Chove em Pedorido
1957
Em fila indiana, no centro da madrugada negra e fria, gasómetro pendurado na gola da camurcina de ganga azul, capacete de chapa enfiado na cabeça, os homens que minam o interior da terra em Germunde descem o empedrado granítico da rua do Remoinho, arrastando pesadas botas de água, de marca pinta - amarela.
As silhuetas recortadas nas coçadas pedras da calçada, pelo difuso clarão de uma alvorada que se declara ainda afastada, fazem lembrar estranhos fantasmas de gente ou fila de condenados à morte a caminho da forca.
Na realidade, escondidos nas sombras desta noite constelada, irmanados no idêntico sentimento de uma aflição redobrada, movem-se como autómatos sem vacilar para um desfecho silencioso e lento, às vezes abrupto, mas sempre inexorável. Esta estranha marcha poderá ser a derradeira e, muitas vezes, para alguns deles é.
Apesar da bestial realidade, do fantástico drama humano que por repetido se adivinha, esta é uma ocasião de beleza rara com o manto da noite a cobrir as terras, a desenhar os contornos das serranias na débil claridade. Que força vem dos lados de nordeste a elevar-se vagarosamente rasgando com um colossal clarão de luz, todos os mistérios da natureza que as sombras nocturnas agasalharam. Que maravilhoso momento é contemplar o nascer do sol no alto da serra de S. Domingos. Que esplendor fantástico este que deixa os nossos olhos deslumbrados perante a magnífica obra celeste.
O rumor surdo das pesadas botas a pisar as pedras do chão, corta o silêncio dos pobres condenados. Não falam, há muito que se esgotaram as palavras pela ausência de quem afectuoso as escute e, a violenta realidade desta hora convida ao silêncio e à meditação.
São muitos a povoar a noite. De variadas e diferentes procedências, algumas situadas muito longe das beiras do rio douro onde igualmente se não pode ficar imóvel à espera do sustento, todos se reencontram aqui na confluência dos caminhos que atravessam montes e vales e, quase sem um cumprimento ou gesto de saudação, completam o resto da jornada lado a lado envolvidos nessa mudez terrível e assustadora. Cada um deles carrega nas pernas, além do resto do sacrificado corpo, as mais complexas emoções que um ser humano pode experimentar em semelhantes circunstâncias. Cada alma destes mineiros é uma alma desamparada e sozinha, entregue a si própria, sem passado, sem presente, sem futuro e até sem Deus. Os olhos que reluzem nas cavernas ao cimo do rosto, deixam perceber a medonha angústia que os deteriora mal reflectindo as semelhantes que a vida produz, arquivadas à força no espírito e que se manifestarão num noutro tempo e em outros diferentes lugares. Não desapareceram por qualquer arte de magia, foram apenas substituídas pela mais horrível de todas; serem enterrados vivos.
Na funesta procissão que rabisca pelos caminhos do monte em frente, vai o Alberto Minhoca que delgado pela magreza acarta nas pernas um metro e oitenta de pele e ossos descarnados. Ao cimo da cara cumprida reluzem estupefactos uns olhitos claros e parados. Na cabeça uma boina preta e, por cima desta o capacete de chapa enfiado, cobrem-lhe a quase totalidade dos cabelos castanhos. Na sua companhia e taciturno vai o Isidro Sardão sujeito que aparenta ter à volta de trinta anos vestindo uma indumentária que em pouco varia da do companheiro e aparenta ser manifestamente uma figura desempenada que assume a mudez matinal muito embora a mente lhe trabalhe, ruminando lembranças. O Alberto mergulhado dentro de si próprio, pensa na mulher prenhe de nove meses prestes a parir e na incerteza dessa hora feliz e trágica da sua vida. Já é pai de três filhos e, a inevitável possibilidade de nascer mais um, agita compulsivamente todo o seu ser. A ideia consola-o e ao mesmo tempo comprime-lhe a alma, pela certeza de que o pão que dia a dia procura, não vai chegar para todos.
- E se é hoje!? Pensa!
- Se calhar vai nascer e eu na mina!
A tortura da ausência obrigatória, faz-lhe doer o peito mas logo vem o lenitivo, frágil, intemporal, quase ridículo.
- A ti Joaquina toma conta dela, Já foi ela que pôs os outros cá fora. Não vai haver nenhum perigo!
Por instantes dissipa-se o medo, esclarece-se a dúvida, ganha forma a esperança. Mas que esperança? Conhecedores do real provérbio usado nos livros, enquanto à vida há esperança, sabem também que pode haver vida, que pode palpitar o coração mas pode não existir qualquer espécie de fé num futuro melhor.
São poucos ou nenhuns os adjectivos capazes de qualificar o estado de espírito do Minhoca. As adversidades quotidianas são o somatório de pequenas e grandes amarguras, são dor acumulada ao longo da existência a sangrar e a doer em carne viva. Por isso o Alberto tem sempre presente que, enquanto avança na vida, pode já ter acabado toda a esperança.
O companheiro de mediana estatura ostenta na cara larga onde paira seco um sorriso permanente, uma barba cerrada e negra. Vem de longe, de Cabroelo e já traz nas botas duas extenuantes horas de caminhada a atravessar de lés – a – lés a serra da Boneca. A sua preocupação premente é real e todavia patética por tão desajustada ao drama actual:
Não há dinheiro para comprar foguetes para a festa de S. Mateus. O pouco que resta levava-o a banda musical de Lagares. Ele é um dos mordomos e, só a ideia de falhar ao compromisso assumido na roda da última festividade momento em que pela primeira vez se sentiu orgulhos, massacra-lhe a alma. Já fizera três peditórios, ele e os outros mordomos. Foram esmolar às freguesias da Capela, Canelas e Figueira mas apesar de se terem empenhado, pouco rendeu a recolha. As vidas andam baixas. Não há tostão nos bolsos do povo.
- E se fosse às Termas de S. Vicente, pensou!
Aquela é uma terra farta, pelo menos consta-se. Dizem haver lá lavradores a colher vinte e trinta pipas de vinho e dez carros de milho. Pensando melhor, havia de lá ir no próximo fim-de-semana, talvez no Domingo. Saia cedo e era capaz de chegar no fim da missa encontrando assim o povo todo reunido A correr pelo melhor, podia render uns trezentos a quatrocentos mil réis. Era bem bom, já se comporiam as coisas. Duas ou três dúzias de foguetes, bombas umas seis, o resto de revolta e seriam plenamente atingidos os fins a que como festeiro se propôs. Os habitantes da vizinha povoação da Capela, sede da freguesia a que pertence, haviam de ver então, quem é que canta-de-galo.
A sua mente simples e tacanha já o transportara à festa, já via no precário imaginário o Coelho regedor encolhido e envergonhado perante tal afronta e, ele Isidro Sardão todo enfiado num fato de mescla, com uma gravata às riscas ao pescoço a sair tombada por entre os colarinhos da camisa de popelina branca, ao lado da avantajada mulher, feliz da vida.
A alvorada aproxima-se, a barca que vai transportar este grupo na travessia do rio acaba de atracar e, todos em fila indiana calcam a improvisada prancha de madeira e entram na embarcação amontoando-se em pé, taciturnos.
Germunde a terra negra para onde se dirigem, está à vista lá ao fundo na outra banda do rio, já lhe adivinham o sombrio rosto enquanto as suas almas amarguradas começam a rezar baixinho.
Parecem ter entrado no momento pavoroso da submissão. O espírito etéreo abandona por algumas horas o corpo que vai mergulhar na terra. O alma procura a luz e abomina as escuridões sem nunca cooperar com este intolerável enterro de pessoas vivas e assim sendo, ficam só os articulados esqueletos mecanicamente a avançar para o buraco onde a noite se perpétua. Não existe permitida determinação própria nestes pedaços de carne humana. Simples seres sem quaisquer direitos, manejados por vontades interesseiras que não contemplam a análise da dor, do sofrimento e da desumanidade do trabalho, vergados e impotentes perante semelhante desdita, totalmente desprotegidos caminham como bizarras marionetes para um labuta que quem ordena torna desonrosa e desprezível.
Não há homens em Germunde, as figuras estrambóticas que passam na escuridão são a matéria, a energia barata que vai ser usada a cavar o chão. Estas despersonalizadas criaturas pouco valem aos olhos dos patrões, ou melhor, não valem nada. Cada um representa-se a si próprio e, se alguma vez se lhes enfeita um sorriso nas caras enegrecidas pelo carvão, é fugaz, passageiro e maculado por uma névoa de mágoa e tristeza que nunca lhes abandona o olhar.
É difícil entender, compreender o que espanta mais nestes mortais se a sua submissão ao degredo sem um protesto, se a indiferença com que deixam passar os dias e os anos a morrer aos poucos nas profundezas da terra. Tal abandono à sorte vai ter de ter um fim.
Nas fraldas da serra de S. Domingos, nas duas vertentes, a noite já deixa enxergar as diversas filas que se vão formando.
Do lado de Serradelo, juntam-se aqueles que vêm mais de norte; Escamarão, Couto, Tarouquela, Espadanedo, Cinfães, Bairros, Travanca, Sobrado de Paiva e de mais longe.
Do outro lado do monte na vertente a sul em Folgoso, associam-se os vindos de Guirela, Gaído, Real, Pejão, Carvalho Mau e até de Arouca. A postura é a mesma e os passos da marcha marcados no caminho, fazem lembrar fantasmagórico exército vencido e desarmado a caminho da capitulação. Rendidos sim eles vão, à desventura, ao destino traçado desde a nascença que lhes impede qualquer assumo de liberdade. Desarmados, impotentes, abandonados perante a crueza da vida, como escravos resigna-se e marcham.
Do lado norte da serra que faz frente à freguesia da Raiva, o alvor da manhã desenha difusas e dantescas formas nos cerros da serra da Boneca e, os penedos da Abitureira imponentes e majestosos a despenharem-se sobre o rio, ameaçam ir esmagar o pequenino lugar de Cancelos.
Ao fundo na profundeza do vale corre o rio douro sereno, tranquilo parecendo indiferente à desgraça.
Do lado sul o rio Arda aparece de repente vindo de não sabe de donde, manhoso e encoberto pela neblina matinal. A Senhora das Amoras é encruzilhada de três caminhos. Uma capelinha construída em xisto caiada de branco, de cunhais e ombreiras graníticas e cercada de frondosas tílias, apadrinha todas estas gentes. Sítio de muitos milagres prestados a quem à santa recorreu, tem o ex-líbris no maior deles de que se perde a exacta memória no longínquo passado, mas diz-se que a santa, ou princesa moira, passando por este lugar transformou as bolotas de um sobreiro aqui existente em apetecíveis amoras.
Os da Raiva e de Sardoura vêm por baixo, pela Vista Alegre e aparecem no fundo do barranco a dobrar poeirenta e extensa curva da Rabuça. Ao passar em frente à capela fazem meia vénia continuando a marcha de enterro tão taciturnos como os de além, carregando aos ombros a mesma cruz pelo caminho que pisam. O trilho abeira-se do rio, os carreiros pedregosos do monte encontram finalmente a estrada esburacada transformando a extensa fila num amontoado de criaturas em marcha contínua. Passam o lugar da Estação e embrenham-se no frondoso arvoredo da margem do douro.
Pedorido aparece ao virar a última curva negro de aspecto como negra é a terra que os homens vão pisar ali. A lava seca da hulha transformada em pó, já há muito tomou conta de tudo. Pedorido ficou feio, perdeu a beleza de terra de lavoura e de pescadores. Negros são os caminhos, negros são os homens as mulheres e as crianças, negras são as casas assentes em cima de terra oca que cede, cede e vai deixando marcas, rachas profundas irreparáveis nas ombreiras e nos cunhais.
Foge a chão a Pedorido, a aldeia afunda-se irremediavelmente no abismo. Por baixo do pó negro não existe mais nada, só buracos construídos por estas toupeiras humanas que cavam e luram o chão até aos infinitos.
O Coirão, rapaz alto e escanzelado, descalço à dezasseis anos, envergando umas calças que desmedidas não ultrapassam o meio das pernas, fuma desesperadamente uma barôna de cigarro deitada fora por um dos mineiros, enquanto que com o pé direito, coça a canela da perna do pé esquerdo, olha atónito o cortejo que vê passar nas Côncas. Ausente de tudo, vivendo num mundo ainda mais irreal e fantástico e totalmente inacessível aos outros seres vivos, em regulares devaneios de objectiva lucidez, tinge as doiradas águas do douro de um vermelho vivo de sangue.
Quando a lua se agiganta no céu ou quando os ventos sopram desesperados sobre a água do rio, o louco altera a sua habitual conduta pacífica, enfurece-se e inicia o discurso que melhor descreve a parte mais sombria do lugar. O Coirão conserva arquivadas na doença do cérebro as magoas amontoadas ao longo da vida e, quando há uns anos se apercebeu que agigantado pela cheia o rio lhe cobria a barraca de dois metros quadrados onde ele e a mãe vivem, constitui-o no seu principal e talvez único inimigo:
Rio é sangue, diz grosseiramente o Coirão que mal sabe falar. O pescoço desprende-se dos ombros oscilante e a cara toma uma forma grotesca e dolorida quando tenta pronunciar as palavras. No tremendo esforço para comunicar, a cabeça balanceia-se de lado para lado insegura e nervosa. O Coirão nunca conheceu o pai, sabe-se lá quem será. Tanto pode ser um mineiro como um doutor como um padre. Aquilo que ele conhece perfeitamente é a fome, o frio e muitos outros sofrimentos que o tornaram demente. Também reconhece pessoas importantes que com nojo o sacodem para longe como a um cão com lepra e lhe chamam tolinho. Nenhum deles lhe estende a mão caridosa, o abraça ou lhe calça os pés nus.
- Ele gosta de andar descalço, dizem.
Como se fosse justo e verdadeiro, como se houvesse alguém neste mundo tão insensível ao frio ao ponto de dispensar tal aconchego, nem um louco senhores, nem um louco.
Rio é sangue Coirão. Nunca ninguém conseguiu retratar como tu o rigor absoluto da verdade. Porque não consegues encontrar as palavras exactas para definir a dor da tua mãe perante a calamidade causada pela cheia, mas sabes que o sangue brota sempre doloroso, encontraste nessa frase atabalhoada o sinónimo que a tua voz jamais pronunciaria correcta e claramente. Rio é sangue! É sangue de facto por isso e também por outros motivos que te passam bem longe dos recantos até onde atinge a tua compreensão e que por isso desconheces. Sangue dos barqueiros do douro e dos marinheiros dos Rabões da Esquadra Negra. Cada pedrinha das margens conserva em vincos gravados a encarnado a história dos infelizes e os olhos da água são de um vermelho vivo de sofrimento.
Os mundos do Coirão são outros, bem mais complicados, muito mais negros. O louco sente e sofre no interior da sua insanidade ao ver espantado as caras e as mãos dos homens, tracejadas com feridas cicatrizadas com mijo e pó de carvão, marcas irreversíveis companheiras até á morte, até à cova onde a terra gorda, apagará para sempre essas sinistras tatuagens. Adivinha-lhes o resto do corpo que, todo coberto pelas andrajosas roupas não é visível, também marcado, desenhado a negro como se um pintor louco tecesse essa estranha tela.
Todos passam por ele neste amanhecer tranquilo. Qualquer dos mineiros o conhece e respeita a sua loucura. Olham-no como quem olha uma flor que murchou, com pena e com raiva.
O Pestana alto e russo de cara oval onde um bigodito também grisalho parece ir cair ao chão a cada momento, desce a serra de S. Domingos acompanho do Râ. Mais à frente juntam-se-lhes o Maneta um tipo invulgar de cara redonda boca larga onde aparecem uns dentes raros e podres. O Pestana abandonou Serradelo pelas seis da madrugada e, no cumprimento da missão diária, calca as pedras dos caminhos da serra lançando uma atrás da outra as pernas arcadas, enquanto um lenço tabaqueiro vermelho matizado por riscados brancos lhe tapa o pescoço grosso e curto. Olham-se de soslaio um ao outro devidos à briga que tiveram no arraial de Sta. Eufémia e essas contas ainda não foram ajustadas. Não se perdem de vista, cada um sente que a ofensiva pode vir a todo o momento e sem qualquer aviso prévio.
O esplendor da alvorada descobre vagarosamente todo o encanto da paisagem à frente dos seus olhos. O rio douro imponente serpenteia lá em baixo por entre as fumegantes casas de Rio Mau, Pedorido e de Melres, para depois repentinamente, esconde-se na prolongada curva da Lomba. As serras em frente, a Boneca e as Banjas, aparecem coloridas do violeta da flor da urze matizado pelo amarelo vivo da carqueja como se um gigantesco tapete de flores silvestres cobrisse todos os montes. É a natureza em toda a sua beleza, em todo o seu encanto e esplendor. Não há decerto sítio onde a vista se deslumbre tão comovida e crente, como no alto da serra de S. domingos. Os três mineiros não têm olhos para tamanho encanto, ignoram este cenário de sonho paralisados por pensamentos sinistros carregando o olhar e o semblante, de uma austeridade que os cega e enlouquece. Não bastava o martírio da mina, o sofrimento e a aflição que diariamente os domina, teve de aparecer aquela raiva surda a nublar a miserável existência. Apesar do aperto do caminho seguem lado a lado, nem uma passada de avanço, nem um passada de atraso, parecem dois bonecos, autómatos e mecânicos. Nestas almas rudes e penadas, só há lugar para o rancor que apesar de tudo ainda os vai mantendo unidos.
No alto da Póvoa amanheceu de repente. O sol desabrochou ao longe, por de trás da capela do Senhor dos Remédios em Rio de Moinhos e ergueu-se no céu gordo e quente. Fumegam as urzes e o rosmaninho da serra a secar o orvalho da noite. O ar perfuma-se num instante. Vê-se o vale do douro prostrado aos pés dos caminhantes e o rio adivinha-se por entre a neblina com o casario de Rio Mau e Melres a espelhar na água. Soberbo é o panorama, retrato de tons diversos caracterizados pela ampla liquidez, extasiaria qualquer caminhante na contemplação do quadro, demasiado belo para justificar a ignorância de todos.
A aurora cintila lá longe e ilumina as serras e os vales, desperta a vida no chilrear dos melros e no chiar dos pardais. Nos homens a noite de todos os tormentos, vai permanecer negra e fria.
Uma extensa fila dobra o alto da serra grossa de mineiros que vêm de Labercos, da Corga do Lobão, de Avintes, de Crestuma, de Lever, de Canedo, da Vila da Feira e de mais longe. Os da Lomba, Pé-de-Moura e de Areja, vêm mais por baixo junto à margem esquerda do rio e prestes a atingir o destino marcado - Germunde.
Jerónimo Marto é muito baixo e arredondado e atira para a frente a cabeça e o pescoço por força da corcunda que lhe aparecera há anos devido a andar permanentemente vergado nas baixas galerias da mina, segue atrás do Milheira. Este é moço que aparenta ter trinta anos. Alto e magro a contrastar dramaticamente com o companheiro, lança a cabeça e o troco para trás quando avança, desfasados do ritmo das passadas. Da cinta para cima assemelha-se a um soldado em sentido tal é a rigidez do tronco e dos braços.
O primeiro marca o compasso da caminhada que dura há algumas horas. Atrás deles um cachorro caminha humilde. Vêm da Corga de Lobão distância de duas léguas derreados de cansaço, prestes a desfalecer. Germunde não tem dó, tão pouco alguma piedade. Chegando à boca do inferno, os homens num esforço colectivo vão dar tudo por tudo debaixo do chão a cavar as fragas. Para os fazer cumprir e impossibilitar qualquer distracção, existem os encarregados, alguns deles sem qualquer preparação na condução de homens, obedecendo cegamente a quem manda, avinagram um pouco mais o tormento.
- Anda malandro! Então querias férias!? Verga mas é a anha, pensas que isto aqui é pão-de-ló!? Se te vejo ao alto parto-te a espinha! Queres ganha-lo a coçar os tomates?
São inenarráveis as cenas humilhantes, de lesa honra e dos mais elementares direitos do ser humano, ofensas morais e corporais que esta gente sofre diariamente. A empresa completa o cerco editando um jornal, O Pejão, que não fora alguns dados técnicos que apresenta e algumas crónicas históricas, mais parece um panfleto da pide. As lavagens ao cérebro são mensais. Em todos os números o pequeno folheto suporta mal a carga ideológica que espalha aos quatro ventos. Os temas repetem-se ano após ano versando sempre a religião, a pátria, a família e a incitação ao trabalho num apelo constante à total entrega dos humildes operários, pregando sempre a sabida e intolerante doutrina.
De vez em quando o Jolim, alça a perna traseira e urina nos arbustos da margem do carreiro. A quietude desta hora mágica principia a desvanecer-se com o rumor surdo vindo da proximidade de Germunde. E um ruído estranho que se julga vir das entranhas da terra, assim como se um terramoto varresse toda esta zona. Esse ruído atemoriza e impressiona os homens que sentem um frio gelado na espinha do cerro. Uma espécie de pânico corta-lhes a respiração por momentos, mas logo vem o imperativo do acto acelerar a marcha.
A brutal realidade não para a fila que sem vacilar, segue mecanicamente em frente, alheia à paisagem, alheia a tudo e até a si própria.
Ainda com madrugada do outro lado do rio, mais precisamente às quatro da manhã, uma música dolente, tocada ao vivo pelos Finfas de Nespereira, onde sobressai a rabeca, saia pelas janelas abertas da casa da encosta, na quinta de Santa Cruz. As cortinas de linho, rendadas, balouçam ao sabor da ligeira brisa. Ora para dentro, ora para fora, numa dança suave e fresca.
O Vaz Figueira, moço fidalgo, alto e magro, já recolhera ao quarto cor-de-rosa onde uma lâmpada eléctrica encasquilhada num prato de esmalte balouça com o ar da brisa dando contornos indecifráveis aos móveis de século. Com gestos de mestria, próprios de quem se dedica de alma e coração ás artes do amor, o fidalgo, tosquia a filha do Fidalgo das Ganjas. Ela, moçoila de vinte anos, estatura mediana, magra e bonita, culta de colégios de Lisboa, aproveita as férias para distrair e retemperar forças para o ano escolar que se avizinha.
No salão, o Conde do Pedregal, gordo como um chino, completamente tomado pelo álcool, vai elogiando a mulher por feitos e dotes de cozinheira que nunca demonstrou a ninguém, só a ele. O Rocha Melo, figura nutrida, segura uma barriga do tamanho de um pipo de dois almudes descaída sobre as partes e assentes nas coxas, ouve entusiasmado as narrativas do outro enquanto imagina as partes baixas da mulher do conde sufocadas e cobertas entre as pernas pelas grandes saias de roda com folhinhos. De vez enquanto, a mulher do Conde, redonda e feia, deita um olhar dócil e sensual ao Melo que cruza as pernas aflito e retribui com um sorriso besta estatelado na cara.
A noite não ficará por aqui, embalados pela contradança musical do conjunto, abraçam-se apertados e espremem os peitos das damas num roço permanente. O champanhe corre afoito, transborda das taças trazidas pelo Pinto da Rabuça que faz de criado. Vestindo uma jaleca branca e luvas da mesma cor, mais parece um pinguim. As calças são pretas e justas ao corpo, os sapatos de verniz, brilham e condizem perfeitamente com o empastado cabelo à força de brilhantina.
- E virou!
É a voz do improvisado mandador o Toninho da Tulha, arrebanhado entre os mais abastados do sítio, assume atitudes de quem só vive do gozo. Gordito e baixote, vermelho da cara mais parece um tomate maduro. A cabeça redonda, assenta em cima dos ombros e o pescoço pura e simplesmente desaparece na grossura da carne. Do queixo saem a pender umas bofelas que fazem lembrar um porco matadouro, se bem que todo ele é parecido com tal, ou então visto de cima da varanda, é o retrato chapado de um saco de batatas com pernas. Os olhos são arregalados, brancos raiados por veias de sangue, tem ao centro por duas pupilas dilatadas que assustam qualquer um. Enverga umas calças pretas de fazenda às riscas e uma camisa de popelina branca aparece à cinta a sair por baixo do colete preto forrado na traseira a cetim da cor de vinho tinto.
Na Quinta da Tulha onde vive e é proprietário, junta os velhotes na adega e enche-os de vinho onde previamente mistura aguardente embebedando-os a todos. Comida não dá o filho da mãe, mas vinho é à discrição. Quer vê-los a tombar como postes de telefone arrancados por grande temporal e fazer as piruetas ridículas próprias dos embriagados. Ri-se a bandeiras despregadas até se mijar todo.
Faz mais o remelado da trampa, como lhe chama a Micas Barulha. Contrata mulheres para as tarefas do campo e depois anda a correr atrás delas com a gaita de fora, sem a folia da juventude que já lhe morreu dentro das ceroulas há muito tempo e nunca deu provas de reprodução. É assim atolascado o velhote, cobiça tudo o que vê com saias e, as cenas de cio que desempenha acabavam sempre da mesma maneira, alaga-se todo pelas pernas abaixo.
