quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bombeiro

A mão direita recusa-se a acompanhar o metro e oitenta de flacidez deste corpo outrora admirável.
A mão e a perna do mesmo lado, inactivas, desarmadas e mortas perante as necessidades do tempo de vida que ainda lhe falta viver, rejeitam as gloriosas marchas de outros tempos. A voz essa secou-se e emudeceu na garganta como se um pavoroso incêndio lhe tivesse queimado as cordas vocais.
Não fala, não consegue falar mas aqueles olhos grandes perscrutam o espaço que tem pela frente aflitos, e como se fossem dois potentes altifalantes que falassem por eles, vão deambulado pela terra como emissários das coisas fantásticas que passaram por eles.
Já não comanda as forças que devastavam o inferno em que se transformavam as casas e as serras em redor nem a sua voz firme ordena as estratégias de combate a tão traiçoeiro inimigo que deflagrava inesperadamente espalhando terror, dor e sofrimento. Lembra-se, lembra-se sempre dos braseiros terríveis, do clamor das chamas que nunca recusou combater mesmo a troco de nada apenas por solidariedade e porque num gesto responsável o jurou um dia fazer.
Os olhos atentos desse tempo deram lugar a duas lanternas foscas e difusas que ainda gritam de revolta em cada amanhecer.
Encosta-se ao varandim do cais e tem no horizonte imediato a paisagem que conheceu e sempre admirou e amou desde a nascença. O douro corre-lhe nas veias e moldou-lhe este carácter invencível de guerreiro. De vez em quando a cortar este silêncio prolongado, soa o agudo som da sirene do quartel que comandou.
-É fogo! É acidente!
Como se impulsionado por uma mola invisível ele, a quem as forças do corpo já abandonaram há muito, salta perturbado e parece que vai em aflição correr caminho fora apresentar-se ainda voluntário no quartel a responder ao lancinante apelo. Só a alma deste homem se inquieta e sofre mas o corpo alquebrado, negou-se mais uma vez a acompanhar a desprendida solidariedade que sentiu e sente sempre que aquele som ecoa pela terra.
Vejo lágrimas nos olhos do velho soldado, lágrimas gordas que lhe rolam pelas faces enrugadas e vão secar ali; compreendo a sua dor a sua aflição e comovo-me tanto por saber da indiferença do mundo perante tamanha e voluntária servidão.
Foram-se os anos, foi-se a dinâmica juventude que lhe permitiu correr por montes e vales de machado ou mangueira em punho em defesa daquilo que nem seu era mas sabia ser seu dever preservar, e também a companheira aquela que foi o seu amor. Foi-se tudo arrastado no vendaval da vida que o deixou solitário e triste.
Olha a confluência dos dois rios com o olhar preso num infinito que mais ninguém conhece como um louco que espera o navio da sua mocidade que trouxesse as figuras queridas do passado, os amores da juventude, as noites de vigília, o horror dos montes em inferno vivo e atracasse neste cais perdido do Douro só para lhe devolver a força e o vigor de antigamente.
Tudo é silencio agora; o apelo calou-se e já se perderam ao longe os sons estridentes das sirenes das auto-bombas dos camaradas que se fizeram à luta exactamente como no passado, como no seu tempo. Todas as lembranças pairam na mente angustiada do velho Comandante. O tempo, esse maldito carrasco que nos transforma em farrapos físicos, jamais terá dele a desistência a rendição. Luta ainda como o fizera dantes agarrado às cinzas do fogo dos anos que lhe queimaram a vida e o deixaram prostrado a sofrer os tormentos da velhice.
Bombeiro!
Foi o pai quem lhe ditou semelhante sina ao oferecer-lhe como prenda de anos aquele carrinho de folheta vermelho a imitar o real. Brincou com ele inocentemente a fingir que acudia aos fogos que socorria as desgraças de todo o mundo. Esse carrinho de lata que ainda conserva nas relíquias da sua meninice marcou-o como ferro em brasa que deixasse estigma definitiva e irreparável na sua longa historia e, definiu um processo tão deslumbrante que só a amaldiçoada trombose foi capaz de parar.
Nenhum navio chegará para atracar neste cais deserto, não há qualquer embarcação algures no horizonte mas se chegar, não trará certamente o esplendor de antigamente que consolasse e fizesse feliz este valente e heróico soldado da paz.

2 comentários:

Luís Coelho disse...

Uma pintura de traços e pedaços da vida de pessoas que já não conseguem dizer de quanto fizeram e daquilo que ainda gostariam de fazer.
Uma pintura inacabada, porque nos é de todo impossível entrar nessas almas vivas. Ficamos apenas com o olhar generoso e atento de tanto que ainda gostariam de fazer.
A vida de todos nós é como as águas do Douro que passam sempre a correr e nunca mais passam pelo mesmo sítio.
Bela homenagem, escrita com encanto e muita ternura.

Piko disse...

Um país como o nosso necessita destes cidadãos abnegados como do pão para a boca e não é bombeiro quem quer!... Não temos explicação e não conseguimos perceber a dimensão humana desta gente anónima, que parece desprezar a sua vida e a família para dedicar grande parte das suas vidas no combate a incêndios ou a acidentes de todo o tipo em que não há escolha possível...
Poderá acontecer, um ou outro caso, em que um ser humano procura algum protagonismo e terá "descoberto" que poderia ser numa qualquer corporação de bombeiros, mas a esmagadora maioria nem lhes passa pela cabeça tal "façanha" e entrega-se com toda a dignidade a uma das causas mais nobres, e, que só um imbecil não conseguirá ver!
Devo confessar, que me sinto pequenino e até diminuido quando vejo a entrega destes homens e mulheres, muitos deles jovens, numa prova de que em todas as épocas a juventude é e será o futuro!
Muitos parabéns ao M. Cunha por nos trazer uma boa história e um tema tão actual!
PIKÓ