eterna e deixa-me protestar pois um dia virá em que por farto dos meus protestos ou por divina piedade, Ele nos abençoará! Acaso tu não sabes que o tempo se esgota e torna-se urgente mudar este estado das coisas!? Agora vira-se novamente para o alvo das suas críticas, o Céu.
- Desce daí do Teu Céu esplendoroso e vem aqui falar comigo cara a cara! Não me respondes, nem Tu nem ninguém! As minhas palavras são o eco das minhas palavras, do meu sofrimento, do meu imenso desespero, desta minha lúcida loucura. E, apesar de tudo, ainda Te espero Deus mudo, Deus, ingrato. Vem quando quiseres, todos nós precisamos urgentemente de Ti. Este povo desgraçado ama-te, adora-te e acredita que um dia virás salvá-los!.. Vem antes que se me aflorem os nervos e deixe de ser responsável pelos meus actos. Lembra-te que também eu sei castigar!.. Prova-me ao menos que existes, que és realmente o Salvador do mundo! Eu não sou deus mas em verdade Te digo, tempos virão em que poucos ou nenhuns Te prestarão vassalagem e Te irão trocar por outros deuses mais generosos!
As mãos ainda há pouco em riste, fecham-se sobre o peito numa atitude de penitência e o azul daqueles olhos toldou-se de lágrimas. Parece angustiado o Ernesto, fita o céu como quem espera aflito, uma resposta ou um sinal enviado por aquele Deus com quem protesta. No íntimo ele sabe que só Ele e a Sua infinita misericórdia poderão salvá-los. Vagarosamente, estende-se no chão de terra batida ao lado do amigo e vão ficar horas prostrados ali sem dar sinais de vida. Todo o orvalho deste mundo humedece e gela estes dois corpos desgraçadamente desamparados.
O rio Douro escuta em silêncio e tenta em vão compreender a aflição deste homem. Hoje é véspera de Natal. O povo já recolheu às casas onde irão consoar as couves, o bacalhau e as deliciosas rabanadas, talvez bolo-rei ou sopa seca. Eles refugiar-se-ão na rua da Torre na tasca da tia Albertina que os acolherá e adoçará um pouco mais a amargura das suas vida. Poucos querem saber deles! Alguns passaram ao meio do discurso e não pararam. Desumanizados e cegos, seguem a ilusão da individualidade que os divorcia da fé, e os faz julgarem-se eles próprios, os loucos, muito acima da virtuosa caridade. É muito mais que falta de fé, é indiferença, o escárnio da ignorância, é a solidão que se ganha por se matar o amor dentro de nós. Também por isso o Abraão e o Ernesto se estendem na laje fria do largo da Sobreira, nesta noite que há-de ser de luz e renovadas esperanças, sem um gesto de carinho, ternura ou piedade de quase ninguém. Jesus nascerá em Belém daqui a pouco! Uma estrela já o anuncia refulgindo além no Céu por cima de Pedorido e, estas duas almas, no barracão da lenha, já num profundo sono e a sonhar com o Deus menino, deixar-se-ão acariciar por Ele

quarta-feira, 14 de Março de 2007

Barqueiros da Esquadra Negra

A alvorada acorda medrosa no vale do douro. Uma espécie de neblina envolve toda a paisagem e S. Domingo adivinha-se por dentro do denso nevoeiro. As serranias em volta goraram-se da vista, apenas se vislumbra o rio e Pedorido é um quadro abstracto à frente dos olhos, encoberto, difuso e molhado.
Das chaminés do casario de Rio Mau sai um fumo pardo, preguiçoso, que evolui no espaço alguns instantes para depois se diluir na acentuada humidade do ar. O cheiro da terra é intenso, acre, misturado com o perfume da urze que o vento acarta das serras em volta. Madrugadores os galos desatam em cantilena na rua do Lugar e, os dos Estercos respondem afinados bem antes de findar o nostálgico eco em S. João. O sino da igreja de Santa Eulália em Pedorido badala dolentes as sete da manhã. O som do bronze paira por momentos no tempo, depois perde-se melancólico nas quebradas dos montes.
Batem sete horas no sino do campanário mas não acorda ninguém, há muito que o povoado mexe, acordou cedo porque o pão não se ganha aqui, é preciso procurá-lo longe ou então na banda de lá do rio na sinistra indústria.
Na Lingueta, espécie de rampa de varar que desce até entrar naa água, vêem-se encostados uns aos outros os barcos Rabões que carregados de carvão irão partir para Campanhã pelo rio abaixo e, as silhuetas escuras das embarcações, assemelham-se a cascos de túneis a boiar na água. Campanhã é longe, nas bordas do Porto, a descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentiar o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na preia-mar, é custoso arrastar à força de braços, tantas toneladas de madeira e carvão antracite. A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o vento da barra que enche as pardas velas. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada enfolada, ela e os homens lá vão fazendo de tudo para amenizar o esforço. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrastam no fundo, é muito difícil de progredir. Aí três homens saltam para terra, descalços nas escarpadas pedras da margem, munidos com uma corda presa há embarcação, puxam à frente desta enquanto a sirga esticada lhes vai provocando feridas nos ombros. As pedras de xisto, sulcadas com profundos regos feitos pelas cordas a raspar, cortam-lhes os pés nus deixando as chagas abertas a cicatrizar ao tempo. Outros de vara de Carregar fincada no peito, lisa, que as mãos dos barqueiros já lhe retiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração quando a espetam no fundo do rio e caminham desde a proa até à ré, vergados para a frente num tremendo esforço, agonizam em cada minuto que passa.
Nos dias de cheias o Douro transtorna-se e, como um louco apressado em chegar à foz, parece que leva consigo a força de mil demónios. Os barqueiros não o temem, embrenha-se com ele numa luta de morte num feitiço estranho que os empurra cegos para o colo de tão enganadora amante. Dão-lhe tudo, o suor dos corpos, o sangue das veias e até própria vida. Ficam doidos como ele condescendendo sempre a esta paixão dominadora, só em troca do pão que lhes falta em casa, numa entrega total a uma afeição demasiado infame para ser amor. Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda se pratica aqui neste magnífico vale do Douro. São tantos a padecer tão desditosa sorte. Vêem dos mais diversos lados; Espadanedo, Couto, Escamarão, Bitetos, do Castelo, Sardoura, Pedorido, Melres, de Rio Mau e de outros mais longínquos sítios. Todos irmanados do mesmo sentimento de uma solidariedade ímpar, tratam-se por companheiros e estabelecem entre si laços de verdadeira fraternidade. As refeições são comunitárias, a mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou a mesma colher. A dor de um transforma-se sempre no sofrimento de todos e mesmo assim é tão pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor as barreiras da pobreza extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, os outros têm de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada uma destas vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem, dão largas sempre que podem a uma réstia de alegria que docemente acalentam na alma. Dá gosto vê-los em tempos de calmaria, entre abraços fraternos dão liberdade a esse minguado consolo que de vez em quando desponta nos seus corações. Então sai uma desgarrada acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do verde tinto de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique:

Que lindo é o berço sagrado.
Que lindo é o berço sagrado.
Que me criou e alumia.