Às quatro e pouco da manhã a sanfona de Nespereira começa a tocar a Balsa da Meia-noite no salão. Onde é que ela já vai! entretidos no regabofe nem deram pelo passar do tempo embora isso não lhes faça grande diferença pois vão dormir ali até á próxima noite. Pior estão os mineiros que passam a caminho da mina. Vêm de longe, trazem no cansaço das pernas horas e horas de jornada desde o cimo do Marco de Canavezes, Penafiel e de outras terras. A cama foi-lhes breve, marcham solitários pelas serras abaixo e os sinais do gozo burguês, só lhes provocam comichões nos tomates. Querem lá saber da festa. Festas, festas são as de S. Domingos, da Sta. Eufêmia, da Senhora das Amoras e o S. João no Porto. O resto é assim uma coisa desengraçada, própria de quem não tem mais que fazer, de ricos. Vão aos anos uns dos outros e, trocam de mulher mais vezes que um mineiro troca de camisa.
Por entre os primeiros alvores do amanhecer, Sebolido aparece ao fundo da serra da boneca, encravado entre as fragas da Abitureira os Penedos da Sombra e o rio. Estende dois braços lancinantes na paisagem. É terra de lavoura de pescadores e de mineiros. Casas afidalgadas alinham-se aqui e ali no caminho que conduz á igreja de S. Paulo. Não há luz eléctrica em Sebolido como não existe nas outras terras vizinhas. A luz é de candeias, de lampiões a petróleo e de velas de sebo. As noites são escuras como breu e, só muito raramente cortam as trevas os difusos clarões das artesanais lanternas ou quando algum ser aflito procura ajuda no lugar ou ainda se alguma bruxa vai lavar roupa à presa de Junçadelo. Fazem alarido, batem com as mãos na água e agitam-se desesperadas no meio da noite. Cobrem os corpos nus com longos lençóis brancos que lhes dão um ar mais sinistro nesta escuridão. Dizem ser as mesmas que assombram as margens do rio Mau. Aparecem sempre nas noites de lua cheia a espalhar o medo e o terror por estas bandas. São bruxas, ou mulheres viúvas, que vivem sozinhas e, nas trevas dão largas às emoções angustiantes contidas durante os dias. É gente que vive em desespero curtindo solidões eternas, desnorteadas, aflitas comportam-se como mortos-vivos.
Sentado no cruzeiro o Cipriano vai assistindo ao passar dos companheiros.
Está de baixa há seis meses e doente, muito doente. É pele e osso o mineiro. A carne, se é que existiu ali, já há muito se ausentou definitivamente. Ficou esquelético, tísico, um fiapo de gente.
Vencido pela silicose, acalenta ainda uma réstia de melhoras mas tem consciência de que se fora já a terna juventude, o jogo do peão e da pincha dos botões. Agarrou-se na infância ao trabalho da mina para poder casar e sustentar a mulher e os filhos. De uma vez só, rendeu-se ao tormento que no íntimo sabia que acabaria assim.
Breves foram as ilusões da mocidade, perdidas entre alguns dias de escola e da saca das pinhas que apanhava no monte para acender o lume. O sonho da meninice era lindo e abrasados, ocupara-lhe o peito na peregrinação dos anos.
- Ser pescador do rio.
Mas a arte de cercar o peixe, não dura mais que três meses. Depois, com os primeiros alvores do verão, finda-se em tentativas infrutíferas de lanços e lanços perdidos. O rio dá o pão em fartura. Prenhe de lampreia e sável, sacia as barrigas dos pobres por algum tempo mas acabada a migração dos peixes, deixa o povo de mãos atadas à cabeça, sem saber o que fazer á vida.
O Cipriano passa a mão no cachaço e olha o horizonte largo que têm pela frente. Há rugas nas faces do mineiro. Traços adquiridos pela dureza da vida e não pela idade que ainda não justifica esta velhice precoce. O cigarro forte baila-lhe nos beiços apagado, como se tivesse nascido ali e fosse perpétua a sua estadia. Queima ainda o resto de vida que pode existir naquele corpo.
Pouco dorme, a tosse rouca e profunda, é um tormento e, a falta de ar nos pulmões, arruína-o e sufoca-o. Levanta-se muito cedo, ainda com noite cerrada e, é para aqui que vêm matar saudades dos amigos, da labuta, ou então, do meio salário que perdeu por ter metido baixa.
Olha as mãos onde a vida lhe seca desesperada. Quer gritar, soltar ao vento deste florir do dia, a revolta que acolhe no peito há muitos anos. Nem um som produz a sua voz embargada, parece que nunca será capaz de tal atrevimento. Há-de ficar-se pelo silêncio eterno, levará para o túmulo todo esse sofrimento, todo esse sentir destruidor. Não há lágrimas nos olhos parados deste homem, por mais dolorosas que sejam as dores, um mineiro não chora, apenas se lhe nota a quebrar a aparente serenidade umas gotas de suor gelado na testa franzida. Tudo é sombras, tudo é silêncio neste claro amanhecer. A dor, cada um sente-a no peito e é só sua. Mais ninguém, só Deus os pode ajudar se quisesse. De vez em quando, reluz junto ao cruzeiro, a trémula luzinha do cigarro que o Cipriano reacendeu lentamente e que lhe vai antecipar o fim programado. Aqui, neste recanto onde dão a volta as procissões, está sentado um homem que nunca aprendeu a rezar.
O tormento que o vai minando começou há muito tempo. A tosse, a falta de ar nos pulmões impossibilitavam qualquer esforço mas foi-se mantendo animado escondido na ténue esperança de melhoras, que no fundo sabia não existirem. A partir de agora, é a piorar a olhos vistos. Já viu outros mais novos do que ele, entrevados pelo mesmo mal embarcarem para a terra fria. O médico da empresa, na consulta de rotina, todavia não fora peremptório:
- Isto é pó Cipriano! Abifa-te homem que isso passa, senão, mete-se a reforma, ficas a receber uma tensa, és capaz de dar trinta por cento de pó, são mais quinhentos por mês!
- Abifa-te!
Esta palavra martelava incessantemente a cabeça do mineiro.
- Abifa-te!
Como é que podia abifar-se, se nunca na vida tinha visto um bife à frente dos olhos!?
- Abifa-te!
O doutor deve estar tolo! Ele saberá quanto custa um quilo de carne de vaca? Então a confirmar a realidade por todos ignorada, vêm-lhe à cabeça as cenas diárias da ceia. A mesa da cozinha estreme, em redor os oito filhos fraldrucas, no centro um prato de barro com um galo desenhado no fundo a criar ilusões e, em volta deste, dez garfos de ferro com cabo de madeira à espera dos bifes. Eles vêm, redondos, castanhos, com casca e, por cima deles, mais bifes, compridos, escamudos com cabeça e tudo.
- Abifa-te Cipriano ou morres!
Não há escolha possível entre as duas possíveis opções.
- Abifa-te ou morres!
Os bifes são sardinhas, cinco para dez bocas, mesmo assim não é mau de todo. O dinheiro da baixa não dá para mais. Meio salário, como meia é agora a cabaça do vinho. A farmácia leva tudo. Sendo assim, morre Cipriano, decide pela parte mais barata, não há outra hipótese, só te resta morrer.
Esta é a realidade nua e crua, tão verdade, tão nua, tão crua, que o sino da igreja de Sebolido o irá confirmar muito em breve, dobrando a finados.
Que desgraça de vida!
No entanto há cães em Sebolido e Rio Mau que comem bife todos os dias. Os que se marram nas perdizes da Fraga Amarela e os que empeugam nos carreiros do areio de Hortos atrás de coelhos. Cães de raça, tratados melhor que gente.
O Cipriano vai falecer esganado pelo pó, faltoso de ar nos pulmões, aflito na agonia e por falta de bifes. O médico está farto de saber o que o espera desde a primeira consulta. Já deu esta receita a muitos, a mesma, a certidão de óbito antecipada, sem nome, sem data, sem critério, desumana, injusta e cruel.
- Abifa-te!
- Ele o doutor, abifa-se. O Toninho de Melres sabe quem lhe pode pagar a carne e abre-lhe as portas do talho de par em par. E os galos e cabritos que recebe por dar baixa a alguns malandros e lhes facilitar as reformas? Abifa-se o homem tanto, tanto, que há-de morrer novo. Talvez não faleça de silicose, mas de fartura de bifes.
Nada, nem mesmo o prenuncio da morte pode parar a estranha fila que vem a marchar desde Penafiel, Cabeça Santa, Oldrões, Valpedre, S. Paio, Rio de Moinhos, Eja, Alpendurada, Penha Longa, Marco de Canavezes, de Várzea do Douro e de muitos outros lugares, engrossando sempre até fazer centenas.
A morte não existe nestas bandas. Morre-se só. Abandona-se o mundo sem se perceber bem porquê mas conscientes da certeza de que aqui ninguém pode viver. Parte-se com um misto de consolo e desespero estampados nos olhos. Uns, usam as sogas dos bois para se enforcarem, outros finam-se nos poços do rio Mau afogados. Viver é um martírio, um degredo que provoca o desânimo. Podiam até suicidar-se muitos mais não fora um último pensamento solidário com os que ficam e que terão de suportar o preço dos caixões que essa circunstancia sim, inviabiliza algumas vontades urgentes de abalar deste mundo.
A morte já não anda por Sebolido. Saciada, regressou a Germunde e, ali continuará a matar silenciosamente. Virá repetidamente dos lados do Poço Negro, da Fraga Amarela, do Vale dos Lobos, ou até do Penedo Gordo, mas o mais certo é vir dos lados da mina sem se saber quando nem porquê. Vai-se adivinhando nas badaladas do sino, na força da nortada e na escuridão das noites povoadas de formas fantasmagóricas e de bruxas. Virá sempre, constantemente, as gentes sabem isso desde que nasceram. Por isso não estranham, não se pasmam nem protestam, convivem com ela numa indiferença e num estreitar de laços arrepiante.
Outra fila aparece na longa recta da estrada já perto de Melres. A cauda estende-se até longe e chega a Zebreiros, Gens, Covelo, Medas, Sarnada, Aguiar de Sousa, Recarei e a Branzelo. Por ela o mortífero vírus espalha-se longe e mata em diferentes lados.
Ficam-se os olhos da madrugada pregados a uma figura castiça Caga- na- Marca, a quem a alcunha ficou por ter defecado nas profundezas da terra, mas quem não o fez? Quantos são os que caminham duzentos metros e mais duzentos a subir o poço mestre para vir aliviar cá fora? Nenhum, todos o fazem, ali atrás das bolorentas madeiras de pinho que sustentam os tectos das galerias embora e incompreensivelmente só ele foi baptizado e marcado até ao fim dos seus dias:
- Caga- na- Marca.
É baixote. O seu andar assemelha-se ao andar de um porco velho aos saltinhos.
Caminha na fila de saco de ganga azul a tiracolo onde adormecida repousa a marmita do caldo. Na gola da casaca suja, o gasómetro pendurado balouça ao sabor dos passos decididos do mineiro. À cintura presa por um atilho de sisal, a cabaça do vinho americano tinto, baldeia a pinga que vai criando gás.
Batem sete horas da manhã no sino da igreja de Pedorido. Este som lúgubre e sinistro estarrece os homens. Na memória de dias e anos passados, paira este toque que denuncia a morte, que antecipa a notícia e difunde desgraças.
Dlan, Dlan, Dlan.
A nortada traz o eco audível às vezes, outras vezes muito distante a perecer no horizonte, mas logo vem mais forte implacável recordar a tragédia.
Dlan, Dlan, Dlan.
As mulheres das redondezas, aflitas e angustiadas, gritam nos largos das aldeias vizinhas.
- Ai o meu Tono. Ai o meu Manel. Ai o meu rico Filho. Ai o meu rico Pai. Enchem de ruvina os povoados, por culpa do sino que não diz os nomes. Comunica apenas a morte e deixa por entre as melancólicas badaladas, instalar-se a incerteza e o desespero.
- O sino de Sta Eulalia não é bem-querido aqui. Transformou-se no gonzo da morte, só toca a anunciar fatalidades ou para convidar a rezas e missas a que só assistem as beatas e alguns ricos ociosos a pretender mostrar que a relação deles com Deus é muito maior e mais importante que a dos outros. Preces e missas em Latim sem qualquer significado conhecido pela maioria esmagadora do povo que não entende essa forma linguística, proferidas a correr, decoradas há centenas de anos mas que não levam a lado nenhum já que, desprovidas das práticas caridosas, dos exemplos de caridade e solidariedade visível, se tornam praticamente nulas.
- O povo sabe isso, mas assiste. Não por crença nessas rotinas, conservando embora grande fé em Deus, mas por respeito aos ensinamentos do passado. Reza-se em Rio Mau e Pedorido e Melres, porque já se rezava noutros tempos, aliás, sempre se rezou. Nada se recebe em troca destas mecanizadas orações, ou melhor, recebe-se o consolo de ter cumprido uma dever, de ter feito a descarga, a desobriga, ou até o aborrecimento de aturar o vociferar de um padre irado só porque uma ovelha teve a ousadia de dançar ao som da harmónica ou gaita-de-correr-nos-beiços do Albertino Ganso.
- É pecado, grita ele do cimo do altar.
- Estais todos no inferno! Já vejo as vossas almas a arder naquele fogo!
Qual inferno qual carapuça! Só as beatas acreditam nisso com muita fé, e os mais endinheirados anuem com a cabeça por conveniência. O inferno de que o padre fala não é para eles. Quem contribui com volumosas verbas para o culto, está longe de recear as hostilidades de Deus.
Mas a verdadeira fé, aquela que pode dignificar a existência, poucos a conservam. Fartos de penar, acreditam mais no poder da força dos braços, no salário da mina e nas farturas do rio, que essas sim se transformam em pão. O alimento do corpo sobrepõe-se ao alimento da alma. Sem o primeiro, compromete-se perigosamente o segundo.
Batem sete horas no sino da igreja de Sta. Eulália em Pedorido e o Caga – na - Marca treme da cabeça aos pés. Também ele entende a letra da mensagem, mas nunca vai entender o verdadeiro conteúdo.
Um manto de luz desce do céu e pousa na terra. Estala enfim, a terna claridade. As difusas silhuetas dos homens ganham forma de gente. Não há engano posivel, a madrugada encobriu tudo, até o ódio do Pestana e do Maneta, mas não a triste realidade, são de facto mineiros a caminho da morte.
- Fica ai Jolim! Até logo!
É o Marto para o cão, arraçado de perdigueiro e podengo, travesso, que o olha com uns olhos profundos e dóceis. De orelha tombada, deu meia volta e deitou-se na borda do caminho. Aqui é o limite, o fim da caminhada desde a Corga até Germunde, atrás do dono já lá vão nove anos. Vai ficar por ali a dormir todo o dia, e quem passa, vê-o enroscado e sai o cumprimento
:- Olá Jolim! Ele abre os olhos inocentes, abana o rabito e embrenha-se novamente no sono que só seria interrompido pelo atirar das pedradas do Lesmia. Este nunca aceitara o bicho. A sua mente tacanha, nunca viu com bons olhos tamanha fidelidade. O mineiro não podia dar-se ao luxo de ter uma afeição, fosse de quem fosse, nem mesmo de um cão. Para ser fiel estava lá ele sempre a render vassalagem ao senhor Jean Tyssen. Raivoso, não dá sossego ao animal.
Quando chegarem as cinco e meia da tarde, o Jolim interrompe o deleite. Com o rabito a dar a dar, anda numa agitação de trás para a frente, inquieto, e impaciente. Olha frequentemente para baixo até que o Marto apareça por de trás da carpintaria. Quando este se aproxima é vê-los aos dois envolvidos em festas e carinhos que até provoca invejas. O cão salta-lhe ao peito e ele puxa da saca de ganga azul e presenteia-o com restos de côdeas de broa de milho. Depois, seguem caminho. Um a arrastar as pesadas botas de água. O cão alegre e feliz a saltar à sua frente.
O Jolim é um rico cão de caça. De vez em quando empeuga nas bordas do carreiro e começa a correr pelo monte atrás dum coelho que perseguido, entra na toca mas só depois de uma extenuante perseguição.
O Marto aprecia estas traquinices hereditárias do cão e logo lhe vêm à lembrança os dias em que com o Manel Vasconcelos, o encarregado da serração das Concas, viajando na mota Harley Davidson, se metiam à estrada até Barca de Alva às perdizes. Tempos bons esses, de arma Francot de Liége calibre dezasseis de canos truxados ao ombro presa pela bandoleira, batiam as encostas do Douro naquela lonjura. Na viagem paravam em Cernancelhe e temperavam a tarde com fêveras de javali e cogumelos silvestres
O Manel, rapaz para uns vinte e tal anos, alto magro, bem parecido, carregando no peito um coração do tamanho dele, vestia a rigor os trajes da caçada. Botas caneladas, por dentro delas, calças de bombazina castanha a condizer com uma samarra tipo gabardina, com gola de pele de raposa e a cobrir a cabeça um chapéu de feltro, com uma pena de perdiz espetada no laço, dava o toque final na ornamentação.
O Marto, usava a mesma indumentária conhecida da mina, só alterada pela ausência da sujidade negra que ficara nas águas da ribeira e, na cabeça, em vez do capacete de chapa, levava enfiado até ás orelhas, um boné de pano e couro que sobrara ao companheiro de caçada. Entre os dois, deitado ao través na mota , ia o Jolim a filmar com os olhitos arregalados toda a paisagem da estrada. No suporte da motocicleta, atrás, amarravam uma pequena caixa onde levavam sardinhas que em Barca de Alva trocavam por bifes que depois assavam no meio do monte.
- Levantou um bando ali, dizia o Marto alvoraçado e logo o Manel galgava terreno e ouvia-se o estampido do tiro que ecoava como um trovão nos cabeços.
- Boca lá Jolim, soava a ordem do dono e o cão respondia correndo pelo monte abaixo. Já está marrado! Gitava um deles e, dali a instantes o cão aparecia com a peça de caça atravessada na boca. Vinham então as festas ao bicho que saltava perdido de contente. Depois punham-se de novo em andamento, o Marto por cima e o Manel mais por baixo. Nuns carriços, três perdizes saltaram picadas, ouviram-se dois tiros e o Marto corria a bramir com o cão.
- Vai de asa, boca ó ferido Jolim! Era inútil, a perdiz ferida corria pelo monte abaixo à procura de refugio perto da água e foram debaldes os esforços do cão.
O mineiro passa o lenço na testa suada com a querer afastar aquela recordação, mas há ali uma testemunha, já velha, cansada e meio cega, o Jolim. Os anos apagaram no bicho e nele próprio, o vício terrível, que os fizera correr montes e vales. Os anos, as infelicidades da vida, e o trabalho penoso no fundo da terra que o tornou velho antes do tempo
- Então, vais dormir aqui?
É o Milheira a lembrar ao amigoo que Germunde ainda é longe. Ele sacode a cabeça e retomam a marcha.
O Pestana, o Maneta e o Rã, chegam finalmente a Fornêlo. Daqui à mina são quinze minutos a pé para as centenas que vãoa enfiar-se na linha da máquina a vapor, caminhando uns de cada lado dos carris:
- Então Maneta, os bifes eram tenros?
Foi o Rã quem arremessou a pergunta, como quem não quer a coisa. Ele sabe da história e quer meter veneno.
O Rã é loiro, meio arruivado de beiços grossos a pender para Albino, irrequieto, e sacana.
Já fora o ano passado. O Maneta, antes do dia da festa, mandara um recado ao Quintela de Paiva pelo Faísca, a marcar mesa para quatro. Que cortasse quatro valentes bifes. Aí para meio quilo cada um. Tenrinhos. Lá para as duas da tarde, que a mulher ia dar trinta voltas de joelhos á capela, cumprir uma promessa e aquilo botava para tarde. O Pestana soubera da coisa e antecipou-se. Pegou na mulher dois cunhados e apareceu antes. Ao meio-dia, na barraca situada no meio do arraial da Santa Eufémia comiam já os bifes. Os quatro lamberam tudo.
Acabada a promessa o Maneta mais a mulher e os dois filhos, chegaram-se à barraca e não havia bifes. As mesas estavam todas ocupadas por forasteiros. Falou ao Quintela, mas este na confusão daquela hora não tinha feito reparo. Aí o Maneta ficou a saber que tinha sido enganado.
Encostado ao coreto, o Pestana olhava-o de soslaio e ria-se a bom rir.
-Á patife! Gritou o Maneta.
- Vais vomitá-los inteiros, filho-de- uma-puta! Até os dentes te vão sair da boca! De rompante avançou para ele. Mas o povo era muito e, na hora de tratar do papo, quer tudo, menos chinfrim. Ainda se fosse mais à tarde, depois da procissão, não tinha mal nenhum. Já era costume e depois, até animava a festa, ora agora, com as mesas repletas de tachos com tripas, feijão e canecas de porcelana cheias de vinho tinto de Bairros, não podia ser. O que se quer nestas alturas é comer descansado. E impediu a peleja.
O ódio nascia ali e haveria de crescer no peito, até há hora de ajustar as contas.
É bonita a festa da Santa. Eufémia! Ali, no meio da serra, entre Serradelo e Cruz da Carreira a meia dúzia de passos de Castelo de Paiva, logo de véspera se enfeita o descampado para receber os forasteiros quase todos gente de bem comer e beber.
À entrada do arraial, os improvisados talhos, vão desmanchando bois e vitelas e os pedaços seguem na direcção das barracas cobertas de lona branca, espalham-se pelos campos abaixo. Entre umas e outras, tendas de bonecada que fazem as delícias da pequenada, vendem apitos e carrinhos de lata, miniaturas de carros puxados a bois, em madeira, acentuando aquele ambiente rural. Outras mais pequenas e mais simples, protegidas por um panal branco seguro por toros de pau em cruz, recolhem uma mesa, coberta por uma larga e comprida toalha de linho onde repousam os deliciosos bolos de Serradelo, redondos, achatados enfeitados por um raiado de açúcar branco que fazem companhia às cavacas doces.
Em baixo, num amplo largo que um centenário castanheiro ensombra, monta-se o colorido coreto, enfeitado por girândolas de papéis multicores e balões. Ao lado, a capelinha da santa, construída em xisto, forrada a saibro e pintada de caliça branca, deixa sobressair um rodapé azul-escuro e uns cunhais de granito.
Ao centro da cripta, uma cruz também ela em granito onde o musgo se agarra há dezenas de anos, distingue-a das demais e lembra ao povo ser aquele um local sagrado. Mas o sagrado alia-se por conveniência ao pagão por dois dias. Transborda as barreiras do aconselhável e, a feira de gado que se realiza na véspera, proporciona as bulhas, os negócios, os arraiais de pancadaria misturados com severas penitencias e fervorosas preces das mulheres mais crentes.
De vez em quando, a avisar mais uma peça da banda, ou a saída da procissão, os foguetes estoiram no céu e espantam a passarada. Os putos correm atrás das canas pelos campos além e quebram o milho à sua passagem. Nas barracas que são improvisadas pensões, as canecas de asa circulam afoitas e o vinho da Quinta da Fisga de Bairros tinge de vermelho as blusas brancas rendadas das moçoilas, que, com as costas da mão limpam os beiços rosados.
É grande a alegria e o entusiasmo do povo e, neste ambiente de excitação e confusão da festa, tanto pode sair um abraço como uma bengalada nas costas. Em cima das adaptadas mesas, grandes tachos de feijoada, garantem fartura aos romeiros. Dos talhos, saírem postas de carne fresca, que ainda quente se transforma em bifes de quilo nas mãos do Lapadas. Primeiro comem-se as vitelas, no resto, servem-se os bois. Agora, já não faz diferença a tenrura da carne e só existe a preocupação de manter vivo o espírito da festa, prolongando-a pela noite dentro, até que, cansados e emborrachados, caem como mortos na relva calcada.
- Então Maneta, os bifes eram tenros?
Aquelas palavras tingidas de escárnio, dão-lhe voltas na barriga, ressuscitam a raiva escondida no peito.
- Vai ser hoje! Pensou. Espeto-lhe a picareta nos olhos e o cabrão morre. Depois, fica lá no fundo, enterrado já está por natureza, faz-se de conta que foi sem querer!
O Pestana parece adivinhar os pensamentos do outro. Vigia-o, mas não cede. É manhoso, arraçado de galego, fino como uma raposa e marca - pistola. Tosse, para disfarçar o riso no canto da boca. Continuam lado a lado, sempre a medir-se de cima a baixo. Se o maneta pára para acender o cigarro forte, o Pestana para também a coçar a barriga.
- São pulgas?
Pergunta o Maneta.
- Não! São percevejos e grandes.
Responde o Pestana.
E neste jeito de vida, vão comendo metros e metros ao caminho que têm pela frente.
O dia estala neste imenso vale do Douro, fumegam as casas das aldeias dispersas pelas margens do rio. Retoma-se todas as tarefas da vida nestes presépios de pobreza onde não chega um sopro de progresso e só exigências de mais produção se abatem sobre os ombros de homens, mulheres e crianças.
No largo da Sobreira considerado o centro da aldeia de Rio Mau, o Ernesto ensaia os primeiros retoques do que vai de ser um quase improvisado discurso.
