terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Coirão

Pedorido aparece ao virar da última curva negro de aspecto como negra é a terra que os homens vão pisar ali. A lava seca da ulha já há muito que tomou conta de tudo. A aldeia ficou feia, perdeu a graça e a beleza de terra de lovoura e de pescadores. Por baixo do pó negro que a enluta, não há nada só tocas de toupeiras humanas que lhe luram o chão até aos infinitos.
O Coirão, rapaz alto e escanzelado, descalço à dezasseis anos, envergando umas calças que desmedidas não ultrapassam o meio das pernas, fuma desesperadamente uma barôna de cigarro atirada fora por um dos mineiros, enquanto que com o pé direito, coça a canela da perna do pé esquerdo, olha atónito o cortejo que vê passar nas Côncas. Ausente de tudo, vivendo num mundo ainda mais irreal e fantástico e totalmente inacessível aos outros seres vivos, em regulares devaneios de objectiva lucidez, tinge as doiradas águas do douro de um vermelho vivo de sangue.
Quando a lua se agiganta no céu ou nos dias de vendavais em que os ventos sopram desesperados sobre a água do rio, o louco altera a sua habitual conduta pacífica, enfurece-se e inicia o resumido discurso que melhor descreve a parte mais sombria do lugar. O Coirão conserva arquivadas na doença do cérebro as magoas acumuladas ao longo da vida e, quando há uns anos se apercebeu que agigantado pela cheia o rio lhe cobria a barraca de dois metros quadrados onde ele e a mãe vivem, constitui-o no seu principal e talvez único inimigo:
-Rio é sangue, diz grosseiramente o Coirão que mal sabe falar. O pescoço desprende-se dos ombros oscilante e a cara toma uma forma grotesca e dolorida quando tenta pronunciar as palavras. No tremendo esforço para comunicar, a boca adquire formas medonhas e expele babas enquanto a cabeça se balanceia de lado para lado insegura e nervosa. O Coirão nunca conheceu o pai, sabe-se lá quem será. Tanto pode ser um mineiro como um doutor como um padre. Aquilo que ele conhece perfeitamente é a fome, o frio e muitos outros sofrimentos que o tornaram demente. Também reconhece pessoas importantes que com nojo o sacodem para longe como a um cão com lepra e lhe chamam tolinho. Nenhum deles lhe estende a mão caridosa, o abraça ou lhe calça os pés nus.
- Ele gosta de andar descalço, dizem.
Como se fosse justo e verdadeiro, como se houvesse alguém neste mundo tão insensível ao frio ao ponto de dispensar tal aconchego, nem um louco senhores, nem um louco.
Rio é sangue Coirão. Nunca ninguém conseguiu retratar como o Coirão o rigor absoluto da verdade. Porque não consegue encontrar as palavras exactas para definir a dor da sua mãe perante a calamidade causada pela descomunal cheia, mas sabe que o sangue brota sempre doloroso, encontra nessa frase atabalhoada o sinónimo que a sua voz jamais pronunciaria correcta e claramente. Rio é sangue! É sangue de facto por isso e também por outros motivos que te passam bem longe dos recantos até onde abrange a tua compreensão e que por isso desconheces. Sangue dos barqueiros do douro e dos marinheiros dos Rabões da Esquadra Negra. Em cada escarpa das margens há vincos gravados a encarnado a perpetuar a história desses desgraçados e os gomos da água do rio falam constantemente desse imenso sofrimento.
Os mundos do Coirão são outros, bem mais complicados, muito mais negros. O louco sente e sofre no interior da sua insanidade ao ver com espanto as caras e as mãos dos homens, tracejadas com feridas cicatrizadas com mijo e pó de carvão, marcas irreversíveis companheiras até á morte, até à cova onde a terra gorda, apagará para sempre essas sinistras tatuagens. Adivinha-lhes o resto do corpo que, todo coberto pelas esfarrapadas roupas não é visível, também marcado, desenhado a negro como se um pintor louco tecesse essa estranha tela.
Todos passam por ele neste amanhecer tranquilo. Qualquer dos mineiros o conhece e respeita a sua loucura. Olham-no como quem olha uma flor que murchou, com pena e com raiva. O louco assiste impassível a estas marchas sinistras todos os dias e olha-os um a um com uns olhos parados a perscrutar um horizonte tão infinito como a sua loucura. A barôna queima-lhe já os lábios e indiferente à dor que lhe provoca aquele pedaço de cigarro, só se lhe nota no rosto um esgar estranho que chega a assustar os mais pequenos.
O choupal ensombra este bocado de terra porque o sol se escondeu na Póvoa. O rio Douro segue o seu destino tranquilo brincando com as pedrinhas do galheiro e, o Coirão sozinho, deita-se na areia da praia e dorme tranquilamente o sono dos simples.

7 comentários:

Valdemar disse...

Quanto mais lêmos o texto mais a Pedorido nos ligamos.
É maravilhoso para quem lá trabalhou reencontrar neste escrito a vivência de uma realidade que leva cerca de cinquenta anos.
Parabéns e muita força

Piko disse...

Este conto leva-nos de volta a um tempo que parece distante, mas que é até bem recente, porque os anos CINQ.,SES. e SETENTA estão bem vivos no BAÚ de memórias que transportamos e que ajudaram à nossa formação humana!
O autor tem toda a razão quando afirma que o COIRÃO nunca soube quem era o seu pai, como creio que não soube nunca quem era a sua família... Vivia no seu próprio mundo, sem identificação e sem comunicação com quem quer que fosse; vagueava pelos mesmos caminhos como se obedecesse a uma qualquer orientação desconhecida e ficamos todos sem saber, creio, se os seus olhos viam as cores dos rios e da natureza, como os demais seres humanos!...
Belo texto e mais uma vez o M. ARAÚJO merece o nosso incentivo!

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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The relative difficulties of men's and women's fashion

Both women and men could have the pressures of keeping their wardrobe up-to-date and in season, yet men's style frequently feels a lot less difficult. Of program, for both sexes, outfits and fashion options can be equally as complicated, and there are many'stylish'things that can rapidly become fashion faux pas - who can say they frequently see people travelling in 70s flares? On the other hand, men's style features a few choice things that can exist eternally - which man is planning to keep an eye out of position with a good-quality, tailored suit, for example? Select classic pieces, colours and fabrics and you'll never seem out-of-place.

Why classic men's fashion is timeless

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Contemporary movements in traditional men's fashion

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In summary, though certain facets of classic men's fashion may be cut back as new styles, the simple clothes which they are derived from will never slip out of fashion.

"All it will take are a few simple garments. And there is one secret - the simpler the better." - Cary Grant

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