Aqui a braguesa faz dois compassos.
Que me criou e alumia.
Entre beijos e abraços.
Lá vim eu à luz do dia!

O melancólico e bizarro dedilhar da viola enche o espaço e a noite. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taberna oscilando vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas, um ramo de louro e presuntos pendurados mais os efeitos de tosca contra luz, dão às paredes de caliça, formas bizarras e fantasmagóricas tornando o local num sítio castiço. Agora entra o Malhado a matar:

Ó cantador afamado.
O cantador afamado.
Aprecio os teus cantares.


Outra vez a viola dolente.
Aprecio os teus cantares.

Bem puxas pela goela.

Mas não me chegas aos calcanhares!
Está lançado o mote que servirá de tema aos cantares desafiadores. Como dois galos em capoeira, lá se vão crispando no fazer de cada quadra transformando a noite num momento de sonho. Consolados ficam então em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.

Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho bebendo em grandes goles o néctar de Baco. Meio vivo, meio morto, escuta fascinado as narrativas dos barqueiros que falam de tudo e de nada contando entre si, algumas histórias de valentia que nunca chegaram a viver. Transforma-se em heróis repentinamente e ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez e no entanto são antigos, recontados por dias e noites semelhantes a esta alterados aqui e ali conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de luta como quem desfere certeiro golpe de espada afiada. Os companheiros sentados no comprido banco da tasca, ou se chegam à frente para ouvir melhor nos momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste. Comungam a mesma hóstia sagrada do irreal e do fantástico que chega a assumir contornos de verdade autêntica. Mas não, são apenas desabafos, pedaços das almas mutiladas dos marinheiros da Esquadra Negra que já tarde, felizes e alegres regressam aos lares abraçados uns aos outros.
O último a abandonar o tasco é o Zé Esperança; manco há muitos anos, cambaleia e tenta arrastar-se até à barraca distante onde vive. O velho Zé parou ao cimo da costeira e, com muito custo tenta reconstruir um cigarro que traz meio desfeito no bolso da samarra. A chuva tangida por um vento forte vai ensopando as roupas do velho desgraçado que perdido no meio das trevas ensaia um princípio de canção:
- É tão bom ser pequenino,
ter mãe ter pai, ter avós.
Pára! Decerto já não sabe o resto da letra ou então é a emoção que não o deixa avançar. Grossas nuvens de fumo aparecem da boca que cheira a vinho tinto e a caldo de couves. Lá ao fundo corre sereno o Rio Mau. Cambaleando inseguro, o Zé retoma a estranha marcha mas já não há controle de nada. O corpo cede em cada passada e as pedras soltas do carreiro, impedem qualquer progresso. Rolou pela encosta pedregosa como se fosse pedra lançada em ribanceira e ao fundo arrastou-se penosamente pelo chão e só a muito custo conseguiu chegar à miserável habitação. Adormeceu e sonhou não se sabe com quê, talvez com a mãe que perdeu aos cinco anos ou com o pai que nunca conheceu. Na manhã seguinte encontraram-no morto na enxerga molhada. Olharam pelo postigo e reparam que o sol lhe iluminava o rosto sereno já sem vida. Conta-se que quem passa a horas mortas da noite junto ao rio mau, tem a sensação de ouvir as águas a cantar:
- É tão bom ser pequenino, ter mãe, ter pai, ter avós...

terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

A CHICA

A CHICA



Nas Córgas o alvor da manhã surpreendeu a Chica, mulher do Marto, a cavar as leiras para semear batatas.
Quarenta anos de vida dura, transformaram uma figura de mulher bela, numa silhueta cinzenta de gata desleixada. O rosto outrora mimoso, tem agora a idade do mundo, rugoso, segura dois olhos azuis e mortiços ao fundo de duas profundas cavernas. Os maxilares salientes onde dentes raros cravados dão forma e antecipam um esqueleto mortal, definem a escanzelada magreza do corpo.
As hortas tomadas a terço ao senhor Raposo, que constituem o suplementar orçamento do casal, são bocaditos dispersos aqui e ali, amanhados pelos mais pobres a troco de uma parte da produção que pode ou não ser generosa. O tempo o irá determinar correndo lento, soalheiro ou chuvoso, procederá sozinho à criação dos mimos. As contas, essas acertam-se pelo S. Miguel, por alturas da feira das colheitas em Arouca.
Na alma desta pobre mulher, o dilema provoca a angústia e dá lugar a um misto de raiva e de resignação que não consegue conter. A causa de semelhante dor, é Rosalina a filha mais velha criança ainda com dezasseis anos, largou a escola aos dez e foi lançada num mundo agreste e desconhecido onde toda a meninice feliz e despreocupada deu lugar ao esforço fabril como se já fosse um ser adulto. Trabalha numa serração em Gondomar a carregar madeiras na fragilidade de uns ombros tenros ainda para semelhantes tarefas. Ali conheceu um rapaz corticeiro de quem nem o nome sabe mas que na fúria de uma paixão efémera, lhe encheu a barriga repentinamente. Apareceu chorosa em casa trazendo nos olhos cor – de - céu, a ruína de uma juventude lancetada, o desgosto impune que a iria transformar num ser anormal e desprezado.
- Prenhe, vá lá que não vá, ora não saber nada acerca do pai da criança, isso é que é o cabo dos trabalhos! Como é que iria apresentar a notícia ao Marido!? Ele era capaz de entender a prenhes, a vinda do neto...mas sem pai? Não podia ser!
Dá voltas e reviravoltas à cabeça mas nada lhe surge de lucidez ou de consolo. Ela também emprenhara do Marto antes do tempo, mas em circunstâncias muito diferentes destas em que a filha desconhece por completo quem é o pai da criança. Resignada cava a terra dura e a erva orvalhada molha-lhe os pés gretados e nus.
Volta a realidade a consumir-lhe a cabeça:
- Mais uma boca! Já eram sete! E agora!
Olha o cesto das batatas rachadas em quatro onde uma criança com quatro meses de vida, dorme regalada embrulhada nos restos de uma manta.
- Que vaca! Mal saiu de casa meteu-se logo debaixo do primeiro que lhe apareceu! Ela ficou cheia solteira mas era diferente, foi com o mineiro que além de vizinho é amigo da família com cartão da empresa e tudo o mais!
- Precisa que lhe cheguem a roupa ao pelo! Mas prenha não, pode perigar!
- Mas dumas lostras bem dadas, ai que precisa, só se perdem as que caírem no chão!
- A porca! Onde é que se viu isto! Vai ter de fazer um desmancho, nascer é que não pode! E comida? Quem é que a vai sustentar? O Marto!? Ela vai boa, o desgraçado mal ganha para o caldo, que fará para alimentar mais uma boca! Tem de ir a Avintes fazer um aborto! Tem de tirar aquilo do bucho!
Clarifica-se a ideia da Chica, pensou e encontrou a solução, afinal o problema nem é assim tão grande, cabeça fria e tempo e lá está o povo a encontrar improvisadas soluções.
Vai a Avintes mas não sabe se volta depois de sujeita aos artifícios de mãos de carniceiras inábeis que lhe rasgarão o ventre sem qualquer piedade. Pode esvair-se em sangue e morrer ou então humilhada e calada, deixar a alegria num recanto obscuro das tramóias inconscientes da sociedade hipócrita.
- Vai ser já amanhã! O Marido nem vai saber de nada, e se souber, se lhe chegar aos ouvidos!? Também não interessa, é um perfeito anjinho, cala-se e pronto!
Aqui está a mão do destino ou o poder do infortúnio a suster a vida e a morte por um ténue fio. Morre-se ou vive-se nas Córgas conforme a honra e o pão! Nada mais se joga no desgraçado tabuleiro da vida. Por ausência de acompanhamento especializado, julga-se, condena-se e executa-se a sentença na leira a plantar batatas sem aconselhamento e sem ouvir as partes. Continuará a ser um pouco assim por este país fora onde os clarões do progresso já permitem alguma atenção e começam a iluminar muitas almas. A Chica não pode saber nem sequer conhecer os imprevisíveis golpes do destino. Também ele vai mexer as pedras do malfadado xadrez e nada será como ela determinou. O dia é ainda uma criança, até anoitecer muitas coisas podem e vão mudar radicalmente. Ninguém é dono de nada, senhor sequer do seu próprio destino, muito menos do dos outros. Esta mulher é apenas a vítima de um mal que alastra como um vírus desde sempre. As grandes decisões da vida, aquelas que a solidariedade e a justiça social deviam acompanhar de perto, perdem grandeza e normal efeito, perante as condições de abandono e miséria absoluta em que este povo vive. A Chica é também culpada mas a verdadeira culpa, neste e em muitos outros casos, possivelmente morrerá solteira.
Cava a terra desconhecendo que lá longe em Germunde nas profundezas do chão de carvão aconteceu a tragédia que acaba de lhe matar o marido. A notícia demorará a chegar mas virá trazida nos olhos do companheiro de viagem.
Desata o nó do lenço de merino amarelo e preto que prende na cabeça e olha o horizonte com um olhar perdido e desconsolado e nem o rio Douro a correr sereno, dá paz a esta criatura. A criança chora no cesto das batatas e sem largar a enxada, a mãe entoa dolente uma canção de embalar:
- Dorme, dorme meu menino, que a tua mãe logo vem! Foi lavar os teus paninhos, ao reguinho de Belém!
Que grande mentira! Que desconexa realidade, ou então, por efeito de estranha magia, os paninhos que a mulher diz que lava, são este pedaço de aço enfiado num pau, que sobe e desce num ritmo vertiginoso e dorido rasgando as entranhas da terra que há-de dar o sustento. Canta uma canção de amor, tentando dar-lhe um som de ternura, carinho e súbita alegria mas o coração vai negro como as noites da inocente filha Rosalina.
A criança reconhece a doce melodia, sossega e cala-se, a mãe retoma as preocupações da vida que lhe vão enrugar ainda mais o rosto. O Douro comove-se e jura vingança.

