quarta-feira, 28 de julho de 2010

Conta uma História, Avô



Anda cá Beatriz, senta-te aqui deste lado e tu Matilde, ficas à minha direita, uma em cada perna, sossegadas que este é um daqueles momentos que haveis de recordar pela vida fora. A Maria e o Afonso são ainda muito pequeninos mas podem ficar à nossa beira a ouvir sem entender a grandiosidade da herança que os espera. Escutam apenas e sorriem por que os bébes trazem com eles a graciocidade dos anjinhos, a imaculada condição de quem é puro
Hoje vou-vos contar a história do barqueiro que no seu barco azul remava, remava pelo rio abaixo todos os dias e, uma vez…
-Avô conta aquela do Cotiça, quando ele apareceu com o pau dele e começou a bater!
-Hoje não Matilde, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava pelo rio abaixo todos os dias.
-Não avô, conta aquela do gigante que bebeu a água toda do mar!
-Não Beatriz, hoje vai ser a história do barqueiro que remava, remava todos os dias pelo rio abaixo.
As duas crianças vencida, anuíram com um sim verbal e um abanar afirmativo de cabeça e, os seu olhos pequeninos, deixaram de ver e perscrutavam já o cenário maravilhoso do rio onde tudo aconteceu. Porém, com a vivacidade própria de quem procura avidamente respostas para as intensas interrogações que o mundo provoca nos seres em processo inicial de vida, uma delas interrompeu:
-O barqueiro do rio doiro avô, o que levava um pau escondido no barco para bater no Cotiça que rouba as galinhas, disse apreensiva a Matilde.
-Eu também tenho um pau escondido no meu barco, disse a Beatriz.
-Tu tens um barco?
-Tenho uma canoa pequenina e às vezes vou a remar, a remar pelo rio abaixo.
-Eu também tenho um barco muito grande avô e levo lá um pau escondido para dar umas cacetadas na Alface Pintada.
Enquanto falavam os braços pequeninos iam imitando a arte de remar o proceeso de locomoção que nunca tinham cisto e, em gestos tão ritmados e perfeitos, pareciam infantis barqueiros, seres que tinham nascido já com a faina do rio entranhada no corpo e na alma.
O homem velho deixou que as duas rapariguinhas fizessem a introdução do conto, permitiu que a imaculada imaginação delas colorisse de fantasia as narrativas com que de vez em quando lhes ocupava a mente. Após breves minutos, serenaram os anjinhos e, como se o livro grande da sua vida se abrisse em determinada página, o avô continuou:
Era uma vez um barqueiro que tinha um barco todo azul e remava pelo rio abaixo todos os dias. Era já velho, na cara enrugada, continuou passando a mão pelo próprio rosto, traziam um mapa que parecia mostrar todos os recantos maravilhosos do douro. Dizem que conhecia todas as manhas do rio, que falavam um com o outro e que gostava tanto dele que não havia dia nenhum sem que ele navegasse pelas suas águas com o seu barco azul. Então o barco aparecia vindo não se sabe de onde, parecia que o rio o levava no seu colo. A água rasgada pela proa do barquinho, fazia um murmurejar suave de ondas a bater nos rochedos das margens. Quando ele passava com o seu barco, todos os peixinhos do rio vinham a acompanhá-lo desde lá de cima de Midões até ao areal de Melres onde ele parava de remar e deixava-se ir a boiar pelo rio abaixo como se fosse uma folha de árvore caída na água.
Uma vez, levantou-se um temporal muito grande por cima de Rio Mau, as nuvens eram tão negras que o sol deixou de iluminar a terra. Fiou escuro como a noite, nada se conseguia ver à distância de uns metros e começou a chover tão forte que até os cães bebiam a água da chuva de pé. O ciclone que apareceu entretanto, fazia as árvores abanar e as pontas mais altas, balanceavam-se quase até tocar no chão.
O barco azul vinha no meio do rio que parecia uma mar embravecido com ondas do tamanho de uma casa, o barqueiro lutava desesperadamente com a fúria da tempestade e, de repente, um forte repelão de vento fez os remos caírem na água e o barco ficou completamente desgovernado. Tudo parecia perdido para o barqueiro, sem remos, nunca conseguiria chegar a terra a salvo e o mais certo seria afundar-se com o seu barco azul nas profundezas do sitio. Então do alto do céu que se abriu como por magia, saiu uma luz muito branca que iluminou o rio e a terra e, como respondendo a uma ordem divina, apareceram milhares de peixinhos que com as pequeninas cabeças, empurraram o barco azul até à margem.
O barqueiro tirou a boina preta, descobriu-se e dizem que pela primeira vez na sua vida se ajoelhou no barco a rezar.
Ainda hoje, quando estou sentado aqui a olhar para a água, continuou o avô, parece-me ver esse barco azul com um barqueiro a remar, a remar por esse rio abaixo.
Fez-se silêncio que durou o tempo que pode levar uma alma a chegar ao céu ou fazer as mentes deslumbradas destas crianças deixar de sonhar e a voltar a experimentar a realidade.
-Olha acolá para baixo para o rio avô, não vês o barco azul a passar? disse a Matilde.
-Também estou a vê-lo avô, é cor-de-rosa, proferiu a Beatriz.
O velho barqueiro olhou para rio e não havia barco nenhum a sulcar as águas mas sorriu afirmativamente por ter reconhecido mais uma vez que é sempre possível ter um barco, um rio e navegar nele quando somos capazes de reinventar o tempo feliz e inocente da nossa meninice.
Todos temos um rio a correr dentro de nós mas são muito poucos a deixa-lo sair das margens que o oprimem.


In, Conversa Com Um Rio de Manuel Araújo da Cunha











3 comentários:

Luís Coelho disse...

Bonita história contada com a simplicidade dessas meninas que ouvindo pareciam terem embarcado nesse barco perdido no rio.
Histórias com vida.

Andreia disse...

Que bom que é terem alguém que lhes conta histórias e que as faz dar asas à imaginação. Bravo...

Piko disse...

Como é bom e belo poder desbobinar o nosso rol de recordações de um rio Douro que não nos sai da cabeça!... A começar, porque não conhecemos um só rio, mas vários rios, sempre irrequietos, com pressa de lançar as águas no mar Atlântico! De acordo com a época do ano, alargava ou encolhia o volume das águas, mostrava ou escondia os belos areais e as gentes das duas margens sabiam tirar os proveitos das transformações que a mãe Natureza ali ia operando!
Quero acreditar, que esta bela miragem, ou sonho, talvez, ter-se-á dado num dos cenários que atrás descrevi, mas se não for o caso, em nada sairá diminuido, porque os sonhos nunca são comparáveis e não tomam o lugar de outros sonhos!...
Gosto da história e ainda mais porque veio reavivar em mim um rol de outras histórias, em que os participantes eram bem reais, todos jovens portugueses e de ambas as margens e que tinham a felicidade de CONVIVER e PARTILHAR o dia a dia das suas vidas! Foi uma ÉPOCA de OURO e que se perdeu, para tristeza nossa!
Parabéns ao autor!
PIKÓ