terça-feira, 2 de março de 2010

O Emigrante

Quando o táxi desfez a prolongada curva no alto de Sobrido e esbarrou de frente com o lugar de Branzelo plasmado em todo o espaço da pequena encosta, já ele distinguia o rio da sua infância e um pedaço da aldeia natal recolhida lá ao fundo nas profundezas do vale do Douro. Passara à minutos pela camioneta da carreira amarela com uma risca azul longítudinal conduzida pelo Zé Martinho e tendo como cobrador o  Juvenal que subia penosamente a íngeme rampa do Arrebentão, carregada de gente que vai deixando nos apeadeiros ao longo da estrada marginal até Sebolido a mesmo onde muitas vezes fez a demorada viagem entre Melres e a cidade do Porto.
O coração começou a bater desordenadamente e um soluço que tentou disfarçar a custo, apertou-lhe por instantes o coração e a garganta. Tantos anos ausente da terra mãe e já sentia o perfume dos sítios, o vivo apelo do chão que o reconheceu logo a entranhar-se-lhe na alma tão profundamente que julgou ir morrer ali de tanta emoção.
Vinha de longe, do Brasil nos confins das Américas, atravessou os mares a bordo de um velho cargueiro cedendo às saudades que já não conseguia suportar mais, lá na terra que o acolheu e lhe deu tudo para ser quase feliz. Muitos anos viveu na certeza de que nunca mais iria pisar o chão do país que não foi capaz de assegurar sustento a ele, aos irmãos, ao pai e à mãe, sem se aperceber que a vida cria ela própria a impossibilidade do acto que gera o esquecimento e nos deixa indefesos e incapazes de reagir quando as emoções nos assaltam e nos fazem sofrer muito.
Saudades tinha e muitas nos princípios mas só da família que aqui deixou a sobreviver com dificuldades, dizia ele, e de um punhado de amigos e companheiros da curta e pobre meninice. Quase ninguém faz ideia do sofrimento de um emigrante que deixa tudo e parte rumo à incerteza e ao desconhecido só em busca do pão. As coisas mais banais da comunidade órfã, tomam um sentido de tal valor que lhes parecem materializar-se a cada momento à frente dos olhos como fantasmas errantes a avivar memórias e a pedir-lhes que voltem. Coisas simples, pequeninas e até então ignoradas, desvalorizadas pela frequência com que eram usadas ou vividas, reaparecem todos os dias nos apelos desesperados das medonhas saudades. Se o coração falasse, se a sua voz interior que dói se ouvisse, todos se aperceberiam da imensa tragédia que o ia minando dia após dia implacavelmente e sem lhe dar tréguas.
Era à noitinha quando terminava as tarefas da vida nas padarias que foi criando no Rio de Janeiro e regressava a casa a ver o silêncio instalar-se na cidade, que sentia mais viva a dor da ausência e lhe vinha à lembrança a imagem daquela sacrificada santa que o havia dado à luz e que o aconchegara nas noites de frio quando o vento impiedoso gemia pelas frinchas da cobertura de lousa da pobre habitação em que viveu, dando-lhe um pouco de consolo. Imaginava-a solitária a passar de madrugada em Vale-dos-Travessos, a seguir pela Almeija abaixo de canastra à cabeça onde o pão de cada dia seguia aconchegado na quentura do linho e, no meio dessa visão sofrida murmurava baixinho a palavra mãe. O pão que ele não foi capaz de assegurar com fartura em casa, continuava a seguir o destino da venda da Ti Albertina em Rio Mau, tão dolorosamente como no passado. Pão amargo, dificil de conseguir pão que muitas vezes amassou a percorrer esses mesmos caminhos da noite, descalço a tiritar de frio e de fome  a chegar massa de cimento nas obras apesar da fragilidade do seu corpito de criança. Abandonou a escola com dez anos para poder contribuir com trabalho na luta da familia pela sobrevivência.
Um dia já feito um homem e farto de tamanha miséria, decidiu embarcar para o Brasil e tentar por lá a sua sorte. Levava atrás de si a freguesia inteira a rezar por ele a pedir para que Deus o protegesse numa forma solidária tão natural que chega a parecer impossível ter acontecido. O povo é generoso e fraterno quando quer e as gentes destas bandas são-no ainda mais pela natureza dos sacrifícios que passaram nessa época.
- Voltou o António! Chegou do Brasil! Vem rico, tão rico que nem o Senhor Luisínho Aranha lhe chega aos calcanhares!
Foi imediato, a notícia espalhou-se pela aldeia ainda antes dele ter chegado.
Era verdade que tinha voltado, que havia cumprido a sua sina dando assim ouvidos ao coração esmagado por súbitas saudades lá longe na terra do sucesso. Rico sim, com muito mais teres e haveres que outrora porque comeu as papas que o diabo amassou e foi lutando com tal vigor, com tal valentia pela vida fora, que até o destino que muitas vezes é cego, se rendeu à tenaz determinação deste homem. Rico, pronto a ajudar os outros a estender a mão amiga àqueles a quem a vida ignora os sonhos e lhes vai pregando partidas.
Caía a noite quando finalmente chegou a Melres. O táxi deixou-o à porta da antiga casa aquela onde viu pela primeira vez a luz do dia, quando serenavam já as lides nas hortas da Ribeira e o rio Douro manso parecia adormecido e só as ninfas brincavam na areia da praia.
Sentou-se na soleira da porta da cozinha da velha casa hesitando em entrar. Ele sabia que dentro daquelas quatro paredes de xisto que tinham sido a muralha do seu presépio, já não havia ninguém. O tempo tinha levado tudo e todos e, só estas pedras onde o musgo se agarra verde e vivo, sobreviveram até hoje. Passou o lenço nos olhos humedecidos e só um sussurro saiu da sua boca:
- Eu dava tudo para nunca ter saído daqui…





5 comentários:

Piko disse...

Li e reli a história e fiquei sem palavras!... E porque nos confronta com decisões, indecisões e sobretudo com impossibilidades...
Mais uma bela história sobre as gentes da beira-rio, deste Douro que todo o mundo adora! E eu também...

Valdemar disse...

Uma vez mais e na continuidade daquilo a que já estamos habituados é uma história que retrata fielmente a verdade de todos quantos tiveram de partir e deixarem as terras que os viram nascer ou a dar os primeiros passos e a se prepararem para a vida. Também eu um dia deixei a terra que adoro e sei como o autor que também já sofreu por estar ausente da sua, para cumprir a missão de Marinheiro. Direi eu:- Como gostava e de nunca ter deixado a terra por tempo muito prolongado.Felizmente que ele não esqueceu a suas origens.Esse é o maior tributo que lhe podemos prestar: Levá-las connosco no coração e nunca descuidar o desejo de um dia regressar.
Parabéns.

Maria Cristina Quartas disse...

Muito muito lindo.
Fala com precisão nos sentimentos e pensamentos do emigrante.
Um caminho percorrido com picos de expectativas.
A descrição está perfeita, das emoções sentidas e termina duma forma fantástica. Uma frase, um pensamento... que transmite toda a angustia e dor sentida.
Muito real e perfeitamente transmitido nestas suas belas palavras.
Um texto que prende e faz sentir cada sentido a que se refere.
Gostei muito.
Muito obrigada.

Maria Cristina Quartas

Vanessa Romanelli disse...

Ola Araujo, obrigada pela visita no menu de viagem, volte sempre!

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE:
DOUROINTIERO


ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LOVE STORY, CABALLO, LA CONQUISTA DE AMERICA CRISOL.

José
ramón...