Arraial de Santa Eufémia


ARRAIAL DE SANTA EUFÊMIA

Já lá vão o S. Domingos, a Senhora das Amoras, a Santa Eufémia e praticamente todas as festas populares que animaram um pouco por todo o lado as margens do Douro. Foi-se tudo no empalidecer das folhas do vasto arvoredo que ladeia o rio, na partida das andorinhas e das rolas migratórias e nesta desmaiada luz que pouco a pouco vai tomando conta da paisagem. Os tons predominantes são o amarelo-torrado, o castanho e o vermelho romã. Foi bom enquanto durou. Animou multidões, ofereceu horas de soalheiras praias, impulsionou o comércio, o turismo e proporcionou encontros, convívios e vindimas abundantes. Os lavradores já sonham com novas sementeiras fazendo planos de vida nestes dias mansos antecessores das asperezas do Inverno. Das grandes romarias, fica sempre a recordação a pairar no tempo pelo ano fora. Nunca terminam com o estoirar do derradeiro foguete ou com a marcha de despedida da banda de música e vão-se perpetuado no contar das muitas e extraordinárias histórias passadas no decorrer das festividades.
Já foi o ano passado que decorreu esta mirabolante cena. O Maneta, antes do dia da festa mandou um recado ao Quintela pelo Faísca a marcar mesa para quatro; que partisse quatro valentes bifes, com meio quilo cada um, tenrinhos e para os preparar fritos com bastante cebola, lá para as duas da tarde, que a mulher ia dar trinta voltas de joelhos à capela de santa Eufémia a satisfazer uma promessa, um sacrifício de desagravo à santa que lhe tinha curado um joelho e aquilo deitava para tarde. O Pestana soubera do propósito do companheiro e antecipou-se. Pegou na mulher e dois cunhados e apareceu antes, cerca do meio-dia na barraca do Quintela, em pleno arraial da santa. Eufémia. A essa hora, numa das barracas do arraial, comiam-se já os valentes bifes encomendados pelo Maneta e, os quatro improvisados comensais, devoraram tudo e mais que fosse. Acabada a promessa o Maneta, mais a mulher e os dois filhos aproximaram-se da barraca para almoçar, mas bifes de grilo. As mesas estavam todas ocupadas por forasteiros que num frenesi imenso, saboreavam tudo o que lhes aparecia à frente dos olhos. O Maneta relembrou ao tasqueiro a encomenda que fizera mas este na confusão daquela hora, não tinha feito reparo esquecendo por completo a reserva antecipada. Aí o Maneta ficou a saber que tinha sido enganado.
Encostado ao coreto, o Pestana escarafunchava os dentes com um palito, ao mesmo tempo que olhava de soslaio e via a aflição do companheiro, rindo a bom rir.
-À patife! Gritou o Maneta.
-Vais vomitá-los inteiros, filho da mãe. Até os dentes te vão sair da boca! E fez-se para ele numa atitude de fúria que se lhe notava nos olhos arregalados que deitavam lume. Mas o povo era muito e na hora de tratar do papo, quer tudo menos zaragata. Ainda se fosse mais tarde, à hora da procissão, não tinha mal nenhum. Já era costume, depois até estimulava a festa, ora agora, com as mesas cheias de tachos com tripas à moda do Porto, bifes e jarras de vinho verde tinto de Bairros, não podia ser. O que se quer nestas alturas é comer sossegado. Impediu a zaragata.
O ódio do Maneta nascia ali e haveria de crescer no peito até há hora do ajustar das devidas contas.
É bonita a festa da santa. Eufémia, ali no meio da serra, entre Serradelo e Cruz da Carreira, junto a S. Pedro do Paraíso, a meia dúzia de passos de Castelo de Paiva, já de véspera se ornamenta aquele espaço da serra para receber os forasteiros sempre gente de bem comer e bem beber. À entrada do arraial os improvisados talhos, vão desmanchando bois e vitelas. Barracas cobertas de lona, espalham-se pelos campos viveiros de árvores de fruta e toda a terra participa empenhada nas comemorações. Entre umas e outras barracas, situam-se tendas de bonecada, sendo a maior e a mais apetrechada de todas a do Falcão de Sardoura, que fazem as delícias da pequenada, vendendo apitos e carrinhos de lata, miniaturas de carros puxados a bois em madeira, acentuando ainda mais este ambiente tipicamente rural. Pequenas barracas cobertas por um largo pano branco, seguro por toros de pau em cruz e sobre um tabuleiro também em madeira, uma larga e comprida toalha de linho meticulosamente bordada, aconchega os deliciosos doces de Serradelo, redondos, achatados cobertos por um raiado de açúcar branco, que fazem companhia às cavacas doces e são fruto das seculares tradições culinária mais regionais que se conhecem. Já dentro dos portões do empreendimento agrícola, montou-se um palco onde o rancho de Santa Maria de Sardoura evolui em danças e contradanças fazendo ranger o palanque e a voz do Joaquim Duarte ecoa afinada e amplificada por dois potentes altifalantes pendurados num eucalipto. Em baixo num amplo largo que um centenário castanheiro ensombra, monta-se o colorido coreto enfeitado por girândolas de papéis multicores onde a banda dos mineiros do Pejão aguarda o iniciar do concerto, juntando o povo em redor e os mais entendedores de ouvidos atentos ao perfeito executar das melodias, vão dando pareceres positivos ao Boaventura o maestro da filarmónica. Ao lado a capelinha da santa, construída em xisto, forrada a saibro e pintada de caliça branca, deixa sobressair um rodapé azul-escuro e uns cunhais de granito indicando uma existência centenária. Ao centro da cripta, uma cruz também ela em pedra onde o musgo se agarra há dezenas de anos, distingue-a das demais e lembra ao povo ser aquele um local sagrado. Mas o sagrado alia-se por conveniência ao pagão por dois dias, extravasa as barreiras do recomendável e, a feira de gado que se efectua na véspera, propicia as bulhas, os negócios, os arraiais de pancadaria agregados com as calorosas orações dos mais crentes. De vez em quando a anunciar mais uma peça da banda do Pejão ou a saída da procissão, os foguetes estoiram no céu num ribombar persistente e espantam a passarada. Os putos correm desvairados pelos campos fora atrás das canas e quebram o milho à sua passagem. Nas tendas as canecas de asa de porcelana branca circulam afoitas e o vinho da Quinta da Fisga de Bairros, tinge de vermelho as blusas brancas rendadas das coradas moçoilas que com as costas da mão limpam os generosos beiços. É grande e global a alegria e, na atmosfera caloroso da festa, tanto pode sair um abraço como umas pauladas nas costas.
Em cima das improvisadas mesas das tendas, grandes tachos de feijoada garantem fartura aos romeiros. Dos talhos e improvisados matadouros, saírem postas de carne fresca que ainda quente se transforma em bifes de quilo nas mãos do Lapadas. Primeiro comem-se as vitelas, no resto servem-se os bois. Agora já é indiferente a tenrura da carne, interessa apenas manter acesa a chama da festa e prolonga-la pela noite dentro, até que cansados e embriagados, caem na relva calcada.
-Então Maneta, os bifes eram tenros? É o Pestana num desafio louco a pedir porrada.
Aquelas palavras tingidas de escárnio dão voltas na barriga do Maneta e ressuscitam a raiva dormente no peito.
-Vai ser hoje! Pensou. Espeto-lhe a picareta nos olhos e o sacana morre. Depois fica lá no fundo, enterrado já está por natureza, faz-se de conta que foi sem querer!
O Pestana adivinha os pensamentos do outro, vigia-o, mas não cede. É manhoso, arraçado de galego, fino como uma raposa e marca pistola, tosse para disfarçar o riso no canto da boca.
A festa acabou para estes dois desgraçados, caminham lado a lado sempre a medir-se de cima a baixo. Se o Maneta pára para acender o forte, o Pestana pára também a coçar a barriga.
-São pulgas? Pergunta o Maneta.
-Não! São percevejos e grandes. Responde o Pestana.
Neste jeito de vida, vão comendo metros e metros ao caminho que têm pela frente e as suas figuras estrambóticas perdem-se nas sombras do choupal de Pedorido. O Douro corre agitado pela nortada e no horizonte não se vislumbram velas. Nenhum barco rasga estas águas agora turvas.

quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Simão

SIMÃO

Cancelos é um lugarejo da freguesia de Sebolido todo debruçado sobre o rio de onde tira o miserável rendimento da sobrevivência do seu povo. Não há calçadas nesta terra; as servidões do lugar são carreiros abertos ao acaso nas fragas escarpados da margem do Douro. Pedregosos e inclinados, quase inacessíveis, obrigam estas gentes a sacrifícios enormes para chegarem ao Outeiro das Cortes. Ninguém se safa em Cancelos, no meio desta centena e meia de habitantes não há um com dinheiro suficiente que possa por um cego a cantar. São todos mais pobres que Jó; geme-se com fome todos os dias dentro destas desconfortáveis casas de xisto. As lousas das coberturas das casas já não conseguem tapar o vento frio e encobrir semelhante miséria. Pelas frestas onde passa o vento, saem lamentos e choros de crianças com fome ou então berros medonhos de esposas aflitas tentando escapar às pancadas brutais dos maridos de cérebros obscurecidos pelo vinho e pela desgraçada vida. Estas casas rústicas conservam entre paredes, tantas e tantas histórias tenebrosas quase inimagináveis mas cruelmente reais. Tantos gritos suspensos dentro destas paredes que ainda não eclodiram no espaço, alguns permanecerão calados para sempre sem notícia, sem conhecimento como ferida que nunca vai cicatrizar.
- Se não fosse o rio! Sim, se não fosse esta corrente líquida que obstinadamente teima em passar por aqui, há muito se teria desertificado este sítio. Em casa do Simão o primeiro fio de fumo sobe da lareira e ergue-se no orvalho do ar perfumado de rosmaninho, tímido e medroso. Depois alarga-se no céu e disseminar-se à distância como se a fugir da desgraça. Da horta vem um cheiro a estrume fumegante que retirado das cortes, aguarda amontoado a hora de lastrar os regos das batatas e dos feijões. Daqui vê-se Midões e Gondarém povoados esquecidos e solitários na outra banda do rio. As casas dalém já todas fumegam por que o povo tem de sai cedo para tratar da vida. Uns já marcharam para a mina, o mais deles vão para a Vista Alegre dar o dia ao Virgílio ou ao Manel no corte das madeiras de pinho que hão de suster as galerias de Germunde, do Fojo ou do Ervedal. Sobem a encosta uns a trás dos outros levando enfiados nos ombros os machados e os serrotes arcados afiados de véspera. Sobem ainda com a escuridão da noite e perdem o horizonte ao entrar no vale das Fontaínhas onde o Anastácio já levantado, carrega o barco com sacos de carvão vegetal para levar até ao Porto:
- Então ao trabalho? Cumprimenta o Anastácio. E logo o Sobradelo lhe responde em jeito de informação.
- Andamos lá em cima em Fontão na sorte do Américo Labaredas!
- Tem lá bons paus! Retorque o Anastácio morto por saber.
- É tudo de reserva, cada pinheiro quinhentos quilos, vão pró Torrão, para a serração! Aposto que vão dar boas tábuas! Era o que queria ouvir, virou as costas e continuou a carregar o barco. Nestas coisas dos negócios de madeiras, o seguro aconselha prudência e quanto menos conversa melhor.
O Simão madrugador sobe Junçadelo até ao Outeiro das cortes. Chinelo enfiados nos pés, o corpo de quarenta quilos a segurar-se todo numa vara de marmeleiro descaído para a frente, uma boina preta a cobrir-lhe a nuca e, a cara enegrecida que sustenta ao centro um nariz pencudo onde por baixo espetado aparece um bigode de aço preto, definem a silhueta esquisita do Simão. Leva nas mãos embrulhada em papel de jornal a sua imensa dor; as roupas da Ana que agoniza no Porto tolhida pela icterícia. Já foi talhada em Branzelo, mas alastrou na mesma. Está no Santo. António à espera da morte mas nem ali pode estar, vem desenganada morrer a casa por mando do médico impotente perante a terrível doença. Traz nos olhos amarelados a certidão de óbito antecipada, assinada e pronta, só falta a data. Precisa de transfusão de sangue mas o do tipo dela é invulgar e caro demais para a falida bolsa do Simão. Sangue venoso, Ibérico, Celta, Celtibérico, Vândalo, Suevo, Alano, Muçulmano ou Moiro. Pedrês, como pedreses são os galos do Caga-na-Marca. Lusitano, bravo sedento de distâncias, suave como as planícies Alentejanas, agreste como as serranias de Trás-os-Montes. Lusitano por definição como definido é o que corre nas veias das cavalgaduras de Alter do Chão. Raro, difícil de arranjar. Chora Simão no meu peito pedaço de pedra igual às do muro de Jerusalém onde Cristo chorou na derradeira hora. Abafa-te no exíguo calor que dele emana, brando e escasso, minguo para aquecer as minhas próprias mágoas. Partilho-o contigo companheiro, afago os teus cabelos com estas peregrinas mãos que não sabem curar a doença da Ana mas compreendem e sofrem pela dor que tens no peito. Anda comigo, vamos subir a serra da Boneca até ao marco geodésico que de geográfico tem pouco, é mais garrafa, feito de barro e pedras, mas marco também porque marca as coordenadas da terra. De um lado para o norte, as de Valpedre e Penafiel fartas e ricas. Do outro lado do sul, maninho, baldio ou terras de ninguém. Lá do alto na linha do horizonte avistaremos o casario enevoado do Porto e verás o Douro sinuoso que vem de Espanha da serra do Urbião onde nasce esmagado pelas fragas mas que em Melres se alarga a rabiscar por entre as serras. Ali chorarás então e as tuas lágrimas hão-de figurar-se os Penedos da Sombra a rolar pela serra abaixo abrindo-lhe fendas profundas até se afogarem no rio. Chora que o teu pranto serão pétalas de rosa a quem a nortada levará através do espaço e do tempo que te falta viver. Espalhadas à solta no vento, permanecerão intactas na memória a fazer-te lembrar todos os dias as cenas do passado, regos marcados na tua vida que ninguém jamais conseguirá apagar. Chora por tanto sacrifício tantas lágrimas vertidas nas vossas miseráveis vidas comuns terem acabado assim aos quarenta anos sem nunca terem florido. Chora Simão e deixa-me partilhar contigo a revolta a que esta sítio nos obriga. Roubam-nos tudo até a própria vida. Chora tudo companheiro que a Ana de sangue podre e canceroso se finou já.
