quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Magnifica


Quando o Zeferino Lucas transpôs mais uma vez a soleira da porta da miserável habitação onde vivia para marchar até ao rio, estava longe de imaginar que aquele casebre sem qualquer conforto haveria de vir a ser o abrigo de uma santa.
As figuras veneradas, que todos consideram e bem, habitar exclusivamente num lugar inacessível, tão longínquo das coisas e vidas terrenas, excepcionalmente adquirem forma de simples mortais e, contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes em que um ser santificado apareceu encarnado neste mundo. Não porque não houvesse necessidade permanente de iluminar e amparar as almas que vagueiam num mundo sem qualquer protecção mas mais pela razão óbvia de que o lugar deles é no céu bem perto do ser Omnipotente. A Ele cabe administrar os destinos do universo, decidir o castigo ou o perdão e, só à sua Santíssima ordem poderão acontecer milagres.
Apesar de serem ainda sete horas da tarde o barqueiro deixou já deitados na cama os cinco filhos pequenos. Anoitece rapidamente e depois luz eléctrica que permitisse ficar mais algum tempo em serão, não existe nesta casa e mesmo nas outras que compõem o lugar salvo raríssimas excepções. Caminhou pelas ruas do Castelhão até à beira do Douro, foi à vida, ganhar o pão de cada dia a remar num monstro de madeira carregado de carvão antracite até Campanhã. Tripulante desses rabões negros, era como outros um escravo entregue à dureza da arte e às muitas fúrias do Douro.
Levou no coração as saudades de casa, da Palmira sua esposa que o via partir sempre com o coração nas mãos a recear o perigo que sabia, espreitava em cada curva do rio em cada madrugada de violento temporal, do Henrique, do Francisco, do Luís, da Ilda e da Isabel crianças pequenas que não compreendiam ainda as forçadas ausências do progenitor e ali ficavam naquele sombrio lugar sem pão, à espera que o seu regresso trouxesse ao menos uma côdea de broa para rilhar.
Nunca se viu semelhante miséria neste mundo, a vida aqui é um tormento, uma constante luta pela sobrevivência que nem todos conseguem garantir. Ficam-se mortos na tenra idade desconfortáveis, famintos, desnutridos e à mercê de todas as doenças do mundo. Morre-se por tudo e por nada, tudo são dificuldades mas vingar um filho é heróica tarefa que nem todos conseguem levar a bom porto.
De vez em quando o sino da capela toca a anjinho e mais uma urna branca e pequenina segue o caminho do cemitério. Lá dentro vai a vida que era flor e murchou antes do tempo. É preciso nascer-se muito forte para resistir.
A Palmira ficou a aconchegar a ninhada que dormitava toda numa cama só. Ali dentro das quatro paredes da casa de xisto faltava quase tudo mas o amor, o carinho e a ternura de uma mãe ainda não tinham acabado e mesmo subjugada pela desgraçada vida, aquela heróica mulher, desdobrava-se em cuidados a tratar dos filhos.
Era Inverno, o frio vindo das serras entrava pelas frestas da porta tangido por um vento muito forte e as mantas de aconchego daquela gente, eram retalhos de velhas velas dos barcos, pano cru tão crua como a realidade da vida.
Serenava a aldeia toda neste refúgio circundado por montanhas com o rio a ser sozinho a fábrica do pão e estalava enfim a paz na humilde casinha na Pia da Casca e um silêncio pesado caiu sobre a terra como um manto divino protector.
Bateram na porta da cozinha única na habitação e a mulher receando um assalto, espreitou pelo portelo antes de abrir com todo o cuidado. Era uma velhinha que batia, desleixada, suja, rota com os cabelos desgrenhados encharcada da cabeça aos pés e a tremer de frio que a olhava com uns olhos a reluzir na noite que eram uma súplica como a pedir-lhe; deixa-me entrar.
Era costume o Zefrino e a Palmira acolherem os pobres vagabundos que por ali passavam frequentemente; gente desalojada pela vida, pessoas vitimas das maldades de alguns e, num gesto solidário só conhecido pelos simples, acolhiam-nos e repartiam com eles o pouco que lhes fazia falta. Porém, já muitos indigentes por aqui passaram e tiveram abrigo mas uma velhinha como esta nunca tinha acontecido aparecer por estas bandas.
Ela entrou aconchegada pela anfitriã que ao reparar no seu miserável estado a lavou e vestiu com as suas próprias roupas. Depois de limpa, do caldo que tinha sobrado da ceia, (os pobres têm sempre caldo) encheu-lhe uma malga que a mendiga saboreou a sorrir. Rezaram o terço e a velhinha levantou-se da mesa da cozinha e foi espreitar pelo postigo e perguntou.
- O que é aquilo amarelo lá em baixo?
-Já vi que a senhora não é daqui perto; aquele ladrão é o rio Douro onde o meu Zeferino ganha o pão! Rouba-me a alma todos os dias e deixa-me aflita todas as noites! Anda cheio, cobre o campo da Redondela todo, é uma aflição! Quando for dia, vê-se melhor, agora a senhora vai dormir aqui, não está tempo para se andar lá fora de noite e muito menos uma pessoa da sua idade, amanhã logo se vê o que se pode arranjar!
Deitou-a na sua própria cama, aconchegou-lhe a roupa um pouco mais ao corpo e foi fechar a porta da entrada à chave como fazia sempre que o marido estava ausente. Meteu-a debaixo do travesseiro e adormeceu tranquila e feliz por mais uma vez ter ajudado um semelhante. Há povo fraterno e generoso em todo o mundo mas este da beira do Douro surpreende pelo tamanho do coração.
Na manhã seguinte, quando a claridade do dia entrou pelas frinchas do telhado, a Palmira levantou-se e foi certificar-se se a sua visita estava confortável.
A cama estava vazia, impecavelmente feita como se ninguém tivesse dormido ali mas da velhinha nem sinal. A chave continuava por baixo do travesseiro e seria impossível alguém passar pelo janelo.
A mulher estremeceu, era estranho o que estava a acontecer e muito mais estupefacta ficou quando vindo da cama da mendiga lhe chegou ao nariz um cheiro a rosa que se espalhou por toda a casa.
Nunca se ouviu falar de semelhante criatura e por mais que indagasse no lugar, ninguém disse ter visto pessoa que correspondesse à discrição da Palmira e nestes tempos de Inverno em Rio Mau quase ninguém passa.
O Zeferino regressou a casa no dia seguinte; vinha assustado, a viajem, tinha sido um suplício num rio turbulento e em Crestuma o barco adornou e esteve à beira de naufragar levando os barqueiros para as profundezas das águas.
- Estivemos perdidos Palmira, vimos a morte à frente dos olhos, só rezamos a Nossa Senhora, até o Bico aquele herege, se ajoelhou aflito!
Ela olhou o marido comovida sem dizer palavra a julgar coitadinha, que a Virgem Maria era aquela velhinha a quem dera guarida na noite anterior e o tinha salvo de uma morte certa.