Vem de longe, das beiras do Porto, percorrendo a distância a pé pelos trilhos dos montes. Alto e crestado do sol, da chuva e do vento, deixa cair pelo rosto abaixo uma barba longa e loira. Os olhos de um azul celeste, parecem abrir-se em invulgares espantos e oceanos de interrogações. As mãos, sustentam uns dedos esguios, esqueléticos de onde aparecem umas unhas compridas e perfeitamente talhadas. Não fora a rasca indumentária composta por umas calças de pano-cru e a cobri as pernas e uma camisa de flanela cor – de – barro a tapar o tronco, poder-se-ia dizer tratar-se de um autêntico cavalheiro. É-o na verdade, apesar do desregro e versatilidade da roupa mas apurado nos gestos e nas palavras que profere.
Delineia a vida, a sua e a dos outros, em pinceladas de romance e poesia entrecortadas de quando em vez por desvairos de consciência. Trata toda a gente elegante e educadamente, mas à canalha tem verdadeiro asco. Ali, no largo da povoação onde a história se faz sem pressa, junta-se-lhe o Abraão, moço ainda jovem, pária e vagabundo como ele. Tem as mãos sapudas e a cara redonda que lhe dão estranhas parecenças com uma abóbora sendo a indumentária deste indigente, muito pouco variada em relação ao primeiro. Usa roupas já usadas por terceiros que se nota não serem adequadas ao seu corpo atarracado transformando-o numa espécie de espantalho andante.
De vez em quando um esgar risonho rasga de lés a lés uma boca fina e ficam à mostra duas carreiras de dentes certos e brancos. Também ele desprovido do juízo certo que lhe conferisse estabilidade na vida, hospedando na cabeça um cérebro onde se misturam ideias de jerico com outras perfeitamente normais, desgarrou-se e deixou Trancoso sua terra primeira e, percorrendo caminhos que se estendem por montes e vales sempre distantes do quinhão natal, chegou a Rio-Mau.
Estudara num seminário do norte, ali a fraqueza e a deficiente nutrição bloqueara-lhe o conhecimento.
O Ernesto é decerto o ser mais bizarro que demandou estas bandas porque dotado de extremas filosofias faz constar que no seu entender não vale a pena nascer. Para ele, o simples acto de vir ao mundo, é só por si um desperdício total:
A vida é pois a pior herança da humanidade! Quando se nasce marcado pelo ferro de uma morte que pode ser tardia ou breve, mas sempre inevitável, herdamos logo ai a funesta razão de existir!
Porque nascestes vós!? Porque não ficastes no limbo, no desconhecido, onde o corpo não sofre e alma não é nossa!?
É assim que o louco raciocina e explica uma certa aversão aos mais pequenos, talvez usando numa espécie de sentimento de protecção a que se julga obrigado.
Trinta e dois anos de vida, dez deles a carregar na mente a pavorosa loucura, agravaram definitivamente a doença que lhe retira a postura e o coloca irremediavelmente às portas da total insanidade mental.
Fora estudante universitário mas o frágil poder do seu arquivo não foi capaz de suportar tamanho conhecimento; enlouqueceu!
Dirige a sua revolta ao Criador e, é frequente usar da palavra horas a fio a desafiar as Suas leis. No meio deste largo, assume uma postura erecta de pregador estendendo as mãos e erguendo o rosto para o céu, com firmeza de voz inicia o eloquente discurso:
- Já sei que hoje não vai haver paz para mim! Começava o pregador.
- Neste dia que nasce, não sentirei a Tua presença! Nascerá um novo sol mas não será para me iluminar! Aquecerás as vidas de muitos, mas não a minha. Eu sou pobre, um desgraçado a quem Tu, nem a memória deixastes progredir. Por inveja, ou por maldade, arrancaste-me a alma que dizes ser tua propriedade! Fica com ela, para que quero eu uma alma se nunca a vou poder usar neste falso presépio que Tu criaste!? Aqui não há lugar para quem tiver uma alma, abandonados por Ti, somos obrigados a rendemo-nos ao poder dos mais fortes!..
- Agora o rosto toma uma forma dolorida onde se desenha um sorriso imbecil.
- Nunca Te pedi nada. Afinal o que é que tens para me dar!? Tu que deixastes o Teu único filho nascer na mais extrema miséria, desprovido de tudo, e permitiste que morresse às mãos de um povo velhaco, nada, absolutamente nada terás para oferecer em troca das minhas orações! Eu não Te adoro, tão pouco creio em Ti. Arrasto pela vida uma cruz bem maior e bem mais pesada que a Tua. É este o meu castigo, mas não fui julgado como Tu foste, ninguém me perguntou nada sobre nada e no entanto condenaram-me! Diz-me onde estavas nesse momento!? Em lado nenhum, porque Tu certamente não existes. Até podes existir, mas não como o Deus dos mais necessitados porque não ouves as súplicas dos sedentos de justiça! Posso até reconhecer-te, não como Deus misericordioso, mas como aquele que permite esta miséria imensa pelo mundo! Sou eu quem Tu diz! Nada posso perder, pela simples razão de que nada tenho. Por isso Te falo de homem para homem, longe de temer as Tuas hostilidades. Sim porque Tu és rancoroso. Houve tempo em que acreditei em ti. Mas foi tudo uma ilusão, cedo me apercebi que nunca haveria de fazer parte dos teus planos de salvação, que entre ti e satanás, não há escolha possível. Sois iguais, divergis dos meios mas não nos fins que são os mesmos. O que vos alimenta é a ideia de posse das nossas almas infelizes.
O Abraão ouve em silêncio e retorce as mãos em desespero.
- Fala-lhe de mim!
Diz o seminarista assumindo uma atitude de pedinte.
As mãos estendem-se-lhe numa súplica angustiante e, o rosto adquire uma expressão caricata e grotesca.
- De ti!?
.Fala-lhe tu, pois é bem possível que Ele te dê ouvidos! Tu, membro e sócio fundador da sua quadrilha de benfeitores, estarás decerto em melhor posição para lhe falar! És cúmplice Dele, eu sinto as dores da discriminação e do desespero, Tu não; aceitas o castigo que julgas generoso curvando-te perante a razão que desconheces. Tão pouco sabes se ela existe e não protestas. Tu Abraão, és realmente um pobre! Dás-me pena! Inspiras-me dó e piedade. Apesar de tudo perdoou-te! Perdoou-te por uma razão simples...és meu irmão!
- Mas eu rezo!
Diz angustiado o Abraão.
- Rezas!?
- Tu sabes lá o que é rezar Abraão! Recitas palavras usados por muitos sem as sentires no coração. Rezar é abrir a alma, é comungar com Deus dos sentimentos que nos preocupam e angustiam. Rezar é isto irmão! É falar com Deus e dar-lhe noticia das nossas aflições, dos nossos desesperos! É fazer com que veja e repare a miséria brutal a que fomos votados!
- Sabes uma coisa Ernesto!? Eu acho que tu blasfemas!
- Blasfemo!?
- Cala-te desgraçado, tu não atinges a essência da questão, cortam-te o corpo e o espirito a golpes de espada e não protestas, sequer sabes quem empunha a arma causadora do nosso desespero! Acaso dar notícia da verdade e da vergonha é blasfemar!? Deita-te ai irmão, dorme o sono da ignorância eterna e deixa-me protestar pois um dia virá, em que por farto dos meus protestos ou por divina piedade, Ele nos abençoará! Acaso tu não sabes que o tempo urge!?
Faz uma pausa e de seguida vira-se novamente para o alvo das suas críticas, o Céu.
- Porque não desces daí do Teu Céu esplendoroso e vens aqui reconhecer as Tuas faltas! Vem confrontar-te comigo cara a cara! Não me respondes, nem Tu nem ninguém! As minhas palavras são o eco das minhas palavras, do meu sofrimento do meu imenso desespero, desta minha lúcida loucura. E, apesar de tudo, ainda Te espero Deus mudo, Deus, ingrato. Vem quando quiseres, todos os povos precisam urgentemente de Ti. Eu não, mas eles amam-te, adorna-te e acreditam que virás salvá-los! Vem antes que se me aflorem os nervos e deixe de ser responsável pelos meus actos. Lembra-te que também eu sei castigar!. Prova-me que existes, que és realmente o salvador olhando a turbulência deste mundo injusto, o teu rebanho tresmalhado sem esperança! Faz alguma coisa, não os abandones a esta sorte tão madrasta!
As mãos, ainda há pouco em riste, fecham-se-lhe sobre o peito penitenciosas e, o azul daqueles olhos tolda-se de lágrimas. Vagarosamente, estende-se no chão ao lado do amigo e ficam horas prostrados ali, sem dar sinais de vida. Todo o orvalho desta madrugada fria humedece estes dois corpos desamparados.
Regressa a solidão que reflecte a insensibilidade do mundo perante a doença da loucura, da indiferença com que o mundo cuida daqueles cuja capacidade mental se alterou por qualquer razão. O Homem não quer saber!. Numa atitude hipócrita, esconde tudo o que reproduz as suas fragilidades colectivas. Despersonificado, sem qualquer esperança, segue uma ilusão cegamente, tentando por métodos absurdos torná-la realidade. É muito mais que a constatada falta de fé e de esperança, é a solidão que se ganha por se matar o amor dentro de nós. Por isso o Abraão e o Ernesto se estendem na laje fria do largo da Sobreira sem um gesto de piedade de ninguém. Quantos mais não o farão no futuro, nesta maravilha de mundo que gira há milénios num frio e austero universo.
A alvorada acorda medrosa no vale do douro. Uma espécie de neblina envolve toda a paisagem. S. Domingo adivinha-se por dentro do nevoeiro. As serranias em volta, goraram-se da vista, apenas se vislumbra o rio. Pedorido é um quadro abstracto à frente dos olhos, encoberto, difuso e molhado.
Das chaminés do casario de Rio Mau, sai um fumo pardo, preguiçoso, que evoluía no espaço alguns instantes, para depois se diluir na humidade do ar. O cheiro da terra, é intenso, acre, misturado com o perfume da urze que o vento trouxe das serras. Madrugadores, os galos desatam em cantilena no Lugar e, os dos Estercos respondem, bem antes de findar o eco em S. João.
O sino da igreja de Sta Eulália em Pedorido badala dolentes as sete da manhã. O som do bronze paira por momentos no tempo, depois perde-se nas quebradas dos montes. Batem sete horas no campanário, mas não acordam ninguém. Há muito que o povoado mexe, acordou cedo porque o pão não se ganha aqui. É preciso procura-lo longe ou então na banda de lá, na sinistra indústria Que a terra nunca seja leve para as peças da engrenagem que a fazem mover. Que mil anos de purgatório não bastem para remir as culpas de alguns senhores que se tornaram carrascos por vontade própria no fito de ficarem bem vistos aos olhos de quem manda.
O tempo há-de tentar esquecer os crimes sem que o perdão venha, que não virá nunca, Enquanto o mundo girar, a nortada se encarregará de manter presente a má memória varrendo nas suas rajadas os vestígios do mal.
Doce é a noite que embala os barcos na calmia do rio. Doce é o manto estrelado num céu profundamente azul e doces são os sonhos das gentes da borda de água.
O sossego total da aldeia engana o mais pintado. Nem vivalma se vê ou se ouve. Não fora o ladrar dos cães do Álvaro Moleiro, poder-se-ia dizer que aqui não habita ninguém. A noite medonha e feia é aqui estimada como preciosidade. Ninguém ousa desafiar e rasgar com passos a quietude das destas gentes. O manto de estrelas é o manto caridoso de uma paz efémera.
Soam as quatro da madrugada nos Estercos e Joaquim Correia salta da tarimba sem enxerga lastrada com mato. O que cobre os vegetais fetos e carquejas secas, são retalhos de mantas já velhas. A tarimba formada por barrotes de eucalipto toscamente pregados tem por baixo dela, mais duas idênticas onde dormem os filhos amontoados.
Saltou o rego de água que atravessa o compartimento único da habitação. Abriu o postigo e uma baforada de ar envolveu-lhe o corpo. Abriu também a porta da entrada e foi ao anexo coberto de lousa que compõe a cozinha onde a Balbina, a esposa, mexe a panela de ferro onde um caldo de couves, feijão e batatas, ferve a bom ferver fazendo vir à tona de vez em quando, um naco de adubo de porco que ali mora há muito tempo.
Ele partirá breve para a faina do rio e ela batalhadora, subirá a serra na apanha da carqueja, queiró e chamiça, lenhas que depois venderá. Calcará lousas, calhaus e pedregulhos que lhe provocam gretas nos pés nus. Vergada ao chão, arrancará com mãos extremes os matos do monte com que vai fazer molhinhos. Atados como mandam as exigências dos compradores, levá-los-á para o cais do Remoinho onde grandes barcos transportarão para as padarias do Porto. Comerá as papas que o diabo amassou sem um gemido, sem um protesto e toda a revolta retida na lama manifestar-se-á no seu corpo a tornar as noites dolorosas e repletas de dor nas costas. Amargo é o ínfimo pão destas bocas, puro fel misturado de suor e muitas lágrimas silenciosas.
- Ó Balbina, já está amanhado?
- Vai para dentro homem, calça-te, olha a suféca!
O Joaquim não falou, voltou-lhe as costas e voltou a entrar na húmida e fria habitação. O seu pensamento recuou à véspera quando por questões políticas ligadas ao corte de sobreiros no maninho e que lhe eram alheias, teve de ir a Penafiel ser ouvido como testemunha.
Antes de arrepiar caminho rumo à capital do concelho, achou por conveniente levar uma carta de recomendação.
Foi ter com um tal Oliveira pessoa influente nos meios da política e do poder considerado um filho da terra, portanto um amigo. O homem lá lhe passou a dita credencial de abonação. Antes do raiar da clara luz do dia meteu-se o Joaquim a pé pelo caminho fora até Penafiel.
Nas Termas de São Vicente o tempo toldou e começou a cair uma chuva grossa, que o obrigou a procurar brigo no Escondidinho do Parque, espécie de tasca conhecida pela abundância de presuntos. Meteu conversa com os aos presentes e relatou os motivos da viagem e da aflição que transportava. Um deles sabia ler, pediu-lhe a carta de recomendação e desvendou o conteúdo enganador. Dizia mais ou menos isto a missiva:
- Este melro também é dos tais. Dêm-lhe uma carga de lenha e prendam-no aí por dois dias!
Grande recomendação levava o Joaquim. Com amigos destes não precisaria de inimigos. Claro que já não levou a sentença ao carrasco e ficou por ali a ouvir história de arrepiar, as tais do Penado do Corvo e a dar troçadas na caneca do encorpado tinto da Quinta da Amélia de Boelhe.
A mulher entra com fumegante e enorme tigela na mão cheia de caldo. O barqueiro esmigalha nos dedos miolo e côdea de broa que vão caindo por cima da sopa fazendo um pequeno monte no centro da vasilha. Depois pausadamente, desarrolha a cabaça e entornou no caldo vinho tinto até a acabar de encher. Ficou assim uma massa vermelho negro a cheirar a tanino. Comeu apressado e saiu a correr.
Na largo da aldeia já o esperam o Pereira, o Rufino e o Malhado de Sebolido, que encurtou caminho e meteu a direito pela Senhora do Monte afim de estar ali aquela hora.
Esta É a tripulação de um barco. Um arrais, o Rufino, os outros três marinheiros. Fazem parte integrante dos famosos Rabões da Esquadra Negra dirigem-se ao cais do Remoinho onde atravessarão o rio até Pedorido.
Lá chegados, fazem mais um bocado do percurso a pé até Germunde ao o local das cargas.
Uma estrutura de cimento paralela ao rio contendo na base inferior um caleiro de madeira que fica a três metros da água, recebe o carvão que se precipita no barco através dela.
Completa a carga de mais ou menos quarenta toneladas, começa então o martírio dos quatro homens. Numa formação em fila segue a esquadra toda composta por quarenta batelões.
O Joaquim Correia é doente do peito e dizem que sofre de esgana. A suféca da- lhe de vez em quando colocando-o à beira da morte. Já foi ao médico mas este não encontrou remédio para aquilo e também achou que não era motivo para meter baixa. Observou e sentenciou:
- É esgana! Não tem cura, vai trabalhar que isso passa. E ele foi, pudera, não havia remédio possível para a doença e para ele. O que mais tinha era de ganhar algum para sustentar a casa.
Na Lingueta, espécie de rampa metida na água, vêm-se encostados uns aos outros os barcos Rabões, que carregados de carvão irão partir para Campanhã, directos pelo rio abaixo e parecem cascos de túneis a boiar na água.
Campanhã é longe, nas bordas do Porto. A descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentiar o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na praia mar, é custoso arrastar à força de braços tantas toneladas de madeira e carvão antracite.
A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o vento da barra que enche as escuras velas. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada, elas e os homens lá vão fazendo o trabalho. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrasta no fundo, é muito difícil de avançar. Aí três homens saltam para terra, descalços nas escarpadas pedras da margem, munidos com uma soga presa ao barco, puxam á frente deste. A corda abre-lhes os ombros em ferida, as pedras do chão, sulcadas com profundos regos, feitos pelas cordas a esfregar, cortam-lhes os pés nus. Outros de A vara de Carregar fincada no peito, lisa, que as mãos dos barqueiros já lhe tiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração, vai se espetando no fundo do rio, desde a proa á ré, Vergados, num tremendo esforço, agoniam em cada minuto que passa.
E nos dias de cheias! Que louco se tornava o rio. Louco e apressado em chegar á foz. Parece que leva consigo a força dos infernos. Mas os barqueiros não o temem, embrenha-se com ele numa luta de morte. Que feitiço este que empurra os homens para o colo de tão traiçoeira amante. Dão-lhe tudo, o suor o sangue e a própria vida. Cegos e loucos como ele, cedendo sempre a esta paixão avassaladora, só em troca do pão que lhes mingua em casa, numa entrega total a um amor infame.
Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda!
São tantos a sofrer tão desditosa sorte. Vêem dos mais diversos lado. De Espadanedo, do Couto, de Escamarão, de Bitetos, do Castelo, de Sardoura, de Pedorido, de Melres, de Rio Mau e demais sítios. Todos eles irmanados do mesmo sentimento, de uma solidariedade ímpar. Tratam-se por companheiros, e estabelecem entre si laços de verdadeira fraternidade.
As refeições são comunitárias. A mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou colher. A dor de um, transforma-se sempre no sofrimento de todos, mas mesmo assim é tão pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor as barreiras da pobreza extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, os outros têem de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada uma destas vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem, dão largas sempre que podem a uma réstia de alegria que docemente acalentam.
Dá gosto vê-los em tempos de calmaria. Entre abraços fraternos, dão azo a esse minguado consolo, que de vez em quando, desponta nos seus corações. Então sai uma desgarrada, acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do tinto, de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique:
Que lindo é o berço sagrado
Que lindo é o berço sagrado
/Que me criou e alumia.
Aqui a braguesa fazia dois compassos.
Que me criou e alumia
Entre beijos e abraços
lá vim eu á luz do dia
O melancólico e bizarro dedilhar da viola enche o espaço e a noite. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taverna. Oscilam vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas e presuntos pendurados e, os efeitos de contra luz projectam nas paredes formas bizarras e fantasmagóricas. Logo entrava o Malhado a matar:
Ó cantador afamado
ó cantador afamado
aprecio os teus cantares
Outra vez a viola dolente.
Aprecio os teus cantares
bem puxas pela goela
mas não me chegas aos calcanhares.
Está lançado o mote, que servirá de tema aos cantares desafiadores Como dois galos em capoeira, lá se vão crispando no fazer de cada quadra. Consolados, ficam então em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.
Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho. Bebe em grandes goles pela noite fora. Meio vivo, meio morto, escuta as narrativas dos barqueiros.
Falam de tudo e de nada. Contam uns aos outros, histórias de valentia que nunca viveram. Transforma-se em heróis repentinamente. Ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez. Mas não, são antigos, recontados por dias e noites iguais, alterados aqui e ali, conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de luta, como quem desfere certeiro golpe de espada afiada.
Os companheiros, sentados no comprido banco da tasca, ora chegam á frente para ouvir melhor os momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste e dobravam-se para trás assustados.
Comungam a hóstia sagrada do irreal e do fantástico, que chega a assumir contornos de verdade autêntica. Mas não, são apenas desabafos, pedaços das almas sangrantes dos marinheiros da Esquadra Negra. Já tarde, felizes e alegres, regressam aos lares abraçados uns aos outros.
O Caga-na-Marca coloca o último pé na prancha do barco. Esgueirou-se por entre os outros até à ré. Portador de tantas preocupações, alimenta todos os dias aquele medo que lhe nasce em cada amanhecer. Medo da mina, medo da morte que espreita em cada rebentamento do dinamite no fundo da terra. Medo de tudo e de nada, ou apenas a constatação do obrigatório serviço que quer queira quer não tem de cumprir.
Os filhos, a ninhada que deixa todos os dias embrulhada em pedaços de manta da tropa, aparecem na sua mente estendendo as mãos à sua chegada. Dali, da ré do barco olha a sua terra saudoso, pensa no porco de cobrição que deixou na corte e, rebenta-lhe nos olhos uma nuvem de preocupação.
O porco é a suplementar fonte de rendimento. Tratado como porco, mas o com respeito devido à sua condição de galinha dos ovos douro, o animal come e bebe à barba longa, mantendo-se assim em forma para as tarefas a que está destinado. Caga -na -Marca, consulta a agenda mental num relance, constata que logo pelas seis da tarde terá de ir a Rio Mau cobrir três porcas.
A ida é sempre fácil. O animal, bicho a perfazer quinze arrobas, carregando no meio das patas traseiras um par de testículos que enchem um cesto vindimeiro, corre apressado afazendo abanar aquele monte de carne ciosa. Parece que adivinha, corre, corre e faz o dono também correr atrás dele. Quando chega ao local, vai direitinho à corte, onde o aguardam contentes, as ansiosas porcas. Não são exigentes, serve por assim dizer, qualquer um, desde que cumpra fielmente o dever imposto pela suína natureza enfiando como quem enfia a craveira no tampo de uma pipa numa prova de vinhos.
No regresso é difícil convencer o animal a caminhar. O dono recebe quinhentos mil réis por cada cópula, o porco, vê à frente dos olhos, a uma distância de um metro, três folhas de couve que lhe fogem sempre.
- Anda pintado!
E mostra-lhe as couves.
O porco iludido corre para elas, mas o Caga – na – Marca, já está posicionado cinco metros à frente. É um martírio arrastar aquele monte de carne viva até Moreira. Cansado desfalece e, esbaforido deita-se na beira do caminho.
O pensamento do mineiro foi lancetado ao meio. A barca chega finalmente a Pedorido. O bater da proa no cascalho, desperta o homem. Do outro lado do rio, olham as casas alpendradas a espelhar na água. Três colinas erguidas, aparecem na neblina, parecem mãos erguidas a rezar ao céu. Pela manhã fora, lá para as dez, as crianças da escola no recreio, vão soltar na brisa, as suas inocentes canções. Formando várias rodas cantarão assim:
Eu fui ao jardim celeste, giroflé, fla, fla.
O que foste lá fazer, giroflé, fla, fla.
Fui lá buscar uma rosa, giroflé fla fla.
E para quem é essas rosa, giroflé, fla fla.
É para a menina gracinha, giroflé, fla fla
E continuariam em maneira de perguntas e respostas, ou então saia o sarrabisco:
Sarrabisco, bisco, bisco,
quem te deu tamanho bisco.
Foi a velha chocalheira
que come ovos e manteiga.
Os cavalos a corre,.
e as meninas a aprender.
Qual será a mais bonita,
que se vai arrecolher!
Ou ainda, duas entrelaçam as mãos e as outras em fila, vão passando por baixo de mãos postas nos ombros das da frente sempre a cantar:
Bom barqueiro, bom barqueiro.
Deixai-me passar.
Tenho filhos pequeninos,
não os posso aturar.
E logo as duas de mãos entrelaçadas respondem:
Passarás, passarás.
mas algum deixará.
Se não for o da frente.
Há-de ser o de trás.
Ali estaria a verdade, pronunciada a cantar pelas bocas inocentes
- Algum deixarás, se não for o da frente há-de ser o de trás...
Das filas adultas, alguns vão deixar as vidas nas mãos do mau barqueiro. Tanto fazia ser o da frente, como ser o de trás. É indiferente, desde que passassem as barreiras do medo, da angústia e do desespero. Que se prostrem à mercê da sorte. Libertos de ideais de melhor vida. Asfixiados por doutrinas incitadoras ao trabalho pela nação. Nação que nunca lhes reconheceu méritos e, nunca pagou às terras, nem a eles, as justas compensações pelo atraso e abandono a que os sujeitaram.
Matilde é decerto a mais formosa e talentosa das meninas da escola de Rio Mau. Usa nas tranças do cabelo negro que pendemm sobre os ombros, uma flor de malmequer espetada que via bailando de forma graciosa quando ela, salta as linhas rectangulares rabiscadas na terra, jogando à Boneca. Nada pode perturbar a pureza deste ser que apenas com seis anos já imagina o mundo inteirinho em sonhos e manifesta vontades interesseiras de alargar horizontes e conhecer terras as quais pela primeira vez ouviu descrever no ensino primário.
Há nos seus olhos cor de água, belos como as mais lindas transparências do Douro, uma avidez constante pelo saber, um secreto desejo que vai crescendo no seu coração e haveria de manifestar em circunstâncias específicas e habilmente preparadas por ela. Aguardou com serenidade o momento da realização do sonho como quem espera pela luz da madrugada que demora mas trás sempre consigo o despontar de um dia novo e uma esperança renovada.