MATANÇA DO PORCO


O centro de Rio Mau é o lugar da Torre de ruas estreitas e calcetadas a paralelos desgastados pelo uso, que confluem num pequeno largo, estende-se desde a foz do rio de quem recebeu a alcunha, até lá acima a Paradela sempre na margem direita do Douro. O aglomerado maior da aldeia tem ali o coração. Aqui neste pequeno recanto encravado entre o Douro e a serra da Boneca a manhã despontou é já uma andorinha madrugadora quando do quinteiro do ti Salvador se ouvem grunhidos desesperados de um porco a adivinhar as torturas da morte. Bicho graúdo aproximando-se de umas quinze arrobas, debate-se em vão contra a força de dois homens que o arrastam da corte, movidos por instintos de sobrevivência.
É dia de matança extraordinária que a época própria já vai longe. Porém, este teve de aguardar em quarentena devido ao mal rubro de que padeceu, foi primeiro preciso esperar que sarasse completamente e saíssem aquelas manchas vermelhas do coiro. No centro do logradouro um carro de bois com um buraco na extremidade da cabeçalha onde normalmente se espetava um fogueiro, aguarda orvalhado o animal. O Capa Gatos com uma guita ensebada e tesa, laça-o pelo maxilar superior puxando à frente enquanto o Seca Adegas agarrado ao rabo o empurra também. Cá fora é aguardado por mais dois homens, o Molho Verde e o Esfola Cabras, que o vão lançar deitado em cima da improvisada mesa funerária. O tio Henrique arregaça as mangas ao mesmo tempo que empunha uma comprida faca de aço com cabo de madeira. A Rosa Guitarra deita-lhe água quente nas mãos e de seguida aguardente desinfectando-as das possíveis maleitas. O matador passa a faca nas costas de uma telha afinando o aparelho que depois espeta no peito do animal mais ou menos na direcção do coração. O sangue corre viscoso e fumegante e vai caindo num alguidar de barro onde previamente a Rosalina Raposa deitou vinho tinto, sal e alho partido. Uma colher de pau vai mexendo a rubra mistura que daí a pouco se transformará em sarrabulho. As mãos grossas dos homens parecem tenazes a apertar as patas e só vão afrouxar ao último estremecimento do animal.
Consumada a impiedosa tarefa da matança, fazem uma ligeira pausa e a garrafa do bagaço passa de mão em mão aflita e desarrolhada:
-Bicho graúdo! Diz o Capa Gatos a esfregar a testa suada.
-É governo para duas casas, fartura assim nunca se viu! Diz o Seca Adegas! Vai chegar às quinze um pouco mais ou menos!
Uns molhos de palhas são acesos e procede-se à queima e esfolamento do bicho com facas raspando a pele embolada pelo fogo. O porco adquire uma cor de tição, preto como um carvão, mas a água a ferver e bocados de telha com as quais os homens esfregam, dão-lhe um aspecto amarelado e semi limpo. Terminada esta operação começa a preparação dos restos mortais do suíno. O Henrique com a faca agora mais afiada pela telha, corta-lhe as orelhas ao meio até trás e os homens lavam-nas esfregando as duas partes uma contra a outra enquanto a água as vai regando abundantemente. A boca é rasgada até às orelhas, a língua é despegada da garganta e fica de fora a pender do cato da enorme bocarra. Terminada a frente do animal passam para trás. O ânus é separado com um corte circunferencial. As patas são furadas por altura do tornozelo e é enfiado um pau que será o suporte no acto do levantar do porco. Içado na loja ladrilhada de cabeça para baixo, procede-se ao abrir da barriga do animal.
Um corte longitudinal a começar entre pernas de trás até ao peito, põe à vista um bandulho intestinal fumegante. As tripas seguem para a lavagem num cesto embrulhadas numa toalha de linho. As vísceras, coração, pulmões e fígado seguem para a cozinha para se prepararem as papas. A bexiga ainda presa ao piçalho do porco, é entregue à canalha que rápido a transforma em bola de futebol. Nesta posição vertical, fica a arrefecer até à hora em que será feita a desmancha. Retalhado com mestria de açougueiro, procede-se ao salgar dos presuntos, pás e orelheiras esfregando a carne e o coiro com vinha de alhos e sal grosso. O lombo vai a marinar e mais tarde haverá de encher as tripas já lavadas e dar apetitosos salpicões. Umas fêveras da barriga são retiradas e com um polvilhar de sal grosso, assam cheirosa nas brasas da ampla lareira.
Esta operação de matança garante aos que a fazem fartura por algum tempo. Nem todos os habitantes da terra têm condições para tal. A comida é pouca para eles quanto mais para sobrar lavagem para sustentar um porco. Todos trabalham e angariam por aqui e por ali as parcas remunerações do seu esforço. A maior parte da carne jaz na salgadeira que se Deus quiser a vai conservar muito tempo.
Regressa a calma ao povoado e só os cães do Sete Balas quebram o silêncio ladrando aflitos. O rio Douro belo como nunca corre no leito serenamente indiferente às primitivas e saborosas tradições dos homens.