2 comentários:

Piko disse...

Pois é, mais uma bela história do rio Douro, de Rio Mau, dos barqueiros e dos rabões do carvão, num tempo de muitas dificuldades para quem tinha de dar de comer e agasalho a um número de filhos, que nunca se sabia onde iria parar!...
Depois o papel e as canseiras das mulheres e também o desassossego, sempre à espera duma má notícia, que poderia chegar no dia a seguir à tragédia, lá para as bandas da Bargiela... Tempos muito difíceis!
Mas os "MILAGRES" iam acontecendo, porque o querer tinha muita força!
Por falar em barqueiros, ainda me recordo do velho "ALBERTO MOTA" que morava mesmo ao lado das escadas da Capela e que era um fumador inveterado e inseparável da sua bengala, isto nos anos de 1948, 1949 e 1950!...
FOI MUITO BOM RECORDAR RIO MAU DE OUTROS TEMPOS!
pikó

Valdemar disse...

Mais um belo conto, onde se constata muitas realidades.
Quando o Caudal do Rio subia muito acontecia do que aqui é descrito.
O BICO :- Um homem que viveu sempre em pobreza extrema, com um final de vida penalizador.
De algumas das suas histórias apostar a comer um quilo de arroz com bacalhau e dois barqueiros a meter-lho na boca, quando viram a aposta perdida, um deles meteu-lhe uma espinha e engasgou-o, mas o bom do Bico que era meu Tio ganhou a aposta.
Uma outra trazendo o Rabão do Anastácio das Fontaínhas enquanto os outros aproveitaram a dormir até ao Porto, era ocasião de pesca e os Barqueiros também eram Pescadores e passavam noitese noites noites em claro.
O bom do Bico cozinhou o Caldo com os bocados de carne de Porco, como todos continuaavam a dormir, foi comendo, comendo, ao ponto de ter comido o caldo dos quatro.
Uma panela de de Ferro de três pernas que daria umas boas seis sete malgas das grandes de caldo.
Vida de Barqueiros.
Parabéns por mais este excelente trabalho.
Os amigos do Rio Douro não o esquecem, nem a memória permitem que as histórias se apaguem.
Estejam onde estiver seguramente se fosse +possivel sentir-se-íam felicissimos e reconhecidos pelo belo trablho e homenagem que lhe tens prestado.
Pelos meus antepassados e inúmeros Barqueiros que convivi.
Resta-me agradecer-te e pedir-te mais e mais.