-Eu quero ver o mar! Foram estas as palavras da Matilde, numa manhã de um dia calmo doce e sereno de Outubro da sua também doce e terna meninice, quando a mãe lhe perguntava que prenda ela queria receber no dia dos seus anos. Prenda!
Quantas foram essas secretas esperanças e intermináveis ilusões embrulhadas em papel de fantasia, alimentadas no peito carinhosamente, que todos os anos nasciam e acabavam por morrer sem qualquer possibilidade de concretização!? Ninguém imaginava as razões objectivas que a levavam a tão singular e obstinado pedido, mas sim outras tão pouco comuns à maioria das crianças da sua pequena terra espicaçadas por uma curiosidade hereditária. Ver o mar, pousar a vista nessa azul imensidão de água salgada morada de belos navios onde decorriam as extraordinárias aventuras de piratas e terríveis naufrágios plasmados primorosamente nos livros de Emílio Salgari, era o sonho de Matilde e de muitos já idosos que iriam viver e morrer sem nunca alcançarem essa visão querida.
O mar não é distante de Rio Mau, escassos quilómetros separam o atlântico deste pedaço de chão onde ela nasceu mas, sem horizontes prolongados, cercada por montanhas quase intransponíveis e sem estradas ou caminhos, tendo como único refugio o rio Douro, só pode imaginá-lo na sua grandiosidade e deslumbramento. O rio corre para lá todos os dias, todas as noites; impaciente e nervoso, segue os trilhos do passado sem trazer uma notícia, sem um convite, sem nunca lhe falar dele mesmo nos dias em que volta a Pédemoura empurrado pelas marés vivas. O Douro, o seu primeiro amor verdadeiro, o espelho que reflectia a sua imagem pequenina, o berço doirado onde nasceram as suas utopias e inocentes e primeiras fantasias, tem para ela, projectos de vida que sempre teimou em ignorar, mas nunca impediu, não quer impedir, que as águas da vida lhe dêem outro chão por alguns anos.
-Tu queres ir ver ao mar Matilde? Não queres antes uma boneca, uns vidrinhos, um carrinho, umas canequinhas e outras coisas assim?
-Não, o que eu queria muito era ver o mar; sentir as ondas e ouvir aquele rumor que se ouve na concha que está acolá em cima da mesa da sala!
O búzio univalve que a fascinava. A couraça onde o mar explodia em sussurros que a prenderam ao nascer, repousava e enfeitava a velha mesa há dezenas de anos como jóia abandonada, relíquia que o mar enviara no propósito de fazer amigos ou de reclamar atenção. Permaneceu ali adormecida, sem qualquer aparente serventia, objecto de decoração somente mas sempre na expectativa de fascinar alguém. Teve a sua prenda a materialização da sua visão celeste e, logo no outro dia corria para ele desde o Infante, no nostálgico eléctrico da Cantareira que ao desfazer da curva dos Pilotos da Barra lhe mostrou as palmeiras da Meia-laranja com o mar ali todo à sua espera. Sentou-se nas coçadas pedras do Cais Velho e procurou no infinito horizonte as causas de tamanha e aflitiva inquirição: um barco, ela queria ver um barco que rasgasse as ondas, que desfraldasse as velas, talvez um veleiro que de mares distantes viesse aqui refugiar-se, neste magnifico estuário de onde partiu invencível armada, perseguido por piratas de pernas de pau e olhos vendados por anteparas de couro, de ganchos enfiados nas mãos, os mesmos ou outros idênticos aos de que falavam as historias aos quadradinhos do Mundo de Aventuras que o Afonso Leal lhe vendia usadas, na livraria de Penafiel. Matilde queria ver o ribombar dos canhões do Castelo do Queijo a despejar bolas de fogo e ferro sobre as armadas dos infiéis, dos saqueadores que evadiam a Pátria que já lhe tinham ensinado a amar. Ela queria os seus sonhos de criança intactos, reproduzidos ao pormenor da história fascinante que o pai lhe contou sem perceber que lhe traía a mente que a lançava num mundo tão irreal e tão fantástico de cujo o estilo assombroso nunca mais será capaz de sair.
-O mar é tão grande e não vejo barcos minha mãe, e eu queria tanto ver um barco!
Não havia qualquer embarcação a aproar ao porto de Leixões, sequer uma traineira que demandasse a barra para se refugiar num recanto qualquer do Douro. O que Matilde sentiu naquele momento foi o apelo genuinamente português passado de geração em geração pelo gemer das guitarras de Lisboa e relembrado em cada recanto do mundo nos vestígios deixados pelos nossos antepassados que nunca temeram a imensidão do mar. Apelo do sangue, que nos atrai, que nos faz correr para ele sem mesmo nunca antes o ter conhecido. Havia lágrimas a correr nas faces de Matilde pela desilusão que estava a sentir. A sua quimera, a sua maior aspiração, morria ali nas areias da praia da Foz sem qualquer ensejo de realização. Quis navegar, percorrer a estrada líquida dos seus sonhos mas compreendeu naquele instante que o mar é grande demais para caber num sonho. A mãe olho-a comovida na bondade de um olhar feito de ternura, pegou-a ao colo e apertou-a contra o peito ao mesmo tempo que lhe indicava uma traineira a balouçar solitária na outra margem do rio:
-Olha acolá no outro lado, na Afurada, não vês um barco…que lindo barco!...
-Não minha mãe, aquilo não é um barco, aquilo, é uma barca de fantasia.
Na corga, o alvor da manhã surpreende a Chica, mulher do Marta, a cavar as leiras para meter batatas.
Cinquenta anos de vida dura, transformaram uma reluzente figura numa silhueta de gata parda e cinzenta.
O rosto, outrora belo, tem agora a idade do mundo. Rugoso, segura dois olhos mortiços ao fundo de duas cavernas. Os maxilares salientes antecipam um esqueleto mortal. As hortas tomadas a terço ao senhor Raposo, constituem o suplementar orçamento minguado do casal. Bocaditos dispersos aqui e ali são amanhados pelos mais pobres a troco de umas partes da produção. As contas essas acertam-se pelo S. Miguel, por alturas da feira das colheitas em Arouca.
Na alma da pobre, o dilema provoca a angústia e, dá lugar a um misto de raiva e de resignação. A Rosalina, a filha mais velha, com dezasseis anos, apareceu-lhe prenhe pela porta dentro. Trabalha numa fábrica em Sanguedo. Lá conheceu um rapaz cortiçeiro, de quem nem o nome sabe, mas que lhe encheu a barriga
- Prenha, vá lá que não vá, ora não saber nada acerca do pai da criança, isso é que era o cabo dos trabalhos. Como é que ia apresentar a notícia ao Marto? Ele era capaz de entender, a prenhes, a vinda do neto...mas sem pai? Não pode ser. Dá voltas e reviravoltas á cabeça, mas nada. Ela Chica, também embarrigara solteira, do Marto, mas sem pai? Resignada cava a terra dura e a erva orvalhada, molha-lhe os pés. E torna a consumir a cabeça.
- Mais uma boca! Pensa. Já eram sete! E agora!
Olha o cesto das batatas rachadas em quatro, onde um pimpolho com quatro meses, dorme regalado, embrulhado nos restos de uma manta.
- Que vaca! Mal saiu de casa, meteu-se logo debaixo do primeiro que lhe apareceu!
Ela engravidara solteira, mas era diferente. Foi com o Marto, que além de vizinho, é amigo da família com cartão da empresa e tudo o mais
.- Precisa que lhe cheguem a roupa ao pelo! Mas prenha não, pode perigar.
- Mas dumas lostras bem dadas, ai que precisa... só se perdem as que caírem no chão
- A porca! Onde é que se viu isto!...Vai ter de fazer um desmancho!...nascer é que não pode!...E comida? Quem é que a vai sustentar? O Marto!? Ela vai boa, o desgraçado mal ganha para o caldo, tem de ir a Avintes fazer um desmancho! Tem de tirar aquilo do bucho.
Clarifica-se a ideia da Chica, pensou e encontrou a solução. Afinal o problema nem é assim tão grande. Cabeça fria e tempo e lá está a gente a amanhar-se.
- Vai ser já amanhã! O Marto nem vai saber de nada...e se souber se lhe chegar aos ouvidos!? Também não interessa, é um perfeito anjinho, cala-se e pronto.
É a trágica mão do destino a suster a vida e a morte por um frágil fio. Mata-se ou vive-se na Corga conforme a honra e o pão. Nada mais se joga no tabuleiro da sorte. Julga-se, condena-se e executa-se a sentença, na leira a plantar batatas e sem ouvir as partes. Continuará a ser um pouco assim por este pais fora onde apesar de tudo os clarões do progresso já iluminam muitas almas. A Chica não pode saber nem conhecer as lides do destino. Também ele vai mexer nas pedras deste xadrez e nada será como ela determinou. O dia é uma criança e até anoitecer, muitas coisas podem mudar radicalmente. Ninguém é dono de nada, senhor sequer do seu próprio destino, que fará do dos outros.
A Chica é apenas a vítima de um mal que alastra desde sempre. As grandes decisões da vida perdem importância e grandeza perante as condições miseráveis em que este povo vive. A Chica é culpada mas a verdadeira culpa, neste e em muitos outros casos possivelmente morrerá solteira.
Desata o nó do lenço da cabeça enquanto olha o horizonte com olhar perdido. A criança chora no cesto das batatas e, sem largar a enxada, a Chica entoa uma canção de embalar:
- Dorme, dorme meu menino, que a tua mãe logo vem. Foi lavar os teus paninhos, ao reguinho de Belém.
Que grande mentira! Ou então os paninhos que a Chica lava são este pedaço de aço enfiado num pau, que sobe e desce num ritmo vertiginoso e dorido. A criança cala-se e, a mãe retoma as preocupações da vida que lhe vão enrugar ainda mais o rosto.
Germunde é feia carrancuda e fria. Aparece estampada na encosta, como um ovo podre atirado à parede com as claras negras a escorrer até ao rio.
Súbita, se venho do lado da Póvoa ou de Pedorido. De Melres, vê-se como nódoa sombria, na serra em frente. O entulho desprende-se cascalhudo e solto até á beira da água.
Enormes pavilhões cobertos de chapas de zinco e fibrocimento, fazem lembrar escangalhadas tendas de campo de concentração abandonado. Mais ao centro, há casas, vivendas amontoadas com grandes prédios urbanizados e barracas pré-fabricadas que abrigam o pessoal médio e também campo de ténis, piscina, bar luxuoso e messe limpa para os mais ganhadores de salário.
Por baixo de uma enorme placa de betão, fica o refeitório da classe baixa. Lá dentro há mesas de madeira compridas, alinhadas com bancos corridos alinhados sobre um chão de cimento bruto. Há cedros, ciprestes a delimitar as zonas, livres para alguns e interdita a outros, que dão um ar de cemitério aquele local. O sol ainda não despontou em Germunde, nem vai despontar. Distante lá em cima no céu, passa por trás desconfiado e ensombra a terra que já de si é negra.
A claridade chega pelas oito e define um pouco mais a estrutura esquelética do aglomerado. Germunde não é cidade não é vila nem aldeia, não é nada, nem uma coisa nem outra, o que mais parece, é um espinho cravado na encosta do monte.
Ninguém é natural de Germunde, a história não reza esta estranha espécie de vida aqui, mas ela existe, trazida de longe, importada, alguma aciganada, tipo gente dos colonatos árabes. Ninguém se conhecia antes, como não vão ficar conhecidos depois. Convivem mas ignoram-se. Partilham estes espaços de terra, como quem partilha a água de lavar tripas de porco. Germunde é um nicho para alguns vampiros que chupam o sangue a quem lhes cair nas mãos. Transformam o castigo, em obra de misericórdia.
Em Germunde só se pára para morrer ou mijar, aqui não existe nada para ninguém, até a própria água das nascentes é férrea e preta. Bem se enfeitou ela de natureza vinda de fora, mas em vão, aqui não nasciam cedros, nem ciprestes, nem rosas, só urtigas azevinho e mato. De Germunde ninguém gosta, nem os que lá hão - de nascer depois, vão fugir para longe e não voltarão mais. Mas em tempos remotos ouve vida em Germunde, o edifício da messe, foi solar de fidalgos e lavradores, abastados. Agricultores só de nome, que quem lavrava a terra eram outros. Tinham cavalos e coches, meio de transporte para se deslocarem aos salões da Granja em busca de divertimento. Ali desbaratavam à sorte, o que os outros produziam. Eles, os senhores envergando farpelas luxuosas banqueteavam-se em lautos almoços e jantares antes de seguirem para as salas da roleta do casino de Espinho.
Elas as madames, alçavam as pernas e mostravam aos amigos, as coxas alvas e luzidias, enquanto fumavam cigarrilhas cubanas. Os almoços, também eles abundantes eram no restaurante Galo de Ouro em Aveiro e começava sempre por uma avantajada caldeirada de enguias a que se seguiam bifes de vitela enfeitados com tartulhos. Enfartados adormeciam e ressonavam alto.
Ficavam por alguns dias até gastarem dez anos de salário de um cavador de terra a beber champanhe como quem no dia quatro de Agosto, na festa do S Domingos, bebe uma esturraçada de água do cântaro do Fome Negra. Quando regressavam vinham indispostos e agressivos, maus como as cobras e então quem pagava esses maus humores, eram os trabalhadores do campo.
Esta era pois a espécie de vida que em tempos remotos proliferava em Germunde, todavia nesse tempo ainda não se adivinhava o calvário que vinha a seguir, aquilo era só o prelúdio de uma tragédia que se haveria de avolumar. Germunde é uma terra propicia às maleitas, nasceu ou foi criada à imagem e semelhança do inferno.
Bem ao centro do cenário e em patamar de entulheira, discreta mas presente, o possível disfarçada, fica a boca do suplício. A entrada da mina. Por aquela escancarada boca vão entrar as filas dos que vieram a caminhar há horas.
E ai estão eles.
Os gasómetros prenhes de carboneto, que balouçam nas costas dos homens vão entrar em acção. Uns atrás dos outros desaparecem ao fundo da ampla galeria transformando-se em pequeninas luzes, trémulas e difusas. Lá vão o Marto, o Pestana, o Maneta o Isidro, o Rã e os outros todos. Caminham cem metros pelo lado do trilho das vagonetas e ao fundo deparam com três enormes poços.
No primeiro denominado de Mestre, dois elevadores fazem a descida. As Jaulas, que consistem num patamar de madeira de dois metros e oitenta de altura, por um e trinta de largura, cercado com grades de ferro constituem as cabines dos homens e material. Quando um desce, o outro sobe carregando uma Vagoneta cheia de carvão. Os mineiros baixam também aos poços por escadas de madeira, que de dez em dez metros têm um patamar e assim sucessivamente até atingir os trezentos metros de profundidade.
Chegados ao fundo, novas galerias estendem-se pelas diversas frentes de exploração do minério onde se faz a distribuição do pessoal pelas diversas zonas de serviços. Uns para um lado, outros para outro, dispersando-se pelas travessas a começar nas numero seis e acabar nas trinta e cinco. Uns cavam, outros enchem á pá pesados carros de mão construídos em madeira.
Vê-los agora é extremamente penoso. Quais toupeiras. Essas escolhem o terreno onde pretendem cavar, eles não têm essa possibilidade. As marcas foram definidas antecipadamente e, seja duro ou seja mole, tem de se avançar. Inclemente e dura a vida aqui. Molhados, sempre molhados, se não é do suor é da água negra que pinga do tecto. Das mãos e braços chagosos pelas pedras afiadas e soltas, escore sangue que se mistura com a massa preta do carvão. Transfigurados em camisola interior ou de tronco nu e em cuecas, assemelham-se a penduricalhos vivo.
Ah mineiros do Pejão, que erigirá o templo das vossas memórias. Quem lá há-de chorar o vosso sofrimento. Que cá fora a nortada sopra, agita as folhas dos salgueiros, tenta desesperadamente abafar os vossos gritos. Ela que vos conhece, que afagou o rosto da vossa juventude lancetada, sofre também em rajadas de revolta.
Pára rio Douro, escuta os lamentos dos homens, enterrados vivos, lava-lhes as feridas do corpo e da alma com as tuas doiradas águas.
Parai barcos rabelos que da Régua vindes desfraldando ao vento vossas velas brancas e encarvalhado trazeis o precioso néctar que outros escravos fizeram, mas que não corre nas gargantas dos pobres.
Pára, vento norte, não vês que é impossível calar o desespero destas almas famintas de luz!? Deixai que se faça silencio, que cá fora a noite desça solidária com a noite deles. Que Deus e Santa Bárbara os protejam e velem então pelas suas almas.
Parda a madrugada desponta em Pedorido. As casas encosteiradas pela serra acima parecem abandonadas ao sabor dos mistérios da noite que as cobriu. Uma paz milenar abate-se sobre a terra. A noite acolhe em manto de silêncio, os corpos estafados dos que cavam o chão. De vez em quando um mocho pia agoirento e, o sinistro grito, dilui-se na neblina. Dorme o povoado em paz orvalhada. As feridas abertas pararam de sangrar por instantes tentando cicatrizar no precário repouso. A alvorada lúcida vai interromper a obra caridosa da natureza. Breves são os momentos de tranquilidade, que cedo vem a ordem de avançar em busca do pão.
De horizontes tapados, só mais tarde esta aldeia sentirá o raiar da claridade, Assim, deixa-se ficar mais tempo ao abandono do descanso merecido.
A alvorada rompe as barreiras e um raio de luz clareia a serra desferindo o golpe finalàá noite cerrada. Não tarda que o povoado mexa, que as chaminés das casas de xisto fumeguem por todo o lugar. Livra-se assim da noite embora o sono permaneça por aqui, o sono e o espectro dos crimes cometidos pela calada das noites, tiros desferidos à queima-roupa que trespassam os corpos de quem cai nas malhas do vinho da tasca do Iscas. Mortes silenciosas tão inúteis como as vidas de quem os pratica. Há fantasmas em Pedorido como os haverá em outras terras vizinhas. Uns clamam por vingança, outros vagueiam fantasmas pelas ruas aldeia porque nunca encontraram o caminho de regresso às suas terras de origem.
Acorda Pedorido que a manhã vai alta. Desperta desse sono centenário. Anda ver o sol a crestar as serras da outra banda, que só pela tarde te há-de acarinhar o rosto. Anda vê-los passar, são tantos e vão para o degredo de Germunde. Humildes, esfarrapados e pretos mas campeões nacionais de disco, de dardo, de atletismo, de natação. Aqueles a quem o Francisco Duarte, o Chico, , o homem bom, acarinha. Esse que das terras de Aveiro veio estender as mãos aos desgraçados um dos poucos a sentir pena e compaixão e a pegar-lhes nas mãos calosas fazendo-os viver momentos de honra e de glória. Eles agitam o pó dos teus caminhos com pesadas botas, cobrem a tua terra castanha avermelhada com pó negro. Mudam-te a face que embora austera nunca foi preta. Mandados por outros agasalhados em ricas vivendas, humilham-te os filhos, rasgam-te as entranhas dilaceram-te a alma e tu deixas.
Acorda Pedorido. Impede a gula dos estrangeiros, dos pulhas vadios do mundo sem alma. Vem para a rua e sê testemunha ao menos da desgraça que te mutila. Acorda Pedorido que o Arda já canta e o douro já te beija os pés caridoso, amigo e companheiro. Ele tem pão para as bocas famintas do teu povo. Tem sável, tem lampreia, tainhas, barbos bogas, escalos e areia, muita areia, que há-de suster as casas do Porto e de outras terras. Riqueza enorme, incalculável que o rio te deixa aos pés todos os dias. Fecha as portas do inferno e vira-te para o rio que é lá que está o ouro com que hás-de comprar o pão. É no rio que reside a tua salvação.
Só o silencio me responde! O sono é inimigo do cão e começa a chover em Pedorido.
Nas terras em volta começam a ser retomadas as tarefas da vida. Amanheceu, já é possível subir aos montes para colher as lenhas, queirós e chamissas, que depois seguirão em barcos com destino às padarias do Porto e necessária ao aquecimento e à cozedura dos caldos. Quem tem hortas, procede ao cultivo dos legumes enquanto as mulheres presenteiam os gados e as mundices com a primeira refeição do dia. Neste recanto do rio a vida renasce todas as manhãs sem promessas e alheia à realidade que os poderes permitem. O sol não tarda a aquecer os povoados e essa luz maravilhosa é quem permite a continuidade da sobrevivência.
- Quem é Deus!?
A pergunta estala na quietude da tarde e o eco explode nos vitrais coloridos da igreja de S. Paulo em Sebolido mais parecendo um ribombar de trovão produzido na garganta do padre examinador:
- Quem é Deus?
Aqui, no meio da canalha quase ninguém sabe, só o Chico Marta ousa explicar:
- Deus é o meu pai!
Aquele som arrastado, sai a custo da garganta e mais parece um grunhido agonizante. Os olhitos pequenos aparecem e desaparecem por entre um pestanejar nervoso e rapidíssimo
- O teu Pai do Céu? Pergunta o padre.
- Não senhor abade, o meu pai Zé Maria!
A resposta é lógica e admirável por vir de um cérebro tão atrofiado. O resto da canalha, das pequeninas ovelhas, ri a bandeiras despregadas.
Crente, Chico liga Deus à hóstia consagrada, ao pão de trigo sem fermento que lhe alimenta a alma e o corpo. Ele sabe ou apenas sente desde a nascença que o verdadeiro Deus está ali materializado naquele pedaço de pão tão doloroso como se todo ele fosse o próprio corpo do Senhor.
- Tomai e comei todos, este é o meu corpo!
É aqui que o Chico bebe a verdade de que precisa. Pão, dor de o conseguir, esforço tenaz e sofrimento, por tanto igual a Zé Maria Marta
O homem da batina preta fica calado por instantes, entende o conteúdo da resposta mas não lhe interessa divulgá-la. No entanto sabe que o Chico tem a razão toda pois Deus é o pão de cada dia, aquele que alimenta, que acarinha, que protege, que ama e não castiga. Deus é no entender do Chico o Zé Maria Marta. Um borrachola, que nos fins de tarde após o trabalho ingere o vinho maduro até se perder nele. O que chega a casa ébrio e resmunga com a mulher. O que mija e entorna o carboneto do gasómetro no quinteiro. O que cava o chão de Germunde, um mineiro, um letrado que busca a notícia nos poucos jornais e livros que lhe chegam às mãos. Jornais velhos que já embrulharam sardinhas, livros antigos sebentos pelo uso, mas a quem o Marta arranca as últimas letras como se de perfume se tratasse. O que discute na taberna as questões políticas que a poucos interessam. O que fala na consciência colectiva, no poder da classe operária organizada, na democracia. O que tem cartão da empresa que lhe permite comprar alimento na malfadada cooperativa dos mineiros e barqueiros do Pejão, aquela que lhe fica com tudo, ou melhor com o resto do todo. Deus para o Chico é o seu próprio pai. Essa figura que consome os seus dias a cavar o carvão nas profundezas da terra, sem nunca ter tratado de si. Este é o Deus do Chico, um homem, um imbecil que nunca soube o que é o assentar de um fato de fazenda no corpo, só a ganga azul da camorcina e das calças que compõem o fato da mina. Um se humano exactamente igual a todos os homens feito por Ele à sua imagem e semelhança.
O Zé Maria Marta não é Deus não senhor. É apenas um homem e todos o sabem, mas o Chico dá essa resposta no exame para a comunhão solene.
- Deus é o meu Pai!
O padre passa à frente, disfarça, dá como válida a resposta ao consenti-la e, o Chico vestido a rigor e de sapatilhas azuis, vai professar e assumir a responsabilidade da fé que lhe indicaram num próximo Domingo quente de Agosto.
Nada se alterará na vida dele a partir desse dia. A demência envelhecerá com ele e vai perder o seu Deus para sempre.
Então, vagueará pela vida inquieto. Quererá rezar mas não sabe a quem. Por isso vai contorcer as mãos em desespero quando ouvir as badaladas do sino da igreja de S. Paulo em Sebolido. O Chico é meio anormal como diz o povo. Não tem as luas todas, é meio inocente como dizem alguns. Mas o certo é que, o Chico sofre e chora por pressentir que um dia vai perder o seu Deus.
O Passarinho, é uma criança dos seus quatro anos, órfão de pai que fora mineiro e morrera na mina quando ele tinha apenas dois meses. É conhecido assim por toda a aldeia, dá por este nome, pelo próprio que é Francisco nem pensar, corrige de imediato qualquer engano.
- Não sou Chico, sou Passarinho.
Um cabelo espetado na cabeça empresta-lhe um ar de ougado. Uma camisa cobre-lhe parte do corpito apertada apenas com o botão cimeiro, que os outros, já os perdeu a jogar à pincha. Uns calções de fioco todos remendados herdados de umas calças dos irmãos mais velhos, presos com uma alça a tiracolo e a outra a pender pelo rabito abaixo, descalço, com os dedos grandes dos pés esfolados pelo tropeçar nas pedras do caminho, é a imagem perfeita de um pedinte desleixado.