segunda-feira, 20 de Novembro de 2006

MARCHA AO ALVORECER

Marcha ao Alvorecer
Conto
Em fila indiana no meio da madrugada negra e fria, gasómetro pendurado na gola da camurcina de ganga azul, capacete de chapa enfiado na cabeça por cima da boina, os homens descem o empedrado granítico da rua do Remoinho, arrastando pesadas botas de água de marca pinta-amarela.
As silhuetas recortadas nas pedras da calçada pelo difuso clarão de uma alvorada que vem ainda distante, fazem lembrar estranhos fantasmas de gente ou fila de condenados à morte a caminho da forca. Na verdade eles e a negrura da noite, irmanados no mesmo sentimento de uma angústia repetida, caminham para um fim silencioso, lento e às vezes abrupto mas sempre inexorável. Esta marcha pode ser a derradeira e muitas vezes para muitos é. No entanto esta é uma hora abençoada, que lindo é o manto da noite a cobrir as terras a desenhar os contornos dos cerros na ténue claridade. Que poder vem do nordeste a levantar-se vagarosamente rasgando lento todos os mistérios da natureza. Que maravilhoso momento é o nascer do sol no alto de S. Domingos. Que esplendor fantástico este em que os nossos olhos ficam deslumbrados perante a grandiosa obra celeste.
As pesadas botas a pisar as pedras do chão cortam o silêncio dos condenados. Não falam, há muito que se esgotaram as palavras e a realidade brutal desta hora, convida ao silêncio e à meditação. São muitos a povoar a noite, de diferentes lados alguns bem longe das beiras do rio Douro onde também se não pode ficar à espera do sustento, todos se irmanam aqui na confluência dos caminhos e, quase sem cumprimento ou saudação fazem o resto da caminhada lado a lado, envolvidos num silêncio brutal e assustador. Cada um deles transporta nas pernas além do corpo, as mais variadas emoções do ser humano. Cada alma é uma alma sozinha entregue a si própria sem passado, sem presente, sem futuro, sem crenças e sem Deus. Nos olhos todos deixam perceber a angústia que os ensombra que as outras, tambem dolorosas, manifestar-se-ão noutro tempo e noutros lugares. Não findaram por magia, só deram lugar à maior de todas; serem enterrados vivos.
O Alberto Minhoca esguiado pela magreza acarta nas pernas um metro e oitenta de pele e ossos descarnados. Na cara cumprida reluzem uns olhitos claros e parados. Na cabeça uma boina preta e por cima desta o capacete de chapa enfiado, cobre-lhe a quase totalidade dos cabelos castanhos. Ele pensa na mulher prenhe de nove meses prestes a parir e na incerteza dessa hora feliz e trágica da sua vida. É que já tem três filhos e a possibilidade de mais um, agita compreensivelmente todo o seu ser. A ideia consola-o e ao mesmo tempo comprime-lhe a alma pela certeza de que o pão não vai chegar para todos.
- E se é hoje!? Pensa!
- Se calhar vai nascer e eu na mina!?
A tortura da ausência obrigatória faz-lhe doer o peito, mas logo vem o consolo, frágil, intemporal, quase ridículo.
-A ti Joaquina toma conta dela, já foi ela que pôs os outros cá fora, não vai haver perigo! Dissipa-se o medo, a dúvida, ganha forma a esperança. Mas que esperança? Aqui só se conhece o verdadeiro provérbio; enquanto há esperança há vida. São poucos ou nenhuns os adjectivos capazes de qualificar o peturbado estado de espírito do Minhoca. As contrariedades quotidianas são mais que a soma de pequenos desgostos, são dor acumulada ao longo dos anos a doer em carne viva, por isso o Alberto tem sempre presente que enquanto há vida, pode já não haver esperança.
O Isidro Sardão, mediana estatura a pender para o roliço e cara larga onde paira seco um sorriso permanente, vem de longe de Cabroelo e já traz nas botas duas boas horas de caminhada a atravessar de lés–a–lés a serra da Boneca. A sua preocupação premente é real e todavia patética: Não há dinheiro para comprar foguetes para a festa de S. Mateus. O pouco que resta levava-o a banda de Lagares. Ele é mordomo e só a ideia de ficar mal visto massacra-lhe a alma. Já fizera três peditórios, ele e os outros, foram à Capela, a Canelas, à Figueira mas pouco rendeu. As vidas andam baixas e não há tostão.
- E se fosse às Termas de S. Vicente? Pensou! Aquela é uma terra farta pelo menos consta-se, dizem haver lá lavradores a colher vinte e trinta pipas de vinho e dez carros de milho. Havia de lá ir no fim-de-semana no Domingo, saìa cedo e era capaz de chegar no fim da missa e apanhar assim o povo todo junto. Com jeito podia dar ai uns trezentos a quatrocentos mil réis, já se compunha a coisa, duas ou três dúzias de fogo, bombas umas seis, o resto de revolta e seriam atingìdos os fins a que se propôs, os da Capela haviam de ver quem é que canta-de-galo. A sua mente tacanha já o transportava à festa e via já o Coelho Regedor, encolhido e envergonhado perante tal afronta e, ele Isidro enfiado num fato de mescla tendo ao pescoço uma gravata às riscas a sair por entre os colarinhos da camisa de popelina branca, ao lado da avantajada mulher feliz da vida.
A alvorada aproxima-se a barca também e todos em carreira calcam a tábua de madeira rangente que faz de prancha entrando na embarcação amontoando-se em pé silenciosos. Germunde está à vista lá ao fundo da outra banda do rio. Já lhe adivinham o negro rosto enquanto as suas almas tristes, começam a rezar baixinho. Este parece o momento da redenção. A alma etérea abandona o corpo que vai mergulhar na terra. A alma procura a luz e não as trevas assim, ficam só os corpos mecanicamente a avançar para o buraco da noite. Nada existe nestes pedaços de carne humana simples marionetes manejadas por vontades interesseiras que não contemplam a análise da dor, do sofrimento e da desumanidade do trabalho.
Desprotegidos avançam decididamente para o degredo.
Não há homens em Germunde, as figuras ridículas que caminham na escuridão, são só a matéria que vai ser usada a cavar o chão nas profundezas da terra. Estas vidas pouco valem, ou melhor, não valem nada. Cada um representa-se a si próprio e se alguma vez se lhes enfeita um sorriso nas caras enegrecidas e tatuadas a negro, é fugaz passageiro e maculado por uma névoa de tristeza que nunca lhes abandona o olhar. Não sei o que me espanta mais nestes mortais se a sua submissão ao degredo sem um protesto, se a indiferença com que deixam passar os dias e os anos. Tal abandono à sorte, vai ter de ter um fim.

