quarta-feira, 22 de novembro de 2006

MATANÇA DO PORCO


O centro de Rio Mau é o lugar da Torre de ruas estreitas e calcetadas a paralelos desgastados pelo uso, que confluem num pequeno largo, estende-se desde a foz do rio de quem recebeu a alcunha, até lá acima a Paradela sempre na margem direita do Douro. O aglomerado maior da aldeia tem ali o coração. Aqui neste pequeno recanto encravado entre o Douro e a serra da Boneca a manhã despontou é já uma andorinha madrugadora quando do quinteiro do ti Salvador se ouvem grunhidos desesperados de um porco a adivinhar as torturas da morte. Bicho graúdo aproximando-se de umas quinze arrobas, debate-se em vão contra a força de dois homens que o arrastam da corte, movidos por instintos de sobrevivência.
É dia de matança extraordinária que a época própria já vai longe. Porém, este teve de aguardar em quarentena devido ao mal rubro de que padeceu, foi primeiro preciso esperar que sarasse completamente e saíssem aquelas manchas vermelhas do coiro. No centro do logradouro um carro de bois com um buraco na extremidade da cabeçalha onde normalmente se espetava um fogueiro, aguarda orvalhado o animal. O Capa Gatos com uma guita ensebada e tesa, laça-o pelo maxilar superior puxando à frente enquanto o Seca Adegas agarrado ao rabo o empurra também. Cá fora é aguardado por mais dois homens, o Molho Verde e o Esfola Cabras, que o vão lançar deitado em cima da improvisada mesa funerária. O tio Henrique arregaça as mangas ao mesmo tempo que empunha uma comprida faca de aço com cabo de madeira. A Rosa Guitarra deita-lhe água quente nas mãos e de seguida aguardente desinfectando-as das possíveis maleitas. O matador passa a faca nas costas de uma telha afinando o aparelho que depois espeta no peito do animal mais ou menos na direcção do coração. O sangue corre viscoso e fumegante e vai caindo num alguidar de barro onde previamente a Rosalina Raposa deitou vinho tinto, sal e alho partido. Uma colher de pau vai mexendo a rubra mistura que daí a pouco se transformará em sarrabulho. As mãos grossas dos homens parecem tenazes a apertar as patas e só vão afrouxar ao último estremecimento do animal.
Consumada a impiedosa tarefa da matança, fazem uma ligeira pausa e a garrafa do bagaço passa de mão em mão aflita e desarrolhada:
-Bicho graúdo! Diz o Capa Gatos a esfregar a testa suada.
-É governo para duas casas, fartura assim nunca se viu! Diz o Seca Adegas! Vai chegar às quinze um pouco mais ou menos!
Uns molhos de palhas são acesos e procede-se à queima e esfolamento do bicho com facas raspando a pele embolada pelo fogo. O porco adquire uma cor de tição, preto como um carvão, mas a água a ferver e bocados de telha com as quais os homens esfregam, dão-lhe um aspecto amarelado e semi limpo. Terminada esta operação começa a preparação dos restos mortais do suíno. O Henrique com a faca agora mais afiada pela telha, corta-lhe as orelhas ao meio até trás e os homens lavam-nas esfregando as duas partes uma contra a outra enquanto a água as vai regando abundantemente. A boca é rasgada até às orelhas, a língua é despegada da garganta e fica de fora a pender do cato da enorme bocarra. Terminada a frente do animal passam para trás. O ânus é separado com um corte circunferencial. As patas são furadas por altura do tornozelo e é enfiado um pau que será o suporte no acto do levantar do porco. Içado na loja ladrilhada de cabeça para baixo, procede-se ao abrir da barriga do animal.
Um corte longitudinal a começar entre pernas de trás até ao peito, põe à vista um bandulho intestinal fumegante. As tripas seguem para a lavagem num cesto embrulhadas numa toalha de linho. As vísceras, coração, pulmões e fígado seguem para a cozinha para se prepararem as papas. A bexiga ainda presa ao piçalho do porco, é entregue à canalha que rápido a transforma em bola de futebol. Nesta posição vertical, fica a arrefecer até à hora em que será feita a desmancha. Retalhado com mestria de açougueiro, procede-se ao salgar dos presuntos, pás e orelheiras esfregando a carne e o coiro com vinha de alhos e sal grosso. O lombo vai a marinar e mais tarde haverá de encher as tripas já lavadas e dar apetitosos salpicões. Umas fêveras da barriga são retiradas e com um polvilhar de sal grosso, assam cheirosa nas brasas da ampla lareira.
Esta operação de matança garante aos que a fazem fartura por algum tempo. Nem todos os habitantes da terra têm condições para tal. A comida é pouca para eles quanto mais para sobrar lavagem para sustentar um porco. Todos trabalham e angariam por aqui e por ali as parcas remunerações do seu esforço. A maior parte da carne jaz na salgadeira que se Deus quiser a vai conservar muito tempo.
Regressa a calma ao povoado e só os cães do Sete Balas quebram o silêncio ladrando aflitos. O rio Douro belo como nunca corre no leito serenamente indiferente às primitivas e saborosas tradições dos homens.

1 comentário:

Lurdes disse...

Todos os anos este era um ritual lá em casa dos meus pais. Eu demorei muito até ver o porco a ser morto... não tinha coragem, dava-me pena... os seus gritos então,ficavam-me presos na cabeça...
Tirando essa parte, adorava as matanças! Por a família se reunir, pelo molho de fígado feito pela minha mãe, pelos ossinhos ainda frescos assados e temperados de uma forma divinal!
Bem, acabei de almoçar e parece que já estou com fome...
Beijinhos