A alvura da manhã surpreendeu-o na margem do rio já a caminho do Corgo de Cima. À sua frente a cabra Farrusca corre enquanto ele tentando apanhar a guita que largara das pequeninas mãos, corre também.
O trabalho do Passarinho consiste em guardar a cabra que fornece leite para ele e para os dois irmãos. Vai para o cimo da aldeia onde há pastagem com fartura. A cabra rapa as ervas que proliferam na margem do rio, viçosas e verdejantes aparecem como um tapete estendido na paisagem.
O Passarinho passa os dias completamente só, manhãs e tardes entretido a curtir os seus inocentes pensamentos envolvido numa alegria pura e calma. Desde há muito que matuta num sonho e procura a forma de conseguir a chave do cemitério pois a mãe sempre lhe disse que o pai estava lá preso pela morte. Penetrar no mistério do lugar sagrado e resgatar aquele que nem sequer conheceu, mas sabie que lhe tinha dado a vida, fá-lo carregar no alma dia após dia, a esperança de o reaver.
O tempo passa lento pelas bordas do douro. A tranquilidade das águas mansas desperta na criança com mais vigor essa paixão avassaladora. Fala com o rio, conta-lhe histórias que ouve no lugarejo com devoção e verdade. O rio escuta em silêncio e, só altera a espelhada atitude, à passagem das patelas coçadas da areia que o pequeno lança devagarinho
Pelo meio-dia abre a saquita de ganga que tinha sido do pai e retira o pão, as azeitonas e a cebola salgada que vão ser o seu almoço. Come vagarosamente, aprecia a económica alimentação como se de lauto manjar se tratasse e, venha quem vier, será difícil convencê-lo que aquilo é comida de gente pobre. O Migalhas, rapaz para uns sete anos, andrajoso e sujo, filho do Manel da Touça, aparece por lá a essa hora. Os olhos estalam-se ao ver a comida e, o Passarinho estende a mão ofrendosa ao companheiro:
- Come Migalhas!
- Já comi o caldo, estou cheio!
Mentira! A boca não é capaz de convincentemente negar aquilo que o estômago sente e lhe transparece nos olhos. O guardador da cabra sabe bem que o amigo tem fome e que ainda é mais miserável do que ele:
- Toma. Come daqui!
São segundos em que a pequena refeição passa a garganta do Migalhas. As azeitonas saem da saca de repente às mãos - cheias, algumas caem no chão tufoso e, num ápice, depois de limpas nas calças sujas, estalam-lhe mastigadas na boca. O Passarinho não se importa, são amigos e, de mais a mais, um dia houvera em que caíra no rio cheio e doirado e, foi o Migalhas quem o salvou de uma morte certa.
- Tu sabes o que é a morte migalhas?
A pergunta estala na calmaria da tarde. A resposta demora a chegar. O Migalhas olha o céu como se procurasse ali o termo certo para explicar ao amigo. Passam minutos e, como que se o cérebro se lhe iluminasse de repente, disse:
- A morte é a ti Júlia do Vale dos Lobos!
- Porquê? Pergunta o Passarinho!
- Porque é negra e feia!
Errado, mas sem dúvida a figura que melhor poderia descrever a morte. É negra a Julia mas só de aspecto. A longa viuvez transformara-a numa espécie de bruxa. As roupas negras que cobrem a quase totalidade do seu corpo onde só reluzem uns olhitos na cara enrugada, fazem dela uma figura sinistra que só calca as pedras do caminho da aldeia depois de o sol se ter posto. É uma coruja!
O Passarinho aceita como certa a resposta do amigo. Demais a mais, a ti Júlia vive mesmo encostada ao cemitério, na casa da colina.
Do Corgo olha o alto de S. João e magica na forma de pedir a chave do cemitério e, sorrateiramente, entrar salvando o pai das garras daquela traiçoeira. Neste coraçãozito, instalou-se há muito um terrível dilema; É que, sempre que deixa a Farrusca fugir, ela vai direitinha à venda do Viana e, num ápice, abarbata-se ao milho reluzente do saco. Então a mãe repreende-o severamente e, não são as pancadas no corpo quem o fazem sofrer mais, são as palavras da pobre em desespero, que enchem de terror aquela alma infantil.
- Se o teu pai fosse vivo, dava-te uma sova que te ponha de cama um mês.
- Rais parta o moço que não aprende de maneira nenhuma! Falta cá o teu pai para te meter na linha!..
Eis a razão do cruel dilema. Quer muito libertar o pai mas o medo às pancadas que pode levar, tolhem-lhe o gesto.
Hoje as saudades do progenitor são mais vivas, queimam-lhe o peito depositando nele uma angústia infinita. Deixou passar o tempo e pelas seis da tarde, desamarrou a cabra do graveto em que a prendera e, agarrado na ideia até aqui acalentada, arrepiou caminho até ao cemitério. Por baixo da capela olhou o adro cauteloso. Viu a figura do prior, homem alto, de cabelos brancos que lia o breviário em passadas calmas em volta do templo. Esperou que dobrasse a esquina e, numa corrida foi a casa do Carrucho o guarda do cemitério e pediu as chaves, dizendo que eram para a mãe que estava à espera para enfeirar a campa.
O guarda lá lhas entregou. É um molho delas, pesadas e grandes. As da capela vêm juntas presas na argola. Vigia-se do padre e, quando este mais uma vez dobra a esquina, correu até ao objectivo. No entanto é difícil chegar ao buraco da fechadura. Põe-se em bicos de pés mas nem assim consegue. Entretido na tarefa, não dá pela chegada do padre que, curioso, ao ver a cabra amarrada em baixo, se pôs atento.
- Então Passarinho? Que fazes aqui a esta hora?
Nem chus nem mus. De olhos arregalados, esconde atrás das costas o molho das chaves.
- Perdestes alguma coisa rapaz?
Nada, nem um ai sequer. É a figura chapada de uma ave medrosa. Acertou quem o baptizou; nada faz lembrar melhor um passarinho, que este corpito inocente e indefeso, à espera do pavoroso castigo.
- O que é que tens ai nas mãos, ora deixa lá ver!?
É o padre, de batina até aos pés, negra e coçada, lembrando neste momento um abutre prestes a atirar-se sobre a presa. Mas não! É um homem bom, reage apenas ao sabor da curiosidade que lhe despertou a presença do catraio, neste local e a esta hora tardia.
- Olha são umas chaves, são as chaves do cemitério e da capela!
- Para que queres tu isto, pequeno?
O passarinho respirou fundo. Foi mais um suspiro do que outra coisa. Da candura dos olhitos negros, soltam-se em desespero ribeiros de lágrimas e, os ombros sacodem-se na tremura dos soluços. Levantou a cabeçita e, com firmeza, respondeu:
- São as chaves da morte senhor abade. Ela tem o meu paizinho ali dentro preso. Eu vim buscá-lo. Quero levá-lo para minha casa. A minha mãe chora de noite por ele. Eu tenho muita pena dela. Não me bata senhor abade; eu só levo o meu pai e não estrago nada!
A tarde finda-se, um doce crepúsculo cobre a aldeia, o céu estrela-se num instante e o rio ao fundo da encosta é um lago verde matizado por reflexos de luz e esplendoroso. O velho sacerdote tira os óculos e, com o lenço, limpa as grossas lentes e os olhos que se lhe humedecem de repente. Pega o pequeno ao colo, com as costas da mão enxuga-lhe as lágrimas e acaricia-lhe os cabelos. Com o dedo indicador aponta uma estrela e diz-lhe baixinho:
- Não chores mais meu filho. O teu pai está acolá em cima naquela estrela. Não o procures ali no cemitério. Procura-o no céu que é onde ele está agora. Tu ainda não compreendes meu pequenino, mas, um dia, hás-de saber que é assim mesmo. O corpo do teu pai está ali dentro, mas a alma, a alma boa que ele tinha, essa está no reluzir daquela estrela no firmamento celeste, muito pertinho de Deus. Não o podes levar para casa Passarinho. Agora a casa dele é a casa do Senhor. Olha, neste momento o teu paizinho está a ver-te e está muito feliz, meu querido filho.
- Mas eu não o vejo senhor abade?
Diz criança elevando os olhitos ao céu indagadores.
. - Verás um dia, quando fores mais crescido. Continua a olhar o céu todos os dias que um virá em que tu, como eu, conseguirás ver para além das últimas estrelas. Então Passarinho, nesse dia, encontrarás o teu querido pai.
- Ainda falta muito senhor abade?
- Não meu filho, apenas o tempo de te fazeres homem, pouco, muito pouco. Um dia acordarás lá em cima junto do teu pai. Olha que é breve Passarinho. Quem tu diz, está a um passo desse dia
- O senhor abade também vai ter com o meu pai?
Perguntou a avezita contentada.
- Vou filho, vou ter com o teu e com o meu que não vejo há muitos anos!
- O seu pai também é preso da morte?
- A morte não existe passarinho. Apenas o corpo se transforma em pó, mas a alma que tens aí dentro do peito, volta para o lugar de onde veio, lá para cima, para a beira do Criador, do nosso Pai celeste!
- Mas então temos dois pais senhor abade?
- Temos! Temos dois pais. Nós e todos os meninos e meninas e todos os homens e mulheres deste mundo.
- Até o Melrinho que rouba laranjas ao senhor Viana e parte os gamões das videiras do senhor Geraldo?
Pergunta ele admirado.
- Sim, até o Melrinho, até esse, apesar de ser tão traquina e tão rebelde, também é filho de Deus.
- E o nosso Pai do Céu bate-nos quando deixamos fugir a cabra?
- Não Passarinho, não bate. É muito nosso amigo. Fica triste quando fazemos asneiras mas não é capaz de levantar a mão para ninguém. Ama-nos como o teu paizinho te amava!
- Mas a mãe diz que o meu pai batia!
- Não! A tua mãe diz isso em desespero. Ela também sabe que se o teu pai fosse vivo, nem sequer andavas perdido, sozinho pelas beiras do rio a guardar a Farrusca. Havias de brincar com os teus amigos e estar sempre perto de casa!
O miúdo aconchegou-se mais à batina do padre.
Aqui está a reza abreviada, a doutrina simples do velho padre. Poucos discursos ou sermões terão mais agradado efeito. Na verdade Deus está sempre em todas as coisas das nossas vidas. Não o podemos procurar no inferno, único lugar onde de certeza Ele não está. Cegos pelo poder material ou pelo desejo de superioridade o esquecemos, ou iludidos no sentido inglório da vida, não queremos ver, que na realidade o Deus verdadeiro existe em cada um dos nossos semelhantes. Escasseado de tudo às vezes, mas nem por isso diferente do Deus todo-poderoso o Criador de todas as coisas visíveis e não visíveis, o ser infinitamente misericordioso.
Um suspiro de alívio parou aquele vale de lágrimas. Nos olhitos ainda liquefeitos, brilha a luz de uma nova esperança. Afinal temos dois pais, foi senhor abade quem o disse e mais que ninguém é pessoa em quem se pode confiar. Dois pais e qual deles o melhor. Um a viver numa estrela, tão perto dos seus olhos. Outro no céu, que mesmo que se deixe fugir a cabra, não é capaz de bater! Ainda hoje havia de dizer à cabra Farrusca e amanhã ao rio seu grande confidente.
Tudo se alterou de repente. Aquilo que era uma angústia e lhe transformava a alma numa uma noite escura, abria-se agora num paraíso multicor. Muito pouco é necessário para contentar um pobre inocente.
Com o pequeno ao colo e a cabra presa pela guita na mão direita, o abade sobe devagar a rua dos Estercos.
Na Lingueta, espécie de rampa metida na água, vêm-se encostados uns aos outros vêm-se os barcos Rabões, que carregados de carvão irão partir para Campanhã, navegando pelo rio abaixo e vistos daqui, mais parecem cascos de túneis a boiar na água.
Campanhã é longe, nas bordas do Porto. A descida do rio é vertiginosa, às vezes basta o homem da espadela guiar o barco e algumas pás a tentear o mesmo aproveitando o vento de sopé armando a vela de Traquete à frente. Outras vezes, com a maré na preia - mar, é custoso arrastar à força de braços, tantas toneladas de madeira e carvão antracite.
A subida é sempre terrível, penosa, desgastante e desumana. Os barqueiros esperam o auxilio do vento da barra que enche as escuras velas e impulsiona a embarcação. Mastro armado no Terço do Meio e vela Quadrada içada, ela e os homens lá vão fazendo o trabalho todavia penoso. Nos caroços, sítios no rio onde a Quilha e o Sagro do barco arrastam no fundo, é muito difícil de progredir. Nesse caso três homens saltam para terra sem protecção nos pés calcando as escarpadas fragas da margem, munidos com uma corda presa ao barco vão, puxando uns metros à frente deste. A corda abre-lhes os ombros em ferida e as pedras do chão, sulcadas com profundos regos, provocados pelos cabos continuamente a raspar, cortam-lhes os pés nus. Outros de vara de Carregar fincada no peito, polida pelas mãos dos barqueiros que já lhe tiraram as farpas cravando-as na carne, faz-lhes uma mancha tumefacta e calosa no outro lado do coração, vão espetando varapau no fundo do rio, desde a proa até à ré. Vergados e num tremendo esforço, agoniam em cada minuto que passa.
E nos dias de cheias em que num louco se converte o rio apressado em chegar à foz, agiganta-se e parece que leva consigo a força dos infernos. Os barqueiros não intimidam com este embrutecimento do rio e embrenha-se com ele numa luta de morte. Assemelha-se a um feitiço, a uma espécie de maldição que empurra os homens para o colo de tão traiçoeira amante. No efeito de semelhante adoração, dão-lhe tudo, o suor do rosto, o sangue das veias e a própria vida. Ficam cegos e loucos como ele, só em troca do pão que lhes falta em casa para alimentar a família.
Que degredo! Que a morte em leito pobre, é mil vezes mais justa. Que crueldade horrenda!
São tantos a sofrer tão desgraçada sorte. Vêm dos mais diversos lugares. Espadanedo, Couto, Escamarão, Bitetos, Castelo, Sardoura, Pedorido, Melres, Rio Mau e de outros sítios bem mais afastados daqui. Todos irmanados do mesmo sentimento de uma solidariedade única, tratam-se por companheiros estabelecendo entre si laços de verdadeira fraternidade.
As refeições são comunitárias. A mesma panela cozinha os caldos que todos irão comer com o mesmo garfo ou a mesma colher. A dor de um, transforma-se sempre no sofrimento solidario de todos, mas mesmo assim é muito pouco o bem-estar. Por mais união que haja, é impossível transpor os obstáculo da miséria extrema. Se um é pobre, os outros todos são paupérrimos. Se um tem de alimentar três ou quatro filhos, alguns dos outros têm de alimentar um bando que chega aos treze. Em cada um deste conjunto de vidas, venha o diabo escolher a melhor. Todavia sorriem e embora esporadicamente, ao longo dos tempos dão largas a uma réstia de alegria que docemente acalentam.
É um raro privilégio vê-los em tempos de calmaria quando entre abraços fraternos dão largas a esse minguado consolo que de vez em quando desponta nos seus corações sofredores. Então sai uma desgarrada acompanhada pelo enfeitado e suave som da viola braguesa e pelo delicioso passar da caneca do verde tinto de mão em mão. É quase sempre o Constantino a abrir a contenda e, os dois irmãos, os Canecas, incitam ao despique:
Que lindo é o berço sagrado.
Que lindo é o berço sagrado.
Que me criou e alumia.
Aqui a braguesa fazia dois compassos.
Que me criou e alumia.
Entre beijos e abraços.
Lá vim eu à luz do dia.
O melancólico e bizarro dedilhar do tocador no modesto instrumento, enche o espaço e a noite de um romantismo nostálgico. Dois lampiões a petróleo esforçam-se por iluminar a taverna, oscilando vagarosamente no tecto por entre dois cabos de cebolas e alguns presuntos pendurados provocando efeitos de contra luz que dão às paredes da casa formas bizarras e fantasmagóricas.
Agora entra o Malhado a matar:
Ó cantador afamado
Ó cantador afamado.
Aprecio os teus cantares.
Outra vez a viola dolente!
Aprecio os teus cantares.
Bem puxas pelas goelas.
Mas não me chegas aos calcanhares.
Está lançado o mote que servirá de tema aos cantares desafiadores. Como dois galos em capoeira, lá se vão encrespando no fazer de cada quadra. Consolados, ficam perdidos em alegre e amena cavaqueira pela noite dentro.
Sentado na caixa da farinha o Zé Esperança enfia o focinho na caneca do vinho. Bebe em grandes goles pela noite fora. Meio vivo, meio morto, escuta as narrativas dos barqueiros.
Falam de tudo e de nada. Contam uns aos outros, histórias de valentia que nunca chegaram a viver transformando-se em heróis repentinamente. Ninguém ousa desmentir ninguém. De olhos espantados, ouvem os feitos uns dos outros como se fosse a primeira vez que os ouvissem. Mas não, são antigos, recontados por dias e noites semelhantes a esta e alterados aqui e ali conforme a imaginação de quem os conta. Gesticulam ao sabor do conto, ora as mãos se cruzam no peito como quem ama e sofre, ora assumem contornos de combate como quem desfere certeiro golpe de espada afiada.
Os companheiros sentados no comprido banco da tasca, ora chegam à frente para ouvir melhor os momentos em que a voz é só um sussurro, ou então recuam transidos de medo daquelas mãos em riste dobrando-se para trás apavorados.
Comungam a hóstia sagrada do irreal e do fantástico que chega a assumir contornos de absoluta e autêntica verdade. Talvez não, decerto nem interessa saber e conhecer a realidade, são apenas desabafos, pedaços das almas sangrantes dos marinheiros da Esquadra Negra. Já tarde felizes e alegres, regressam aos lares abraçados uns aos outros.
O último a abandonar o tasco é o Esperança. Manco há muitos anos, cambaleia e tenta arrastar-se até à barraca distante onde vive sozinho.
O velho Zé parou ao cimo da costeira. Muito a custo tenta reconstruir um cigarro que traz meio desfeito no bolso da samarra. A chuva tangida por um vento forte vai ensopando as roupas do homem. Perdido no meio das trevas, embriagado, ensaia um princípio de canção:
- É tão bom ser pequenino, Ter mãe Ter pai, Ter avós.
Pára, decerto já não sabe o resto da letra ou então é a emoção que lhe embarga a garganta. Grossas nuvens de fumo aparecem da boca que cheira a vinho e a caldo de couves. Lá ao fundo corre sereno o rio mau cumprindo a sua sina milenar. Cambaleando, apalpando aqui e ali, o Zé retoma a estranha marcha. Já não há controle de nada. O corpo cede em cada passada e, as pedras soltas do carreiro, impedem qualquer progresso. Caiu, rolou pela encosta pedregosa como se fosse pedra lançada aos tombos numa ribanceira. Ao fundo arrasta-se penosamente pelo chão e, só muito a custo conseguiu chegar à miserável habitação. Adormeceu e sonhou não se sabe com quê. Na manhã seguinte encontraram-no morto na enxerga molhada. Olharam pelo postigo e reparam que o sol lhe iluminava o rosto já sem vida. Conta-se que ainda hoje, quem passa a horas mortas da noite no local, tem a sensação de ouvir as águas do rio mau a cantar:
- É tão bom ser pequenino, ter mãe, ter pai, ter avós.
Nem só da mina, da pesca e dos barcos vivem as gentes das povoações em redor. Os campos onde se cultiva o milho, o centeio e as batatas, estendem-se por toda a margem do douro. A principal fonte de rendimento de quem trabalha as terras é sem sombra de dúvida o cultivo das vinhas.
Cá de cima da Ladroeira vêm-se arranjadas as vertentes que descem em cascata até à ponte romana da Bateira. Alinhadas perpendicularmente, as vinhas alongam-se por toda a encosta como em canteiros de jardins suspensos a receber o microclima generoso que sustenta o vale e a quem o rio Paiva a correr lá ao fundo, vai temperando com exóticos vapores. É vinho verde tinto de castas Vinhão e Amaral e outras escolhidas a dedo que amadurece nas agruras dum sol que passa por cima de Carreiros e ainda castiga a Natureza e os homens. É um produto único no Mundo o que vai nascer desta colheita; verde como a paisagem em que é cultivado, verde da cor da esperança de quem o trabalha com dedicação e muito amor e verde como a juventude que encerra e vai espalhando pelo mundo fora em tragos de sabor inimitável, a pedirem carne de vitela arouquesa assada ou grossas fatias de presunto acompanhadas por broa de milho e azeitonas pretas curtidas bem como cebolas rachadas em quatro espargidas com sal grosso e abundantemente regadas com o tinto do mesmo vinho.
Gemem as videiras e, os cachos de negros bagos em cujo interior germina o açucarado precioso néctar, recolhem-se apertados sob a folhagem das videiras. Entrou Setembro e já pouco falta para as vindimas e o Julião recomeçou as canseiras anuais de preparação dos artefactos que muito em breve, numa freima louca, irão entrar em acção.
Lá fora na eira, espalham-se cestos e gigas misturados com arcos e aduelas de pipas e alguns túneis de bocas abertas a sofrerem a artística reparação do Ricardo tanoeiro. Há material da Dorna e barrotes do Cachaço da prensa do lagar que já foi lavado e reluz como novo no recanto frontal do ladrilho. Na penumbra do interior da cave, almeja-se as grandes e robustas pedras de granito que formam o tanque rectangular onde as uvas serão pisadas por pés nus e esmagadas na prensa que se vê ao centro desarmada e, por cima dela, a trave de pressão em carvalho velho, enfiada num eixo de pedra na parede da residência. O fuso, que desce desde a Concha até à monstruosa laje suspensa pela Tranca, aparece polido de fresco e oleado com banha de porco. Ao alto e paralelas à Vara, as Virgens da frente e de trás, perpetuam-se a guiar aquele maciço de madeira bruta e, já fora do enorme reservatório, surge a Tina luzidia contendo o cesto coador do mosto.
A azáfama é grande aqui em Bairros, dos campos que rodeiam a freguesia, chega um perfume macio a erva, canas de milho de espigas trigueiras e a uvas maduras que antecede a um outro, vinhão, lagareiro, a mosto fermentando nas adegas espalhadas um pouco por todo o vale. Chiam os carros de bois no aperto dos caminhos em missão de recolha de abundante colheita de abóboras e arreganhadas espigas do cereal que há-de dar o pão de cada dia. Aproxima-se o momento da mais importante das apanhas, aquela que garantirá mais um ano de sobrevivência se for abundante. Outros rendimentos aqui não existem; se a terra não for generosa no compensar do tenaz esforço desta nobre gente, muitas agruras terão de passar e outros tantos projectos de vida facilitada, terão de aguardar mais um ano recolhidos no infinito sacrário das esperanças.
Povo humilde e generoso este de Castelo de Paiva que no percurso dos tempos quase sempre desgraçados da sua existência, prestaram honras e vassalagem a tiranos que lhes roubaram quase tudo e ergueram tributo a gente que nunca soube o que é cavar um campo mas amealhou colossal riqueza em dinheiro e haveres à custa do seu esforço colectivo. Fazem-no com o mesmo desprendimento com que podam as vides, sorribam os campos, regam os milhos ou cavam nas profundezas da mina. Forçosamente distantes do poder central, separados do todo nacional por uma linha imaginária e só imaginada na cabeça de alguns senhores, nem sequer pedem ajuda pois sabem bem que, manter-se incógnitos é a melhor forma de sobreviver. Seria legítimo protestar mas como há gente em Sobrado que vende a liberdade dos conterrâneos a troco de uma malga de vinho, o mais certo seria acabarem por baixo do posto da guarda na cadeia a olharem permanentemente para a estátua do Conde. O poder totalitário é cego e sacana, aniquila os projectos dos simples cedendo sempre às conveniências dos que o sustentam ignorando por completo que quando acabarem os campos cultivados, estará comprometido o sustento e extinta a valente e heróica raça Lusitana.
Aqui já não é litoral, muito menos Douro; a faixa que absorve a maior parte da riqueza, encurtou terrenos por artes de magia transformando esta região que dista apenas cinquenta quilómetros do Porto, na mais permitida e lamentável das interioridades, assemelhando-se a baldios ou terras de ninguém. A única ponte que une as duas margens do Douro é estreitíssima com mais de cem anos de serventia e apodrece em cada dia que passa. A que atravessa o rio Paiva, perdeu-se-lhe a conta da idade mas sabe-se com toda a certeza ser obra dos povos Romanos. Tudo tão perto e tudo tão longe como lápide eterna a explicar ao mundo as razões objectivas do persistente atraso de um país
O Julião é um homem forte, vermelhado da cara que parece ostentar um sorriso persistente e trás na cabeça um chapéu de palha de abas largas, tão velho como ele, que o protege das inclemências do sol enquanto trabalha as terras. Sentou-se no rebordo do canastro agora de portas escancaradas aguardando as espigas do milho desfolhadas deixando soltar-se-lhe livre o pensamento que divaga nas longínquas paragens do passado. Afloram-lhe lembranças que voam na vertigem da idade que já vai avançada como noitada da festa de S. Domingos e só descansam acolá do outro lado da Paiva onde os olhos esquadrinham solos de Travanca, num súbito estremecimento do corpo por ter sido aquela a terra pequenina onde nasceu. Chegou criança a Bairros trazido no colo de uma mãe que bem cedo perdeu o amparo do marido e, forçada pelas adversas circunstancias da vida, teve de atravessar o rio e instalar-se na encosta do outro lado onde vegetam as vides que prometiam sobrevivência.