sexta-feira, 17 de Novembro de 2006

GERMUNDE


Germunde
Conto

Germunde é feia carrancuda e fria. Aparece estampada na encosta, como um ovo podre atirado à parede com as claras negras e viscosas a escorrer até ao rio. Súbita se venho do lado da Póvoa ou de Pedorido. De Melres no outro lado do Douro, vê-se como nódoa sombria a escurecer a serra em frente. O entulho desprende-se cascalhudo e solto até à beira das águas do rio a perpétuar a imagem que antecipa o inferno. Enormes pavilhões cobertos de chapas de zinco e fibrocimento assemelham-se a escangalhadas tendas de campo de concentração abandonado. Mais ao centro em zona previamente escolhida e bem longe dos barulhos da lavaria, há casas, vivendas misturadas com grandes prédios urbanizados e barracas pré-fabricadas que abrigam o pessoal médio. No meio destas há campo de ténis, piscina, bar luxuoso e messe limpa para os mais ganhadores de salário.
Por baixo de uma enorme placa de betão, fica o refeitório da classe operária mais baixa. Dentro deste espaço austero e frio, há mesas de madeira alinhadas na totalidade do comprimento do sitio com bancos corridos também alinhados sobre um chão de cimento bruto. A delimitar as diferentes zonas, há cedros e ciprestes plantas que emprestam um ar de cemitério a este local sinistro.
O sol ainda não despontou em Germunde nem vai despontar, distante lá em cima no céu passa por trás desconfiado e ensombreia a terra que já de si é negra. A claridade chega pelas oito e define um pouco mais a estrutura esquelética do aglomerado. Germunde não é cidade não é vila nem aldeia. Não é nada, nem uma coisa nem outra, o que mais parece é um espinho cravado na encosta do monte. Ninguém é de Germunde, a história não reza esta estranha espécie de vida aqui, mas ela existe trazida de longe, importada, alguma aciganada, tipo gente infeliz dos colonatos árabes. Ninguém se conhecia antes como não vão ficar conhecidos depois. Convivém mas ignoram-se, partilham estes espaços de terra e entulho como quem partilha a água de lavar tripas de porco. Germunde é um nicho para alguns vampiros que chupam o sangue a quem lhes cair nas mãos. Transformam o castigo desumano e duro, em obra de misericórdia abusando da debilidade do sustento deta gente. Aqui só se pára para morrer ou mijar, até a água das nascentes é férrea e preta a condizer na perfeição com o tormento. Bem se enfeitou ela de natureza vinda de fora, mas em vão, aqui não nasciam cedros, nem aciprestes, nem rosas, só urtigas azevim e mato. De Germunde ninguém gosta, nem os que aqui hão-de de nascer, vão fugir sem saudades para longe na primeira oportunidade que surgire e não voltarão mais. Em tempos remotos ouve vida aqui em Germunde, o edifício da messe foi solar de fidalgos, lavradores abastados no nome, que quem lavrava a terra eram outros. Tinham cavalos e coches meio de transporte para se deslocarem aos salões da Granja onde desbaratavam à sorte, o que os outros produziam. As madames alçavam as pernas e mostravam as coxas alvas e luzidias enquanto fumavam cigarrilhas cubanas. Os almoços também eles lautos, eram no restaurante Galo de Ouro em Aveiro e começava sempre por uma avantajada caldeirada de enguias a que se seguiam bifes de vitela enfeitados com tartulhos. Enfartados adormeciam e ressonavam alto. Ficavam por lá dias a fio até gastarem dez anos de salário de um cavador de terra a beber champanhe como quem no dia quatro de Agosto na festa do S Domingos, bebe uma esturraçada de água fresca do cântaro do Fome Negra.
Esta era pois a espécie de vida que em tempos remotos proliferava em Germunde, mas nesse tempo, ainda não se adivinhava o calvário que vinha a seguir, aquilo era só o prelúdio de uma tragédia que levaria à destruição de centenas de vidas. Germunde é uma terra propicia às maleitas, nasceu ou foi criada à imagem e semelhança do inferno
Bem ao centro do cenário em patamar de entulheira, discreta mas presente, o possível disfarçada fica a boca do suplício. A entrada da mina. Por aquela escancarada boca vão entrar as filas dos que vieram a caminhar há horas. E ai estão eles. Os gasómetros prenhes de carboneto que balouçam nas costas dos homens vão entrar em acção.
Uns atrás dos outros desaparecem ao fundo da ampla galeria transformando-se em pequeninas luzes trémulas e difusas. Lá vão o Marto, o Pestana, o Maneta, o Isidro, o Rã e os outros todos. Caminham cem metros pelo lado do trilho das vagonetas e ao fundo deparam com três enormes poços. O pg1 à direita, à esquerda fica outro na galeria da Santa Bárbara, o trinta e cinco.
No primeiro dois elevadores fazem a descida. As Jaulas que consistem num patamar de madeira de dois metros e oitenta, por um metro e trinta, cercado com grades de ferro é a cabines onde vão os homens misturados com os materiais. Quando um desce, o outro sobe carregando uma vagoneta cheia de carvão. Os mineiros descem também aos poços por escadas de madeira que de dez em dez metros tem um patamar e assim sucessivamente até atingir os trezentos metros de profundidade.
Chegados ao fundo novas galerias se formam onde se faz então a distribuição do pessoal pelas diversas frentes de serviços. Uns para um lado, outros para outro dispersos pelas travessas a começar nas seis e acabar nas trinta e cinco. Uns cavam outros enchem à pá pesados carros de mão construídos em madeira.
Vê-los agora é penoso. Quais toupeiras. Essas escolhem o terreno onde pretendem cavar, eles não. As marcas foram definidas antecipadamente e seja duro ou seja mole, tem de se avançar sempre. Inclemente e dura a vida aqui. Molhados, sempre molhados, se não é do suor é da água negra que pinga incessantemente do tecto, vão torçendo as negras camisolas único aconchego e protecção. Das mãos e braços chagosos pelas pedras afiadas e soltas escore sangue que se mistura com a massa preta do carvão. Transfigurados em camisola interior ou de tronco nu e em cuecas, assemelham-se a penduricalhos vivos. Nada lhes proteje o nariz e a boca e o pó negro entra livre até aos pulmões provocando a fatal silicose.
Ah mineiros do Pejão! Que erigirá o templo das vossas memórias! Quem lá há-de chorar o vosso inenarrável sofrimento. Que cá fora a nortada sopra e agita as folhas dos salgueiros tentando desesperadamente abafar os vossos aflitivos gritos. Ela que vos conhece desde meninos, que afagou o rosto da vossa juventude lancetada, sofre também em rajadas de revolta.
Pára rio Douro, escuta os lamentos dos homens enterrados vivos e lava-lhes as feridas do corpo e da alma com as tuas doiradas águas.
Parai barcos rabelos que da Régua vindes desfraldando ao vento vossas velas brancas e encarvalhado trazeis o precioso néctar que outros escravos fizeram, mas que não corre nas gargantas dos pobres.
Pára vento norte, não vês que é impossível calar o desespero destas almas famintas de luz!? Deixai que se faça silêncio, que cá fora a noite desça solidária com a noite deles e que Deus e S.ta Bárbara os protejam e velem então pelas suas desprotegidas almas.