Travanca, terra de Cinfães tão distante da Vila, encravada entre as serras e o rio Paiva que lhe beija os pés que são gigantes penedos de granito mergulhados na água numa aflição pungente a tentar impedir a perda do regadio, nas funduras da ponte Romana da Bateira e a deixar-se lavrar por mãos calosas de outros desventurados em declives acentuados também manchados com uvas e frondosos castanheiros, julga que a sede do concelho já nem sequer sabe que este pedaço de mundo lhe pertence. Toda a expectativa destas pessoas reside nos campos, nas minas e nas vinhas que se Deus quiser hão-de parir o encorpado e delicioso néctar de Baco ansiosamente esperado e acalentado na alma destes seres dos campos que lutam desesperadamente como escravos a remar em antigo veleiro de piratas.
Retomam-se as tarefas da vida, o Julião grita pela esposa que ocupada nas lides da cozinha cumpre também as suas obrigações como quem desfia rosário de penas ao longo de uma vida inteira.
Na sala da humilde habitação está um quadro dependurado com a fotografia dos dois no dia do casamento mas, esses rostos de juventude, em pouco ou nada se parecem com estes desfigurados, rugosos, gastos e curtidos pelos anos.
- Ó Anunciação, corta ai um salpicão às rodelas e trás broa e azeitonas aqui para o senhor Ricardo meter uma bucha, diz ele a dirigir-se para a adega com uma jarra de barro na mão.
É a hora da merenda aqui em Bairros no logradouro da casa do caseiro servido em toalha bordada que protege a mesa de pedra assente debaixo da figueira com as galinhas a depenicar as couves e ervas que nasce em redor tendo como cenário a verdura dos campos que se alongam pelas serras até se perderem de vista. O vinho laçou a caneca de porcelana vivo e escorreram gotas vermelhas nas paredes exteriores da vasilha que ficaram paradas a meio caminho gordas como melaço risonho.
O lavrador está feliz e contente e, como tristezas não pagam dividas, apetece-lhe cantar. Entra outra vez na adega e de trás da porta fronha retira a viola braguesa rendada de teias de aranha que dedilha sem grande mestria e um som de festa espalha-se como sulfato nos campos:
Ó terra da minha alma.
Ó terra da minha alma.
Lugar da minha afeição
Ora como é lindo.
Lugar da minha afeição.
Que me dá paz, me dá calma.
E alegras o meu coração.
Não tenho mais que te dar.
Não tenho mais que te dar.
Nem tu mais que me pedir.
Ora como é lindo.
Nem tu mais que me pedir.
Aqui tens meu coração.
E a chave para o abrir.
Ressuscitou subitamente o tempo da alegria como recordação ainda viva da festa de Nossa Senhora dos Aflitos em que em romaldeira ele e os amigos entravam no arraial apinhado de gente tocando e cantando ao redor da capela.
Vareira minha vareira
Vareira ó lari ló lela
Vareira linda vareira
Vareira da nossa terra.
Tanta lima, tanta lima.
Tanta lima, tanta amora.
Tanta menina bonita.
E o meu pai sem uma nora
A esposa apareceu no pátio a limpar as mãos no avental de chita castanho às florinhas brancas, o amplo sorriso desenhado no rosto com sinais de velhice precoce, deixou à mostra uma boca desdentada que desmente a perfeição daquela captada num momento feliz e distante que se perpétua a preto e branco no antigo retrato encaixilhado na sala. Tudo passa mas nem tudo esquece, os tempos antigos eram duros mas havia alegria no povo. As feiras eram animadas e até nos onze e nos vinte e seis em Nojões se dançava no meio das tendas e do gado e cantava-se ao desafio no tasco da Leopoldininha e do Landreiro.
Agora é preciso começar a vindimar os campos, manter acesa a chama de um vinho que merece grandes cuidados e, apesar de tudo o Julião sabe que será impossível reinventar o espírito de uma época mesmo desditosa que ela por ventura tenha sido; atira o chapéu para o cimo da cabeça e mergulha de novo na esperança que acalenta. O rio Paiva lá em baixo, segue indiferente o seu percurso, ali bem perto no Castelo, entrará no Douro, outro rio que meio desprezado, ainda não sabe o seu futuro propósito e juntos esquecerão as tragédias deste povo porque o seu comum destino é o mar e os dois sabem bem que num oceano por enquanto ninguém manda.
Rio Mau é terra soalheira toda virada ao sul. As casas de xisto estendem-se pela beira do rio e outras sobem por três colinas. É terra formosa e de bons ares, de horizontes largos e de gente que labuta pela sobrevivência. O rio que lhe dá o nome, corta-a ao meio e na sua foz, rebenta no Douro zangado ao deparar com o Arda ali em frente. Nunca se juntaram e nunca se entenderam. Um segue na margem esquerda a roçar as entulheiras de Fornêlo, o outro encosta-se à pedregosa margem direita inquieto e nervoso.
O Rio Mau não nasce em lugar definido, inventa-se a si próprio recorrendo às sobras de vários ribeiros lá no alto da serra da Boneca. Nos estios é um lacrimejar penoso que o sustenta e que se vai sumindo nas areias do leito até ficar num fio. Nos dias de vendavais, nas bastas invernias, aumenta de caudal e torna-se perigoso arrastando tudo à sua passagem. As pontes que o atravessavam foram destruídas várias vezes ao longo dos anos. É um rio mau e senhor absoluto do seu leito. Porém, nos verões é dócil. Toda a gente desta terra aprende a nadar nas suas águas puras e cristalinas.
A neblina cobre os montes, parece um tecto de algodão entre o céu e o rio. Descansa ainda a terra do habitual reboliço da véspera.
O sol ainda verde tenta romper o nevoeiro e, os seus raios aparecem indirectos mas definidos tomando a forma de arco-íris. A aldeia parece encantada e, esse encantamento já se prolonga por muitos e longos anos fazendo-a mirrar de fome e de miséria. Embalada pelo som monótono das águas do rio a cair na levada, dorme também o sono dos justos. Tal postura convém a muitos, alguns que já lá estão no reino dos Céus (?). Viveram à grande à francesa e partiram sem nada deixando a terra completamente morta para os vindouros fazerem progredir e crescer.
Os anos vão apagado as marcas do passado mas, aqui e ali, ficará sempre uma pedra, um fontanário ou um cunhal, uma ombreira de casa a lembrar aos vivos os tempos de agora. E que tempos duros estes onde poucos resistem ainda em crianças às maleitas que a fome e a falta de condições de higiene provoca. Morre-se de gripe, de tuberculose, de tísica e de pequenas doenças que um dia já nem sequer existirão ou se tornarão banais e terão cura. Não fora o empenho da senhora Maria Galinheira, as coisas passariam a assumir contornos de calamidade.
E uma espécie de médica, enfermeira e parteira. Todos os males dos que recorrem a ela são tratados à base de rezas misturadas com múltiplas práticas ervanárias. Talha o sarampo como talha o ventre caído ou a íntricia. De todos os tratamentos que faz, o mais rigoroso tem a ver com a zipla ou zeripela, mal de pele que alastra até se tornar numa só ferida ulcerada por todo o corpo.
Munida com uma caçoleta de barro onde previamente mistura azeite, água pura e alecrim, procede aos tratamentos. Mexe tudo pacientemente, depois, com um ramo de carqueja verde, vai molhando na punção que fabricou e esfregando em cruz sobre o ventre do paciente ao mesmo tempo que cita uma oração:
Pedro e Paulo vai a Roma,
Pedro e Paulo vem de Roma,
Pelo caminho encontrou Nosso Senhor
E ele lhe perguntou:
- Pedro e Paulo, de donde vens?
- Meu Senhor venho de Roma!
- Que vai lá por essas terras?
- Muita gente morta com zriplões e zripelas,
Muita gente com elas.
- Pedro e Paulo torna atrás
E co’ a tua mão cortarás zripelões e zripelas
Com uma folha de azeite e água da fonte
E espargos do monte.
Farás três vezes esta reza e três dias e o mal será curado.
Em louvor do Anjo da Guarda e da Virgem Maria.
Também cura os ougados principalmente crianças que desejaram comida que viram e lhes foi sempre negada. Confecciona um bolo de farinha de milho e centeio em que durante o processo de fabrico o paciente espeta os dedos das duas mãos, quantos conforme a idade, deixando as marcas esburacadas que depois será comido atrás da porta da cozinha. Detectar a ougadês é fácil. Esta doença é muito particular nas crianças pobres que vítimas da cobiça de um alimento melhor ficam com o cabelo espetado parecido com os dos ouriços caixeiros. Outros de bocas em chaga, devido à ingestão de alimentos ratados e deteriorados, recorrem a ela. A senhora Galinheira tem rosto enrugado pela eternidade da vida. Uma boca meio desdentada e uns olhitos pequeninos a reluzir ao fundo da cara que dão um resto de luz esta mulher que já não sabe sorrir, conserva a sabedoria popular e usa-a para socorrer os seus semelhantes a troco de nada. Espelha apenas o testemunho de uma vida repleta de sofrimento cobrindo o corpo seco com uma saia de merino velha revestida à frente por um avental de chita preto às florinhas brancas e na cabeça, cobrindo parcialmente a cabeleira embranquecida, um lenço preto amarrado na nuca, condiz com uma blusa também de chita e negra e completam a sua indumentária. Viúva há vinte e tal anos criou na carência de tudo, um bando de filhos. Em certos casos, e principalmente nos que apresentam feridas nos lábios, usa um tição em brasa que via passando a curta distância da boca do paciente em cruz, ao mesmo tempo que reza uma oração;
Bicho bichão, aranha aranhão, cobra ou cobrão, sapo ou sapão, bicho de qualquer nação, esturrado sejas tu como este carvão.
É remédio santo, dois ou três dias a ser tratado o doente fica curado.
Também trata o Arejo, a Espinhela Caída, o Tresurelho e até os males dos ventres femininos infecundos isto é, mulheres que apesar de esforços incontáveis, não alcançam a gravidez. Umas benzeduras e uns chás de ervitas e lá estão elas a parir em pouco tempo. Não se sebe se é pelo beneficio do tratamento ou se porque certamente, mudam de parceiro.
O sino da capela dobra a finados, a morte silicósica fez mais uma vítima. O Profeta caiu varado pela espada da sorte. Novo ainda, quarenta e poucos, jaz em leito pobre após dois anos de agonia. A razão a mesma, o pó maldito que se agarrara aos pulmões definitivamente e sufoca as criaturas. Lenta é a morte mas certa, tão certa como um tiro desferido à queima-roupa que deixa-se ferida a sangrar devagarinho. Morto é agora o corpo do Profeta, esguio, só pele e osso.
E a alma camarada? Essa perdeu-se no vácuo do firmamento onde decerto vagueia atónita à procura da luz. Que dela a nortada já levou a lembrança e, vazia é a casa que te viu nascer.
Anda comigo agora companheiro. Dá-me a tua mão a quem a terra já começou a comer a carne remindo a dádiva do teu corpo doente e morto. Vem ver o que te restou desta vida feita de inutilidades. Vamos juntos à Godinha, aos Estercos e ao Castelhão. Vamos percorrer os caminhos da nossa infância. Subiremos ao bairro de horizontes belos, onde a nossa vista comovida se espalhará no rio que foi toda a nossa esperança. Anda ver agora que te sobra o tempo, como linda, como airosa se fez a nossa aldeia. Anda comigo, vamos ver a horta que cultivavas, as roseiras que plantaste com amor e com carinho tudo sentimentos que diziam não haver no teu coração duro mas onde a candura da meninice nunca deixou de viver. Ninguém sente a dor que os outros têm companheiro. Os olhos dos outros cegam-se e deixam de ver, perante tamanha miséria.
Ninguém penetrou nunca no secreto da tua alma e viram somente a rudeza aparente do teu propósito, do teu jeito sem nunca pressentiem as tuas lágrimas nocturnas quando fugias dos desesperados gritos dos teus filhos com fome. Ali na horta as tuas lágrimas em bagadas grossas regavam a terra que havia de dar sustento.
Vamos a Pedorido de Paiva que de dorido tem tudo, até nas chagas negras abertas na terra até às infinitas profundezas. De Paiva Pedorido não tem nada, é mais Arda, mais Douro que a Vila sempre lhe virou as costas. De Paiva a única recordação é o tribunal e as finanças, qualquer uma delas para castigar. Envergonhada por ter consentido tanto martírio sem um protesto, se queda agora ao abandono e à prolongada meditação.
Descansa em paz companheiro, que eu lhes avivarei as memórias, escancararei as portas da ignorância assumida e contar-lhes-ei a verdade. Eu que partilhei contigo os dias de fome de desgraça e desespero fá-lo-ei legitimado pela circunstância da tua morte que foi escandalosamente óbvia. Dorme na campa rasa, numerada apenas, onde o teu nome nunca será escrito e onde as flores nunca alegrarão a tua noite eterna.
O dia vai avançando no areio de hortos local propicio à concentração dos barcos de pesca que alinhados na margem encostados uns aos outros, toscamente pintados à mão com temas religiosos, dormem a sesta forçada. Em cada um, do lado da proa, letras de cores berrantes apelam silenciosamente à benevolência dos santos. «Senhora da Piedade», «Deus me Guarde», «Coração de Jesus» e por ai além. Pescam o sável e a lampreia no areal comunitário que os pesqueiros, espécie de promontórios erguidos com xisto nas margens do rio, onde se pode armar as Cabaceiras e os Aranhôs são propriedade da classe superior que os dá à consignação aos pescadores mediante pagamento em espécime.
Só o Sarrano um remediado de Areja, entroncado e forte de baixa estatura, goza de imunidade diplomática e pode armar os Aláres nos galheiros. Poder não pode, no entanto admite-se que os guarda-rios não tenham uma visão muito apurada e, na sua generosidade, permitam a devassa da lei.
O Serrano é uma figura singular, conta-se que uma vez foi testemunha de uma desonra feminina no tribunal de Paiva. O juiz bem tentava sacar-lhe os factos no interrogatório, mas ele não abdicava dos seus metafóricos argumentos e, a resposta era sempre a mesma como lição estudada:
- Eu ia pela vereda acima, o serradouro estava montado, que serrava, serrava mas se o serrote estava metido na madeira é que eu não sei! Manteve esta versão por quatro vezes até que impotente o juiz o mandou em paz.
Hoje os lanços não são fartos e por isso a maior parte dos pescadores, repousam estendidos na areia da praia. Só o Manel Rouxinol insiste na arte com a ajuda dos filhos em lanços após lanços em tentativas sucessivas de contrariar a sorte. E pode acontecer uma importante captura de peixes bastando que em algum momento venha a passar um cardume movidos pela natural força de desovar mais acima. São infrutíferas as tentativas da pescaria, decididamente hoje não é dia de peixe, é mais dia de enterro. O sino em badaladas perdidas no espaço, convida os viventes a uma funesta procissão. O vento suão se encarrega de desanimar a arte fazendo cavadia no rio e os barcos ancorados batem uns nos outros com pancadinhas de amor.
- É suão Manel, nem pesca nem cão!
Tratasse do Peixoto um pescador de rosto enrugado e curtido pela brisa do rio que usa uma boina preta enfiada na cabeça quase a tapar-lhe os olhos e com o cigarro forte a morrer no canto da boca. Deitado na areia a deixava passar as horas vai recordando dias passados. Foi em Março do ano passado quando lançou a rede e apanhou trezentos e vinte sáveis e doze lampreias. Foi bonito de viver esse dia. Eram tantos, tantos a saltitar que estrumavam a praia toda. Nem pesados foram. Foi olho que se venderam à Baralda de Ente – os - Rios e ao Almeida de Escamarão. Gigos e gigos de peixe vendidos a eito pelo preço de vinte e cinco tostões por cabeça. Tinha peixes bons, alguns davam bem quatro e cinco quilos cada, mas o mais deles eram fêmeas e andavam à volta dos três e dos três quilos e meio.
O pescador deixa passar o olhar pela paisagem mas nada do que mexe em seu redor consegue enxergar. Absorto no saboroso pensamento, deixa desenhar-se-lhe no rosto um largo sorriso de satisfação. Neste local o douro faz uma curva prolongada. Muito embora hoje corra seco, tem épocas em que altera radicalmente o caudal. Um enorme caroço de areia e godos toma o leito todo em frente á Penela e só do lado da Lingueta, as águas ultrapassam o cerco correndo num vertiginoso galheiro apertado e baixo. Do lado de cá, na margem direita, corre junto à Arialva onde faz uma profunda queda. Mais acima e da outra banda encosta-se às terras de Fontainhas da Raiva e, desde Gondarém até aqui, é um estreito carreiro onde penosamente corre pouca água.
Em tempos de cheia, raro é o ano em que não acontece, este rio agiganta-se e enlouquece num turbilhão de detritos e espuma. De águas barrentas e gigantescos remoinhos amarelos, sai das margens, entra em casa do Vicente no Remoinho e, na Foz, toma de assalto a bigorna da oficina da Lisboa.
Em Melres, espraia-se gordo e largo e inesperadamente cobre a Ribeira. Em Montezelo galga os muros do Gama e enche de água a loja do Ferreiro. Corre pelo largo da feira e rápido, cancela o comércio na loja do Martins Alves. São dias de desespero os dias de cheia. O povo vigia o rio de noite e de dia e, as notícias correm vindas de Entre –os - Rios:
- Já anda na venda do Toninho Alves!
É o sinal de alerta máximo que constitui verdadeiro perigo. A partir daqui, perde-se o controlo ao rio e às coisas. Na enorme corrente que faz no meio, transporta lenhas, madeiras, abóboras, pipas, bois e outros gados afogados surpreendidos a montante. As águas revoltas tomam uma cor amarelo - doirada, barrenta que deixam montões de lama nas casas que o douro ocupa sem licença. Traiçoeiro é o rio gozando da liberdade absoluta a surpreender os homens, poucas ou nenhumas alternativas lhes deixa para salvarem os bens. No entanto, crê-se que não é por mal que o faz. Estrangulado à nascença por xistos, fraguedos e granito, quer, como forma de protesto assenhorar-se do leito que conquistou há milhares de anos.
Estas enchentes imprevistas trazem benefícios às terras. Aduba os campos das ribeiras e das várzeas com os sais minerais e outros fertilizantes orgânicos que transporta. Além disso, faz a limpeza dos aluviões e outros lixos depositados nas margens. Renova as areias transportando nas correntes, sempre mais e mais, Modifica o leito, altera a paisagem e permite aos peixes migradores, uma subida sem medos.
O Douro tem razões para tal comportamento. Razões óbvias que alguns teimam em ignorar. Um dia ficará malandro, engordará, entregar-se-á à preguiça própria dos ociosos, ficará desfigurado e transfigurado e nunca mais quebrará as correntes que o vão amarrar. Não voltará a será livre e nunca mais correrá desordenado como agora por entre montes e vales. Terminarão as delícias das gentes que o utilizam para veranear e até o sável e a lampreia não voltarão ao rio deixando de haver fartura nas mesas de todos. O mais certo é voltar a matar como sempre matou. Encher-se-á de raiva esporadicamente e arrastará na sua fúria louca, tudo o que se atravessar no seu caminho. Será o prazer momentâneo de alguns e o cemitério imprevisto de muitos. Assim se cumprirá a sua sina de vida e de morte, como ontem, como hoje e como sempre.
Da banda de lá do rio no areal de Pedorido, só o Violas lança teimosamente as redes. O barquito levava-as amontoadas na proa. Uma ponta da corda fica presa em terra e, à medida que o barco avança contra a corrente, movido pela força dos remos, vai largando a armadilha engatada à corda fazendo um cerco de mais de cem metros.
A boiar na água vêm-se as rodelas de cortiça furadas a meio enfiadas no cabo do debruado das redes. A cair borda fora e afundando-se, as patelas de xisto presas na outra corda pelo furo do meio, levam a outra parte da rede a roçar no fundo.
O Wilson usa na cabeça um chapéu de feltro que não permite vislumbrar-lhe as feições e transporta aos ombros uma molhada de redes.
- Boieiro! Boieiro, gritou em forma de gozo para os camaradas. Podia ser verdade, é normal ouvir-se este chamamento nas bordas do rio. São os Barqueiros dos Rabelos do Douro que regressam do Porto depois de lá terem deixado as pipas cheias de vinho, voltam agora carregado as vazias.
Neste local, um pouco acima da queda os barcos raspam com o sargo no fundo do rio e ficam paralisados. Então, soa aquele grito de socorro:
- Boieiro!
- A resposta vem rápida, acalentada na alma do Balaído e dos filhos, que de bois cabanos à soga, respondem ao desesperado apelo. Lança-se a sirga aos barcos e, os animais enterram as patas na areia puxando frenéticos à voz do Daniel que não lhes poupa incentivos:
- Ei cabano força! Ei amarelo para a frente. Com a vara aguilhoada na mão, vai espetando os bichos no lombo o que provocava uns arranques incertos nas cordas esticadas.
Duas horas de esforço e estão safos os barcos que fundeiam um pouco ao cimo do galheiro a fazer contas e a beber uma pinga.
O sol esconde-se em Branzelo. O suão amaina e as águas do douro tranquilizam-se tomando uma cor verde azulada, o horizonte ruboresce e tinge os olhos das águas de um vermelho vivo de sangue. Uma doce melancolia invade os homens e, finalmente a noite vai descer apaziguando a terra.
Cancelos é um lugarejo da freguesia de Sebolido todo debruçado sobre o rio de onde tira a maior parte do rendimento que constitui a sobrevivência do seu povo. Não há calçadas em Cancelos. As servidões do lugar são carreiros abertos ao acaso nos fraguedos da margem do Douro. Pedregosos e inclinados, obrigam estas gentes a sacrifícios enormes para chegarem ao Outeiro das Cortes o centro do lugar.
Ninguém se safa em Cancelos, no meio desta centena e meia de habitantes, não há um com dinheiro suficiente que possa por um cego a cantar. São mais pobres que Jó todos eles. Geme-se com fome todos os dias dentro das casas xistosas e as lousas das coberturas, já não conseguem encobrir semelhante miséria. Pelas frestas onde passa o vento, saem gemidos e choros de crianças com fome misturados com berros medonhos de esposas aflitas tentando escapar às pancadas dos maridos de cabeças toldadas pelo vinho e pela vida. Estas casas rústicas conservam entre paredes, imensas histórias tristes e tenebrosas. Tantos gritos suspensos que ainda não eclodiram no espaço. Alguns ficarão calados para sempre, sem notícia, sem conhecimento, como ferida que nunca cicatrizou. Se não fosse o rio! Sim se não fosse esta corrente liquida que teima em passar por aqui, já há muito se teria desertificado este sitio.
Em casa do Simão o primeiro fio de fumo sobe da lareira. Ergue-se na humidade do ar perfumada de rosmaninho, tímido e medroso para depois alarga-se no céu e dilui-se à distância.
Da horta vem um cheiro a estrume fumegante que retirado das cortes, aguarda em pilha a hora de lastrar os regos das batatas e dos feijões. Daqui vê-se Midões e Gondarém na outra banda do rio. As casas dalém, já todas fumegam e o povo sai cedo para a lida diária. Os mais deles vão para a Vista Alegre dar o dia ao Virgílio ou ao Manel, no corte das madeiras que hão - de suster as galerias da mina.
Sobem a encosta em carreira, levando ao ombro os machados e os serrotes arcados afiados de véspera. Viajam de noite e perdem o horizonte ao entrar no vale das Fontainhas onde o Anastácio já levantado carrega o barco de sacos de carvão vegetal para levar para o Porto
- Então ao trabalho? Cumprimenta o Anastácio. E logo o Sobradelo lhe responde em modo de informação que lhe não foi pedida.
- Andamos em Fontâo na sorte do Américo!
- Tem lá bons paus! Retorque o Anastácio morto por saber mais.
- É tudo de reserva e vão pró Torrão!
- É o que quer ouvir, virou-lhe as costas e continuou a carregar o barco.
O Simão madrugador sobe Junçadelo até ao Outeiro das cortes. Chinelo nos pés, o corpo de quarenta quilos a segurar-se todo numa vara de marmeleiro pendido para a frente, dão-lhe um aspecto rocambolesco. Uma boina preta cobre-lhe a nuca e, a cara enegrecida sustenta ao centro um nariz pencudo onde por baixo espetado, aparece um bigode farfalhudo e preto. Leva nas mãos, embrulhada em papel de jornal, a sua própria dor constituída pelas roupas da Ana que agoniza no Porto tolhida pela icterícia. Já foi talhada em Branzelo mas alastrou na mesma. Está no hospital de Santo António à espera da morte, mas nem ali pode estar; vem morrer a casa por mando do médico impotente perante a doença. Traz nos olhos amarelados a certidão de óbito já assinada e pronta, só faltando colocar-lhe a data da morte. Precisa de transfusão de sangue, mas o dela é raro e caro demais para a bolsa do Simão.