quinta-feira, 16 de Novembro de 2006

A TABERNA


Tira-lhe os olhos, chega-lhe a roupa ao pêlo, parte esse estupor, esse sacana, essa besta da trampa, põe-lhe as tripas cá fora, dá-lhe com a caneca!..
É o Bicha-Cadela a incitar à luta o Concertina movido por ódios antigos que nem sempre foi incapaz de concretizar nessa altura transformando-os em pancadaria. Agora por obra do acaso, dispõe do meio para atingir esses malvados fins. Pegas antigas guardadas dentro do peito por anos a fio, contidas por alguma necessidade e mais tarde pela incapacidade da força do corpo que já se esgotou nos barcos, nos Rabões e o transformou num cangaço velho e mau. Reformado há mais de vinte anos, arrasta ainda aquele corpo retorcido alquebrado e doente, morada de reumatismo e albergue de queixas e ódios sem limites, até aqui à taverna do Cunha.
No tédio dos intermináveis dias, ele e muitos outros vêm para a venda transformar as tardes num autêntico arraial. Ignorantes das dinâmicas do Mundo, transformaram-se numa espécie de penedos inactivos. Uns afogam as horas em canecas de vinho tinto, outros pintam o tempo ora de cores sinistras, ora de uma beleza tão mentirosa como irreal. Histórias intermináveis são contadas e saboreadas quase todos os dias que ainda lhes faltam viver. Começadas, perdem-lhes o fio a meio engatando noutras sem pés nem cabeça. Qualquer presente desconhecedor do meio, às páginas tantas, fica sem saber de que terra é. Confusos são eles e as conversas, desafinados da mente por força do álcool, falam, falam sem dizer coisa com coisa. Muitas vezes se desentendem, comungam o mesmo pão da demência efémera que os vai cada vez mais embrutecendo. Então brota dos malvados instintos, o ódio dissimulado e disfarçado a custo.
Tudo é pouco claro nesses momentos de fúria. O beijo colectivo na caneca de porcelana branca dá lugar ao nojo destas bocas porcas. Surgem do interior deste mundo fantástico, as pragas infernais, as injúrias despropositadas, as gratuitas ofensas a todos e a tudo.
-À seu filho de uma cabra! Hoje é que vais morrer sacana! A tua mulher a dá-lo no areio, e tu aqui armado em cão com pulgas! Tens comichões!? Eu tiro-tas, meu animal! Racho-te as hastes a meio. Faço-te em pantanas num instante!
Sai tudo e de tudo. As ofensas são o menos repetido que são dia sim, dia não, já há muito perderam o autêntico significado. Pior é a ousadia do desafio à porrada; está tudo muito bem, mas isso, não tem perdão. Inicia-se então o arraial de pancadaria nas costas e murros na cara que vão pondo os olhos de alguns à Belenenses, avermelhados em volta e mais tarde roxos e negros. De vez em quando, se a luta teima em durar, lá vem a tranca de ferro empunhada pelo Cunha, restabelecer a paz. E restabelece.
- Ò Pinto, esteja ai quieto nesse canto, você não é para aqui chamado...ouviu!?...
É o Afonso, o regedor advertindo o velhote que procura a pistola que traz á cinta. Velha e ferrugenta é duvidosa a sua eficácia a disparar.
-Vai já fogo! Mato dois ou três num instante!... São todos meus inimigos!...Diz o Pinto a espumar da boca e a tossir como um cão.
- Esteja mas é quieto e calado homem...Se você em vez dessa porcaria, trouxesse ai à cinta um ou dois salpicões, não lhe faltavam amigos, ora com esse ferro velho e a dizer que mata, só pode arranjar a levar no pêlo!?...
Uns minutos de silêncio sucedem-se à bulha e, a confirmar a súbita calmaria houve-se forte a voz do Besouro:
-Ó Sr. Cunha deite aqui mais um quartilho. É a senha, o anjo mensageiro da tranquilidade precária. A caneca de porcelana branca com asa de metal circula novamente no recolher dos beijos tintos de todos eles. As mulheres acocoradas ao longo das escada do Cipriano, vão-se afligindo durante as bulhas e molhando o bico na caneca às escondidas dos homens. A noite restabelece a fragilidade da paz que só vai durar até ao outro dia.
A nortada falece. O Douro amacia e muda de vestes tornando-se um lago. Os galos anunciam a recolha crepuscular e cantam em diferentes lados do povoado. Os fumos das lareiras sobem no ar convidando às ceias antecipadas da reza do terço. Nesta hora mágica nasce algum carinho e alguma ternura dentro das quatro paredes de xisto e todos se entregam à providência Divina de
alma e coração.