Sangue venoso, Ibérico, Celta, Celtibérico, Vândalo, Suevo, Alano, Muçulmano ou Moiro. Pedrês, como pedreses são os galos do Caga – na - Marca, Lusitano, bravo, sedento de distâncias, suave como as planícies Alentejanas, agreste como as serranias de Trás - os – Montes. Lusitano por definição, como definido é o que corre nas veias das cavalgaduras de Alter do Chão. Raro e difícil de arranjar.
Chora Simão no meu peito, pedaço de pedra igual às do muro de Jerusalém onde Cristo chorou na derradeira hora. Abafa-te no escasso calor que dele emana, brando e insuficiente para aquecer as minhas próprias mágoas. Partilho-o contigo companheiro e afago os teus cabelos com estas peregrinas mãos.
Anda comigo, vamos subir a serra da Boneca até ao marco geodésico que de geo tem pouco, é mais garrafa feito de barro e pedras, mas marco também, porque marca as coordenadas da terra. De um lado, para o norte, as de Valpedre e Penafiel fartas e ricas. Do outro lado as do sul, maninho, baldio ou terras de ninguém. Lá do alto e na linha do horizonte, avistaremos o casario enevoado do Porto e poderás ver o Douro sinuoso que vem de Espanha da serra do Urbião onde nasce esmagado pelos fraguedos e ali se alarga a rabiscar por entre as serras. Chorarás então e as tuas lágrimas hão-de parecer os Penedos da Sombra a rolar pela serra abaixo abrindo-lhe regueiras profundas até se afogarem no rio.
Chora que as tuas lágrimas serão pétalas de rosa que a nortada levará consigo através do espaço e do tempo que te falta viver. Espalhadas à solta no vento, permanecerão intactas a fazer-te lembrar todos os dias as cenas do passado, cicatrizes marcadas na tua vida que ninguém jamais conseguirá apagar. Chora por tanto sacrifício, tantas lágrimas vertidas nas vossas vidas comuns terem acabado assim aos quarenta anos sem nunca terem florido.
Chora tudo companheiro que a Ana de sangue podre e canceroso se finou já.
O sol vai a pino neste dia que promete trovoadas. Lá ao fundo um comboio passa na ponte Dona Maria e faz ranger os carris e os ferros entrelaçados que sustentam a passagem.
Do chão empedrado da rua do Freixo parece sair lume tal é a força do sol a crestar os paralelos.
O Rufino desce a rua a pé trazendo no braço presa pela asa, a cesta de vime que trouxera carregada de ovos. Tinha ido levá-los a vender à padaria Corneta, ali próximo da estação do comboio, em Campanhã. É quantos haja e já lhos pagam bem, dois tostões cada um, vinte e quatro tostões a dúzia. Ora a multiplicar por seis, dá catorze escudos com quatro tostões. É bem bom. Com a outra mão apalpa o bolso das calças onde meteu as moedas. Dobra a esquina da fábrica de fundição Mário Navega e avista o barco encostado ao cais. Mais á frente, vira-se para a foz e sente na cara a força da nortada. Um folgado sorriso inunda-lhe o rosto. Apressadamente caminha para o barco onde a tripulação descansam na ré ainda exaustos. Recuperam forças para em breve fazer a viagem de regresso pelo rio acima dobrando os galheiros e contornando os caroços do meio que fazem lembrar carecas a crestar ao sol.
A ordem veio seca do arrais.
- Alar companheiros!
De um salto todos se erguem-se para começar a faina. Soltam as amarras e a Verga sobe ao Capelo do mastro. Rangem as Drinças, as Troças e a Ostaga. O Estaio estica na proa. Os Vergueiros sustentam a vela enquanto o Ougue afina também. Os Braços fincam na ré e os Mancebos e as Relingas caem a prumo. Começa a navegação de regresso interrompida logo à frente no primeiro obstáculo em Ribeira de Abade. Três saltam para fora descalços, com as calças arregaçadas. O Pereira em ceroulas esforça-se ao máximo e o Rufino dá frenético à espadela.
É penoso vê-los nesta luta titânica quando mais parecem bois cavanos a espumar da boca puxando o arado que desventra a terra.
-Alar companheiros! Grita o Rufino. Está parado!
- O Malhado responde e anui esbaforido.
- Está encavernado, aqui é muito baixo!
- Afinca-te homem. Grita o arrais.
Bem se afincam eles e a nortada que sopra e enfola as velas desfraldadas, mas em vão. Pregado ao fundo o barco mal se mexe. Rangem desesperadas as madeiras e o mastro oscila perigosamente.
É difícil a subida pelo rio acima até á Varziela. Aqui, devido ao amuntuado de fragas no meio do rio, é o cabo dos trabalhos. O douro apresenta apenas um estreito atalho onde a pouca água corre a serpentear por entre um enorme caroço não dando calado ao barco. Os três homens no limite das forças dão o máximo. A grossa corda sucada nos ombros e nas mãos fere-lhes os ombros desnudados.
Subitamente o Joaquim Correia cai sufocado. As cordas e as Drinças amainam. A Espadela ergue-se da água e mostra a nu o Paíl, a Crista e o Coração.
O barco perde velocidade e ameaça inverter a subida. O arrais grita desesperado:
- Passa a laçada, sustenta! Amaina!
As cordas fazem vergar as árvores da margem onde foram passadas sustentando aquele peso bruto a lutar contra a corrente. Os barqueiros correm a pegar nos braços o companheiro abatido.
- É a sufeca! Diz o Pereira.
- Deitem-no nos taburnos,g grita o Rufino. Espera-se que acalme!
O sol é um braseiro no meio do céu e as pedras da margem queimam os pés. O Malhado dá de beber ao Joaquim com a Escudela, mas este parece não querer vir a si.
- Tem de ir a Melres ao médico e depressa! Sentencia o Rufino.
No silêncio da tarde estalou a ordem seca do comandante.
- Alar companheiros! Soltem as cordas!
Todos se entregam novamente à gigantesca tarefa de tentar mover o monstro, fazendo das tripas coração numa tremenda luta contra o tempo. A vida foge ao Correia e eles já se aperceberam disso.
Chegam finalmente a Melres e Malhado vai a correr à farmácia onde o doutor joga dominó com o farmacêutico
- Ó senhor doutor, é o Correia, está pronto!
- Está assim tão mal? Perguntou o médico.
- Já não dá sinais de vida, é vir depressa, antes que seja tarde!
O médico vem à beira-rio. O farmacêutico deixou a farmácia de portas abertas e seguiu também levando na mão uma pequena mala com primeiros socorros. Demoraram cerca de um quarto de hora e, quando chegaram ao barco já era demasiado tarde. O Joaquim Correia era um homem moribundo. O doutor ainda o auscultou, mas foi apenas para confirmar o irremediável pois , o barqueiro finou-se ali.
O sol encobre no céu. Um trovão medonho abala os montes e a chuva cai em bagadas grossas e dispersas.
A voz do médico faz-se ouvir autoritária.
- Arranjem um lençol e levem-no para casa, faz-se de conta que morreu lá, é melhor assim!
O Rufino ainda deixou escapar um princípio de palavra, talvez um protesto, mas é logo cortado pelo doutor
- Já te disse, levem-no para casa e enterrem-no! O meu colega passa a certidão depois!
É daqui que o mal provém. A indiferença da vocação (?) perante a desgraça alheia. Já de si a morte é a suprema perda, o bastante para despertar num cão certa piedade. Hoje ela ausentou-se da arte de tratar e do coração daquele que mais que ninguém, tinha e devia de mostrar compaixão. Mas só os quatro, o Malhado, o Rufino, o Pereira e o farmacêutico, à palavra morto reagiram; tiram as boinas e descobertos, com um joelho dobrado nos taburnos do barco, benzem-se e rezam um Padre-nosso.
Chora rio doirado que aquele que te curtia as margens com os pés nus, que te afeiçoava os galheiros, que te conhecia as secretas manhãs, que te bebias as suaves madrugadas, que te deliciava os poentes, teu adversário sim, mas nunca inimigo, se quedou morto na derradeira luta. Chora por entre amieiros verdes, onde rouxinóis cantam a última canção. Depois espraia-te no mar largo e diz às gaivotas que o marinheiro vencedor do rio partiu para sempre.
O laínho contempla o rio com espírito saudoso. Tantas lembranças o assaltam nesta clara madrugada. Ajeita a velha boina remendada e permite ao pensamento peregrinar pelo passado que lhe fugiu por entre os dedos de umas mãos descarnadas. Pensa em Deus, num ser de quem sempre ouviu falar e foi presença constante nas vidas de muitos mas não na dele. Magica na possibilidade de Ele existir na realidade. Quer uma justificação plausível e imediata para a emoção que o assaltou de repente quando julgava em bom rigor nunca vir a reflectir sobre tão remota personagem.
Nunca aprendeu a rezar, afastou-se da capela talvez cedo demais para poder entender a realidade da doutrina cristã apregoada ali todos os dias pelo velho padre Manuel. Agora, depois de ter percorrido uma vida de trabalhos e canseiras, pressentindo que o fim se aproxima repentinamente, sente tristeza por não ter essa esperança de fé plantada no peito.
O Laínho é um iletrado, não sabe ler nem escrever e por isso desconhece que não é absolutamente necessário um curriculum recheado de práticas litúrgicas para se alcançar as bem - aventurança após a morte. Nem tão-pouco lhe passa pela cabeça que o reino do Céu pode estar ao seu alcance. Sabe apenas que não rezou, que não assistiu a missas e isso é bastante para se sentir um condenado às terríveis penas do inferno. Se não sabe, basta-lhe perguntar ao padre que esse sim, mandatado para educar o rebanho na rigidez da sua fé, sem favor algum, o vai elucidar acerca dos tormentos a que Deus o vai sujeitar, logo que estique o pernil. No entanto, longe de se resignar a esse destino que apesar de tudo julga merecer, deambula pelas lindezas que a vida lhe deu, pelos momentos em que julgou ter estado muito pertinho desse Deus. Sentado nesta pedra centenária, recorda as cenas que podem amansar-lhe o coração e a alma.
Lembra-se de um dia que ficou para sempre gravado no seu coração e na memória das gentes da aldeia de Rio Mau.
Foi num domingo de Julho que nasceu cedo em traços de calor.
Batiam as nove horas dessa ridente manhã no sino da capela quando a banda musical ensaiava um breve concerto no coreto situado ali no meio do largo.
O padre João perfilava as criancinhas, à frente as raparigas, logo atrás os rapazes.
Elas, vestidas com longos vestidos brancos e grinaldas nos cabelos, faziam lembrar as noivas dos lindíssimos contos de fadas. Eles, trajando a rigor, impecáveis, pareciam príncipes de contos antigos.
O céu profundamente azul a agasalhar o rio douro, estava a ser testemunha deste belo cortejo. Momento único feito de ternura, de carinho e emoção em que a alma das gentes parecia estalar no marejado dos olhos.
Bateram as e dez horas quando a banda principiou o toque da pequena marcha. De vez enquanto um foguete estoirava no azul do céu e o seu eco entoava pelas encostas dos montes mergulhadas na doçura da manhã. O sino repicava em alegria festiva, era uma melodia com sabor a pureza, o toque por que são chamados os anjos.
Alice passava, era a segunda a contar da frente. Por momentos o Laínho quedou-se nos rostos de cada um dos pequeninos que alinhavam tão graciosa procissão. Viu azuis de felicidade em cada um daqueles olhares deslumbrados e a tranquilidade dos seres inocentes e puros. Porem Alice não sorria, o rosto dela tinha-se fechado sobre a terra e era num mundo muito distante que flutuava o seu frágil pensamento. O mineiro franziu a testa porque notou naqueles olhos lindos uma imensa e profunda ausência.
A procissão entrou na capela de S. João e o padre iniciou a cerimónia:
- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...
Pela manhã fora iria ser lindo estar ali.
Mas eis que chega o momento mais solene, aquele em que o sacerdote ergue solenemente a Sagrada hóstia para celebrar a eucaristia, o instante da ceia que antecedeu a Paixão de Cristo.
- Tomai e comei todos, este é o meu corpo...
Alice fitava sem cessar a imagem da Virgem Santíssima e, naquele rosto meigo de menina bailavam duas lágrimas que lhe rolavam docemente pelas faces e depois iam cair no seu gracioso vestidinho branco. De repente pelas portas grandes da capela abertas de par – em - par, irrompeu uma pomba branca que esvoaçou ao de leve sobre os presentes e depois foi poisar no ombro de Alice. Todos se entreolharam espantados...
- Uma pomba branca, uma pomba branca?!.
Padre João surpreendido, hesitou por alguns momentos, depois continuou...
- Tomai e bebei todos este é o meu sangue, derramado por vós e pela multidão dos homens para remissão dos pecados, fazei isto em memória de mim!
A pomba levantou ligeiro voo e foi poisar no ombro da imagem da Virgem Santíssima que do altar olhava para todos com a celestial bondade dos santos.
O mineiro repara em Alice e, nos seus olhos verdes da cor do rio, nota um brilho estranho, um brilho de imensa felicidade. Pareceu-lhe então que a mão de alguma divindade estava ali firme a segurar os fios do destino.
Logo que terminou a santa missa todos regressaram às suas casas onde os esperavam as bodas próprias de tão importante ocasião. A pomba mais uma vez levantou voo e saiu da capela enquanto Alice olhava o céu azul onde ela fazia acrobacias de sonho.
À tarde, pelas seis horas após brevíssima cerimónia, saiu a procissão que percorreu as ruas da terra. Quem subia nessa hora as íngremes escadas que conduzem à capela deparava com a pomba branca poisada à beira do sino.
Do alto dessa colina via-se o rio douro tranquilo, imponente e belo no seu verde azulado. A procissão desceu as escadas depois serpenteou em cânticos ao longo da estrada. No céu, a pomba voava e acompanhava o cortejo enquanto Alice não desprendia os olhos daquela aparição. Os sinos repicavam alegres, era o fim da festa, o fim da comunhão solene.
No adro da capelinha, Alice, com o seu lenço branco rendilhado, acenava à pomba branca que partia rumo ao por do sol.
Padre João aproximou-se e abraçou a criança enquanto perguntava:
- Tanta felicidade Alice,vejo-te tão contente?!
A menina, sem tirar os olhos do poente, respondeu:
- Senhor Padre, quando erguias a hóstia do Senhor, eu rezei muito e pedi à nossa Virgem Mãe:
- Minha querida Mãe do Céu, pede ao teu filho Jesus que deixe a minha mãezinha, que ele tem no seu reino, vir aqui nem que seja um só momento, ver como estou linda neste vestido branco da minha comunhão solene que é decerto igual ao que ela usa ai nesse lugar onde está. Vês Mãe Santíssima, estão aqui todos os pais e todas as mães dos meus companheiros e companheiras só a minha é que não!
- Viu Senhor padre aquela pomba branca!? Era a minha mãezinha que Jesus mandou do Céu para estar comigo neste dia. Sou tão feliz Senhor padre!
O sacerdote apertou a criança contra o peito, lágrimas gordas brilharam no rosto daquele homem. Ajoelhou ali mesmo, ergueu os olhos ao firmamento e disse.
- Obrigado Senhor!
O mineiro, levanta a boina e coça na cabeça. Um sorriso enigmático desenha-se-lhe nos olhos, decerto esta recordação acabou de provar-lhe que afinal sabe rezar que, quem sabe, na sua hora final em que nada nem ninguém poderão valer-lhe também haja uma pomba branca para ele, enviada de um céu pela infinita misericórdia daquele Deus que sempre ignorou.
O Maneta e o Marto após longa caminhada acabam de chegar à mina e são destacados para as primeiras camada na travessa oito situadas a trezentos metros de profundidade. Sitio difícil para perfurar a terra onde o calor é tão forte vindo do carvão incandescente que quase sufoca os homens. O ar carrega-se com nuvens de tufo só sendo possível escavar aqui no máximo duas horas seguidas. Uns carregam grossos toros de pinho que levam aos ombros para as frentes afim de escorar o entulho do tecto e das laterais das marcas, assemelhando-se a formigas no transporte de alimento para o formigueiro. Outros carregam à pá os carros de mão com carvão e despejam-nos num caleiro construído em madeira, que o guia até às vagonetas. Estas os elevadores levam cheias para cima e simultaneamente trazem as vazias para baixo. Neste medonho habitat, os mineiros deixam de ser homens e transforma-se em reclusos em trabalhos forçados de cuja única diferença visível destes é a ausência de corrente a amarrar os pés. Existem todavia outras que embora escondidas, são ainda mais fortes que aquelas e os prendem a um destino fatal. De vez em quando uma lasca de pedra afiada solta-se e corta-lhes as mãos que sangram e é com urina que desinfectam as feridas e depois o pó acumulado faz o resto do curativo. Mais uma cicatriz negra para o resto da vida, mais uma marca azul, a marca do diab
As horas avançam cruéis na profundeza do subsolo, numa azáfama constante os mineiros picam a terra e acartam o carvão de lado para lado. Com as mãos negras limpam o suor das testas e a humidade, transforma-os em figuras ridículas e apalhaçadas. Rangem as madeiras dos quadros que suportam os tetos das galerias. Uns serram grossos toros de pinho e vão escorando as laterais da marca. O tufo mal os deixa respirar denso que é, por momentos deixam de se ver uns aos outros principalmente quando o carvão se desprende do tecto e rola pela perigosamente pela galeria abaixo
Hoje o trabalho está a correr bem, tudo indica ser um dia melhor que tantos outros e é grande a produção do minério. A manter-se assim acabará por dar prémio permitindo aos mineiros receber mais alguns tostões no fim do mês.. De repente a terra cede, toneladas de pedras desabam sobre a camada e sobre os dois mineiros envolvendo o ambiente em ensurdecedor estrondo. Uma nuvem de tufo abarca completamente a cena.O o pó negro fica a pairar no ar fechando a vista do encarregado que ao ouvir o estouro correu apressado desde o poço mestre, com outros mineiros. As ténues luzes dos gasómetros não conseguem rasgar semelhantes escuridão. Na alma dos companheiros desenha-se já a tragédia até que finalmente a nuvem se dissipa. O espectáculo que se lhe depara é dantesco e aterrador. As pedras negras fizeram um monte enorme e no meio desta entulheira, sobressaía a mão do Maneta crispada a sair da terra num derradeiro apelo. Do Marto nem sinal, certamente ficou enterrado mais fundo mas o fio de sangue que corre vindo do meio do carvão deixa adivinhar o sucedido. O encarregado benze-se e começa a rezar o Pai-nosso. O tempo perdeu-se nesta hora, gastou-se por encantamento. Entretanto o Pestana chegou aflito e, ao deparar com este espectáculo horrível não conseguiu conter a revolta:
-Que crime é nós cometemos para sermos tão duramente castigados!? Diga-me senhor Mota, o que foi que eles fizeram para serem sepultados vivos? Ninguém faz isto a ninguém, não há direito! Somos tratados como bichos!? Nem Deus nos ajuda, até Ele tem vergonha da gente. Abandonou-nos a esta infeliz sorte e no entanto nós rezamos. Todos os dias desfia-mos o terço a louvá-lo! Diga-me, onde é que ele se meteu hoje!? Olhe para ali, aquilo é sangue, sangue de gente, sangue humano, igual ao seu e ao dos filhos da mãe que nos governam, mas o deles não corre vermelho pela terra preta, está protegido em Lisboa pela sua camarilha, a engrossar à custa do nosso esforço. O encarregado nem sequer falou, virou as costas e foi apressado a caminho do escritório. As lágrimas correram abundantes pelo rosto do mineiro e a comoção suspende-lhe a voz. Encostou os ombros às madeiras dos quadros e chorou como um menino enquanto erguia as mãos ao céu e pedia perdão a Deus entre soluços. Mais tarde ele e o Faísca traziam debaixo do braço dois lençóis brancos em que piedosamente embrulharam os corpos dos companheiros. Do Maneta foi-se o ódio acalentado no peito prestes a brotar. Do Marto, foi-se a ignorância das coisas que lhe tocavam de perto. Mortos, enterrados vivos, desenterrados pelos camaradas, recolheram à morgue semi-nus e negros.
O poente desenha em Melres perfumes e cores matizadas. Na Lomba já fumega a chaminé do Paixão. As outras não tardarão a seguir-lhe a freima. Cozinha-se já a esperada ceia.
O Caga – na - Marca sobe a encosta e lesto chega a Moreira. Larga a saca de ganga, o gasómetro e o capacete em cima da mesa da cozinha. Abre a porta de lousa do forno e tira um naco de broa. Pega na concha de alumínio, mete-a na vasilha de barro arrumada a um canto e ela aparece cheia de azeitonas curtidas.
Broa numa mão, azeitonas na outra seguiu em direcção ao quinteiro. Come devagar, está-lhe a custar a engolir estes bocados negros. Já decidiu, não irá a Rio Mau cobrir as porcas. Fica para outra vez, não faz diferença. Elas andam cinco dias saídas e, o seu bicho está sempre pronto.
Acabadas as azeitonas e a broa, esfrega as mãos nas penas sujas das calças. Abre o cancelo que dá para a horta situada nas traseiras da casa. Ali colhe um braçado de couves e vai à corte onde está deitado o Pintado e atira-as para a pia desalentado.
O Alberto chega a casa triste e esbaforido. No banco da lareira a mulher mexe o caldo que ferve numa panela de ferro de três pernas. Magra, esbatida e desolhada, até parece que foi desenterrada. Um raio passa-lhe no pensamento; vai à sala e, deitado na cama de ferro, embrulhado num cobertor, está um rapaz ai para três quilos com uns olhitos ainda cegos a reluzir no escuro. O seu primeiro impulso é pegar-lhe ao colo. Despertara nele aquele carinho que a rudeza da vida apagara há muito. Perdeu já a lembrança do dia em que pele última vez acariciara um filho, só ralha e bate, por tudo e por nada. Não por ódio, mas toldado pela inclemência da vida, que lhe faz perder a paciência, a tolerância para com os outros, tornou-se carrasco e vítima. Descarrega desta bruta maneira a dor que o consume. Mas esta criatura ali deitada, indefesa inocente a florir para a vida, comove-o e merece dele um gesto mais ousado.
Estanca de repente. A criança é demasiado frágil para ser pegada por mãos tão calosas e negras. Olha apenas emocionado. Volta novamente à cozinha e, no lavatório de lata, passa as mãos com sabão rosa. O negro não sai completamente e depois ficam visíveis aquelas marcas azuladas, cicatrizadas que parecem mal a qualquer um. Olha-se no espelho encaixilhado e pendurado de esguelha na parede e vê reflectida a sua imagem apalhaçada e preta que o faz tremer de medo e de vergonha. Vira-se então para a mulher e diz, em modo de compensação;
- Sábado, vamos à feira a Melres.
Nesta frase, simples e sozinha estão implícitos, embora disfarçados, a ternura e as carícias que morreram no dia seguinte em que vestida de noiva a levara à capela de S. João. E o amor!? Esse nunca existiu ali. Houvera na verdade, mas não por esta mulher que carregou no ventre estes filhos todos. Por outra, de quem a última carta desbotada de letras, acendera a lareira alguns anos atrás. Morrera a ilusão definitivamente. Num gesto já sem esperança, queimara o último capítulo desse idílico romance.
Tudo acontecera à quinze anos em plena juventude quando seu coração dava largas a uma paixão desenfreada e quase louca.
Foi na Senhora das Amoras que conhecera aquela que havia de se tornar no grande e único amor da sua vida.
Era de Guirela a mocetona alta e bonita de cabelos soltos a caírem pelos ombros abaixo em cascata, com um sorriso desenhado no rosto que encantava qualquer um. Mas foi ele a ser de todos aquele a sucumbir á beleza infinita da Cristina.
Correu para lá meses a fio. Atravessava o rio nas tardes de domingo e enfiava a pé pelo monte fora até à terra da noiva. Como risonha e feliz foi essa época. Movido primeiro pela desmedida paixão, deixou-se prender todo nas garras de um amor que havia de ser eterno. Eterno! Como se alguma coisa deste mundo enganador permanecesse e vingasse aos ventos maléficos e cruéis desta vida. Assim como nascera apagou-se a chama daquela ilusão. Os pais da Cristina, abastados lavradores com criados e tudo, não podiam aceitar e, não aceitaram, a ligação da filha ao mineiro. Lembrança terrível esta! E as palavras do Sr. Arnaldo!
-Ò homem, você tem lá sustento para dar à minha filha. Ela está habituada a fartura e a vida mimosa. Vai lá agora ser criada de alguém, lavar roupa preta todos os dias e você nem para sabão ganha. A mina não é vida para ninguém, é um cemitério, trabalho de pobres e analfabetos!
- Mas!..
- Não há mas, nem meio mas, as coisas são como são e de mais a mais tenho coisa melhor em vista para a minha filha. Agradecia que desandasse daqui, ela vai para Cabeçais para uma casa farta já está tudo tratado!
Foram estas palavras ditas secas que o encheram de vergonha e de raiva. O último adeus ao seu amor, foi feito ali do caminho virado para a janela num acenar de mãos trémulas. Tudo se perdera naquele instante, desabou o teto do mundo e esmagou-lhe o coração. Moeu aquilo pelo caminho de regresso a casa. Vergado ao sofrimento maior do ser humano, arrastou consigo um tormento indizivel e uma alma pura dilacerada e quase morta. Como dói ainda essa lembrança. Remexeu nas cinzas do passado e encontrou ainda um brando lume teimoso em se extinguir, talvez aquele que a última carta acendera. O que vale a vida perante esse momento de elevação suprema, reprimida e deixada desde então ao sabor do acaso!? Nada, apenas o mesmo que vale a existência de um cão vadio que conhecera o dono e fora abandonado por ele. Pobre Alberto, sabe-se lá qual foi a dimensão do teu crime primeiro, que te sujeitou a tamanho castigo. Inocente de alma, desconhecedor dos progressos do mundo, desconhecias quão efémeras são as paixões da juventude. Mal desabrocham, indefesas perante as muitas contrariedades, logo murcham como belas e delicadas rosas.
Como apareceu também se abafou o sentimento repentino. Fechou-se novamente a porta do sacrário da sua alma. Quis voar por instantes, mostrar num afeiçoado gesto de carinho e de ternura, sentimentos que reprimia no peito há muitos anos e que por breves instantes ultrapassaram sem ele querer, as barreiras da mudez assumida. Sente ainda uma necessidade imperiosa de recordar. Falta-lhe a última lembrança desse amor, a tragédia que lhe ensombra a vida desde então e que ainda lhe dói e muito na carne.
Nesse dia a Cristina ouvira tudo em silêncio. Do pai já esperava aquilo, da vida muita e muita felicidade. Ruiu naquele instante todo o projecto de futuro. Enlutou-se-lhe o coração. De alma já prometida ao mineiro, nunca haveria de trair aquele amor fatal.
Foi um Domingo pela madrugada enquanto o povoado ainda dormia. Foi à arca da mãe e, do enxoval guardado ali desde o casamento, tirou o vestido de noiva antigo e branco e vestiu-se com ele. Na cabeça colocou uma grinalda de flores, malmequeres presos a um pequeno véu e, assim preparada saiu de casa. Percorreu descalça os caminhos da terra, aqueles que lhe traziam maior recordação. Depois foi sentar-se na pedra da mó, local onde aos domingos trocava juras de amor com o Alberto. O dia nasceu por entre as badaladas do sino a convidar para a missa, ao mesmo tempo, a Cristina, lançava-se em voo do penedo da águia. Toda a aldeia a procurou aflita e, pelo meio-dia o povo viu ao fundo da ravina o corpo despedaçado da jovem rapariga. Ao vento balouçava a fita dos cabelos, o vestido branco perdera a alvura e transformara-se numa mancha escarlate.
A aldeia chorou como nunca o fizera por ninguém e, há quem diga que naquele local onde nasceu uma roseira brava, quando a brisa sopra mais intensa se ouvem sons que parecem gemidos de uma mulher. Uns dizem que é o rio Arda a bater nas pedras, outros que é o vento nos fraguedos e, muitos outros dizem serem suspiros da noiva infeliz. Ao certo ninguém sabe, mas a verdade é que se chora naquele local ainda hoje.
A dura realidade sobrepõe-se ao bater do coração. Enfia a boina na cabeça. Pára na soleira de lousa da porta. Puxa do bolso o atado dos cigarros fortes, acende um com as mãos negras e vacilantes. Grossas nuvens de fumo envolvem-lhe a cara ocultando duas lágrimas que rolam desesperadas pelas faces negras de carvão abrindo dois regos paralelos.
Foi preciso muito para o mineiro chorar, nem a rudeza e as inclemências da funesta existência, a perda do seu grande amor o conseguiram, mas a visão destes olhitos frágeis e sem futuro à procurar de luz, humedece e rega os seus olhos verdes.
O Milheira vai apanhar o caminho da Póvoa à beira da carpintaria. O Jolim enroscado na berma abana o rabo alegremente a olhar o mineiro com os olhos tristes.
- Anda Jolim, anda pequenino! Nada, o bicho olha para baixo e não arreda pé.
- Anda Jolim! Não vale a pena, o animal cumpre à risca o mandato do Marto e só avançará à voz do dono. Enroscou-se novamente e meteu o focinho no meio das patas da frente e ficou à espera.
O Milheira vai já a desaparecer na primeira curva e mais uma vez se volta para trás insistindo.
- Anda Jolim! O eco da sua voz perde-se por entre o barulho medonho da lavaria sem cumprir os objectivos pretendidos. Continua a marcha vergado ao peso da notícia que transporta.
- O Marto morreu.
Na ponte do Ínha volta-se e olha para trás, parece-lhe ouvir os passos do companheiro nas tábuas rangentes da ponte. Puro engano, é o vento a agitar com força os salgueiros da margem. Começa a subir o monte e a pensar, sempre a pensar. Como é que iria enfrentar a Chica, a Rosalina e o bando de filhos do amigo, sentados à espera na parede do grilo!?
Angustiado segue lento, tão lento contrastando com as apressadas batidas do seu coração inquieto, atónito e desorientado. Não será preciso que o Milheira fale. A notícia não vai no seu coração, esse leva a dor e o sofrimento. A notícia vai nos seus olhos espantados, escrita com lágrima, e é clara como clara fora a madrugada que os trouxera a Germunde. Não faz diferença que não fale, que a voz se lhe embargue na garganta, presa e comovida, bastará um olhar silencioso e todos compreenderão. Morreu o Marto súbita e precocemente, ignorante das coisas que o rodeavam, das angústias da Chica e das negruras das noites da Rosalina. Morreu sem saber que a sua morte decidirá a vida do neto que não iria conhecer nunca.
O cão esperou pela noite fora, deitado, enroscado no pó negro, sem comer nem beber por dias a fio. De vez em quando dava uma volta por ali, mas a força do seu instinto dizia-lhe que não podia avançar mais. Impaciente girava de um lado para o outro sempre à espera do Marto. Desanimado, voltava ao sono que haveria de ser eterno. O Lesmia passou por lá como de costume e sorrateiramente aproximou-se no propósito de lhe espetar dois pontapés mas, ao constatar a morte do animal, estacou de repente. Ninguém bate num cão morto. Um sorriso cínico atravessou-lhe o rosto. Virou as costas e subiu feliz e certo de que a partir de agora só ele era fiel ao patrão.
Pela manhã o Milheira piedosamente, com a mesma pá que enchia o carvão, cobriu o seu corpo morto com entulho.
Findou assim a fidelidade ao dono. Nove anos de dedicação total pedindo em troca restos de broa e algumas carícias. Deixou de saltar alegre à frente do mineiro e, de Barca de Alva e das perdizes, já nem recordação guardava. Cumpriu até ao fim a sua missão. Morreu no seu posto como um soldado, firme sem arredar pé, à espera do Marto, indiferente a tudo, até à própria morte.
Na margem esquerda, os que vão para norte, param nas Concas no tasco do Alfredo onde a Silvina, frita sardinhas e peixes do rio.
Os mineiros tiram os restos de broa das sacas de ganga e molham o bico com vinho palhete produzido e engarrafado na rua Justino Teixeira no Porto.
O Rã também parou no tasco das Concas. Encostou-se ao balcão, atirou o capacete para o alto da cabeça e pediu um quartilho maduro branco.
- Não vai uma bucha!?
Perguntou o Alfredo com o prato das sardinhas na mão. São gordas e são boas, parecem bifes!
Palavra que tu disseste.
- Ó senhor Alfredo, se o senhor é meu amigo nunca mais me fale em bifes.
O Alfredo fica pasmado.
- Homessa! O que é que lhe deu agora? Vá lá a gente entender esta malta!
Malta sim, este por acaso não era desses, mas são os companheiros que vivem no Choupelo na casa da malta. Boas rolhas, sempre a deitarem pó de carboneto e a mijar no castanheiro que acabou por secar. Falam para um homem como se tivessem o rei na barriga...
- Parece que vem mal disposto, voltou o Alfredo.
- Ó homem bote mais meio e deixe-me em paz, se elas são assim tão boas coma-as você, que lhe façam bom proveito!
O Alfredo tem razão. As sardinhas são de facto boas e gordas. Deitam um cheirinho a fervilhar no tacho que apetece comê-las todas. Porem, o Rã não as quer por razões que escapam ao taberneiro. Bem sabe ele que são um petisco, mas na sua garganta não passam sólidos, só líquidos e de preferência com muito álcool, afim de lhe tolher o cérebro rapidamente. Embebedar-se e pronto, lá se diluiriam as recordações pelo menos até amanhã.
Amargurado bebe quartilho, atrás de quartilho. Por entre as goladas do vinho relâmpagos de lucidez cortam-lhe o pensamento a ficar toldado. Um sorriso besta aflora-lhe à cara e, a seguir soluça em pranto inconsciente. Tomba de lado em cima dos sacos da farinha, levanta-se a custo e faz gesto sem significado que morrem sem razão de ser. A voz torna-se-lhe rouca e imperceptível, é mais um roncar do que outra coisa. Os olhos minguam e adquirem um tom avermelhado escondidos na máscara de pó negro. Parece um palhaço, um espantalho caído no lameiro derrubado por violenta tempestade. Apanha restos de conversas que pairam no ar e tenta dizer qualquer coisa, mas a voz já se lhe morreu na garganta. A expressão do rosto é ridícula e grotesca. Já não é um homem, um mineiro, não é nada.
Finalmente o maduro abateu-o e caiu varado no chão de cimento.
Pela noite, o Alfredo num gesto amigo, pega-lhe num braço e arrasta-o para a palha do armazém em frente onde ficou num roncadoiro infernal, mais morto que vivo a curtir a monumental bebedeira e o remorso que permanentemente lhe vai consumindo a alma.
O Isidro Sardão atravessou o rio e meteu ao cimo por caminhos tortuosos que diversificados atravessam a serra da Boneca de e lés a lés e se perdem nas distancias de Cabroelo e de Valpedre.
No alto, mesmo no ponto onde o terreno se torna mais plano e é escassa a vegetação florestal e os montes são limpos e só atapetados de chamiça, quiró e carqueja, parou a contemplar o horizonte vermelho alcançável como se ali procurasse algo que perdera há muito tempo mas que permanece na mente a perturbá-lo de forma constante e a faze-lo estancar como um soldado à voz do comando, sempre que por aqui passa. Vislumbrou lá ao fundo do extensíssimo vale mergulhado num maravilhoso entardecer, o rio Douro a desaparecer nos labirintos de Melres imponente como um rei a marcar a solidez do seu domínio absoluto.
Recomeçou a marcha interrompida, passou por baixo da capela solitária de S. Pedro e continuou a caminhar até ao Loureiro e ali na encruzilhada, pensou em seguir em frente até à Fonte que Ferve mas, sem saber bem porquê, virou à esquerda direito a Vilarinho do Monte lugar que mergulhado nas últimas tarefas do dia, nem deu pela sua chegada.
Em Moreira de Melres onde há três horas atravessou o rio vindo de Germunde, bem podia ter encurtado caminho seguindo a Sobrido e ali virar na direcção de Aguiar de Sousa e caminhar até Alvre onde atravessaria a frágil ponte sobre o Rio Sousa e correria na direcção de Santa Comba e dali seria um pulo até Lagares, mais precisamente até S. Julião sua terra de origem onde o esperavam já a mulher e os dois filhos. Porém, as manhas da sua engrenagem corporal morada de todas interdições e de todas as liberdades, são muitas e têm de ser saciadas mesmo que para isso tenha de alterar completamente a aconselhável trajectória da vida; ele bem sabia que economizaria caminho e dificuldades mas é sempre difícil resistir aos apelos do cio que o têm transformado num autêntico cão rafeiro atrás de cadela à queira.
O Isidro anda apaixonado há muitos anos e, essa paixão que transformou em ampliação quase cega do amor, fê-lo perder a individualidade, esquecer as obrigações e os deveres e ceder sem pensar ao fascínio que uma mulher exerce sobre ele.
Há fortes motivos para seguir este itinerário custoso que provoca sucessivos arranques de esforço a trepar a serra desgastando o buxo e as pernas que vacilam e parecem desfalecer nas costeiras mais íngremes. Os seres apaixonados imitem ondas ultra sónicas que se espalham pelos ares subindo serras, descendo aos vales mais profundos como as radiofónicas da Emissora Nacional e são recebidas lá longe no receptor sintonizado na mesma frequência. A razão tem razões que a própria razão desconhece, assim, movido por um sentimento que não consegue controlar, deixa-se envolver no enredo do que julga ser amor num rosário de anos perdidos num namoro que sabe de antemão, nunca virá a ter futuro. No entanto mantêm acesa a labareda da esperança que lhe causa dor e sofrimento misturados com muitas arrelias mas constitui também a razão única para se manter vivo, esmourando no degredo do Pejão como uma toupeira, transformado num farrapo humano sempre pintado de negro a cavar carvão nas profundidades da terra.
Pouco ou nada lhe resta de consolo e apenas se lhe mantêm viva a doentia esperança dos loucos que nunca se convencem que o futuro para eles é só uma miragem e que nada nem ninguém os poderão salvar das maldosas combinações deste mundo. O Isidro não está sozinho nesta via – sacra, são tantos a padecer destes indesejáveis tormentos pelas mais diversas razões, que chega a parecer impossível o mundo acertar o compasso dos dias sem qualquer alteração. Decerto o planeta inteiro não sabe nem quer saber das angústias dos seus habitantes. Todos os dias o sol nasce desinteressado de tudo o que ilumina e mexe cá em baixo como a dizer aos seres vivos que lhe é completamente indiferente as formas que adoptaram para sobreviver.
É pois uma questão de equidade e justiça duas coisas que por acarretarem deveres, poucos ou nenhuns conhecem. Nasce-se já desgraçado nestas miseráveis terras; o dulcíssimo pão – de – ló se é que por ventura existiu aqui, já há muito foi abarbatado pelos espertalhões perpétuos que vão passando o testemunho da rapinice de geração em geração e, só mato, carquejas, tojos e chamiças sobraram para o resto do povo comer.
À entrada de Cabroelo onde se avista a capela do santo padroeiro estacou de repente. Num campo que dá margem ao caminho, a Maria Rosa cegava erva de cócoras, mostrando um pouco da brancura das coxas. Dava-lhe certo jeito aquele propósito; arregaçava a saia para trabalhar mais à vontade e demais a mais não passava por ali ninguém àquelas horas e mesmo a outras com o dia bem alto, nem uma alma penada cruzaria estes caminhos ermos.
O mineiro ajeitou-se para a junto da parede, colocou uma perna em cima das pedras de xisto e botou faladura:
-Então a lidar a esta hora Rosa!?
-Tem de ser, os bois também são gente, ninguém os cala com fome! Respondeu ela suspirando à óbvia interpelação do Isidro.
Fome, e talvez sede da juventude do corpo a denúnciar calor em cada palavra que a sua boca quente pronunciava. A voz tremeu-lhe e a mão que empunhava a alfaia da cega.
- Ò Gracinha parece tão cansada, não quer vossemecê vir descansar um bocado aqui na borda do campo? Perguntou o mineiro.
Já ardia uma espécie de lume por todo o corpo do Isidro. Aquele ardor aparecia sempre a perturbá-lo quando via a cachopa como se todo o organismo reclamasse a dádiva dum beijo que amenizasse o lume aceso que o andava a assar por dentro há muitos anos e só em raros momentos como este tinha manifesta e necessária acalmia.
Não fora a teimosia dos pais da rapariga em permitir o enlace e teriam selado as suas vidas ali à frente na capela de S. Mateus. Porém a sorte ditou outra coisa, outro rumo que o fez definir diferentes estratégias mas que nunca conseguiram varrer por completo esta paixão.
Ela caminhou ao encontro dele, podera, o que é bom ou é pecado ou engorda e assim sendo vale sempre a pena arriscar. Corada de foucinha na mão esquerda e com a outra a limpar a testa suada, como quem se vai submeter a um castigo que apesar de tudo sabe ser consolo e redenção, era então um anjo a subir ao céu dos seus desejos. No brilho de uns olhos profundamente azuis, trazia a mensagem que todo o seu corpo também ansioso andava a redigir em espasmos nocturnos sem que ninguém conhecesse o bálsamo capaz de aliviar aquele corpo minado por tão intensos anseios. Foram uns minutos de colossal paixão em que as bocas se colaram num delírio inflamado em ao mesmo tempo as mãos do Isidro procuravam aflitas os secretos e sensuais recantos do corpo daquela mulher ainda formosa que tinha sido a sua primeira paixão, enquanto a marmita se lhe desprendia da cinta e rolava aos saltos pela borda do lameiro e ia cair como morta no rego que leva a água para a Bouça.
Foi um relâmpago, qualquer coisa violenta que nem um nem outro poderão nunca explicar. Realidades adúlteras que sucedem assim de repente sem cálculo, sem premeditação como erupção vulcânica, ou apelo dramático da terra que quer fazer justiçam redigindo a direito as escritas que os humanos complicam, ou sabe-se lá o quê.
Tudo acabou num instante; os dois já de pé, pareciam ignorar completamente o ocorrido de quem só a natureza inteira foi testemunha silenciosa.
- Então até amanhã. Disse o Isidro enquanto abotoava a portinhola das calças. -Vá com Deus homem! Respondeu a Rosa a quem a cor dos olhos se tinha tornado mais clara e mais brilhante, ajeitando a engelhada saia de roda.
-Diga ao seu paizinho que lhe fico com o toiro. Disse o Isidro pendurando à cinta a marmita do caldo.
Reiniciou a marcha interrompida, meteu na direcção do Outeiro da Velha, desceu a Lenteiros e subiu a Bouça, ao cimo da costeira a sua magra figura, desenhou-se no horizonte vermelho, indecifrável.
Os melros chilreavam aflitos à procura de guarida enquanto a Maria Rosa, muito de vagar acamava e enchia o gingo com paveias de erva, ciente de que os bois já não tinham fome.
- Tira-lhe os olhos. Chega-lhe a roupa ao pelo. Parte esse estupor, essa besta de merda. Dá-lhe com a caneca!..
É o Bicha-cadela para o Concertina. Incita à luta movido por ódios antigos que nem sempre foi incapaz de concretizar transformando-os em pancada. Hoje por obra do acaso, dispõe do meio para atingir os malvados fins. Pegas antigas, guardadas dentro do peito tempos indeterminados, contidas por necessidade e pela incapacidade da força do corpo que já se esgotou no trabalho dos barcos Rabões. Reformado e velho, arrasta ainda aquele corpo torcido, alquebrado e doente, morada do reumatismo mas albergue de queixas e ódios sem limites.
No tédio dos dias, ele e muitos outros, vêm para a venda do Cunha transformar o sitio numa espécie de lar da terceira idade. Uns afogam as horas em canecas de verde tinto, outros dissertam pintando o tempo ora de cores sinistras, ora de formosura inigualável.
Histórias intermináveis são contadas e saboreadas pelos dias fora. Começadas parecem formar sentido até que lhes perdem o fio e engatam noutras sem pés nem cabeça. Qualquer presente desconhecedor do fenómeno, às páginas tantas, fica sem saber de que terra é. Confusos, estranhos e malabaristas são eles e as conversas. Desarranjados da mente pelo diário e avantajado consumo de álcool, falam, falam sem dizer coisa com coisa. Muitas vezes se desentendem no comungar do mesmo pão da demência efémera. Então, como gatos no mesmo saco, enraivecem-se e dos instintos sai a ferver o ódio dissimulado e disfarçado a custo. Tudo é pouco claro nesses momentos de fúria. O beijo colectivo na caneca de asa dá lugar ao nojo destas bocas porcas. E lá vêm as pragas infernais, injúrias despropositadas, ofensas diversas a todos e a tudo.
- Á seu filho da p!...Hoje é que vais morrer cabrão! A tua mulher a dá-lo no areio, e tu aqui armado em cão com pulgas!. Tens comichões!? Eu tiro-tas meu bandalho! Racho-te os cornos a meio e faço-te em pantanas num instante!
No decorrer da contenda sai tudo e de tudo. As ofensas são o menos, repetidas que são dia sim dia não, já há muito perderam o real significado. Pior é a ousadia do desafio à porrada. Está tudo muito bem, mas isso não tem, nem fica sem perdão. Activa-se a pancadaria nas costas, murros na cara que põem os olhos de quem acertam avermelhados em volta e mais tarde pisados e negros. De vez em quando se a luta teima em persistir, suge a tranca de ferro empunhada pelo Cunha a restabelecer a paz. E restabelece.
- Ó Pinto, esteja ai quieto nesse canto, você não é para aqui chamado, ouviu!?
É o Afonso, o regedor advertindo o Pinto que procura a pistola que traz à cinta que de velha e ferrugenta, já não dá tiros nem assusta ninguém.
- Vai já fogo! Mato dois ou três num instante! São todos meus inimigos!...
- Esteja mas é calado homem! Se você em vez dessa merda trouxesse ai à cinta um ou dois salpicões, não lhe faltavam amigos, ora assim!?
Uns minutos de silêncio sucedem-se à bulha, mas soçobram logo na voz do Muge:
- Ó Sr. Cunha, bote aqui mais um. É a senha, o anjo mensageiro da tranquilidade. A caneca de asa de folheta circula novamente no recolher dos beijos tintos de todos eles.
As mulheres acocoradas ao longo das escada do Cipriano, vão-se afligindo durante as bulhas e, molhando o bico de vez em quando às escondidas dos homens. A noite restabelece a paz. E os galos cantam em diferentes lados. Os fumos das lareiras, convidam às ceias antecipadas da reza do terço. A partir daqui, entregam-se à Providência Divina de alma e coração.
O Pestana não parou no tasco. Seguiu a direito pela linha da máquina na borda do rio Arda até ao lugar da Estação continuou até Oliveira do Arda. Leva no cansaço das pernas uma outra carga de mágoa e amargura. De vez em quando passa o lenço tabaqueiro na testa a enxugar as grossas gotas de suor que lhe escorrem para os olhos e o impedem de ver claramente. Estacou por instantes na íngreme subida e, os seus olhos molhados, perscrutam o horizonte inquieto. Tudo é difícil de entender para o Pestana, por mais que dê voltas à cabeça, nunca conseguirá explicação ou consolo para o tormento da angústia que lhe inunda o peito. Tudo se passou de repente como se por magia, como se na verdade tivesse sido apenas um sonho. As repetidas paragens do caminho não são mais que tentativas de encontrar a realidade que lhe foge há umas horas. Olha o horizonte como se procurasse as silhuetas ou os passos dos companheiros perdidos. Tudo em vão, que ao fundo do vale só corre o rio Arda silencioso e, no céu apenas algumas nuvens matizam um azul permanente. Está de facto sozinho, fora então verdade a tragédia que teimava em admitir. Se nada o consegue retirar do sonho, basta-lhe dar ouvidos às badaladas do sino de Pedorido. Esse diz tudo claramente, não se sabe quem, mas fica-se a saber que morreu gente.
Avança de novo na costeira e ao suor da testa juntam-se-lhe umas poucas de lágrimas que rebeldes lhe saltam dos olhos encovados. Já vai a passar em frente ao hospital quando lhe parece ouvir um recado trazido no som da ligeira brisa:
- Pára camarada. Entra na morgue onde jazem em pedra fria os teus irmãos. Ordena-lhes em nome do Deus que lhes estendeu os braços da libertação, que se levantem do leito da morte. Pede-lhes as mãos lívidas agora. Diz-lhes que não receiem, que venham, que não se envergonhem da condição de mortos, que morto também foi Cristo e ressuscitou. Tira-os dali antes que os médicos lhes cortem a carne e lhes serrem os ossos à procura das causas da morte que foi óbvia. Não os deixes escrever na folha, morte natural por que isso é mentira, tu sabes que é mentira.
Leva-os contigo e sobe com eles de mãos dadas ao alto de S. Domingos. Mostra-lhes a paisagem que ignoraram em vida, o arda a beijar o douro, as terras do Porto e de Gaia onde se vive melhor prostradas à vossa frente. Escutai a Banda dos Mineiros do Pejão formada pelos vossos camaradas, a entoar no coreto uma marcha triunfal. Senti o arraial pejado de gente que pelas fraldas da serra se delicia com farnéis trazidos de longe.
A seguir a Banda vai tocar o 1812 a magnifica e longa sinfonia musical de Tchaikovsky, com rigor com perfeição como só ela é capaz. Nenhum de nós há-de lá estar para ouvir. Tu Pestana, de um salto estarás em casa, em Serradelo que é já ali; eles abraçados subirão ao céu que é perto, por detrás daquelas nuvens que vêm dos lados da Serra da Freita; eu descerei os carreiros da serra que me vão perguntar pelo Maneta, num pulo estarei na Senhora das Amoras; chegarei ao Choupal a Pedorido; atravessarei o douro até ao cais do Remoinho; subirei a calçada íngreme e vou sentir nas ruas de Rio Mau o cheiro das sardinhas assadas; ouvirei rezar o terço dentro de todas as casas, a oração dos pobres, o apelo àqueles que julgam ser os únicos a poder salvá-los. Deixarei a noite fechar-se sobre mim, sobre a terra que me viu nascer. Deixarei os corpos dos mineiros, esgotados, doentes de alma infinitamente sofredores, tombarem nas enxergas das camas de ferro coroa – de - rei de enxergas de palha, descansarem enfim, adormecerem e sonharem com uma risonha Primavera que traga consigo um futuro melhor.
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